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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

“O GLOBO” – 26/06/1957 - PARTE FINAL

Material do acervo do pesquisador Antonio Corrêa Sobrinho

FORNECENDO A PISTA DEFINITIVA

- Aí eu perguntei: “Os cangaceiros estão por aqui?” Ele, antes de proferir qualquer frase, olhou para o irmão, que o encorajou: “Diga tudo, meu irmão, senão nós vamos se acabar!” Ele virou-se, então, para mim e se abriu: “Estão, sim, seu tenente. Os cangaceiros estão lá”. E eu: “Como é que você sabe que estão lá?” E ele, rápido: “Porque eu estive lá, na boquinha da noite, para ver uma máquina de costura que o capitão (Lampião) me prometeu, mas dona Maria (Maria Bonita) estava cosendo e ele me disse que eu fosse buscá-la bem cedinho, devendo eu, então, procurá-la no pé da pedra, debaixo das macambiras, onde ele, se não estivesse mais lá, deixaria o aparelho escondido”. Sorri: “Então vamos ver logo, senão você perde a sua máquina”. E o cabra, tremendo: “Ave Maria! Nesse caso, eu preferia perder!” Fiquei, por motivos óbvios, com esse coiteiro, entregando seu irmão ao aspirante. Sentenciei, logo depois: “A camisa é branca; se correr, é um bom alvo”.

PREPARANDO A TROPA PARA O COMBATE

Perguntamos ao coronel João Bezerra qual era o seu estado de espírito, naquele momento. Ele nos olha de lado: “Nenhum nervosismo. Eu tinha a tranquilidade de quem vai para um batizado de cabra que acaba de nascer”. Reintegra-se na história:

- Voltamos para junto da tropa: clareando-os com uma pilha elétrica, acordei os praças que já dormiam: “Vamos embora”. Subimos a margem do São Francisco, num lugar muito íngreme, pelo lado, justamente, em que não esperavam a tropa, pois me julgavam já em Moxotó. Na chegada, esperei todo o contingente, que vinha em coluna por um, e, após reuni-lo, em círculo, 3h30m da madrugada, dei-lhes ciência de que, se Deus ajudasse, dentro de mais trinta minutos, se decidiria a parada entre a força e os cangaceiros. Grande parte dos presentes respondeu, de uma só vez: “Já andamos desesperançados de brigar; essas pestes são encantadas”. E num segundo tempo: “E porventura qual é o grupo a que o senhor se refere?” E eu, lacônico: “O de Lampião”. Ao que eles se admiraram: “É o cego?” Confirmei: “Ele mesmo”.

EM MARCHA RASTEJANTE

- O coronel João Bezerra poderia mencionar o número de homens que tinha a seu dispor, naquela noite? – indagamos.

- Eu tinha 45 homens.

E adivinhando o nosso quesito seguinte:

- Lampião tinha 48 homens. A minha tropa, eu a dividi em quatro grupos: três de 10 homens e um de 15, sendo este o meu, pois dele partiria o ataque. Assim foi que ao grupo capitaneado por Ferreira de Melo eu ordenei que seguisse com o coiteiro Pedro de Cândida, que conhecia toda a disposição do adversário, e rumasse em direção ao riacho, onde se achava o sentinela, colocando-se entre o mesmo e o grupo. Em sequência, seguiria ainda riacho acima, em marcha rastejante, até avistar os cangaceiros, que dormiam ao ar livre. Ali deveriam aguardar o aviso da minha metralhadora.

CANGACEIROS EM PILHÉRIAS

- Segui margeando o riacho pela direita – chovia ainda torrencialmente e, meia centena de metros adiante, mandei descer outro grupo de 10, para ficar à direita de Ferreira de Melo, aguardando as mesmas ordens. Segui com 25 homens, realizando prodígios de equilíbrio, pelos bicos das pedras, e abaixando-me pelos matos. Aí eu já batia com a testa em celas dos cangaceiros, as quais, juntamente com as dos coiteiros que com eles foram ter, estavam dependuradas. Lembro-me que um cavalo, que se achava apeado e tinha um grande chocalho ao pescoço, espantou-se com a tropa e deu um formidável sopro pelas narinas. Tive que recuar quase uns trinta metros para que o animal não corresse, espavorido, balançando o chocalho. Os cangaceiros já estavam acordados, pilheriando uns com os outros, falando em trocar o bornal e reclamavam contra o café, que estava frio. O ataque de surpresa já iria desencadear-se.

DEFLAGRA-SE O COMBATE

O coronel João Bezerra chega ao ponto culminante da entrevista:

- Disposta toda a tropa, quando eu me preparava para transpor uma pedra comprida, da altura de 1 metro, ouvi diversos disparos pelo lado em que colocara a tropa do aspirante e outros tentos para o nosso lado. Recebi, nesse momento, uma pancada na perna e outra na mão: vi o sangue descer, o que provava que eu tinha recebido umas balinhas. Porem, quando me levantei, fazendo força na perna, constatei que o osso estava íntegro. Olhando para a direita, vi sair fogo de quatorze fuzis, cadenciadamente, na altura de metro abaixo. Gritei, então: “Avancem!” Cinco minutos depois, notei, com satisfação, que a tropa se misturava com os cangaceiros, que, desse modo, tiveram que passar a lutar em várias frentes.

PISANDO SOBRE CADÁVERES

O coronel Joao Bezerra ainda alisa a lâmina da faca, mas tem os olhos postados sobre as notas do repórter. Acompanhemo-lo:

- Fui passando, então, por cima dos cangaceiros mortos, cujas vestes estavam ensopadas de sangue e de água de chuva. Lembro, também, que um soldado meu, de nome Adriano, exclamou: “Estou baleado, tenente!” E, antes que eu pudesse auxiliá-lo, ele estava com a barba serenada.

- Que significa barba serenada, coronel?

- Morto. Logo a seguir, outro soldado, Antônio Jacó, me preveniu: “Seu tenente, o cabra lhe mata!” E, de fato, o cabra atirou, mas, como o mosquetão estava descalibrado, a bala foi alojar-se num toco de catingueira, ao meu lado. Apontei a metralhadora para ele, mas logo o vi caindo por cima das macambiras, pois Antônio Jacó – cuja pontaria parecia uma olhada de machado – já o havia alvejado.

O GRITO DE VITÓRIA: “O CEGO MORREU!”

O chão e as macambiras cobriam-se de sangue. Luiz Pedro, cabra valente pra danar, vinha ao nosso encontro, sem nos ver. Fui, de dentro do riacho, enquadrando-o na mira da metralhadora, até 10 metros. Quando me preparava para matá-lo, vi, com tristeza, que um soldado atirou primeiro. Com mais vinte metros, vimos quatro cangaceiros caídos. Junto a eles, um soldado gritava: “O cego morreu!” Eu respondi que o cego (Lampião) não morreria assim. E ele, convicto: “Se este não for Lampião, quero ser cabra da peste, pois eu fui coiteiro dele durante dois anos”. E eu, ainda desconfiado: “Verifiquei se o olho direito dele é cego”. Ao que ratificou o praça: “É cego, sim, tenente”. Mandei trazer o cangaceiro, no caso Lampião, mas o praça trouxe a cabeça. Alguns cabras, entrementes, conseguiam escafeder-se, enquanto as cabeças de seus comparsas rolavam pelo barro.

MEDIDA ACERTADA

O coronel João Bezerra observa que a lembrança do degolamento de Lampião e de seus sequazes ainda constitui um impacto. Elucida, por isso:

- O degolamento se enquadrou perfeitamente num processo antigo. Demais disso, não poderíamos trazer todas as cabeças. Quando os meus subordinados cortaram as cabeças, não protestei também por um outro motivo: uma falange de dedos amputada não modificaria uma fisionomia. Determinei fosse feito o reconhecimento dos cadáveres, mandando respeitar os mortos.

E repisou o entrevistado:

- O degolamento foi uma medida acertada. Se não tivesse ocorrido, muita gente, até hoje, não acreditaria na morte de Lampião.

VERSÕES QUE DIVERGEM

O nosso entrevistado vai além.

- Um dos ex-combatentes da época, coronel Manuel Neto, da Polícia de Pernambuco, e ex-prefeito de Irajá, escreveu, levantando dúvidas quanto às reais circunstâncias que rodearam o fim de Lampião. Forçou, com isto, os meus colegas das Alagoas a censurá-lo e levou-me igualmente, a lhe escrever uma carta, que dizia, a certa altura, mais ou menos o seguinte: “Deixe, meu bom colega, que os paisanos venham em cima de nós, militares, com seu despeito, sua inveja, não um velho militar, nas suas condições, que, muitas vezes, imitando-me ou tentando imitar-me, se amparou no seu mosquetão, aguardando o pronunciamento da Justiça. Você sabe bem, está bem lembrado, de quando lhe telegrafei, chamando-o, e que você, em lugar de comparecer, para me ajudar, mandou o sargento Davi Surubeba (que ainda hoje é vivo e está lembrado), que chegou retardado, encontrando-me nas mãos de dois médicos, que me pensavam dos ferimentos recebidos no combate meia hora antes. E Davi Surubeba e o sargento Odilon Flores, de saudosa memória, pegaram as cabeças dos cangaceiros, tendo o primeiro, ao erguer a de Lampião, asseverado, chorando: “Queria que fosse eu que tivesse morto Lampião. Mas foi o meu amigo, tenente João Bezerra, quem o matou”.

MEMÓRIAS EM TERCEIRA EDIÇÃO

Perguntamos ao coronel Joao Bezerra sobre Volta Seca, atualmente no Rio de Janeiro, onde até se iniciou como cantor. A resposta é áspera: “É um cachorro!” Narra-nos, então, um episódio, impublicável, marcado pela maior brutalidade, cujo protagonista principal foi aquele ex-integrante do grupo de Lampião. E arremata o entrevistado, após acentuar que a fita “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, foi uma pantomima, sem guardar qualquer relação com a verdade histórica, e que pretende figurar, em breve, como ator, num filme sobre a vida e a morte de Lampião, produzido pelo seu amigo, deputado, Tenório Cavalcanti.

- Dessa forma é que vou publicar a terceira edição do livro sob o título “Como dei cabo de Lampião”, com capítulos interessantes para o momento, inclusive o desmentido a algumas notas escritas irrefletidamente por pessoas inescrupulosas.

Terminara a entrevista, quatro horas e dez minutos após se haver iniciado. Conduzimos o entrevistado até à porta do hotel. “Não lhe ficou, portanto, qualquer remorso da liquidação de Lampião e seu bando?” – reinquirimos. E o coronel João Bezerra, firme:

- Nenhum remorso. O degolamento enquadrou-se, como já disse, num processo histórico. Depois, era mais cômodo trazer as cabeças que os corpos, dada a distância em que nos encontrávamos. Trazer os corpos seria impraticável.

O coronel João Bezerra pede que lhe enviemos exemplares do número de O GLOBO em que foi publicada a entrevista. Quando apertava a mão do repórter, um hóspede do hotel, identificando-o, comentou com o companheiro:

- Olhe o degolador de Lampião...

E o coronel João Bezerra, já ganhando a calçada:

- Aí começa a lenda. A verdade termina no que lhe contei. Foram feitas as despedidas e o coronel João Bezerra afastou-se, tranquilo, como se estivesse na santa paz dos céus, sem que lhe angustiassem o espírito aquelas cabeças que rolaram, um dia, pelo chão calcinado dos sertões, há quase duas décadas. Certamente os espectros não transpõem a porteira da sua fazenda, onde se erguem as sombras dos cafezais e dos canaviais e onde o gado muge as suas mágoas – as únicas existentes na queda 

 “O GLOBO” – 26/06/1957

Fonte: facebook
Página: Antonio Corrêa Sobrinho

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

LEITURA CONCLUÍDA

Por Raul Meneleu Mascarenhas

Prezado confrade Archimedes Marques, acabei de concluir a leitura de seu livro. Quero dizer que Você está de parabéns, pois apenas um advogado experiente e além do mais também uma autoridade de justiça, poderia, aliado a um grande conhecimento do cangaço, com suas implicâncias sociais, fazer a defesa com tamanha maestria, não defendendo o lado Lampião como bandido, mas apenas expondo os argumentos pífios do livro que tomando as palavras do mestre Alcino Alves, é um verdadeiro "acinte a verdade da história".


Realmente é um brilhante e elucidativo trabalho que desfez os fracos argumentos de Pedro Morais, em seu livro "Lampião o mata sete".


Um abraço.
Raul Meneleu Mascarenhas

Fonte: facebook
Página: Raul Meneleu Mascarenhas

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CARIRI CANGAÇO PRINCESA 2015 !!!


Você é nosso convidado especial para conhecer uma das mais impressionantes epopéias do sertão nordestino: A espetacular história de Princesa Isabel "Território Livre", berço de Marcolino Diniz, Xanduzinha e do emblemático coronel Zé Pereira; em um dos eventos mais esperados do ano: Cariri Cangaço Princesa; 20 e 21 de Março de 2015, você não pode ficar fora dessa grande festa de alma verdadeiramente nordestina...

Fonte: facebook
Página: Cangaceiros Cariri

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“O GLOBO” – 04 E 05/11/1958 (PARTE I E II)

Material do acervo do pesquisador Antonio Corrêa Sobrinho

A partir de hoje, compartilharei com os amigos a excelente matéria do jornal “o globo” sobre o cangaceiro Volta-Seca, assinada pelo jornalista Bruno Gomes, sob o título “Como se Forja um Cangaceiro”, publicada nas edições de Novembro de 1958. 

Miséria e abandono é que geram o cangaço

“Volta-Seca” Ainda Teme a Justiça, e Com Certa Razão – A Culpa do Cangaço Não Está Apenas no Coronelismo – O Fenômeno Existe Pelo Menos Desde o Século XVIII.

Duas foram as razões que me fizeram escrever a vida de Antônio dos Santos, o Volta-Seca. A primeira, humana, em sua essência, foi a pena de vê-lo passando miséria com mulher e quatro filhos, sem outra fonte de renda além de três mil e oitocentos cruzeiros mensais, proveniente do seu emprego de servente da Estrada de Ferro Leopoldina. A segunda, foi a vontade de escrever alguma coisa interessante e que pudesse ter utilidade para os estudiosos do fenômeno cangaço. Tenho lido bastante a esse respeito e creio que muito ainda falta dizer para que os prósperos possam ter uma ideia mais exata do que foi aquela terrível época de banditismo que abalou o norte do País.

Não foi fácil, porém, convencer Volta-Seca a contar-me sua vida. E isso porque ele ainda teme o passado. Não as vinditas apenas, mas especialmente a Justiça. Por mais incrível que pareça, apesar de ter passado vinte anos trancafiado na penitenciária da Bahia, Volta-Seca ainda tem medo da Justiça. Medo compreensível não resta dúvida, já que sua própria condenação não passou de uma arbitrariedade que só mesmo no Brasil, onde tudo é possível, poderia acontecer.

O ERRO CLAMOROSO

VOLTA-SECA ingressou no bando de Lampião aos onze anos de idade. Ainda não tinha completado quinze quando foi preso e remetido para Salvador. Com essa idade, de acordo com o Código Penal Brasileiro, jamais poderia ser julgado, no que concordaram as autoridades baianas, mas esperaram que o rapaz completasse 21 anos atrás das grades e assim, seis anos após a sua captura, submeteram-no a julgamento numa cidadezinha do interior do Estado, por onde Lampião deixara rastro de sangue e dor. O júri dessa cidade condenou-o a 145 anos de cadeia! Retornando a Salvador, a pena foi reduzida para trinta anos, dos quais Volta-Seca cumpriu vinte, tendo sido indultado pelo Presidente Getúlio Vargas, em 1954.

Aí está a razão pela qual Volta-Seca ainda tem medo da Justiça, de nada valendo dizer-se que era menor naquele tempo, pois a cadeia ainda lhe está bem viva na memória. Tem sofrido o diabo por aí afora, e só mesmo a miséria e a confiança depositada em mim fizeram-no contar a sua vida para que eu a escrevesse.

Penso que destas memórias muita coisa poderá ser aproveitada pelos estudiosos. Não me iludo pensando que todos concordarão com as histórias do Volta Seca, mas é preciso que se diga desde início que, a respeito do cangaço, existem muitas contradições. E quero ressaltar que nesta narrativa tive todo o cuidado em não recorrer à fantasia. Não é o meu estilo que se verá aqui mas uma forma simples e jornalística de contar os fatos. Muitas vezes preferi reproduzir “litteratim” frases de Volta-Seca. Não procurei tampouco ir a arquivos ou coleções de jornais para conformar fatos com nomes e datas: escrevi o que Volta-Seca narrou. Se ele não se lembrava do nome de certa cidade, mas acrescentava que ficava perto de determinada localidade, era assim que eu punha no papel. O que ele não sabia ou não se lembrava, eu não inventei, nem procurei completar.

O APELIDO DE “LAMPIÃO”

A HISTÓRIA de Lampião, por exemplo, transcrevi conforme Volta Seca disse que a ouviu do próprio Virgulino Ferreira. Não sabe qual a origem do apelido de Lampião, e assim ficou na narrativa. Preferi não recorrer a José Lins do Rego, que explicou o apelido de Lampião desta forma: “No fogo do tenente Levino, o rifle do menino Virgulino parecia um Lampião na noite escura. O bicho atirava que só metralhadora. Veio daí o apelido que por mais de dezesseis anos encheu os sertões de pavor.”

Com a devida licença, cremos que o grande José Lins fantasiou um pouco a origem do apelido. Mas o que ele disse já não é o mesmo que outros escritores disseram, e o que existe, afinal, é uma grande confusão em torno do assunto. Como casa um diz uma coisa e Volta-Seca tem também o direito de dizer, pois é a única testemunha dos acontecimentos ainda viva, vamos dar um pouco de crédito ao rapaz.

QUEM TEM CULPA?

NÃO concordamos com os que põem a culpa do cangaço exclusivamente no coronelismo, nos famosos senhores de engenho, como se desses indivíduos viesse todo o mal do banditismo dos sertões. A meu ver, não passaram os coronéis de simples efeito da verdadeira causa das desgraças daquela parte do País. Todo o mal dos sertanejos está na miséria que assolou e assola ainda aquela região. Num lugar onde ainda hoje, devido á seca, um pai troca uma filha por uma mula para poder alimentar o resto da família, tudo pode acontecer. Quê dizer de gente que atualmente vem comendo as mais extravagantes comidas, como jaca verde cozida? E, finalmente, quê pensar de um Governo que ainda atualmente permite que políticos inescrupulosos, diante de toda essa desgraça, manobrem as verbas votadas para auxiliar os flagelados em campanhas eleitorais? Naquela época ainda era pior, graças à política que também andava pior (será possível?) do que hoje. E para se saber o que era a lei então, basta ler a vida dos cangaceiros. Basta ler a do próprio Lampião, cujos pais foram assassinados por tropas estaduais que assim procederam em causa própria, em disputa de terras. Quem se dispuser a ler as crônicas e reportagens daquele tempo, saberá das atrocidades narradas pelos repórteres, dos crimes praticados por sargentos e soldados, e mesmo por oficiais.

O CANGAÇO É ANTIGO

Pôr culpa de tudo isso nos “coronéis” é um pouco de exagero. A culpada é a miséria, o abandono que o Governo inexplicavelmente sempre votou àquela região. Digo sempre, porque o cangaço é muito antigo, visto que o primeiro cangaceiro de que se tem notícia remonta ao fim do Século XVIII, era conhecido por Cabeleira. Depois dele, muitos vieram, mas sobre todos se destacou (já no Século XIX), Jesuíno Brilhante. Era um nunca acabar de bandidos, mas sobressaíam os protegidos pelos políticos. O que mais tempo durou como cangaceiro foi Antônio Silvino, que chegou a ganhar fama de bom bandido. Dizem mesmo que no fim da vida se converteu religioso e pregava o protestantismo. Silvino cumpria quase trinta anos de prisão e, se vivesse, estaria com mais de noventa anos.

O mais famoso de todos os cangaceiros, porém, foi Lampião. Tanto pela ferocidade, como pelos conhecimentos de tática de combate, pois centenas de vezes derrubou as tropas regulares, muitas delas com inferioridade de homens e atacado de surpresa. Lampião inscreveu seu nome na história do Nordeste da forma mais brutal que um ser humano seria capaz de fazê-lo. Tudo que se imaginar de cruel, Lampião seria capaz de executar. E, no entanto, por dar de quando em vez esmolas aos pobres, em certos lugares, a lenda o transformou em bom moço. Já li inúmeras histórias em verso de poetas nordestinos, dizendo que ele era o “grande protetor da pobreza”...

PASTO PARA A PSICANÁLISE

Não iremos mais além. O cangaço já não existe, felizmente, naquelas regiões, muito embora a miséria ainda perdure. Os que têm vocação para cangaceiro preferem emigrar para as capitais, onde abraçam a carreira do crime. Mas, nas memórias de Volta-Seca, uma coisa ficará para estudo. São os tipos que compunham o cangaço e um pouco de sua vida, para que se possa fazer uma ideia de como se tornavam bandidos. São histórias muito parecidas, mas que sempre diferem um pouco no que toca à formação moral de cada um. Veremos que naquele amontoado de criminosos, existiam os que não matavam padres, nem maltratavam crianças, nem mulheres. E existiam os que faziam tudo isso, eram ótimos maridos e não podiam ver um animal sofrer... Um psicanalista que leia esta narrativa deliciar-se-á com os “cabras” Lampião.

O DESTINO VAI ME EMPURRANDO

A Infância de Volta-Seca – Influência da Madrasta – O Menino Foge de Casa – De aldeia em Aldeia, Até o Arraial de Goloso – Em Contato Com
Dois “Cabras” de Lampião

A RAZÃO pela qual meu pai me pôs o nome de Antônio nunca me foi contada. Aliás, não sei por que me chamo Antônio, nem também porque meu apelido, no bando de Lampião, era Volta-Seca. O fato é que eu era o sexto de treze filhos. Meus irmãos, pela ordem de nascimento, se chamavam: Maria, Felismina, Laura, Otília, Fausta, José, Marcolino, João, Pedro, Francisca, Jovelina e Santa. Éramos uma família grande, coisa muito comum onde nasci, em Itabaiana, cidadezinha distante umas quinze léguas de Aracaju. Todos naquela localidade tinham família numerosa, sendo que o recordista do local era um vizinho nosso, seu Manuel Tenório, pai de 22 filhos, dos quais, vinte do sexo feminino e apenas dois homens.

Meu pai, que se chamava Manuel Antônio dos Santos, era proprietário de um pequeno sítio que dava para sustentar a família, muito embora nada sobrasse para amealhar. Ele negociava com o que o sítio produzia: algodão, cana, feijão, milho, banana e frutas. Minha mãe, que se chamava Arminda Maria dos Santos, era uma santa! Ajudava muito meu pai, além de cuidar com carinho de todos os filhos.

Nós nos sentimos felizes, vivendo bem à moda nordestina, e todos os anos, também à moda nordestina, aumentando de número... De todos, fui eu que mais trabalho dei para nascer. Vim ao mundo no dia 18 de março de 1918.

TEMPERAMENTO DORMENTE

POUCO lembro dos meus primeiros anos. Uma ou outra recordação passa desbotada, imprecisa, pela minha lembrança, muitas quase desconhecidas, tal a margem de anos que me separam delas. Mas sei de uma coisa: sempre fui um menino calado e que gostava de brincar sozinho. Jamais gostei de grupinhos, e isso me valeu a pecha de sonso. Era, porém, meu temperamento. Nunca fui brigão. Não me lembro de nenhuma briga com meus irmãos ou com meninos da vizinhança. E seria difícil que isso sucedesse, pois, solitário como sempre fui, não haveria jamais oportunidade. Mas por trás desse temperamento pacato, sempre fui genioso. É que não se apresentava o momento de me mostrar. Sem motivo ninguém se zanga, e eu vivia bem, feliz, não precisando lançar mão da violência. Só vim a dar pelo meu gênio quando já era crescido. Descobri essa faceta do meu temperamento aos nove anos de idade. Eu já era então bem desenvolvido, ainda que miúdo. Por esse tempo já auxiliava meu pai nos serviços leves do sítio. Aconteceu então um fato que até hoje me causa um nó na garganta, sempre que o recordo: minha mãe morreu! Eu gostava demais dela, e sua morte foi um choque muito violento. Mamãe foi-se com 36 anos de idade, deixando-me com nove apenas. Ela morreu cedo e me deixou cedo demais... Vivíamos muito bem e ela me compreendia como ninguém me compreendeu até hoje. Aliás, compreendia a nós todos, mas falo por mim. Ela adivinhava tudo que eu pensava e queria. A lembrança de seus carinhos ainda é a coisa mais pura que trago no coração. Pobre mãe... Não imaginava que seu Toninho, cuja cabeça com tanto carinho ela acariciava, ia ser arrastado pelo turbilhão do mundo e tornado pelo destino no famigerado “Volta-Seca”... Não, boa como ela era, não poderia jamais supor uma coisa assim. Mas tenho certeza de que ela, de onde está, pode ver o que foi a minha vida e saber que, de tudo que fiz, fui talvez o menos culpado. E vivesse ela mais uns dez anos, provavelmente eu não me teria tornado cangaceiro.

A GÊNESE DO ÓDIO

DESCOBRI o ódio em mim quando meu pai, após a morte de minha mãe (três meses apenas), pôs uma mulher em casa. Naquela época, sua decisão foi encarada por mim e por meus irmãos como a mais antipática possível, mas hoje em dia compreendo o desespero do velho ao ver treze crianças sem mãe. Minha madrasta chamava-se Maria e não era uma mulher feia. Podia dizer-se até que era bonita. Era de uma energia à toda prova e tinha consciência da sua função de madrasta. Logo se fez senhora absoluta da casa e vivia a manobrar meu pai, que não a contrariava em nada. Era violenta, e desde cedo começou abater nos meus irmãos, que aceitaram a nova vida. Eu, o mais calado de todos, não gostei... Eu não podia aceitar a ideia de ela bater em gente que não pôs no mundo. Com resmungos e atitudes ofensivas, eu ia demonstrando a minha reação, até que um dia, diante de minha resistência às suas ordens, ameaçou bater-me. Ameaçou, apenas! Mas foi o bastante, pois senti o que jamais havia sentido: ódio! Como não pude fazer nada, pois meu pai estava perto, limitei-me a olhá-la fixamente. Eu estava passando mal. Corria pela minha espinha um calafrio e os cabelos chegavam a arrepiar. Perdi o apetite e não consegui dormir direito. Passei a odiar minha madrasta, a que me ameaçou bater, coisa que minha mãe nunca fizera antes.

Num ambiente assim, com o sentimento novo que surgiu em mim, a coisa não poderia ir muito além. E não foi mesmo. Chegou ao máximo num dia em que ela bateu em Jovelina, a irmã que eu mais gostava. Ao vê-la espancando Jovelina, pus-me entre as duas e, espumando de raiva, falei-lhe: “Não bata mais nela. Se quiser bater, ponha gente no mundo. Não bata nos filhos dos outros”. Ela me olhou surpresa, mas como era disposta e sabia que era a dona da casa, respondeu-me: “Você apanha, quanto mais ela...” – “Por quê não tenta?” respondi em desafio, passando a mão num tamanco que estava no chão, próximo de mim. Ela não esperou mais e investiu furiosa. Mas foi investir e levar com o tamanco na cara! O choque deixou-a tonta e o sangue que jorrou de sua testa chamou-me à realidade. Ao vê-la sangrar, recobrei a razão e pensei logo nas consequências. Garoto, com apenas nove anos de idade, logo imaginei a reação que meu pai teria. Ele era um homem bom, mas, açulado por minha madrasta, virava fera. Foi quando decidi fugir e me dirigi para a casa de um tio, em Pinhão, seis léguas dali.

A FUGA

NA CASA de meu tio passei pouco tempo. Meu pai foi buscar-me e, apesar de meu tio tentar impedi-lo de levar-me, eu acabei regressando a casa. Tenho a impressão de que o velho preferia me ver longe da minha madrasta, pois o incidente deixara uma marca na testa dela, e marca na cara ninguém esquece facilmente, pelo menos enquanto houver espelhos... Mas levou-me de volta, e atendeu ao pedido de meu tio para não me espancar. Deu-me um sermão longo e exaltou as virtudes de minha madrasta, que ele insistia em me impingir como mãe. Quando me deixou em paz, pus-me a pensar e cheguei a dolorosa conclusão de que não continuaria em casa. Ir-me-ia para longe, pois não conseguiria mais afinar com a mulher de meu pai.

Assim pensei e assim fiz. Nem um mês se passou e, graças à carona de um caminhão, fui para Aracaju. Meu pai tentou encontrar-me, mas não foi feliz, pois a cidade não é um arraial. Mesmo porque não fiquei perambulando pelas ruas. Arranjei, no mesmo dia da chegada, um emprego na casa de uma senhora, D. Joana, doceira das melhores que já conheci. Meu trabalho consistia em vender, num tabuleiro, os doces que ela fazia, sendo meu ordenado de trinta mil réis mensais.

Vendi doces para D. Joana durante seis meses. Meu pai depressa se esqueceu de mim, pois não me procurou mais. E mais tempo eu ficaria vendendo doces, não fosse D. Joana ter o meu hábito de não pagar os empregados. Nunca tinha dinheiro trocado para me pagar.

- Dona Joana, dizia eu, preciso de dinheiro pra comprar roupa.

- Não tenho miúdo, meu “fio”, era a resposta da velha. Nunca tinha miúdos. Dos seis meses de trabalho, consegui receber dois apenas, e assim mesmo sabe Deus como. Não vendo futuro naquilo, resolvi mudar de pouso. Ia fugir novamente. Tracei um plano. Fugiria, mas levaria algum dinheiro do que D. Joana me devia. Como ela não pagaria de forma alguma, certo dia falei-lhe: “D. Joana, amanhã faça bastante doce. Faça doce de leite, de groselha, de ovos, muito, mesmo, porque vai chegar um trem da Bahia e eu vendo tudo. O trem vai a Propriá e volta”. O trem voltaria, eu é que não. D. Joana, diante disse, trabalhou aquela noite com uma rapidez nunca vista. Encheu o tabuleiro, que tinha dois andares, (...) fui falar com o Delegado, seu Josias, a fim de explicar o caso dos doces, pois sabia que D. Joana não tardaria a aparecer. O delegado ouviu tudo e disse que eu fizera bem, que não tivesse medo, e acabou me oferecendo um emprego na casa dele. O serviço constava de pôr barris com água no lombo de um burro, para consumo da casa. Serviço duro demais para um garoto de dez anos. Faltavam-me forças, e o delegado compreendeu. Assim mesmo fiquei na casa de seu Josias ajudando. Um ou dois meses depois chegou o Natal. A cidade estava em festa e eu passeava pela feira quando vi D. Joana em minha frente, juntamente com um soldado.

- “Sordado”, pode “prendê” esse “minino” aqui, ordenou ela.

- Quê fez o menino? – perguntou o soldado.

- “Me robou”.

- Você é mais ladrona que eu, respondi zangado.

Diante disso o soldado levou-nos à Delegacia, onde seu Josias, ao ver-nos entrar, logo compreendeu tudo. Fez-se, porém, de desentendido e ouviu a queixa de D. Joana, para, em seguida, dirigir-me a mim.

- Então? Quê me diz o “senhor” da queixa que esta senhora veio dar? O “senhor” era empregado dela e sem motivo algum “arribou” com o tabuleiro e os doces. Quê fim o senhor deu ao tabuleiro?

- Ora, seu Josias, perdido pela metade, perdido de vez, respondi. O tabuleiro eu joguei dentro da maré. O caso é que ela me devia dinheiro, não pagava... Quer dizer, na justa razão, eu ainda tenho prejuízo.

- Ele não teve paciência de esperar, falou D. Joana. Eu ia pagar tudo. É que... não tinha trocado na hora...

O delegado olhou-me sério e disse:

- Quanto apurou nos doces?

- Cem mil réis, respondi; mentindo, é claro.

- Quanto ela lhe devia?

- Cento e vinte mil réis.

O delegado olhou para D. Joana e falou:

- Dê ao menino os vinte mil réis que falta. Você é que é ladrona.

- Mas... e o meu tabuleiro? – reclamou d. Joana.

- Joguei no mar, deve estar boiando, respondi cinicamente.

A pobre mulher ainda quis protestar, mas vendo que seu Josias já estava decidido a fazê-la pagar-me, puxou vinte mil réis da bolsa e pôs na mesa, seu Josias então disse para ela:

- Pode puxar daqui que eu não quero vê-la mais!

Bom homem, seu Josias. Gostava de mim e eu muito dele, mas eu não queria ficar em São Cristóvão. Queria viajar, mudar de lugar, muito embora ele insistisse para que eu ficasse. Mas, tanto insisti, que ele me deu passagem para a cidade de Simão Dias.

OS “MENINOS” DE LAMPIÃO

NESSA cidade trabalhei num armarinho quase um ano. A loja era de propriedade de seu Adauto, boa criatura, que juntava o dinheiro. Quando resolvi, depois de um ano, deixar o lugar e internar-me no mato, seu Adauto deu-me seiscentos mil réis meus, fruto do meu trabalho, e mais trezentos mil réis de gratificação. Deixei Simão Dias e andei muito. Estava farto da vida de cidade e queria voltar para o mato. Andei tanto, que saí do estado de Sergipe e entrei na Bahia, precisamente a 25 léguas de Simão Dias, no arraial de Goloso.

Pouca gente sabe onde fica esse arraial, mas posso dizer que está localizado no interior da Bahia, a umas cinco léguas da cidade de Antas. Goloso estava reservado pelo destino para mim. Estava à minha espera para arruinar-me a vida. Quando cheguei, porém, não tive essa impressão. Pelo contrário, achei um lugar ótimo pra ficar. Gente boa, hospitaleira. Logo arranjei trabalho numa fazenda com uma família pequena, constituída de quatro pessoas. O dono era seu Danilo e a fazenda ficava afastada do arraial um quilômetro, mais ou menos. Tinha duas filhas, Lindaura, de dezoito anos e Rosália, de dezesseis. Foram as moças que me convidaram para ficar, no dia em que passei por lá e pedi água para beber. O pai aprovou a ideia e comecei no mesmo dia a trabalhar. Trabalhei bastante, fiz uma roça, plantei milho, feijão, abóbora, melancia. Seu Danilo e sua esposa gostaram muito de mim, e eu fui ficando com eles. Quase um ano se passou, até que um dia aconteceu o que eu nunca podia esperar.

Seu Danilo havia saído para o campo, e não voltaria senão dali a alguns dias. Eu disse a Rosália e Lindaura:

- Vamos à roça que preciso colher umas melancias para vender.

A roça ficava a uns duzentos metros da casa e eu e as moças fomos até lá. Enquanto eu apanhava as melancias, as moças ficaram um pouco distantes, em baixo de um pé de umbu. Elas cantavam, ainda me lembro bem. Eu, enquanto trabalhava, me afastava das meninas, mas de repente elas pararam de cantar e correram para o meu lado.

- Veja, Toninho! Disseram. 

Dois homens a cavalo aproximaram-se de nós. Pensei que era a força volante, famosa pelas tropelias que fazia nas fazendas. As moças quiseram fugir, mas eu lhes disse que nada adiantaria. Eu estava assustado.

Os dois homens estacaram os cavalos perto de nós e vi então que usavam chapéu de couro, roupa mescla, cinturões de balas cruzados, parabélum e fuzil. Ao ver-nos assustados, um deles disse:

- Não corre ninguém que aqui é o mininos de Lampião. Não tenham medo que não vamos fazer nada com vocês. Só queremos um animal pra viajar.

Longe de nos tranquilizar, a ideia de que Lampião estava no arraial mais nos assustou...

CONTINUA...

Fonte: facebook

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BANDITISMO NOS SERTÕES

Material do acervo do pesquisador Raul Meneleu Mascarenhas

Uma das primeiras referências a Lampião no jornal O Globo, veio com o artigo abaixo intitulado "O banditismo dos sertões" com uma fotografia dele e seu bando.


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NOITE DE AUTÓGRAFOS DE "UMA GARÇA NO ASFALTO", DE CLAUDER ARCANJO, EM NATAL-RN


Caros amigos e amigas:

Estarei nesta quinta-feira, dia 29 de janeiro de 2015, a partir das 19h, autografando o meu livro de crônicas Uma garça no asfalto (Letra Selvagem), em Natal-RN. O evento dar-se-á na Livraria Nobel, na Avenida Salgado Filho.

Espero contar com a presença de vocês.
Deste escrevinhador provinciano,
Clauder Arcanjo.

Enviado pelo escritor, professor, pesquisador do cangaço e presidente da SEBC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço Benedito Vasconcelos Mendes.

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O PRIMEIRO JORNAL DO CARIRI: O ARARIPE


Neste ano de 2015, faz 160 anos da primeira publicação do Jornal O Araripe, primeiro jornal produzido no Cariri cearense, cujo redator era um inteligente jovem chamado João Brígido dos Santos.

Nascido em São João da Barra, no atual estado do Rio de Janeiro, em 3 de dezembro de 1829, João Brígido, com apenas 27 anos de idade foi o principal idealizador do referido hebdomadário, cuja a primeira edição saiu no sábado do dia 7 de julho de 1855, confeccionado na Cidade do Crato, na Tipografia Monte & Companhia, sita à Rua da Matriz, sob as expensas de do Sr. José Montes Furtado.
         
Nesta edição o redator não deixa dúvida sobre a primogenitura do dito semanário na região do Cariri, ao arrematar que: “O nosso destincto amigo, o Sr. José do Monte Furtado vem de ministrar-nos um prello mandando vir a expensas suas, e hoje pela primeira vez após dusentos annos de existencia social o ameno Carirì lê um jornal impresso na Cidade do Crato, sua sede natural”. 
         
O Araripe, inicialmente, trazia como logomarca a imagem de um índio trajando uma saia de penas e um cocar sobre a cabeça, bem como um arco nas mãos. Em verdade, suas armas eram setas envenenadas, palavras tão doridas quanto uma flechada à queima roupa, nem sempre disparada pelo redator, mas por alguns habitantes da região que se digladiavam francamente por inúmeras páginas.
         
O conteúdo deste jornal era variado, passando por questiúnculas banais a temas de grande monta, como a criação da Província do Cariri. Também noticiou vastamente sobre a marcha da cólera-morbo que se dirigia paulatinamente ao Cariri e a esperança de tratá-la com suco de limão.
         
Outros temas curiosos também são abordados pelo O Araripe, como o conflito dos moradores pelas águas das nascentes, os prejuízos causados pela pecuária à agricultura, a fuga dos escravos, intrigas políticas, corrupção, etc.            
         
O Araripe, além de indicar uma produção intelectual intensa no interior do Ceará, também atesta a circulação de outros periódicos no meio interiorano, como o Correio Mercantil, o Correio da Tarde, O Cearense e outros, apontando relativa ilustração de uma parcela da população daqueles rincões.
         
O hebdomadário O Araripe teve 336 números, datando sua última publicação do dia 18 de fevereiro de 1865.
         
Por fim, aqueles que tiverem interesse de ler esta obra monumental, a coleção deste jornal pode ser vista na hemeroteca da Biblioteca Nacional, disponível no seguinte endereço: 
http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx

(Jornal Acontece, Região do Cariri - De 21 de janeiro a 31 de janeiro de 2015, Nº 54 - Ano 6 - Fundado por Antonio Rodrigues Peixoto, p. 06).

http://estoriasehistoria-heitor.blogspot.com.br/2015/01/o-primeiro-jornal-do-cariri-o-araripe.html


Fonte: facebook


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domingo, 25 de janeiro de 2015

“A ARMA DOS SONHOS DE LAMPIÃO” PISTOLA MAUSER C96


Um dos enganos mais comuns que existem no imaginário popular é o de que foi Peter Paul Mauser o projetista da pistola C96. Paul Mauser tinha, sob sua responsabilidade, a Waffenfabrik Mauser, um complexo fabril de alta tecnologia, herdado de seu pai, de onde saíram os mais famosos e bem sucedidos fuzís militares de repetição de que se tem notícia. Paul Mauser nasceu em Oberndorf, perto do rio Neckar, Alemanha, em 27 de junho de 1838 e faleceu em maio de 1914. 

O clipe carregador da Mauser C96 com 10 cartuchos calibre 7,63mm, fabricação da DWM

Em 1871, ele se seu irmão Wilhelm desenharam um dos primeiros fuzís militares com ação de ferrolho, 0 modelo 1871, de um só tiro, em calibre 11x60R, com uso de pólvora negra(...)por volta de 1894, os irmãos Feederle já tinham um esboço da pistola, a qual inicialmente usaria o cartucho 7,65 mm X 25 oriundo da pistola projetada um pouco antes por Hugo Borchardt, em 1893 e cuja evolução, quando nas mãos de Georg Luger, iria levá-la a se tornar a famosíssima pistola Parabellum (Luger)(...) Alguns autores costumam relatar que ao tomar conhecimento dos primeiros desenhos e do projeto em si, Paul Mauser havia torcido o nariz. Afinal, tratava-se de algo inteiramente novo para ele e para a Mauser; apesar do primeiro impacto negativo, ainda assim mandou que tocassem o projeto para a frente. 

Magnífico exemplar de uma C96 “large-ring hammer” e armação sem as usinagens dos rebaixos, tipo “Slab-Side”

Em 11 de dezembro de 1895, depois de excelentes resultados obtidos em testes, Paul Mauser registrou sua patente na Alemanha sob Nº 90430. Em seguida, ampliou os direitos de patente para inúmeros países do mundo, inclusive no Brasil, onde registrou sob Nº 2088 em 28 de julho de 1896(...)Depois de diversas modificações e de mais alguns protótipos testados, um modelo de transição foi fabricado em dezembro de 1895. Em fevereiro de 1896, o grupo desenvolvedor convenceu Paul Mauser de que a arma poderia ser lançada comercialmente e entrar em linha de produção. Tanto o mercado civil como o militar de diversos países estavam na mira do pessoal da Mauser. Com o aval de Mauser, a fábrica começou a fabricar a pistola em série, denominada oficialmente de C96 (“Construktion 96″). Neste primeiro instante, decidiu-se pela fabricação de modelos com carregadores fixos de 6, 10 e 20 cartuchos (Obs: todos os carregadores das C96 são fixos e bifilares (cartuchos alinhados aos pares), exceto nas últimas versões) e estabelecer uma mudança fundamental no cartucho empregado(...)Optou-se por manter as dimensões do cartucho 7,65 X 25 da pistola Borchardt, mas como a C96 oferecia uma maior resistência mecânica e uma trava de culatra muito reforçada, alterou-se a carga de pólvora então empregada e fez-se modificações no peso do projétil, criando-se assim o cartucho 7,63mm Mauser (...)


A EVOLUÇÃO 

Devido à grande variedade de versões feitas especificamente para cumprir contratos com diversos países, inclusive modificações solicitadas pelos clientes, fica inviável expor todas as variações aqui, em detalhes. 
Nossa intenção neste artigo é fornecer um panorama geral dos principais modelos mais importantes, fornecendo ao leitor subsídios para uma identificação correta de uma peça que venha, porventura, a avaliar.


Uma versão da pistola que se sobressaía em relação às demais era a carabina, que foi produzida em bem menor quantidade do que as pistolas e que já trazia a coronha de madeira com a empunhadura integrada, embora ela pudesse ser destacada da armação para facilitar o armazenamento. A coronha das carabinas, ao contrário das que acompanhavam as pistolas, não servia como alojamento para guardar a arma.


Caixa com 50 cartuchos, datada de 1918, da empresa alemã RWS.

Os canos eram fornecidos com 30 cm ou com 37 cm de comprimento, e foram fabricadas desde 1899 até 1920. O alcance efetivo dessas carabinas era muito maior do que o das pistolas, abrangendo cerca de 100 a 200 metros(...)”.

Fonte e fotos armasonline.org


O CANGAÇO ‘RECANTO DA HISTÓRIA’
Fonte: facebook
Página: Sálvio Siqueira

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“O GLOBO” – 26/06/1957 - PARTE IV

Material do acervo do pesquisador Antonio Corrêa Sobrinho

COMUNICAÇÃO COM AUTORIDADES PERNAMBUCANAS

O coronel João Bezerra relata, adiante:

- O subdelegado demonstrou, então, que já tinha estabelecido contato com os cangaceiros, naquele dia. Compreendendo que eles se achavam perto, talvez escondidos pelo próprio subdelegado e temeroso de argui-lo sozinho, porque no “aperto” ele poderia morrer, daí surgindo más consequências e aborrecimentos entre unidades federadas, resolvi telegrafar ao Comandante Optato Gueiros, que se encontrava em Águas Belas, nos seguintes termos: “Venha urgente para tratarmos do plano para a campanha, pois, desta feita, obteremos os melhores resultados de toda a ofensiva contra o banditismo”. Não quis ser mais explícito, visto como, naquela época, os telegrafistas eram quem mais prevenia os cangaceiros. Obtive, pouco depois, a resposta que transcrevo: “Deixo de atender ao vosso chamado, por motivo de os veículos se acharem em reparos. Opino, entretanto, por uma batida nas caatingas dos Guaribas”. Diante do exposto, deliberei pegar o subdelegado, desse no que desse. Mandei buscá-lo, mas ele se evadira, ganhando o mato. Esperei mais três dias, mas ele não regressou.

TENTANDO DESPISTAR

- Aproveitei a boa vontade do sargento Domingos Cururu e ordenei-lhe que, regressando o subdelegado, ele lhe batesse duro. Retirei-me, pois com a minha presença ele não tornaria. Segui, então, para Águas Belas, onde o comandante Optato Gueiros me aguardava. Lá, trocamos ideias a respeito da questão em lide, tendo eu rumado, a seguir, para Santana, a fim de prestar contas da diligência de quatorze dias ao coronel Lucena, de quem obtive oito dias para descansar. Transcorrido esse período, fui cientificado pelo próprio coronel Lucena, comandante-chefe das tropas volantes com sede em Santana, de que circulavam boatos segundo os quais Lampião atravessara a fronteira de Pernambuco, entrando em Alagoas, pela zona de Pilão do Gado, já município de Mata Grande. Tocando num lugarejo circunvizinho, tomou umas cargas de rapadura dos matutos, fazendo com que estes o ouvissem anunciar que ia direto a Moxotó. Compreendi logo que era justamente o contrário, pensando o coronel Lucena como eu.

NO COMANDO DA TROPA

- Segui imediatamente com a tropa, tendo convidado, por telegrama, o coronel Lucena, a fim de nos juntarmos no Barro Branco. Acertamos aí o esquema da ação policial, com o coronel Lucena passando-me o comando de toda a tropa em manobra, determinando, ainda, que eu fosse para Mata Grande com o aspirante Ferreira, que ele, três dias após, iria levar nossos vencimentos e ultimar providências porventura não assentadas até àquele instante. Vencido o prazo, chegando o coronel Lucena ao local, eu já havia ordenado as buscas em Moxotó, verificando-se a existência de vestígio de bandidos na região. Combinei com o mesmo coronel Lucena telegrafar ao comandante Optato Gueiros, em Aguas Belas, chamando-o a Maravilha, com o objetivo de acertarmos o envio de tropa pernambucana para Moxotó, enquanto eu pegaria a pista da “gang” de Lampião, para saber o local em que se havia homiziado. Providenciei a mudança de comando da tropa em Mata Grande, deixando elementos de minha absoluta confiança sob a liderança do então sargento Aniceto, segui ribeira abaixo, onde, com quatro léguas, peguei a pista, deixando-os na Serra da Cachoeira, entre Pão de Açúcar e Piranhas.

APROXIMANDO-SE DO GRUPO

O coronel João Bezerra sorve rapidamente um cafezinho, assiná-la que as minúcias que nos está dando nunca foram antes enunciadas, e ajunta:

- Verifiquei, então, que no rumo por eles escolhido iriam diretamente à Serra do São Francisco, que estava próxima, às margens do rio do mesmo nome. Propus-me demandar Piranhas, objetivando abastecer a tropa e, como era dia de feira, estudar psicologicamente a fisionomia de cada um dos coiteiros que por ali aparecessem, o que foi feito com precisão.

POR TRÁS DOS ÓCULOS ESCUROS

- Na ocasião em que o mercado estava reunido, sentei-me em uma cadeira de loja cujo dono era o maior coiteiro da zona, do lugar onde desembocavam os caminhos vindos das caatingas onde se achavam os bandidos. Eu usava óculos escuros, para esconder minhas reações. Elementos procedentes daquelas bandas – aproximadamente uns vinte – quando batiam com os olhos em mim passava no intimo de cada um deles, fui ao telégrafo e passei um telegrama a mim mesmo, assim redigido: “Tenente João Bezerra. Piranhas, venha urgente. Lampião está com todo o grupo em Moxotó. Capitão Elpídio. Delegado de Policia”. O despacho fora feito falsamente como sendo de Mata Grande. Com isso, visava a bigodear os coiteiros e verificar a sua reação. Entreguei o documento ao estafeta, depois de carimbado, e retornei à minha cadeira.

O coronel João Bezerra faz um parêntesis para sublinhar:

- Eu nunca disse essas coisas a nenhum repórter.

Agradecemos a deferência e ele narra:

- Chegou o estafeta, entregou o telegrama e passei o recibo. Comentei, então, em tom provocativo: “Cangaceiro não é qualidade de gente!” Li, a seguir, o telegrama em voz alta e grande número de coiteiros se acercou para ouvir-me melhor. Através dos óculos escuros, vi que eles estavam mangando de mim...

COM A NOTA DE LAMPIÃO NO BOLSO

O coronel João Bezerra toma o quarto cafezinho da entrevista, que foi escrita entre 19h10m e 23h20m, e descreve:

- Assim foi que o notório coiteiro Pedro de Cândido, que viera fazer feira para o próprio grupo, foi quem mais me olhou e mais riu, uma vez que se achava com a nota da despesa de Lampião no bolso e Cr$ 2 500,00 em espécie, quantia essa pertencente ao bandido. Depois de lido o despacho, mandei tocar “reunir”, embarquei a tropa num caminhão e propalei que me dirigia a Moxotó, onde consoante o telegrama, se achavam os cangaceiros.

A VOLTA INESPERADA (Para os Coiteiros)

Dezenove anos passados, o coronel João Bezerra parece feliz com sua estratégia. Sorri com certo entono ao referi-la:

- Chegando a Pedra, estacionei, aguardando a noite para voltar, o que fiz, reforçando a tropa. Às 18h30m, eu estava em Piranhas, onde, evidentemente, ninguém me esperava. Os meus agentes tinham notícias mais frescas, declarando-me que o Pedro de Cândido há três dias havia passado na beira da roça de um cidadão, nas caatingas, com duas bandas de bode nas costas, rumo à Serra de São Francisco, onde eu suspeitava achar-se o grupo.

PRENDER PEDRO DE CÂNDIDO, EIS A QUESTÃO

- Inferi logo que, detendo Pedro de Cândido, estaria tudo resolvido, o que logrei às 2 horas da madrugada. Com três canoas pequenas, atreladas umas às outras, por não dispor de canoa grande, e sob os maiores perigos de naufrágio, cheguei ao local de nome Remanso, distante do povoado de Entremontes, onde morava o coiteiro. Mandei bater na porta e fazer o sinal de tropa, dizendo-lhe que eu queria falar-lhe. Pedro de Cândido, ao ver o miliciano, apavorou-se, conseguindo ludibriá-lo. Deixou de comparecer, pretextando que um boiadeiro da Bahia poderia descobrir que ele estava tendo entendimento com a milícia estadual e isto lhe seria fatal.

SINAL DE CANGACEIRO ABRE A PORTA DE COITEIRO

- Indignei-me com a recusa e determinei ao soldado insistisse, trazendo Pedro de Cândido de qualquer maneira, ainda mesmo disparando-lhe o parabélum, o que foi cumprido dentro de dez minutos, comparecendo Pedro de Cândido à minha presença. O soldado usou de estratégia, fazendo o sinal de cangaceiro, o que levou Pedro de Cândido a abrir a porta da frente, quando já se aprestava a fugir pela de trás. Ao ver, então, o soldado, exclamou: “Você voltou para me matar?” Ao que o praça retrucou: “O tenente me ordenou que, se não pudesse trazê-lo, eu o matasse, aqui mesmo”. Pedro de Cândido resolveu comparecer.

BEM PERTO DOS MALFEITORES

- De posse desse achado, peguei Pedro de Cândido na abertura da camisa e, com pequeno gesto com o joelho, o coiteiro caiu ao chão. Fiz-lhe, na oportunidade, um susto gostoso, puxando o punhal e colocando-o abaixo de sua costela mindinha. Perguntei-lhe se estava disposto a mostrar os assaltantes. Ele concordou, contando-me, ainda, a mangação que fizera, supondo que eu estava, mesmo, em Moxotó. E, sem mais preâmbulos, atravessamos o rio na mesma embarcação, sem rumor, pois estávamos bem perto do grupo.

UM “INTERMEZZO” SENTIMENTAL

Casa de dona Guilhermina mãe de Pedro de Cândido

- Quando saltamos do barco, Pedro de Cândido me requereu, em prantos, que eu assentisse em que ele fosse tomar a benção à sua mãe, cuja residência era ali próximo, como apontou com o dedo. Consenti. O aspirante Ferreira e eu o acompanhamos de perto, enquanto as minhas forças gozavam uma trégua. Eram 3 horas da madrugada e chovia torrencialmente. Ao passar por debaixo de duas quixabeiras frondosas, nas proximidades do domicílio, Pedro de Cândido parou repentinamente e assinalou: “Seu tenente, o senhor deveria ter trazido mais soldados. Cangaceiro é a peste! Talvez a minha casa esteja cheinha deles”. Revoltei-me: “Por que não me advertiu antes, miserável, mas só agora?”

UM ALVO BRANCO SE RECORTA NO NEGRUME DA NOITE

A expectativa dos que ouvem as palavras do coronel João Bezerra é inocultável. Ele, porém, não denota qualquer exaltação:


- Nesse momento, ordenei ao aspirante que destravasse a metralhadora e se colocasse atrás da residência. Quanto a mim, coloquei o pente de cinquenta tiros na minha metralhadora possante e recomendei a Pedro de Cândido que batesse na porta, fazendo o sinal de cangaceiro, e chamasse o irmão. O irmão respondeu logo: “Pedro?” E este: “Venha cá!” Imediatamente, abriu-se a porta e o irmão de Pedro de Cândido saiu com uma camisa muito branca, que se recortava bem na escuridão. Olhou bem pertinho da minha cara e espantou-se: “Uai! Já está aqui?” Ao que Pedro de Cândido aconselhou: “Meu irmão, conte logo tudo, que nós vamos morrer por causa dos cangaceiros e eu já sofri o diabo”.

CONTINUA...
“O GLOBO” – 26/06/1957

Fonte: facebook
Página: Antonio Corrêa Sobrinho

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