Por Cangaçologia
https://www.youtube.com/watch?v=qhwHl1hlfpEhttp://blogdomendesemendes.blogspot.com
Por Cangaçologia
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O carnaval em nossa terra no princípio foi nas Ruas, passou pelo Nova Floresta Clube e retornou às Ruas... Foram blocos diversos, foliões variados, Escolas de Sambas, bloco do ‘eu sozinho’ e alegria constante. E as mais conhecidas Marchinhas carnavalescas faziam parte do repertório: Ó abre alas (Chiquinha Gonzaga), Bandeira Branca (Max Nunes e Laércio Alves), Ta-hí (Joubert de Carvalho), Cidade maravilhosa (André Filho), Mamãe Eu Quero (Vicente Paiva – Jararaca), Jardineira (Benedito Lacerda - Humberto Porto), Allah-La Ô (Haroldo Lobo - Nássara), Está chegando a hora (Carmen Costa), Cachaça (Lúcio de Castro - Heber Lobato - Marinósio Filho), Saca Rolha - As águas vão rolar (Zé da Zilda), Me dá um dinheiro aí (Ivan, Homero e Glauco Ferreira), Cabeleira do Zezé (João Roberto Kelly e Roberto Faissal), Máscara negra (Zé Keti - Pereira Mattos) e tantas outras, além dos sambas do momento, daqueles cantore(a)s que fazem sucesso até hoje... Benito di Paula, Clara Nunes, Luiz Airão, Beth Carvalho, Demônios da Garôa, Alcione, Luiz Américo, Martinho da Vila, Paulino da Viola... Foi um rio que passou na minha vida...
Fotos: 1 –
Turma de foliões de Nova Floresta (1956); 2 - Bloco dos Piratas (1958); 3 -
Bloco dos Sujos (1977); 4 - Mexa-se meu bem e Liberais (1977); 5 – Liberais do
Samba (1979); 6 - As Incrédulas (1981); 7 - Bloco do Motor (1983); 8 - Liberais
Mirins (1985); 9 – Barco do Capitão Chiquinho Aleijado; 10 – Nova Floresta
Clube e Foliões na Rua (datas indefinidas).
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*Rangel Alves da Costa
Criaram o
amor. Não ensinaram a amar. Quanto mais se deseja aprender a amar, mais se erra
por avistar somente o espelho do prazer, e não a profundidade do verdadeiro
querer.
A solidão é
melhor, muito melhor que a multidão. O silêncio é melhor que o grito, a janela
fechada é melhor que a ventania entrando. Perante o outro a paz não existe,
pois o encontro interior e a autoestima sempre pedem o exílio interior.
O sexo, ou ato
sexual em si, é impuro e asqueroso. Na vida social ou em seu cotidiano, a
maioria das pessoas também é impura e asquerosa, mas sempre fingindo seriedade,
caráter e até inocência. Como os seus pensamentos sempre agem de modo
contrário, de forma pervertida e lasciva, o sexo se torna apenas na confirmação
daquilo que verdadeiramente é.
Pobreza,
carência, miséria, tudo com um nome só: a desvalia na vida. Mas não há desvalia
maior que fazer de sua condição econômica uma chama à submissão, à humilhação,
à escravização. Onde há retidão e caráter não há lugar para que o cabresto do
voto lhe tire o desejo de mudança e da escolha do que achar melhor.
A puta de hoje
é a mesma rampeira de ontem. Uma no shopping e outra no cabaré. A puta de luxo
de hoje é a mesma prostituta do bordel da luz vermelha de ontem. A garota de
programa de hoje é a mesma piranha de esquina escura de ontem. Michê, garoto de
programa, ontem era o mesmo rapaz que fazia o mesmo negócio. Nada mudou, apenas
progrediu e se desenvolveu em número assustador.
Não há como
atender aos apelos do mundo moderno. O ser humano não possui a mesma propulsão
que a máquina, não possui a força do motor, não se torna novamente novo com um
simples reparo. Desse modo, não adianta ser moderno e avançado dentro de um
corpo que não é tecnológico nem agindo por comandos informatizados. Ademais,
até o ferro enferruja.
Não há decisão
maior do que deixar de votar. Não votar em mais ninguém, e pronto. Liberta-se
de uma vez do remorso de um voto errado, de uma escolha que mais adiante traga
entristecimento. Lavar as mãos. Mesmo que os frutos das más escolhas não
recaiam apenas nos que escolheram, ao menos haverá o conforto de dizer que
sofre sem ter ajudado a causar tanto sofrimento.
A nudez é uma
coisa engraçada. A vestimenta também. Inegavelmente que é muito mais bonito e
atraente uma pessoa com roupa que lhe caia bem, que seja até vista como
sensual. Na sensualidade do corpo vestido há todo um jogo de encanto, de
fascinação e de imaginação. Logo se imagina a beleza daquele corpo em plena
nudez. Mas na nudez avista-se apenas um corpo nu, e já sem aquele despertar da
imaginação.
Poesia melosa,
floreada demais, não é poesia. Poesia tecida na rima forçada não é poesia.
Poesia cuidando dos mesmos elementos do coração, do mesmo amor impossível e da
mesma paixão desenfreada não é poesia. Poesia é o belo com simplicidade. É o
dizer de outra forma aquilo que o leitor se sensibiliza ao folhear.
Tem muita
gente sofrendo neste momento. Na Ucrânia, na Síria, na África, bem ali. Tem
gente sofrendo tanto neste momento que é até impossível imaginar o tamanho do
sofrimento. A dor corporal, a dor da fome, a dor da indignação, a dor do
abandono, a dor da desumanidade, a dor da perda da pátria e do lar, a dor de
não ter pra onde ir e de sequer saber se terá um amanhã. Uma dor tamanha, uma
dor tão forte, que é impossível imaginar a capacidade de o ser humano suportar.
Ontem choveu e
hoje mais cedo também. Sem ter muito que fazer, então eu peguei um lenço e saí
enxugando tudo, as ruas, os horizontes, até as nuvens. Quando mais eu enxugava
mais eu me sentia encharcado. Eu quis enxugar o mundo e não percebi que estava
chorando. Esqueci-me de enxugar as lágrimas de meus próprios temporais.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
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Por José Mendes Pereira
O escritor Alcino Alves escreveu em seu livro “Lampião Além da Versão Mentiras e Mistérios de Angico” que Manoel Vitório dos Santos era proprietário da Fazenda Cassussu, e era casado com uma moça do ribeirinho do Bom Sucesso. O casal construiu numerosa prole, Temistocles (popularmente chamado de Temisto das Queimadas), sendo este famoso coiteiro de Lampião, Benjamim, Geminiano, Alice, Porcina, Bela, Júlia e mais dois filhos, uma menina e um menino. Os dois últimos eram filhos de Manoel Vitório com Maria das Virgens, que era a esposa de um senhor chamado Cante e, sendo esta, mãe do cangaceiro Canário.
Em fins de 1934 o cangaceiro Zé Fortaleza que já era chefe de um bando de cangaceiros, ficou arranchado juntamente com os seus comandados aos arredores da fazenda Cassussu, e lá, uma rês foi morta. Como precisavam cozinhar a carne, alguns cangaceiros foram até a pequena fazenda pedir uma panela emprestada. Com desejos de agradar aqueles delinquentes, o próprio Manoel Vitório foi até ao coito deixar a panela. Mas o catingueiro não sabia que aquele gesto de humildade, iria trazer problemas terríveis e cruéis, tanto para ele, como sua generosa e amada família.
Ao chegar, entregou a panela e animadamente conversou com os bandoleiros sem temer nada. Recebeu um agrado (gorjeta), e por Zé Fortaleza, foi advertido que, não espalhasse na região que eles estavam ali, arranchados.
Elesbão que era filho de Maria das Virgens com o seu pai Manoel Vitório, estava passando uns dias com os seus irmãos, filhos da moça de Ribeirinho de Bom Sucesso, vendo os cangaceiros na casa do pai, ao retornar para Poço Redondo, contou o que viu, isto é, a presença dos cangaceiros na fazenda Cassussu do seu pai. E logo, a notícia se espalhou, e a partir daí a desgraça estava preste a acontecer.
Os desocupados
fuxiqueiros que não faltam em uma comunidade qualquer, correram e foram contar
a Zé Fortaleza o que estava se passando. Raivoso, o facínora põe toda culpa em
cima do fazendeiro Manoel Vitório, e com desejo de vingança, disse que o Manoel
Vitório iria ter o seu castigo, pela sua fraqueza de ter espalhado a sua
presença com os seus comandados aos arredores da sua fazenda.
Como o sertão nordestino estava em dificuldades, devido à grande seca que assolava aquelas regiões, Geminiano foi morar no Estado de Alagoas, e lá, arrumou um pequeno trabalho numa fazenda chamada de “Soledade”, de um senhor chamado Neco Brito. E como as dificuldades continuam lá na Fazenda Cassussu, Geminiano levou o seu irmão Benjamim para sua companhia, e arranjou um trabalho para ele, numa fazenda de nome “Horizonte”, que ficava perto de onde ele morava. Benjamim havia se casado com uma moça de nome Mila, uma das filhas do renomado alagoano Joãozinho Correia.
No ano de 1935, o inverno foi muito bom em toda região nordestina, farturas e mais farturas estavam nas mesas dos camponeses. O mês de junho, o mês das festividades juninas, e Geminiano convidou o seu pai Manoel Vitório para passear pelas aquelas belas terras alagoanas, que tão bem haviam o acolhido e o seu irmão Benjamim.
Uns quinze dias das festas de São João seu Vitório chegou à fazenda “Soledade”, O baile, as fogueiras e os fogos foram na Fazenda “Mata Grande”, de um senhor chamado Pedro Cadeira, um dos seus parentes alagoanos. Os dias se aproximavam para os festejos, e seu Vitório nem se lembrava, que os festejos seriam no dia seguinte.
Geminiano conversava com o pai, e o avisou que as festividades juninas seriam no dia seguinte:
- Papai, amanhã nós vamos para a Mata Comprida. Vamos para o São João de lá.
O velho põe-se a pensar nas festividades de Poço Redondo, e sem querer ir para as festividades de Mata Comprida, de imediato, disse para o filho Geminiano:
- Vá, meu fio, vá! Pode ir! Vá que eu cuido dos afazeres da fazenda.- Garantiu ele ao filho.
E ali, o velho ficou sozinho.
Bem perto da Fazenda em que ele estava, trabalhava o seu filho Benjamim, na Fazenda “Horizonte”. A sua esposa tinha ido às festividades, mas ele permaneceu em casa, na propriedade, junto com um dos seus amigos, um senhor de nome Pedro Serafim.
Nesse dia, era um domingo. Manoel Vitório foi cuidar de apartar os bezerros. A noite chegou, e o velho foi para o telhado cuidar de lavar os pés. Depois, cuidou de um café, assou carne de bode e ali mesmo comeu misturada com farinha, e de costume, procurou dormir.
Por volta da meia noite, deste domingo, seu Manoel Vitório, foi convidado para abrir a porta. Mesmo não sendo daquelas terras, abriu-a sem nenhum receio, e viu de cara os velhos cangaceiros Zé Fortaleza, Limoeiro, Suspeita e Medalha.
O chefe do grupo, o Zé Fortaleza que não tinha a mínima ideia aonde estava morando Manoel Vitório, e o reconhecendo, mas mesmo assim, lhe faz uma pergunta:
- O senhor é o Manoel Vitório, lá da Fazenda Cassussu?
Manoel Vitório não temendo nada, respondeu-lhe:
- Sim senhor, sou eu mesmo, o Manoel Vitório!
- Que bom! Fazia um bom tempo que nós estávamos a sua procura. No seu rasto.
Zé Fortaleza, que estava querendo vingar aquele boato que saiu, que eles estavam acoitados próximo à sua Fazenda Cassussu, perguntou-lhe:
- O senhor tá lembrado quando nós fizemos coito perto da sua fazenda, e lhe pedimos uma panela emprestada, e espalhou a fofoca onde a gente estava, e se esqueceu que nós lhe pedimos que não dissesse nada a ninguém?
- Seu Zé Fortaleza, o senhor pode acreditar que eu não falei nada a ninguém! – Respondeu o Manoel Vitório.
- E quem contou?
- Deve ter sido o meu filho Alesbão. Eu me recordo que naquele mesmo dia, ele foi pra Poço Redondo. – Responde ele com desespero.
O Manoel Vitório mais ou menos já estava sabendo o que iria acontecer com ele, vez que marginal, principalmente cangaceiro, não perdoa nada de ninguém.
Apoderado de ódio, o Zé Fortaleza perde o seu controle emocional, dizendo-lhe:
- Está conversando, velho safado! Só porque se complicou, agora Está quereno colocar o rabo de fora, e com isso, acusa o seu próprio filho, hein?!
E em seguida, ordenou a um dos seus comandados:
- Medalha, amarre esse miserável traidor!
Agora, o velho sertanejo Manoel Vitório estava amarrado, e iria passar por coisas que, até o momento, não tinha acontecido com ele. Os facínoras levaram-no até à fazenda onde o seu filho Beijo (Benjamim) trabalhava.
Beijo é um rapaz fortíssimo e destemido. Como a sua esposa Mila tinha ido para as festas juninas, e ele estava acompanhado do amigo Pedro Serafim, Beijo está dormindo na sala, sobre um banco, apoderado de um travesseiro, o chapéu e um faca peixeira, esta, iria ser o instrumento de sua desventura.
Os bandidos estão ali, e logo um bate em sua porta, fazendo acordar os moradores. O primeiro a atender é o Pedro Serafim, e sem ter como reagir, o alagoano ficou totalmente dominado por dois cangaceiros, Limoeiro e Suspeita. Os outros dois, o Zé Fortaleza e Medalha tomaram de conta da casa, invadindo-a.
Despreocupadamente, ou possivelmente ainda não havia percebido o que ganhara naquele momento, Beijo continuava deitado sobre o banco. Medalha vai e por uma das pernas, o fez cair do banco. Os facínoras não esperavam a reação do Beijo que era dono de muita força física, sem medo, o enfrentou, e o Medalha é dominado.
O cangaceiro Zé Fortaleza que acompanhava a luta do Beijo e do Medalha resolveu ajudar o seu companheiro. Vendo a faca do Beijo no chão, apanhou-a, e aproximou-se dos dois lutadores, e cortou os órgãos genitais do pobre Beijo. Feito esta castração, Beijo deu um enorme grito, e em seguida, ficou totalmente desacordado.
O pai, o
Manoel Vitório continuou amarrado, e nada pode fazer em favor do filho. E
acreditava que ele está sendo judiado, sangrado pelas mãos dos perversos, mas
sem nunca imaginar, que o filho tinha sido castrado.
Desesperado, fez pedido aos que se diziam justiceiros:
- Pelo amor de Deus, não mate meu filho! Ele é um inocente! Não fez nada! Deixe meu menino viver!...
O companheiro de Beijo o Pedro Serafim que estava na sua companhia não sofreu nada, e o Beijo estava estirado como morto. O Manoel Vitório estava enlouquecido, urrando como uma rês. A dor que sentia o Manoel Vitório era maior do que a dor que sentia o seu filho.
O Manoel Vitório iria pagar pelo o que não fez. Os cangaceiros acreditavam que foi ele quem espalhou o boato, que eles estavam acoitados lá nas terras de Cassussu.
Zé Fortaleza estava escalado para eliminá-lo deste planeta, e sem nenhuma piedade, misericórdia ou outra coisa semelhante, com a mesma faca que castrara Beijo desferiu 13 facadas, e um tiro no infeliz sertanejo das terras de Poço Redondo. Feito a vingança, a malta saiu da fazenda “Soledade”, e foi embora, feliz por ter justiçado um homem injustamente.
Pela manhã, a triste notícia tomou rumo a todos os lugares do sertão alagoano. Geminiano levou os amigos e transportaram o Beijo para cidade de Pão de Açúcar, para os devidos procedimentos médicos.
Infelizmente, Beijo ficou sexualmente inutilizado, mas tinha em casa, a Mila, uma senhora honrada, e que nunca desrespeitou o seu nome e nem manchou o nome do marido; cuidava dele com carinho e muito amor. Beijo e Mila só se separaram quando a morte os levou para seu mundo desconhecido.
Depois das perversidades feitas pelos os 4 cangaceiros, Zé Fortaleza, Limoeiro, Medalha e Suspeita não sabiam que o destino iria lhes cobrar o que fizera com aqueles pobres inocentes. Ao chegarem ao município de Mata Grande, encontraram a morte juntamente com o civil Félix Alves.
Fonte de Pesquisa:
Livro: "Lampião Além da Versão Mentiras e Mistérios de Angico"
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Por Geraldo Maia do Nascimento
Uma das
características dos índios Moxorós, que são apontados pelos historiadores como
os originários da história do povo mossoroense, era o espírito guerreiro. Essa
cultura da resistência acompanhou todo o desenvolvimento da nossa história. O
maior exemplo deste espírito de luta verifica-se na guerra travada por estas
bandas contra o mais famoso cangaceiro do Nordeste, o Lampião, que encontrou um
povo lutador e acabou sendo expulso dessas terras.
O feito se deu
em 1927 (século XX), segundo a história. Nosso município vivia um período de
prosperidade econômica. Estávamos em pleno expansionismo comercial e
industrial. Possuíamos o maior parque salineiro do país. Tínhamos três firmas
comprando, descaroçando e prensando algodão, casas compradoras de peles de cera
de carnaúba. Além disso, a cidade ainda dispunha de um porto, de onde eram
exportados os seus produtos atendendo cidades da região Oeste do Rio Grande do
Norte e até mesmo municípios dos estados do Ceará e Paraíba.
O cenário de
prosperidade foi fundamental para que atraíssemos a atenção de grupos criminosos
que invadiam e saqueavam cidades, prática comum naquela época. A população
estimada do município era de aproximadamente 20 mil habitantes. Nosso
território era ligado por uma estrada de ferro que se estendia desde o litoral
até o povoado de São Sebastião, hoje município de Governador Dix-Sept Rosado,
que já pertenceu à Mossoró.
Além de todos
esses atrativos, tínhamos boas estradas de rodagem, energia elétrica
alimentando várias indústrias, dois colégios religiosos, agências bancárias e
repartições públicas. Em pleno século início de século XX, os mossoroenses
viviam situação confortável. E tudo isso atraiu o mais temido cangaceiro da
época, Virgulino Ferreira, o famoso Lampião.
Hoje, sempre
que um grupo criminoso vai atacar uma cidade, seja uma agência bancária ou
outro tipo de estabelecimento de maior porte, é comum ouvirmos falar sobre
“informações privilegiadas”. Como são bandos formados por pessoas de outros
locais, eles precisam de ajuda de “gente próxima”. E Lampião tinha essa “gente
próxima”.
Com o porte
que Mossoró possuía, sua invasão precisava ser planejada. De acordo com as
pesquisas feitas pelos historiadores sobre o bando, o “Rei do Cangaço” era
apoiado por Cecílio Batista, mais conhecido como “Trovão”. Ele já havia morado
em Assu, onde havia sido preso por malandragem e desordem (crimes previstos
naquela época).
Além de
Trovão, Lampião contava com a ajuda de outro cangaceiro, José Cesário,
conhecido como “Coquinho”, que já havia até trabalhado em Mossoró e conhecia
bem a cidade. Outro importante parceiro fora Júlio Porto. Este havia trabalhado
como motorista de Alfredo Fernandes, personalidade rica da época e parente
próximo do prefeito Rodolfo Fernandes. Além de Júlio, o “Zé Pretinho”, tinha
ainda Massilon, um tropeiro que conhecia muito bem a cidade.
O plano de
invadir Mossoró é colocado em prática a partir do dia 2 de maio de 1927, ainda
segundo os documentos históricos. Lampião e seu bando partiram do estado de
Pernambuco, em direção ao Rio Grande do Norte. Fizeram um longo percurso.
Passaram pela Paraíba, próximo ao limite com o estado do Ceará, com destino à
cidade de Luís Gomes, que fica logo no início do estado norte-rio-grandense, a
201 km de Mossoró (o caminho mais curto).
A viagem não
foi pacífica. Por onde passavam, invadiam e saqueavam. A cidade de Belém do Rio
do Peixe, na Paraíba, por exemplo, foi uma das vítimas dos bandidos. Até então,
o bando estava dividido. Uma parte da quadrilha estava com Massilon, no Ceará.
Seu plano era atacar a cidade de Apodi, vizinha à Mossoró, em 11 de junho
daquele ano. Depois disso, o grupo de Massilon se reuniria com o restante,
liderado por Lampião, para definir um plano.
Os grupos se
uniram e a reunião aconteceu, como planejado, na fazenda Ipueira, que ficava na
cidade de Aurora, no estado do Ceará. De lá eles partiram com destino à
Mossoró. Como era prática entre os cangaceiros, aterrorizaram sítios, fazendas,
lugarejos e cidades durante o trajeto. Invadiam, saqueavam, ateavam fogo,
sequestravam (os mais riscos) etc.
Uma das
vítimas do bando de Lampião, antes da chegada à Mossoró, segundo constam nos
documentos históricos, foi o coronel Antônio Gurgel, que já havia sido prefeito
de Natal. O bando ainda fez refém o fazendeiro Joaquim Moreira, dono da Fazenda
Nova, em Luís Gomes, a fazendeira Maria José, da Fazenda Arueira, além de
outras pessoas ricas da região.
Foi o coronel
Antônio Gurgel que teve a missão de escrever uma carta endereçada ao prefeito
de Mossoró, Rodolfo Fernandes, em nome dos cangaceiros. Ousados, eles fizeram
uma série de exigências para que pudessem poupar os mossoroenses do terror que
vinham causando noutras cidades do Nordeste. Essa era uma tática tradicional
usada pelos cangaceiros.
De acordo com
os estudiosos do cangaço, era comum a utilização dessas cartas. Antes disso, os
criminosos adotavam uma série de providências para intimidar as autoridades e
dificultar qualquer plano de resistência. Eles cortavam os serviços
telegráficos da cidade, para evitar qualquer tipo de comunicação. Quando o
município resolvia ceder, o bando exigia, além de dinheiro e joias, mordomias,
submetendo o povo e os prefeitos a verdadeiras humilhações.
As pesquisas
mostram que os criminosos exigiam festas e bebidas para farras, que geravam
ainda mais destruição dos locais por onde o bando passava. Quando alguma das
cláusulas exigidas não era atendida, Lampião e seus comparsas procediam
impiedosamente.
Ao prefeito
Rodolfo Fernandes, os criminosos resolveram pedir 500 contos de réis. Era muito
dinheiro para a época. Por isso, chegaram a um consenso e pediram 400 contos,
conforme carta que transcrevemos logo abaixo, na íntegra, escrita pelo coronel
Gurgel:
Meu caro Rodolfo Fernandes.
Desde ontem estou aprisionado do grupo de Lampião, o qual está aquartelado aqui bem perto da cidade. Manda, porém, um acordo para não atacar mediante a soma de 400 contos de réis. Penso que para evitar o pânico, o sacrifício compensa, tanto que ele promete não voltar mais a Mossoró…”
Ao receber a carta, o coronel Rodolfo Fernandes convoca uma reunião. Convida
todas as pessoas de destaque da cidade. Ele informa o conteúdo da carta
ameaçadora e alerta para a necessidade da preparação de defesa contra um
possível ataque dos cangaceiros.
Os convidados,
no entanto, desprezando a força e ousadia do bando de Lampião, julgam que uma
possível invasão não poderia ocorrer, se tratando de uma cidade com o porte de
Mossoró. O prefeito ainda teria argumentado contra, mas não foi ouvido pelos
participantes. Assim, ele responde a carta escrita pelo coronel Antônio Gurgel,
a mando dos cangaceiros:
Mossoró, 13 de
junho de 1927 – Antônio Gurgel.
Não é possível
satisfazer-lhe a remessa dos 400.000 contos, pois não tenho, e mesmo no
comércio é impossível encontrar tal quantia. Ignora-se onde está refugiado o
gerente do Banco, Sr. Jaime Guedes. Estamos dispostos a recebê-los na altura em
que eles desejarem. Nossa situação oferece absoluta confiança e inteira
segurança.
Rodolfo Fernandes.
A resposta
seria entregue a uma pessoa enviada pelo bando de Lampião, à casa do prefeito
Rodolfo Fernandes, que logo afirma que a proposta feita pelo bandido não será
aceita pelos mossoroenses e manda avisar a Lampião que o povo está disposto a
enfrentá-lo, caso a invasão fosse executada (o que, de fato, houve). Mas antes,
resolve impressionar o mensageiro.
Rodolfo o leva
até um dos aposentos onde havia vários caixões com latas de querosene e
gasolina. Junto a esses caixões, existia um aberto e cheio de balas. O
prefeito, na tentativa de impressioná-lo, diz que todos aqueles caixões estão
cheios de munição e que já existe um grande número de homens armados na cidade,
aguardando a entrada dos cangaceiros.
Diferentemente
do que havia encontrado até então, Lampião deparou-se com uma resposta
negativa. Ao tomar conhecimento do posicionamento do prefeito Rodolfo Fernandes,
ele mesmo escreve um bilhete, segundo os historiadores, numa péssima grafia
(tal qual):
Cel Rodolfo
Estando Eu até
aqui pretendo drº. Já foi um aviso, ahi pº o Sinhoris, si por acauso rezolver,
mi, a mandar será a importança que aqui nos pede, Eu envito di Entrada ahi
porem não vindo essa importança eu entrarei, ate ahi penço que adeus querer, eu
entro; e vai aver muito estrago por isto si vir o drº. Eu não entro, ahi mas
nos resposte logo.
Capm Lampião.
Mais uma vez,
o prefeito responde com negativa, demonstrando a coragem do povo mossoroense.
Em novo escrito enviado ao cangaceiro, argumenta dificuldades financeiras:
Virgulino,
lampião.
Recebi o seu
bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem
também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado
daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo o que o Sr. queira fazer contra
nós. A cidade acha-se, firmemente, inabalável na sua defesa, confiando na
mesma.
Rodolfo
Fernandes
Prefeito,
13.06.1927.
Diante da
situação, a invasão mostrava-se iminente e não restava o que fazer, a não ser
resistir. Apesar do medo, ampliado pelas histórias aterrorizantes que
circulavam a região acerca de Lampião e seu bando, os mossoroenses decidiram
preparar a cidade para a defesa.
O tenente
Laurentino era o encarregado de organizar o plano de resistência ao bando. Os
voluntários foram distribuídos em pontos estratégicos da cidade, escolhidos
criteriosamente para tentar surpreender os criminosos, utilizando a estrutura
local ao seu favor.
As torres das
igrejas matriz, Coração de Jesus e São Vicente foram utilizadas como pontos de
referência da resistência. Do alto, tinham visibilidade e podiam utilizar deste
elemento para levar vantagem sobre o bando, que viria por terra (onde também
encontrariam resistência organizada). Homens armados foram instalados no
mercado, correios e telégrafos, companhia de luz, Grande Hotel, estação
ferroviária, ginásio Diocesano e na casa do prefeito.
Do lado de lá
também havia certa organização. De acordo com os registros históricos acerca do
combate, Lampião pretendia chegar a uma localidade conhecida como Saco, que
ficava a uma distância de dois quilômetros de Mossoró. Neste ponto, eles
abandonariam as montarias e seguiriam a pé, até Mossoró, para concretizar a
temida invasão.
O cangaceiro
Sabino comandava duas colunas de vanguarda. Uma das colunas era chefiada por
Jararaca e outra por Massilon, enquanto Lampião liderava a coluna da
retaguarda.
Em meio à
preparação dos cangaceiros e dos resistentes, a população, assombrada, tentava
deixar a cidade. Crianças, mulheres e idosos, em sua maioria. Estes não tinham
condições de enfrentar os bandidos, de armas em punho, e precisavam fugir para
se resguardar.
De acordo com
os historiadores, o dia de junho ficou marcado pelo desespero da população, que
tentava sair da cidade o mais rápido possível. Mulheres chorando, carregando
crianças de colo, crianças sendo puxadas pelo braço, trouxas de roupa na
cabeça, balaios de comida e água etc. Era uma verdadeira multidão de pessoas
aterrorizadas, vagando sem rumo.
O que se via
eram famílias inteiras reunidas, completamente desesperadas, lotando os raros
caminhões ou automóveis que saíam disparados a caminho do litoral. Muitos, sem
condição de transporte, tratavam de conseguir esconderijo dentro ou fora da
cidade. A ordem dada pelo prefeito era clara: aquele que estiver desarmado, não
deverá permanecer na cidade.
O desespero
aumentava mais à medida que o dia avançava. Às 23h, os sinos das igrejas de
Santa Luzia, São Vicente e do Coração de Jesus começaram a martelar
tetricamente, o que só servia para aumentar a correria. As sirenes das fábricas
apitavam repetidamente a cada instante. Foi aí que alguns, ainda incrédulos com
a invasão, tiveram a certeza do que viria.
Na praça da
estação da estrada de ferro, era grande a concentração de gente na busca de
lugar para viajar nos trens que partiam de Mossoró. Até os carros de cargas
foram atrelados à composição para que a maior quantidade possível pudesse
partir. Apesar de todo o esforço, muitos não conseguiram fugir. Aqueles que
chegaram atrasados caíram no desespero.
Naquela
inesquecível noite de 12 de junho, não houve descanso para ninguém em Mossoró.
Os encarregados pela defesa da cidade se revezavam na vigília, enquanto o
restante da população esperava a vez de partir. E o movimento na estação
ferroviária não parava.
O embarque de
pessoal virou toda a noite e só terminou na tarde do dia 13 de junho, dia de
Santo Antônio, quando foram ouvidos os primeiros tiros, dando início ao terrível
combate. Mas a meta havia sido alcançada; a cidade estava deserta. Ficaram só
os resistentes.
Enfim, o bando
chegara à Mossoró. Diferentemente do cenário que costumavam encontrar,
deparam-se com uma cidade fantasma. Sabino, um dos líderes, segue com sua
coluna para a casa do prefeito Rodolfo Fernandes. A intenção era punir o
atrevimento do coronel que se recusou a ceder às pressões do bando e submeter
uma cidade inteira ao terror do cangaço.
Sabino
posiciona-se sozinho em frente à casa de Rodolfo Fernandes, sem saber que ali
havia um grupo pronto para reagir contra o bando. Os defensores da cidade ficam
indecisos, sem saber se ele é um soldado ou um cangaceiro, já que não havia
muito diferença entre a maneira de se vestir de um e de outro. Foi Rodolfo
Fernandes que deu a ordem para o ataque.
De acordo com
as pesquisas feitas sobre o assunto, os mossoroenses contaram ainda com “ajuda”
do céu. Em meio à guerra, uma chuva começou a cair, afetando diretamente a
visão dos cangaceiros, que estavam desprotegidos, a céu aberto, enquanto os
resistentes permaneciam inertes, nos pontos que foram estabelecidos
estrategicamente por Laurentino.
Lampião segue
em direção ao cemitério da cidade, enquanto que Massilon procura os fundos da
casa do prefeito. A primeira baixa significativa do bando veio com o disparo
que atingiu “Colchete”, que lançou uma garrafa com gasolina contra as
trincheiras feitas de fardo de algodão, na tentativa de incendiá-los. Foi
morto. Em seguida, Jararaca também foi baleado. Ele tentou se aproximar do
comparsa para substituí-lo e acabou sendo alvejado nos pulmões.
É nesse
momento que os resistentes mostram aos cangaceiros qual é a sua saída: fugir
para não serem completamente destruídos. Os soldados entrincheirados assumem o
controle da batalha, encurralando os cangaceiros. Aqui, a situação já está
totalmente dominada.
A ordem de
retirada do bando foi dada por Sabino, um dos líderes, ainda de acordo com os
registros das pesquisas realizadas acerca do tema. Ele saca sua pistola e
efetua quatro disparos para cima. Fim do ataque. Este foi o som da vitória dos
mossoroenses sobre Lampião.
O temido
confronto com o bando do mais famoso e temido cangaceiro do Nordeste durou
aproximadamente uma hora e meia. Começou por volta das 16h e acabou às 17h30.
Lampião, o destemido líder do bando, fugiu. Ele deixou para trás Colchete
(morto) e Jararaca, além de muitos outros, não tão conhecidos, que foram
feridos ou mortos durante o combate.
Precavidos, os
resistentes permaneceram aquela noite de plantão, temendo que o bando pudesse
tentar recuperar-se das perdas e voltar. Os combatentes suspenderam a vigília
somente com o raiar do dia, ao confirmar que o bando tinha realmente sido
expulso da cidade.
A história da
resistência do povo de Mossoró contra o bando de Lampião, que seguiu sua saga,
invadindo e saqueando, é lembrada todos os anos, no dia 13 de junho, que é o
Dia de Santo Antônio. Foi numa tarde chuvosa que os mossoroenses reafirmaram seu
espírito guerreiro, dando orgulho aos índios Monxorós, aqueles que deram origem
ao nosso povo.
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Por Cangaçologia
15 cangaceiros mortos e sangrados e uma das maiores derrotas sofridas pelo cangaceiro Antônio Silvino e seu bando em toda a sua história. Fera combatendo fera. Assistam e ao final deixem seus comentários, críticas e sugestões. INSCREVAM-SE no canal e ATIVEM O SINO para receber todas as nossas atualizações e publicações. Forte abraço! Atenciosamente:
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Por Aderbal Nogueira
2ª parte da
entrevista de Custódio Saraiva, juiz municipal de Limoeiro do Norte em 1927,
concedida a Agenor Ferreira, da Rádio Vale do Jaguaribe, em 1977. Constam
também mais 2 depoimentos gravados por mim, em 1997. Um é do irmão de Custódio
Saraiva e o outro de mais uma testemunha ocular.
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Por Kydelmir Dantas
A história do
cangaço é revivida hoje, em Limoeiro do Norte, após 80 anos da passagem do
bando pelo município
Limoeiro do Norte. Poucos acontecimentos de apenas algumas horas perpetuam na
história do Ceará, como a passagem de Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”,
por Limoeiro do Norte, há exatamente 80 anos. O cabra foi posto para correr de
Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde até hoje festejam a resistência ao
cangaceiro. Depois de receber a “chuva de balas” dos potiguares, aceitou os
cumprimentos “tensos” dos limoeirenses, no dia 15 de junho de 1927. O rebuliço
foi consolado pela “visita em paz” do rei do cangaço nas terras de seu Padim
Ciço. Nunca mais Limoeiro foi o mesmo.
“Prefeito de Limoeiro, Urgente. Lampião acaba atacar Mossoró. Depois forte
resistência conseguimos rechaçá-los, ficando um morto outro prisioneiro.
Saudação. Rodolfo Fernandes, Prefeito Municipal”. O recado do prefeito de
Mossoró chegou em telegrama às mãos de Custódio Saraiva, Juiz de Paz em
Limoeiro e responsável por defender o município, dada à ausência do prefeito.
Naquela hora seu Custódio almoçava, não comeu mais. Telegrafou para a Secretaria
de Polícia, em Fortaleza, que devolveu a batata quente para que “agisse como
pudesse”. A cidade foi evacuada imediatamente.
Como era de seu feitio, Lampião entrou no Ceará guiando os fios do telégrafo. O
“cabra” cavalgou com seus quarenta e tantos homens (o número é incerto) pela
Estrada da Solidão, na Chapada do Apodi. Anísio Batista, morador da Lagoa do
Rocha, teria sido o primeiro a ver Lampião e, inclusive, anunciado sua chegada.
“Então disse Lampião/ vá até Limoeiro/ pergunte às autoridades/ se recebe um
forasteiro/ desprovido de maldades/ como um nobre cavalheiro”, poetizou Irajá
Pinheiro, memorialista local e também membro da Academia Limoeirense de Letras,
sobre o encontro inusitado.
Lampião fugiu de Mossoró carregando dois reféns: Dona Maria José do Catolé do
Rocha e o Coronel Gurgel, sogro do gerente do Banco do Brasil potiguar. O
cangaceiro queria, telegrafando de Limoeiro, cobrar de Mossoró 80 contos de
réis como pagamento do resgate dos reféns. “Passei o telegrama para Mossoró, em
caráter de urgência, e dentro de poucas horas obtive a resposta: ‘prefeito de
Limoeiro, urgente. Seguiu portador, montado a cavalo, conduzindo numerário
resgate prisioneiros’”. A informação é do próprio Custódio Saraiva, juiz de
Paz, em entrevista ao boletim “Campus”, da Universidade Estadual de Londrina,
em 1979, 52 anos depois da visita “ilustre”.
O bando de cangaceiros famintos foi “presenteado” com jantar no Hotel Lucas, no
Largo da Igreja Matriz. A Prefeitura mandou matar um boi e sinhá Arcanja,
escrava de Custódio, ficou de servir a tropa. Lampião, que não era besta nem
nada, mandou gente da cidade provar da comida, pois poderia estar envenenada.
Até pensaram em colocar algum negócio no “vinho”, mas desistiram, que bandido é
cabra esperto. Lampião, então, admirador que era de Napoleão Bonaparte, era
“gato escaldado”.
Lenços vermelhos
Dizendo estar em paz, já que em terra de Padre Cícero mal algum ele faria,
Lampião passeou pela pequena cidade, e, na bodega de Getúlio Chaves, até
comprou lenços vermelhos – à época adornavam a indumentária cangaceira. O
bandido também levou uma ruma de perfume Quinta-Feira – tinha esse nome por
fazer parte da tradição casamenteira e os matrimônios aconteciam nesse dia
especial da semana.
Conta dona Lirete Saraiva, filha viva de seu Custódio, que seu pai “foi um
homem forte, de encarar Lampião sem arma nem nada, defendendo a cidade”. De
outro modo, o jornal “O Ceará”, de Fortaleza, reclamava “humilhação” porque
passou Limoeiro por não enfrentar Lampião, enquanto Mossoró havia botado o
homem pra correr sob balas.
Soar das cornetas
Lampião era destemido e temido, mas o certo é que estava cercado pelos
cearenses. Do telefone do Telegrafo, do qual se “apossou” para mandar seus
avisos, ouviu o soar da corneta em Russas. Era a Polícia que já estava pronta
para ir para Limoeiro. Não podendo mais esperar a chegada dos 80 contos de réis
de resgate dos reféns, os cangaceiros fugiram pela banda dos Morros, onde havia
umas pedras identificadas como “Gruta de Lampião”.
No município de Palhano, abandonaram os dois reféns, quando do embate contra os
volantes da Paraíba e Rio Grande do Norte. Em seguida, Lampião deixava a região
jaguaribana rumo ao Cariri de seu Padim Ciço, dado como o “salvador” do povo de
Limoeiro.
Mais informações:
Exibição de filmes sobre o cangaço
Debate com Irajá Pinheiro e Cícero Reis, NIT, em Limoeiro
(88) 3423.6900
MELQUIADES JÚNIOR
Colaborador
HISTÓRIA DO CANGAÇO
Pesquisadores locais “garimpam” memória
Limoeiro do Norte. Herói ou Bandido? Se Lampião por si só já era um caso de se
estudar, a fuga de Mossoró e a passagem por Limoeiro são fatos marcantes para
os dois lados da Chapada do Apodi, que divide Ceará e Rio Grande do Norte.
Embora nos registros mais oficiais a passagem do cangaceiro por Limoeiro não
tenha constado em mais de uma página, historiadores locais garimpam nos
arquivos da memória e das estantes empoeiradas para conhecer as três horas mais
longas da história limoeirense – o bando chegou às 15h, saindo por volta de
18h. Curiosa com o fato e o mito, jovem historiadora resgata material histórico
sobre o “Rei do Cangaço”.
O historiador Nunes Malveira lançou, em 2002, “Lampião em Limoeiro do Norte”. E
também duas pérolas históricas saem do baú e chegam à reportagem do Diário do
Nordeste: trata-se de duas entrevistas de Custódio Saraiva, então Juiz de Paz à
época da visita de Lampião, publicadas em 1977, 50 anos feitos da visita do
“cabra da peste”. O músico Eugênio Leandro e o escritor Jorge Alan conversaram
com Custódio e publicaram relato no primeiro número da revista “Kuandu”,
produzida pelo Colégio Diocesano Padre Anchieta.
Monografia na Fafidam
Ainda nos dias de hoje, o assunto desperta a curiosidade das novas gerações. A
estudante do curso de História da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos
(Fafidam), Angirlene Lima, pesquisa nos arquivos pelo Vale do Jaguaribe e até
Mossoró sobre os dias de rebuliço da passagem de Lampião na fronteira dos dois
Estados. “Não tinha idéia do que seria minha monografia de graduação, fiquei
sabendo por minha mãe que Lampião tinha passado por Limoeiro. Hoje me apaixonei
por essa pesquisa”, conta Angirlene.
“Lampião era uma verdadeira figura. A estratégia dele era o não-combate.
Conseguia vencer no medo”, explica a historiadora. Pela contemporaneidade de
sua pesquisa, tem a vantagem de pegar todo o material já publicado sobre o
bandido (ou herói, tudo depende do ponto de vista) e confrontar as diferentes
versões.
“Existem algumas informações que foram repassadas pela memória local e pouco
discutidas, apenas aceitas. Diz-se que, quando chegou a Limoeiro, Lampião jogou
moedas para as crianças no patamar da igreja. Também teria doado uma boa
quantia para a reforma da Igreja Matriz. Mas se ele recebeu somente dois contos
de réis do município, seria estranho ter gastado mais do que o que arrecadou”,
questiona.
Angirlene conta que a cidade de Mossoró ficou armada por mais duas semanas após
a resistência ao bando de Lampião, isso porque havia comentários de que ele
poderia voltar. As tropas oficiais tinham comportamento de superioridade
semelhante aos cangaceiros, até maltratando a população por onde passava. “As
pessoas acabavam pensando que ainda era gente do bando de Lampião, daí ficavam
com muito medo”.
Algumas das melhores fotos que se tem do bando de Lampião foi tirada em
Limoeiro, na frente de uma farmácia, de frente para a igreja. Conforme o
professor Irajá Pinheiro, quem fotografou foi um homem chamado Francisco
Ribeiro. “Ele bateu a foto e pegou a bicicleta para revelar em Mossoró”. Nessa
cidade potiguar, cada um da foto foi reconhecido pelo cangaceiro Jararaca,
aprisionado pelos mossoroenses durante a batalha em Mossoró. Até os reféns do
bando estão no registro fotográfico.
Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, teria sido morto em 1938, 11 anos após sua passagem por Limoeiro. Em Angico, o cangaceiro
foi pego de surpresa e decapitado, juntamente com o seu bando. O bandido ou
herói virou, reconhecidamente, mito. “Costumo dizer que Lampião foi um homem
que tomou a decisão de ser cangaceiro e arcou com todas as conseqüências até o
fim sem meias palavras, sem meios gestos”, define Angirlene Lima.
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/regiao/bando-de-lampiao-em-fuga-1.742189
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Por Aderbal Nogueira
1ª parte da
entrevista de Custódio Saraiva, juiz municipal de Limoeiro do Norte em 1927,
concedida a Agenor Ferreira, da Rádio Vale do Jaguaribe, em 1977.
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Por José Mendes Pereira
O pai João Marinho,
filhos e genro, combinaram assassinar o sargento Deluz por último, era só
esperar a grande oportunidade. Quem iria vigiar o militar quando chegasse da
empreitada para matar o assassino da sua mãe e irmão? Seria o Jonas Marinho que
ficaria de olho nele, acompanhando todos os seus passos, assim que chegasse da
missão prometida. E quem seria o executor? Seria o João Maria Valadão, homem
destemido ao estremo.
Como nós já sabemos que o Deluz iria viajar para Pernambuco, na finalidade de
executar o assassino da sua mãe e irmão, e segundo ele, quando retornasse para
Sergipe, viria consigo um irmão tido como um grande e sanguinário pistoleiro,
para chacinar aquela gente do Brejo, que eram os familiares da sua esposa
Dalva, isto é João Marinho, Maria Gomes esposa deste, Jonas e o João Maria
Valadão.
O mano que segundo o sargento Deluz era pistoleiro de boa marca, chamava-se Otávio, e este, talvez, não viria só, com ele, chegaria em Sergipe
mais uns pistoleiros. Estes eram os comentários que desfilavam em bares,
bodegas naquela região do rio São Francisco. Finalmente, a data chegou. O
sargento Deluz sairia da sua fazenda Araticum pela manhã cedo, e de lá, até o
rio São Francisco rumo Pernambuco, em busca do local da sua missão, que teria
que cumprir, vingar a morte dos seus entes queridos.
O Jonas Marinho estava vigiando o jovem militar sem perdê-lo das suas vistas um só instante. João Maria Valadão já estava sabendo que ele tinha saído da sua propriedade. Por volta da noite anterior Valadão acompanhado de um senhor chamado Vicente da Mata Grande, outro, Mané Vigia e outro de nome Cícero Cupira, saíram da fazenda que moravam e foram para fazenda do Deluz Araticum, vão tocaiar o valentão sargento de Canindé Deluz.
O dia vem
chegando devagar e os primeiros raios solares foram estendidos sobre o solo
terrestre. Nesse dia era uma terça-feira do dia 30 de setembro de 1952. O
sargento estava se preparando para a viagem. Seu animal terminou de comer a
ração, mas já estava selado. Ao seu lado, estava o seu cunhado Rosalvo Marinho,
o único que ainda se relacionava com ele, e que ficaria para cuidar da sua
fazenda, enquanto ele retornasse de Pernambuco.
"Inquietações do blogdomendesemendes:
Este
Rosalvo Marinho foi aquele que havia amparado em sua casa o Manoel Pereira de
Azevedo, o famoso e perverso cangaceiro Juriti, e ele findou sendo preso e
assado em uma coivara na localidade chamada Roça da Velhinha, nas proximidades
da fazenda Cuiabá ordenado pelo famoso Deluz.
Fico metido
nas minhas inquietações.
Por que o Rosalvo Marinho que era filho do João Marinho (irmão da Dalva), mantinha amizade com o sargento Deluz? Somente o Jonas, João Marinho e o Valadão sentiam tamanhas dores pela Dalva?"
Continuando a nossa história:
O sargento montou em seu cavalo. O seu cachorro quis segui-lo, mas ele não deixou. Em seguida, cruzou o seu fuzil sobre a sela e deu partida. Ali bem perto, menos de um quilômetro está os homens que tocaiavam o miserável delegado, comandado pelo seu concunhado João Maria Valadão, e assim que o bruto sargento Deluz colocar a cara na estrada ele vai sentir o peso de uma, duas ou mais balas no seu corpo.
Os vingativos estão fortemente armados. O Valadão vai dominar a ação com um 44 (papo amarelo como o chamavam). Os outros estão abraçados com bacamartes e bem preparados para matar. Todos eles estão escondidos em moitas bem enramadas. O infeliz tem que aparecer por uma curva da estradinha, e mais à frente, um limpo. Os verdugos estão bastantes atentos, e não podem falhar. Se não der certo o plano, poderão pagar caro mais tarde. Eles estão bem divididos, e com certeza, não falhará. Deluz irá receber o castigo que merece, mas diziam que ele tinha o corpo fechado. Ou corpo fechado ou não, o Deluz está marcado para morrer, pelos familiares da sua esposa Dalva.
O infeliz aparece na estrada. O cavalo trota vagarosamente como se está adivinhando algo. Deluz alcança o limpo e neste momento, que dois estampidos estrondam soando forte na imensidão do sertão. O homem que antes era um valente agora despenca do seu animal. Seu corpo desaba como um pesado fardo, e se mistura no meio de um rio de sangue escarlate. Quando os seus matadores viram o corpo, percebem que ele já estava muito longe do nosso planeta. Mais uma vida por vingança se foi.
Assim chegou ao
fim a vida de uma autoridade militar Amâncio Ferreira da Silva, o temido, odiado
e perverso sargento Deluz, o covarde matador do cangaceiro Juriti.
Informação:
Diz à história que João Marinho foi o mandante, chegando até ser preso; e seu genro João Maria Valadão, casado com Mariinha, irmã de Dalva, portanto concunhado de Deluz. Afirmaram os estudiosos que O João Maria Valadão, que em 2011, ele ainda estava vivo, com seus 96 anos de idade, completados no mês de dezembro, foi quem tocaiou e matou o célebre militar e delegado que aterrorizou Canindé e o Sertão do São Francisco.
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