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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE BREJO SANTO: VIDA E MORTE DO CANGACEIRO RAIMUNDO MORAIS

 Por Bruno Yacub

Ilustração de Raimundo Morais

Especial 129 anos de Brejo Santo - CE - 26 de agosto de 1890 - 26 de agosto de 2019 - Parabéns, Terra da Pedra do Urubu!

"Cangaceiro era aquele que vivia no cangaço e dele sobrevivia, muitas vezes pela falta de condições de trabalho, de instrução ou ainda pelo prazer da vida aventureira." (Sousa Neto)

Alguns pesquisadores defendem uma classificação analítica acerca dos diferentes motivos que levavam a entrada de um indivíduo para um bando cangaceiro. 

As histórias que envolvem o cangaceiro Mundinho, nos mostra um típico exemplo de CANGAÇO - MEIO DE VIDA: "Era o que ocorria com maior frequência. Esse tipo de banditismo não objetivava a política partidária, como também não existiam ligações sentimentalistas. A finalidade era, tão somente, a sobrevivência com o ganho pessoal, notoriedade e o poder. Era profissão." (Sousa Neto)

"Que a história cangaceira sirva sempre como base para estudos e pesquisas e nunca como exemplo a ser seguido". (Geraldo Antônio de Souza Júnior)

Em agosto de 1928, entre os cangaceiros que se encontravam na cadeia pública da capital cearense, presos pela polícia, depois que Mozart Catunda Gondim assumiu a direção da Secretaria da Polícia e Segurança Pública, figurava Raimundo Maximiano de Morais, vulgo Mundinho, que contava 28 anos de idade, de cor morena, baixo, natural do sítio Oitizeiro, na vila de Brejo dos Santos (atual Brejo Santo, Ceará). Gabava-se Mundinho de ter vivido doze anos na espingarda no meio dos mais temíveis e importantes companheiros de luta, a exemplo de Sinhô Pereira (Sebastião Pereira da Silva), Luiz Padre ou Lulu Padre (Luiz Pereira da Silva Jacobina), Lampião e seus irmãos, Antônio e Livino Ferreira e de ter relação com importantes figurões da política cearense, paraibana e pernambucana, como o major Zé Inácio do Barro (José Inácio de Sousa), de Milagres; o coronel Zé Pereira de Princesa (José Pereira de Lima), de Princesa Isabel; Cel. Chico Chicote (Francisco Pereira de Lucena), de Brejo Santo; Yoyô Maroto (Crispim Pereira de Araújo), de São José do Belmonte; dentre outros.

Viveu em Brejo dos Santos até 1914, em companhia de seu pai, José Maximiano de Morais, a quem ajudava numa loja de que o mesmo era proprietário. No fim daquele ano, quando contava apenas 14 anos de idade, abandonou a casa do seu pai a fim de ganhar a vida sozinho, passando a trabalhar para o coronel Chico Chicote (Francisco Pereira de Lucena) homem influente, que poucos dias depois o convidou a tomar parte do assalto armado a Porteiras, Ceará.

Em janeiro de 1915, coligavam-se contra o coronel Raimundo Cardoso dos Santos, de Porteiras, Mousinho Cardoso (Pedro Aristides Cardoso dos Santos, que em 1926 viria a se tornar tenente-coronel do Batalhão Patriótico do Juazeiro e um dos braços-direito do general de brigada do Exército Brasileiro e deputado federal, Floro Bartolomeu da Costa), Chico Chicote, o major Zé Inácio do Barro e o Cel. Domingos Furtado, chefes influentes de Brejo dos Santos e Milagres. Os coligados mandaram assaltar, à mão armada, a propriedade de Raimundo Cardoso e, a seguir, expediram telegramas à imprensa de Fortaleza e do Rio de Janeiro e ao Presidente da República, clamando por providencias, já que não confiavam no Governo do Estado do Ceará.

Tomadas essas medidas preliminares, finalmente, no dia 13 de junho de 1915, os colegiados à frente de cerca de 300 homens, atacavam a vila de Porteiras, defendida pelo tenente Artur Inácio, com uma força estadual composta de 40 praças e 02 oficiais. Após 11 horas de fogo, seu último reduto foi o cemitério de onde se retraiu com o chefe deposto. Esgotadas as munições, a força estadual abandonava a Vila, que ficava entregue à sanha dos vencedores.

Com extraordinária satisfação, Mundinho aceitou o convite e seguiu no meio de numeroso grupo para o ataque àquela Vila, que caiu em poder dos colegiados. Durante a luta, Mundinho portou-se com tal valentia, que passou a ser alvo de elogios do chefe do bando e dos seus companheiros, o que encheu de orgulho e o animou a prosseguir na vida do cangaço.

Pouco depois dessa façanha, quando se encontrava no sitio Guaribas (em Porteiras), de propriedade do coronel Chico Chicote, tomou, por duas vezes, parte na defesa daquela propriedade, atacada por forças do governo.

Serenadas as coisas em Guaribas, foram dispensados os serviços de todos os cabras, tendo Mundinho seguido com diversos deles com destino a Brejo dos Santos, onde foram cercados por uma numerosa força policial, que conseguiu capturar um dos bandoleiros. Mundinho conseguiu não ser apanhado e fugiu para a vila de São José de Piranhas, Paraíba, onde, não sendo conhecido, pôde empregar-se como lavrador no sítio Picadas, de propriedade do major Andrade. Passou seis meses trabalhando naquele sítio, mas tinha saudade da vida do cangaço, e, por isso, voltou a Brejo dos Santos, sendo, logo após a sua chegada ali, cercado por uma força policial.  Graças ao auxilio que lhe prestou um irmão seu, pôde fugir, indo ter ao sítio Barro, de propriedade do major Zé Inácio, homem rico, de Milagres, ao qual, certo dia, lhe entregou um rifle e farta munição para, em companhia de outros “rapazes”, ir fazer um serviço.

Tratava-se nada mais, nada menos, de liquidar João Flandeiro (João Jericó Boaventura), inimigo do major Zé Inácio do Barro.  O grupo era composto pelo próprio major Zé Inácio, Sinhô Pereira, Tiburtino Inácio de Sousa, (vulgo Gavião, filho do major Zé Inácio), José Nogueira Deodato (vulgo Rouxinol), Raimundo Agustinho, Raimundo Tabaqueiro, Raimundo Patrício, Patrício de tal (filho de João Raimundo), Cornélio (vulgo João Caixão), Sátiro (vulgo Meu Primo), Manuel Vaqueiro, Manuel Santana, Firmino Miranda, Manuel Benedito, Antônio Dino (vulgo Pilão), José de Genoveva, Ulisses Liberato, Ponto Fino, José Pedro e o próprio Mundinho. Por volta das 05 horas da manhã, o grupo cercou e atacou o sítio Pitombeiras, distante uns três quilômetros do pequeno povoado de Barro, propriedade e residência de João Flandeiro, aonde também se encontravam sua esposa, dona Maria Luiz e cinco filhas.  Após muitas horas de violento tiroteio, a família do atacado, obteve permissão para sair de casa.

O combate continuou por mais algum tempo e os atacantes atearam fogo em um paiol de milho, se estendendo também para a casa, forçando a saída de João Flandeiro para o terraço que, mesmo sem munição, o atacado não se intimidou e partiu para cima de seus algozes de punhal em punho, onde enfrentou a artilharia dos “rapazes” do “Senhor do Barro”.

Dois meses mais tarde, fazendo parte de um grupo de 12 homens, em que figuravam Luiz Padre, Sinhô Pereira, Mourão, Gitirana, José Dedé (vulgo Baliza), João Dedé (vulgo Criança), Vicente Marinho, José Marinho e Cambirimba, dirigiu-se Mundinho para a região do Pajeú, em Pernambuco, onde morava uma filha do major Zé Inácio do Barro.  Ali, no povoado Queixadas (atual Mirandiba), mataram, depois de sangrenta luta, Antônio da Umburana, que havia assassinado Manoel Pereira da Silva Filho (Né Dadú ou Né Pereira), irmão de Sinhô Pereira. Cometido esse crime e sendo perseguido pela polícia pernambucana, o grupo voltou para o sítio Barro, fazendo, em caminho, vários saques.

Depois de alguns meses de repouso, em janeiro de 1922, Mundinho entrou num grupo de 45 homens, organizado pelo major Zé Inácio do Barro e do qual fazia parte Lampião e seus irmãos, para atacar o padre José Furtado de Lacerda, no lugar Coité (hoje distrito de Mauriti), a seis quilômetros do lugar citado e cinco léguas de Milagres.

Este singular episódio da história do cangaço obteve pela primeira vez o envolvimento da figura de um sacerdote católico, o qual, para defender a própria vida, teve de trocar o breviário pelo “44” e lutar com a mesma combatividade de qualquer leigo do sertão.

Pelas 09 horas da manhã de 20 de janeiro de 1922, o numeroso bando, que se encontrava bem armado e municiado, atacou o Coité, ocupando, no primeiro embate, três casas. Ao ser atacado, o Sacerdote estava acompanhado apenas de Luís Lacerda. Pouco depois, Pedro Sampaio de Lacerda, Manoel Lacerda (Neco) e o vaqueiro Mané Gato romperam o cerco e, sob um chuveiro de balas, entraram na casa e passaram a resistir ao lado do valente clérigo, que durou seis horas. Pedro Augusto de Lacerda, subdelegado de Mauriti e sobrinho do padre Lacerda, ao ter conhecimento do assalto dos bandidos, partiu imediatamente com dez praças e alguns paisanos em socorro do tio. Esse fato foi decisivo para o recuo dos assaltantes, indo até a fazenda Araticum, do coronel André Brasiliense do Couto Cartaxo, também em Mauriti, o qual, sabendo da insegurança na região, tinha se transferido dias antes da fazenda Araticum para Mauriti, fixando-se numa de suas casas no centro da localidade. A cabroeira de Sinhô Pereira passou três dias na mencionada fazenda, destruindo móveis e objetos de estimação, abatendo animais domésticos e violando paióis.  E mais: em sua fúria criminosa, os cangaceiros chegaram até a rasgar retratos e degolar imagens, sacrilégio de que foi autor o cabra Pitombeira. E não ocorreram maiores depredações, inclusive o abate de uma novilha, devido à interferência de Gavião, junto ao chefe do bando.

De acordo com as recomendações de Zé Inácio, o grupo, ao retirar-se de Coité, deveria atacar Milagres, mas achando-se essa localidade bem guarnecida, Lampião tentou atrair a atenção da força policial para fora daquele Município, para o que fingiu atacar a fazenda Queimadas, próximo a Mauriti.

O grupo de cangaceiros passou distante de Mauriti cerca de um quilometro, no local Apanha-Peixe, e foi estacionar em casa do coronel Antônio Martins, nas Queimadas, distante meia-légua da Vila.

No momento em que efetuava o assalto a Queimadas, o bando foi surpreendido por uma força de 15 praças, vinda de Milagres. O sargento Antônio Pereira Lima, vulgo Antônio Gouveia, com bravura e destemor, escolheu vinte homens do pequeno destacamento para ir atacar os bandidos. No momento da partida, cinco soldados esmoreceram e não tiveram coragem de marchar para a luta.

No decorrer do combate, os cangaceiros, mais numerosos e sagazes, estavam quase a envolver a polícia. Advertido do perigo, o sargento Gouveia envia uma mensagem a seu colega sargento Jonas, em Mauriti, solicitando socorro. O pedido foi lealmente atendido. A retaguarda do sargento Jonas forçou os bandoleiros recuarem para a casa da fazenda.

No último ataque do sargento Gouveia, a força policial bate em retirada para Mauriti, com três soldados feridos e a perda de nove fuzis, levados pelos cangaceiros. O grupo decidiu retirar-se em direção à vila de Conceição, Paraíba. Durante a luta, morreram dois soldados, um deles apelidado de Papagaio e os cangaceiros perderam o temido cabra Pitombeira. Acentue-se que o grupo do qual fazia parte Lampião, teve ainda um cabra gravemente baleado, chamado Lavandeira, que foi levado de rede pelos seus companheiros para a casa do velho Batista dos Valões, tio de Sinhô Pereira e de Luiz Padre. O cangaceiro Pitombeira foi sepultado em cima da serra da Canabrava.

De Conceição, os bandoleiros dirigiram-se para o povoado Cristovão, município de São José do Belmonte, em Pernambuco, onde foram homiziados por Yoyô Maroto, que lhes forneceu munição.

Como é sabido, antes do Fogo do Coité, o major Zé Inácio do Barro havia patrocinado tanto o assalto ao sítio Nazaré, em Milagres, propriedade de dona Praxedes (Maria Furtado de Lacerda), viúva do chefe político e ex-intendente de Milagres, coronel Domingos Leite Furtado, que por volta das 07 horas da manhã do dia 20 de janeiro de 1919, foi invadida pelo grupo formado por Sinhô Pereira, Mundinho, Gavião, Rouxinol, Baliza, Criança, Raimundo Patrício, Antônio Bandeira, Antônio Carneiro e Luiz Padre como também, pouco tempo depois, no mesmo ano de 1919, o assalto de Luiz Padre ao sítio Nascença, em Brejo dos Santos, de propriedade do tenente-coronel da Guarda Nacional Basílio Gomes da Silva (no ato do assalto, além do Coronel, estava também José Nicodemos da Silva Basílio, um de seus filhos), e que distava quinhentos metros da sede da Vila, onde estacionava uma força de 100 praças sob o comando do capitão José dos Santos Carneiro. A força policial só chegou ao teatro dos acontecimentos duas horas depois, não sendo avisados no momento em que agiam os bandidos.

Os cangaceiros passaram a noite anterior comendo, bebendo e jogando na localidade Batoque, a 12 quilômetros do referido agrupamento militar. No ato do ataque ao casarão do então ex-chefe político e ex-intendente de Brejo dos Santos, os saqueadores levaram dinheiro, cortes de seda, joias, escrituras, umas das fardas da guarda nacional do Coronel, com seus botões de ouro, a espada de prata com o cabo cravado de diamantes, como também destruíram a Carta Patente de Tenente-Coronel, assinada pelo próprio Presidente da República, Floriano Peixoto. 

Durante o assalto, Mundinho foi reconhecido e em determinado momento em que o anel de ouro de 18 quilates não saia da mão do coronel Basílio, Mundinho gritou: - Arranjem um facão para cortar a mão do Coroné! Alguns instantes silenciaram. O coronel Basílio, num tom pacífico, respondeu ao bandido: - Que adianta cortar minha mão Mundinho, se num futuro bem próximo ela irá te servir? O bandoleiro desistiu do intento e naquele instante, coronel Basílio profetizou corretamente o futuro do cangaceiro.

Essa ação de Luiz Padre foi a última aqui no nordeste. Em seguida, o cangaceiro foi chamado a Juazeiro do Norte pelo Padre Cícero, ato contínuo fugiu para a região central do país.

Casarão do Cel. Basílio assaltado a mando do major Zé Inácio do Barro, em 1919.

Após esses acontecimentos, voltaram todos ao Barro, de Zé Inácio, que mostrou a Mundinho um telegrama que lhe fora enviado pelo deputado federal Floro Bartolomeu, aconselhando-o a abandonar a vida de cangaço, visto como pretendia fazê-lo Deputado Estadual. Em virtude deste conselho, José Inácio resolveu dispensar o grupo, mandando-o para o Pajeú das Flores (atual Flores, Pernambuco).

Os bandoleiros não quiseram ir para aquela localidade pernambucana, e rumaram para a fazenda Patos (em Princesa Isabel, Paraíba) e dali a Vila Bela (atual Serra Talhada, Pernambuco), onde se acoitaram no sitio Abóboras, de propriedade do coronel Marçal Diniz.  Numa dessas viagens, o grupo dividiu-se e seis homens dirigiram-se a localidade Olho D’água, tendo um encontro com a força cearense comandada pelo capitão José de Santos Carneiro. Os seis cangaceiros perderam as montarias e refugiaram-se na fazenda Patos, onde se encontrava Lampião.

Desse encontro nasceu o receio de que a força cearense atacasse a fazenda Patos, razão porque Marcolino Diniz, que protegia os bandoleiros, pediu auxílio do coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, que lhe remeteu mais de 100 homens armados. Enquanto enviava esse reforço de cabras, o coronel Zé Pereira de Princesa foi ao encontro da força cearense, avistando-se com a mesma nas proximidades da fazenda Patos. O coronel Zé Pereira procurou convencer ao capitão Carneiro que não havia cangaceiros naquele Município, mas o aludido oficial, com cerca de 80 praças, foi até a fazenda Patos, não encontrando, ali, nenhum bandoleiro, pois, de acordo com os planos do coronel Zé Pereira, foram escondidos todos os “rapazes”.  Isso foi uma felicidade para a força cearense, porquanto estava combinado que, se tentasse a mesma efetuar qualquer prisão, seria repelida pelos cangaceiros, em número, então, superior a 200. No dia imediato, o capitão Carneiro se retirou da fazenda Patos. Lampião, à frente de 30 homens, dirigiu-se para o Pajeú das Flores, não sendo acompanhado de Mundinho que, com dois bandoleiros, voltou ao Ceará.

Durante dois anos, Mundinho viveu como bodegueiro, mas, vez por outra, realizava, “expedições” de cangaço por conta própria.  Numa dessas “expedições”, chefiou um grupo composto de Antônio Padeiro, Lavandeira e dos Mateus, com os quais atacou José Amaro, no município de Aurora, saqueando totalmente a casa deste. Esta façanha custou-lhe nova perseguição da polícia, o que determinou sua fuga para o Pajeú, onde encontrou a proteção de Yoyô Maroto. Este, poucos meses depois, recebia Lampião em sua fazenda, passando Mundinho a “agir”, juntamente com o temível chefe bandoleiro.

Lampião retirou-se abandonando Mundinho, pois este não lhe merecia confiança. Então junto a Lavandeira, Mundinho passou a roubar entre as regiões de Cristóvão, em São José do Belmonte e do Poço, em Brejo dos Santos.  Depois de várias peripécias, Mundinho foi acusado da morte de Vicente Quilarino, pelo que teve de fugir, vindo para a localidade Gameleira do Pau ou Gameleira de São Sebastião, região da Serra dos Matos, em Missão Velha, onde foi contratado para, em companhia do bando dos cangaceiros Marcelinos, perseguirem Horácio Novaes ou Horácio Grande (Horácio Cavalcanti de Albuquerque), que, mesmo envolvido em crimes na região de Floresta, Pernambuco, veio se esconder na fazenda Agrestim, e foi nomeado, em 1919, Delegado da vila de Porteiras, com a ajuda dos irmãos Afonso Gomes Novaes e Urias Novaes Filho, filhos de José Gomes de Novaes (Zé Panta) e de Umbelina Gomes de Sá, ricos fazendeiros e comerciantes de prestígio do lugar. Em pouco tempo tornou-se inimigo de pessoas influentes da região, como os coronéis Chico Chicote e Franco Pinheiro (Franklin Tavares Pinheiro), este último, então, Intendente de Porteiras, além do coronel Antônio Joaquim de Santana, de Missão Velha. Por volta de 1926, Horácio Novaes requisitou 04 cabras de Lampião e cercou, certamente para tentar roubar, a casa grande do sítio Saco, do coronel Né Rosendo (Manoel Tavares Rosendo), em Porteiras, mas não obteve êxito.

Mundinho demorou em Gameleira do Pau, mas, ali, se viu perseguido por um dos proprietários da localidade, Júlio Pereira (alfaiate em Juazeiro, casado com uma sobrinha do coronel Antônio Joaquim de Santana e notório fornecedor de munição ao bando de Lampião), por não querer trabalhar com ele em furtos de gado. Júlio Pereira, com diversos homens, o atacou no dia 12 de maio de 1926, mas não conseguiu matá-lo.

Mundinho foi para a localidade Olho D’água dos Santos, em Brejo dos Santos, onde pediu a proteção do coronel Joaquim Inácio de Lucena, conhecido por coronel Quinco Chicote, Intendente Municipal, que prometeu acoitá-lo, dando-lhe uma casa. Depois de poucos dias, em maio de 1926, o mesmo coronel Quinco Chicote mandou mata-lo por um grupo de 12 civis, que faziam parte João Gomes (João Gomes de Lucena), sobrinho de Quinco Chicote e do coronel Manoel Inácio de Lucena (coronel Manoel Chicote), então Intendente de Milagres, Antônio e Pedro Gomes Granjeiro, Manoel Salgueiro e Ferrugem.  Mundinho entrincheirou-se em casa e resistiu ao ataque desde 10 horas da noite até 08 e meia da manhã seguinte, quando recebeu duas balas na perna direita.

Além desses ferimentos, a sua munição acabou-se, não podendo mais resistir. O primeiro a entrar em sua casa foi o Manoel Salgueiro, a quem Mundinho comunicou que estava ferido.  

Minutos depois, penetravam na casa mais três homens que queriam matar Mundinho, que apelou para Manoel Salgueiro, mostrando que era covardia assassinar um homem ferido e sem armas. Manoel Salgueiro ficou ao lado de Mundinho, não consentido que lhe tirassem a vida. Ferrugem e os outros insistiram em dar cabo do ferido, mas Manoel Salgueiro botou bala na agulha do rifle e tomou posição, disposto a defender a vida do homem, que tinha ido matar.  Ferrugem e os outros homens não quiseram entrar em luta com Manoel Salgueiro, retirando-se da casa resmungando.

O malfeitor passou dez horas sem ser socorrido, sendo sabedor da ocorrência, o coronel Basílio mandou busca-lo. Conduzido à Vila, onde foi alvo da curiosidade dos antigos companheiros de infância, o saqueador foi submetido a uma cirurgia, no Casarão dos Viana Arrais, efetuada pelo médico Caminha e o “velho Lino” (vaqueiro do coronel Basílio e prático em primeiros socorros) e auxiliado por Pedro Celião de Moura. Sua perna direita foi amputada na altura da coxa, tendo sido usados na cirurgia, instrumentos rudes, como agulha de costurar sacas, facas comuns e um serrote. No Casarão, Mundinho é muito bem recebido e tratado por dona Balbina Viana Arrais, só saindo de lá com o “côto” sarado por completo. Grato, ele dizia a dona Balbina: - Me dê uma arma, pois se vier um cangaceiro, eu defendo a casa. Respondia-lhe mansamente, dona Balbina: - Obrigada, mas minha casa defendo com o rosário.

Após aquele martírio e humilhado como se achava, Mundinho solicitou um confessor. Padre Raimundo Nonato Pita ouviu-lhe por mais de uma hora e assistiu missa, dizendo ele que há 14 anos não entrava em uma Igreja. Finalmente o bandido escapou e, sem condições necessárias, deixou a vida mundana e passou a esmolar. Diariamente, o coronel Basílio mandava deixar sua alimentação e quando necessário alguns utensílios. Antes do coronel Basílio falecer, já enfermo, reuniu sua família e pediu para que não abandonassem aquele ex-bandido errante.

Passados alguns meses, seguindo para Missão Velha, encontrou a proteção do coronel Isaías Arruda, que lhe deu cama e mesa.  Passou a viver tranquilamente em Missão Velha, mas, em agosto de 1928, quando menos esperava, foi preso e removido para a Capital.

Já na Capital, ao ceder uma entrevista ao jornal “O Ceará” Mundinho fez um pedido, afirmando ter muitos inimigos na Paraíba que desejavam sua remoção para aquele Estado, a fim de assassiná-lo, e por esse motivo queria uma intercessão junto ao Secretário da Polícia e Segurança Pública a fim de conservá-lo preso no Ceará, onde teria de responder por diversos crimes, inclusive a morte de João Flandeiro, em Milagres, a mandado do major Zé Inácio do Barro, e a morte de dois soldados da polícia cearense.

Antes de morrer, Mundinho concordou em narrar episódios de sua vida pregressa. Em dado momento, quando se referia ao seu batismo de fogo no grupo de Sinhô Pereira (combate da Carnaúba, no Pajeú) o então ex-cangaceiro expandiu-se num pranto convulsivo sem mais poder pronunciar uma só palavra.

Para sobreviver, tornou-se engraxate. Com uma perna amputada, ficava muitas vezes sentado na sombra do famoso “Pé de Barriguda”, em frente ao Chalé do coronel Manoel Leite, ou na entrada da Rua da Taboqueira. Virou motivo de chacota por parte dos conterrâneos, principalmente das crianças, apelidando-o de “Perna Cotó”, “Perna Pôde” ou "Raimundo Coxoló". Mas todos sabiam de sua vida no cangaço.

O referido bandoleiro era natural da comunidade de Oitizeiro e irmão de Xixiu e Róseo Morais, este último, acusado de matar Delmiro Gouveia, ao lado de Jacaré, e este, irmão Antônio Moreno.

De resto, sozinho e alcoólatra inveterado, Mundinho, veio a falecer na mais negra miséria em 1955, em seu torrão natal.

O Brejo é Isso!

Bruno Yacub Sampaio Cabral

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Referência bibliografia:


• Edição do jornal “O Ceará”, 1° de setembro de 1928;
• Edição do jornal “O Jornal” (RJ), 04 de julho de 1926;

• SILVA, Otacílio Anselmo, Esboço Histórico do Município de Brejo Santo, em Itaytera, N° 2, 1956;

• SILVA, Otacílio Anselmo, Subsídios para a História de Mauriti, em Itaytera, N° 12, 1968;

• SILVA, Otacílio Anselmo, Novos Subsídios para a História de Mauriti, em Itaytera, Instituto Cultural do Cariri, N° 12, 1968;

• MONTENEGRO, Abelardo Fernando, Fanáticos e Cangaceiros, Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, edição 2011;

• AMIC - CANAO, Balbina Lídia Viana Arrais - A Mestra, Brejo Santo, Ceará, 2007;

• CAVALCANTE, Francisco Mirancleide Basílio e LUCENA, Francisco Leite de, História Político-Social Brejo-Santense, Brejo Santo, 2008;

• BONFIM, Luiz Ruben F. de A, Lampião em 1926, editora Oxente, Paulo Afonso – BA, 2017;

• CABRAL, Bruno Yacub Sampaio, Subsídios para a História de Brejo Santo, Vida e Morte do cangaceiro Raimundo Maximiano de Morais, vulgo Mundinho, em Itaytera, N° 48, 2019;

• SOUSA, Severino Neto de (Sousa Neto), José Inácio do Barro e o Cangaço, Barro, Ceará, 2011;

• Entrevista com José Araújo Celião (Zé Tirí), em 28.02.2019, Brejo Santo, Ceará;

• Entrevista com Francisco Gomes Feijó (Chico de Sinésio), em 09.03.2019, Brejo Santo, Ceará;

• Entrevista com Francisco Assis Alves (Valmir Alves), em 27.07.2019, Brejo Santo, Ceará.

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