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terça-feira, 2 de julho de 2019

PERSONAGENS DA HISTÓRIA CANGACEIRA.


Por Geraldo Antônio de Souza Júnior
Aspirante Francisco Ferreira de Melo "Chico Ferreira".

Esteve presente no episódio de Angico na ocasião do ataque da Força Policial Volante alagoana ao coito onde Lampião e parte de seu bando se encontravam na manhã do dia 28 de julho de 1938.

Chico Ferreira, liderando um grupo de soldados, teve papel de destaque durante o confronto contra os cangaceiros, despejando naquele momento toda a sua fúria contra aqueles que ali estavam acampados.

Encerrado o confronto verificou-se a morte de Lampião, Maria Bonita, nove cangaceiros e um soldado chamado Adrião Pedro de Souza, que ao que tudo indica foi morto pelo cangaceiro Elétrico.

Como reconhecimento a sua atuação em Angico foi promovido a Oficial. Chegando posteriormente ao posto de Coronel.


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LAMPIÃO EM RIBEIRA DO POMBAL


Já se tinha notícias da presença do maior cangaceiro do século XX, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, considerado o rei do cangaço - 1927/1940 - à Bahia no ano de 1928. A possibilidade de ter levado Lampião a cruzar o Rio São Francisco rumo aos Sertões da Bahia, seria, a que tudo indica, a falta de opção. Em todo o Nordeste só restavam Bahia, Sergipe e *Piauí, onde poderia hospedar-se com o resto dos seus cabras.

O ataque a grandes centros urbanos, acirrou os ânimos das policias de alguns estados nordestinos, visto que houve repercussão nacional dos episódios. Daí por diante, Lampião não teria trégua; o jeito era dispensar muitos de seus cabras. Para facilitar a fuga da furiosa perseguição policial, quanto menos gente, melhor.
Nessa altura, coligaram-se as policias de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte e durante vários meses investiram numa perseguição implacável a todo o bando. Não existia outra alternativa senão um dos três estados restantes do nordeste.

Para Piauí, Lampião jamais iria, primeiro porque lhe era terra desconhecida e segundo porque era o estado mais pobre, entre os pobres do nordeste. O bandoleiro sabia por experiência que na Bahia iria encontrar condições favoráveis.

Se o Capitão Virgulino não tivesse tentado ocupar Mossoró pela força, então o maior município do interior do Rio Grande do Norte, ou tivesse conseguido, provavelmente a Bahia jamais o tivesse hospedado em seu território.

Quando desembarcou aqui na Bahia, em 21 de agosto de1928, Lampião se quisesse, poderia ter tentado reconquistar a sua condição outrora de homem livre, trabalhador, honesto, produtivo. Não o fez. A índole de bandido calava mais forte.

Ao pisar em terras baianas, Virgulino Ferreira da Silva, já tinha 31 anos de idade, ostentava a patente de capitão, título de que muito se orgulhava e fazia alarde. Além de Mossoró (1927), assaltara, em lance de grande atrevimento, Água Branca (1922) em Alagoas, quando saqueou a baronesa Joana Viana de Siqueira Torres, despojando-a de jóias e moedas de ouro do Império, com as quais passou a enfeitar-se. Esse episódio, somado ao frustrado assalto a Mossoró, à patente de Oficial do Exército e às inúmeras batalhas em que se envolvera (Baixa Grande, junho de 1924; Serrote Preto, fevereiro de 1925; Serra Grande, novembro de 1926), bem como ao saldo de mortes que lhe vinha no rastro, davam-lhe prestigioso renome em todo o Brasil e até no exterior.

Recorte de Jornal da Época
Um dos primeiros contatos de Lampião em terras baianas foi em Santo Antônio da Glória. Lampião partira da Serra Negra (em Floresta, Pernambuco, seu estado Natal), ladeou Riacho dos Mandantes de onde passou para as margens do Rio São Francisco. Em seguida avançou pelas propriedades Sabiuçá e Roque, cruzou o Velho Chico e ganhou as terras baianas. Aqui seu itinerário foi o seguinte: Serra Tona, Fazenda Salgado e o povoado Várzea da Ema, município de Glória.

Após várias andanças e as notícias ocultas, somente em dezembro é que Lampião ressurge no cenário baiano, exatamente no dia 15 de dezembro de 1928, na vila do Cumbe (atual cidade de Euclides da Cunha). De lá partiram rumo a Tucano, onde concede uma entrevista a um jornalista da terra e recebe a notícia que mandaram buscar reforço policial na cidade de Serrinha, o que apressou a saída do bando do município. Partiram de lá às onze horas da noite, aproximadamente, em destino a Pombal.
Antigo Mercado de Ribeira do Pombal - Década de 50
Desde aqueles sábado, 15 de setembro de 1928, que já se sabia que Lampião encontrava-se no município de Tucano, pois todos os viajantes, que lá procediam, noticiavam aos habitantes de Pombal da visita do então cangaceiro.

Lampião e mais sete cabras do seu bando chegaram à vila de Pombal por volta das seis horas da manhã, um domingo do dia 16 de dezembro de 1928.

O Sr. Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como "Seu Cardoso", narrou, detalhadamente, como foi a visita de Lampião na Vila de Pombal:
"Eu era intendente, na época. Desde o sábado à noite se corria o boato na rua que Lampião estava na cidade de Tucano, mas de paz.
Eles chegaram de manhã, bem cedinho, eu estava deitado e o empregado estava varrendo o terreiro da casa
 (o velho sobrado dos Britto), abordaram o empregado e mandaram me chamar. Com certeza eles já haviam se informado quem era o administrador da vila. O empregado subiu e me avisou, mas não soube dizer quem era; fui até a porta às presas e perguntei a ele o que queria. Ele se identificou por Coronel Virgulino.

Tomei um susto ao perceber que estava diante do mais temido bandido do sertão. Eram oito homens, sete ficaram encostados no carro e só o capitão tinha se aproximado. 


Disse que queria tomar café. Mandei logo providenciar. Perguntou quantos soldados havia na vila; respondi que apenas três; mandou avisá-los para não reagir, pois estaria ali apenas de passagem ".
O próprio empregado foi até o quartel levar a tranquilizadora notícia, transmitindo-a ao cabo Esmeraldo, comandante e chefe do destacamento.

Lampião e seus cabras de deliciaram com o café com cuscuz que lhe ofereceu o anfitrião. Mas tarde, o bando chegou até o quartel, desarmaram os militares, intimando-os a acompanhá-los até a cidade mais próxima para onde iam. Lampião disse em tom sarcástico: “... assim vou mais garantido porque estou com a força".

Antes de saírem, Lampião e seus cangaceiros foram conhecer a Vila Alegre com a boa hospitalidade a eles oferecida. Para deixar uma ótima impressão de sua visita à Vila de Pombal, perguntou se havia um fotógrafo; mandaram chamar Alcides Franco, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que possuía uma máquina fotográfica. Pediu que batesse uma chapa do bando para ali ficar de recordação (essa foto é uma das mais nobres no acervo sobre o cangaceiro, presente em quase todos os livros, sobre o bandoleiro).
Lampião e seu bando na Vila de Pombal em 17/12/1928 - (Hoje, Praça Getúlio Vargas) Ribeira do Pombal - BA
Praça. Getúlio Vargas (Atualmente) - Cenário da fotografia de Lampião (Acima) - Ribeira do Pombal - BA

Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, partindo espalhafatosamente com destino a Bom Conselho (atual cidade de Cícero Dantas).

A partir daí Lampião continua suas andanças por terras baianas. Em 22 de dezembro de 1929, vindo de Capela, interior do Estado de Sergipe, passando por Cansanção, interior da Bahia, o Capitão Virgulino chega a Queimadas, cidade próxima a Monte Santo. No cumprimento de mais uma de suas façanhas, Lampião, nessa cidade, realizou um dos maiores saques cometidos na Bahia, acompanhado de gravíssimos crimes e orgias de sangue.

Após sair de Queimadas, tem-se notícias do bando dos cangaceiros no arraial de Triunfo (atual cidade de Quijingue), onde festejaram e saquearam o pequeno comércio local.
Ao amanhecer do dia 25 de dezembro de 1929, portanto três dias após o acontecido na cidade de Queimadas, mais uma vez Lampião e seus cabras chegam às redondezas de Pombal.
Nesta mesma manhã, o Sr. Cardoso recebeu um bilhete, mandado por Lampião, pedindo uma quantia exorbitante de dinheiro. A quantia era tão grande que se reunisse todo dinheiro da Vila, não pagava.

O Sr. Cardoso temendo uma represália por parte do cangaceiro, se não enviasse pelo menos uma boa parte de dinheiro e uma desculpa bem, convincente, conseguiu o equivalente à metade do pedido, mandando pelo mesmo portador que trouxe o bilhete.

Não se registrou nenhuma agressão ou tentativa de saque na Vila de Pombal, certamente o Capitão Virgulino aceitou as desculpas do administrador local ou imaginou outra hipótese, como por exemplo, a essa altura, talvez já se encontrasse ali reforço policial e o bilhete que enviara dava testemunho de sua presença nas imediações. Dava tempo muito bem da força preparar uma emboscada caso ele tentasse invadir a vila. O certo é que Lampião dotado de muita astúcia e arquiteto das mais engenhosas proezas, sem dúvida tivesse pensado inúmeras desvantagens em tomar a Vila de Pombal para assalto.

Na mesma manhã do Natal de 1929, o bandoleiro chega ao distrito de Mirandela. Foi previamente informado que o destacamento era constituído de apenas cinco praças e um comandante; envia então uma intimação ao sargento, com os seguintes termos:

"Sargento arretire daí levando sua pessoa que preciso intra neste arraiá agora se você não sai ajusta conta com eu Capitão Virgulino vurgo Lampião".

Certamente o comandante do destacamento ignorava o recente acontecimento de Queimadas, onde Lampião enfrentou muito mais soldados do que os ali existentes. O sargento Francisco Guedes de Assis demonstrou disposição e evitou acatar ao utimato, contrariando ao desejo do cangaceiro, mandou-lhe resposta num outro escrito, com os seguintes dizeres:

"Bandido Lampião, estou aqui com a edificante missão de defender a população do Arraial contra a sua incursão e do seu bando. Se você entrar lhe receberemos a bala".

Pouca gente sabe desse episódio que aconteceu em Mirandela, porém, não só foi contado por moradores que vivenciaram o caso, como também foi encontrado um registro escrito por um dos cangaceiros, por nome de Ângelo Roque, confirmando o fato. O registro manualmente escrito dizia:

"Seguimo para Mirandela. 
Mandemo dizer ao sargento, qui tava distacado lá, que nóis, ia passa ali, sem arteração. 
Ele arrespondeu pelo portado qui nóis pudia passa pru fora da rua que ele num botam persiga atraiz. 
Mais si nóis intrasse dento da rua levava tiro. 
Isso foi num dia vinte i cinco di dezembro. 
Nóis arrezorveu ataca.
Um pade tava na igreja dizeno missa. 
Era um sargento Guedes. 
Disparemo as arma pra dento da rua qui istrondô i avanecemo pra frente".

O destacamento de seis militares, recebeu espontaneamente, a adesão de dois civis: Manoel Amaral do Nascimento e Jeremias de Souza Dantas.

Guedes divide sua pequena tropa em três grupos, colocando-os em três pontos diferentes e estratégicos. Eram dezessete bandidos contra seis militares e dois civis. Os bandidos invadem o arraial, atirando em todas as direções; Mirandela é heroicamente defendida.
A luta dura duas horas e meia, aproximadamente, apesar da desvantagem dos defensores. Em determinado momento, o fogo dos sitiados começa a decrescer. Os bandoleiros sentiram que estavam ganhando a batalha e acirraram o ataque.

Manoel Amaral do Nascimento foi ferido e, enquanto era conduzido pelo sargento para o interior de uma casa, é morto à queima-roupa por um bandido que se presume ter sido Alvoredo. Guedes ainda atira no cangaceiro, que pede socorro aos companheiros. Ao notar que os cangaceiros atendem ao apelo de socorro, Assis corre e se refugia no mato. Jeremias de Souza Dantas, popular Neco, o outro civil, também é assassinado.

Depois do acontecido, um cangaceiro por nome de Labareda, documenta o fato em uma folha de papel, reproduzindo o que se passou no local:

"Lampião entro pulo cento da rua, junto com Zé Baiano, Luiz Pedo e outros. Zé Baiano tinha sumido de nóis dois dia só i tomo partido das disgracera de Queimada. Us macaco de mirandela inda brigam muito mais porem terminaro debandano. I si escondero pru perto cum pirigo pra nóis di tiro imboscados. Morreu nessa brigada um camarada pru nomi Manoé de Mara. Matemo uns dento di casa i um macaco materno pruquê pidiu paiz cum lenço branco na boca du fuzi i ninguém intendeu ou num quis intendê. Tamem cangacero num tinha esse negoço di faze as paiz nu meio das brigada. Ele teve di morre pois teve brigano. Tumemo us dinhero pussive nu começo i nas casa”.

O saldo da guerra: morreram os dois civis, um dos militares, sendo que os outros, inclusive o sargento Guedes, fugiram, embrenhando-se no mato; também foi ferido um cangaceiro por nome de Luiz Pedro. O bando sai de Mirandela, carregando o cangaceiro ferido, e vitoriosos, ganham o mato, como sempre, sem destino. Tem-se notícias do bando, mais tarde, de que estariam num esconderijo, perto de Pinhões, povoado de Euclides da Cunha, em um sítio é denominado Olho D'água.

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*Fernando Amorim é autor do livro "Memória histórica de Pombal". Capítulo concebido em entrevista ao então intendente da época, o Sr. Cardoso.


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'ELE TINHA NO ROSTO UM PAVOR ENORME', DISSE SOLDADO QUE MATOU O CANGACEIRO LAMPIÃO, HÁ 80 ANOS

Cabeça de Lampião 

"Livre o Nordeste do maior de seus bandoleiros", publicou O GLOBO em sua primeira página do dia 29 de julho de 1938, há 80 anos, quando o jornal noticiou a morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O fim do famoso cangaceiro ainda seria motivo de manchetes nos dias seguintes, à medida que chegavam à redação mais informações sobre a emboscada na qual o criminoso foi morto pelos policiais comandados pelo Tenente João Bezerra. No dia 1 de agosto daquele ano, O GLOBO publicou um depoimento do soldado que alvejou Lampião, na madrugada do dia 28 de julho, na fazenda Angicos, no sertão sergipano.
Segundo o relato do policial Antonio Honorato da Silva, o cangaceiro estava acabando de acordar quando foi morto por ele. Lampião tinha ao lado a sua mulher, Maria Bonita, que também não foi poupada, mesmo após se render. O casal e mais nove integrantes do bando foram mortos naquela tocaia.


- Vi Lampeão erguer-se, tinha no rosto um pavor enorme. Levei o fuzil ao rosto e mirei bem. A mulher estendeu os braços, pedindo clemência. Nesse instante, fiz fogo. Ele baqueou e eu acompanhei a queda com outros dois tiros. Estou satisfeitíssimo e sou o homem mais feliz do mundo - descreveu Antonio Honorato da Silva, em depoimento enviado por telégrafo. 
Lampião segurando um exemplar do jornal O Globo - Foto de Arquivo/ O GLOBO

Naquele mesmo dia 1 de agosto, o jornal divulgava mais informações sobre o chamado Rei do Cangaço, que, durante cerca de 18 anos praticou todo tipo de roubo e assassinatos em sete estados do Nordeste, sempre acompanhado de seu bando. De acordo com relatos de pessoas próximas a ele, Lampião vinha manifestando a vontade de sair da vida de crimes, depois de comprar propriedades agrícolas em Sergipe. Mas, àquela altura, o pernambucano já estava sendo procurado, vivo ou morto, pelas autoridades de diferentes estados.


"Chegam agora novos detalhes da maneira por que os cangaceiros foram surprehendidos", relatou O GLOBO. Segundo a reportagem, enviada de Maceió, Alagoas, os policiais foram informados de que os bandidos estavam acampados na fazenda Angicos, onde hoje fica o município de Poço Redondo, em Sergipe. Eles cercaram o acampamento do bando no meio da noite, "collocando metralhadoras em todos os flancos, emquanto dois soldados atirariam isoladamente em Lampião e Maria Bonita".



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LIVRO SOBRE MARIA BONITA REVELA DETALHES DE CÓDIGO CRUEL CONTRA MULHERES NO CANGAÇO

Virgulino Ferreira, o Lampião, e Maria Bonita (no centro) cercados de cangaceiros no sertão

Jornalista Adriana Negreiros conta a história pela perspectiva das mulheres daquele período e de suas contemporâneas no sertão.

por Nahima Maciel

Maria Bonita era uma mulher transgressora. Naqueles anos 1920, mulheres não podiam votar nem se divorciar. “Puladas de cerca” masculinas eram naturais e esperadas, contrair doenças venéreas costumava ser visto como símbolo de virilidade. Mas ai da mulher que resolvesse ter amante. Risadas altas eram sinal de vulgaridade e, no código cruel do cangaço, mulher que traía podia ser apedrejada. No entanto, Maria da Déa – no sertão e por todo o Nordeste, era comum o pronome de posse atrelado ao nome da pessoa para indicar a quem “pertencia” – não temia o marido, o sapateiro Zé de Neném.

Quando ele trampolinava, ela ficava zangada, refugiava-se na casa dos pais e se divertia no forró. Insatisfeita com a vida sexual e o casamento com Zé de Neném, Maria não hesitava em declarar o fascínio por Lampião, o fora da lei mais temido e procurado do Nordeste. Fugiria com ele em um estalo caso Virgulino Ferreira da Silva quisesse. Certo dia, ele quis. Maria deixou de ser Da Déa para se tornar Bonita e virar símbolo de valentia no cangaço. Essa trajetória a jornalista Adriana Negreiros conta com detalhes em Maria Bonita – Sexo, violência e mulheres no cangaço (Objetiva).

Quando começou a pesquisa para o livro, Adriana não imaginava a dificuldade em reunir informações. A história do cangaço sempre foi contada do ponto de vista masculino, com Lampião como protagonista. “Mas me deparei com uma grande lacuna de informação sobre essas mulheres”, diz a autora.

“E decidi contar a história a partir da perspectiva da Maria Bonita e das outras cangaceiras que compuseram o bando. Ao longo da pesquisa, fui percebendo essa questão do silenciamento: essas mulheres tinham suas narrativas constantemente desacreditadas, e achei que seria uma boa contar a história dessa maneira”, afirma Adriana, que mergulhou em reportagens publicadas em jornais da época, na bibliografia oficial, mas também num sem-número de publicações de memorialistas do cangaço guardadas em coleções particulares. Raras vezes as mulheres ganharam voz nessa narrativa, embora algumas, como Dadá (Sérgia Ribeira da Silva) – cujo depoimento foi colhido por vários pesquisadores até sua morte, em 1994 – tenham sido fontes importantes em relação à vida das mulheres no cangaço.

Maria Bonita entrou para o cangaço por vontade própria, mas não foi o caso de boa parte das mulheres cujas vidas acabaram atreladas aos cangaceiros. Muitas eram raptadas, violentadas e sofriam todo tipo de violência. Foi o caso de Dadá, estuprada inúmeras vezes por Corisco, aos 14 anos, quando foi levada da casa dos pais. No entanto, a imagem que se construía delas era outra.

LÓGICA 

“Percebi que essa lógica do silenciamento das mulheres, de não dar voz a essas mulheres, é uma lógica que já vem de muito tempo”, conta Adriana, que é nordestina de Mossoró (RN), cresceu em Fortaleza e ouve, desde pequena, as histórias do cangaço. “Quando se descobriu que as mulheres começaram a entrar para o cangaço, os jornalistas noticiavam isso, mas não davam grandes cabimentos para essa história. Havia pouca informação sobre as mulheres e, geralmente, essas informações eram fornecidas pela polícia, fonte oficial dos repórteres. Então, há muita informação distorcida sobre essas mulheres, elas são tratadas como bandidas, você tinha uma visão de que eram tão criminosas quanto seus companheiros.”

No livro, Adriana narra em detalhes a vida das cangaceiras. Elas não eram admitidas em batalhas, mas acabavam submetidas a um código cruel e implacável, incluindo uma rotina de sexo e violência. Traições eram punidas com morte; gravidez, quando acontecia, também engendrava uma sentença trágica: a criança era deixada com alguma família de coiteiros (que davam abrigo aos bandos) e a morte era uma perspectiva real em um parto sem assistência alguma.

As contextualizações acompanham toda a narrativa de Adriana, e a autora faz questão de pontuar os acontecimentos do livro com os fatos históricos que marcaram aquela década de 1930. Aos 43 anos, ela encara a obra como uma atitude política e feminista. “O livro veio no momento em que comecei a me perceber e me assumir como uma feminista. Então pensei: já que vou contar uma história que me interessa tanto, uma história do cangaço, tenho que tomar uma atitude política e contar da perspectiva das mulheres, até para romper um pouco com essa tradição de se contar tudo da perspectiva dos homens”, diz. Impressionada com a figura de Maria Bonita e com as semelhanças entre a maneira como as mulheres eram tratadas e os dias de hoje, a autora procurou, também, estabelecer um paralelo que diz muito sobre o Brasil de hoje. 

TRECHO 

Embora criticasse sua aparência, preferindo que ela fosse mais alta e magra, Sila gostava de Maria de Déa. Com a morte de Neném, a quem ambas tinham como melhor amiga, as duas se aproximaram. Nos primeiros contatos, dada a posição da Rainha do Cangaço, Sila achou adequado tratá-la por dona Maria. Mas foi repreendida. “Dona é mulher de coronel”, respondeu.

Sila e Maria brincavam juntas de casinha. Na modesta bagagem que levara para o cangaço, a mulher de Zé Sereno incluíra suas bonecas: Rosinha e Branca. Ao ver os brinquedos, Maria se ofereceu para lhe costurar roupinhas e sugeriu que providenciassem outra boneca, para ser a empregada. A exemplo do que ocorrera com Dadá, Lampião manifestou algum espanto ao conhecer a menina. “Zé Sereno não queria mulher, mas sim uma filha”, brincou o capitão.

Numa das primeiras vezes em que Zé Sereno fez sexo com Sila, ela engravidou. Aos primeiros sintomas da gestação – cansaço e enjoos – imaginou estar apenas doente. Foi uma colega, Enedina, mulher do cabra Zé Julião, vulgo Cajazeira, quem lhe diagnosticou o estado interessante. Aos 12 anos, Sila não fazia ideia de como se sentiam as grávidas.

Como era comum entre as bandoleiras, Sila passaria os nove meses de gravidez de pouso em pouso, correndo das volantes e enfrentando tiros, fome, exaustão e sede. Tida como apetitosa pelo tenente Zé Rufino e seus soldados – que insultavam Zé Sereno, de longe, afirmando que iam pegá-la para lhe mostrar “o que é homem” –, a menina enfrentava um temor ainda maior de ser violentada.

Maria Bonita — Sexo, violência e mulheres no cangaço
• Adriana Negreiros
• Objetiva (296 págs.)
• R$ 49,90


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HOJE QUEM CHEGA É O POLÊMICO, CONTROVERSO E DESACREDITADO...

Por Geraldo Antônio De Souza Júnior

... "Lampião o invencível - Duas vidas, duas mortes" do saudoso fotógrafo mineiro José Geraldo Aguiar. Um livro que cujo assunto não teve aceitação entre os pesquisadores e estudiosos do tema cangaço e que de certa forma caiu no ostracismo, mas que deve ser conhecido e analisado para que possamos adquirir uma opinião formada e detalhada sobre o assunto.

No livro o autor tenta, através de "documentos" e argumentações, provar que Lampião e Maria Bonita não foram mortos no dia 28 de julho de 1938 em Angico e que a fuga do casal teria sido parte de um plano minuciosamente arquitetado... Bem... vou parar por aqui para não me estressar.

Fica a dica.

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segunda-feira, 1 de julho de 2019

TEN POMPEU Aristides de Moura, memorias.




Publicado a 11/02/2012

A vestimenta nas volantes, Coronel Ângelo da Gia, Antonio Ferreira, os dias e a sede dentro da caatinga, Rastejando dentro dos matos, Optato Gueiros, onça nas caatingas, a morte de Lampião, mulher no cangaço, a importância do chapéu na vida de um homem.


Livro "Lampião a Raposa das Caatingas"


Depois de onze anos de pesquisas e mais de trinta viagens por sete Estados do Nordeste, entrego afinal aos meus amigos e estudiosos do fenômeno do cangaço o resultado desta árdua porém prazerosa tarefa: Lampião – a Raposa das Caatingas.

Lamento que meu dileto amigo Alcino Costa não se encontre mais entre nós para ver e avaliar este livro, ele que foi meu maior incentivador, meu companheiro de inesquecíveis e aventurosas andanças pelas caatingas de Poço Redondo e Canindé.

O autor José Bezerra Lima Irmão

Este livro – 740 páginas – tem como fio condutor a vida do cangaceiro Lampião, o maior guerrilheiro das Américas.

Analisa as causas históricas, políticas, sociais e econômicas do cangaceirismo no Nordeste brasileiro, numa época em que cangaceiro era a profissão da moda.

Os fatos são narrados na sequência natural do tempo, muitas vezes dia a dia, semana a semana, mês a mês.

Destaca os principais precursores de Lampião.
Conta a infância e juventude de um típico garoto do sertão chamado Virgulino, filho de almocreve, que as circunstâncias do tempo e do meio empurraram para o cangaço.

Lampião iniciou sua vida de cangaceiro por motivos de vingança, mas com o tempo se tornou um cangaceiro profissional – raposa matreira que durante quase vinte anos, por méritos próprios ou por incompetência dos governos, percorreu as veredas poeirentas das caatingas do Nordeste, ludibriando caçadores de sete Estados.
O autor aceita e agradece suas críticas, correções, comentários e sugestões:

Pedidos:

franpelima@bol.com.br

(71)9240-6736 - 9938-7760 - 8603-6799 

Pedidos via internet:
Mastrângelo (Mazinho), baseado em Aracaju:
Tel.:  (79)9878-5445 - (79)8814-8345

Clique no link abaixo para você acompanhar tantas outras informações sobre o livro.
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JOÃO TORQUATO DA PIA NOVA: DE MATADOR DE CANGACEIRO A POLÍTICO ALIADO DE ZÉ DE JULIÃO

Por Manoel Belarmino Belarmino

Duas tragédias de doer com profundidade na alma dos sertanejos de Poço Redondo marcaram aquela região, onde hoje é o distrito de Santa Rosa do Ermírio. Uma foi a "Chacina do Couro" ou "A Chacina da Fazenda Pelada", onde, no ano de 1932, foram mortos pelos cangaceiros 7 pessoas inocentes, e a outra foi a "Tragédia da Pia Nova", onde no ano de 1937 foram mortos pelos cangaceiros do subgrupo de Zé Sereno dois inocentes, Torquato da Pia Nova e seu genro Firmino. Torquato e Firmino eram dois homens de bem, respeitados, trabalhadores e queridos por todos das redondezas, daquelas terras sertanejas do sertão de Poço Redondo.

A morte do cangaceiro Zepelim, no mês de abril de 1937, na Fazenda Araras deixou os cangaceiros umas feras. Os cangaceiros sabiam que houve traição de algum coiteiro. Queriam descobrir qual o coiteiro que havia fraquejado e traído os cangaceiros de Zé Sereno, indo à Serra Negra dizer o lugar do coito. E o traidor foi o coiteiro Chico Geraldo que pessoalmente havia ido a Serra Negra avisar o local do coito a Zé Rufino.

Os cangaceiros, depois daquela morte do Zepelim pelos volantes das "forças" de Zé Rufino, inconformados, vão "virados na gota serena" saber do coiteiro Chico Geraldo da Fazenda Salgadinho se foi ele que fez aquela traição ou se ele sabia quem o fez. Aí Chico Geraldo mente. Diz que quem foi à Serra Negra entregar o coito dos cangaceiros havia sido Torquato e seu genro Firmino. Foi a gota d'água no oceano da sede de vingança dos cangaceiros.

Zé Sereno e Mané Moreno estão babando de raiva. Áurea estava que parecia soprar fogo pelas ventas de raiva pois já tinha notícias que os soldados da volante Badu (aquele mesmo Badu que, tempos depois, Áurea vai sangrá -lo com uma punhalada na Fazenda Travessado) e João Doutor tinham dado uma pisa, uma surra, no seu pai Tonho Nicácio na Fazenda Santo Antônio, antes do combate da Fazenda Araras.

Os dois subgrupos de cangaceiros, liderados por Mané Moreno e Zé Sereno, com 34 cangaceiros homens e mais 4 mulheres, Adília, Dinda, Sila e a valente Áurea Soares, vão até a Fazenda de Torquato. Cegos de raiva, os cangaceiros conversam pouco, prendem Torquato e seu genro Firmino e matam os dois ali mesmo no telheiro da Fazenda Pia Nova. Dois corpos de dois homens inocentes ficam ali estendido no chão, inertes, mortos. Uma tragédia na família dos Torquarto da Pia Nova. As mulheres e as crianças vêem enlouquecidas aquela cena de monstruosidade.

Um rapazinho de nome João, filho mais velho de Torquato, não aguenta aquela dor. Sente na alma. E poucos dias depois vai a Serra Negra e ingressa na volante para vingar a morte do seu pai e do seu cunhado. Vira uma fera braba.

O rapazinho sertanejo, simples, de bom coração, afiado na lida do gado e da roça, passa rapidamente a ser um valente e exímio atirador. O valente João Torquato, sedento de vingança, ingressa na volante de Tonho Recruta da Santa Brígida e não vê a hora de começar a matar cangaceiros.

João Torquato anda por todo o sertão na volante. E, finalmente, na Fazenda Queimada do Luiz, no outro lado do Rio Vaza-Barris, já em terras baianas, a cabroeira para numa fazenda para descansar e se alimentar. João Torquato e seu parceiro Chico Amaral saem um pouco para ver a caatinga e dão de caras com um grupo de cangaceiros. Era o grupo de Corisco, o "diabo louro das caatingas". Na frente dos dois volantes estão de carne e osso os cangaceiros Rouxinho, Guerreiro e Dadá de Corisco na malhada da casa abandonada da Fazenda Queimadas do Luiz. Os outros cangaceiros estão estocados. João aponta o fuzil e o dedo no gatilho. A hora havia chegado. E Atira. Atira sem parar. Mira nos peitos de Guerreiro e com um tiro só derruba o primeiro. Em seguida derruba o segundo. Tomba ali o cangaceiro Rouxinho. É a hora da vingança. O seu parceiro volante Chico Amaral "abre nos paus", foge. João Torquato fica sozinho. Daí a pouco Corisco bota a testa e o tiroteio continua. Os outros cangaceiros fogem, pensando estarem cercados pelas volantes. Os tiros de João Torquato acertam Corisco, que fica desarmado por causa dos ferimentos nos braços. Não fosse a presença da valente Dadá que continuava atirando e um tiro amigo dos soldados retardatários que atingiu a sua mão, João Torquato teria sangrado Corisco. Corisco escapa daquele tiroteio com vida por um milagre.

João Torquato, sozinho, naquele tiroteio, matou dois cangaceiros, Rouxinho e Guerreiro, e botou Corisco com todo o seu grupo para correr.

Em 1938, no "Fogo do Angico", o cangaço termina o seu ciclo. João Torquato deixa a volante e volta para a sua Pia Nova. De família numerosa, querida, homem de palavra e de coragem. Trabalhador como o seu pai Torquato. Tudo volta ao normal, apesar da saudade do seu pai e do seu cunhado.

Naquela primeira eleição, em 3 de outubro de 1954, quando Poço Redondo se emancipou de Porto da Folha, ali estava João Torquato como um influente político ao lado de Zé de Julião na disputa contra Artur Moreira de Sá. Na segunda eleição, em outubro de 1958, João Torquato da Pia Nova continuava ali, fiel, de arma em punho, pronto para "o que der e vier", na defesa do ex-cangaceiros e candidato, no momento do recolhimento das urnas. Um ex-volante aliado político de primeira linha de um ex-cangaceiro. João Torquato e Zé de Julião, dois políticos de fibra juntos. Dois filhos de Poço Redondo, que na guerra do Cangaço estavam de lados opostos, estavam ali juntos na política em defesa de sua terra e de seu povo. A força política de Zé de Julião era tão significativa que, mesmo não sendo o eleito (por ser mais novo que Artur), o resultado daquela eleição deu empate nos votos e vitoriosa para Zé de Julião na vontade popular.


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NOTÍCIAS SOBRE O CANTOR PAULO DINIZ



Entre 1987/1996, em decorrência de graves problemas de saúde que quase o deixaram paralítico, não gravou nenhum disco.


Parcialmente recuperado, em 1997 retomou à carreira, quando novamente já tinha residência fixa no Recife.



Atualmente, residindo no Recife, faz apresentações por várias cidades e capitais do Nordeste brasileiro, com a mesma voz vibrante de antes, porém numa cadeira de rodas, já que a doença que quase o paralisou nos anos 80 retornou a partir de 2005, e dessa vez paralisou seus membros inferiores.


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VEM AÍ A PADROEIRA

Clerisvaldo B. Chagas, 1julho de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.136

INTERIOR DA MATRIZ DE SENHORA SANTANA. (FOTO: B. CHAGAS).
Foi embora o mês tão aguardado e querido das festas típicas e arrebatadoras. Junho entregou julho ao Nordeste com chuvas, friozinho e fartura, pelo menos nas Alagoas. Mas também é aguardado com muita expectativa o mês, geralmente mais chuvoso, coroando o tempo da bonança em nossos sertões. Espera-se a maior festa religiosa do interior em Santana do Ipanema, com sua padroeira Senhora Santana. O recesso escolar que era no período da festa, foi mudado pelo governo estadual que unificou o calendário para todos os municípios. Assim as escolas não ficaram completamente livres para louvar a padroeira. Mesmo assim, a medida não abalou a fé, a esperança e a devoção dos participantes dos atos da Igreja Católica.
Foi incorporada à abertura, a procissão dos carreiros, quando a imagem da padroeira sai de uma cidade circunvizinha com destino a sua Matriz, em Santana. Em torno de mil e quinhentos carros de boi, acompanham e participam ativamente da procissão, cuja imagem da santa é conduzida no carro da frente. Em relação ao padroeiro do Bairro Camoxinga, São Cristóvão, o início e com a procissão dos vaqueiros e veículos. Este mês repetir-se-á a grande festa que tem como novidade o espaço novo da antiga ponte do Urubu. Agora este espaço urbanizado recebeu o nome de Cônego Bulhões e oferece todo o conforto para grandes encontros na cidade. A Festa de Senhora Santana, ganhou mais volume e dinamismo com o tradicional carro de boi e o arraigado saudosismo.
A imagem de Senhora Santana chegou à região que se chamava “Ribeira do Panema”, em 1787, data oficial da fundação de Santana. Foi entronizada na igrejinha construída para esta finalidade, na fazenda do fazendeiro Martinho Rodrigues Gaia, a mesma igreja que hoje é a Matriz do município. Trazida da Bahia pelo padre Francisco José Correia de Albuquerque, a imagem de Senhora Santana fora um pedido da esposa do fazendeiro, Ana Teresa, primeira devotíssima da santa que também pedira a construção da capela.
O padre Francisco era penedense.
Assim Santana do Ipanema completa seus 232 anos de fundação, homenageada há dois anos com o nosso livro/enciclopédia “230”. VEM AÍ A FESTA DA PADROEIRA.


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COMIDA E COMIDA

*Rangel Alves da Costa

Imagem a presença de duas fotos. Mirem as fotos. Olhem bem. Na primeira foto, um prato refinado de um restaurante de luxo. A pessoa já paga ao colocar o pé e ao sentar e pedir o menu. Logo se depara com esse requinte de nome estrambólico e pede. Ora, pede por que é rico, é igualmente refinado e coisa e tal. Valor? Certamente mais de 100 reais.
Na segunda foto, um prato tipicamente nordestino, gordo, apetitoso, igual comida de feira. Quanto? Nada mais que uns 20 reais. A diferença maior, contudo, não está no preço, e sim na quantidade, sabor e no poder de realmente saciar a fome.
Duvido que o primeiro prato acabe com a fome de alguém. Não acaba de jeito nenhum, pois um tiquinho de nada enfeitado com outro tiquinho de nada. Ademais, a fina educação da grã-finagem recomenda que nunca se deva comer tudo, sempre tendo de deixar alguma coisa no prato.


Mas como comer o nada e ainda deixar alguma comida no prato? Sou daqueles que não passa nem pela porta da frente de ambientes assim, cheios de frescuras e de cardápios cheios de cifrões. Sou daqueles que não passa sequer pela calçada de um local onde um refrigerante custa os olhos da cara, um prato custa o salário do mês e uma sobremesa tem o valor de uma roupa bonita.
Ora, quando estou com fome eu quero realmente comer. Quando estou com fome eu quero ter à minha frente um prato com comida de verdade. Se eu quisesse enfeite eu ia almoçar pétala em jardim ou beliscar um favo de mel. Que não me venham com tiquinho de nada, apenas enfeitado com raminho por cima, e depois ainda dizer que é comida, que é alimentação, que mata a fome.
Comida boa é aquela que satisfaz, que mata a fome, que de tão boa faz a pessoa comer mais e lamber os beiços. Comida boa é aquela que a pessoa come sem pressa e sem medo, seja na feira, na cozinha ou em pá no quintal com cuia à mão. Comida boa é aquela que aromatiza a cozinha e faz a boca se encher de água só em pensar no prato despejada. Até mesmo um feijão de corda com ovo por cima tem mais sabor e valia que prato de luxo.


No passado, se um restaurante de luxo preparasse um fígado acebolado igual ao de Jarde de João Lameu, certamente o prato não sairia por menos de 200 reais. Mas quanto Jarde cobrava para o cabra sair de bucho cheio? 10, 15 contos. No meu entendimento, comida jamais poderá ser vista como luxo, mas como necessidade.
Não adianta o grã-fino pagar em ouro por um prato com quase nada e depois sair do “restaurant” morrendo de fome, doido pra encontrar um cachorro quente ou um prato de farinha com ovo e salsicha. Por isso que gosto de panelada cheia e prato que mais parece montanha. E comer com a mão, fazendo bolo de feijão e molhando no molho apimentado.

Escritor
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LIVRO: LAMPIÃO EM 1927 - A MARCHA DOS BANDIDOS.


ACABOU E EXPECTATIVA. CHEGOU O MAIS NOVO LIVRO: LAMPIÃO EM 1927 - A MARCHA DOS BANDIDOS.

Nesses últimos dezoito anos venho exaustivamente pesquisando o combate ao banditismo, particularmente o cangaço do mais destacado bandido das caatingas, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.


Dediquei-me a pesquisar principalmente a divulgação na imprensa pelos jornais de todo país e outros documentos da época, seja nos boletins militar, relatórios, revistas, enfim tudo que era divulgado ao tempo dos acontecimentos. A exemplo do Jornal do Recife, A Noite, Jornal Pequeno, A Província, O Jornal, Jornal do Brasil, A Gazeta, Gazeta de Notícias, dentre outros.

Embora a imprensa não fizesse investigação local, não deixava de receber e publicar telegramas e cartas enviadas por vítimas e autoridades locais informando os desmandos dos cangaceiros nas suas localidades e descrevendo os fatos ocorridos.

Esse trabalho tem sido apresentado em livros, até agora numa sequencia fora da cronologia dos acontecimentos, mostrando períodos distintos da atuação de Lampião e seu bando.





No livro Lampião e os Governadores, lançado em 2005, apresento a transcrição de documentos oficiais: relatórios, mensagens, falas e exposições, para mostrar como os estados tratavam a luta contra o banditismo, também abrange a década de 20, alcançando já a atuação de Lampião.

No livro Lampião Conquista a Bahia, lançado em 2011, apresento o período da entrada do rei do cangaço nas terras de Castro Alves, em 21 de agosto de 1928 até final de 1929.

O livro Lampeão Antes de ser Capitão, lançado em 2016 aborda o período do início de suas atividades como cangaceiro, de 1920 até fevereiro de 1926.

Logo após, no mesmo ano de 2016, lancei o livro Lampião em 1926, que apresenta a atuação de seu bando até final de dezembro daquele ano.

Já o período que apresento neste livro, Lampião em 1927 – A Marcha dos Bandidos, tem início em janeiro de 1927 e vai até setembro de 1928, aqui mostrado mês a mês, quando Lampião e mais cinco cabras atravessam o Rio São Francisco na altura da cidade baiana de Rodelas, portanto, um mês após sua entrada na Bahia.

Coloco numa cronologia mês a mês dos anos de 1927 e 1928.

Apresento uma iconografia com objetivo de colocar os personagens citados no seu tempo e espaço.

Assim, nesse livro, concluo a década de 20 sobre a epopeia que foi o cangaço, mostrando mais uma vez que Lampião era sempre manchete com o acompanhamento de suas façanhas quase que semanalmente, em alguns períodos diariamente, nos principais jornais do Brasil, sempre grafando a palavra Lampião com “e”. Como curiosidade para o leitor, essa década de 20 resulta em mais de 1800 páginas com textos e fotos sobre o assunto, distribuídos nos 5 livros acima já citados.

Mostro no presente livro a divulgação de alguns jornais, pois outros repetiam as matérias, cartas e telegramas publicados nos jornais da capital do país, o Rio de Janeiro, alertando o leitor que a iconografia tem como objetivo colocar os personagens citados no seu tempo e espaço.

O que mais chama a atenção deste pesquisador é o número de cangaceiros que a imprensa publica no ano de 1928 em suas páginas. Varia de forma a confundir seus leitores, pois alguns jornais informavam a quantidade que variava de seis (6), até trinta e seis (36), afirmando alguns periódicos que Lampião chegou a contar até com cento e setenta (170) cabras.

O leitor vai encontrar várias análises sobre o fenômeno cangaço nesse trabalho. Posso aqui destacar o texto de Anísio Galvão, nessa época deputado estadual por Pernambuco; do ilustre baiano Otávio Mangabeira; artigos assinado por Assis Chateaubriand e Rodrigues de Carvalho, entre outros.

Mostro a posição do governo Artur Bernardes com as alianças feitas com os governadores e os coronéis da política nordestina para combater a Coluna Prestes e a participação do padre Cícero na convocação de Lampião para integrar o Batalhão Patriótico do Juazeiro, como também artigos sobre o padre Cícero Romão Batista, entre outros, são aqui transcritos.

Jornais do Ceará cobrem as fugas de Lampião nesse território e a briga interna dos oficiais cearenses que lutavam contra os cangaceiros, para justificar o fato de não haverem prendido Lampião.

Apresento o sensacional interrogatório que a justiça do Crato fez com o cangaceiro preso, Mormaço, publicado nos principais órgãos da imprensa cearense e pernambucana. Mormaço delata seus companheiros e faz revelações contra as autoridades constituídas que os combatiam.

A grande importância dada pela imprensa à tentativa de invasão a cidade de Mossoró no Rio Grande do Norte em meados de junho de 1927, coloca Lampião no centro das manchetes na ampla cobertura jornalística. Nesse momento seu grupo era constituído por 53 cabras, a imprensa ampliou em várias vezes o número de cangaceiros envolvidos no acontecimento.

No percurso que os cangaceiros fizeram do sul do Ceará até a cidade de Mossoró os jornais do estado divulgavam com o atraso normal dos fatos que aconteciam nas correrias dos bandos entre uma localidade e a próxima que seria atacada pelo bando de Lampião em maio, junho e julho de 1927. Essas notícias eram depois divulgadas em outros órgãos da imprensa nordestina.

A imprensa informa o fracasso das polícias coligadas do Ceará, Paraíba e Pernambuco para prender os chefes de grupo: Lampião, Jararaca e Massilon na tentativa de extorquir a cidade potiguar de Mossoró.

O ataque de Lampião à cidade de Mossoró, a repercussão é tanta que a imprensa, mais uma vez, procura o antecessor do Rei do Cangaço, preso na Casa de Detenção do Recife, o não menos famoso Antônio Silvino, o Rifle de Ouro, no seu décimo terceiro ano de cumprimento de pena para uma exclusiva entrevista.

A imprensa pernambucana continuava com o assunto “Lampião” sempre em pauta, de forma constante, quase como uma cobrança do leitor e publica dessa vez a entrada de Lampião na Bahia, com apenas um dia de diferença, após o Rei do Cangaço atravessar o Rio São Francisco, em 21 de agosto de 1928 seguido de apenas cinco cangaceiros.

A quantidade reduzida de cangaceiros sob sua chefia, não fez diminuir o interesse da população e a importância da cobertura dada pela imprensa.

Paulo Afonso e Recife, novembro de 2018.

Boa leitura.

Luiz Ruben F. de A. Bonfim
- Economista e Turismólogo
- Pesquisador de Cangaço e Ferrovia
- Conselheiro do Cariri Cangaço - Membro da ALPA
- Academia de Letras de Paulo Afonso.



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