Seguidores

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

PARA QUEM AINDA NÃO LEU - ZÉ PEREIRA CONCEDE ENTREVISTA

Por Antonio Corrêa Sobrinho

AMIGOS, leiam esta interessante e rica matéria.

Em 1930, em pleno "Estado Livre de Princesa, na Paraíba, o famoso coronel José Pereira falou longamente ao repórter dos "Diários Associados", Victor do Espírito Santo.

Reportagem para mim duplamente interessante, por conta de um ocorrido: a inesperada e momentânea presença deste notável jornalista na minha pequena e querida Aracaju de 1930, quando o hidroavião que o transportava do Rio a Recife, de onde ele iniciou a peregrinação em busca de Princesa e do famoso Zé Pereira, precisou, vocês saberão o motivo, demorar um pouco mais em Aracaju, momento este que Victor fez questão de deixar registrado no âmbito desta histórica matéria.

EM BUSCA DE PRINCESA, O MUNICÍPIO REVOLUCIONADO DA PARAÍBA.

Victor do ESPÍRITO SANTO

(Enviado especial d’O JORNAL e do “Diário da Noite” do Rio e do “Diário da Noite” de S.
Paulo)

DO RIO A RECIFE EM AVIÃO DA CONDOR – PARADA INESPERADA EM ARACAJU E UMA OPORTUNIDADE PARA UMA ENTREVISTA PITORESCA – MANÉ CAROÇO VISTO POR UM BACHAREL DE 84 – RECIFE.

RECIFE, 13 – (Por avião) – Não fui inteiramente feliz nesta minha primeira viagem aérea.

Para que uma viagem assim longa decorra a contento, necessário é que se tenha por companheiros pessoas com as quais possamos trocar impressões, tornando menos insípidas as longas travessias quando a vista se cansa de admirar o oceano, “que castiga pela majestade e o litoral que se repete milhas e milhas sem um fato novo que prenda a atenção, que desperte a curiosidade. E eu não tive desses companheiros quando saí do Rio, no “Olinda”, o possante e seguríssimo avião da Condor. Foram meus companheiros até à Bahia, dois alemães quase mudos e cujo sono acabou por contagiar-me.

Em Canavieiras, porém, assaltou-me a esperança de que ia ser melhorada a viagem, pois nessa pequena cidade deveriam embarcar cinco passageiros para a capital baiana. Não fui, ainda desta feita, feliz. Os meus novos companheiros eram o prefeito de Canavieiras, um engenheiro, um mecânico da Condor, um médico e a sua esposa. A não ser o mecânico, todos os demais eram políticos que empregavam todo o tempo em discutir o coeficiente de votos que o coronel fulano deveria dar e não dera e outras coisas que tais enquanto isso, a senhora do médico cansava-se de enjoar...

Na Bahia, a situação mudou-se, afinal. Quando, na Ribeira, esperava o pequeno bote que deveria conduzir-me para bordo do novo avião em que iria prosseguir a viagem até Recife, uma figura muito nossa conhecida desembarcou de um automóvel para seguir também em demanda do aparelho: tratava-se de monsenhor Rosalvo Costa Rego, o vigário geral aí do Rio. Ia, enfim, ter uma ótima companhia! E o foi efetivamente. Com a sua palavra atraente, a sua verve encantadora, o seu espírito fino, a sua inteligência brilhante e os seus grandes conhecimentos da zona que íamos percorrer, monsenhor Costa Rego era a companhia desejada.

Era a primeira vez que o ilustre vigário geral do Rio embarca em um avião e o fazia, disse-nos ele, sem satisfação devido às condições que o obrigavam a utilizar-se daquele meio de viação: desejara chegar a Maceió quanto antes por precisar visitar uma pessoa cara que se encontrava gravemente enferma. Infelizmente, a bordo do Itaité, recebera comunicação de que essa pessoa falecera. E agora prosseguia viagem por já estar de passagem comprada e ter de providenciar sobre o espólio da pessoa que morrera, sua mãe de criação.

Deixamos a Bahia às 6 horas, e pouco antes das 9, o “Blumenau”, numa descida elegante e suave pousava os seus flutuantes no porto de Aracaju a fim de aí entregar a correspondência e receber gasolina. A demora deveria ser rápida, de 15 minutos, se tanto.

Assim, pouco depois das 9 horas, o “Blumenau” erguia-se das águas, elevava-se sobre Aracaju e contornava a pequena mas linda capital sergipana. O motor, porém, não estava funcionando a contento, conforme foi notado pelos tripulantes do avião. E após atingir uma altura de cerca de 1000 metros, o “Blumenau” descia novamente e com rapidez, um tanto precipitadamente para alcançar outra vez o ponto de onde partimos.

Era, disse-nos o piloto do avião, o tubo de óleo que não estava funcionando com regularidade e, por isso, necessitava de reparos, que demandariam cerca de duas horas.

Apresentava-se-nos uma oportunidade para percorrer a cidade de Aracaju e íamos aproveitá-la.

GREVE DE CHOFERES

Aracaju, a pacata capital do pequenino Sergipe, recebeu-nos a mim e aos meus companheiros de excursão com curiosidade. Ainda é herói em nossa terra quem viaja de avião. E nós éramos considerados como heróis...

Tornava-se incômoda aquela situação de alvos da curiosidade pública e, por isso, procurávamos um meio de evitá-la aproveitando também a oportunidade para conhecer a cidade.

Saímos em busca de automóveis, mas em vão, pois não encontramos um só desses veículos de aluguel na cidade. Um sergipano baixo e cheio incumbiu-se de dar-nos a explicação de ausência de autos e fê-lo na sua linguagem de homem do povo, dizendo a monsenhor Costa Rego:

- Hoje, “seu” padre, não há automóvel, não sinhô. Os “chofé” estão em greve porque obrigaram eles a mudar de ponto.

E um outro habitante de Aracaju atalhou logo, desolado:

- Que triste impressão vão os senhores levar de Sergipe!...

Mas, “há males que vêm para bem” diz o rufião. A greve dos choferes privou-nos de percorrer a cidade, que víramos do alto. Em compensação proporcionou-nos ensejo de manter com um homem simples, uma palestra pitoresca em que a língua por vezes solta de um velho bacharel, de um bacharel de 84, teve palavras de brasa contra muitos dos nossos homens públicos.

UM SENHOR DE ENGENHO, O GOVERNADOR DE SERGIPE:

Na falta de um meio de condução que nos levasse aos diversos pontos da cidade, não nos aventuramos a andar a pé pela cidade de Aracaju, para evitar que se formasse uma procissão atrás de nós. Era, no entanto, necessário esperar que terminassem os consertos no avião. Por isso, encaminhamo-nos para o cais, onde se aglomeravam populares para ver o aparelho. Monsenhor Costa Rego, era quem mais chamava a atenção dos sergipanos, que para ele se voltavam curiosos. Assim, quando o ilustre sacerdote chegou no coreto existente no cais, foi logo abordado por um cavalheiro de idade avançada, cabeça inteiramente calva, bigodes brancos e barba por fazer, olhos empapuçados e orelhas um tanto grandes, que, de chofre, lhe perguntou:

- Seu padre, o senhor veio de avião?!

- Sim, vim no “Blumenau”.

- Que coragem, seu padre! Eu não viajaria naquele bichinho, nem para ganhar mais de dez anos de vida... Deus deu asas aos pássaros e só os pássaros podem voar. Se Deus quisesse que os homens voassem, ter-lhes-ia dado asas também. Se não o fez...

- Qual! – atalhou o vigário geral – não há o menor perigo em viajar-se em aeroplano. Creio que o automóvel oferece menos segurança.

Embora, porém, todos os argumentos de monsenhor Costa Rego, corroborados por mim e pelo terceiro companheiro de viagem, o velho mostrou-se irredutível, assegurando:

- Salviano Corrêa de Oliveira Andrade, advogado formado em 1884, morador em São Cristóvão, nunca viajará naquilo. Quero morrer naturalmente e não precipitar os acontecimentos.

Em pouco a conversa descambou para a política e o velhinho, entusiasmando se, provocado sempre por monsenhor, ia falando de uma situação, atacando outra oposição, elogiando Pernambuco e dizendo sempre:

- Isto é um país perdido. Então Manoel Dantas é lá homem para governar Sergipe?! Ele é um senhor de engenho, um coronel de poucas letras, um homem rude. Honesto, isto lá ele é. Mas nunca estudou direito administrativo, não sabe o que é uma administração adiantada.

- Então o senhor é oposicionista?

- Não! Sou conservador. Não posso formar com esses malucos dos liberais. Eles querem implantar aqui doutrinas do Soviet e eu, um homem de leis, não posso estar de acordo com eles. Sou conservador e, embora tenha admirado o governo que fez o doutor Graccho Cardoso, não posso aplaudir-lhe o gesto que vem de ter rompendo com o governo. É um homem inteligente mas dessa vez falhou. Eu acho é que nós precisamos de uma monarquia como a de D. Pedro II, a de Victor Manoel, a de Jorge V. só assim é que consertaríamos a situação má que atravessamos.

- Mas Mussolini é um ditador e o senhor, um homem de lei, não pode aprovar uma ditadura! – disse provocadoramente monsenhor Costa Rego.

- De modus in rebus – fez o doutor Corrêa – Ele salvou a Itália do abismo. Eu ando bem informado, esteja certo, pois sou assinantes do Diário de Pernambuco, o decano da imprensa brasileira.

E o bom velho, atacando os liberais, fazendo caretas horríveis quando pronunciava a palavra liberal, entrou a dissertar sobre a política federal, a pernambucana até que, provocado por monsenhor Costa Rego, abordou a situação de Alagoas, assegurando:

- Lá está um tal Sr. Paes, um homem de poucas letras, tal como o Sr. Manoel Dantas.

- Mas ele é seu colega, bacharel – disse um dos presentes.

- Ser bacharel, hoje, não é nada. Vai-se agora analfabeto para a Bahia e volta-se sobraçando uma bolsa de couro e com o título de bacharel. Pergunta-se a um desses bacharéis o que é Corpus Juris e ele dirá que é sanduíche... no meu tempo, sim, é que se estudava para se obter um pergaminho assinado em nome de Sua Majestade o Imperador.

Hoje, parece que os bacharéis sabem tanto como o coronel Manoel Dantas. Monsenhor Costa Rego procurou ainda encaminhar a palestra para o seu irmão, o ex- governador de Alagoas. O avião, porém, já estava pronto e tivemos necessidade de deixar o bom velhinho, que, ao despedir-se do sacerdote, depois de abraça-lo demoradamente, fez questão de novo abraço, dizendo:

- Esse abraço foi-me ao coração! Dê-me outro, seu padre!

Daí a instantes, depois de uma tentativa frustrada, o “Blumenau” levantava voo e demandava a Alagoas, para daí tomar a direção de Recife, onde desembarquei, afinal, às 15 ½ horas de ontem.

Preparo-me agora para atravessar o sertão pernambucano, andar várias léguas de trem e automóvel para conseguir penetrar em Princesa. Conseguirei? Lograrei defrontar-me com o coronel José Pereira e entrevista-lo? É o que vou tentar.

O Jornal - 18.04.1930

NO REDUTO DO SR. JOSÉ PEREIRA, O CHEFE SERTANEJO DISSIDENTE DA PARAÍBA – A VIAGEM DO ENVIADO ESPECIAL D’ O JORNAL, DO ;DIÁRIO DA NOITE;, DO RIO E DO;DIÁRIO DA NOITE; DE S. PAULO ATÉ A CIDADE DE PRINCESA, NO INTERIOR PARAIBANO – OS RECURSOS BÉLICOS DOS CANGACEIROS – O AMBIENTE NO SERTÃO DA PARAÍBA

Levado pelo intuito de oferecer aos seus leitores um depoimento tão amplo quanto possível, em torno dos acontecimentos que se estão desenrolando no interior paraibano, com a ocupação da importante cidade de Princesa por um grupo de homens armadas, sob a chefia do Sr. José Pereira, O JORNAL, em combinação com o Diário da Noite desta
capital e o Diário da Noite de S. Paulo destacou um dos seus redatores para colher, de visu, no próprio teatro da luta armada, que ora se trava no interior daquela unidade federativa do norte, impressões que logrem dar uma justa ideia e definir as verdadeiras proporções do levante cangaceiro que se opõe ao poder constituído da Paraíba.

O nosso enviado especial teve ensejo, no desempenho da missão de que foi portador, de visitar o reduto do chefe dissidente paraibano, onde demorou-se o suficiente para observar o vulto e os objetivos das atividades rebeldes do Sr. José Pereira, cuja palavra, ainda por seu intermédio, os nossos leitores terão oportunidade de conhecer, através das correspondências que hoje começamos a publicar.

RECIFE, 15 – É das coisas mais penosas ter-se de atravessar o sertão pernambucano, percorrendo léguas e léguas das mais horríveis estradas. Logo que se sai de Recife começa o suplício com a viagem em incômodo trem da Great Western, por caminhos poeirentos, com paradas intermináveis e marcha de caranguejo. E percorrem-se, assim, durante mais de novo intermináveis horas, 270 quilômetros, para atingir-se Rio Branco, o ponto terminal da linha! Viagem bem mais incômoda que em qualquer trem da Linha Auxiliar...

De Rio Branco a Princesa são 30 léguas que se percorrem em automóvel, numa verdadeira corrida de obstáculos em que a perícia e o arrojo dos choferes são a cada instante reclamados. Chegando a Rio Branco às 16 horas do dia 12, quatro horas após embarcava eu em um auto que me deveria conduzir à cidade dominada por José Pereira e seus homens.

Não me foi fácil encontrar quem me conduzisse até princesa, dado o receio dos choferes de penetrar na cidade que se encontra fora da lei e onde se afirma José Pereira vem desde longos anos fazendo valer a sua vontade, encobrindo crimes e mandando executar outros.

Afinal, com a interferência do prefeito de Rio Branco, coronel Antonio Japiassu, que tinha interesse em mandar para o seu colega de Flores, coronel Antonio Medeiros, a fim de que este as enviasse a José Pereira, duzentas e cinquenta alpercatas de couro cru, que recebera de Recife, conseguiu-se um auto com chofer disposto a fazer a longa caminhada.

No auto, porém, deveriam seguir as alpercatas...

No dia imediato, domingo, entrava eu em Princesa, onde a melhor das recepções me foi feita e da qual me ocuparei em outra reportagem. Quero agora dizer como encontrei a cidade de onde José Pereira se corresponde, como ele próprio me afirmou, diretamente com os presidentes da República e de S. Paulo.

DESOLAÇÃO

José Pereira havia sido avisado de minha visita, e, por isso, tratara de preparar ambiente para que a minha impressão fosse a melhor possível. Mandara vir para a cidade algumas famílias, determinara que se preparasse uma mesa farta para o almoço, fizera com que os melhores dos seus homens, os mais abastados, ficassem na parte central do lugar, de forma que eu trouxesse de Princesa uma impressão que desmentisse tudo o que de mal se dizia a seu respeito.

E, efetivamente, a julgar pelo que me foi mostrado em Princesa, teria eu de voltar daquele longínquo lugar aplaudindo a atitude de José Pereira, se não estivesse bem ao par da situação dos verdadeiros motivos que determinavam o seu gesto de rebeldia.

Princesa bem merece o nome que tem, pois é uma cidade de bom aspecto, a melhor dos que percorri em toda a zona sertaneja, exceção feita de Triunfo. Possui boas estradas, bens prédios, recursos próprios, embelezamentos naturais e feitos pela mão do homem, sendo, no sertão, uma cidade em que se pode viver.

Logo à entrada, porém, da cidade, tem-se a impressão de desolação e tristeza: casas abandonadas e inteiramente fechadas, com mato a atingir já à altura das janelas. Nem uma só pessoa em longa extensão, para afinal só se encontrar homens em armas, quando se entra na porta central do povoado.

Às margens das estradas, trincheiras construídas de pedra e barro, tendo a guarda-las sertanejos de caras assustadas e olhos inquiridores.

E Princesa que, em dias normais, deve ser uma cidade de movimento, atraente e interessante, apresentava naquele domingo em que lá estive um aspecto de desolação.

AS ARMAS DE PRINCESA

Na longa palestra que comigo entreteve, José Pereira teve ocasião de referir-se às armas com que conta, armas que, escassas a princípio, ele afirma serem agora abundantes, o mesmo sucedendo com relação à munição, que me foi assegurado bastar para seis meses de luta. E disse-me:

- “Afirmar-se que o governo pernambucano me vem auxiliando, fornecendo-me armas, munição e gente, é uma inverdade. As armas que aqui tenho são de particulares e foram adquiridas para combater os cangaceiros, quando Lampião andou por aqui. O Sr. João Pessoa quis toma-las, como fez com outros municípios, mas eu não me submeti à sua ordem e por isso, tenho hoje armas. Possuo também duas metralhadoras além de um pequeno canhão que só serve para arrombar portas. O governo de Pernambuco só tem feito prejudicar-me, com revistas rigorosas e vexatórias à entrada da cidade, fazendo ainda com que amigos que tenho em localidades pernambucanas deixem de vir dar-me a sua adesão, pelo temor das consequências que as providências do Sr. Estácio fazem prever.”

Nessa revista o carro em que eu viajei sofreu e foi efetivamente rigorosa. Verificou-se o mesmo em Flores, à saída da cidade. Entretanto, pouco antes dela ser feita, o comandante do destacamento do lugar, tenente Severino Felix, respondendo a uma pergunta por mim feita sobre a passagem para Princesa e os empecilhos que poderia encontrar, disse-me:

- “A não ser armas, que só passam com ordem do governo”, tudo mais pode seguir, sem qualquer dificuldade”.

OS HOMENS DE JOSÉ PEREIRA

Em Recife, assegurava-se que José Pereira tinha sob suas ordens cerca de 1500 homens.

O chefe do movimento armado afirmou-me, porém, que conta com 700 homens aproximadamente, o que leva a acreditar ser ainda inferior o número de sertanejos em 
armas.

Os que foram apresentados o farão como fazendeiros, lavradores, operários, gente do lugar, exclusivamente, havendo até entre eles um bacharel em direito, que exercia em tempo normal as funções de promotor da cidade. Mostravam-se todos animados e confiantes na vitória.

José Pereira teve a habilidade de fazer-lhes crer que se o governo paraibano conseguir vencê-los, terão todos eles as suas vidas sacrificadas e as suas propriedades incendiadas.

Por isso, o encarniçamento com que lutam.

Um desses homens, a quem transportei de Princesa a São José, no automóvel que me servia, declarou-me: - “Eu não estou nessa luta por gosto, pois não tenho e nunca tive prazer em matar ninguém. Mas devo tantos favores a José Pereira que não posso deixar de estar a seu lado. Além disso não quero ser “sangrado” nem tão pouco que eles incendeiem a minha propriedade.”

Assegurou-me José Pereira que Princesa unânime está a seu lado e que aqueles que não lutam por não terem sangue de homem de guerra, favorecem a sua causa, fornecendo-lhe recados, roupa e mesmo gado.

A RESISTÊNCIA DE PRINCESA

Não obstante toda a fanfarronada de José Pereira, dizendo que Princesa não cairá e que poderá manter-se em luta durante meses e meses, a impressão que trouxe daquela zona e do que observei é que o reduto de José Pereira não poderá resistir a um ataque forte das forças paraibanas, ataque que talvez, à hora em que estas notas estiverem circulando, esteja sendo feito.

As forças rebeldes não têm chefes capazes de um bom plano estratégico, pois cada qual dá a sua opinião, que José Pereira acata, para depois aceitar outra inteiramente contrária.

Em guerrilhas, em emboscadas, são capazes de manter-se em luta longo tempo. Mas a um ataque seguro não terão com que resistir. É preciso saber se a polícia paraibana conta com técnicos capazes de levar a efeito esses ataques.

A VOLTA A RIO BRANCO

Não quis voltar a Rio Branco sem passar por Patos, onde se dera, havia pouco, um encarniçado combate entre 50 soldados paraibanos e 300 rebeldes, e por Triunfo, onde estão as forças pernambucanas incumbidas de garantir a... neutralidade.

Encontrei Patos abandonada, com suas casas cheias de perfurações de balas, umas derrubadas a dinamite e outras bastante estragadas. Nem soldados paraibanos, nem sertanejos de José Pereira. Tudo em abandono!

Triunfo é uma vila privilegiada. Situada em lugar de clima aprazível, produzindo tudo o que se queira, a Petrópolis pernambucana deveria merecer as atenções dos governantes do Estado. Celeiro de todo o sertão daqueles lados, Triunfo deveria ter boas estradas que lhe dessem acesso, a fim de que o seu movimento correspondesse ao seu adiantamento.

Entretanto, o Sr. Estácio Coimbra que cobra dos municípios um pesado imposto destinado à conservação e melhoria das estradas, deixa a que vai de Patos a Triunfo e desta cidade a Flores em estado tal que só mesmo muita necessidade pode fazer com que alguém se aventure a percorre-la em automóvel. Foi um trajeto penoso, cheio de perigos, e que, feito à noite, mais difícil ainda se tornou.

De Flores a Rio Branco, embora melhores, as estradas muito atrasaram a viagem, pois por duas vezes vi o carro atolado, só conseguindo pô-lo novamente em movimento depois dos mais ingentes esforços, só postos em prática para que não visse a retardada de 48 horas a minha partida para Recife, visto que, se perdesse o trem de segunda-feira, só teria outros dois dias depois.

Estava-me ainda reservada uma outra surpresa desagradável. Às 5 horas, depois de viajar toda uma noite por péssimas estradas, quando ainda faltavam seis quilômetros para atingir Rio Branco, a gasolina acabou. E eu, que viajara de avião milhas e milhas, que fora passageiro de trem e automóvel por caminhos intermináveis, acabei por ter de fazer 6 quilômetros a pé para alcançar Rio Branco, onde cheguei, enfim, a tempo de tomar o trem e chegar ontem, à noite, a Recife, para escrever a próxima crônica, em que inicio, realmente, o relato da minha palestra com o famoso Zé Pereira.

O Jornal - 24.04.1930

O MOVIMENTO SUBVERSIVO DA PARAÍBA –
COMO O SR. JOSÉ PEREIRA FALOU EM PRINCESA, AO REPRESENTANTE D’ O JORNAL E DO DIÁRIO DA NOITE – OBJETIVOS DA LUTA, SEGUNDO OS PROGNÓSTICOS DO CHEFE REBELDE – À ESPERA DA INTERVENÇÃO FEDERAL –UM COMENTÁRIO À MARGEM DA ATITUDE DA JUNTA APURADORA DO ESTADO 

RECIFE, 13 de abril de 1930 – Prosseguindo no meu relato, tive, logo depois, de aceder a um convite do Sr. José Pereira para tomar parte no seu almoço. Durante a refeição, a palestra versou sobre os mais variados assuntos, até que, à certa altura, disse-me o chefe reacionário de Princesa, empunhando uma taça de champanhe:

- É ainda champanhe que sobrou do banquete que oferecemos ao Sr. João Pessoa.

- E por que – perguntei, sendo oferecido esse banquete num dia logo no outro o Sr.
rompeu as hostilidades?

- Simples – contestou-me o Sr. José Pereira. É que recebido aqui com todas as festas e honrarias, o Sr. João Pessoa sempre que eu lhe fazia perguntas sobre a reunião da Comissão Executiva do Partido, fugia do assunto, atacando outra palestra. Quando, afinal, deixou Princesa entregou ao major Soubreira um papel para me ser dado. Tratava-se da
chapa do Partido. Foi o que mais me exasperou.

O senhor José Pereira, ainda apreciou outros aspectos da questão, falando sempre com extrema volubilidade.

RELAÇÃO DE CRIMINOSOS QUE SERVEM AO SR. JOSÉ PEREIRA

Depois de terminado o almoço, passamos à sala, onde a palestra prosseguiu sempre animada. Conversador incorrigível, dado a espirituoso, o Sr. José Pereira nem sempre guarda a discrição que seria (...) em um homem que tem as suas responsabilidades.

Assim foi que, ao lhe fazer eu perguntas sobre os criminosos que tem entre os seus homens, obtive a seguinte resposta:

- Eu não tenho bandidos entre os meus homens, pois procuro selecioná-los sempre. Aliás, não faço isso por escrúpulo próprio. Por mim, eu aceitaria tudo o que caísse na rede. A questão, porém, é que não quero desmerecer a confiança que em mim depositam os senhores Washington Luís e Júlio Prestes, confiança essa manifestada em telegramas que tenho em meu poder. Por eles é que não aceito bandidos para servir entre os meus homens.

Aludimos, então, à lista de criminosos publicada pela União, órgão oficial do governo paraibano.

Sem perceber o alcance de suas declarações, retrucou o Sr. José Pereira:

- Pois então vejamos: “Sinhô Salviano” – esse homem matou efetivamente dois oficiais, mas fê-lo em defesa de seu irmão, que foi morto. Desse crime já foi absolvido. “Tocha” e “Moreno”. – Esses mataram em Triunfo, mas foram absolvidos, tendo o promotor apelado.

“Possidônio Cosello Branco” – matou um oficial de polícia em Flores, mas já foi absolvido.

“Manoel Virgulino” – tirou a vida a um homem, foi condenado, porém o crime prescreveu.

“José Soares” – esse nunca praticou crime nem foi condenado. Esteve preso, mas por engano, por um crime praticado por outro José Soares, que não é ele. “Marcolino Diniz” – esse é meu cunhado e teve necessidade de matar um homem em Triunfo; entretanto, já foi absolvido. E, assim, todos os demais.

E como para frisar:

- Eu queria agora é que o Sr. João Pessoa, por sua vez, contasse a crônica do famoso “Quelé”, tenente José Guedes e outros.

COMO O SR. JOSÉ PEREIRA SE REFERE AO SENADOR EPITÁCIO PESSOA

A palestra, já agora provocada pelo Sr. Epitácio Pessoa de Queiroz, que se achava presente, voltou a girar em torno do Sr. João Pessoa, alvo da indignação do Sr. José Pereira.

O chefe rebelde de Princesa lamenta, nessa altura, que o Sr. Epitácio Pessoa tenha ficado ao lado do atual presidente da Paraíba, acentuando entretanto:

- Eu tenho pelo Sr. Epitácio a mais viva gratidão, a maior admiração, reconhecendo nele o maior dos brasileiros vivos. Nada lhe devo a não ser elogios que ele teve ocasião de fazer- me no Rio Negro, na presença do Sr. Arrojado Lisboa, ao passo que S. Excelência me deve até o governo da Paraíba, pois foi por minha causa que o seu nome saiu vitorioso em 1915. Princesa foi o fiel da balança.

AGUARDANDO A INTERVENÇÃO FEDERAL

Mais adiante perguntei ao Sr. José Pereira, como esperava viesse a terminar o movimento subversivo e ainda o que esperava afinal de tudo isso. O chefe rebelde respondeu logo:

- Espero pôr fora do governo ao Sr. João Pessoa.

Peguei em armas e não me entrego, visto não querer que amanhã a Câmara de que faço parte dê permissão para que eu seja processado como qualquer criminoso comum. Ainda se o governo reconhecesse que se trata de um crime político vá lã. Mas o Sr. João Pessoa não entende assim e hostiliza rudemente todos os meus correligionários, criando um
ambiente de irritação surda contra o seu governo, de forma que hoje todos os habitantes de Princesa estão em armas em legítima defesa, não só para serem processados como bandidos como também para defender as suas propriedades. Se eu tivesse bandidos e quisesse saquear, como se afirma, não teria os escrúpulos que venho tendo.

Fez ainda considerações para justificar-se dizendo que tanto a mesa de Rendas como os Correios estão intactos.

- Se eu fosse assassino – prosseguiu – não teria poupado os soldados paraibanos que aqui estão presos, e não trataria dos feridos que estão em meu poder. São fatos que saltam aos olhos.

PLANOS DE GUERRILHAS

Perguntei-lhe, então, se pretendia depor o governo.

- Não. Eu não o atacarei. Continuarei a defender-me com toda a energia, certo de que eles aqui não entrarão. Se, por fim, não conseguir defender este reduto, dividirei meus homens em grupos de 50, 100, 200 e entrarei a assolar o Estado, fazendo guerrilhas e emboscadas. Mas creio que nada disse se verificará, por ter o governo de intervir aqui.

Ponderei que a intervenção se podia dar para garantir o governo legal! da Paraíba.

- Não creia – respondeu o Sr. José Pereira. O governo federal fará a intervenção para apaziguar o Estado, retirando do poder o Sr. João Pessoa. Não pode vir contra mim, que tenho sofrido pelo apoio que lhe dei, em favor de um adventício da Paraíba, de um governo que se colocou fora da lei, de um governo realmente ilegal e revolucionário. 

Nós aqui temos como certa a intervenção do governo federal, que nos dará ganho de causa.

VISITANDO A CIDADE

Fui, logo depois, convidado pelo Sr. José Pereira para uma excursão à linha de frente, em Tavares, o que, infelizmente, não foi possível realizar-se, pela intervenção de outras pessoas. Diante disse, fizemos uma visita à cidade. Fomos à praça Epitácio Pessoa, que o Sr. José Pereira afirmou estar sendo construída a suas expensas. Estivemos nos açudes Macapá e Barão de Ibiapina; andamos pelos arredores, percorrendo edifícios públicos, para, afinal, voltarmos ao ponto de partida.

A certo ponto, querendo provocar uma manifestação do chefe dos rebeldes sobre a atitude da Junta Apuradora da Paraíba, disse-lhe:

- Ninguém, no Rio nem em Recife, mesmo entre os mais exaltados governistas, quis ainda defender o ato da Junta Apuradora da Paraíba, diplomando os oposicionistas.

- Efetivamente – respondeu logo o Sr. Pereira – aquilo foi uma decisão escandalosa, e ninguém esperava tal decisão. Mas não tenha dúvida de que o presidente da República mandará reconhecer os diplomados...

Depois dessa confissão, pouco honrosa, aliás, para o Sr. Washington Luís, o chefe rebelde desconfiou, talvez, que teria avançado em demasia, não mais tocando no assunto, passando a dizer, já respondendo a uma pergunta minha, que, de fato, recorrera ao padre Cícero, pedindo homens e munições, no que não foi atendido. 

Assegurou, ainda, que não tinha agentes entre os cangaceiros do Ceará, e, nesse diapasão, sempre atacando o Sr. João Pessoa, o coronel José Pereira abordou ainda assuntos de menor importância, até à hora em que, afinal, deixei Princesa, com destino a Triunfo, para passar pela povoação de Patos, onde se travara vivo combate, há pouco.

O Jornal (RJ) - 26.04.1930

IMAGENS que integram a reportagem: José Pereira - Rua coronel José Pereira, em Princesa - Grupo de homens armados na proximidade da casa de José Pereira - Rua coronel Marcolino Pereira, em Princesa.

Enviado por: Antonio Corrêa Sobrinho

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

CANGAÇO EM CATOLÉ DO ROCHA, PB INVASÃO DA FAZENDA DOIS RIACHOS

Por Eptácio de Andrade
Casa Grande da Fazenda

Fachada frontal

Em entrevista concedida ao escritor Epitácio Andrade, neste dia 05 de outubro de 2015, no restaurante Mangai, em Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, o cidadão nonagenário Francisco Lobo Maia ¨Chico Lobo¨, de 92 anos, narrou com riqueza de detalhes a invasão da Fazenda Dois Riachos, localizada na zona rural dos municípios de Catolé do Rocha e Belém de Brejo do Cruz, ambos no Alto Sertão paraibano, pelo bando do cangaceiro pombalense Ulisses Liberato de Alencar e do famigerado Sinhô Pereira, um dos mentores do não menos afamado Virgulino Ferreira, o Lampião.

Epitácio Andrade com Chico Lobo
O bando era formado por 20 facínoras, dentre eles, Gato Vermelho, Gavião, Polvinha e o maníaco Chá Preto, que bolinou os seios de uma senhora presente no momento da invasão à fazenda. Na segunda década do século XX, a disputa pelo mandonismo 'coronelístico' no Sertão nordestino motivou o fatídico ataque à fazenda do coronel da guarda nacional Valdivino Lobo, genitor do senhor Chico Lobo.
  
Coronel Valdivino Lobo
Depois de sair, por divergências com o chefe político José Queiroga do município de Pombal, na Paraíba, onde se localiza a Fazenda Estelo, propriedade de seu genitor Francisco Liberato de Alencar, lugar onde nascera em 1894. Ulisses Liberato migrou em 1918 para Milagres, no cariri cearense, onde ficou homiziado na Fazenda Trapiá do major-coiteiro José Inácio de Souza, conhecido como major Zé Inácio do Barro. 

A mando do major-coiteiro Zé Inácio do Barro, Sinhô Pereira e Ulisses Liberato comandaram o ataque à fazenda Dois Riachos. Cuja empreita envolvia semelhante ação criminosa contra outras fazendas vizinhas, como as pertencentes a Adolfo Maia e a Rochael Maia. 
 A fazenda de Adolfo Maia foi depredada por Sinhô Pereira e a fazenda de Rochael Maia não chegou a ser invadida. No percurso do Ceará a Paraíba, o bando enfrentou uma força pública próximo a cidade de Catolé do Rocha o que motivou sua entrada na cidade de Jericó, onde promoveu depredações e roubos. Antes da invasão, os cangaceiros pernoitaram na Fazenda Santana, do senhor Antônio Saldanha, na zona rural de Catolé do Rocha. 
Na época da invasão à Fazenda Dois Riachos, o almocreve e já cangaceiro Ulisses Liberato, casado com a sertaneja Santina Benevides, desde 1919, tinha o Povoado do Jordão, localizado entre os municípios de Patu e Caraúbas, como seu ponto estratégico. No livro Jordão e seus Habitantes, prefaciado pelo mestre sertanista Raimundo Soares de Brito (Raibrito), a escritora caraubense Raimunda Dalila de Alencar Gurgel informa que o povoamento do Jordão começou em 1870. Em 1892, foi construído o açude. 
E foi reconstruído em 1926, depois de arrombar numa cheia.
Escritora Dalila Alencar

Raibrito com A saga dos limões (2011)
Em 1937, foi construída a capelinha de Imaculada Conceição, pelos pedreiros Tião Maia e Zé Pequeno. As senhoras Raimunda Godeiro e Maria dos Anjos auxiliavam na realização das novenas. A imagem da santa foi trazida do Rio de Janeiro/RJ, por dona Brígida Saboia.

Capela do Jordão
Em 23 de setembro de 1943, foi realizada a primeira festa da padroeira.
Em 1964, foi adquirido o harmônio.
Harmônio
No período de 20 a 22 de julho de 1950, ocorreram missões de Frei Damião e Frei Fernando, acompanhados pelo bispo João Batista Portocarreiro.

Em 1926, foi construída a casa de Quincas Godeiro.
Em 1930, teve início o roço da caatinga para a construção da estrada de ferro Mossoró-Souza.

 Estrada de Ferro de Mossoró
Acervo Geraldo Maia

Em 1936, o engenheiro Manoel Marques entregou a estrada de ferro. Da Fazenda Dois Riachos foram subtraídos dois contos e oitocentos mil réis, além de 120 libras esterlinas. Valores integralmente entregues ao major Zé Inácio do Barro, que recompensou Ulisses com 200 mil réis pelo serviço.
Depois do assalto, Ulisses ficou refugiado em Juazeiro por dois meses. No mesmo ano da invasão a sua fazenda, o coronel Valdivino viajou ao Rio de janeiro, capital federal do Brasil, para um encontro com o presidente Epitácio pessoa que fora seu contemporâneo no ciclo ginasial.
Epitácio Pessoa
Era o tempo da ¨Política das Salvações¨, que pretendia instituir uma nova ordem e defendia um combate ao coronelismo. A invasão à  Fazenda do coronel Valdivino teve grande repercussão na imprensa.



O presidente depois de ouvir o relato do ex-colega articulou a integração de autoridades das províncias do nordeste para unir forças numa perseguição implacável ao major-coiteiro Zé Inácio do Barro e um combate sem tréguas ao cangaceirismo. No dia 11 de setembro de 1922, Ulisses Liberato, sem o bando, foi preso na comunidade de Alagoinha, em Lavras da Mangabeira, no Ceará e, em seguida, recambiado para a cadeia do Crato sendo minuciosamente interrogado no dia 24 de janeiro de 1923 pelo delegado major Raimundo de Mores Brito e recolhido à prisão, onde já se encontrava Chá Preto e Polvinha. Chá Preto teve a mão direita decepada à machadada. A pretexto de ser feita a sua barba foi chamado um barbeiro, que realizou um trabalho de um ofício medieval, o barbeiro-cirurgião.
Barbeiro-cirurgião
Cravando-lhe um punhal na subclávia, o maníaco agonizou até a morte.
O major Zé Inácio não resistindo a implacável perseguição, resolveu emigrar para Goiás, aonde veio a ser assassinado, em São José do Duro (uma corruptela de São José do Ouro, hoje no estado de Tocantins). Em setembro de 1923, Ulisses Liberato, com 29 anos foi sumariamente fuzilado. Polvinha o acompanhou na linha de fuzilamento.
Pescado em Cosmogonia
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

CANGACEIRO ESPERANÇA SUA PRISÃO E SUA HERANÇA

Por João de Sousa Lima

A fazenda Quirino, no povoado São Francisco, Macururé, Bahia, era um  dos coitos do bando de Lampião e principalmente reduto dos cangaceiros nascidos entre Macururé, Brejo do Burgo, Santo Antonio da Glória  e Chorrochó. Entre eles Gavião, Azulão, Esperança, Cocada, Zé Sereno, Zé Baiano e Gato. No povoado São Francisco a mãe de Esperança, dona Andressa, tinha terras por lá, porém ela residia na Várzea da Ema.

Cangaceiro "Esperança" ao centro.

O comandante de volante que destacava na Várzea da Ema era Antonio Justiniano e dois dos soldados que ele comandava eram irmãos de Esperança: Vicente, apelidado de Medalha e Ananias. A fazenda pertencia a Ludugero, tio do cangaceiro Esperança.
Ludugero, tio de Esperança, dono da fazenda Quirino.

João e Jovelina Barbosa, irmã do cangaceiro Azulão, 
povoado São Francisco.

Esperança, Cocada, Pancada e Gavião, encontravam-se acoitados próximo ao sítio Quirino. Dentro de um cercado os cangaceiros catavam imbu quando chegou o dono do terreno e Cocada o prendeu e depois o soltou. O sertanejo correu e foi avisar policia do encontro que teve com os cangaceiros.
    
Dona Andressa sempre que precisava ir ver suas criações no São Francisco tinha que pedir autorização ao comandante do destacamento e foi em uma dessas viagens que ela travou diálogo com o contratado Reginaldo que lhe sugeriu pedir para que Esperança se entregasse que nada lhe aconteceria, de preferência que ele trouxesse a cabeça de um companheiro que sua vida tava garantida. Andressa levou o recado ao filho que mesmo relutante acabou cedendo aos apelos da querida mãe. Reginaldo mandou roupas novas de mescla azul para Esperança. O cangaceiro ainda relutante disse a mãe que não tinha coragem de se entregar e a mãe saiu triste.
    
Era março de 1933, no coito encontrava-se Esperança, Cocada, Gavião e Pancada.  Esperança chamou Cocada para irem pegar água em um caldeirão ali próximo. Os dois seguiram na direção do caldeirão. Diante quando chegaram ao caldeirão sentaram-se e ficaram conversando. Cocada limpou sua arma e depois pediu a arma do amigo para ele limpar e Cocada entregou seu mosquetão. Esperança limpou, colocou uma bala na agulha e detonou. O cangaceiro com o impacto do tiro caiu uns dois metros de distância e sem saber de onde tinha partido o disparo pediu socorro:
- Me acode Esperança, não deixe os “MACACOS” me matar!
Esperança pegou o facão da marca jacaré, partiu na direção do moribundo e o degolou ainda com vida. Pegou os bornais, armas, a cabeça do cangaceiro e foi se entregar a policia.
 Cabeça do Cangaceiro Cocada,
morto pelo "colega" Esperança

Na Várzea da Ema ele se entregou  as autoridades, contou detalhes da morte que fez, denunciou os coitos dos cangaceiros na região. Com dez dias  depois  foi encaminhado para a cidade de Uauá, onde o capitão Manoel Campos de Menezes que o livrou da prisão e o incorporou na volante policial do tenente Santinho como contratado . Ficou sendo o corneteiro do grupo. Trabalhou em Jeremoabo e faleceu tempos depois na cidade de Juazeiro, Bahia.

Ainda na prisão em Várzea da Ema.

O cangaceiro Esperança quando preso, já atendendo agora por Mamede, seu nome real, encontrou o com o jovem sobrinho José  Gonçalves Varjão, apelidado de Pororô e lhe confidenciou que na frondosa árvore lateral a casa de sua família, enterrado próximo ao seu tronco, tinha um material guardado e que ele tirasse e entregasse a seu pai. Pororô procurou ao redor da árvore mais diante da pouca idade não encontrou forças para continuar a empreitada de escavação no duro chão de cascalhos.

O tempo passou, Pororô cresceu e retornando certo dia de uma caçada, quando se aproximava de sua velha residência, viu quando seu cachorro passou acuando um preá, o cachorro parou próximo a antiga e frondosa árvore, Pororô se aproximou e viu o cão rosnando e olhando para um pé de macambira, Pororô tirou a cactácea e avistou uma lajota cobrindo um buraco, tirou a pedra, o preá correu com o cachorro latindo atrás, Pororô puxou um tecido em farrapos que cobriam algumas peças, entre elas: Uma colher de prata, 160 cartuchos de fuzil, um punhal, uma espora e algumas moedas.
 Colher de prata de Esperança 
presenteada ao escritor João de Sousa Lima pelo sobrinho do cangaceiro.

Era esse o tesouro de Esperança que ele havia pedido para o sobrinho guardar. Pororô vendeu os cartuchos a um dos prefeitos de Macururé. A colher de prata, algumas moedas, o punhal e uma das esporas ele me presenteou. Na colher encontramos as letras: MA. Talvez o cangaceiro tenha tentado escrever seu verdadeiro nome: MAMEDE. No punhal tem um “NA” ou “NH”.
Detalhe do cabo do punhal de Esperança

Pororô ainda reside e seu irmão Izidoro ainda residem no São Francisco e os Quirino é herança que ficou com a família. Aquele longínquo pedaço de chão ainda guarda as histórias do cangaço vivido em suas terras, memórias ainda latentes de um tempo que teima em não ser esquecido e nem deve....
João de Sousa Lima ladeado por Izidoro e José Pororô
Sobrinhos de Esperança.

Segue em anexo a esse texto uma das cartas de interrogatórios realizados pela polícia e que mostra a importância desses lugares citados com a história do cangaço e a referência com pessoas da localidade. A carta vai transcrita na integra com os erros e incorreções:
“Aos três do mês de maio de 1932, no arraial de Várzea da Ema em casa de residência do segundo tenente Antonio Justiniano de Souza, sub delegado de policia, foi interrogado o bandido acima referido que disse:
   
“Em 1929, estando ele bandido, em seu rancho no lugar denominado São Francisco, foi surpreendido pelo grupo de Lampião que ali chegava a mando do Cel. Petronílio de Alcântara Reis, para que fosse as imediações do Icó e ali receber dinheiro enviado para Lampião, cuja importância era 20:000$000, mas só foram entregues 18:000$000 e que dois restantes Lampião disse que dava por recebido, quando lhe mandasse um cunheito de munição; o que não sabe-se se isso efetuou-se,  mais depois ouviu do bandido ferrugem a declaração de que teve referido Cel. Petronilio havia comprado munição. E que devido a esse encontrão foi ele depoente obrigado a refugiar-se nas Caatingas, pois as forças andavam a sua procura tendo por isso de quando em vez constantes encontros com os cangaceiros, merecendo do mesmo consideração a ponto de lhe ser entregue por “Lampião” um rifle com cem cartuchos, os quais conservou até a data de sua prisão, não tendo, porém feito uso da dita arma para a prática de crime.
 
 Sargento Otávio Farias, radiotelegrafista da policia baiana.
Serviu na Várzea da Ema, sempre enviava as mensagens contando os combates 
dos cangaceiros contra as volantes.
Que sempre foi seduzido por “Lampião”  para fazer parte do seu grupo, mas nunca aceitou, apesar de ter parente no grupo, como sejam: Azulão, Carrasco e Moita Brava. Que esses encontros se efetuavam no lugar denominado Quirino para Lagoa Grande, sendo os sinais convencionados para os referidos encontros, três  pancadas em um pau seco, ou então berrando como boi; que nunca recebeu dinheiro de “Lampião” a não ser algumas roupas dadas pelos cãibras.
   
Que nos últimos encontros que “Lampião” teve com as tropas. Ele respondendo notou que alguns companheiros estavam desgostosos por verem os sacrifícios da causa, que nessa data viajaram nos “cascalhos” das aroeiras com direção a Várzea pernoitando a três quilômetros de distância.
   
Que nessa mesma noite desligou-se do bando a meia noite com Manoel Sinhô de Aquileu, sem que fossem pressentidos pelos outros e vieram pairar nas “Canouas” onde foram informados por Pedro de Aquileu que havia garantia para todos aqueles que tinham ligações com cangaceiros, uma vez que procurassem as autoridades para se entregarem.
   
E baseado nisso em companhia de Pedro veio à procura do Tenente Justiniano em Várzea de Ema onde se acha. Disse mais que “Lampião” depois do combate do touro com o Tenente Arsênio cuja força foi emboscada e morreu quase toda, escapando o referido oficial, pois é um herói que enfrentou o grupo que era numeroso, com um fuzil metralhadora dando somente três rajadas conseguiu matar o irmão de Lampião, Ponto Fino e sendo forçado a abandonar a arma deixando-a inutilizada pelos bandidos.
 Tenente Arsênio Alves de Souza
Acervo Lampião Aceso
Que nessa ocasião encontrou Lampião cartas ao Cel. Petronilo acusando Lampião, por isso Lampião resolveu queimar algumas fazendas referido Cel. Petronilo.
   
Disse mais que ouviu de Lampião dizer que tinha mil tiros de fuzil enterrados em um ponto lá para baixo, não declarado ao certo o lugar e que ia também a Curaçá a procura de outros mil tiros que tinha para lá.
Quanto ao armazenamento sabe que Lampião tem alguns  rifles ensebados em ocos de pau (ensebados, para não darem o bicho próprio de madeira).
   
Perguntado quais são as pessoas que fornecem armas a Lampião respondeu que não conhece mais sabe que nas fazendas Juá, Várzea, e São José há “coitos” onde lhes prestam bastante serviços em abastecimentos.
   
E por nada mais dizer nem lhe ser perguntado deu-se por findo estas declarações ao presente auto que vae por todos assignados pelo tenente e testemunhas.

Várzea da Ema, 7 de maio de 1932”
João de Sousa Lima,
Historiador e escritor, Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso.
Membro do IGH- Instituto Geográfico e Histórico de Paulo Afonso
Membro do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará- Fortaleza- CE.

Tá tudo lá, no www.joaodesousalima.com


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

FATO ÚNICO UMA CRIANÇA AO RELENTO EM PLENO SERTÃO


Uma criança ao relento em pleno sertão

Uma das maiores dificuldades da mulher cangaceira ao parir, era sem dúvida decidir, como e com quem ficaria o 'rebento'.

Não era permitido que o recém-nascido ficasse com o grupo de cangaceiros e, ao ser exposta às intempéries da natureza (sol, chuva, falta de abrigo, alimentação, água etc..), falecia. Para evitar isso, logo que o bebê nascia, com poucos dias era doado, a um vaqueiro, padre, coronel ou alguma pessoa de confiança.

Às vezes, acontecia de uma cangaceira parir e, sem tempo, ainda, de doar a criança a uma pessoa com as referências supracitadas, Acontecia um tiroteio e, o recém nascido ficava no meio da caatinga, entregue a sua própria sorte e a Deus.

Acima, temos uma foto rara, mostrando uma situação dessa do filho do cangaceiro Ângelo Roque, em que a criança foi recolhida da caatinga através do Tenente Noblat e, posteriormente, foi criada pela família do sargento. Edgar.

Fonte da Foto: Lampeão, Ranulfo Prata.
Créditos: Ivanildo Silveira (Grupo Lampião Grande Rei do Cangaço - Facebook).


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

ECOS DE COMBATES... DA "FAZENDA MARANDUBA"

Por Rubens Antonio

Um dos combates referenciais do Cangaço foi o Fogo da Maranduba. Os militares e jagunços aliados foram duramente fustigados. Aqui, a demanda de um dos soldados sobreviventes, de vinculação dos seus ferimentos àquele combate, em um documento que repousa, atualmente, no Arquivo Público da Bahia.
Transcrição:

TESOURO DO ESTADO DA BAHIA
P.M.E.B

Quartel em Paripiranga, 8 de Março de 1940.
Do soldado 2898 ANTONIO TEODORO CHAVES

Ao sr. Cel. Comandante da PM

ASSUNTO: – requer I.S.O.

Tendo sido baleado no combate contra o grupo de “Lampeão”, no dia 9 de Janeiro de 1932, quando fazia parte da “Col.Ten. Liberato” comandada pelo Sr. Cap. do E.N. Liberato de Carvalho, na fazenda “Maranduba”, Municipio de Poço Redondo, Estado de Sergipe, venho de solicitar–vos um Inquerito Sanitario de Origem, a bem dos meus direitos. Nestes têrmos, pede deferimento.
Sargento Antonio Teodoro Chaves
(Foto inédita na literatura. Cortesia de sua bisneta Gabriella Costa, para o Acervo Lampião Aceso)
 É permitida a reprodução desde que cite-nos como referência primária.

Da "Fazenda Cajazeira"

Pouco conhecido e comentado, em termos de estudos do Cangaço, foi o Fogo da Fazenda Cajazeira, no Município de Cipó, BA. Aqui, a demanda de um dos soldados sobreviventes, de vinculação dos seus ferimentos àquele combate, em um documento que repousa, atualmente, no Arquivo Público da Bahia.

Transcrição:

TESOURO DO ESTADO DA BAHIA
P.M.E.B

Quartel em Paripiranga, 11 de Março de 1940.
Do soldado ANTONIO TEIXEIRA DA SILVA

Ao sr. Cel. Comandante da PM

ASSUNTO: – requer I.S.O.

ANTONIO TEIXEIRA DA SILVA, soldado do 4º B.C., adido ao D–NE., tendo sido acidentado no combate contra o grupo de “Lampeão”, havido na Fazenda Cajazeira, Município de Cipó, Estado da Bahia, no dia 11 de Agosto de 1932, quando fazia parte da “Coluna Tenente Ladislau”, que operava no Nordéste do Estado, vem, mui respeitosamente, a bem dos seus interesses, solicitar–vos um Inquerito Sanitario de Origem.
Termos em que espera e PEDE DEFERIMENTO.
Pescado na fartura do Sítio do Cumpadi Rubens


http://blogdomendesemendes.blogspot.com