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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

AINDA SOBRE O MEU AMIGO MONSTRO

Por Rangel Alves da Costa

Já contei essa história por aqui. E aqui novamente está por que me pediram para acrescentar algumas coisas sobre esse monstro amigo. E tal monstro, na verdade, pode e deve ser interpretado segundo o desejo de cada um. Monstro mesmo ou monstro interior. Mas vamos ao contexto.
Eu tenho um amigo monstro. Acreditem, pois monstro mesmo. Ele tem feição indefinida, às vezes aparece peludo, mais alto ou mais baixo, todo feio e desengonçado, coisa de espantar qualquer um que não fosse eu. Mas já estou acostumado com ele, tanto que se tornou meu amigo.
Qualquer outra pessoa teria muito medo desse monstro. E por ser um monstro mesmo. Bichão esquisito, assustador de arrepiar. Certamente faria correr quem o aviste inesperadamente. Os monstros povoam os pensamentos como a dizer que nos labirintos da existência existem coisas que nunca queremos encontrar, mas que de repente podemos avistar.
Sobre o meu amigo monstro, esclarecendo melhor. Tudo nasceu há muito tempo, durante a minha criancice e infância, quando diziam que se eu não dormisse o bicho-papão iria me pegar. Cantavam música falando do bicho-papão, a todo instante ameaçavam com a presença do tal bicho se eu deixasse de fazer isso ou aquilo.
Mas nunca tive medo daquele bicho-papão que tanto me lançavam como verdade. Muitas vezes, eu ficava acordado a noite inteira esperando sua aparição. E nada. Então fui criando um bicho-papão na minha imaginação. Com ele eu toda noite conversava, sorria e chorava, compartilhava minhas dúvidas da idade.
Fui crescendo e nunca mais me desapartei do bicho-papão. Eu sempre sentia a necessidade de sua presença, pois confiando nele muito mais que nas pessoas ao meu redor. E depois, já adulto, o bicho-papão foi se transformando noutro bicho, que achei por bem chamá-lo de monstro.
Então ainda hoje o monstro é meu cordial e sincero amigo. Entro no quarto, fecho a porta e logo o procuro. Ele me aconselha por que diz que me acompanha aonde eu vou e vê o que faço certo ou errado. Acho interessante essa preocupação, pois sei que muitos humanos e que se dizem amigos não estão nem aí. Mas com o monstro é diferente.
Outro dia, encontrei-o de olhos entristecidos, chorosos. Perguntei o que tinha acontecido e ele, cabisbaixo, respondeu: “Um dia já não estarei com você. E temo pelos outros monstros que estejam ao seu redor!”. Algo como um presságio, como uma despedida, mas a verdade é que no dia seguinte não o encontrei mais. Nunca mais retornou. Até que sonhei com ele me dando adeus e dizendo que tivesse muito cuidado.
Passei a ter mais cuidado sim, e por isso mesmo jamais o esquecerei. Sei que na vida existem muitos outros monstros. E monstros humanos de verdade. Mas ainda assim nem os detesto nem os temo. Aprendi com o meu amigo que nada deve ser acreditado apenas pela aparência ou pelo que dizem.
Meu amigo monstro era tão feio e desengonçado, tão amedrontador e temeroso, mas tão singelo e afetivo. Com ele aprendi que o monstro é aquilo que criamos em nossas mentes e aspirações. E que monstros realmente não existem na forma e no jeito que os demais apregoam, mas simplesmente na ideal de mal que tanto desejam que acreditemos.
Então criamos monstros e temos monstros por todo lugar. E a realidade não é bem assim. Existe outro lado que precisamos conhecer antes que espalhemos suas existências. Como num jardim não existem somente espinhos, bem assim na vida humana e seus labirintos.
Verdade é que nunca podemos fugir dos monstros. Monstros fantasiosos, ilusórios ou mesmo reis. Criamos monstros dentro de nós, convivemos com monstros a cada passo. Talvez até mesmo sejamos o monstro que tanto tememos. Não aceitamos o monstro, mas domando a nós mesmos, percebendo que tudo pode ser menos apavorante do que imaginamos, então será possível que passemos a nos gostar muito mais.

Escritor
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INSENSATEZ

*Rangel Alves da Costa

Conceitualmente, insensatez significa a ação de modo inconsequente, sem a observância da racionalidade nas atitudes. É a tomada de uma atitude desprovida de prudência. É uma ação irresponsável e que visa prejudicar ou maltratar. E é isto, em todos os seus termos e sentidos, que vem proliferando, e já desde muito, perante uma parte significativa da população brasileira.
Mesmo que o termo denote falta de sanidade, de plenitude de juízo, costumeiramente o insensato age pensada e premeditadamente. Na intencionalidade de transformar os fatos, dando-lhes uma feição irreal, age até com acuidade e inteligência. Ademais, nem sempre desconhece as possíveis consequências. Ora, sua ação possui por objetivo maior chamar a atenção, provocar resultados, e geralmente maldosos.
Se, por outro lado, a sensatez expressa um sentido de responsabilidade na ação, tais características afastam-se de vez daqueles que simplesmente utilizam de seus ódios, partidarismos ou descabidas indignações para macular ou tripudiar de fatos ou situações, até de tragédias, como de fato vem ocorrendo. Continuar em palanques eleitorais e não aceitar resultados das urnas, e para tal todo dia postar verdadeiras teorias conspiratórias, objetivando unicamente desqualificar o que já foi proclamado, afeiçoa-se, além da insensatez, uma evidente idiotice.
É insensatez, pois, querer forjar opinião própria apenas para desqualificar determinada realidade. É insensatez omitir a verdade perante uma inegável e contundente realidade. É insensatez brincar com a verdade apenas para ferir, magoar, contrapor. É insensatez deixar de enxergar a nitidez para se contentar com o obscuro, e do confuso semear ainda mais distorções. É insensatez agir por teimosia quando bem poderia reconhecer o que não pode ser negado.
Também é insensatez inverter os fatos na tentativa de tornar uma mentira numa verdade forjada. O problema é que sempre acaba alcançando algum proveito com tal inversão. Há quem acredite em tudo, desde a mais deslavada mentira ao que nunca existiu. Daí a proliferação de notícias sobre mortes inexistentes, de acontecimentos políticos que nunca existira, de frases ditas que jamais foram declaradas, de manchetes absurdas em jornais ou informativos que jamais existiram. Como dito, mas tem gente que ainda acredita, compartilha e até fica acreditando.
Exemplo maior da insensatez está na disseminação de notícias falsas, as famosas fake news. É a criatividade utilizada para o desserviço, para a verdadeira estupidez. Torna-se até difícil de acreditar como pessoas e até empresas se especializam em mentir, em contar lorotas, em espalhar inverdades. E o pior que sempre objetivando macular ou desonrar pessoas, políticos e governantes. Não pela descoberta e divulgação de fatos que continuavam ocultos, mas pela criação de fatos que jamais existiram. Não por serem revelações que possam abalar as estruturas de poder, mas pela invenção de coisas que abalam a própria credibilidade do mundo.
O episódio da facada no candidato Bolsonaro exemplifica bem a capacidade de pessoas para, maldosa e intencionalmente, inverter a realidade dos fatos. Logo após o ataque, pelas redes sociais, surgiram inúmeras teorias conspiratórias, cada uma mais absurda que a outra. Logo disseram que não houve facada alguma, que tudo não passou de uma invenção da cúpula do próprio candidato. Então postaram inúmeras imagens depreciativas e sempre negando a existência de tal episódio. Ainda hoje é possível encontrar tentativas de negação do episódio. Ainda há gente que diz que Bolsonaro não passou por nenhuma cirurgia e também gente que acredita e compartilha.
A tragédia de Brumadinho não ficou imune à insensatez humana. Através de compartilhamentos, logo surgiram postagens onde alguns inconsequentes afirmavam que a população atingida deveria mesmo comer lama por ter votado no presidente eleito, que se tivesse votado noutro candidato não teria acontecido aquilo, como se dissessem que na política estava a salvação ou a destruição. E sempre se utilizam das paixões políticas para encontrar culpados pela tragédia. Como se não tivessem o que fazer, logo foram buscar a culpa nas privatizações de Fernando Henrique Cardoso. Outros direcionaram a tragédia para um suposto decreto assinado pela ex-presidente Dilma. Muitos disseram que a culpa exclusiva era mesmo de Bolsonaro.
Se de um lado percebe-se esmerada criatividade na criação e disseminação dos absurdos, por outro lado há a preocupação de distanciamento da verdade dos fatos. E isso se torna de um perigo imenso. E perigoso demais pelo fato de que as pessoas, sempre alheias à busca da verdade e cada vez mais crentes no que é dito pelas redes sociais, acabam não só desatentas ao conhecimento como possuidoras de inúteis e imprestáveis informações. Acabam acreditando demais naquilo que não possui serventia alguma, pois tudo forjado na mentira e no embuste.
A falta de senso crítico e de percepção da verdade pode tornar as realidades tão ou mais mentirosas que as próprias redes sociais. Muita gente já diz que o livro está errado porque leu de modo diferente numa rede social. Diversos sites já se dedicam a mostrar o que é fake news ou não. E pelo mostrado, e se comparado ao que é postado como verdade, logo se tem que a imensa maioria não passa de inverdade. Mas é a inverdade que, infelizmente, está sendo cada vez mais sendo acreditada.

Escritor
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DEIXE-QUE-EU-CHUTO

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de fevereiro de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.054

     A notoriedade está no rico e no pobre. Mas nem sempre a fama leva à riqueza, permanecendo no indivíduo como destino. Em Santana do Ipanema, conheci o maior pandeireiro regional. Conhecido como Pedro Aleijado (puxava uma perna) era alegre, farrista, piadista e, sempre metido nos meios dos grandes da cidade. Também conhecido como “Pedro do Pandeiro”, “Pedro-mão-de-aço” e “Pedro-deixe-que-chuto”, interagia com todos e serviu a muitos famigerados que vieram cantar em Santana e precisaram de um panderista. Bebia muito e vendia mel de abelha. Tanto é que nem levava mais em conta as brincadeiras, ele mesmo era um feroz concorrente da abelha papa-terra. Perguntaram ao seu filho menor: “Onde está seu pai, menino?”. O garoto respondeu: “Está no quintal fazendo mel”. A fama de Pedro correu mundo, mas terminou sua vida tão pobre como iniciara.
      Conheci e fui amigo de Ferreirinha. Poeta, compositor, cantor tipo sertanejo, talento reconhecidamente versátil. Ferreirinha apresentava-se em muitos palanques de Alagoas, Bahia e Pernambuco. Além disso, era pescador e conhecia bem a flora, possuindo bom receituário para inúmeras doenças. Quando solicitado, cozinhava coletivamente para grupos religiosos e trabalhadores. Ferreirinha fez parte da AGRIPA – Associação Guardiões do Rio Ipanema – ocasião em que compôs o Hino dos Guardiões. Colega de Associação, eu o considerava o mais completo deles.  Ferreirinha nunca alcançou um patamar de finanças compatível com o seu talento. Cercado de amigos e familiares, o poeta morreu vitimado por câncer, deixando muita comoção na cidade onde era quase uma lenda.
     E sobre talentos populares, em Santana do Ipanema, resta o zabumbeiro conhecido por Mariá. Todos os forrozeiros da região o consideram como o melhor de todos. Mariá foi ou é gari e pelo visto não encontrou ainda a sua sorte grande igual ao anão convidado por Luiz Gonzaga para formar seu trio, ganhar dinheiro e fama pelo Brasil inteiro. Assim vamos resgatando valores que em sua terra ficam invisíveis em relação à recompensa e visíveis devido à necessidade da prestação de serviços. Impressionantes são os valores pagos aos de fora por qualquer munganga nos palanques.
     Difícil é formular hipóteses sobre sorte, oportunidades, profecias... Mas talentosos e pobres filhos da terra continuam, sendo enxergados apenas na precisão.
Ê Brasil “véi” de meu Deus.


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FAUNA RURAL NA CIDADE

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de fevereiro de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.053

ARAÇARI. (FOTO: TV GAZETA/DIVULGAÇÃO).
Foi destaque no estado, a notícia sobre a presença de aves estranhas na Praça Lucena Maranhão, Bairro do Bebedouro, em Maceió. Logo o casal foi identificado como Araçari-de-bico-branco, também conhecido como Tucano-de-cinta. De fato o bico e o tamanho das aves chamaram a atenção dos transeuntes. Estava o casal formando sua família de quatro filhotes num oco de amendoeira. O IMA  (Instituto do Meio Ambiente tomou conta do caso em favor da proteção e bem-estar das aves originárias da Mata Atlântica. Aqui em outra região de Maceió, acordo sempre com o canto do Bem-te-vi que possui ninho num alto poste de luz. Pela tarde são os pássaros Sibites que complementam os ruídos dos automóveis, com um canto fino e farfalhado, além do Bem-te-vi. Um pouco acima, casal de rolinha faz ninho e frequenta com mansidão o jardim de certa residência.
Em Santana do Ipanema, protegemos na Escola Estadual Professora Helena Braga das Chagas, o ninho de um beija-flor que produziu dois filhotes. Ninho pequeno, bem feito, confortável que continua no mesmo lugar após esvaziado. Mas também um casal de rolinhas ali faz sua moradia sem sofrer qualquer tipo de ataque. O bem-te-vi frequenta bem a área e, ultimamente tem aparecido um casal de aves escuras e grandes que ficam brincando nos postes mais altos da minha rua. Surge apenas no início da manhã e ainda não consegui identificá-lo.
As ruas arborizadas e as fruteiras dos quintais têm atraídos os mais diversos tipos de pássaros para a zona urbana. Com o desmatamento desenfreado do seu habitat, esses animais vão migrando para as cidades e se adaptando aos movimentos de homens e máquinas. A comida fácil nos lixos, nas ruas e em todos os lugares, facilita a vida desses pequenos que vêm colorir as urbes com seus cantos e suas cores. O caso dos tucanos em Maceió, só chamou atenção pelo colorido forte, tamanho e bico. Mas vários pássaros circulam pela cidade de Maceió e que, para muita gente, são invisíveis pela preocupação de cada dia.
Não conheço nenhum levantamento profissional sobre essas aves selvagens que frequentam as cidades.


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O FOGO DO COITÉ

Por Geziel Moura
Igreja do Coité e Padre Lacerda

A história do cangaço é muito fascinante, e nem sempre cangaceiros, volantes e civis, que foram às armas. Em janeiro de 1922, quem pegou nelas foi o representante da igreja, o Padre Lacerda. Esse acontecimento se deu, na época que Lampião e seus irmãos, eram simples cabras de Sinhô Pereira, e atuavam na região do Cariri Cearense, a história é mais ou menos assim:
Após a morte do Coronel Domingos Leite Furtado, poderoso chefe político em Milagres (CE), no ano de 1918, o seu braço armado, o Major José Inácio de Sousa, fazendeiro abastado no município do Barro (CE), conhecido como Zé Inácio do Barro, passou a assediar a família do falecido, reclamando que o Coronel Domingos Furtado devia certa quantia a ele, por serviços prestados, o que produziu inimizades entre as família Furtado e Zé Inácio do Barro.
Major Zé Inácio do Barro
Antonio Vilela, Sousa Neto, Dr Leandro Cardoso, Jorge Remígio, Manoel Severo e Ivanildo Silveira na visita do Cariri Cangaço a 
Fazenda Nazaré do cel. Domingos Leite Furtado

Cabe, neste momento, uma explicação: Zé Inácio era conhecido protetor de cangaceiros, assim como outros coronéis no Cariri cearense, inclusive, Sinhô Pereira e seu bando, estavam na folha de pagamento daquele Major, tendo, ainda, seu filho, Tiburtino Inácio de Souza, vulgo Gavião, no bando de Pereira, isto denuncia, que nem sempre a constituição de um cangaceiro, era por conta da pobreza.
Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena nos conta, em sua obra "Lampião e o Estado Maior do Cangaço", que o Sítio Nazaré, da viúva do Coronel, D. Praxedes de Lacerda foi assaltado, em Janeiro de 1919, por grupo de cangaceiros, comandado por Gavião, filho do Major Zé Inácio do Barro.
Assim, após ser denunciado como mandante do assalto, Zé Inácio, não esconde o feito, mas diz que aquele dinheiro era dele, por anos de serviços prestados ao Coronel Domingos Furtado, e ainda o chamou de ladrão, pronto estava aberta a questão entre as famílias, principalmente na figura do Padre José Furtado de Lacerda, ou simplesmente, o Padre Lacerda, pároco da Vila de Coité, pertencente ao município de Mauriti (CE).


 Caravana Cariri Cangaço e a visita ao Coité de Padre Lacerda em Setembro de 2013
Manoel Severo, Sousa Neto, Antônio Amaury e Dr Leandro em conferência sobre o Fogo do Coité na própria igreja local
Luitgarde Barros, Daniel Apolinário e Dr Lamartine Lima na 
Conferencia do Cariri Cangaço no Coité
Insultos vão, insultos veem, entre o Padre Lacerda e o Major Inácio do Barro e o certo é que no dia 20 de janeiro de 1922, a pequena Coité é invadida pelo grupo de Sinhô Pereira, à frente com setenta cangaceiros. Entretanto, o Padre Lacerda, não usava somente a Bíblia e terços em seus ofícios, era possuidor de rifle e um bom contingente de homens, bem armados e municiados.
Segundo, o escritor Sousa Neto, que biografou o major Zé Inácio do Barro a resistência vinha da casa do Padre Lacerda, e sustentou o fogo por seis horas, forçando uma retirada dos cangaceiro, ao chegar soldados da policia de Mauriti e Milagres.
Ainda, segundo aquele autor, o bando de Sinhô Pereira fora atacado no dia seguinte, na Fazenda Queimadas, por aquelas volantes, sendo necessário dividir o grupo em três, um grupo com Lampião, outro com Baliza e o resto com o chefe Sinhô Pereira, desta forma conseguiram furar o cerco, e seguir para o coito, no Barro. O saldo do Fogo do Coité, foram três homens do Major, e diversos cangaceiros feridos, inclusive Antônio Ferreira. Padre Lacerda não era fácil.
Geziel Moura , Pesquisador
24 de novembro de 2017

http://cariricangaco.blogspot.com/2017/12/o-fogo-do-coite-porgeziel-moura.html

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O FOGO DE SERRINHA DO CATIMBAU.

Por Manoel Severo

João Caxeado, um dos defensores de Serrinha do Catimbau

Também na região do agreste pernambucano, o Rei do Cangaço; Virgulino Ferreira, encontrava abrigo e acolhida à sua epopéia nômade cangaceira. Fazendas nas vastas terras entre municípios como Bom Conselho, Águas Belas e Itaiba, traziam oportunamente momentos de descanso e ajuste de negócios entre o líder cangaceiro e seus protetores. Em uma dessas paragens junto ao poderoso coronel Zezé Abílio, lider político e maioral de Bom Conselho, possivelmente pode ter se iniciada a trama do terrível assassinato de José Gomes no sítio Queimada do André e o fogo de Serrinha do Catimbau, quando Maria Bonita é ferida.

Severo e Vilela em visita ao túmulo de Zé Gomes em Paranatama (Serrinha)

Detalhe na sepultura de Zé Gomes

Algumas versões são apresentadas para explicar os episódios daquele Julho de 1935; é Antônio Vilela, dedicado pesquisador de Garanhuns com excelente trabalho sobre a presença de Lampião no agreste pernambucano, que nos conta: "Algumas versões são apresentadas para a ação de Virgulino e seu grupo naquela época, mas a verdade é que o chefe cangaceiro estava em missão a serviço do Coronel Zezé Abílio; a princípio, naquele 20 de julho de 1935, foi até o sítio Queimada do André, ajustar uma conta que o fazendeiro José Gomes Bezerra possuia junto a Zezé Abílio; o fazendeiro conhecido pelos modos rudes e fortes, chegou até a afrontar com palavras o rei do cangaço, que sem titubear, ordenou a morte do mesmo."

 Fachada da Casa de Chiquito, centro de Serrinha

Destas casas partiram os tiros dos moradores de Serrinha

Detalhe da atual praça do fogo de Serrinha do Catimbau, à nossa esquerda a casa de Chiquito, à nossa direita o casário onde estavam os defensores. (Na época não havia a praça)

Continua Vilela: "A notícia do assassinato de João Gomes correu como rastro de pólvora pela redondeza, deixando em alerta as comunidades vizinhas; em Serrinha do Catimbau, cerca de uma légua do ocorrido, a população se organiza sob o comando de João Caxeado, inspetor de quarteirão e seu auxiliar Oséias Correia. De fato Lampião; ao lado de Cabo Velho, Medalha, Maçarico, Gato, Moita Brava e ainda Maria Bonita e Maria Ema, entram pelo principal arrudado do lugar. O chefe cangaceiro tinha endereço certo, novamente sob missão lhe confiada pelo Coronel Zezé Abílio, ruma célere à residencia do indivíduo Chiquito; que mantinha contas a ajustar com o poderoso coronel. A horda cangaceira não tem tempo de concluir seu intento, ao bater à porta da casa de Chiquito é surpreendida com saraivada de balas, vinda das casas situadas do outro lado da rua; no combate , Maria Bonita e Maria Ema foram baleadas e o cachorro Dourado morreu crivado de balas, obrigando o bando a fuga prematura", conta o pesquisador.

Manoel Severo.

http://cariricangaco.blogspot.com/2010/01/o-fogo-de-serrinha-do-catimbau-maria-e.html

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NO XAXADO COM LAMPIÃO

Por Denize Guedes*


A OCTOGENÁRIA ALZIRA MARQUES RECORDA OSBAILES ANIMADOS, ORGANIZADOS PELO REI DO CANGAÇO  

Noite de sábado para domingo, fim de setembro de 1936. Faltava só passar o pó no rosto, espalhar o perfume atrás da orelha e calçar as alpercatas. Cabelos negros e encaracolados na altura da cintura, dentro do seu melhor vestido, a menina de 12 anos, que, se os pais se descuidassem, trocava o estudo pela dança, estava pronta para o seu primeiro baile no alto sertão sergipano com o bando do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Não havia escolha, só mesmo confiar na bênção da tia de criação antes de sair de casa engolindo o medo.

“Eles mandavam apanhar a gente. Vinha aquela ordem e tinha de cumprir. Se não, causava prejuízo depois”, conta Alzira Marques, que completa 86 anos em agosto. Ela lembra detalhes das incontáveis festas cangaceiras a que foi em fazendas que já não existem mais e que deram lugar à planejada Canindé de São Francisco, com o início da construção da hidrelétrica do Xingó, em 1987. Canindé Velho, como a sertaneja chama o local onde nasceu, à beira do Velho Chico, foi demolida por conta da usina, hoje fonte de renda para a cidade – atrai quase 200 mil turistas por ano com o Cânion do Xingó.

O auge de Lampião em Sergipe vai de 1934 a 1938, quando o cangaceiro foi morto ao lado de Maria Bonita e outros nove do bando, em 28 de julho, na Grota do Angico, município de Poço Redondo. “Este é o estado onde ele encontrava mais proteção, aliando-se aos poderosos locais, como o coronel Hercílio Porfírio de Britto, que dominava Canindé como se fosse um feudo”, explica Jairo Luiz Oliveira, da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço. “São os chamados coiteiros (quem dava proteção ao cangaço), políticos de Lampião. Melhor ser seu amigo que inimigo.”

Foi nas terras de Porfírio de Britto que Alzira mais arrastou as sandálias. “Na primeira vez, encontrei Dulce, que foi criada comigo em Canindé Velho e tinha virado mulher do cangaceiro Criança. Eles também eram de muito respeito e nunca buliram com gente minha. Pronto, não tive mais medo”, relembra. Temporada de baile era fim de mês, quando as volantes da Bahia e Pernambuco – as polícias mais algozes no rastro de Lampião – voltavam a seus estados para receber o soldo. “Aí os cangaceiros viam o Sertão mais livre para fazer festa”, diz.

Dia de dança, Alzira tinha de sair e voltar à noite para não levantar a suspeita dos vizinhos. Às 22 horas, punha-se a andar 2 quilômetros até o local onde um coiteiro escondia os cavalos. Outras meninas iam junto. Montavam e seguiam morro acima por uns 15 minutos. “Quando a gente chegava, ia direto dançar o xaxado, forró, o que fosse, até 4 horas da manhã.” Mesmo caminho de volta, chegava com um agrado do rei do cangaço: uma nota de 20 mil réis. “Era tanto do dinheiro, mais de 300 reais na época de hoje. Dava tudo para minha tia.”

Apesar de festeiro, não era sempre que o líder do bando dava o ar da graça. Quando ia, porém, não se fazia de rogado: no mato à luz de candeeiro, onde o arrasta-pé comia solto, brilhantina no cabelo, dançava com as moças do baile sem sair da linha. Média de 20 homens para 15 mulheres. “Ninguém era besta de mexer com a gente. Eles nos respeitavam demais. Lampião era o que mais recomendava: ‘Olha o respeito!’” Maria Bonita – que para Alzira “não era lá essa boniteza, Maria de Pancada era mais bonita” – não tinha ciúme.

O cangaceiro mais conhecido do Brasil gostava de cantar e levava jeito para compor. Quem não se embalou ao som de Olé, mulher rendeira / Olé, mulhé rendá? Ou de Acorda, Maria Bonita / Levanta, vai fazer o café? Alzira conta que era comum ele pedir ao sanfoneiro Né Pereira – outro intimado do povoado – para tocar essas canções, enquanto ele mesmo cantava. “Letra e música dele, além de ser um exímio tocador de sanfona”, confirma Oliveira.

Os bailes eram como banquetes. “Tinha comida e bebida de toda qualidade. Peixe, galinha, porco, carneiro, coalhada, bolo, cachaça limpa”, diz Alzira. Outro ponto que se notava era o aroma: os cangaceiros, que podiam passar até 20 dias sem tomar banho, gostavam de se perfumar. O coronel Audálio Tenório, de Águas Belas (PE), chegou a dar caixas de Fleurs d’Amour, da marca francesa Roger & Gallet, para Lampião. “Era perfume do bom, mas misturado com suor. Subia um cheiro afetado. A gente dançava porque era bom”, afirma a senhora, que se entrosava mais com Santa Cruz e Cruzeiro.

Mais de 70 anos depois, Alzira ainda sonha com aquelas noites e sente falta da convivência com os amigos: muitas festas aconteciam em Feliz Deserto, fazenda que Manuel Marques, seu então futuro sogro, tomava conta. Não raro, o brilho da prata e do ouro das correntes, pulseiras e anéis dos cangaceiros visitam sua memória, assim como a imagem de Lampião lendo a Bíblia num canto da festa. “Ele era muito religioso.” No seu pé de ouvido fica o xa-xa-xá das sandálias contra o chão, som que deu nome ao xaxado, segundo Câmara Cascudo, ritmo tipicamente cangaceiro que não se dança em par.

Testemunha de um período importante da história do País, conta que nunca teve vontade de entrar para o cangaço nem considerava Lampião bandido: “Não era ladrão, ele pedia e pagava, fosse por uma criação, por um almoço. Agora, se bulissem com ele, matava mesmo”. Na cidade é conhecida como a Rainha do Xaxado. No último São João, que antecipou as comemorações do centenário de nascimento de Maria Bonita (8/3/1911), foi uma das homenageadas.

Balançando-se na rede na entrada de sua casa, satisfeita com os dez filhos, 40 netos e 37 bisnetos, Alzira aponta para um dos locais onde dançou com Lampião: uns 100 metros adiante, a Rádio Xingó FM. “Continua lugar de música.” Mas e Lampião, dançava bem? “Ah, ele dançava bom.”

(Foto: Cesar de Oliveira)

*A repórter viajou a convite do Ministério do Turismo e da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa).

Publicado originalmente na coluna Brasilianas, edição nº 604 da essencial revista Carta Capital.
link para conteúdo online: CLIQUE AQUI

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

"FOI UM TEMPO ... QUE O TEMPO NÃO ESQUECE..."


Por Rubens Antonio 

Evocando 1936... Lino José de Souza, o Pancada, com 24 anos de idade, e Maria Adelaide de Jesus, a Maria Jovina, aos 14 anos de idade.

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SENSACIONAL REGISTRO DOS "RASTREADORES DA HISTÓRIA", PESQUISADORES, REMANESCENTES DA MESMA, EX CANGACEIROS ARISTEIA E MORENO, E O FILHO DO CASAL CANGACEIRO 'CORISCO E DADÁ', SÍLVIO BULHÕES.



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DOCUMENTÁRIO "O ÚLTIMO DIA DE LAMPIÃO"


https://www.youtube.com/watch?v=L-nuE4UgJOQ&feature=youtu.be&fbclid=IwAR0C9TxhBpktQAabIk3F50vyx4aasemj_7oUCN-pD5ejme9irD5WRmQhHB4

ESSE VÍDEO DEVE SER ARQUIVADO PELOS ESTUDANTES DESSA HISTÓRIA DEVIDO EXISTIR GRANDE ACERVO HISTÓRICO DAS PERSONAGENS QUE VIVERAM A ÉPOCA.
BONS ESTUDOS!

https://www.facebook.com/groups/545584095605711/


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EM BUSCA DA VERDADE, SEMPRE. PESQUISADOR TEM SEU ACERVO LESADO


Por Sálvio Siqueira

O pesquisador João De Sousa Lima, de São José do Egito, PE, residente na cidade baiana de Paulo Afonso, a qual adotou no coração, é um dos pesquisadores sérios dentre outros que existem no complexo estudo do tema referente ao Fenômeno Social Cangaço.

João, quando ainda criança, vai morar na cidade baiana e logo cedo descobre uma vontade incontrolável de saber e contar a historia das pessoas que fizeram parte do cangaço. Teve sorte por ter ido para o reduto onde em todas as partes a história passou e deixou suas marcas. Marcas que o “rastejador egipciense” não perdeu os sinais.

Começa então a colher informações dali, depois outras daqui e por aí começou a adentrar num mundo cruel, sangrento, cheio de lágrimas, dor, vingança e mortes, no entanto cativa-nos e nos deixa apaixonados por ele. Por ter sido um dos pioneiros a ‘caçar’ resquícios históricos, possui uma coleção de objetos que foram usados por aqueles que fizeram parte da historiografia, alguns dos próprios, outros dos familiares que os tinham e muitos o doaram para seu acervo particular.
Trata-se de armas, perfume, joias e outros mais. Dentre eles existem aqueles que nos parecem os mais importantes para a história, as fotografias. Essas tem o poder de parar o tempo e trazê-lo para o futuro. Portanto, a nosso ver, são relíquias que merecem respeito e cuidados.


Como em todo lugar, canto, situação sobre temática existem os fraudadores, aproveitadores e mentirosos, nos estudos, pesquisas e literaturas sobre a historiografia do cangaço também apareceram. Desde os primeiros livros, cordéis e cantadores de feiras-livre têm pessoas que aumentam, improvisam e criam suas ‘estórias’. Não procuram contar os fatos ocorridos, mas, contarem aquilo que queriam que ocorresse. No meio destes sempre apareceram os aproveitadores e oportunistas para darem um golpe na história e naqueles que a tratam com respeito.

Nos últimos tempos, devido à nova geração de pesquisadores, escritores e autores e a maneira de se fazer pesquisas, tem-se combatido, na medida do possível, esse tipo de criminosos. Crime sim, pois estão distorcendo fatos ocorridos em gerações de uma população sofrida, sujeita e que sempre ficou sem a assistência social devida pelas autoridades competentes.

Ainda aparecem aqueles que querem aparecer mais do que os outros. Pois bem, segundo o historiador João de Sousa Lima o cidadão Robério Santos, para ganhar uma oportunidade de se aproximar do pesquisador Frederico Pernambucano de Melo, não vemos outra razão, pega uma fotografia do acervo do pesquisador João de Sousa Lima e a “dou-a”, como sendo dele.

O sociólogo/pesquisador Pernambucano de Melo edita o livro e no livro a fotografia. Faz referência sobre a foto pertencer, ou ter sido uma gentileza do Robério Santos, não podia ser diferente já que o sergipano usando de má fé, disse pertencer a ele. O dono do registro histórico, João de Sousa Lima, falo dono por ter sido dado a ele pelos senhores Toinho de Juvininho( grafia do livro) e Marcus Vinícius, só veio descobrir a manobra quando a viu no livro. Imediatamente entra em contato com o autor do livro, Frederico Pernambucano de Mello, e conta que aquela fotografia faz parte do seu acervo particular. Segundo o próprio João, Pernambucano compromete-se a fazer a devida correção, citando a quem de direito o registro histórico pertence, numa futura edição.



Trata-se de um registro histórico muito importante por o mesmo referir sobre a época das entregas. Nela estão as personagens religiosas: Frei Francesco da Urbania, Frei Agostinho e o Monsenhor Magalhães; o cangaceiro Balão e mais uma outra pessoa não identificada no livro “Lampião – O cangaceiro – Sua ligação com os Coronéis Baianos, Raso da Catarina e outras história” , 1ª edição. Editora Fonte Viva, pg 172, 2015. Isso ocorre, a fase das 'entregas', após a morte do cangaceiro mor, Lampião, pois o restante fica feito baratas tontas sem saberem o que fazer: não sabem aonde buscar munição, armas, alimento ou vestimenta para seus 'cabras'. Não tendo outra saída, e a vida de cada um estando em jogo, começam a se entregar as autoridades de Alagoas e Bahia. 

O registro torna-se marcante por trazer religiosos que serviram de intermediários entre os bandoleiros e a Força Pública, os quais confirmam, apalavram a garantia da vida de cada um.

Fora essa coisa ridícula, Robério tem a mania de criar personagens e lugares em registros fotográficos. A última foi ele dizer que uma foto tinha sido tirada na sua cidade, em ocasião da visita de uma ex cangaceira, Sila, quando na verdade ela foi um registro na cidade de Lagarto, SE... é de lascar uma coisa dessas.

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"A ILUSÃO DO CANGAÇO"


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A VIDA DE UMA MOÇA, MENINA AS VEZES, FILHA DE AGRICULTOR NOS CARRASCAIS DO SERTÃO NORDESTINO ERA DURA. PRIVACIDADES NÃO FALTAVAM PARA AQUELAS QUE NAQUELE TEMPO VIVERAM. ACHANDO QUE SERIA UMA 'VIA DE ESCAPE', VÁRIAS DELAS PROCURARAM ENTRAR NO CANGAÇO. ENTÃO NOTARAM QUE A VIDA NO CANGAÇO ERA MUITO PIOR.

TRABALHO DE PESQUISA, EDIÇÃO E COLETÂNEA REALIZADO PELO PESQUISADOR CEARENSE ADERBAL Aderbal Nogueira

"Coletânea (fragmentos) de depoimentos de ex-cangaceiros(as) colhidos dos seguintes documentários: A mulher no cangaço, A musa do cangaço, O último dia de Lampião, Fatos, Candeeiro-Manuel Dantas Loiola, e Sila - Ilda Ribeiro de Sousa."

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EM CAJAZEIRAS, PB LAMPIÃO ASSUSTOU CRISTIANO CARTAXO

Por: Francisco Frassales Cartaxo
 
Cristiano Cartaxo

Cresci ouvindo meu pai narrar, vez por outra, o susto que passou ao ver-se frente a frente com Lampião. Cristiano Cartaxo (foto) contava sempre a mesma versão, quase com as mesmas palavras a indicar a veracidade do episódio por ele vivido. Certa ocasião, noite alta, ele se dirigiu à Farmácia Central, fundada pelo seu pai, o major Higino Rolim, para aviar uma receita, a pedido de pessoa amiga. 

Nessa época, década de 20 do século passado, a farmácia ficava na Rua Sete de Setembro, hoje Avenida Presidente João Pessoa. Cristiano entrou na botica, deixando a porta entreaberta, e foi preparar o remédio. Com pouco tempo, apareceu um desconhecido em trajes estranhos, arma de fogo e punhal. Meu pai apressou-se em procurar atendê-lo àquela hora da noite:

- O senhor deseja alguma coisa? Precisa de algum remédio?
 
Sabino Gomes em
Foto de Francisco Ribeiro
 
Disse mas não obteve resposta. O estranho esboçou apenas um leve sorriso, deu alguns passos, lentamente, parou para espiar melhor as pra- teleiras, voltou a caminhar pelo pequeno corredor até os fundos da loja, sem uma palavra, por mais que meu pai insistisse em oferecer-lhe seus serviços profissionais de farmacêutico. O visitante saiu pela porta, não sem antes fazer breve reverência de cabeça. Meu pai, sem pestanejar fechou a porta com ferrolho e voltou à sua tarefa. Claro que teve medo, sobretudo, porque isso se deu após o ataque do cangaceiro Sabino Gomes (foto) que, segundo meu pai, tinha como um dos seus objetivos ao invadir Cajazeiras “agarrar o enxu do major Higino”, numa referência ao cofre da farmácia do meu avô.

Sabino Gomes conhecia bem Cajazeiras. Fora guarda-costas de Marcolino Diniz, um cidadão que residiu em Cajazeiras, pouco depois de assassinar o bacharel Ulisses Wanderley, juiz de direito da cidade de Triunfo (PE), em 30 de dezembro de 1923. Preso em flagrante, foi solto pelos cabras de Sabino, a mando de Lampião, que era amigo e protegido do coronel Marçal Florentino Diniz, pai de Marcolino. Em Cajazeiras, Marcolino fundou e manteve, junto com o advogado Praxedes Pitanga, o jornal O Rebate, que circulou entre 1925 e 1928. Marcolino era irmão unilateral de Sabino Gomes, pois este nascera de relação sexual do coronel Marçal com sua cozinheira, em Abóboras, município de Serra Talhada (PE), perto de Princesa Isabel, terra do famoso coronel José Pereira, aliás, sogro de Marcolino Diniz. 

Sabino chegou a trabalhar nas obras de construção do açude de Boqueirão e desfilava armado pelas ruas de Cajazeiras, na qualidade de capanga de Marcolino Diniz.
 

Como o poeta Cristiano soube que o cangaceiro misterioso era Lampião? Meu pai o identificou numa foto que correu mundo, batida pelo fotógrafo profissional, Francisco Ribeiro, em Limoeiro do Norte, quando o bando ali estacionou, ao regressar da frustrada invasão a Mossoró. Em Limoeiro, os cangaceiros foram recebidos sem hostilidade. Ao contrário, tiveram direito a banquete, fizeram compras no comércio e até rezaram na igreja em companhia do padre.

Revejo, agora, a foto histórica, inserida no livro de Frederico Pernambucano de Mello: Guerreiros do sol - Violência e banditismo no Nordeste do Brasil -, talvez o melhor estudo acerca do fenômeno social do cangaço nordestino. Revejo com saudade do meu pai que, em 2013, completa 100 anos de formado na antiga Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro.

http://lampiaoaceso.blogspot.com/2014/07/em-cajazeiras-pb.html

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