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sábado, 4 de março de 2023

MATERIAL DO JORNAL O CRUZEIRO, 06 DE JUNHO DE 1959

 Por José Mendes Pereira


Lamento não ter a fonte deste texto, porque, quando arquivei no meu desarrumado acervo, eu não tinha tanta intimidade com fonte, e nem tão pouco com informática, e ainda não sou tão sábio no que me refiro, mas deixa pra lá. Vamos ler o texto que tenho certeza, que ainda permanece em algum site de alguém. Se eu soubesse do título deste trabalho, seria fácil encontrá-lo. 

Vamos lá:

O CRUZEIRO, 06 DE JUNHO DE 1959

No Recife fomos encontrar um primo de Lampião, o Dr. Antônio Ferreira Magalhães, conceituado advogado criminalista e alto funcionário do I.A.I.P. no Estado de Pernambuco. É êle quem chefia e orienta a campanha que a família e os descendentes de Virgulino Ferreira da Silva estão fazendo no sentido de sepultar a cabeça do "Rei dos Cangaceiros" e de Maria Bonita, que se encontram, desde 1938, no Museu Etnográfico e Antropológico do Instituto Nina Rodrigues, em Salvador. 

O Dr. Antônio, ainda criança, conheceu pessoalmente Lampião e chegou mesmo a assistir a um dos combates travados contra uma “volante”, na vila de Nazaré. Lembra-se perfeitamente dele e diz: “- Lampião era uma figura máscula e fascinante. Tinha a personalidade e o magnetismo de um verdadeiro chefe. No contato pessoal, era um homem simples e amável, dedicado a todos da sua família. Ele se tornou um “fora-da-lei” por força das circunstâncias. O seu pai, que era um homem bom e pacato, sofreu perseguições sem conta, por questões políticas, e teve de mudar com tôda a família, várias vezes, abandonando as suas terras, o que, para um sertanejo, é o pior castigo. Por fim, tendo ido viver em outro Estado, Alagoas, nem mesmo assim pôde ficar em paz. Foi assassinado pela Polícia. A mãe de Lampião morrera poucos dias antes, também em conseqüência da perseguição que lhes era movida. Diante disso, Virgulino tornou-se Lampião. Não tinha para quem apelar, não tinha a quem pedir justiça. Resolveu fazer justiça pelas próprias mãos e não pôde mais parar. Ele foi um produto do meio e das condições sociais da época. Não era um tarado, um assassino nato, um lombrosiano. Uma vez morto, à traição, envenenado, pois não é verdade que tenha morrido em combate ou que tenha sido pegado desprevenido, tanto ele quanto Maria Bonita foram decapitados, como se sabe. As suas cabeças continuam, até hoje, expostas no Museu Nina Rodrigues. Agora, pergunto: por quê? Acaso todos os seres, mesmo os criminosos executados pelas autoridades, não têm direito à sepultura? Isto é um desrespeito a um ser humano, um escárnio para todos os seus parentes, um estigma para a sua filha, que hoje está casada e vive dignamente, e para os seus quatro netos. Que pensarão essas crianças, que tremendo choque emocional terão elas quando, mais crescidas, puderem tomar conhecimento da tragédia dos seus avós e do humilhante espetáculo das suas cabeças expostas como troféus de tribos africanas? Pergunto mais: que interêsse podem ter essas cabeças mumificadas para a ciência? Se foram objetos de estudo, êsses estudos já devem ter sido feitos, pois já lá vão vinte e um anos. Quais os resultados dêsses estudos? Além do mais, que direito tem o Instituto Nina Rodrigues? No Código Penal Brasileiro, Parte Especial, título V. capítulo II, referente aos crimes contra o respeito aos mortos, há o art. 212 que diz: “Vilipêndio a Cadáver - Vilipendiar cadáveres ou suas cinzas. Pena: detenção de um a três anos e multa de 500 a 2.000 cruzeiros”.                                                    

Por ventura não é um vilipêndio o que ocorre com os restos de Lampião e de Maria Bonita? Assim, o Diretor do Instituto está sujeito às penas da lei se insistir em manter a exibição dos seus macabros troféus. Iremos até a Justiça para terminar, de uma vez por todas, com essa inominável barbaridade”.Do Recife, fomos a Aracaju, onde localizamos a filha de Lampião e Maria Bonita, agora com vinte e sete anos de idade, casada e mãe de quatro crianças. 

O seu marido é o Sr. Manuel Messias Neto, comerciário, hoje trabalhando por conta própria (é proprietário de um caminhão). Ambos vivem modestamente, uma vida digna e honesta. Expedita Ferreira Messias tinha apenas seis anos quando os seus pais foram mortos. Ela foi criada, desde um mês de idade, por Manuel Severo, um vaqueiro que trabalhava numa fazenda em Jaçobá, Sergipe, e em quem Lampião confiava inteiramente. Expedita ainda se lembra de seus pais, que sempre iam visitá-la. Naturalmente que é uma lembrança difusa, mas mesmo assim ela conservou a impressão da beleza da mãe e a sensação de timidez que sentia junto ao pai. Ambos a acarinhavam e lhe davam presentes. Aos oito anos, ela foi tirada da casa do vaqueiro por um oficial da Polícia baiana e levada para Salvador. Entretanto, João Ferreira, o único dos irmãos de Lampião que não entrou para o cangaço, que ainda vive e é um homem honesto e conceituado, conseguiu recuperar a sobrinha e terminar de criá-la. Em 1951, Expedita, que então trabalhava numa casa comercial, casou-se no civil e no religioso com Manuel Messias. Agora o casal tem quatro filhos: Dejair, de seis anos, Vera Lúcia, de quatro, Gleuza, de dois, e Isa Cristina, com apenas um mês de idade. A filha de Lampião e o seu marido, como aliás todos os membros da família Ferreira, que são mais de trezentos e estão espalhados pelos vários Estados do Nordeste, não se envergonham nem procuram esconder os seus laços de sangue com o “Rei dos Cangaceiros”. Nem têm aliás por que fazê-lo: se, para muitos, Lampião foi um bandido sanguinário, para muitos outros foi um herói e continua a ser uma fascinante e lendária figura. Para outros tantos, foi o que foi na realidade: um sertanejo rijo que as injustiças e as condições da época e do ambiente em que viviam forçaram a enveredar pelo cangaço. Expedita é uma senhora calada, calma, que apresenta traços fisionômicos do seu famoso pai. Cria os seus filhos com carinho, vive feliz com o seu marido e naturalmente confia que as cabeças dos seus genitores sejam restituídas à família e dadas à sepultura. Tanto ela quanto Manuel Messias dizem que não compreendem como numa terra cristã como a nossa lhes neguem esse desejo. O que passou, passou. Não lhes move ódio contra ninguém. Apenas desejam viver em paz. E confiam que as autoridades e a Justiça lhes permitam enterrar os despojos daqueles que, se erraram, nem por isso devem deixar de ter o direito de descansar e ser perdoados.                                                                                    

Mas não é só a família de Lampião que está empenhada na recuperação dos despojos. Em 1953, a Assembléia Legislativa de Pernambuco fez um apelo ao Ministro da Justiça, sem resultado. Agora, endereçou outra ao Governador Juraci Magalhães. No Recife, o “Diário de Pernambuco” está fazendo uma campanha. Em Salvador, os vereadores estão divididos na questão, e requereram a presença do Diretor do Instituto Nina Rodrigues, para esclarecimentos. Também a Rádio Cultura da Bahia está apoiando a devolução das cabeças. Na própria Bahia, a opinião pública, em geral, é mais inclinada à entrega dos despojos.

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JERRY ADRIANI CONHECE MICHAEL JACKSON.

 Por Texto: Laurinda Lili


Em setembro de 1974 o famoso grupo juvenil norte-americano Jackson Five fazia uma turnê pelo Brasil em 4 capitais brasileiras (São Paulo, Río de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre).

Na época Jackson Five fazia muito sucesso também no Brasil, onde várias canções eram incluídas em trilhas sonoras internacionais de telenovelas brasileiras.

No Rio de Janeiro, na mesma semana que Jackson Five se apresentaria no Maracanãzinho, Jerry Adriani fazia o 'Brazilian Follies', um show com diversos artistas no estilo Las Vegas, que terminava com as mulatas naqueles figurinos belíssimos.

No 'Programa do Jô, em uma entrevista em 2011, Jerry relatou que encontrou o grupo subindo as escadarias do Hotel Nacional e viu aqueles rapazes do Jackson 5 e na ocasião convidou-os para assistir ao espetáculo.

Jerry tirou dinheiro do próprio bolso, porque o diretor do show não liberou a entrada deles.

No dia seguinte, no camarim, entrou a garotada, inclusive Michael Jackson, o astro maior do grupo, na época um adolescente de 16 anos e quando viram Jerry os garotos, que gostaram do show, de forma alegre e descontraída, foram logo o chamando de 'Elvis' e desta vez compraram o ingresso para o show 'Brazilian Follies'. Foi assim que Michael Jackson, o futuro Rei do Pop', esteve presente na 2° edição do show realizado no salão de eventos do Hotel Nacional.

Nesta foto aparecem Jerry Adriani, os irmãos Michael Jackson (camisa listrada e calça preta) e Randy Jackson (o menino ao lado de Jerry) e os integrantes do grupo de samba 'Sambacanas'; Lothar (camisa escura) e Carlinhos (camisa branca).

Randy Jackson, então com 13 anos, ainda não era integrante oficial do Jackson Five, mas desde 1971 ocasionalmente aparecia nos shows tocando algum instrumento com o grupo com sua presença formando um sexteto.

Só a partir de 1976, com a saída de Jermaine (que voltaria ao grupo em 1983) e da troca de gravadora, da Motown para a Epic (CBS) é que o grupo, renomeado de 'The Jacksons', contaria com a presença oficial do caçula do grupo Randy Jackson.

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UMA PENA A REVISTA "O CRUZEIRO" NÃO TER IDENTIFICADO CORRETAMENTE TODOS OS PERSONAGENS QUE APARECEM NESSA IMAGEM. LAMENTAVELMENTE!

 Por Geraldo júnior

A única informação que consta na matéria é que se trata da família dos senhores Jacob Marques da Silva e de seu irmão Elias Marques (Barbosa) da Silva que foi morto durante um combate na Fazenda Maranduba (Poço Redondo/SE) o célebre combate da Maranduba ocorrido no dia 09 de janeiro de 1932, que envolveu um misto de forças militares volantes da Bahia e de Pernambuco e o bando de Lampião.

Jacob Marques da Silva e Elias Marques da Silva são respectivamente pai e tio do destacado soldado Volante Mané Velho, conhecido também como Antônio de Jacob ou ainda Euclides Marques da Silva, este último nome (Euclides) era de um irmão falecido que ele adotou ao abandonar o Nordeste, assim como a sua vida na polícia volante alagoana. Mané Velho que teve grande papel de destaque em combates contra cangaceiros e foi o responsável pela morte do cangaceiro Luiz Pedro, homem de confiança de Lampião, no episódio de Angico que acarretou a morte de Lampião, Maria Bonita, nove cangaceiros e de um soldado da Força Policial Volante alagoana chamado Adrião Pedro de Souza. Mané Velho foi sem sombra de dúvidas o mais destacado combatente de Angico.

A Revista "O Cruzeiro" identificou na matéria apenas Elias Marques da Silva que foi assinalado por uma seta e não se preocupou em identificar os demais envolvidos, havendo portanto a grande possibilidade de nela estar o velho Jacob Marques da Silva, assim como demais familiares de Mané Velho que são citados na literatura cangaceira, mas que suas imagens até hoje são desconhecidas de todos os estudiosos do tema cangaço. Havendo também grande chance de uma das mulheres que aparecem na imagem ser Cidália a primeira companheira de Mané Velho que veio a ser assassinada por ele com tiro de fuzil por questões de ciúmes.

Ambos moradores de Santa Brígida no estado da Bahia, conforme aponta a matéria original.

Obs: Elias Marques da Silva, tio de Mané Velho, encontra-se identificado por uma seta.

Rabiscos e garranchos: Geraldo Antônio De Souza Júnior

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EXPEDITA NASCEU EM POÇO REDONDO

 Por Manoel Belarmino

Expedita Ferreira, filha de Maria de Dea e Lampião, que desfilou na escola vice-campeã em São Paulo, a Mancha Verde; e também desfilou na Imperatriz Leopoldinense que se tornou campeã no Rio de Janeiro, pode ser filha deste chão poço-redondense.

Segundo os coiteiros do Rei do Cangaço, os irmãos Filemon e Manoel Machado Feitosa (Mané Joaquim), filhos de Poço Redondo, a filha de Lampião e Maria Bonita, a Expedita Ferreira, nasceu nas terras da Fazenda Craibeiro de Seu Antônio Craibeiro, nas margens do Riacho dos Craibeiros, afluente do Riacho Jacaré, em Poço Redondo.

Mané Joaquim contou ainda ao escritor Alcino Alves Costa que foi o seu irmão Filemon que levou Expedita, com apenas cinco dias de nascida, para a Fazenda Exu, em Porto da Folha. Lá, a menina foi entregue ao vaqueiro Severo Mamede e Dona Aurora que a criaram até os nove anos de idade.

Realmente Expedita pode ter nascido ali nas margens do Riacho dos Craibeiros, em Poço Redondo, embora o escritor Antônio Amaury afirma que Expedita nasceu nos arredores da Fazenda Exu, em Porto da Folha.

Vale lembrar que o território onde hoje é Poço Redondo, na época do Cangaço, pertencia ao Município de Porto da Folha. Poço Redondo foi desmembrado de Porto da Folha em 1953.

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ALAGOANO DOMÍCIO ARRUDA SILVA ASSUME A ASSOCIAÇÃO DE GIROLANDO

Por BCCOM Comunicação

Primeiro criador nordestino a presidir a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, Domício Arruda Silva tomou posse ontem (02/03) e destacou os novos projetos para o avanço da raça no país e no mercado mundial. A solenidade ocorreu em Uberaba/MG, cidade onde está localizada a sede da entidade, e contou com a presença de diversas lideranças do setor e políticas, criadores e empresas do agro.

De acordo com o presidente, fomentar, desenvolver e consolidar o Girolando no país, visando dar sustentabilidade à pecuária leiteira, será a missão da nova diretoria. “Vamos trabalhar para ampliar o banco de dados genômicos, o que nos permitirá gerar avaliações e índices para um número cada vez maior de características. É importante destacar que esses investimentos trarão bons resultados e ganhos genéticos não só para os selecionadores da raça, mas também darão uma importante contribuição para toda a pecuária leiteira nacional já que o Girolando responde por 80% do leite produzido no Brasil. Vamos nos empenhar para que todos os produtores, sobretudo os pequenos, tenham acesso a essa genética”, destacou o presidente.

O ex-presidente Odilon de Rezende Barbosa Filho, que passou o cargo para Domício Arruda, pontou os diversos investimentos realizados nos últimos três anos que levaram a um avanço dos índices da raça.

“Publicamos avaliações genéticas/genômicas para 15 novas características e outras 16 características avaliadas genomicamente serão entregues em 2023. A associação ainda vai custear a genotipagem e controle leiteiro de sete mil vacas, filhas de touros Girolando. Todos esses investimentos trarão mais confiabilidade ao Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando, refletindo no campo, com animais extremamente produtivos e eficientes”, disse.

Dados da Embrapa Gado de Leite mostram que os investimentos feitos em melhoramento genético estão colocando a raça na liderança da produção sustentável de leite. Nos últimos 18 anos, houve um aumento de 60% na produção das vacas Girolando enquanto as emissões de metano reduziram 40%.

A solenidade de posse contou com a presença de diversas autoridades, dentre elas o secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Thales Almeida Pereira Fernandes, os deputados estaduais Antônio Carlos Arantes e Bosco, o deputado federal Emidinho Madeira, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) Antônio Pitangui de Salvo, a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, a vereadora de Uberaba Lu Fachinelli, a chefe-geral da Embrapa Gado de Leite Elisabeth Nogueira, o presidente da Abraleite Geraldo Borges, o presidente da ABCZ Gabriel Garcia Cid, o superintendente federal de Agricultura, Pecuária de Minas Gerais Marcílio Magalhães.

Perfil

Natural de Palmeira dos Índios, em Alagoas, o novo presidente da Girolando é engenheiro agrônomo e selecionador da raça desde 1986, na Fazenda Cachoeirinha, localizada em Major Isidoro/AL. Também ocupa os cargos de presidente da Associação dos Criadores de Alagoas e de vice-presidente da Federação de Agricultura do Estado de Alagoas. Ele foi eleito em dezembro de 2022 e permanecerá no cargo até 2025.

Sobre a Associação de Girolando

Uma das principais entidades da pecuária leiteira do Brasil, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando é delegada do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a execução do Serviço de Registro Genealógico e do Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando. A raça é responsável por 80% do leite produzido no Brasil.

Fundada em 20 de dezembro de 1978, em Uberaba/MG, ainda realiza eventos, cursos e exposições, sendo a principal delas a Megaleite. A entidade atende criadores em todo o país e é pioneira na adoção de novas tecnologias, sendo a primeira associação a incorporar a genômica ao programa de melhoramento.

Atenciosamente,

BCCOM Comunicação

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sexta-feira, 3 de março de 2023

A GUERRA DAS FAMILIAS:MONTES E FEITOSAS

Por Jose Bezerra Lima Irmão

As pendengas entre os Monte e os Feitosa decorreram de questões de honra e disputas por terras e poder, nos sertões dos Inhamuns, Cariri e Icó.

Essas duas famílias haviam-se ligado pelo casamento de Francisco Alves Feitosa com Isabel do Monte, resultando mais tarde uma rixa familiar de cunhado contra cunhado, acrescida de disputa por terras e poder, no período da colonização. Foram tantas as mortes que o rei de Portugal teve de intervir, ordenando represálias contra os dois clãs.
Em virtude das lutas dessas famílias por anos a fio, muitos de seus membros fugiram do Ceará e foram morar em outros lugares. A cidade sergipana de Porto da Folha foi fundada por gente da família Feitosa, dali se espalhando por localidades vizinhas, em Sergipe e Alagoas. Por sua vez, muitos indivíduos dos Montes se instalaram em Penedo, Propriá Aquidabã e Carira. Um valentão chamado Manoel Monte, da fazenda Baixa do Gado, em Carira, entrou em luta com os Guedes e terminou se tornando cangaceiro, embora tivesse morada fixa em Monte Alegre e vivesse sossegado em sua fazenda Albano, na beira do Riacho do Cachorro.
A mãe do cangaceiro Antônio Silvino descendia dos Feitosa.
Os ancestrais de Virgulino, o Lampião, pelo lado paterno – família Ferreira Lima – eram também descendentes dos Alves Feitosa, da povoação de Inhamuns, à época município de Tauá, no Ceará, família antiga, dos primeiros povoadores do sudoeste do Ceará. A sesmaria de um dos patriarcas da família, Lourenço Alves Feitosa, ficava onde hoje é Cococi, atual distrito de Parambu. Seu irmão Francisco Alves Feitosa era dono da fazenda Barra do Jucá, no Vale do Jaguaribe. Vários membros da família Alves Feitosa debandaram do sertão dos Inhamuns em virtude de questões com a família Monte. Para não serem localizados pelos inimigos, muitos mudaram de nome, trocando o “Feitosa” por “Ferreira”, acrescido ora de “Barros”, ora de “Lima”. O padrinho de Anália, irmã de Lampião, foi Terto Alves Feitosa (Terto Baião, das fazendas Enforcado e Lagoa Cercada), um dos que não mudaram de nome, continuando com o “Alves Feitosa”.

O bisavô paterno de Lampião, José Alves Feitosa, passou a identificar-se como José Ambrósio Ferreira Lima. Tinha dois filhos: Antônio Ferreira Lima e João Ferreira Lima. Antônio Ferreira Lima é o avô de Lampião. Seu nome antes era Antônio Alves Feitosa, porém passou a se identificar ora como Antônio Ferreira Lima, ora como Antônio Ferreira de Barros, ora como Antônio Ferreira da Silva, ora como Antônio Ferreira de Magalhães. Casou com uma moça do lugar Peru, na ribeira do São Domingos, chamada Maria Francisca da Chaga (dona Maria Chaga). Tiveram três filhos e duas filhas. O filho mais velho de Antônio Ferreira e Maria Chaga chamava-se João Ferreira Sobrinho, alcunhado de João Rola. O segundo filho foi José Ferreira (pai de Lampião). O terceiro chamava-se Venâncio Ferreira. Este, já adulto, se mudou para Juazeiro do Norte, onde botou uma venda (mercearia). Por motivos de doença, gastou tudo o que tinha no tratamento e foi para Picos, no Piauí.
Além desses três filhos legítimos, Antônio Ferreira Lima teve ainda um filho bastardo com uma bela jovem de olhos azuis e cabelos ruivos chamada Matilde. O filho recebeu o nome de Antônio José Ferreira e ficaria conhecido como Antônio de Matilde, ou simplesmente Antônio Matilde. Esse personagem viria a ter enorme influência na vida de Virgulino, seu sobrinho.
Aí está uma síntese apertada de resultado de pesquisas que exponho no meu Lampião – a Raposa das Caatingas.
http://araposadascaatingas.blogspot.com.br

http://cariricangaco.blogspot.com/2021/07/a-guerra-das-familiasmontes-e-feitosas.html

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O CARRASCO DO BRASIL – DOCUMENTÁRIO FRANCÊS FOCA NOS ATAQUES DE UM SUBMARINO NAZISTA A NAVIOS BRASILEIROS EM 1942, QUE PROVOCARAM MAIS DE 600 MORTES

 

Autor – Durval Lourenço Pereira

Fonte – https://memorialdafeb.com/2023/03/01/o-carrasco-do-brasil/

Jamais tantos brasileiros foram assassinados, em tão pouco tempo, por ordem direta de uma mesma pessoa, quanto em meados de agosto de 1942. No comando do U-507, o capitão-de-corveta Harro Schacht desencadeou um violento ataque contra a navegação de cabotagem brasileira, torpedeando e afundando cinco navios de transporte de carga e passageiros entre 15 e 19 de agosto. Mais de 600 brasileiros (homens, mulheres e crianças) pereceram nesses ataques, ora devido a explosão dos torpedos, ora por afogamento, ora devorados por vários tubarões.

Foram precisos mais de 80 anos para que essa ação covarde, que provocou a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, pudesse ser retratada em uma produção audiovisual estrangeira. A série de documentários 1942, de Marc Ball e Véronique Lagoarde-Ségot, estreia na programação do canal de televisão franco-alemão Arte Channel em 1º de março de 2023.

O quinto episódio da série, que reconstitui esses eventos terríveis, foi inspirado no livro Operação Brasil: o ataque alemão que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial.

“Civis de todos os lados relatam o ano de 1942, um momento crucial quando a guerra se tornou global. Uma comovente polifonia documental. Quinta parte: de agosto a novembro de 1942. O mundo afunda na selvageria e os valores morais entram em colapso junto com o preço da vida humana.

Harro é um dos comandantes alemães encarregados de torpedear barcos de abastecimento americanos. Em busca de presas, ele se aproxima da costa brasileira e ataca civis. Chocado, o Brasil vai à guerra. Para os homens do campo, duas escolhas são essenciais: partir para a luta ou colher borracha na Amazônia. Manoel prefere a segunda opção, onde também o espera o horror […]”.

A série documental foi produzida utilizando raros filmes de época, além de muita originalidade e sensibilidade, fazendo-a merecedora de justos elogios da crítica especializada. Para assistir gratuitamente o documentário, por enquanto com áudio e legendas apenas em alemão e francês, clique neste  link. Contudo, é preciso que o seu PC ou smartphone tenha VPN instalado — software mais do que conveniente em tempos de censura digital e ditatorial crescente no Brasil —, pois a série ainda não está disponível para o público nacional.

Alguém poderia perguntar se finalmente os mitos acerca da responsabilidade pelos afundamentos na costa brasileira — do tipo: foram os “estadunidenses!” — finalmente serão enterrados após esta produção do canal franco-alemão. Achamos pouco provável, pois persistem na Educação brasileira os mesmos vícios que transformaram boa parte dos cursos de História em laboratórios de militância política e social.

Justamente por isso, as reais origens da ação do U-507 ficaram ocultas do público por quase oito décadas, até o lançamento de Operação Brasil.

Justamente por isso, os mitos de motivação ideológica continuarão povoando o imaginário das salas de aula nacionais.

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Extraído do blog Tok de História do historiógrafo Rostand Medeiros.

https://tokdehistoria.com.br/2023/03/01/o-carrasco-do-brasil-documentario-frances-foca-nos-ataques-de-um-submarino-nazista-a-navios-brasileiros-em-1942-que-provocavram-a-morte-de-600-pessoas/

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O MÊS DA GUERRA

 Clerisvaldo B. Chagas, 3 de agosto de 2023.

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.847

Início de março e nenhuma mudança no tempo que se assemelha totalmente a fevereiro. A tênue claridade de um novo dia, começa, a aproximadamente quatro horas e poucos minutos e entra na sua plenitude em torno das seis horas da manhã. O interior das casas continua um pouco escuro, mesmo tendo amanhecido. O céu nublado faz coro no ditado sertanejo: “bonito para chover”, mas não chove. Como já foi dito, imita até agora o mês que passou. Difícil até tomar o Sol da manhãzinha que só vai estar disponível total ou parcial a partir das 8 horas, ocasião em que o leiteiro passa de moto com sua buzina de FNM. E é no pingo das 8 horas que escancaramos o portão da rua onde tudo parece estagnado. Nem um ser humano, nem animal doméstico, nem sequer um inseto. As árvores não se balançam e os pássaros costumeiros sumiram completamente, dos arredores, sequer um urubu dá sinal de vida, apenas os automóveis estacionados são vistos e mais nada., absolutamente nada.

TRISTEZA NAS RUAS (FOTO: B. CHAGAS)     

Conforme previsão dos experientes, o ano vai ser de bom inverno para o sertanejo – o que não deixa de ser um bom consolo – mas dizem que as chuvas não serão abundantes. Bom por um lado, preocupa por outro porque se no outono/inverno não se faz água nos reservatórios do sertão, o pós inverno não teria água, para os bichos, a não ser que se antecipe uma boa trovoada, mas é muito melhor viver o hoje do que a perspectiva a longo prazo. Até porque é Nosso Senhor Jesus Cristo quem está no comando e que vê tudo, que sabe de tudo e determina tudo. E assim o mês de março prossegue como início dos trabalhos no Brasil como dizem alguns, porque antes é só mesmo Carnaval. E se é verdade ou não fica no imaginário do internauta.  Aliás, março surgiu em Roma e era o primeiro mês do ano. Significa Martius, o deus romano da guerra. A guerra que estar acontecendo no mundo....

O calendário indica que não estamos tão longe do outono, época em que têm inícios as nossas chuvaradas. E se o Carnaval foi encerrado, vamos para a Quaresma, época de muita meditação para chegarmos à Semana Santa, com mais vigor espiritual. Com religião ou sem religião, a Semana Santa pode levar o trabalhador ao descanso praieiro, às trilhas das chapadas ou a simples rede doméstica que ajuda a repor as energias. Para muitos, o mês de março e o mês de agosto, são psicologicamente os meses mais longos do ano, notável para quem trabalha, para quem aguarda o “trocado” da repartição... Que fazer! É a vez do deus da guerra que apesar da esquisitice dos tempos, poderá trazer para você a vitória sobre o que tanto aguarda.

Deus não dorme!

Quem já viu Deus dormir!

   http://clerisvaldobchagas.blogspot.com/2023/03/o-mes-da-guerra-clerisvaldo-b.html

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quinta-feira, 2 de março de 2023

O ESTADO DE SÃO PAULO, EDIÇÕES DE 18 E 19 DE OUTUBRO DE 1969. ENCONTRO HISTÓRICO DE EX-CANGACEIROS

 Transcrição de Antonio Correia Sobrinho



Eis o que restou do cangaço

“Sila saiu correndo, agachada. Uma bala acertou a cabeça de outra mulher, espirrou miolo no vestido de Sila; maldade, ela só tinha 15 anos. Depois, foi muito tiroteio, finado seu Rastejador também morreu. Vi Lampião pondo sangue pela boca. Um dia, resolvemos entregar, cangaço acabou, mas só acabou mercê da traição de cangaceiros que ajudaram as Volante, contavam os pontos da gente”.

Balão ajeita a gravata, no aeroporto de Congonhas. Ele, cangaceiro do bando de Lampião, hoje batedor de estacas para fundações de prédios, está com os companheiros esperando dona Expedita, filha de Lampião, Vera, neta do cangaceiro, e mais Labareda e Saracura. Todos vão reunir-se em São Paulo para o lançamento de “As táticas de guerra dos cangaceiros”, de Christina Matta Machado.

O livro vai ser lançado dia 24, a partir das 16 horas, na Aliança Francesa, rua General Jardim, 172.

Saudade 

Quando o cangaço acabou e o governo deu anistia, a Polícia separou os cangaceiros: cada um teve que ir para um lado. Faz muito tempo que vários moram em São Paulo, mas não sabiam. Só quando Christina começou a procurá-los é que eles ficaram sabendo dos velhos companheiros, puderam se reunir para relembrar os causos de então. Ontem, em Congonhas, estavam vários deles, esperando os outros. Estava Marinheiro, um ano de cangaço, hoje funcionário da Caixa Econômica Estadual; estava Pitombeira, 3 anos de bando, entrou para não ser morto pela Polícia, hoje funcionário da Prefeitura. Estava também Criança, 7 anos de lutas, a glória de enfrentar sozinho, por duas horas, a Volante, para deixar o bando escapar. Criança, hoje, vende tomate como ambulante.

Em Congonhas estava também Sila, mulher de Zé Sereno que não pode ir (está com a perna engessada) e estava Dadá, apoiada na muleta. Sua perna direita ficou no sertão, crivada de balas de metralhadora, da mesma arma que matou seu marido, Corisco, que ela atentava defender. Estava em Congonhas o Balão, acompanhado de cinco de seus 8 filhos e contando para todo mundo que até hoje é solteiro. Balão, alegria do bando, tocador de sanfona, o mais valente de todos, mostrou ontem que não mudou. Ele foi piadas o tempo todo, mesmo quando tirou os sapatos e a meia por causa de um ferimento no pé que “tá ameaçando arruinar”.

Visitas

Até o dia 24, os cangaceiros vão visitar São Paulo, conhecer coisas novas, principalmente os que vieram de longe que a Varig trouxe de Sergipe e Alagoas. Ele irão ao Ibirapuera, a cinemas, restaurantes, serão entrevistados e aguentarão as luzes fortes da televisão, e queiram ou não vão acabar entendendo que hoje eles são gente importante, que apesar dos crimes que cometeram e talvez mesmo apenas por isso, eles passaram a ser história, são uma página da vida do Brasil.

Para contar a história do cangaço, Christina viajou quase todo o Nordeste, pesquisou em 34 municípios e se tornou amiga daqueles homens. Com os dados que colheu, escreveu o livro e vai defender tese em História, sob o tema “Cangaço, aspectos socioeconômicos”.

Morrer apanhando ou ser Cangaceiro

Embora arrependidos de terem sido cangaceiros, os cabras de Lampião dizem que não havia saída. Balão conta que a Polícia batia em todo mundo, para que contasse o paradeiro do bandido, muitas vezes, matava. Um companheiro dele teve que servir de cavalo para um soldado com esporas. Por isso, “quem não queria morrer apanhando tinha que ir para o cangaço”. Balão, entretanto, foi para o sertão por outro motivo. Engraçou-se – diz ele – com uma menina amiga de Lampião e alguns homens do bando quiseram matá-lo; ele fugiu com outro grupo e, depois, quando esse se uniu com o de Lampião, “a intriga foi esquecida”.

Pitombeira fugiu porque um irmão e um “primo carnal” foram mortos pela Polícia, que tentava fazer com que contassem onde estava Lampião. Ele ia ser morto também e fugiu.

O final 

Para todos, o fim do cangaço foi a morte de Lampião, o líder que teve até 260 homens sob suas ordens. Quando ele morreu, o bando que chefiava tinha '36' e 11 ficaram “naquela jornada”. Havia muitos antigos colegas que ajudavam a Polícia e, por isso, fugiram todos para Sergipe, estado amigo, para combinar a “entregação ao governo”.

Balão conta como foi a fuga, “a volante matou Lampião, tive tempo só de pegar embornal de subsistência e de bala e quando a metralhadora engasgou passei no meio dos macacos, fugi. O Presidente tinha espalhado aviso em toda fazenda, para entregar, que ele garantia a vida. Fomos para Sergipe e resolvemos – Juriti, Criança, Marinheiro, Pitombeira, eu – arriscar olho e mandamos avisar o cabo Miguel da volante, que viesse conversar, com três soldados, fuzil de boca para baixo. Ele veio, ficamos amigos, mas 300 praças de outra polícia cercaram o bando, tivemos que fugir para a fazenda Cuiabá, onde dançamos com a volante e bebemos oito dias sem parar. O capitão Aníbal, que trazia a ordem do governo, mandou fechar os portos das Alagoas, para que a polícia que queria matar a gente não entrasse em Sergipe”.

O caminho

“Começou então o caminho da entrega. Mas era duro, tinha tropa do capitão Aníbal, amiga, garantia a vida, tinha a tropa inimiga, queria matar a gente. Fomos ao Araticum, a Porto da Folha, a Monte Belo, mas, quando cheguei no Caveira, mataram quatro cabras meus.

Foi traição dos sergipanos e tivemos que brigar ainda no Pinhão. Só conseguimos achar o capitão Aníbal em Serra Negra, para entregar as armas. Não, ninguém foi preso, a gente ficava no quartel só na hora da troca de expediente e todos entregamos por livre e espontânea vontade. Cada dia chegava mais cangaceiros. Poucos foram mortos, como Juriti, na faca, quando era guarda-freio e estava regenerado. Depois, cada um foi para um lado, ninguém viu mais ninguém. Eu, fé em Deus, sou muito feliz.”

Ideologia

É Pitombeira quem fala, muito sério: “Hoje falam de subversivo, dizem que a gente era guerrilheiro, socialista; não era não. Nós só queríamos o bem, andar longe da Polícia, só atirava quando atacado e matava muito, muito menos do que o cinema tenta contar em filme de cangaceiro. Nós não fazíamos maldade com sertanejo, tinha que viver sem ódio no coração, tinha que ser amigo de todo mundo, se não estava perdido.

É, é verdade que quando não davam o que a gente pedia, tinha que tirar à força, mas não era comum.

História de usar banha de gente para lubrificar parabelo, mentira é que é. Nunca faltou o óleo nem a lixa para tirar ferrugem. Arma também tinha muita, os fazendeiros davam, se não nós perseguíamos.

Tinha fuzil, mosquetão, rifle, parabelo, mauser, tudo calibre grande, 7 milímetros, 30, 38. A gente atirava no ombro, apertando bem para não dar tranco ou, quando a coisa apertava, apoiava no braço, mas muito raro atirar de cima do cavalo. As balas, também, não ficavam, furou meu braço aqui, a perna do Balão, o ombro do Marinheiro, mas era bala boa, de fuzil, entreva e saia do outro lado, tudo bala bonita, de aço, niquelada”.
- “Mas esse tempo passou, hoje é diferente, vivo com a família em São Paulo, faço economia, gasto muito pouco, tenho três casinhas aqui.”

Paulo Afonso, a morte do Sertão

Faz alguns anos, Pitombeira voltou ao sertão. Hoje, ele não reconhece mais aquilo, nada é como onde nasceu.

“Paulo Afonso, a usina, ela matou o sertão. Hoje, não teria mais cangaço nem guerrilha, nem nada. A Usina de Paulo Afonso devorou o sertão, está comendo a caatinga, pondo civilização; muita gente sabe ler, as fazendas são diferentes, caminhão anda por tudo, tem televisão, tem pontes, tem luz chegando a todo lugar. O meu sertão, o sertão de Lampião, do cangaço, ele não existe mais.

Não há mais precisão do cavalo para a caatinga, nem o culote, meia sobre a calça, alpercata, não existe nem mais o chapéu bom para fazer chapéu de cangaceiro. Bem que em São Paulo eu vi uns que serviam, mas não é como no cinema; a gente usava chapéu de couro, bem macio, de camurça enfeitado. Comia a carne seca, às vezes um cabrito ou o boi dos outros, matando na bala”.

Maria Bonita

Do outro lado do saguão do aeroporto, Balão está fazendo graça, dizendo que cava tão fundo para cravar estacas que algum dia acha um japonês do outro lado do mundo. Dadá, mulher de Corisco, olha para ele, comenta com uma amiga: “Piada sim, mas valente, isso é uma fera”.

Balão fala ainda. “Eu brincava com Maria Bonita, lutava com ela, derrubava, rolava no chão. Lampião ria, dizia para a gente não zangar, para não dar briga. Nem parece que faz tempo que ela morreu com Lampião, pondo sangue pela boca. E hoje, eu tenho 60 anos, não tenho mais bala no corpo, o chumbo tiraram em São Salvador.

Doença? Não, cangaceiro nunca adoece, não carecia de médico. Só agora, em São Paulo, cavando um poço de estaca na Consolação é que bebi água sem saber que tinha suco do cemitério. Passei doze dias vomitando sangue, mas, no sertão, nunca adoeci. Duro era ver companheiro ferido, sabendo que a polícia degolava, implorando me leva, e não poder”.

Mulheres 

Criança também tem lembranças, fala das mulheres. “Tinha pouca mulher no bando, só dos chefões, ninguém mais queria, mas era valente, brigava junto com a gente. E tudo respeitava, respeitava mesmo, muito mais que aqui, em São Paulo”.

O avião está atrasado, os descendentes de Lampião demoram a chegar. Vera, com 14 anos, quer estudar medicina, espera que São Paulo lhe arranje um dia uma bolsa. Sua mãe mal conheceu os pais; criança ainda, foi entregue a um fazendeiro para criar. Lampião não gostava de criança no bando, ficava bravo quando um cabra apresentava sua mulher, de 13 ou 14 anos, perguntava se ia criar.

Pitombeira está falando de novo, achando difícil entender o que quer dizer o objetivo final.

Cangaceiros, sem remorsos

Os cangaceiros não dizem, mas, pela sua conversa, por suas histórias, eles não estão muito arrependidos de seus crimes. Acham que fizeram as coisas certas. Na hora de denunciar quem lhes vendeu as armas, dizem “que não se cospe no prato em que se come”. São desconfiados: na hora de dizer o nome verdadeiro, relutam muito.

Lampião era um grande líder. Representava a luta contra a opressão dos fortes, os fazendeiros da época. Essa é a opinião de Balão, Zé Sereno, Labareda, Criança, Dadá e Marinheiro. As histórias de cangaceiros são sempre iguais, só o começo é um pouco diferente. Todos se dizem injustiçados, fugidos da arbitrariedade da polícia. Acabaram na vida de crimes por consequência da situação que enfrentavam. Ninguém teve culpa. É o caso de Lampião, contado por Balão, ou Guilherme Alves. Esse cangaceiro afirma ter sido amigo e confidente do cabra Lampião:

- Lampião era comboieiro – pessoa que toca a tropa de burros de uma cidade para outra, vendendo mercadorias. Um dia, ele vortô pra casa e encontrô a famia morta. Foi uma outra famia, os Fulô. Lampião ficô revortado e entrô no grupo do padre Luiz Pereira Fagundes. Depois ele passó a liderá o grupo. Muitas vêis eu ouvi ele falá que ia se entregá pra poliça. Mais tudo mundo tirava isso da cabeça dele: se ele se entregasse, era homi morto.

Depois, Balão conta que o que estragava a moral do cangaceiro era a fama que eles tinham, quase sem culpa. Os jornais falavam mal do cangaceiro – que só queria viver, sem se sujeitar à opressão dos “coronéis de fazenda”. Para isso, é que os homens se internavam na caatinga. Geralmente, fugiam para o interior acuados pela polícia, a “volante”, por terem se insurgido contra alguma injustiça. Às vezes, eram apanhado pela “volante”, que os torturava para descobrir os cangaceiros. Eles eram obrigados a fugir e, para não morrer, matavam como cangaceiros.

E o cinema, Balão, você assistiu aos filmes de cangaceiro?

- Sisti, tudo mintira, elis qué imitá, mais num consegue.

Balão viu a morte de Lampião, viu quando o amigo tombou de costas, varado por diversas balas.

Existem algumas hipóteses segundo as quais o cangaceiro teria sido morto com veneno.

O sangue de Lampião saía, pelo nariz e pela boca. Balão fugiu do lugar. Posteriormente, ficou sabendo que os “volantes” cortaram-lhe na mesma hora a cabeça e a de Maria Bonita. Consta inclusive que ela teria sido decapitada ainda viva, pois seu ferimento não era dos piores.

- Ninguém morre de um tiro só.

Quando Balão fugiu, com o seu grupo, mandou um rapaz saber se Lampião tinha sido salvo. O rapaz voltou com fotografias das cabeças do cangaceiro e sua companheira. Os volantes decapitaram-nos e colocaram as cabeças em latas com vinagre e sal. Levaram depois essas latas pelas cidades, para intimidar o povo.

Zé Sereno, ou José Ribeiro Filho, perna quebrada, bengala. Ele conta que comprava suas armas de muita gente, até de “coronéis”. Pagava 600 cruzeiros por um mosquetão e 2 cruzeiros (antigos) por uma bala.

Mas o cangaceiro não podia fazer suas compras com a mesma tranquilidade de quem entra no armazém. Ele não podia se arriscar. Por isso, utilizava os serviços de um coiteiro. Era a pessoa encarregada de fazer as compras dos cangaceiros.

Zé Sereno, você pode dizer quem lhe vendia as armas? Não moço, num mi peça isso, tem muita gente viva lá ainda, num quero cumplicá ninguém.

Dadá, a mulher de Corisco, ouve a resposta de Zé Sereno e comenta:

- Num si cospe no prato que si come.

Isso mostra que, passados muitos anos das lutas, dos crimes e de toda aquela epopeia sangrenta, eles ainda continuam acreditando no que fizeram, não achando errado. Num si cospe no prato qui come diz Dadá, que é Sérgia da Silva Chagas, a mulher de Corisco.

Criança, ou Vitor Rodrigues Lima. Outrora uma fera; ontem, de terno e gravata, passou carregando uma criança no colo. Foi gozado, disseram-lhe: ao que chegou um cangaceiro, a pajem de criança.
Labareda, ou Ângelo Roque, 65 anos, parece muito mais velho. Quase não fala. Seus companheiros falam mais do que ele. Suas palavras são difíceis de ouvir, está muito velho. Mesmo assim, ele é muito objetivo, não gosta de muitos detalhes. Até repreende seus companheiros, quando estes contam suas histórias e se perdem nas minúcias. Marinheiro não fala nada, até o nome certo não quer dizer. Finalmente diz, é Antônio Paulo dos Santos.

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