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sábado, 16 de março de 2013

VIDA DE PROFETA NO SERTÃO SEMIÁRIDO DO NORDESTE BRASILEIRO

Por: José Roberto de Sá

No momento, meteorologicamente falando, tudo está turvo, disse o profeta! Contudo, o mesmo profeta diz: nada impede de em segundos ocorrer as necessárias mudanças de tempo. As condições presentes, em breve, podem ser transformadas... Folhas secas, vistas caídas ao solo, na presença da água da chuva, podem se decompor e devolver ao solo os nutrientes essenciais às plantas e promover toda condição de estresse ao total desenvolvimento delas.

O profeta sempre acredita que a tristeza pode ser convertida em alegria. O profeta se distancia do meio do povo e firma o seu olhar ao céu, inclinando o pescoço, sente o prazer de observar as formações das nuvens e o tocar do vento em suas pernas, ascendendo todo seu corpo, em todos os orifícios da epiderme. O profeta observa o sol, a lua, as estrelas, a aflição dos animais, levando todas essas observações para o seu cérebro e, daí, meditando e tirando suas conclusões meteorológicas.


O profeta do sertão sempre amanhece com aquela necessidade de renovar suas esperanças e seus estudos meteorológicos. O profeta acredita na construção da casa da joana de barro, acredita no castigo e no milagre também. Segundo o profeta, o castigo não é nada de rancor de Deus com o homem, mas apenas um corretivo. O profeta é, antes de tudo, um analista do sistema solo-planta-atmosfera e todo tipo de vida em sua volta. O profeta analisa e se encanta com os estudiosos científicos da meteorologia e até classificou as explicações de um estudioso no rádio sobre a média da temperatura dos oceanos, como a dança da manivela dos oceanos, dizendo que o pacífico está quente e o atlântico está “frio”, abaixo da média, implicando na estiagem recente. O profeta fica tão entusiasmado, contente e encantado com o homem do rádio ao cantar o refrão da música: "A Triste Partida", sublime composição poética de Patativa do Assaré, interpretada pelo nosso profeta maior LUIZ GONZAGA.

Hoje um profeta local correu em trajeto leste-oeste, sentindo a força do vento e a formação de calor no seu próprio corpo e chegando no leito do assoreado Rio morto  trapiá, abriu as pernas e os braços no sentido norte-sul, sem roupa, com apenas um saco de estopa sobre sua cintura pélvica, com seus membros inferiores e superiores se distanciando da parte central do seu corpo. O profeta, psicologicamente retirou o seu pescoço do corpo e desligou seu cérebro da cabeça e do mundo e se ligou aos raios solares e às nuvens que se encontravam parcialmente no céu nublado. Em total desligamento de si e do mundo, o profeta falou e, profeticamente, explicou com poucas palavras: o homem! Eh, homem! Oh, homem, deixa de ser perverso por apenas um instante... Oh, homem, o sertão do semiárido do Nordeste brasileiro depende das tuas ações...

Em total dormência e inconsciência  no leito do rio, o profeta emitiu sobre o saco de estopa usado como suas vestes as seguintes interrogações: cadê a vegetação? Cadê todos os abraços químicos das águas descendo o rio abaixo com seus belos barulhos debaixo das árvores, conduzindo frutos, flores e restos de vegetais, onde todos mergulhavam no remanso ou vórtex? Todas essas interrogações o profeta faz um elo com as ações do homem (ação antrópica). Essas observações encantam a vida do profeta, pois tais observações para o profeta geram vida e alegria nos corações de cada sertanejo. Daí o profeta respirou e voltou os abraços e pernas e o pescoço e o cérebro à normalidade da constituição do seu corpo e disse: apesar da esperança que não morre em mim, Eh! Eh! Eh! Homem tudo pode mudar, porém, tudo só depende de Deus.

Seguindo outras profecias, o profeta, o poeta perguntou: cadê o chocalho? Cadê o berro? Cadê os bichos de caça? Cadê os cânticos dos pássaros? Ao sentar as nádegas sobre uma rocha de granito super aquecida em uma curva do morto Rio trapiá, com apenas  um saco de estopa sobre sua cintura pélvica, o mesmo de antes, e, ao observar o movimento das borboletas de diversos tamanhos e cores o profeta disse: os homens não merecem, mas por outras razões, as conversões meteorológicas vão acontecer e vai chover no sertão. 

José Roberto de Sá. Natural de São José da Lagoa Tapada (PB). Engenheiro Agrônomo (UFPB). Doutor em Nutrição de Solos (ESAL). Poeta e Escritor. Autor do livro “A Química do Pensar”, publicado pela Fundação Vingt-un Rosado/Coleção Mossoroense.

Enviado pelo professor José Romero Araújo Cardoso

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COM KI-SUCO E BOLO (MEU ANIVERSÁRIO) (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)

COM KI-SUCO E BOLO (MEU ANIVERSÁRIO)

Façam as contas. Nascido a 16 de março de 1963 em Nossa Senhora da Conceição do Poço Redondo, numa quinta-feira. Hoje, sábado, 16 de março de 2013. Não dá outra. Cinquent’anos.

E hoje vou comemorar com ki-suco e bolo. Ki-suco de groselha e bolo de ovos. Aliás, tais coisas jamais deveriam ser suprimidas da mesa de qualquer aniversário. O ki-suco e o bolo fazem parte da cultura natalícia. Tentar negar isso é esconder as próprias origens.

Certamente que hoje nem criança dá mais importância a isso. Desconhece, assim, o prazer de se derramar cinco ou seis saquinhos de pó do refresco artificial numa vasilha grande, acrescentar açúcar e pedras de gelo, e depois mexer cuidadosamente. Uma delícia.

Juntamente com o bolo, bastava isso e a comemoração estava garantida. E como presente de aniversário geralmente um sabonete ou uma alfazema barata. Mas não precisava. Ninguém se importava muito com o valor do recebido não. O valor maior estava na presença e no reconhecimento da amizade.

Já os mais adultos comemoravam do jeito que dava, sem qualquer requinte ou ostentação. Casca de pau da boa, tubaína, destilados de qualquer bodega, uma cervejinha apenas para tirar o queimor, e no mais a velha e saborosa buchada, a caça jogada na brasa, o que existisse para ser servido. Muitas vezes era assim que se comemorava qualquer coisa nos rincões sertanejos.

Certa feita, em plena comemoração, eis que recebo o presente mais significativo de toda a minha vida. Alguém chegou com uma melancia e me presenteou. Disse que não havia encontrado outra coisa. E pediu-me para aceitar, pois era de coração. E era mesmo. E ficou no meu coração. Nunca tive coragem de cortá-la ao meio. Definhou pelo tempo. Jamais esqueço passagem tão simples, mas de uma imensa importância na minha memória.


Mas hoje, infelizmente - e como dói -, não estarei no meu sertão para receber os bons e queridos amigos. Como não haverá festa de estoque e repetição, de freezers cheios e imensidão de panelas, também não pude convidar todo o Poço Redondo. Contudo, muitos amigos já memorizaram a data e certamente estarão por aqui. E como ficarei contente e agradecido em recebê-los. Se você puder também apareça.
Assim, quem quiser aparecer por aqui já se sinta convidado. E acaso ache cafona ou coisa pobre o ki-suco com bolo, garanto que não sairá sem experimentar quitutes e guloseimas. Refrigerante, cerveja, uísque, cachaça, para beber mordiscando assados gordurosos. Mas duvido que se compare ao ki-suco com bolo.

Mas voltando à data e à idade, 16 de março e cinquenta anos, creio que, ao menos com relação à idade, é o que menos interessa. Assim enfrento meus idos de calendário. Daí que hoje não completo cinquenta anos não. Tenho dez, tenho cem anos. Pode me chamar de criança ou de velho. Tudo será perfeitamente cabível.

Creio que a idade do ser humano está na idade que ele vive o seu tempo. Quem tem vinte anos, por exemplo, não tem que, necessariamente, viver segundo a mentalidade dessa idade. A idade é um portal entre o passado e o futuro, e por isso cada um de repente tem de rejuvenescer ou de envelhecer. Somente assim compreenderá o contexto da vida.

Daí que afirmo a minha meninice traquina e os meus tantos anos, num envelhecimento profético. Cinquenta anos dizem respeito apenas ao tempo vivido até o momento, mas não representam nada daquilo que me vem refletido no espelho do que já fui e do que ainda serei. Recordo o ontem e imagino o amanhã. E vou vivendo como já estivesse mais adiante, com mais tantos outros anos. Por isso sou tão menino e tão velho.

Mas o agora também é de reflexão. Já são mais de três anos que minha mãe, D. Peta, não está mais por aqui para esbanjar alegria nessa data. E meu pai, Alcino, também partiu antes desses meus cinquenta anos. Ela certamente tomaria do ki-suco e comeria do bolo, ele beliscaria tudo que houvesse à mesa.

Mas saibam que o seu filho segue adiante, lutando sempre, sem temer nada que venha de humano, e agora ainda mais tendo a consciência que a árvore solitária cresce cada vez mais para, lá do alto, avistar o quanto o mundo é imenso e belo.

E servir de pouso, e servir de ninho, pois a solidão da árvore encontra alento nas coisas mais simples e singelas da vida. Assim sou. Assim sou eu.

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos eguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Bulamarqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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MEXENDO O PIRÃO

Autor: Adriano Marcena

Título: Mexendo o Pirão: 


importância sociocultural da farinha de mandioca no Brasil holandês (1637-1646)
Tema: História da alimentação
Páginas: 160
Preço do livro: R$ 20,00

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Contribuição inestimável !

Por: Renato Casimiro

Eu dedico uma atenção especial à contribuição histórica de muitos autores que se debruçam sobre documentos e fatos que compõem a memória histórica de seus municípios de origem ou de adoção. Assim, tenho uma vasta prateleira sobre quase todos os municípios do Ceará. 


Uns mais alentados outros mais modestos. Interessante que isto nasceu, até este zelo mais típico de bibliófilo, verificando que as questões de maior interesse em Juazeiro do Norte, frequentemente estão lá, por personagens, fatos, imagens, e acontecimentos de destaque. São particularidades que nos ajudam a compreender esta relação que tanto contribuiu para a realidade desta hegemonia que a terra do Pe. Cicero goza. Destaco nesta lembrança recente Venda grande d´Aurora, de João Tavares Calixto Júnior (Expressão Gráfica e Editora, Fortaleza: 2012, 300p, ilus.). O autor a produziu estilizando-a à maneira de uma cronologia, bem sistematizada, à moda de efemérides contadas desde os primórdios do atual município de Aurora, ainda no alvorecer do século XVIII. 

Um primor de trabalho, uma contribuição inestimável que fica para gerações futuras trabalhar em aprofundamentos e complementações com novas fontes. São tão poucas as referências em livro para uma melhor história de Aurora que o autor, ao meu sentimento, abriu enormes espaços para a continuidade destas pesquisas, envolvendo o seu crescimento social, a presença da religião católica, uma vereda para imprensa, etc. No caso de Juazeiro do Norte, a interface se dá, especialmente com a chegada de Floro Bartholomeu da Costa e do conde Adolphe Aquille van den Brule ao município, interessados em prospecção de cobre na região da fazenda Coxá, a sua demarcação e exploração do minério que ali ocorre. Junte-se a isto a participação de líderes políticos do município nos entendimentos para a emancipação e inauguração da vila de Juazeiro. Excelente trabalho que louvo e divulgo. 

Outra contribuição importante também foi dada por Elisandro Pereira de Carvalho ao publicar este Araripe: “lugar onde nasce o dia” – 100 anos de gênese documentada, tomo I (1859-1959) (Bureau de Serviços Gráficos: Juazeiro do Norte, 2011, 156p, ilus.). Neste caso, Araripe começa ter a sua história relatada em livros. Tudo o que importa ao conhecimento da história deste município parece ainda jazer em arquivo e velhos documentos do século XIX, em arquivos públicos. Enalteço o incentivo proporcionado pelo prefeito Humberto Germano Correia que compreendeu o alcance da empreitada de Elisandro Carvalho.     

Renato Casimiro
colunaderenato.blogspot.com.br

http://cariricangaco.blogspot.com  

Livros sobre "Cangaço"

1938 - Angico

Autor: Paulo Medeiros Gastão


Lampião de "A a Z"


Os livros 1938 - Angico e Lampião de "A a Z" podem ser
adquiridos através deste e-mail:

paulomgastao@hotmail.com

Diretamente com o autor (não está a venda em livrarias).

Preço por exemplar:
R$ 20,00 (vinte reais+ frete).

http://blogdomendesemendes.blogspot.com


Faça uma visitinha a este site:

http://cantocertodocangaco.blogspot.com

Observação:

Este endereço tem a palavra "Cangaço", mas não tem nada a ver com o tema, foi um erro no momento de sua criação. Ainda não conseguimos fazer outro link de acordo com o material postado.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Na Mala do Poeta: Programa aprovado gravado em paulo afonso mostra u...

Na Mala do Poeta: Programa aprovado gravado em paulo afonso mostra u...: Confiram aqui o vídeo do especial do Programa Aprovado, gravado na cidade de Paulo Afonso e exibido no dia 16/02, que contou com a participa...

Documentário

Autores: Hermes Pena, Amilton Leandro e Diana Vasconcelos.

Cangaço, Sangue e Glória - Conflitos e Contradições

Documentário que resgata a história do fenômeno cangaço e do mito Lampião. Depoimentos de pesquisadores e pessoas que participaram desse período tão importante para história do Nordeste e do Brasil.


Pescado na página do YouTube de k060879h

Pescado na página do YouTube de k060879h

http://lampiaoaceso.blogspot.com

O FOLE RONCOU



Oi, gente amiga!
O programa de estréia já está no nosso blog
ofoleroncou.blogspot.com

bjs - Lêda

O FOLE RONCOU - 
programa de rádio

Estreia sábado, dia 09 deste mês, na Rádio Triunfo FM- 87.9, às 08 horas da manhã, o programa O FOLE RONCOU. Com periodicidade semanal, durante um ano, o público ouvinte será convidado a revisitar a memória dos mestres e antigos tocadores, tendo à sua disposição a rara coleção dos idealizadores do projeto, o documentarista Anselmo Alves e a historiadora Lêda Dias, reunindo mais de 100 LPs e outra centena de títulos em CD, contemplando gravações antigas digitalizadas e lançamentos atuais de novos sanfoneiros de 8 Baixos.
Aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado de Pernambuco, o programa O FOLE RONCOU será também veiculado pela
Rádio Universitária FM- 99.9, às segundas-feiras, no horário das 09 horas da noite, a partir do dia 11 de março.

Enviado pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço: Kydelmir Dantas

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O Incrível Mundo do Cangaço - Vol. I e II

Autor: Antonio Vilela de Souza
Volume I

Volume II

Preço por volume: 
R$ 35,00 - incluso despesas de correios.
E-mail para contatos:
incrivelmundo@hotmail.com

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LUIZ GONZAGA E O RIO GRANDE DO NORTE

Autor: Kydelmir Dantas

À venda nos seguintes locais
Mossoró - RN:
Praça da Convivência - Corredor cultural - Centro
CAFÉ E ARTESANATO
Natal - RN:
LIVRARIA NOBEL - Avenida Senador Salgado Filho, 1782. fone: (0xx) - 84 - 3613-2007
Campina Grande - PB:
Vila do Artesão
FURLÃO ARTE EM COURO - Biagio Grisi


R$ 35,00

OBS: Para encomendas externas, há o acréscimo da taxa dos correios.

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OS DIAS SE PASSARAM RÁPIDOS E JÁ FAZ UM ANO QUE O SOUZINHA DO PARQUE ELÉTRICO ESTÁ COM DEUS

Por: José Mendes Pereira
Souzinha e sua esposa Ceição Souza

Hoje está completando um ano que o Souzinha do Parque Elétrico despediu-se do solo do nosso planeta.

A morte de Souzinha causou uma comoção social na cidade. Souzinha soube conquistar a população de Mossoró, com um sorriso franco e aberto. Nem todos comerciantes sabem agradar o seu cliente, como fez por muitos anos o Souzinha. Bem relacionado e muito querido, e era o empresário mais bem sucedido no seu ramo. Transformou o Parque Elétrico em um sinônimo de bom atendimento, "Pode entrar que a casa é sua!". 

Às vezes eu ficava a imaginar: Que hora o Souzinha almoça? Que hora o Souzinha vai ao médico? Que hora o Souzinha faz as suas necessidades fisiológicas?

A qualquer hora no horário comercial o Souzinha estava ali, atendendo e ordenando que levassem um cafezinho para aquele cliente, outro para aquele outro, uma cadeira para algum que estava esperando ser atendido no escritório. 

Souzinha tinha o hábito de receber a todos logo na entrada da loja. Fazia questão de ficar em pé por horas e agradecia a todos que saíam de lá com as compras em mãos. E ainda desejava: Felicidade, amigo, volte sempre! Valia a pena ser amigo e cliente do Souzinha.

Não existe e nem existirá outro comerciante em Mossoró que venha ser igual ou semelhante ao Souzinha.

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A Chegada de Sinhô Pereira ao Cariri Cangaço Parte II

Por: Jorge Remigio
Sebastião Pereira e Luiz Padre

Com o advento do Marechal Hermes da Fonseca à presidência da república em 1910 e a sua “Política Salvacionista,” a qual tinha como lema, moralizar os costumes políticos e reduzir as desigualdades sociais, preocupa-se em derrubar as velhas oligarquias do Partido Republicano Conservador nos Estados, estimulando a substituição dos governadores por militares. É lançada a candidatura do General Emílio Dantas Barreto, então, Ministro da Guerra, ao governo de Pernambuco na eleição de 1911. O chefe político da família Pereira, Coronel Antônio Andrelino Pereira da Silva, o qual fora desprestigiado politicamente pela Oligarquia Rosista, passa agora a apoiar o General Emílio Dantas Barreto, que disputava uma eleição contra o próprio Rosa e Silva, apoiado agora pelo clã dos Carvalho em Vila Bela. 

Em todo o Estado a disputa é fervorosa, principalmente na Capital. Apuradas as urnas, Rosa e Silva ganha com uma margem superior a três mil votos. No Sertão do Estado, o General Dantas Barreto só ganhou em duas cidades: Vila Bela e Salgueiro. É uma amostra de que o Coronel Antônio Andrelino ainda tinha influência e poder na região onde militava politicamente. Houve uma reação imediata do grupo de apoio ao General, em não aceitar o resultado do pleito. Alegavam fraude. O Jornal Diário de Pernambuco era de Rosa e Silva. Os Jornal A Província e O Pernambuco defendia interesses Dantista, os quais reclamavam uma vitória de Dantas Barreto. O clima de guerra generalizou-se em Recife, população amotinada, tiroteios, depredações, a Câmara impossibilitada de reunir-se e com a intervenção de tropas federais, muda-se todo o processo que até então, dava vitória a Rosa e Silva. Anulam-se as eleições de Triunfo e de Águas Belas e em assembleia extraordinária é reconhecida a vitória de Dantas Barreto ao governo do Estado.

General Dantas Barreto
      
Os Pereira readquirem o poder político no município e o Coronel Antônio Andrelino Pereira é alçado novamente ao poder. Porém, essa situação transformou-se rapidamente. Uma campanha sistemática de denúncias enviadas ao governador por telegramas, pelos adversários de Antônio Andrelino, ao menor incidente envolvendo membros da família Pereira, a intervenção nesse processo do Monsenhor Afonso Antero Pequeno, que assumiu uma postura conspiratória, publicando notas nos jornais da capital, alegando que: 
“Dar o poder a Antônio Andrelino, é como dar uma espada para um louco”. 

Como tinha amizade com o Padre Batista Cabral, o qual era membro e tinha força no diretório Dantista estadual, passou o monsenhor a influenciá-lo. Comungando tudo isso a uma postura de conciliação do novo governo, em aproveitar as forças derrotadas, levou rapidamente o Coronel Antônio Alves do Exu à presidência do diretório em Vila Bela, consequentemente a mandar politicamente na cidade e adjacências. Esse ano de 1912 começava realmente nefasto para o clã dos Pereira. Iniciava-se aí a derrocada política e econômica do Coronel Antônio Andrelino, dono da famosa fazenda Pitombeira, herdada do seu pai, o Barão do Pajeú. Os ânimos já bastante acirrados e agora com os Carvalho no poder, isso implicava ter as forças policiais ao seu dispor.
                               
Nessa época, Dona Chiquinha já residia no Barro-CE, com os filhos. O Barro do Major José Inácio de Souza. Manoel Pereira da Silva Filho, o Né Dadu, sempre andava entre o sertão das Alagoas e a ribeira do Pajeú com quatro ou cinco cabras de confiança e era perseguido sistematicamente por membros dos Carvalho em junção com as forças policiais. Os dois clãs familiares eram distribuídos em fazendas, verdadeiros feudos. Os Carvalho tinham na fazenda Barra do Exu, do chefe político Coronel Antônio Alves da Fonseca Barros, o seu “Buck” maior, como também, era sede das discussões políticas. Seguido das Fazendas Umburanas de Jacinto Alves de Carvalho, conhecido por Sindário, Antônio e José da Umburana e a Fazenda Piranhas de Lucas Alves de Barros. Os Pereira com as Fazendas Carnaúba de Manoel Pereira Lins, o Né da Carnaúba e Pitombeira do Coronel Antônio Andrelino Pereira da Silva. Eles eram mais financiadores das empreitadas de defesa e ataque. Entraram no conflito armado em situações extremas, como ocorreu em 1908, quando a Vila de São Francisco foi cercada por grande contingente de jagunços e familiares do Coronel Antônio Alves do Exu, sitiando Né Dadu e vinte e cinco homens que cuidavam da defesa respondendo ao fogo cerrado dos inimigos. Quando os sitiados chegaram a uma situação limite, quase sem munição, chega o socorro salvador dos parentes Manoel Pereira Lins, Antônio Andrelino, Baião Pereira e Cincinato Pereira, com mais de cem homens e após três horas de tiroteio, o cerco é rompido.

Sob monumento na Matriz de Santo Antônio do Barro, descansa o corpo de Dona Chiquinha Pereira.

A Vila de São Francisco concentrava os Pereira mais diretamente ligados na vingança, muitos com sobrenome Pereira Valões.  Como era de praxe, a oligarquia que estivesse de cima na política, tinha todas as benesses do poder. Isso só acirrava ainda mais o conflito. É notório, que o acompanhamento de membros da família Carvalho em diligências policiais, geraria constrangimento aos familiares adversários. E foi justamente o que ocorreu em 1915 na Vila de São Francisco, quando Sebastião Pereira, então com 19 anos, foi insultado, agredido por Antônio da Umburana e policiais, como também a sua genitora, Constância Pereira de Sá e uma governanta velha, passando todos por uma situação vexatória.           

No dia 16 de outubro de 1916, Né Dadu é morto covardemente pelo cabra apelidado de Palmeira ou Zé Grande. O assassino tinha trabalhado para os Carvalho e encontrava-se preso por furto. Né Dadu o retirou da cadeia, mesmo os familiares censurando essa sua atitude arriscada e imprudente. Ponderava, alegando que o cabra poderia lhe passar importantes informações sobre os seus inimigos. 

Na primeira oportunidade que teve, Palmeira executou Né Dadu com um tiro de rifle e fugiu na escuridão. A parcialidade de instituições como Polícia e a Justiça eram tamanha, que nem o inquérito policial foi instaurado para apuração do crime. 

...Esse fato extremo foi o estopim final para o jovem Sebastião Pereira da Silva, então com vinte anos e nove meses, tomar a decisão extrema de formar bando e ingressar no cangaço de vingança
  
Tinha muita disposição para isso, era solteiro e o caçula dos vinte e um irmãos. A princípio, teve o apoio unânime da família. A decisão de migrar para o sul do Ceará, mais precisamente para a Vila do Barro, foi uma atitude pensada, arquitetada, sem o arrebatamento da emoção e da vingança precipitada. A “mão de obra” do trabuco, existente no Cariri Cearense era bastante farta e experiente, como também, o laço de amizade da família Pereira com o Major Zé Inácio de Souza, solidificou-se ainda mais com o casamento da sua filha Virgínia Amélia com José Simplício Pereira, conhecido por Pereirão, neto do Barão do Pajeú e sobrinho do coronel Antônio Andrelino.


Não entendo qualquer tipo de cangaço, sem a mobilidade necessária. É uma condição “sine qua non” para existência de qualquer bando. Então, Dispondo Sinhô Pereira da proteção importante e de um coito seguro e impenetrável nas fazendas do major José Inácio, isto foi bastante significativo e decisivo para sua militância no banditismo de vindicta, por quase seis anos. Caso tivesse constituído o seu bando com cabras e jagunços das fazendas dos familiares, seria inviável do ponto de vista da mobilidade como falei acima. O bando formado no Barro passou a fazer investidas rápidas contra os inimigos na região do Pajeú e em seguida, retornavam ao coito seguro e impossível de ser molestado naquele momento, dada a força política e o poderio bélico que dispunha o major todo poderoso do Barro.

É evidente, que não existe almoço grátis e, mais na frente, o major José Inácio vai solicitar algum “trabalho” do bando de Sinhô Pereira. O Pajeú pegou fogo no ano de 1917. As investidas do bando comandado por Sinhô e o primo Luis Padre às Fazendas Piranhas e Umburanas foram devastadoras, levando seus donos a migrarem para cidade enquanto organizavam a defesa. Jacinto Alves de Carvalho, o famoso Sindário, constituiu também bando de cangaceiros para defender-se e também investir contra o bando de Sinhô. O governador de Pernambuco, Manoel Borba, mandou para Vila Bela, nesse ano, na tentativa de barrar os sucessivos embates entre o bando de Sinhô e membros da família Carvalho, vários oficiais e um grande contingente de soldados. Os graduados: João Nunes, Teófanes Torres, Optato Gueiros, Lira Guedes, José Caetano, Cardim e Manoel Bigode.

Teófanes Torres

O bando de Sinhô variava muito o número de componentes, dependendo muito da empreitada a ser cumprida. Quando Luis Padre e Sinhô Pereira tomaram conhecimento do paradeiro do assassino do seu irmão, o famigerado Palmeira, logo rumaram para o Estado de Alagoas na companhia de dois cabras para executar a vingança. Essa foi concretizada à punhaladas pelo próprio Sinhô. Ao retornarem para Vila de São Francisco, tomaram conhecimento que Luiz de França, o assassino do Padre Pereira, estava residindo na Serra Vermelha. Foram incontinenti, fazer-lhes uma “visita”, encontrando-o na hora do jantar. Luiz de França tentou fugir na escuridão da noite, o qual tinha sido ferido à bala, sendo encontrado e morto na manhã seguinte.

É necessário esclarecer, que nessa intriga e luta dos Pereira e Carvalho, não se envolviam todos familiares. Tinham os cabeças, ligados diretamente ao conflito. Os alvos diretos de Sinhô Pereira e Luis Padre, eram: Jacinto Alves de Carvalho, o Sindário, seus irmãos Antônio da Umburana e Mocinho. O Zé da Umburana foi assassinado de emboscada em 1911. O crime não foi atribuído aos Pereira. A vítima tinha deflorado uma moça da localidade São Serafim, hoje Calumbi-PE. Os familiares desta o executaram. João Lucas das Piranhas, esse com parentesco com Pereira. Natinho, João Nogueira, o qual era cunhado de Sinhô, o coronel Francisco Alves do Exu e o irmão Agnelo.  De todos esses inimigos figadais de Sinhô Pereira, só Antônio da Umburana sucumbiu vitimado pela arma pontiaguda do vingador. 

Sinhô teve informações que Antônio da Umburana estava no povoado de Queixada, hoje Mirandiba-PE, então, dirigiu-se até lá com o bando e após várias horas de tiroteio e resistência de Antônio que estava no interior de uma residência, este teve que sair para não morrer queimado após terem ateado fogo na casa. Morreu com várias punhadas desferidas pelo cangaceiro vingador. No ano de 1918, já não era unânime a aceitação dos Pereira, referente às atividades cangaceira de Sinhô e Luis Padre. Existia no seio da família um desgaste psicológico grande, um clima de constante expectativa e sobressaltos, como também, grandes perdas econômicas. Após o falecimento de Dona Chiquinha, no Barro-CE, acometida pela avassaladora epidemia da gripe espanhola, naquele mesmo ano de 1918, resolve os primos: Sinhô Pereira e Luis Padre, abandonar o cangaço e seguirem juntos para o Estado de Goiás. 

 Fazenda do major Zé Inácio do Barro
                        
A viagem transcorria normal até então e, estrategicamente, se dividiram para não despertar a curiosidade de transeuntes ou mesmo de alguma força policial. A intenção era encontrarem-se ainda no Estado do Piauí, próximo da cidade Caracol e seguirem até o destino final, São José do Duro, corruptela de São José D’Ouro, em Goiás, hoje Estado de Tocantins. Porém, o grupo de Sinhô Pereira é surpreendido por uma força policial piauiense, comandada pelo Tenente Zeca Rubens e após dois confrontos sucessivos com baixas em ambos os lados, Sinhô Pereira não teve mais condições de consumar o seu intento, retornando ao palco de guerra no Pajeú e Cariri Cearense.  O crescimento econômico e o poderio político do major José Inácio foram vertiginosos. O seu “modus operandi” é questionável, justificando-se e amparando-se na prática comum à época, que era a deposição de chefes políticos pelo uso da força e atitudes nada civilizadas. 

Na maioria das vezes com a conivência ou omissão do próprio poder estadual, encastelado na capital do estado. Sinhô Pereira já há mais de dois anos dispondo da proteção, munição farta, contingente de homens afeitos àquela profissão, tudo disponibilizado pelo Major José Inácio, é inconcebível que este não se envolvesse nos interesses e questões do protetor e amigo, caso fosse requisitado. Nas ações de interesses do chefe político do Barro, em que tomou partido, desviadas do seu objetivo principal que era a vingança familiar, considero pontuais. Em vinte de janeiro de 1919, na zona rural de Milagres, invade com o bando a casa da senhora Praxedes, viúva do coronel Domingos Leite Furtado, de onde é roubada uma quantia considerável em dinheiro. Um ano depois, vinte de janeiro de 1920, a casa da fazenda do Coronel Basílio Gomes da Silva, localizada no Município de Brejo Santo é saqueada. Este não procurou providências temendo represálias. Dois anos depois, em dezenove de janeiro de 1922, por desavença, interesses políticos e rixa familiar do amigo e protetor José Inácio, Sinhô invade a Vila de Coité, Distrito de Mauriti, reduto e residência do Padre Lacerda, desafeto de José Inácio de Souza.


Padre Lacerda

A resistência do povoado é heroica  impossibilitando os invasores de aniquilar o Padre Lacerda que no interior de sua casa com jagunços e amigos, respondeu a altura o intenso tiroteio. Esse episódio é emblemático para a derrocada do Major José Inácio. Iniciam-se as pressões por parte do Presidente do Estado Justiniano Serpa, motivadas por uma enxurrada de denúncias e artigos publicados em jornais da capital, contra o maior coiteiro de cangaceiros de que se tem notícia para as bandas do Cariri. O pacto envolvendo os Estados da Paraíba, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte é concretizado, podendo agora, suas forças policiais ultrapassarem as divisas estaduais em perseguição de bandoleiros, sem a necessidade da autorização prévia. O major José Inácio já planejando retirar-se do seu feudo para terras distantes, arquiteta sua última investida contra os fazendeiros na região de Catolé do Rocha-PB, Waldevino Lobo, Adolfo Maia e Raquel Maia, com o nítido objetivo de usar esse dinheiro em novo domicílio. 

O plano é executado pelo bando de Sinhô Pereira, agregado ao de Ulisses Liberato e muitos cabras do Major. Não chegaram até a fazenda de Raquel Maia. Achou por bem Sinhô Pereira, retornar ao Barro, após saquearem Waldevino Lobo e Adolfo Maia. Logo em seguida, José Inácio é preso, porém, por pouco tempo. Sua fuga, meio que facilitada, encerra-se um capítulo na história coronelística do Cariri Cearense. Os fatos narrados acima ocorreram em um espaço de três anos. Entendo que Sinhô Pereira cometeu muitos “pecados” fora do seu objetivo principal, que era a vingança. Entendo também, que não houve uma transtipificação do seu cangaço, ou seja, não enxergo que tenha feito um cangaço de negócio, meio de vida. O bando não era sustentado com dinheiro de saque.

 Jorge Remígio

Naquele mundo estranho que foi o cangaço, todos pecaram: Coronéis, Cangaceiros, Coiteiros e Policiais. Com a saída do Major José Inácio do seu território, o cangaço de Sinhô Pereira ficou inviável. As investidas que fazia contra os inimigos no Pajeú e o retorno seguro para o Barro, não existiam mais. 

Lampião praticamente assumiu o grupo no mês de maio de 1922. Não comungo com a ideia de que Sinhô Pereira tenha influenciado no ataque à casa da Baronesa de Água Branca em junho de 1922. Lampião já tinha autonomia sobre o bando. Quando Sinhô parte para sua viagem e abandona totalmente sua vingança, a entrega do bando para Lampião em agosto daquele ano é puro simbolismo. Lampião era detentor do produto do saque em Água Branca. Sinhô teve uma considerável ajuda financeira dos parentes Manoel Pereira Lins e Isidoro Conrado para a sua viagem. O agora ex-cangaceiro partiu ao encontro do primo Luiz Padre e do amigo José Inácio de Souza, com um sentimento de não ter concretizado a sua vingança. Advogo a tese, de que o cangaço é muito mais dependente e ligado ao Coronelismo do que se possa imaginar. Essa ideia vale para qualquer tipo de CANGAÇO.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

- Albuquerque, Ulisses Lins.  UM SERTANEJO E O SERTÃO
- Barreto, Ângelo Osmiro. ASSIM ERA LAMPIÃO
- Carvalho, Rodrigues de. SERROTE PRETO 
- Dantas, Sérgio Augusto de Souza. LAMPIÃO, ENTRE A ESPADA E A LEI 
- Melo, Frederico Pernambucano de. GUERREIROS DO SOL
- Maciel, Frederico Bezerra. LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO. vol. I 
- Neves, Napoleão Tavares. CARIRI, CANGAÇO, COITEIROS E ADJACÊNCIAS 
- Sá, Luiz Conrado Lorena. SERRA TALHADA 250 ANOS DE HISTÓRIA,  
- Sousa, Severino Neto. JOSÉ INÁCIO DO BARRO E O CANGAÇO
- Wilson, Luis. VILA BELA, OS PEREIRAS E OUTRAS HISTÓRIAS

Jorge Remígio

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quinta-feira, 14 de março de 2013

Viva a Poesia !!!!!


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ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

Por: Juliana Pereira Ischiara
Juliana Pereira Ischiara e Alcino Alves Costa

No seu livro “Admirável Mundo Novo”, lançado em 1932, o escritor inglês Aldous Huxley faz uma ferrenha crítica ao avanço desenfreado da ciência e da tecnologia, em oposição à religião e aos valores morais e sociais. Segundo ele a ciência acabaria por liquidar, entre outras coisas, a vocação humana pelo abstrato e divino.

Escritor inglês Aldous Huxley

Até entende-se que ele fosse assim tão descrente e pessimista em relação à metafísica. Vivia-se em um mundo onde a carta já entrava em desuso pela acessão do telefone, os barcos cediam lugar as aeronaves nas travessias oceânicas e os dirigíveis atracavam com toda pompa e circunstância em plena Nova York. Mas ele estava errado. E a história já tinha provado isso, muito antes dele nascer. 

Os gregos, nos legaram o teatro de Fídias, a engenharia de Arquimedes, a física de Ptolomeu e a oratória de Demostenes. Ao mesmo tempo em que o Liceu fervilhava de ideias e inovações, erguia-se um templo em homenagem a Deusa Atenas, no centro da Polis, consultava-se o Oráculo da ilha de Delfos antes de ser declarada guerra e acreditava-se em um panteão de deuses assentados na corte do Olimpo, que muitas vezes se divertiam com as vicissitudes e fragilidades humanas, quando não estavam em uma luta fraticida pelo poder das hostes celestiais. 

Os romanos nos deram o direito no arcabouço que o conhecemos; construíram pontes e estradas e tornaram o latim a primeira língua de abrangência ultra continental. Mas os seus imperadores recebiam como primeiro título o de Pontifex Maximus – Sumo Pontífice – líder supremo da religião, antes dos demais títulos militares ou políticos. Possuíam mais de mil divindades das quais o mais poderoso era Júpiter, considerado o guardião de Roma e de todos que nela habitavam. E ofertavam punhados de terra em honra de suas batalhas.

Com o Renascimento a Europa esboçou uma ruptura entre o homem em constante evolução e a religião. Os artistas, pensadores, cientistas iriam provar que a fé era uma amarra que legara mil anos de obscuridade ao continente. Era a alforria do pensar, subjugado até então pelos grilhões do crer.

E aí veio Dante Alighieri, descrevendo o paraíso celeste com todas as cores do sublime e o inferno com o peso de uma desgraça tão profunda que por falta de um adjetivo para descrevê-lo acabou recebendo o nome deu narrador: dantesco.
Veio Michelangelo para pintar a perfeição humana, no teto da Capela Sistina, onde oram em silêncio os papas.
Veio Descartes afirmar que o objetivo maior da ciência era encontrar a harmonia com Deus.

E tivemos o choque entre mundos impulsionado pelo vento á ufanar as velas das naus ibéricas. O vapor, a eletricidade, o telegrafo, o rádio, o cinema, o mundo em guerra, o vermelho bolchevique, as flamulas em estandarte, o mundo de novo em guerra, a bomba com brilho de mil sois. 
A divisão, o Muro, os quatro de Liverpool, a minissaia, a pílula, o medo do fim do mundo pelo apertar de um botão, o PC 286, 386, a internet, o 486, Pentium 1, 2 e 3, MIRC, Orkut, Facebook, o mundo em 140 caracteres, o Instagram , um "Habemus Papam" escrito com emoticons que simbolizam abraços e uma necessidade gritante deste admirável mundo novo de buscar o divino, como nunca na sua história.

A ciência nos ajuda a compreender como os aviões voam, mas nos benzemos antes de decolar. A medicina cura doenças, mas ao lado de muitos blocos cirúrgicos existe um altar de oração. A internet nos permite saber o que se passa no mundo e o mundo passou o dia ligado na rede para saber quem seria o novo papa.

Sempre estaremos diante de um admirável mundo novo, repleto de evoluções e acontecimentos espantosos. É da natureza humana buscar tal evolução, como também é da sua natureza, buscar o divino. 

Este admirável mundo novo não refrata Deus. Pelo contrário: clama incessantemente que Ele nos ajude a compreender por que vivemos cada vez mais afastados dos nossos semelhantes, quando estamos muitas vezes a distancia de um click. E roga que Ele nos permita sempre ter esta força que nos faz marejar os olhos e acreditar no imponderável, que alguns resolveram chamar de alma.

Bem vindo Francisco I, a este admirável mundo novo.

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Enviado pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço: Kydelmir Dantas

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