Seguidores

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

SILVINO JACQUES, BANDOLEIRO E POETA

Por: Alfredo Bonessi

Durante o lançamento de CASOS DE ROMUALDO EM CORDEL, no Memorial do Rio Grande do Sul, tomei conhecimento da existência do famoso bandoleiro SILVINO JACQUES, afilhado de Getúlio Vargas, que escreveu a sua própria saga em mais de 200 sextilhas.


Ele agiu na década de 1930, participou de revoluções como getulista e depois passou a viver uma vida errante, com um grupo de comandados, vivendo tórridos romances e confrontos históricos na região onde hoje é o Mato Grosso do Sul.


Não sei por que o povo gaúcho batizou a obra erroneamente de “Décimas de Silvino Jacques”, pois o texto é, na verdade, todo em sextilhas... O cartunista SANTIAGO nos informou, por e-mail, que na infância conheceu outras "décimas" contando a vida de outros bandoleiros famosos do RS. A figura de Silvino Jacques é fascinante... Pretendo escrever alguma coisa sobre ele em nosso blog.

Silvino Jacques, bandoleiro-poeta afilhado de Getúlio Vargas
Como já frisei “As Décimas Gaúchas” escritas por SILVINO JACQUES são SEXTILHAS em redondilha maior (sete sílabas), da mesma maneira da Literatura de Cordel nordestina:

1
Vou contar uma historia,
Que muitos devem saber,
Mas contada por quem não viu
É justo não deve crer.
E para que todos saibam
Bem certo vou escrever.
2
Meu nome nunca neguei,
E não pretendo negar,
Me chamo Sylvino Jacques,
E nunca procuro o mal
Ele é quem me procura
E sempre há de me encontrar.
3
Sempre fui perseguido
por um ruim triste destino,
Até chegar ao ponto
De ser um homem ferino
E meu nome ser comentado
Com fama de assassino.
4
Essa triste sorte, de longe
De longe vem me seguindo,
Pois creio que é o meu destino
Que anda me perseguindo,
Embora cheio de mágoas
Eu mostro-me sempre rindo.
5
Sou natural da fronteira
Do Rio Grande estimado,
Criei-me como um gaúcho
De pingo bem encilhado
Sempre alegre e altaneiro
Sem maldizer meu Estado.


6
Fui nascido nas campinas
Do Sul cheio de flores,
Foi onde vi prazeres
E que conheci amores,
E conheci também tristezas
E golpes cheios de dores.
(...)

Enviado para este blog por: Capitão Alfredo Bonessi

FESTA DO MUNICÍPIO AURORA - 2011


FESTA DO MUNICÍPIO 2011

Aniversário dos 128 anos da cidade de  AURORA, no Estado do Ceará.

Aproveitem as Festividades! 
Ainda tem hoje e amanhã. 


 

Paulo Afonso: Um Pouco Mais da História de Sua Criação

Postado por João de Sousa Lima

Como se o destino conspiras-se para facilitar-me o conhecimento da cachoeira de Paulo Afonso, Landulfo Alves, então governador da Bahia, sempre me convidava para excursões ao interior. 


De tal modo as visitas calaram no meu espírito que me induziram a pensar obsessivamente no aproveitamento da cachoeira, com uma grande usina hidrelétrica que fornecesse energia ao nordeste, pois seria o meio mais acertado de erradicar a miséria ali reinante. A cachoeira costumava ser invocada pelo espetáculo de grandiosidade e beleza por poetas, escritores, geógrafos, pintores e homens públicos.


Delmiro Gouveia realizou em 1913 um pequeno aproveitamento da cachoeira, com uma usina de 1.500 HP, para servir a sua fábrica de linhas de coser na vizinha localidade de Pedra, Alagoas. A obra foi realizada mediante concessão do Estado de Alagoas, pelo Decreto nº 520 de 12/08/1911.


O Imperador Dom Pedro II foi conhecer a cachoeira em 1859, pernoitando no local chamado Limpo do Imperador, quando fez anotações no seu diário, que está no Museu Imperial, Petrópolis, Rio de Janeiro.
O desequilíbrio entre o nordeste e o sul, o abismo que separava um do outro, tornava a construção da hidrelétrica imperiosa e premente. Maior vulto e significado a cachoeira assumiu a meus olhos quando me coube o ensejo de medi-la na qualidade de presidente da Subcomissão de Abastecimento da Bahia, em 1943. 


Após a deposição de Getúlio Vargas em 29/10/1945 e a interinidade de José Linhares,


assumia o poder o Presidente Dutra.


Quando Daniel de Carvalho, seu Ministro da Agricultura, me convidou para chefe de seu gabinete, exultei com a possibilidade de incluir no programa o aproveitamento prioritário da cachoeira de Paulo Afonso. A energia que ali se gerasse seria o instrumento para redimir o nordeste e dissipar uma desigualdade profundamente injusta para a sua gente. Foi então que tomei conhecimento de que já existiam dois decretos que objetivavam a mesma finalidade, expedidos no governo Vargas, mas que, com sua deposição, haviam ficado em ponto morto. O aproveitamento de Paulo Afonso havia sido combatido tenazmente pelo Ministro Souza Costa, que afirmava que gastar dinheiro alí seria desperdício.
O processo foi então guardado pelo Dr. Sebastião de Santana Silva, auxiliar do Ministro Apolônio Sales. Também o economista Eugênio Gudin visitara Dutra para dizer-lhe que a construção seria uma loucura, pois, entre outras razões, sequer haveria mercado. Nesse ano (1948) Daniel de Carvalho, Ministro da Agricultura, convenceu Dutra contra a opinião de Gudin. A Chesf havia sido criada em 1945 por Getúlio Vargas, mas só em 1948 Dutra iniciou a obra. A decisão de Dutra de construir Pulo Afonso foi um grande momento da história do Brasil. A conspiração dos derrotistas e negativistas nos gabinetes alastrou-se para combater a obra sob os mais variados pretextos, mas a oposição de hoje será o aplauso de amanhã.
O Ministro Daniel de Carvalho levou ao Presidente Dutra uma lista de três nomes, dentre os quais deveria ser escolhido o organizador e futuro presidente da companhia. Foi escolhido o Engº. Antônio José Alves de Souza, que tinha uma longa tradição de inteligência, cultura e serviços, sendo respeitado tanto pelo seu caráter como pela competência profissional. Engenheiro civil e de minas, formado pela Escola de Minas de Ouro Preto, estava ligado a Paulo Afonso desde 1921, quando, com os engenheiros Jorge Menezes Werneck, Jaime Martins de Souza, Mário Barbosa de Moura e Mengálvio da Silva Rodrigues, fizera o levantamento topográfico da área, por designação do ministro Simões Lopes, no Governo de Epitássio Pessoa. Estava talhado para a missão. Pela Portaria nº 553 de 02/10/47 o Ministro Daniel encarregou Alves de Souza de organizar a grande empresa. Graças ao governador baiano Otávio Mangabeira, a Luiz Viana Filho, Clemente Mariani, Juracy Magalhães e Pereira Lira, a Bahia e a Paraíba foram incluídas no programa. O lançamento oficial da abertura da subscrição pública das ações preferenciais da Companhia foi feito pelo Presidente Dutra, no Palácio do Catete, em 01/12/47.
Alves de Souza não teve dificuldade em formar a sua diretoria. Convidou o General Carlos Berenhauser Júnior, engenheiro eletricista, para Diretor Comercial; Eng.º Adozindo Magalhães de Oliveira, ex-colega da Divisão de Águas, para Diretor Administrativo; e o Eng.º Otávio Marcondes Ferraz para Diretor Técnico. Como Consultor Jurídico, eu, Afrânio de Carvalho. Como o estatuto da Chesf, constituída em assembléia em 15/03/1948, fixara o Rio de Janeiro como seu domicílio, após as primeiras reuniões em salas emprestadas a empresa comprou o 15º andar do edifício 134 da Rua Visconde de Inhaúma, centro do Rio, onde esteve durante 27 anos, até a mudança para Recife em 1975. Com o falecimento do Diretor Administrativo, Eng.º Adozindo Magalhães, em 14/06/53, fui nomeado seu substituto.
De início a Diretoria Técnica de Marcondes Ferraz ficou na sede, onde contava com a assessoria de Domingos Marchetti, além dos engenheiros Gentil Norberto, José Vilela e Júlio Miguel de Freitas. Em 1949 a diretoria técnica mudou-se para Paulo Afonso com todos os engenheiros. Com o tempo, outros engenheiros foram incorporando o quadro: Ernani Gusmão, Othon Soares, Dermeval Rezende, Hilton Fiúza de Castro, Hermínio Keer, Hélio Gadelha de Abreu, Nédio Lopes Marques. 
O Presidente Alves de Souza dividia o seu tempo entre o Rio e Paulo Afonso, onde sua presença motivava os trabalhadores, levantava os ânimos e alegrava todos os colaboradores, dos engenheiros aos operários, com os quais sempre manteve estreito contato pessoal, até sua morte em 18/12/61,em Paulo Afonso, ficando o seu coração sepultado ao pé do seu busto no Jardim Belvedere, a seu pedido. A escrivã Maria de Lourdes Martins, do Cartório de Registro Civil de Paulo Afonso, lavrou a certidão de óbito n.º 309, folha 155, livro 6, sendo Alves de Souza sepultado no Cemitério São João Batista, Botafogo, Rio de Janeiro.
Por sua vez, Marcondes Ferraz, indo residir em Paulo Afonso com sua senhora Dona Marieta Ferraz, dera um magnífico exemplo, estimulando engenheiros, médicos, advogados, técnicos e professores a fazerem o mesmo, imprimindo unidade e segurança, contribuindo para que ali se formasse uma comunidade impregnada de espírito familiar. Para exercer funções de “prefeito” do acampamento, Dr. Adozindo designou seu próprio assistente Dr. José Gomes Barbosa, depois substituído pelo Dr. Sílvio Quintela.
A seleção rigorosa dos dirigentes, a boa vontade dos dirigidos, o relacionamento espontâneo entre todos, compuseram um ambiente propício à colaboração e ao rápido progresso das obras. O trabalho era feito de coração tranqüilo e sorriso nos lábios. Enquanto o Eng.º Marchetti supervisionava as escavações dos túneis, os engenheiros Gentil Norberto, Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli eram responsáveis pelas ensecadeiras. Se o laboratório de modelo reduzido desempenhou papel tão decisivo na solução de problemas fluviais, isso se deve ao gênio do Engº André Balança. Na construção das subestações, a competência rara doEngº Paavo Nurmi de Vicenzi. Com o aval da aeronáutica fizemos um campo de aviação, onde pousavam aviões de uma empresa comercial e estacionavam aeronaves da Chesf, a princípio apenas um Beechcraft bimotor e um helicóptero Bell, cujo serviço de aviação foi entregue ao coronel-aviador Humberto Aguiar e ao piloto paulista Carlos Alberto Alves, depois vereador de Paulo Afonso.
A Diretoria Comercial se projetou devido a inteligência e retidão de Berenhauser Júnior, que se cercou de auxiliares capazes como Álvaro de Carvalho, Pimentel Tourinho e Euclides Ribeiro. Os grandes equipamentos eram descarregados nos portos de Recife e Salvador, seguindo em carretas para Paulo Afonso. Os milhares de sacos de cimento iam de trem até Arcoverde e de caminhão até a obra. Milhares de pessoas chegavam a Paulo Afonso em busca de pão e trabalho, construindo ao lado do acampamento um grupo numeroso de casebres cobertos com sacos vazios do cimento Poty usado nas obras, cujo núcleo veio a chamar-se Vila Poty. As redes de dormir eram toda a mobília. Na Poty a companhia construiu banheiros públicos, chafarizes, posto médico, e admitiu os homens necessários, que aprendiam facilmente o serviço e revesavam-se de dia e de noite. Ali estava o sertanejo forte mencionado por Euclides da Cunha. Na obra, o sotaque cantado do nordestino dava um toque original e romântico ao trabalho que faziam. Suportando o calor abrasador, labutavam sorrindo e cantando. Ordeiros e disciplinados, formavam um grupo peculiar no agregado brasileiro. Foi, sem dúvida, o magnífico contingente humano dos nordestinos, perfurando o granito e operando máquinas, que permitiu a vitória final.
Durante a construção, o episódio mais importante foi o fechamento do braço principal do rio, com ensecadeiras, treliças e pedras enrrocadas. O desfecho provocou o mais vivo interesse dos operários, funcionários e de outros nordestinos que afluíram às margens do rio. Até gente de outras cidades, na expectativa de ver o rio fechado. Fechadas as comportas, o Velho Chico estava domado pela astúcia do engenheiro brasileiro. Gritos de alegria e foguetes festivos tornaram aquele momento deveras emocionante e inesquecível, quando um entusiasmado espectador atravessou a pé o leito seco do rio, empunhando a bandeira nacional, em 19/07/54. Sessenta dias após, iniciou-se o enchimento do reservatório para provas de funcionamento da usina, que logo entrou em operação comercial, sendo inaugurada em 15/01/55 pelo Presidente João Café Filho, sucessor de Getúlio Vargas, que se suicidara quatro meses antes.
No acampamento, as modernas casas de alvenaria substituíam a caatinga. Casas para famílias, alojamentos para solteiros, casa de hóspedes, casa da diretoria, hospital, igreja, armazém, restaurante, escolas e clubes sociais. Um oásis sem similar no seio do sertão áspero. Vila Operária, Vila Alves de Souza, Bairro General Dutra. Ao lado do acampamento, a Vila Poty. Pioneiros que formavam a enorme família chesfiana, pessoas vindas dos mais diferentes rincões do país e do mundo, as profissões mais diversas, de todas as idades e religiões, com forte espírito de solidariedade inspirado na grandeza da obra que executavam. Num ambiente de camaradagem, todos amavam apaixonadamente aquele trabalho. Entre tantos outros profissionais, os professores responsáveis pela instrução dos milhares de filhos dos construtores de Paulo Afonso: Dilon Alves, Cláudio Melo, Antonieta Morais, Neide Cerqueira Lima, Ana Freitas, Glícia de Morais, Elvira Rocha, Iracy Santiago, Neide Jatobá, Zilá de Castro, Amanda Morais, Jandira Ramos, Maria Amélia. Ezilda Goiana, Zélia Bandeira, Conceição Siqueira, Eunice Macêdo, etc. No meio de todos, a figura ímpar de Alves de Souza, verdadeiro agremiador e condutor de homens, espírito impregnado de fé e entusiasmo. O Hospital Nair Alves de Souza (homenagem à esposa do presidente), que tinha a responsabilidade de atender aos chesfianos, de repente viu-se sob a premência de acudir numerosas pessoas estranhas, vindas até de outras cidades, atraídas pela fama que logo se espalhou. Não podendo enxotar aqueles carentes, os socorria gratuitamente. O criador e diretor do hospital, Dr. Lourival Burgos Muccini, hábil cirurgião, administrador metódico, tinha em sua equipe os médicos Fernando Freitas, Augusto de Sá Brito, José Elói Medeiros, Militão Cézar Oliveira, Edson Teixeira Barbosa (depois prefeito) e a farmacêutica Nilza Alves.
A construção da usina despertou a atenção do povo por toda parte, que via, pela primeira vez, realizar-se em solo nordestino empreendimento de tão extraordinário vulto. Poucas obras ganharam tanto interesse no Brasil inteiro, como as de Paulo Afonso. Os visitantes chegavam sem cessar, vindos de todas as partes, de ônibus, automóveis e aviões. Na sala dos visitantes ouviam explicações do projeto da hidrelétrica e seguiam com um guia para o imenso canteiro de obras. A comemoração do decênio da Companhia em 15/03/58 foi uma gigante festa íntima, que comemorou os resultados obtidos nos dez anos de intenso e fecundo trabalho, resultados que justificavam a euforia da comemoração. Paulo Afonso deixara de ser uma porção desértica da caatinga, tornando-se uma comunidade civilizada. Um magnífico monumento foi erigido ao lado da barragem oeste, o Parque Belvedere, em homenagem à diretoria realizadora da grande obra. Na programação da festa, missa campal no obelisco, churrasco para milhares de pessoas no Clube Operário, jantar no CPA, bailes em ambos os clubes, em cujas comemorações discursaram Dr. José Gomes Barbosa, Dr. Ebenézer Gueiros, Dr. Paulo Parísio, Dr. Waldemar de Carvalho, Dr. Carlos Berenhauser, Dr. Alves de Souza, Dr. Sílvio Quintela, Dr. Marcondes Ferraz, Dr. Hélio Gadelha, Sr. Pimentel Tourinho, Dr. Roberto Montenegro, Sr. José Francisco Oliveira Diniz, Sr. Olímpio Rodrigues dos Santos e Dr. Afrânio de Carvalho.
Paulo Afonso deixava de ser um sonho utópico, abstrato, para ser a redenção do nordeste brasileiro, realidade concreta e incontestável.
No monumento do Parque Belvedere estão gravadas para sempre as palavras do Dr. Sílvio Quintela:

“A FÉ, A TENACIDADE, O SACRIFÍCIO E A UNIÃO TORNARAM REALIDADE O ANSEIO DE VÁRIAS GERAÇÕES”.

Extraído do blog do escritor e pesquisador do cangaço: João de Sousa Lima

I Festival filmes africanos UFRN

Prezado Alfredo,


segue convite para festival e favor divulgar na tua lista, grata, lisabete

I FESTIVAL DE FILMES AFRICANOS

O primeiro festival de filmes africanos é um evento promovido pelo NAVIS (DAN- UFRN). Os filmes exibidos fazem parte do acervo de documentários e películas de ficção, gentilmente cedidos pela Aliança Francesa.
O NAVIS vem desenvolvendo pesquisas sobre cinema africano, com o objetivo de discutir e divulgar essa produção cinematográfica desconhecida do grande público. O festival pretende trazer questões que ocupam o centro de muitos debates: multiculturalismo, hibridismo, diáspora, tradição e modernidade.  
A importância do festival se dá dentro do contexto de políticas do governo federal, Lei 10639/2003, que vem incentivando o ensino da cultura e da arte afro-descendente e africana nas escolas de ensino básico e médio. Após a exibição haverá debate aberto ao público.

07 às 11 de NOVEMBRO DE 2011 - 16 às 22 hs
07, 08 e 09 (AUDITÓRIO DO NEPSA - UFRN)
10 e 11 (AUDITÓRIO ANEXO BCZM - UFRN)

lisabete coradini
NAVIS UFRN

Enviado para este blog por:
Capitão Alfredo Bonessi

A Saga Nordestina na música de Luiz Gonzaga

Por: Juliana Pereira Ischiara

Foram quarenta e oito anos de “chão” percorrido por Luiz Gonzaga, também chamado de “Lula”, “Lua”, “Luiz”, e “Gonzagão”, numa obra poético-musical que tinha como finalidade enfatizar o sertão, ao qual fora obrigado a deixar em plena adolescência.
Assim como muitos sertanejos, Luiz Gonzaga migrou para a cidade grande em busca de sobrevivência e de uma qualidade de vida melhor, do mesmo modo que Chico Bento, de O Quinze, da Rachel de Queiroz, que largou tudo em busca da sobrevivência deixando seu torrão natal, como também Fabiano, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que pega toda família e parte sem destino definido, em busca de algo que lhe garanta a sua sobrevivência e a de sua família.
São muitos os personagens encontrados na literatura e na historiografia que tratam dos problemas enfrentados pelos nordestinos nos períodos de estiagem. Nordestinos que deixavam seu mundo em busca de ajuda do governo ou de serviço que lhes garantisse a sobrevivência.
Mas o Nordeste não é só desgraça, fome, miséria e calamidades. O sertão nordestino também tem riqueza, fartura nos períodos de chuva, forró em salas de reboco, cabra valente, muié séria, home trabaiadô, padim Cíço, lua branca, Asa Branca, Assum Preto, Samarica Parteira, Karolina com K, briga no forró de Mané Vito, festa de mourão (gado), Lampião, o cheiro de Carolina, festa de casamento, tem muié que não faia no trato, Doutô e Coroné, político safado e enganador. O sertão é assim mesmo, tem jeito não.
Quando o sertanejo deixa o sertão, não esquece seu lugar e sempre pensa em voltar, mesmo levando um saco como malota e o cadeado sendo um nó. Ele leva também sua riqueza cultural, leva o triângulo, o zabumba o gonguê e o matulão. Leva sua culinária com a carne seca, a carne do sol, a farinha e o baião-de-dois. Como expressou Euclides da Cunha, em Os Sertões, “o nordestino é antes de tudo um forte”. Quando o sertanejo está longe e escuta “o ronco do trovão, mais minino, ele volta tinindo. Vem botar uma rocinha que é pro mode dá uma casada, nos período de missão, que é mais barato”. É preciso nascer no sertão para saber dessas coisas.
Luiz Gonzaga se inspirava na saudade que sentia do sertão e de sua vivência de sertanejo, sofrida, amarga, romântica, valente e sensível. O certo é que, sem pudor nem piedade, ele mandou “brasa”, divulgando seu sertão, seja lá como fosse, com ou sem sofrimento, pois, o sertão é amado, sofrido, seco, triste, verde e alegre. Um universo com suas imensas diversidades, mas, o sertão é também orgulho.
O repertório de Lula, não trata só das festas juninas, amores achados e perdidos, tristezas e alegrias, mas das injustiças sociais, da crítica às políticas públicas e à má distribuição de renda.
O Brasil inteiro escuta o eco da sanfona e a voz de um nordestino, que migrou para o Sul em busca de sobrevivência e acabou dando certo na vida. Salas nobres, como as do palácio do Catete, tocam a música nordestina e com pretensões do tipo: “Eu vou mostrar prá vocês como se dança o baião, e quem quiser aprender é favor prestar atenção.” (Baião, Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira, 1946)
A saga nordestina na música de Luiz Gonzaga, pretende analisar a representatividade do homem do sertão nordestino, no universo poético e musical criado por Luiz Gonzaga e alguns parceiros importantes, e divulgados pelo seu canto no qual o Rei do Baião se fez porta-voz de uma cultura, muitas vezes, fadada a uma ótica folclórica. E é nesse universo gonzagueano que encontramos elementos que caracterizam o nordestino, quando ele se refere às experiências desses homens, tanto no meio rural quanto no meio urbano. Quando o nordestino sai do plano regional e parte para um plano nacional, no caso a cidade grande, ele vai em busca de sobrevivência nos períodos de seca ou de uma vida melhor. Nesse novo espaço tido como “um mundo moderno e desenvolvido”, depara-se com uma diversidade cultural bastante diferente da que ele havia vivido até então.
Para contextualizar a explicação da saga nordestina no cancioneiro de Luiz Gonzaga, optamos, inicialmente, pela contextualização do Nordeste histórico e geográfico, para chegar à própria figura do artista no seu modo de “ver, viver e sentir” esse Nordeste amado.
No primeiro capítulo, procuramos fazer um breve histórico do sertão desse nordestino, enfocando a sociedade originada da pecuária, responsável pelo povoamento do interior; a relação do homem com a religião, com seus fundamentos messiânicos, que fizeram surgir muitos profetas e ‘messias’, homens que se diziam representantes de um poder divino e que usavam a religião em benefício próprio, a exemplo de padre Cícero de Juazeiro do Norte. As festividades, também, estão diretamente ligadas à religiosidade, no caso das festas juninas, talvez as principais e mais tradicionais do Nordeste, que também faz ligação com o calendário agrícola, com sua época de fartura e de comemorações e, por fim, a expressão religiosa de caráter fundamentalista, pois, o sertanejo se acha responsável pela seca e pelos invernos, tudo dependendo da forma como oraram e dos pecados que cometeram.
No segundo capítulo, buscamos mostrar o nordestino retirante e os sentimentos desses homens em relação à sua terra natal, a saudade dos que tiveram que sair do lugar onde nasceram e viveram boa parte de suas vidas e a representação do sertão no imaginário desse sertanejo, que tem esperança de voltar aos primeiros sinais de melhora, pois o sertão não é só tristeza, fome ou miséria, é também riqueza, fartura e beleza. Enfocamos o Ciclo da Borracha, que encontrou no Nordeste sua mão-de-obra barata, dando início a uma ação que até hoje vivenciamos, que é a migração temporária, com homens jovens que partem em busca de uma condição econômica melhor, deixando para traz a família, mulher e filhos, levados pelos efeitos propagandistas.
No terceiro capítulo, identificamos e analisamos a saga nordestina na música de Luiz Gonzaga, abordando as relações do homem com seu meio e, principalmente, tentando compreender como o sertanejo vive, vê e sente o sertão, buscando entender este deslocamento para a cidade em busca da sobrevivência e o choque cultural sentido por estes homens ao se depararem com uma cultura diferente e tendo que adequar-se a uma nova vida, passando a sofrer influência dessa cultura para poder facilitar sua permanência neste novo meio, tendo que urbanizar-se para conquistar seu espaço.
Quando o homem nordestino sai do seu lugar de origem e entra em outro universo, ele leva consigo o que seria, em nossa opinião, a maior forma de representação de um povo, sua cultura e a forma de como esse povo vive e se relaciona com seu meio, com o outro indivíduo e em sociedade, formando um conjunto de detalhes que se contrapõem.
Procuramos mostrar como o migrante Gonzaga sentiu essas relações, poetizando-as e musicando-as, junto com seus parceiros, mantendo viva a sua cultura, abordando temas corriqueiros do sertão nordestino como secas, crendices, religião, festas, etc., e a influência que ele sofre quando entra em contato com uma outra sociedade, tida como evoluída, do ponto de vista tecnológico e social. É neste momento que ele precisa assimilar este novo modelo cultural, mesclando com o seu e impedindo que a sua cultura desapareça.

Monografia apresentada no Curso de História da UECE, campus de Fortaleza. 2003.
Juliana Pereira Ischiara

Nascida na zona rural do município de Itapiúna - CE. Filha de João Osório Pereira e Maria Audelice Pereira. Casada com Julio Cesar Ischiara. Licenciada em História pela Universidade Estadual do Ceará - UECE, tendo Participado do Grupo de pesquisa: História e Oralidade e defendido dois trabalhos na mesma Universidade, sendo eles: A Saga Nordestina na Música de Luiz Gonzaga; Oficinas e charqueadas no Ceará. Autora do artigo "História da Santa Casa: Ceará", publicado pelo Ministério da Saúde. Cursa Direito na FCRS, onde já defendeu dois trabalhos na semana científica, "Penas alternativas de Direito" e "Um tratado sobre ética". Atualmente, assessora o Instituto de Previdência de Quixadá-CE. Colaboradora da SBEC.
Nota: Atualmente Juliana Ischiara também é formada em Direito, exercendo a profissão há mais de dois anos.

VISITA À FAZENDA PACHECO EM BARRA DO MENDES, NA DIVISA DO MUNICÍPIO DE BARRO ALTO BAHIA, ONDE MATARAM O DIABO LOIRO, CORISCO!

Por: Guilherme Machado
[semp+020.jpg]

Árdua viagem de mais de 400 Km de poeira e muito sofrimento, desde Feira de Santana até a Barra dos Mendes, na mesma trilha que fez o tenente Zé Rufino, no dia 25 de Maio de 1940, na certeza de assassinar


Corisco, que viajava com sua afilhada Zefinha de 10 anos, e sua mulher, a Dadá, mais um casal de cangaceiros: Rio Branco e Florência que viajavam em direção à cidade de Bom Jesus da Lapa, no Estado da Bahia.

Falando da minha viagem à Fazenda Pacheco, em Barro Alto, no Estado da Bahia, em busca de informação sobre o massacre de Corisco, só obtive informações de um fazendeiro de Brotas de Macaúbas, o senhor Lídio Dantas Neri, hoje radicado na Fazenda Umbuzeiro em Ibititá, também no Estado da Bahia, e me recebeu oferecendo-me um belo almoço regado e muita fartura, e excelentes informações sobre o cangaceiro Corisco.  


Acima, ver-se foto da família do senhor Lídio, quando me mostrava suas vacas leiteiras, onde ele aparece ao meu lado dentro do curral com seus filhos, netos e seus vaqueiros. Gentilmente, emprestou-me um manso cavalo para que eu terminasse a minha pesquisa.

A fazenda dos Pachecos não existe mais. Na casa da farinha  onde o fazendeiro José Pacheco havia hospedado os casais de cangaceiros, só existe uma feia vegetação catingueira.  

  
A primeira foto mostra a estrada de Irerê até a Barra do Mendes, feita a bordo de um velho ônibus, ano 1974, da empresa Águia do sertão; este estourou dois pneus, por conta da estrada de péssima qualidade.  


Logo acima, ver-se a foto de Corisco, feita em 1936, pelo libanês Benjamim Abraão Boto. 


Nesta caçada mortífera, o tenente Zé Rufino matou Corisco por pura ganância ao dinheiro de frutos de roubos e saques das volantes e dos cangaceiros.  O estúpido militar sabia que Corisco viajava com muito dinheiro em mãos.

 

O cangaceiros Rio Branco e sua companheira Florência, conseguiram escapar da perseguição, pois haviam saído  para lavarem roupas em um povoado chamado Lagoa do Soldado, próximo à Barra do Mendes, e de lá ouviram os tiros. 

Observação:

Corisco e todos os cangaceiros que restaram da malta de Lampião já haviam sido perdoados e anistiados pelo governo da época, Landulfo Alves, interventor de 1938 a 1942.  Sendo assim, eram homens livres. Corisco foi assassinado no dia 25 de maio de 1940.


O crack e os seus malefícios para a sociedade

Por: Archimedes Marques

 Os fatos criminosos em todas as partes e em todos os lugares do país, as desagradáveis conseqüências na área policial, educacional, saúde, social e familiar e o degredo causado pelo crack, comprovam que essa droga trouxe malefícios sem precedências para a nossa sociedade. O crack mata os sonhos das pessoas, aniquila o futuro de tantas outras e aumenta a criminalidade em todo canto que se instala.
De poder sobrenatural, o crack sempre vicia a pessoa quando do seu primeiro experimento e o que vem depois é a tragédia certa. A partir de então a sua nova vítima está condenada a engrossar as fileiras de um gigantesco e crescente exército de dependentes químicos da droga que, em conseqüência passa também a matar e morrer pelo crack.
O crack além de trazer a morte em vida do seu usuário, arruína a vida dos seus familiares e vai deixando rastros de lágrimas, sangue e crimes de toda espécie na sua trajetória maligna.
Faz parte da fórmula absurda do crack que nasceu da borra da cocaína, a amônia, o ácido sulfúrico, o querosene e a cal virgem, produtos altamente nocivos à saúde humana, que ao serem misturados e manipulados se transformam numa pasta endurecida de cor branca caramelizada, que passou a ser conhecida pelos mais entendidos, com toda razão, como sendo a pedra da morte.
Como os efeitos excitantes do crack têm curta duração, o seu usuário faz dele uso com muita freqüência e a sua vida passa a ser somente em função da droga.
Em virtude do dependente do crack pertencer em grande maioria à classe pobre ou média da nossa sociedade e assim não dispor de dinheiro para manter o seu vício, então passa ele a prostituir-se em troca da pedra ou de qualquer migalha em dinheiro, a se desfazer de todos os seus pertences e a cometer furtos em casa dos seus pais, dos seus parentes, dos seus amigos ou noutros lugares quaisquer, para daí  logo passar a praticar assaltos, seqüestros e latrocínios, sem contar que também fica nas mãos dos traficantes para cometer homicídios ou demais crimes que lhes for acertado em troca do crack.
Assim, o usuário do crack vende seu corpo, sua alma, seus sonhos para viver em eterno pesadelo.
Na trajetória inglória e desprezível do crack, o seu usuário encontra o desencanto, a dor, a violência, o crime, a cadeia, a desgraça ou o cemitério. O crack traz o ápice da insanidade humana. Alguns que se recuperaram do poder aniquilador do crack disseram que dele sentiram o gosto do inferno.
Concluímos então que o perfil da sociedade se transformou e os problemas da segurança pública mudaram consideravelmente para pior a partir do advento do crack. Aumentaram-se todos os índices de crimes possíveis por conta do crack. Em decorrência do crack também passou a morrer precocemente uma imensidão incontável de pessoas, destarte para os jovens que mais se lançam neste lamaçal. Os seus usuários em grande maioria se transformam em pessoas violentas e, com armas em mãos são responsáveis por mortandade em suicídios, assassinatos dos seus familiares e amigos, homicídios pelo tráfico, para o tráfico ou ainda mortes relacionadas às pessoas inocentes em roubos, nos chamados crimes de latrocínios.
É preciso que as políticas públicas contra o crack, além de promover bons projetos preventivos, repressivos e curativos, considerem os vários aspectos que envolvem os seus dependentes químicos e suas conseqüências, como a conscientização da população voltada para o drama pessoal vivido pelos mesmos e por aqueles que o cercam, as dificuldades de bem vigiar todas as fronteiras como melhor forma de prevenção de evitar a entrada da sua pasta base, as carências das entidades assistenciais e de saúde, assim como da necessidade de recursos para os aparatos policiais, destarte, para a valoração profissional dos seus membros no sentido de melhor combater o trafico, o traficante e o chamado crime organizado que é a fonte de alimentação da droga.
Evidente é que o crack é caso de Polícia, mas é também problema de todos nós e, na medida em que por sua culpa são gerados tantos crimes e disfunções sociais, cresce ainda mais a responsabilidade da própria sociedade e do poder público, principalmente para ser tratado em larga escala como caso de saúde pública.
(Delegado de Poícia. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br
Enviado para este blog pelo autor: Dr. Archimedes Marques
http:blogdomendesemendes.blogspot.com

ROMEIRAS DO PADIM CIÇO (Conto)

Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa
 
ROMEIRAS DO PADIM CIÇO
 
Bem antes de chegar novembro, que é o mês da maior romaria pras bandas das terras cearenses do Juazeiro do Norte, objetivando comemorar em louvação o dia de finados visitando o túmulo do Padre Cícero Romão Batista, ou simplesmente Padim Ciço, que é o verdadeiro santo na crença e na fé do povo nordestino, as velhas romeiras já começam a organizar sua sagrada peregrinação.
Tendo imagens do Santo Padim espalhadas pela casa, desde cedinho se benziam por todos os cantos onde estivessem diante de sua presença. Dali em diante não podiam mais se esquecer das arrumações que tinham de fazer para que não faltasse nada quando o dia da partida chegasse.
Já vinham providenciando a viagem há muito tempo. Gente sertaneja vive de antecedências, é precavida demais, pois nada pode dar errado no sonho maior da romaria. Sabem que nada se compara às visitas que farão à Colina do Horto, a Basílica Nossa Senhora das Dores, ao túmulo do Padim na Capela do Socorro, subir os degraus da estátua do Padim, jogar-se ao chão em preces e orações, pagar suas promessas, ofertar seus os ex-votos, se comover com a Missa do Chapeu na despedida, pedir proteção.
Daí que sendo uma gente já envelhecida e muito pobre, sem contas em bancos ou quantias guardadas em cofres, o que faziam era usar da criatividade para ter o dinheirinho no momento da viagem. Então colocavam um porco pra engordar, separavam um cabrito ou uma novilha no pasto, escolhiam a dedo as galinhas, capões e guinés que serviriam para venda mais tarde. Quando tudo já estava próximo então o animal era vendido e, juntando mais algumas notinhas escondidas debaixo do colchão, a partida estaria garantida.
Viagem longa, de pau de arara ou em cima de caminhonetes, tudo deveria estar realmente nos conformes, pois o desconforto era muito e o cansaço ainda maior. Só mesmo a imensa fé e religiosidade mística de um povo pra fazer com que senhoras de setenta anos ou mais se submetessem à peregrinação romeira tão dificultosa. Muitas vezes quase não andavam em casa, cheias de reumatismos ou outras doenças, mas quando se falava na romaria pro Juazeiro do Padim Ciço aparecia um vigor de dançar forró e correr.
Os preparativos para a viagem eram dos mais engraçados. Digo de cátedra porque muitos parentes, principalmente meu avô Ermerindo e minha avó Emeliana não perdiam uma só romaria. Lembro muito bem que preparavam carne assada, lombo frito, carne de caça passada na brasa, farofa de torresmo, bolo de ovos e de milho e outras iguarias. Como para um piquenique matuto, colocavam cada alimento em vasilhames plásticos, tampavam bem tampadinho e dispunham tudo num saco. Como a viagem era longa, nos pontos determinados mandavam parar o veículo para a festa da barriga.
Contudo, há de se ver que esse alimento todo não era só na medida da viagem não, pois deveria dar para o consumo nos dias em que estivessem arranchados na cidade santa. Por isso mesmo também levavam redes de armar, esteiras e até colchões enrolados. Havendo lá uma casinha já alugada com antecedência de mais de mês, senão corriam o risco de ficar debaixo dos pés de paus ou ao relento mais duro, bastava derrear a bagagem e sem entregarem aos ofícios de devoção.
Mas devoção era só uma parte. A religiosidade mística daquele povo era extremada, porém não era tudo, pois ao lado desse devocionamento todo sobrava um espaçinho para o comércio, para a compra de bugigangas, de novidades de todo tipo, de presentes para os sertanejos que não puderam viajar daquela vez. Daí se encherem de rapaduras, litros e mais litros de uma água benta “batizada”, fitinhas, imagens sacras e principalmente esculturas do grande Padim de todos os tamanhos.
Como muitas daquelas velhas senhoras já haviam experimentado o desprazer de ter suas bolsas roubadas noutras romarias, então inventaram um meio mais que seguro de se guardar todo o dinheiro juntado com sacrifício e que levavam. Mas era uma invenção danada de diferente, trabalhosa, coisa de estilista matuto e pensando em tudo na sua criação. Eis que inventaram de costurar um bolso de zíper por dentro da saia. Assim, quando era feita uma compra e precisava buscar o dinheiro, era só folgar um pouco a saia, colocar a mão e pegar lá a quantia.
O problema é que tinha velha que nem se preocupava em buscar o dinheiro por cima, preferindo maior rapidez no negócio. Então levantava s saia até a cintura e abria o zíper do bolsinho com segurança. Logicamente que para fazer isso tinha de estar vestida com anágua e outros panos por baixo. Só que, pela idade, nem todas lembravam esse detalhe.
E vestidas apenas de saia, sem nada que encobrisse as vergonhas, sem nenhum pudor levantavam os panos tranquilamente. E não havia dinheiro que pagasse aquela visão. E prontamente as pessoas se benziam diante do que viam e elas, sem imaginar nas consequencias do inusitado, se benziam de volta e diziam o quanto era bom estar num meio de um povo tão religioso.
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com