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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A vida e a obra do sagrado filho de Januário e Santana em cordel de Arievaldo Viana

Por: Romero Cardoso

Luiz Gonzaga do Nascimento foi a maior expressão sonora da autêntica cultura popular nordestina, tendo legado um verdadeiro relicário musical acerca das tradições, costumes, cotidianos e outras coisas mais referentes a uma região seca cujos desafios fizeram do seu povo uma fortaleza espetacular e admirável.

Nascido a 13 de dezembro de 1912, no pé da serra do Araripe, divisa dos estados do Ceará e Pernambuco, o velho “lua”, apelido carinhoso que ganhou de Mário Lago quando de sua aceitação para labutar na saudosa Rádio Nacional, se tornou uma legenda insubstituível como resposta ao que efetivamente faz ser nordestino.


Ainda “molecote”, como ele gostava de dizer, Luiz Gonzaga teve um desentendimento com importante homem de sua terra, resultando em uma surra incomensurável de Santana, aprovada por Januário, levando-o a abandonar o seu pé de serra em direção a outras plagas.

Engajado no Exército Brasileiro, Gonzaga teve participação tímida, como corneteiro, quando da revolução desencadeada em outubro de 1930. Rumo à cidade maravilhosa, passou a tocar na zona do mangue, a fim de buscar a sobreviv6encia na então capital federal.

Desafiado por um grupo de estudantes cearenses, Luiz Gonzaga voltou a fazer o que gostava, recordando-se das quebradas do sertão. Surgia assim um dos maiores ícones da música popular nordestina, responsável pela “descoberta” por parte do restante do país, bem como pelo exterior, dos valores de um povo, da riqueza da cultura popular nordestina, denunciando o desprezo em que ainda vivem milhares de pessoas espalhadas pelos rincões adustos da terra do sol.

Luiz Gonzaga teve dois parceiros que se rivalizaram no intuito de eternizarem verdadeiras pérolas que hoje compõem o cancioneiro nordestino. Chamavam-se Humberto Teixeira, cearense de Iguatú, e José Dantas filho, pernambucano de Carnaíba de Flores.


O ostracismo e um certo repúdio permeavam os diversos olhares nacionais com relação à cultura nordestina, sendo Luiz Gonzaga o mais importante agente responsável pela ênfase a um processo de aceitação do que o nordeste produziu em trezentos anos de contínua fixação, desde quando os rastros das boiadas ocuparam os sertões mais distantes, fomentando uma identidade própria que foi gradativamente se aprimorando, sendo influenciada ao longo dos séculos por matizes de diversas vertentes culturais.

Gonzaga foi a representação da alma do sertão, a essência máxima de um povo e de uma cultura extraordinariamente rica. O velho “Lua” trouxe para a música a simplicidade e o bucolismo de um sertão que marcou a infância e a juventude do eterno cantador que nunca esqueceu sua terra, o chão sagrado do semi-árido.

Em excelente folheto publicado em terceira edição pela Editora Queima-Bucha, por título Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, o qual traz xilogravura de autoria do poeta popular João Pedro do Juazeiro, o poeta popular cearense Arievaldo Viana Lima traça um perfil ímpar do grande e eterno mestre da sanfona, cuja influência foi decisiva para que grandes e apoteóticos momentos da MPB e da cultura regional fossem concretizados.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

Enviado para este blog pelo autor: Romero Cardoso

CRACK, A DROGA QUE NÃO FORMA CRAQUES

Por: Archimedes Marques


Estamos em aguda e profunda crise urbana e social relacionada ao crack, essa droga avassaladora, aniquiladora e mortal que vem fazendo vítimas e mais vítimas diariamente
em todo canto do nosso País. O crack trás a morte em vida do seu usuário, arruína a vida dos seus familiares, aumenta a criminalidade onde se instala, degrada e mata mais do que todas as outras drogas juntas.
De poder sobrenatural o crack pode viciar o usuário já na sua primeira ou segunda experiência e o que vem depois é a tragédia certa. Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. Relatos dos seus usuários e familiares, fatos policias diários e opiniões de especialistas sobre os efeitos e as conseqüências nefastas da droga podem ser resumidos em três palavras tão básicas quanto contundentes: sofrimento, degradação e morte.
A composição química do crack é simplesmente horripilante e estarrecedora. A partir da pasta base das folhas da coca acrescentam-se outros produtos altamente nocivos a qualquer ser vivo, tais como: ácido sulfúrico, querosene ou solvente e a cal virgem, que ao serem processados e misturados se transformam numa pasta endurecida homogênea de cor branco caramelizada onde se concentra mais ou menos 50% de cocaína, ou seja, meio à meio cocaína com os outros produtos altamente nocivos citados. A droga é fumada pura, misturada num cigarro comum ou num cigarro de maconha que recebe a denominação de “bazuca”.
A fumaça altamente tóxica do crack é rapidamente absorvida pela mucosa pulmonar excitando o sistema nervoso, causando inicialmente euforia e aumento de energia ao usuário, com isso advém, a diminuição do sono e do apetite com a conseqüente perda de peso bastante rápida e expressiva.
Logo os efeitos nefastos biológicos aparecem para os seus usuários, tais como: aceleração ou diminuição do ritmo cardíaco, dilação da pupila, elevação ou diminuição da pressão sanguínea, calafrios, náuseas, vômitos, convulsão, parada respiratória, coma ou parada cardíaca, infarto, doença hepática e pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC).
Além disso, para os fracos e debilitados usuários sobreviventes, ao longo do uso da droga, há perda dos seus dentes, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição química do produto assim trata de furar, corroer e destruir a sua dentição. O crack também causa a destruição dos neurônios e provoca a degeneração dos músculos do corpo do seu usuário, fenômeno esse conhecido na medicina como rabdomiólise, o que dá aquela aparência esquelética ao indivíduo com ossos da face salientes, pernas e braços finos e costelas aparentes.
O crack é tão perigoso que até o próprio traficante que tem consciência desse perigo, de tal droga não faz uso. Dificilmente e raramente um traficante usa o crack o que não ocorre com os outros tipos de drogas em que muitos deles também as utilizam em consumo próprio.
A disseminação do crack é constante e diariamente prende os menos avisados assim como uma teia de aranha para as suas presas, transformando as suas vítimas em verdadeiros mortos-vivos a perambular pelo submundo da sociedade.
Pesquisando junto às opiniões dos médicos e especialistas em tratamento dos drogados conclui-se que realmente estamos perante uma epidemia, porque há um número explosivo de casos nos últimos três anos. Antes era uma raridade, havia nas unidades hospitalares
especializadas 90% de outras dependências e 10% de crack. Hoje há o contrário. É unânime o conceito dos especialistas em afirmarem categoricamente que o crack é uma droga diferente das outras, muito mais severa e contundente.
Não há outra droga que produza um declínio físico e mental maior para o viciado quanto o crack.
Segundo estudos realizados por especialistas na área, as dificuldades para o tratamento dos viciados em crack também são imensas, por isso, a grande preocupação das autoridades ligadas ao tema da intensa problemática. É preciso de extrema força de vontade do próprio viciado para poder se livrar desse malefício infernal.
A conscientização e o investimento em massa na área da educação, na prevenção, com aulas, palestras, seminários e um convívio mais profundo e dialogado no seio da sociedade especialmente entre pais e filhos, poderá livrarnos dessa epidemia. Não podemos achar que a polícia ou a medicina resolverão os problemas, que, muitas vezes, se iniciam nos lares, escolas e outros lugares de convivência, principalmente dos jovens, mais expostos, por vários motivos, à atração do mundo das drogas. No País do futebol precisamos sempre formar mais e mais competentes e excelentes atletas craques da bola, do esporte e não incompetentes e debilitados cracks desta droga satânica.

Dr. Archimedes Marques (delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS - Universidade Federal de Sergipe).
Enviado para este blog pelo autor: Dr. Archimedes Marques

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Paulo Gastão - Parte III

Link da Parte II:
2011/10/prazer-em-conhecer-lampiao-aceso_31.html

Um(a) cangaceiro (a)?

Vou preferir Sila para poder ter a oportunidade de fazer um pequeno, porém, importante relato. Sempre desconfiei que seu nome não era Hilda Ribeiro de Souza.


Cheguei a dizer diretamente a ela – criatura, Hilda não é nome mulher que nasce nos brejos, nos sertões. Este nome é para as nascidas nas cidades. Combinando com o mestre Alcino Costa fomos desvendar o nome da cangaceira nascida no Poço Redondo. Após várias tentativas chegamos ao seu verdadeiro nome: Hermecilia Brás São Mateus. A terminação “cilia” nos leva a crer que ficou fácil ser a mesma identificada como Cila, que ela deixou em livro seu, escrito de próprio punho, como Sila. Grande figura humana e que terminou sendo a repórter responsável pelos fatos ocorridos no seu pouco tempo de cangaço. Mulher vitoriosa que conseguiu sobrepujar todas as adversidades. Figura impar no mundo cangaceiro.

Um volante?

Vários foram os volantes que conheci durante minhas viagens de pesquisa. Minha escolha recai na pessoa de João Gomes de Lira. Amizade que já nasceu em Carnaíba de Flores, quando distrito de Flores, uma das cidades mais antigas no Nordeste. Na companhia de Manoel Gastão Cardoso, meu pai, tive a felicidade de conhecer a figura simples e humana de João Gomes de Lira. Meu pai de nós se despediu e ficamos amigos até os dias atuais. A continuidade tem o elo de ligação construído pelos dois amigos de outrora. Na última visita que fiz em 22 de março de 2011 o mesmo estava gozando de boa saúde e com a mesma disposição em nos contar os momentos vividos no cangaço à caça de Lampião. Como bom Nazareno se manteve integro na sua posição de homem de bem, de boa índole e cumpridor dos seus deveres. Foram 60 anos de boa convivência e que cessou com sua morte. Nesta amizade fui recordista sem concorrente. Já tomava conhecimento das ocorrências cangaceiras nos idos de 1950.

Amigo é coisa pra se guardar... Foto Kiko Monteiro

Um coadjuvante?

Com o passar do tempo torna-se nome referencial José Leite de Santana – Jararaca. Cangaceiro que pouco tempo atuou nas veredas nordestinas, porém, deixou seu nome escrito a sangue a fogo em terras potiguares. De cangaceiro virou santo milagroso ou milagreiro.

Santo?

Tem sido estudado sob diversas ópticas, tais como: monografias, mestrados e doutorados. Mencionado em filmes e vídeos; peças de teatro; folhetos de cordel; na pintura e no artesanato. É um coadjuvante que classifico como o personagem mais importante que esteve em Mossoró no dia 13 de junho de 1927 e ainda hoje tem lugar de destaque, acima de tudo e de todos. Estou a estudar o personagem desde seu nascimento até os dias atuais. 


Uma personagem secundária?

Conheci um cidadão que fazia um relato e após anos até nas vírgulas, não mudava seu relato original. Viveu sua meninice com Virgolino e seus irmãos, caçando rolinhas, preás, mocós e habitando o mesmo chão de Vila Bela. Chamava-se Luiz de Cazuza. A ele só faltou uma coisa – ter enveredado pelo cangaço, pois, seus relatos sempre foram fiéis aos acontecimentos. Com o amigo Aderbal Nogueira fizemos várias visitas a sua casa na Fazenda São Miguel e numa das vezes fomos ofertados com uma entrevista, gravada em vídeo, com duração de 2 horas e 30 minutos.
Somente em duas outras oportunidades conseguimos depoimentos tão longos e importantes: uma vez com o Sr. Chiquinho Rodrigues em Piranhas, estado de Alagoas e a outra com o Sr. Durval Rosas (irmão de Pedro de Cândido) na cidade de Poço Redondo, estado de Sergipe. Luiz de Cazuza legou informe a todos que o procuram durante seus 100 anos de existência. Uma personagem de alto valor histórico. É de bom alvitre se pensar na sua biografia, pois, o capítulo relativo ao cangaço trará fatalmente novos conceitos sobre cangaceiros e volantes.


CONTINUA...

Caraibeiras Douradas: Espetáculo Pauloafonsino.

Por: João de Sousa Lima
 [Imagem+218.jpg]

VALE A PENA REVÊ-LA

As caraibeiras continuam dando seu show dourado, dourando as ruas de Paulo Afonso.


As ruas ganham cor e beleza, os turistas encantados passam horas e horas filmando e fotografando, colhendo as imagens amarelas que apacentam as dores da alma.
 
 
Extraído do blog do escritor e pesquisador do cangaço, João de Sousa Lima
 
 


A importância do Cordel na Sala de Aula

Por: José Romero Araújo Cardoso



Veículo de fabuloso fomento à identidade regional, o cordel tem nas camadas populares seus mais constantes e fiéis consumidores, sendo através dos tempos valorizado e cultuado como a verdadeira e autêntica literatura nordestina, o livro de bolso do povo da região.

Há ênfase a diversos clássicos da Literatura de Cordel, os quais são estudados com seriedade em importantes academias espalhadas mundo a fora, não obstante ser recente o estudo desse gênero em Universidade Brasileiras.

Entre esses, destacam-se as produções de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, José Camelo de Melo, José Pacheco, João Ferreira de Lima, entre outros, inspiradores do Movimento Armorial, criado pela genialidade ímpar de Ariano Suassuna.

A importância de estudar o cordel em sala de aula está sendo enfatizado em projeto ousado e inovador, por título Acorda Cordel, coordenado pelo poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário cearense Arievaldo Viana, nascido aos 18 de setembro de 1967, nos sertões adustos de Quixeramobim, terra que também viu nascer o beato Antônio Conselheiro.

Intitulado Acorda Cordel na Sala de Aula, folheto de número 70 da Coleção Queima-Bucha, publicado em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, em janeiro de 2006, esse cordel traz ilustração de capa do próprio autor.

Vale ressaltar que Arievaldo Viana foi eleito no ano de 2000, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira de número 40, cujo patrono é o poeta popular João Melchíades Ferreira.

Arievaldo Viana desenvolve sua verve extraordinária alertando sobre a necessidade de primar por normas ortográficas e gramaticais corretas, tendo em vista que o cordel, quando usado para a alfabetização, principalmente de jovens e adultos, deve respeitar a linguagem corrente, sem erros grosseiros que atrapalhem os objetivos propostos em seu projeto de fomento ao processo ensino-aprendizagem.

O autor sintetiza a influência do cordel em sua vida, desde a infância, quando se verificou o contato do mesmo com grandes nomes da literatura regional, cujas histórias eram lidos pela avó com o frenético entusiasmo de quem se rende aos encantos das bravuras e feitos épicos narrados primorosamente em folhetos de diversos mestres do passado.

Arievaldo Viana confessa, sem titubear, que os versos geniais decorados de diversos cordéis, tiveram influência mais incisiva que os livros nos quais estudou. O cordel tinha decisiva importância na formação do povo nordestino em razão que o advento do rádio e da televisão era pouco enfático. A mídia ainda não havia contaminado efetivamente o imaginário do povo nordestino.

A fim de que recuperemos nossa identidade vilipendiada pelos rumos da globalização, o autor frisa a importância de que cada biblioteca estruture sua cordelteca como fonte de saber.

Aviso singular quanto à utilidade do cordel, está contido na necessidade da observância da métrica, rima e oração que cada folheto deve conter, visto que, na brilhante advertência do autor, deve existir seqüência lógica para que o estudo seja contemplado de êxitos.

A influência da avó é destacada intensamente no folheto, como forma de exaltar a importância do cordel na sala de aula, pois conforme o autor, esta teria sido sua mais completa fonte de inspiração para que se desabrochasse o amor pelo gênero mais identificador da verdadeira cultura nordestina.


José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

Enviado para este blog pelo professor José Romero Araújo Cardoso

QUEM PESQUISA NA INTERNET, COM CERTEZA ACHA!

Por: José Mendes Pereira

Quem pesquisa na Internet, com certeza acha, e ver coisas que muitas vezes nem imaginava que ali estava o que não procurava.


 O fundador da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, o Dr. Paulo Medeiros Gastão enviou-me um link dos mais interessantes, o comércio quase todo em uma única página na Internet.

À proporção que você vai clicando no sinal +, mais novidades vão aparecendo no seu computador.

Clique aqui!


Não deixe de ver o que há de melhor no site acima.

Citações sobre João Bezerra Parte II

Por: Paulo Britto
Tenente João Bezerra

Ainda em decorrência ao artigo "Polêmica de Angico" publicado neste mesmo blog, gostaria de fazer constar mais algumas citações sobre o Tenente João Bezerra...

Antônio Jacó

Colocações de Antônio Jacó no livro “Assim morreu Lampião” de autoria do escritor e pesquisador Antônio Amaury Correa de Araújo, página 117, Edição 1982.
-João Bezerra armou uma rede, botou os bornaes pendurados num galho e disse assim:
- Mané Véio, deita aqui dibaxo da minha rede:
Eu respondi:
- Ôce tá pensando qui eu sô muié? Prá seiscentos diabos!
Mas deitei no chão, qui eu obedecia eli. ...

Quando estive com Antônio Jacó na cidade de Pires do Rio em Goiás, ele bastante emocionado, sem acreditar que estaria ao lado do filho de Ten. João Bezerra, em longa entrevista me disse:

- O seu pai, eu considerava como meu pai.

Sargento Elias Marques e Paulo Britto

Elias Marques

Em conversa com Elias Marques, soldado da volante do meu pai, que residia em Olho D`Água do Casado, onde lá estive por diversas vezes, perguntei a ele:
– Elias e essas conversas que meu pai se encontrava com Lampião, etc?
Ele respondeu:
– Paulo você vai acreditar nisso, seu pai não se afastava pra lugar nenhum que não levasse um de nós e nós nunca vimos falar nisso.
O Tenente não era de brincadeira”...

Estas colocações são para demonstrar a confiança e o respeito de Antônio Jacó e demais soldados pelo então Tenente João Bezerra, demonstrando que pessoas como estas jamais se insubordinariam ao seu comando, a consideração e a confiança do comandante por eles.

Ferreira de Melo

O coronel Francisco Ferreira de Melo no livro do Dr. Estácio de Lima “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, páginas 285, 286 e 287:
-Lastimamos a perda de meu excelente soldado ADRIÃO ou ADRIANO PEDRO DE SOUZA. Também foi baleado o nosso digno Comandante e mais um praça que teve o braço partido.
-De qualquer forma, LAMPIÃO foi liquidado pela tropa sob o comando geral de BEZERRA.
- As precauções e as providências. BEZERRA nunca se mostrava egoísta, ou vaidoso. Gostava de ouvir a opinião dos comandados.

Coronel Manoel Neto, à esquerda, em foto da década 70

Manoel Neto

Comentário de Manoel Neto em um Jornal do Nordeste:
O capitão Manoel Netto reconstitue, para esta folha, a luta em que se empenhou durante 12 anos.
O capitão Manoel Netto, pertencente à Brigada Militar do Estado, tem a sua carreira ligada ao combate sistemático e constante ao cangaceirismo no nordeste. Por fim, o capitão Manoel Neto allude a antigos companheiros de jornada, destacando os nomes do Tenente Coronel Hygino, do Tenente Arlindo Rocha, Luiz Mariano, Capitão Optato Gueiros, Major José de Alencar, concluindo refere-se ao Tenente João Bezerra dizendo:
- O Tenente João Bezerra a quem conheço pessoalmente, é um official disposto, disciplinado e muito bem quisto no seio da Polícia alagoana e dos Estados vizinhos.
Coronel José Rufino

Carta do Cel José Rufino; Jeremoabo, 1 de abril de 1964

Amigo Cel João Bezerra,
... Aqui fica o teu velho amigo que muito te estima.
Olha João, eu ainda hoje sonho com aqueles tempos daqueles em que nós vivíamos naquela mardita campanha.

Manoel Flor

Carta de Coronel Manoel de Souza Ferraz (Manoel Flor)

João Bezerra, Recebi sua carta, ontem, 19 de agosto de 1961, quando me preparava para um ligueiro passeio pela cidade. Seria faltar a primorosa verdade se lhe afirmasse ter sido um momento de alegria ao recebê-la. Foi meu caro amigo muito mais do que uma satisfação passageira. Ela veio me transportar a terreno mais profundo, o qual ficou no passado, mas de meandro crateroso, contemplado por mim com tantas emoções.
Emoção pelo desaparecimento de velhos companheiros, cujas cinzas veneramos com admiração e respeito, pela bravura e respeito; Emoção pelo verdadeiro espírito fraternal que sempre existiu entre as tropas pernambucanas e alagoanas. A confiança fazia com que considerássemos Pernambuco, um pedaço de Alagoas e Alagoas, um pedaço de Pernambuco; Emoção dos dias cruentos que enfrentamos, apesar da dureza da campanha, ocasionada pela fadiga, apreensão e responsabilidade, os nossos encontros efetivados na maior cordialidade, ou melhor festivos. ...

Do amigo e companheiro
Manoel de Souza Ferraz (Manoel Flor)

Floresta, 20/9/1961


Frederico Pernambucano de Melo

Colocações feitas pelo escritor e pesquisador Frederico Pernambucano de Melo, na introdução do Livro “Como Dei Cabo de Lampião” de autoria do Capitão João Bezerra, página 38, 3ª edição.

... as curtas memórias do coronel Bezerra nos revelam um homem eleito pela fatalidade de um destino de aventuras permanente, pondo-lhe a vida a cada passo um obstáculo para saltar e lhe proporcionando a aventura capaz de fazer lamber os beiços a um jovem do Pajeú da época, de poder provar, em pelejas sucessivas, aos seus próprios olhos e aos de terceiros que se tratava de “cabra disposto”. Metido no interminável steeple–chase que culminaria com a destruição do “Rei do Cangaço”, Bezerra há de ter-se considerado um homem de sorte, sob esse aspecto. Pois olhe que até uma onça cruzaria seu caminho para lhe dar oportunidade de tirar uma das mais invejadas cartas de valente: a de matador de onça. ...
Outro comentário do escritor e pesquisador Frederico Pernambucano de Melo, no Livro “Como Dei Cabo de Lampião” de autoria do Capitão João Bezerra, página 55 e 56, 3ª edição:
... Fico à vontade, portanto, para reconhecer em Bezerra o homem que não tremeu no momento em que o destino o aceitou como seu agente e ponta de lança, dando-lhe a chance de virar uma das páginas mais expressivas da história do Nordeste rural. ...

... No cenário de Angico, Bezerra não foi outra coisa. Sujeito e objeto da história, soube fazer-se templo da síntese magnífica. Como um Ahab original, mil vezes afortunado, cuidou em atropelar tudo o que se levantou entre ele e o cangaceiro. E ao lhe tomar no último instante a porta, quem sabe não o terá desenganado de um possível brilho derradeiro das estrelas de seu chapéu, sentenciando como o capitão da perna de marfim:

Louco! Sou o lugar-tenente do destino. Apenas cumpro ordens ...

Billy Jaynes Chandler

Repúdio ao Professor Billy Jaynes Chandler, no Livro da escritora Marilourdes Ferraz “O Canto do Acauã”, 3ª Edição – 2011, página 476:

- Pág. 252: “Estas histórias são repetidas pelos pernambucanos, principalmente por aqueles que, como os da família Flor e outros nazarenos, se sentem ludibriados porque, segundo eles, Lampião foi morto por um oficial de Alagoas, corrupto e covarde, indigno de tal honra. Esta honra, de direito, deveria ter sido deles. Bezerra infame, como era, só pode ter...“ Estas referências aéticas lançadas contra o Coronel João Bezerra não podem ser atribuídas a quem não as deu, no caso os Flor de Nazaré que nem ao menos foram entrevistados pelo professor. E, além de tudo, não concordam com esse tratamento contra o colega de outro Estado.

(Marilourdes Ferraz é filha do Coronel Manoel de Souza Ferraz – Manoel Flor).

Belarmino Neto

Carta do Major da Polícia Pernambucana, Belarmino de Souza Neto, dirigida à escritora Marilourdes Ferraz e publicada em seu livro “O Canto do Acauã” – 3ª Edição – 2011, páginas 486 e 487. Há anos li uma obra de Rodrigues de Carvalho, sobre Lampião tratando do tema, aquele autor não tem dúvida: Afirma que a morte foi mesmo por veneno, obscurecendo o trabalho de João Bezerra a quem não poupa ofensas e cobre de ridículo.
Lendo aquela obra, comentei à margem: “Lampião foi um bandido, sem nobreza, sem ética, sem piedade. Seria um injustificável exagero que se fosse exigir, para a sua destruição, o emprego de princípios, de lealdade cavalheiresca que ele nunca usara para com suas vítimas. Teria sido ele envenenado? Para mim o assunto é irrelevante e não conduz a nada. O Coronel João Bezerra continuará a ser o homem que livrou o nordeste brasileiro daquela praga de vândalos. Que o tenha feito a bala, pelo arsênico, pela surpresa ou através de qualquer artifício, isso não vem ao caso, negar seu mérito pelo extermínio de Lampião, é como negar a Colombo o mérito pelo descobrimento da América. E no entanto, depois de vinte anos de escaramuças através do nordeste, entre o bandido e as forças policiais de 7 Estados, foi o Coronel João Bezerra o único que conseguiu quebrar a calota do ovo e colocá-lo de pé sobre a mesa. ...


Antonio Amaury Correa de Araujo

Correspondência enviada a mim em 06.07.2002 pelo escritor e pesquisador Antônio Amaury Correa de Araújo:... Não é novidade para os pesquisadores que seu pai foi amplamente injuriado, invejado e que teve sua imagem denegrida por comentários oriundos de mentes tacanhas pelo fato de haver sido o comandante que eliminou Lampião e parte do seu bando cangaceiro, ... Isso causou-lhes profundo ressentimento e usaram então dos mais baixos argumentos para achincalhar o episódio da Fazenda Angico.
... Pelo que pude observar nesses 53 anos de pesquisas e com seis mil entrevistas realizadas qualquer pessoa, em qualquer época usando de qualquer método para eliminar Lampião, ... ... seria questionado e destratado e sua atuação estaria sempre em dúvida na visão daqueles que não conseguiram o mesmo desideratum. A imaginação humana não tem limites e até mesmo episódios claros como cristal são colocados sob suspeita.... Para terminar, a polêmica não tem fim. É traição, veneno, tiro e Lampião ainda vivo até a década de 1990. Viva a fantasia, a ficção, a criatividade de alguns pesquisadores menos cuidadosos e pouco honestos para com a história...

PS. Faça o uso que quiser destas, pois é a expressão do meu pensamento e da verdade que obtive de cangaceiros, soldados, coiteiros e outras pessoas envolvidas no episódio de Angico.

Gazeta de Alagoas

 06.12.1970 – 1º Caderno, página 3.

Matador de Lampião sepultado em Maceió com honras militares...O Coronel (de Exército) Carlos Eugênio Pires de Azevedo, comandante da Polícia Militar conheceu pessoalmente o Coronel Bezerra há 02 anos em Garanhuns. Lamentou a sua morte. Como última homenagem a corporação da qual é comandante, satisfazia o pedido de João Bezerra de ser sepultado em solo alagoano.

Pelos bons serviços prestados à Polícia Militar de Alagoas e a todo o nordeste, não há tributo que pague ao Coronel Bezerra, pelo que ele realizou, disse o comandante da Polícia Militar de Alagoas. ... “O Coronel Bezerra era um militar cônscio de suas responsabilidades e tratava a todos os seus comandados com igualdade de condições. Devido esse comportamento, diante das tropas, que comandava no Quartel é que ele grangeou a simpatia de todos e consequentemente foi conquistando as promoções, todas elas por relevantes serviços prestados à nossa Polícia, ao Estado e à Nação”.

Espero que estas citações consigam demonstrar, um pouco, de quem foi o homem, o policial militar, o maçon grau 18 que, em todas as suas ações e missões, só fez enaltecer o nome da instituição a que pertenceu, e que, graças a Deus, teve o privilégio do reconhecimento e do respeito dos familiares, amigos, superiores e subordinados. Sempre estive e continuo disponível aos amigos, para poder contribuir com o modesto conhecimento que tenho.

Paulo Britto
filho do Coronel João Bezerra

(*) A data do nascimento correta do Coronel João Bezerra é 24 de junho de 1898.

GECC (Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará)

Capitão  Bonessi e Osmiro Barreto

CONVITE
Amanhã (Terça-Feira), dia 01 de Novembro de 2011, acontecerá mais uma reunião do GECC (Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará) 

Local:
Espaço Cultural Rachel de Queiroz
da Livraria Saraiva do Iguatemi.
Horário:19:00 Hs.

Obrigado.

Ângelo Osmiro Barreto
Fortaleza-CE

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Paulo Gastão - Parte II



Com quantos e quais personagens desta história você teve contato?

Não tenho número fixo que venha a determinar quantos personagens mantive contato. Tudo começou na minha infância/juventude pelo fato da ambientação em que nasci. Convivi com comerciantes, professores, médicos, militares, gente do povo que conheceram inúmeros cangaceiros, volantes, coiteiros e outros personagens significativos para com a história do cangaço. Aos nove anos de idade já conhecia a terra de Virgolino, de Antônio Silvino, de Félix da Mata Redonda onde eu ia caçar passarinho de baladeira, de Luiz Pedro do Retiro aonde ia aos engenhos daquela localidade tomar garapa ou adquirir a melhor porção de farinha fabricada no Nordeste.


Em segundo plano, já possuidor de conhecimentos históricos, fui registrando no meu caderno de anotações Senhor da Beleza, dona Especiosa (costureira de Lampião), Sila, Candeeiro, Maria de Juriti, Adília, Tenente João Gomes de Lira, Auricéia, Artur Ferreira (primo de Lampeão), Neco de Pautila, dona Mocinha (irmã de Lampeão), o coiteiro Pedro de Tercila e o sargento Elias que residiam em Olho d’Água do Casado, Estado de Alagoas, Vinte e Cinco, o comerciante Chiquinho Rodrigues, familiares de Jararaca – os irmãos Félix, Quitéria e outros; Silvio Bulhões, (filho de Corisco e Dadá) Dona Ermelinda, Tenente Pompeu, aos familiares de Luiz do Triangulo, Jardilina Pereira Nóbrega – Jarda (esposa de Chico Pereira e seus dois filhos Raimundo (engenheiro) e Pereira da Nóbrega (religioso), que escreveu o livro – Vingança, Não), e muitos outros personagens ligados direta ou indiretamente ao cangaço.


É uma lista rica em nomes e muito, muito extensa, trabalho de mais de 30 anos na estrada. E haja memória. Todos espalhados, inicialmente, pelas vilas de outrora, e na atualidade por uma geografia modificada pelo atrevimento dos políticos.


Sinto-me feliz em ter palmilhado os sertões de todos os estados nordestinos, onde o cangaço se fez presente, uns mais, outros menos, mas a todos visitei em busca de conhecer a história e em seguida informar o que havia tomado conhecimento.


Conheci Paulo Afonso em 1955, tendo pousada oferecida pela CHESF aos seus visitantes, na famosa Casa de Hospedes. Até então era um conglomerado de casas para hoje se tornar uma cidade extremamente aconchegante e progressista.


Qual destes contatos foi, ou foram, os mais difíceis?

Não existem contatos fáceis ou difíceis. O que na realidade existe é o pesquisador saber dar inicio a uma amizade e conservá-la indefinidamente. Por onde andei a conversa era sempre a mesma, em que o candidato a escritor ou jornalista prometia céus e terra e depois sucumbia e ninguém sabia do seu paradeiro.


É necessário saber chegar a essas pessoas e mais, saber que um dia se terá o caminho da volta. Na maioria das vezes as portas estão fechadas. Porém, tentei durante várias vezes, que representam vários anos, conhecer, que é diferente de entrevistar ou manter contato e que agora recordo da situação vivida frente ao amigo Vinte e Cinco. Foram muitos os caminhos para se chegar a esta figura séria, objetiva e sabedora do que deseja na vida. Duro, esclarecedor e exigente. Sincero e receptivo. Uma grande figura humana. Valeu a pena conhecê-lo. Poderia citar outros nomes, mas, este já me chega.


José Alves de Matos O Vinte e cinco.
Foto: acervo João de Sousa Lima 

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?

No querer descobrir novos nomes que participaram do cangaço sempre estava atento. A escassez aumentava a cada um que ia surgindo. Qualquer sinal de um novo personagem acionava meus amigos na busca do desejado. Mestre Alcino Costa é o responsável por descobrir, já no fim da vida, Maria de Juriti. Residia a mesma com a família em boa casa, numa rua afastada do centro da cidade ribeirinha de Canindé do São Francisco no estado de Sergipe. Tentei durante uma manhã arrancar uma palavra dessa senhora e tudo foi em vão. Ela me olhava de olho duro, me ouvindo pedir uma oportunidade de uma pequena conversa, desde que eu apresentava uma série de argumentos para convencê-la e terminei rodando meus 1.000 quilômetros para chegar em casa sem ter conseguido uma só palavra. Poderia ter conseguido um grande depoimento, mas, infelizmente a chance foi se dissipando a cada minuto. Morreu Maria de Juriti e as minhas esperanças.


Com qual remanescente gostaria de ter conversado?

O melhor personagem para o momento teria sido aquele que não deu nenhuma entrevista ou a menor informação sobre o assunto. Este personagem elucidaria e muito os momentos mais críticos que hoje vivemos e não temos uma solução plausível. Não necessita ser homem ou mulher, soldado ou coronel, deputado ou cabeceiro, professor ou boiadeiro. A conversação que eu desejaria estaria atrelada aos subsídios que até hoje tem passado despercebidos. Foi criada uma sistemática de registro e a grande maioria simplesmente fez como rebanho de carneiro – onde um passa ou pula os outros vão atrás, com raríssimas exceções. As mudanças têm que ser criadas e adotadas para que a história tenha continuidade. Estilo papel carbono não dou valor!

Qual é o seu capítulo preferido?

 A vida nas caatingas tem que ser tratada com carinho e objetividade. Ler sobre os acontecimentos ocorridos naquelas plagas é simples, mas, para quem já viveu nos chamados ‘matos’ a diferença é brutal, inacreditável. Tive muitas oportunidades de viver nos sertões, principalmente, de Princesa Isabel e Patos de Irerê na Paraíba e Flores estado de Pernambuco. O banho de cuia, a latrina no mato, a rede em substituição a cama, a ausência de alimentos comuns das cidades, tais como: pão aguado, (na cidade denominado de francês), pão doce, bolachas de vários tipos e sabores, refrigerantes, macarrão e outros.
O café era tomado na roça tomando-se os frutos próprios da região, tais como: melancia, melão caetano - que cheira mais que qualquer perfume francês-, pinha, laranja, banana, goiaba e muitos outros. No almoço feijão de corda e carne assada; no jantar, a noite, cuscuz com leite de gado puro, angu preparado do milho com caça obtida durante o dia quando se cuidava dos animais, queijo de coalho assado preferencialmente ou queijo de manteiga. A manteiga era a tradicional manteiga de gado, nas cidades chamada manteiga de garrafa. Na época do “imbu” (Umbu) a noite se fazia uso da imbuzada e como sobremesa do almoço a saborosa geléia de imbu, maravilhosa.
Não podia faltar os banhos nos rios, riachos, açudes e lagoas. Cuidar da vacaria, enchiqueirar as miuças e encaminhar os bichos de pena para os seus respectivos poleiros. O feijão verde era debulhado em conversas sobre vaquejadas, cangaço, caçadas, cantorias e outros assuntos que são próprios dos diálogos dos sertanejos.
A ausência de luz elétrica nos levava as redes até as 8:00 horas para acordarmos com o galo cantando lá por volta das 5:00 horas da manhã. Os mais velhos contavam histórias fantásticas sobre os cangaceiros. Tornavam seus relatos cheios de momentos apavorantes tanto quanto dos monstros que viviam nos oceanos. Ninguém cochilava ou adormecia vivendo com intensidade o próprio retrato dos habitantes das caatingas.
A leitura do folheto de cordel era uma constante, pois sempre era adquirido quando se chegava a cidade em dias de feira.

 Nada de TV nem de cinema. As primeiras viagens de Paulo eram a bordo das setilhas, sextilhas, decassilabos... etc.

Não faltavam as história do rei Ricardo Coração de Leão e os Doze Pares de França e ainda era lido o Lunário Perpetuo, obra editada em Portugal, onde se buscava leitura aprazível para se conseguir condutas lá vividas e aqui adaptadas. Épocas de preparar a terra, plantar e colher eram muito bem apresentadas. Mostrava-se com muita pujança o poder dos astros e isto se coadunava com a filosofia de vida do sertanejo e seu misticismo próprio e não lapidado. Todas as noites após a janta nos dirigíamos a uma dependência da casa, chamada de camarinha, onde se encontrava vários santos, de madeira, protegidos em oratório e ali contritos rezávamos juntos homens e mulheres o terço, todos compenetrados e não se falhava uma noite sequer. A religiosidade do sertanejo é tão forte quanto o mesmo.
Viver diretamente com as comunidades sertanejas é um grande aprendizado e uma feliz oportunidade. Nenhum autor se debruçou na janela da caatinga para observar e descrever em profundidade a vida do povo sofredor nas garras dos cangaceiros e volantes. Ai reside um capítulo virgem de pesquisa objetiva e descritiva que só enobreceria a comunidade nordestina. O maior erro tem sido em se enaltecer a figura de Lampião, deixando-se ao largo o capítulo principal de toda a historiografia do cangaço – o POVO sertanejo. O povo está seguindo sua caminhada e Lampião dentro em breve será esquecido ou as descrições a seu respeito não deverão ter nenhum valor. O lado comercial reveste o personagem e o mesmo já se encontra engessado.
O conceito não é a história e sim o vil metal. Necessário se faz registrar que o cangaço ainda vive com seus últimos representantes que continuam contando fatos ocorridos ou não. O que irá ocorrer daqui a 50 anos? 

 CONTINUA...


AO FUNDO DO POÇO PELO CRACK

Por: Archimedes Marques

Não há outra droga que produza um declínio físico e mental maior para o seu usuário quanto o crack. O poder sobrenatural do crack é simplesmente horripilante e avassalador. Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. Relatos dos seus usuários e familiares, fatos policias diários e opiniões de especialistas sobre os efeitos e as conseqüências nefastas da droga podem ser resumidos em três palavras tão básicas quanto contundentes: sofrimento, degradação e morte.
As ocorrências no terreno familiar, social e criminal vão caminhando sempre em largas vertentes para dias piores. A vida vivida pelos envolvidos com o vício do crack parece sempre transpor os inimagináveis pesadelos.
Lançando um olhar no passado, o viciado, vê o rumo errado que tomou, mas dificilmente tem força de voltar atrás. Olhando ao futuro somente se lhe afigura a tumba, no entanto continua caminhando em sua direção. O seu presente é só o crack e, esse mal passa a ser o senhor do seu viver, o seu real transformador do bem para o mal, o destruidor da sua família, o aniquilador do seu bem maior.
O crack trás a morte em vida do seu usuário arruína a vida dos seus familiares e vai deixando rastros de lágrimas, sangue e crimes de toda espécie na sua trajetória maligna.
O Brasil assistiu recentemente com imensa tristeza e pesar uma reportagem televisiva em que crianças recém nascidas de mães viciadas em crack, são também barbaramente atingidas pelos efeitos nefastos da droga. Nascem como se viciadas fossem, com crises de abstinências, com compulsão à droga, tremores, calafrios e com problemas físicos diversos, principalmente com lesões no cérebro que provavelmente os levarão às demências ou a outros tipos de problemas inerentes, ou seja, uma nova geração de vítimas do crack sem sequer ter consumido a droga por vontade própria. A maioria das mães drogadas também perde o instinto materno e termina doando os seus filhos debilitados.
A dimensão da tragédia do crack é difundida nos diversos Estados da Nação através de reportagens jornalísticas que comprovam o retrato devastador em todos os lugares possíveis e imagináveis aonde chegou o filho mortal da cocaína. O crack invadiu grandes e pequenas cidades, periferias e lugares de baixa a alta classe social, municípios, povoados, zona rural...
Não bastassem os tristes casos sociais, casos de saúde e os casos criminais diversos envolvendo essa droga avassaladora vividos por uma grande parcela da população brasileira, agora apareceu mais um melancólico caso. Um deprimente e desolador caso em que a mãe trocou a virgindade da sua própria filha de pouco mais de 10 anos de idade por algumas pedras de crack. Entregou a sua filhinha para uma monstruosidade sem precedência. Entregou a inocência de uma criança para um estuprador macabro, desalmado e cruel que também era um traficante de crack. O símbolo do amor puro que está no amor de mãe se rendeu ao poderoso crack.
Uma mãe viciada, na histórica cidade de São Cristovão, primeira capital do pequeno, mas bonito e aprazível Estado de Sergipe acabou por ceder a inocência da sua própria filha, uma garotinha que migrava dos 10 para os 11 anos de idade para um desumano estuprador-traficante de drogas no sentido de que o mesmo saciasse a sua frieza sexual animalesca, em troca de algumas pedras de crack.
O crack agora é capaz também de transpor, de matar o amor de mãe, que é o mais precioso, o mais profundo, o mais verdadeiro, o mais ardoroso, o mais fervoroso amor que pode existir.
Este impulso sentimental que é o mais sublime dos amores foi superado pela força sobrenatural do crack e, ao invés de confortar, destruiu, degradou, sobretudo desvirtuou o sentido real do amor que aquela mãe tinha pela sua filha. O amor de mãe que não tem ganância, não tem egoísmo, não tem orgulho, não tem o sentido de posse, não tem o princípio de fomentar a maldade e a ignorância do bem, que busca a simplicidade, a humildade e abnegação acima de todas as coisas da matéria foi de tudo ultrajado pelo crack.
É realmente uma triste, trágica e inconcebível realidade ocorrida naquele município que contrasta com o seu povo pacato e ordeiro. É o fundo do poço pelo crack...
(Archimedes Marques. Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br
http:blogdomendesemendes.blogspot.com