Por Antonio Neilton Medeiros
Excelente livro do autor Sérgio
Dantas a respeito do ataque de Lampião a Mossoró. No livro, o autor realiza uma
das mais consistentes revisões historiográficas sobre o ataque empreendido pelo
bando de Lampião à cidade de Mossoró. Longe de reforçar narrativas épicas ou
teorias conspiratórias, o autor opta por dissecar os acontecimentos à luz de
documentação, depoimentos e cruzamento de fontes, revelando que a chamada
“grande investida” não foi fruto de articulação política, mas antes uma
tentativa audaciosa de obtenção de recursos financeiros.
Um dos pontos centrais da obra é
a desconstrução da tese de que o ataque teria motivações políticas. Dantas
demonstra que não há evidência consistente de envolvimento do governador José
Augusto de Medeiros em qualquer trama para facilitar ou incentivar a invasão.
Ao contrário, a descrença do governador na possibilidade de Lampião atacar uma
cidade do porte de Mossoró explica a ausência de medidas preventivas mais
robustas.
Da mesma forma, o livro desfaz a
suposta ligação entre o ataque de Mossoró e a investida de Massilon Leite a
Apodi. O autor evidencia que os episódios não compuseram um plano integrado.
Inclusive, durante a marcha rumo a Mossoró, Massilon tentou nova incursão
contra Apodi em 12 de junho de 1927, reforçando a autonomia dos movimentos. Com
exceção do próprio Massilon, os cangaceiros envolvidos na ação de Apodi não
participaram do combate em Mossoró.
Outro mérito da obra está na
revisão de personagens frequentemente envolvidos em teorias conspiratórias.
Tilon Gurgel é inocentado de qualquer participação na suposta “trama”. A
captura de seus irmãos — entre eles o Coronel Antônio Gurgel, que produziu um
diário valioso durante o cativeiro — seria ilógica caso houvesse conluio. A
libertação final dos reféns, inclusive, ocorreu sem pagamento de resgate,
graças à perseguição policial.
A atuação da polícia potiguar
também é reavaliada. Dantas demonstra que não houve omissão deliberada das
forças de segurança. O início do combate nas proximidades da casa do prefeito
não teria significado simbólico ou político, mas decorreu das condições
geográficas e estratégicas da Mossoró de 1927.
O autor igualmente enfrenta mitos
consolidados pela tradição oral. Jararaca não foi executado por “falar demais”;
outros cangaceiros deram depoimentos e não foram mortos de imediato. O suposto
telefonema de São Sebastião (atual Governador Dix-Sept Rosado) alertando
Mossoró sobre a aproximação do bando é descartado por ausência de provas
documentais. Formiga não era espião dos cangaceiros. O cangaceiro gravemente
ferido e morto pelos próprios companheiros foi Manuel Antônio, o Dois de Ouro.
A obra também traz importantes
esclarecimentos sobre os cangaceiros ligados a Mossoró. Pela cadeia local
passaram Mormaço, Bronzeado, Jararaca e Asa Branca, mas apenas Jararaca e
Mormaço participaram do ataque. Asa Branca, embora tenha fixado residência na
cidade após cumprir pena, não esteve no episódio de 13 de junho. No cemitério
de Mossoró encontram-se sepultados Jararaca, Asa Branca e Colchete — dado que
reforça a materialidade histórica do evento.
Um ponto particularmente
revelador é o depoimento do ex-cangaceiro Moreno, que afirmou que Lampião
evitava falar sobre Mossoró. Segundo ele, o chefe do bando só aceitou a
empreitada por insistência de terceiros, como Isaías Arruda, seduzido pela
promessa de dinheiro fácil. A derrota, portanto, teria marcado profundamente o
imaginário do próprio líder cangaceiro.
Ao final, o que Sérgio Dantas
oferece não é apenas uma narrativa do ataque, mas uma verdadeira anatomia
crítica do fracasso. A obra reposiciona o episódio de Mossoró dentro da
dinâmica econômica e estratégica do cangaço, afastando interpretações conspiratórias
e reafirmando a importância da pesquisa documental para o estudo do fenômeno.
Minhas conclusões: Lampião e seus
"patrões" não tinham somente Mossoró na mira. Se assim fosse, Lampião
tinha feito a marcha até Mossoró na maior discrição possível. Não como fez,
matando, roubando, sequestrando, assim que entrou no Rio Grande do Norte. Acho
que a ideia era mesmo atacar o RN até onde pudessem. Em relação à ideia de o
ataque ser de cunho político, assassinar Rodolfo Fernandes, fico a me perguntar
se não seria mais eficiente a contratação de um ou dois pistoleiros para a
empreitada ao invés de um bando de cangaceiros que dificilmente marchariam do
Ceará a Mossoró sem serem percebidos.
ALERTA AOS NOSSOS LEITORES!


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