Por Jerdivan
Nóbrega de Araújo
A Pombal do
passado me chega de leve e se ele atrasar me faz falta.
Faz-me falta deitar-me de papo pro ar e contar as estrelas nas horas noturnas
de Pombal.
Faz-me falta o vôo dos morcegos em casas assombradas, olhar para cima e ver
casas de maribondos num telhado de madeira onde o cupim comendo o tempo faz
crepitar, como lenha em fogueira de São João, numa noite que cheira a milho
assado naquelas brasas fumegantes.
Onde anda o cheiro das coisas, hoje velhas, que foi nova na minha juventude e
que ficou perdida em uma alguma sombra de algarobas daquelas tardes quentes de
Pombal?
O sol não era tão quente e a falta do tudo que hoje nos falta não fazia a
diferença. Hoje faz diferença os sonhos que não realizamos e faz diferença a
lista cada vez mais curta de verdadeiros amigos que escrevemos e apagamos do
nosso caderno a cada dia.
O badalar cadenciado do sino da Matriz e a procissão do Rosário serpenteando
pelas ruas com as pagadoras de promessas, mas pedras e coroas de espinho na
cabeça, outras pés no chão.
As pessoas do meu tempo, com seus nomes esquisitos, como: Nego Panela, Cachorra
Velha, Fitita, , Marreta, Mané Pinga, Nego Chalé, Miquiquiu, Sabonete, Nego
Piaba, Mão de Onça Pecado, Papel, Maria Queixinho, Semba, Maduro, Zé de Dozim,
Maria do Menino, Macaco, Laura Preá e Canção entre outros.
As ruas do tempo que eu falo eram tão poucas, e denominavam-se por Nova, do
Comercio, do Rio, Estreita e dos Pereiros.
Bairros distantes do centro eram logo ali como Nova Vida, Alto do Cruzeiro e
Cassete Armado e Rua de Baixo. A minha aldeia era tão pequena e singular que
cabia dentro das minhas poesias de rimas pobres.
Novidades que quebravam a monotonia bucólica da minha aldeia era circo na
cidade, que trazia pessoas de fora, palhaço sem graça como Batatinha, anão de
nome esquisito como Pinduca ou moça de família fugindo com o trapezista para a
decepção dos pais.
Vendedor de Quebra queixo, que aceitava de garrafa vazia a arame de cobre, isso
na falta dos preciosos centavos, e o carro das Lojas Paulista ou Camisaria de
Tiquinho anunciando as ofertas da semana, seguido por uma cambada de moleque
disputando as balas que eram jogadas ao léu pelos anunciantes.
No São João, o Pau de Sebo organizado pelo Professor Arlindo, com suas prendas
inacessíveis; no São Pedro as quermesses dos Pereiros e as mulheres do Cordão
Azul e Encarnado, na disputa pela maior e melhor barraca na Festa do Rosário.
Caminhar de pés descalços pela lama das ruas do meu tempo, que se formavam nas
primeiras chuvas; disputar com outros moleques as bicas por onde jorravam as
águas cheirosas e frias do inverno, quando havia.
Brinquedo bom era o papagaio colorido ou carrinho de lata que nós mesmo
fazíamos juntando latas de leite arame e barbantes.
A penicilina que vinha pelas agulhas de aço no bagageiro da bicicleta de seu Zé
de Santa e a disciplina nas filas João da Mata que era estampado rosto do
porteiro Zé de Júlia ou na sineta tocada por Dona Livinha, que anunciava o bom
e esperado recreio.
O passado me chega de leve e traz a minha boca o gosto azedo dos tamarindos da
Praça do Centenário, o picolé da soverteria Tropical e o algodão doce na porta
da Sede, antes da primeira matinê dos domingos de Carnavais.
Ouço o fantasmagórico som dos dados jogados na mesa de Ludo, onde bêbados,
estudantes e desocupados disputavam as poucas sombras das algarobas, com os
animais soltos nas ruas feito gente.
Ouço a minha voz gritando gol num peleja futebolística no avelozão onde os
nosso ídolos do futebol moram logo ali na esquina e atendem por nomes como
Craques da qualidade de Agnelo, Zé de Dozinho, Edílson(goleiro) Valdemar
Pereira, Eron Leite, Carin, Zaqueu, Agamenon, Arioaldo, João de Aristides, Zé
Queiroga, Natal Queiroga, Ruy Alcântara, Mixuruca, Dilau, sem dúvida, foram os
responsáveis pela época de ouro do nosso futebol.Chico Sales, Zé de Duca,
Alfredo, Carlos César, Xixico, Luiz Camilo, Magro Zequinha, Carrinho, Curinha,
João Rapadura Nenzinho, Werneck, Bosco Alencar, Klebe, Esdras, Ridney, entre
outros.
Jerdivan
Nóbrega de Araújo. Escritor. Poeta. Advogado. Funcionário da Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos. Pom, balense, radicado em João Pessoa.
Enviado pelo professor, escritor, pesquisador do cangaço e
gonzaguiano José Romero de Araújo Cardoso.
http://blogdomendesemendes.blogspot.com