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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Revista "Região" de Crato/CE - A vingança do Tenente Antônio .

Reportagem de Osvaldo Alves

Dizendo chamar-se legitimamente Antônio Manuel Filho, o tenente Antônio de Amélia, famoso por haver vingado a morte de um sócio, matando três cabras de Lampião, recebeu o repórter na sua Fazenda Piau, a cinco quilômetros da cidade de Ouricuri. Naquela visita fizemo-nos acompanhar do Dr. Edilton Luna, Promotor de Justiça de Bodocó e do jornalista Francisco Rocha, correspondente de "Região" no estado de Pernambuco.

A historia do tenente Antônio é longa e cheia de lances perigosos. Nascido em Alagoas, na cidade de Mata Grande, AL pertenceu a Policia pernambucana, na época de Lampião. Hoje é tranquilo fazendeiro em Ouricuri, somente molestado pela insistente curiosidade de algum repórter da revista Região, pois fomos os únicos, até agora, a localizar, no seu retiro, o valente oficial reformado da Policia pernambucana, muitos anos depois de sua arriscada aventura.

Trajando calça escura e camisa branca, óculos de grau a ponta do nariz, foi assim que encontramos Antônio de Amélia no alpendre da Casa Grande da Fazenda Piau. Inicialmente meio arredio, mas logo se derramou em cordialidade e falou com toda franqueza contando sua historia, suas proezas, suas aventuras, finalmente o desfecho com a morte de quatro elementos do grupo de Lampião. Foi bate-papo longo, aqui e acolá entremeado de risos do nosso entrevistado, quando recordava um episódio cômico ocorrido em meio a mais terrível expectativa, nas horas de maior perigo.

Corisco sangra Mizael e desfecha-lhe dois tiros na cabeça.


Primeiro veio a noticia: mataram Antônio Mizael. Corisco - Conta-nos o Tenente Antônio - Tocaiou o meu sócio Mizael. Ele tinha uma propriedade - O sitio Catinga. Deu feira em Inhapi, e depois foi empreitar umas terras para plantação de feijão. Em lá chegando deparou com Corisco, cabra do grupo de Lampião. Com a ajuda de outros três bandidos Corisco amarrou o meu sócio, em seguida sangraram-no e depois deu dois tiros na cabeça. Recebi telegrama em Caruaru comunicando o fato. Meio tonto com a noticia fui a Inhapi e comuniquei ao Prefeito Antônio Mota que iria fazer uma tragédia com a morte de Mizael. Só Deus evitaria de matar um dos cangaceiros. Mizael será vingado, custe o que custar. E preparei o plano.

Familiares do Tenente eram amigos de Lampião.

Após um cafezinho servido as visitas, Antônio de Amélia prossegue no seu relato: "Estando, certo dia, em uma firma comercial, em Inhapi, em companhia do meu amigo corretor Pedro Paulo, expliquei para ele o meu desgosto por ter sabido da grande amizade de pessoas de minha família com Lampião e seus cangaceiros. Sendo eu da família, prefiro ir embora a ver acontecer alguma coisa desagradável com eles. A uma perguntas de Antônio Paulo, que o maior relacionamento de Lampião era com o meu parente Sebastião. Soube até que ele tem um rifle do bandido para consertar, além de um cantil que eles mandaram fazer de zinco e tem ainda umas cartucheiras enfeitadas de metal, também para conserto.

O encontro com Sebastião

Sem mencionar o sobrenome de Sebastião, Antônio de Amélia conta as providências tomadas na articulação de seu plano para vingar a morte do sócio Mizael. Protestando, de inicio, suas ligações com o grupo de Lampião, Sebastião findou concordando com Antônio de Amélia. No momento travou-se este dialogo, entre os dois:

- Sebastião, vamos liquidar esses cabras?

- Não, porque ninguém pode. Eles são muito desconfiados e valentes como cobras venenosas.

- Confie no meu plano. Garanto que dará certo.

- Estou até esperando por alguns deles, para entregar umas encomendas.

A longa espera

Atendendo a uma sugestão de Sebastião, Antônio de Amélia conta que, em companhia de pessoa indicada por Sebastião, se dirigiu para o local não muito distante do sitio onde o seu parente teria encontro com os cabras de Virgolino. Ali aguardaria as noticias de Sebastião ou a ordem para se apresentar na casa onde estavam os bandidos. Antônio de Amélia conta que, durante oito horas, escondido no mato, ficou a espera de Sebastião, que só apareceu as dez da noite, esclarecendo que teve que realizar algumas compras em Inhapi e, de volta, demorou numa festinha de casamento.

- Pensei - disse Antônio de Amélia - que você tivesse denunciado o plano e nós é que iriamos morrer: A seguir Sebastião meio pessimista quanto ao bom resultado do plano do seu parente:

- Não vai dar jeito para vocês, apesar de Lampião não ter vindo com os cabras que já estão aqui. Quem veio comandando os cangaceiros foi Luiz Pedro, agora, tem muita gente. Estão distante daqui, uma légua.

Fingiram haver morto um soldado para gozar da confiança dos cangaceiros.


Distante uma légua do sitio onde se encontravam Antônio de Amélia, seu primo Sebastião e Antônio Tiago, compadre do primeiro e amigo para enfrentar as mais difíceis situações, estava acampado um dos grupos do famoso bandoleiro do Pajeú. Foi neste local, conta Antônio de Amélia, que Sebastião, conhecido do grupo, pois para eles trabalhava em serviço de consertos de armas, costura de embornais e outras atividades de sua profissão, apresentou-me a mim e ao compadre Antônio Tiago: - Aqui é gente minha - esclareceu na hora da apresentação, adiantando: - Eles mataram um soldado e estão refugiados na Casa de João Aires. A policia os anda perseguindo, embora não saiba onde eles se encontram.

A historia da "morte" do soldado, ardilosamente criada por Antônio de Amélia, foi o bastante para que os estranhos passassem a gozar da simpatia e confiança do grupo. Para eles, cabras de Lampião era herói quem assassinasse um soldado e duas vezes herói quem matasse um oficial.

Integrados ao grupo, Antônio e seus companheiros passaram a dar os últimos retoques no plano. Pelo menos já haviam conseguido penetrar no bando, o que muito facilitaria a execução de tudo quanto imaginaram perpetrar para vingar a morte do sócio Mizael. Naquele mesmo dia, a sombra das árvores, comeram, beberam e dançaram, homem com homem.


Antônio de Amélia é o quarto à direita.

Interessante observação nos fez o Tenente Antônio de Amélia, a nos explicasse que mesmo sendo em pequeno grupo, os cabras de Lampião jamais dormiram todos agrupados num mesmo local. Na hora de dormir se espalhavam a fim de garantir uma reação no caso de serem surpreendidos por uma visita desagradável dos volantes policiais.

Encontro com Lampião.

Reunidos ao grupo chefiado por Luiz Pedro, prossegue Antônio de Amélia na sua narração - Fomos a Fazenda de Pedro Ferreira, um amigo de Lampião.

Ali recebidos com muito queijo e carne seca de bode. Neste local os cabras demoraram pouco tempo. Daí seguiram ao encontro do chefe. A apresentação da mais nova aquisição do bando foi feita por Luiz Pedro.

- É gente de Sebastião - explicou o apresentador sob o olhar meio desconfiado de Lampião. Dada a grande confiança que gozava Sebastião junto a Lampião e seus cabras, os visitantes logo puderam ficar a vontade.

Grupo se divide para confundir as volantes 

Contou-nos Antônio de Amélia: Todos os elementos do grupo estavam reunidos. Lampião, tendo ao seu lado a companheira inseparável Maria Bonita, começou a distribuir ordens. Precisava demorar, por muito tempo, naquele acampamento, para repouso, depois de longas caminhadas e reiterados encontros com as volantes policiais e de ataques a indefesas cidades nordestinas. Chamando Suspeita, um dos seus fiéis comandados, ordenou que fosse a cidade de Mata Grande. E prosseguiu o Rei do cangaço:

- Receba umas encomendas de Sebastião e depois, da Mata Grande mate Alfredo Curim, Zé Horácio da Ipueira e faça 6 ou 7 mortes na família dos Bentos que é para ficarmos aqui despreocupados. De lá viaje para onde quiser, que passe fora uns 15 dias a um mês. 

Alegando Suspeita, que os cangaceiros do seu grupo precisavam arrumar certas coisas, Lampião autorizou que retirasse elementos de outros grupos. Foi aí que Fortaleza, que era do grupo de Luiz Pedro, Medalha, que sempre acompanhava o chefe, e Limoeiro, que pertencia a outro, passaram a compor o pessoal de Suspeita para o cumprimento daquelas ordens. Ao mesmo grupo nos incorporamos. Isto é, eu, Sebastião e Antônio Tiago. Mais tarde, quando estávamos de passagem pelo município de Santana, Zeca, irmão de Sebastião e Alfredo, seu primo, se reuniram a nós, após as necessárias apresentações.

Em diferentes direções outros grupos saíram.

Seguindo as ordens do capitão Virgolino, diversos grupos seguiram em diferentes direções, com o mesmo objetivo de desviar a atenção das volantes e facilitar a permanência de Lampião, naquele local: Um deles, disse-nos Antônio de Amélia, se dirigiu a Matinha de Agua Branca, terra da famosa baronesa, cujas jóias foram roubadas por Lampião, no inicio de sua carreira.

Cangaceiros deram para desconfiar.

Acampados no meio da mata, Suspeita e sua gente aproveitaram a presença de Zeca, primo de Sebastião, que era bom rabequista, para, ao lado de uma fogueira, dançarem e beberem durante toda a noite.

Antônio de Amélia prossegue na sua narração: Aproveitando os cabras entretidos na dança, chamei Sebastião e disse para ele: vamos ter um pouquinho de cuidado com os cabras. Parece que eles estão um pouquinho desconfiados. Chamei depois o meu compadre Antônio Tiago e combinamos:

- O primeiro tiro será dado por mim em "Fortaleza". Compadre Antônio cuida de "Limoeiro" e Sebastião de "Suspeita".

Aguardaremos, com cuidado a melhor oportunidade. Neste momento pude observar que Suspeita e Fortaleza se isolaram do grupo e, todos equipados, se dirigiam a um riacho nas proximidades do lugar de nosso acampamento.

Foi aí que Sebastião se dirigiu até o local onde os dois se achavam e perguntou:

- O que está havendo com você, Suspeita, que está triste e capiongo? 

Ao que Suspeita exclamou:

- Nada não, companheiro. Quem anda nessa vida precisa ter todo cuidado. Precisa confiar desconfiando.

Sebastião retrucou:

- Então está desconfiando de mim que tudo tenho feito por vocês e gosto de você e do Capitão? Neste caso não mande mais me chamar para coisa nenhuma. E saiu para perto da fogueira.

Diante da reação de Sebastião tudo voltou ao normal no acampamento, mesmo porque advertir, - disse Antônio de Amélia - para cessar a dança e o barulho da rabeca, pois dada a pequena distancia daquele local para a estrada, poderiam ser surpreendidos por alguma volante.

Tentativa frustrada.


Prosseguindo na entrevista, comenta Antônio de Amélia: todos reunidos ao pé da fogueira contavam anedotas ou relembravam fatos pitorescos ocorridos em outras ocasiões. Medalha levanta-se e se encontra a um pé de catingueira, enquanto Fortaleza se ampara em um toco escorou o embornal e ficou voltado para o fogo. Limoeiro, ao lado de Antônio Tiago, ouvia as historias que outros contavam. Foi neste momento que, ao me aproximar cautelosamente de Fortaleza, baixei o mosquetão em cima dele mas pinou a bala. Foi quando procurei despistar colocando rápido o rifle as costas e fui passando debaixo dos galhos das árvores. 

Nisto gritou Limoeiro:

- O que foi?

- Foi o galho que pegou aqui na mira do rifle.

Passando o episódio, frustrada a primeira tentativa de liquidar os bandidos, pude distanciar-me um pouco e sacudi a bala fora, colocando outra na agulha. Antes, justifiquei o caso afirmando inexperiência no uso de armas daquele tipo.

A hora da vingança.

O momento da vingança chegou: disse o tenente Antônio, de volta após mudada a bala que falhou e colocada outra na agulha, desci o mosquetão e o primeiro tiro pegou na cara do bandido Fortaleza, que enterrou os pés e caiu em seguida por sobre os paus. Dei o segundo tiro que o atingiu no ombro. Nisto ouvi disparo: Era compadre Antônio Tiago havia atirado em Limoeiro, enquanto numa sequência rápida, Sebastião pegou Suspeita pelo meio.

Alfredo ataca Medalha e saíram aos trancos e barrancos numa luta corporal danada. Corri para lá e encontrei suspeita com Sebastião imprensado na ribanceira do riacho tentando puxar o punhal que, por ser grande demais, não dava para arrancar da cintura. Sebastião então grita para mim: chegue se não este cabra me mata. Bati com a boca do mosquetão no pé do ouvido do cabra que o sangue acompanhou. Nisso Sebastião pode dominar Suspeita e joga-lo no chão. Quis usar novamente o mosquetão, mas Sebastião gritou:

- Não atire que você pode errar e me atingir, e mesmo o bandido já está morrendo.

Em seguida corremos para o lugar onde António Tiago e Limoeiro se engalfinhavam numa luta de gigantes. Eram dois negros enrolados numa luta feroz.

Nisso Sebastião pegou nos cabelos de Limoeiro e exclamou: 

- Foi este bandido que sangrou o finado Mizael. 

- Fui mandado, disse Limoeiro. Pelo amor de Deus não me sangrem. Atirem na minha cabeça, mas não me sangrem. 

Um tiro reboou na mata. Caia morto o terceiro bandido. Estava vingada a morte do amigo de Antônio de Amélia. Partimos para o lugar onde Alfredo, pegado com medalha, tentava matá-lo. Alfredo é desses cabras vermelhos de cabelo ruim que quando pegam um não soltam. Ao nos ver disse:

- Decá uma faca. Deixem eu matar este peste.

Não permiti que matasse, explicando que deveria levá-lo para ser entregue as autoridades.

O diálogo entre Sebastião e Medalha

Outro episodio que nunca foi citado nos livros e reportagens sobre o rei do cangaço foi o que passamos a enfocar: já amarrado, pés e mãos, Medalha exclamou para Sebastião a que passou a tratar de Tião:

- Como é que você faz dessas... chamar seus parceiros para vir matar a gente?

Ao que Tião responde:

- Vocês estão acostumados a matar com facilidade, nós também podemos matar vocês na facilidade.

- Eu não sou homem para ser preso, me atirem na cabeça... me sangrem que eu fico satisfeito.

- Você está preso e garantido, explicou Tião.

No meio da luta uma segunda vingança

Praticamente encerrado o impasse entre matar ou prender, entra em cena novamente Alfredo, de arma em punho. Com revólver colocado por cima dos ombros de Tião, desfechou um tiro certeiro na cabeça de medalha. Tombou o quarto bandido. É o próprio Tenente Antônio de Amélia, explica a interferência de Alfredo no caso Medalha:

No meio da luta o velho Felix, pai de Alfredo, ao se aproximar do local do acampamento foi atingido por uma bala no peito esquerdo e foi fulminado na hora. O filho, como um louco, viu o pai cair morto e não teve outra alternativa a não ser a de matar, com a pistola de Limoeiro, mais um bandido do grupo sinistro de Lampião.

Exposição macabra dos bandoleiros e no caixão Félix Alves, pai de Alfredo.



O enterro coletivo dos quatro cangaceiros no cemitério de Mata Grande.
Noite Illustrada, Edição 319 de 12 de outubro de 1935. Página 10
 Cortesia do scanner: Robério Santos

Créditos: Roberto de Carvalho 
Transcrição Antonio Moraes para o Blog do Sanharol 
Correções e adição de imagens: Lampião Aceso

Adendo Lampião Aceso

A literatura nos diz que este grupo foi orientado pelo tenente Joaquim "Grande", mas em nenhum momento este ou outro oficial é citado por Antônio de Amélia. De acordo com a legenda das duas primeiras fotografias o fato ocorreu entre 18 e 19 de setembro de 1935 em Mata Grande Alagoas.

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Fazenda Mato Verde e a Ladeira do Mato Verde

Por Rostand Medeiros

Na tarde do dia 12 de junho de 1927 Sabino estava a frente da coluna, comandando um subgrupo que se deslocou com a intenção de atacar a Fazenda Mato Verde, tida como local de pessoas abonadas. Ao chegar ao casarão ele e seus homens perceberam que o mesmo estava abandonado, praticamente vazio e quase nada foi trazido de proveitoso.

Seus moradores, comandados pela matriarca Tionila Nogueira Barra, buscaram refúgio na Fazenda Passagem Funda, a cerca de três quilômetros de sua propriedade, onde se abrigaram por 30 dias em uma gruta denominada “Taipa de Zé Felix”. Clique e confira artigo já publicado sobre este local.

Sobre esta questão vale ressaltar que muitos moradores desta região buscaram esconderijo em cavidades naturais da zona rural de Felipe Guerra, principalmente na área do chamado Lajedo do Rosário.


Atual situação da antiga sede da fazenda Mato Verde atacada por Sabino e seus homens.

O casarão do Mato Verde chama atenção pela imponência de sua construção. Atualmente, como é possível observar a foto anterior, o local se encontra em ruínas, sofrendo um processo de franca degradação. Entretanto comprovamos que foi erguida uma reforçada cerca de arame farpado, fechando exclusivamente a área do casarão. Segundo pudemos apurar, os descendentes da família Barra realizaram este trabalho na tentativa de proteger o que resta deste patrimônio.

A casa estava sendo destruída para a retirada de materiais de construção e por escavações realizadas nas suas paredes, na tentativa de serem localizadas e retiradas às conhecidas “botijas”, como no caso anteriormente comentado da fazenda Aroeira, onde foi sequestrada a senhora Maria Lopes.


Vista da antiga ladeira do Mato Verde, hoje praticamente sem uso.

Em relação a ladeira do Mato Verde, através do relato do agricultor João de Deus de Oliveira, conseguimos algumas informações. Ele nasceu na antiga gleba, até hoje mora em uma propriedade próxima a fazenda Mato Verde e da famosa ladeira homônima. Ele nos esclareceu que na época da passagem de Lampião, seus pais trabalhavam para Tonila Barra e junto com seus familiares fugiram em direção a Passagem Funda. Segundo informações transmitidas pelos seus pais, no passado a ladeira do Mato Verde era a principal passagem para os tropeiros e viajantes que seguiam entre a região salineira e a fronteira entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte.

Visual da casa da fazenda Mato Verde e do carnaubal característico da região.

Era normal o tráfego de comboios formados por carros de boi rangendo na subida e na descida, transportando rapadura do Cariri, algodão, sal, cera de carnaúba, produtos alimentícios diversos e outros gêneros. Seus antepassados lhe comentaram que os primeiros automóveis e caminhões que circularam na região, igualmente seguiram por esta ladeira.

Vista do alto da ladeira do Mato Verde, local onde Lampião passou com seu bando.

Devido a este aclive ter sido feito em um local íngreme, nos períodos de chuva era normal o pavimento ficar deteriorado. Foi então criada outra ladeira, localizada a um quilômetro a leste do Mato Verde, denominada ladeira do Riacho Preto, onde atualmente circulam inúmeros veículos entre as cidades de Governador Dix Sept Rosado e Felipe Guerra. 

Não conseguimos apurar a informação se a ladeira do Mato Verde foi criada pela família Barra, ou se eles edificaram esta casa nas proximidades deste local, com o intuito de aproveitar a passagem de viajantes e assim facilitar possíveis negociações. Entretanto visitando o local é fácil compreender a importância deste local para a história da região.

O cangaceiro Massilon

Percebemos igualmente que, mesmo sem a participação de Massilon neste ataque, este local certamente lhe era conhecido e a família Barra. Logicamente Massilon transmitiu as informações para Lampião e Sabino e este último realizou a “visita” ao local.

Em nosso entendimento, acreditamos que a passagem de Sabino igualmente serviu, até pela proximidade entre a velha casa e a ladeira atualmente com pouco utilizada, para um reconhecimento tático desta passagem. Verdadeiro ponto nevrálgico do trajeto, onde a coluna teria de passar em fila e uma pequena quantidade de policiais bem posicionados poderia infringir sérios reveses aos cangaceiros.

Massilon, Lampião e Sabino Gomes

No retorno ao sítio Santana, onde estava o resto do bando, Sabino e seus homens se depararam com automóvel onde se encontravam um motorista e o fazendeiro Antônio Gurgel do Amaral, que se tornaria a mais famosa vítima da passagem de Lampião pelo Rio Grande do Norte.




Sítio Tabuleiro Grande – Esta propriedade situa-se após a ladeira do Mato Verde, em uma área onde atualmente as carnaubeiras desaparecem e retorna a dura vegetação típica da caatinga. Esta região atualmente é entrecortada por diversas estradas de barro, que servem e são mantidas em ótimas condições pela Petrobrás e suas inúmeras empreiteiras.

A partir deste ponto, com suas inúmeras tubulações, poços de petróleo onde se encontram as bombas do tipo “cavalo de pau”, o pesado tráfego de caminhões tanque, a ação de extração de petróleo por parte da Petrobrás se torna uma imagem constante na paisagem.

Na época de Lampião o que se via era um deserto de mata crestada e algumas poucas casas. Esta situação de certa maneira perdura, pois durante toda a nossa jornada seguindo os rastros dos cangaceiros esta foi a zona mais desabitada que encontramos.

Uma das poucas casas atacadas foi à sede da propriedade Tabuleiro Grande, atualmente demolida. Entretanto, através do relato de Edmundo Paulino da Silva, morador do sítio Arapuá, ele nos informou sobre um interessante relato que lhe foi passado pelo seu pai e avô, respectivamente João Paulino da Silveira e Pedro Filho.

Um conjunto de casas alteradas e abandonadas, ainda existentes a margem da mesma estrada que serve como ligação entre as cidades de Governador Dix Sept Rosado e Felipe Guerra, pertencente às terras do Tabuleiro Grande, foi igualmente invadido pôr uma tropa avançada do grupo de cangaceiros.

O lugar pertencia a Pedro Jurema, que tinha uma pequena mercearia no lugar. No momento da passagem do bando um pequeno grupo de comboieiros de algodão estava no local. Pedro Jurema jogou pela janela um saco com suas parcas economias e saiu pela mesma janela em desabalada carreira. Segundo Edmundo, Pedro Jurema fugiu e deixou “que seus fregueses se entendessem com os homens de Lampião”.

Segundo o agricultor Edmundo Paulino da Silva, estas casa abandonadas, já bastante alteradas, teriam sido o local onde existiu a mercearia de Pedro Jurema, invadida por membros do bando, que só não atearam fogo em um comboio de algodão, por ordem de Lampião.

Os cangaceiros então invadiram a bodega, passaram a beber cachaça tranquilamente e a “aliviar” os comboieiros de seus pertences. Logo, movido pelo álcool, um dos cangaceiros teve a infeliz idéia de queimar o algodão transportado. Neste momento chega Lampião que interrompe a farra.

Ele prontamente cancela a ordem de tocar fogo no produto transportado elos comboieiros. Estes ficam muito agradecidos ao chefe do bando. Logo os transportadores de algodão começam a tanger seus animais e se afastam rapidamente do local.

Rostand Medeiros é historiador e pesquisador do cangaço e outros assuntos.
Natal/RN

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quinta-feira, 8 de maio de 2014

O PAU COMEU, MANÉ

Por Clerisvaldo B. Chagas, 8 de maio de 2014 - Crônica Nº 1.184

Quando o técnico Scolari terminou de anunciar os convocados, Zé Bodó nem esperou mais. Correu para o Bar do Rabudo, pediu uma cachaça e emborcou a “marvada” de uma só vez. Cuspiu no pé do balcão e lascou o murro na prateleira, quebrando garrafas de todo tipo. Rabudo ficou vermelho e quis experimentar o pé do ouvido de Bodó. Rabudo indagou:

Imagem: (cidadenewsitau.blogspot.com).

- Por que você está assim, seu fio da peste. – e danou-lhe o braço por cima do bebedor de lavagem, segundo Pedro Peba, testemunha fiel do embate.

Bodó caiu com as pernas pra cima quebrando as cadeiras do bar. Levantou-se e gritou:

- Eu sabia que aquele fi’ duma égua não ia convocar Robinho!

- E eu tenho nada a ver com boba de Robinho, seu sacana!

- Tem não, é! Pois você vai ver! Somente mãe pode bater nessa carinha que ela beijou!

- Você vai pagar meu prejuízo, cabra fio de uma porca! Tá pensando que meu bar é campo de futebol, desgraçado! Eu tenho nada a ver com Robinho, Kaká e esses porras todo!

Preguinho ia chegando na hora e gritou para o dono do bar:

- Coidado, Rabudo, olhe a faca!!!!

E era uma faca mesmo. Zé Bodó levantou-se como touro brabo e partia para o dono do bar com uma faca-peixeira na mão. Rabudo tentou correr, mas uma facada tirou-lhe couro da bunda.

Preguinho gritou de novo:

- Chega gente, vamo pegar o home!

Zé Bodó virou-se para o outro lado e foi logo advertindo:

- Eu derrubo o fato do primeiro cachorro que encostar!

Maria, mulher de rabudo, foi pegar um taco de sinuca e partiu para rachar a cabeça do bebão. Bem perto de Bodó, pisou em falso e caiu desmantelada. A saia foi pra cabeça e não tinha nada por baixo.

Zé Bodó berrou esperto:

- Eu não vou te cortar fia da boba, porque você já tá de bunda cortada, mas esse tá de Preguinho vai levar uns furos.

E lá vai o cabra correndo em direção a Preguinho e aos outros clientes.

Rabudo já voltava com uma garruncha do tempo que Adão comprava fiado e apontou pra o sujeito. Mas, três homens se abrufelaram com o bebão e a faca voou longe. Dois outros indivíduos tomaram o partido do bebão e, a coisa rendeu. Quando a polícia chegou, todo mundo ficou manso.

Um sargento fez uma avaliação do campo, treinou umas duas mãozadas, convocou o time, escalou os briguentos e apitou o fim do jogo. Depois de assinar a súmula levou todos para o hotel de onde se vê o sol quadrado.

O bêbado, na fileira, ainda disse para Rabudo, trincando os dentes:

- Se Robinho não jogou hoje, mas amanhã eu venho e você vai ver Kaká.

Bem, do outro dia eu não sei, mas nesse aí o PAU COMEU, MANÉ!



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O MEDO QUE O MEDO DÁ

Por Rangel Alves da Costa*

O medo é uma coisa terrível, assustadora, desesperadora demais só em pensar. Causa pânico, pavor, nervosismo, ataques. Medo da noite e dos seus mistérios, medo da morte, medo da perda, medo de passar novamente pela mesma terrível situação, medo porque fez o que não deveria fazer. Tudo é medo e tudo dá medo.

Segundo os livros, medo é uma reação física ou mental que estimula alerta no organismo diante da possibilidade de enfrentamento de determinadas situações; é a perturbação resultante da ideia de um perigo real ou aparente ou da presença de alguma coisa estranha ou perigosa; é o sentimento inquietante que se tem diante de perigo ou ameaça. Pavor, terror, fobia, receio, ansiedade, pânico. Tudo é medo.

O susto, por mais que apavore, é mera consequencia do medo. Do mesmo modo o desequilíbrio, a incerteza, o grito, o silêncio sepulcral. Cortar a noite escura na solidão, por veredas incertas e cheias de labirintos, por mais que os olhos apavorantes ou os tentáculos afiados não existam ao redor da moita, ainda assim o medo já dá existência aos seres estranhos escondidos.

O medo possui feições tão cotidianas que as pessoas vivem amedrontadas sem saber. Desses fatores apavorantes, o medo da tristeza, da dor e do sofrimento é um dos mais terríveis. Não é difícil perceber pessoas afirmando que não gostam de estar alegres demais para que mais tarde a tristeza não chegue. Então deixam de viver suas alegrias por achar que a medida da vida é a lei do inverso.

E geralmente acontece assim mesmo porque o medo de acontecer o pior mais tarde já predispõe o espírito agora. Por isso o benzimento diante do inusitado, do temido, do desconhecido. Por isso o pavor de passar embaixo de escada, de não entrar com o pé direito em qualquer lugar, de vestir a roupa pelo avesso, de cumprimentar com a mão esquerda, de ser esconjurado pelo inimigo, de ser amaldiçoado pelos mais velhos.


Tem gente que tem medo da chuva, medo de avião, medo do doido, medo da língua do povo, medo que um vento ruim entre pela sua boca aberta. Vai estuporar se tomar ou comer coisa quente e tomar banho, se molhar ou sair pro sereno; vai morrer quem tomar água da primeira chuva; vai ter azar pelo resto da vida quem tiver um gato preto cortando seu caminho. Como se vê, tudo é medo.

Tem gente que não dorme com medo de não acordar, pessoa que não namora por medo de se apaixonar, indivíduo que não come pra não engordar. A zinha tem medo que o povo descubra que está traindo o marido, este tem medo de ser chifrado; aquela tem medo de engravidar porque zombou de um aleijado e dizem que o filho de quem age assim nasce com o mesmo problema.

E essa lua bonita, tão cheia e tão volumosa, por que causará tanto medo? E esse sol brilhoso, todo irradiante e iluminado, por que causará tanto temor? Basta perguntar ao doido que teme a noite de lua cheia, que teme o seu juízo ruim querer ser tomado pela espada de São Jorge. Que pergunte ao sertanejo que tem o sol escaldante como maior ameaça de sua existência.

Estranhamente, todo mundo tem medo do fogo feroz e escaldante, mas continua somando pecados. Porque ninguém tem mais medo de não seguir os conselhos dos pais, de infringir os preceitos bíblicos, de fazer o que antigamente seria impensável fazer. Quem tem medo do juízo final se a vida só se completa no pecado mortal?

Ainda bem que tudo está iluminado. Tenho medo do escuro e mais ainda do bicho-papão que mora debaixo da cama. Mas também tenho medo que ele saia da minha vida, da minha imaginação, pois tenho medo de perder para sempre um pouquinho de criança que ainda dorme e vive comigo.

Poeta e cronista
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Só enquanto não vem cangaço - Jair Rodrigues morre aos 75 anos


Segundo produtora, cantor estava em casa, em Cotia (SP). Ele era conhecido por sucessos como 'Disparada' e 'Deixa isso pra lá'. Do G1, em São Paulo.

Morreu Jair Rodrigues, aos 75 anos, anunciou a produtora do cantor nesta quinta-feira (8). De acordo com a JRC Produções, o cantor estava em casa, em Cotia (SP). Não foi divulgada a causa da morte e o corpo seguiu para o Instituto Médico Legal no começo da tarde.


O velório será na Assembleia Legislativa, em São Paulo, no final da tarde, em horário ainda não anunciado oficialmente. O enterro está marcado para o Cemitério do Morumbi na sexta-feira (9).

Ao G1, uma pessoa que se identificou como empregada doméstica de Jair afirmou por telefone que ele morreu "provavelmente de um mal súbito". Segundo ela, o cantor foi dormir normalmente na noite desta quarta-feira (7) e foi encontrado morto, já na manhã desta quinta-feira (8).  A funcionária não quis informar se ele estava sozinho em casa. "Está todo mundo desesperado, porque ninguém estava esperando", disse.



Começo nos anos 60

Jair Rodrigues de Oliveira nasceu em Igarapava (SP), em 6 de fevereiro de 1939. Pai dos também cantores Jair de Oliveira e Luciana Mello, ele começou sua carreira nos anos 1960, em programas de calouros. Três anos antes, foi crooner em casas no interior de São Paulo.


Em 1962, gravou aquele que é considerado seu registro de estreia, um disco de 78 rotações. Segundo o perfil, duas das músicas, "Brasil sensacional" e "Marechal da vitória", tinham como tema a Copa do Mundo daquele ano, no Chile, que foi vencida pela seleção brasileira.

Em 1964, gravou seus dois primeiros LPs, "Vou de samba com você" e "O samba como ele é". Seu maior sucesso no período foi a música "Deixa isso pra lá", tida como precursora do rap no Brasil.


Marcada pelo movimento característico das mãos de Jair Rodrigues, a faixa foi regravada em 1999 em parceria com o grupo Camorra, diz o perfil.

Jair Rodrigues também ficou conhecido pelo trabalho ao lado de Elis Regina. Os dois iniciaram a colaboração em 1965 e lançaram o disco ao vivo "Dois na bossa".

A boa repercussão do LP rendeu o convite para apresentar o programa "O Fino da Bossa", que estreou em maio daquele ano na TV Record. Com Elis, o cantor lançou em 1966 e 1967 outros dois volumes da série "Dois na bossa".



A vitória no II Festival de Música Popular Brasileira, em 1966, foi outro ponto marcante da carreira de Jair Rodrigues.

Ele concorreu com "Disparada", escrita por Geraldo Vandré e Teo de Barros). Na final, dividiu o primeiro lugar com "A banda", composição de Chico Buarque interpretada na ocasião por Nara Leão.


Em 1975, nasceu Jair Oliveira, o Jairzinho. Foi estrela do grupo infantil Balão Mágico e depois passou a cantar MPB.

Quatro anos depois, nasceu Luciano Mello. Influenciada pelo pai e pelo irmão, também seguiu a carreira musical.


Nos últimos anos, Jair Rodrigues seguia na ativa em projetos com os filhos, em discos lançados por ele e também ao participar de homenagens para Elis Regina. Em 2012, participou de eventos que lembraram os 30 anos de morte da cantora.

Ele seguia em turnê para divulgar seu disco mais recente, "Samba mesmo", que teve dois volumes lançados em março deste ano. Jair tinha apresentações marcadas para os próximos dias em Florianópolis e Contagem (MG).


Segundo o organizador do show,  Daniel Moura, Jair cantou e dançou por mais de uma hora demontrando a típica alegria e vitalidade. Ele plantou bananeira no palco e fez uma homenagem para Elis Regina. Segundo Moura, antes de "Romaria", conversava com a cantora como se ela estivesse no palco: "Olha Pimentinha, manda um abraço para São Pedro porque eu não estou com pressa".

http://g1.globo.com/sao-paulo/musica/noticia/2014/05/morre-o-cantor-jair-rodrigues-aos-75-anos-diz-assessoria.html

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Sabino Gomes O ataque a Cajazeiras

Por: Francisco Frassales Cartaxo

O ataque a Cajazeiras,(PB) comandado por Sabino Gomes (foto), no dia 28 de setembro de 1926, teve enorme repercussão na imprensa, pela ousadia da investida contra uma cidade importante para os padrões da época: servida por estrada de ferro, polo agroindustrial algodoeiro, comercio expressivo, sede de bispado, centro cultural e de ensino reconhecido no Nordeste e outros fatores. A vida e a trajetória de Sabino Gomes permanecem nebulosas, muito embora tenha sido ele um destacado subchefe de grupo ligado a Lampião presente no noticiário da imprensa na década de 1920, auge o banditismo nordestino.

Talvez tenha partido da imprensa do Ceará, a primeira informação acerca daquela agressão a Cajazeiras. Digo talvez porque ainda não tive condições de realizar pesquisa mais ampla nos jornais da época. Mas é certo que o diário “O Nordeste”, órgão da diocese de Fortaleza, por exemplo, noticiou o fato logo no dia seguinte, ainda que com dados precários, sujeitos à correção, como se pode ler na matéria sob o título de “A próspera cidade de Cajazeiras, na Paraíba, é atacada pelo grupo de Sabino Gomes”, veiculada no dia 29 de setembro, a partir de informe telegráfico recebido de Lavras da Mangabeira:

O cangaceiro Sabino Gomes

"A cidade de Cajazeiras foi surpreendida, ontem, por um ataque de 38 cangaceiros, chefiados por Sabino Gomes, resistindo até às 22 horas, quando os bandidos, dando-se por vencidos, retiraram-se, tomando a direção do Cariri. Houve três mortes e duas casas incendiadas. Na Estrada de Ferro conseguimos colher os pormenores que se seguem enviados pelo telegrafista da estação da via férrea Ceará/Paraíba, ali existente”.

Ontem às 14 horas o bando do terrível Sabino Gomes, comparsa de Lampião, passou em Baixa Grande, a duas léguas daqui, em viagem para esta cidade, tendo ali assassinado pai e filho, Raimundo Casimiro e Francisco Casimiro, por não terem os mesmos a importância que os facínoras exigiram. 


Às 17 horas alcançaram a residência dos doutores Coelho Sobrinho e José Almeida, estando presente o doutor Abdiel, os quais, para garantia e honra das suas famílias deram joias e dinheiro que somaram a mais de três contos de réis, incluindo o anel do engenheiro de um deles. Na mesma rua mataram o soldado Domingos Monteiro, o alfaiate Eliezer Alexandre e Cícero Corneteiro. Os prejuízos dos roubos e incêndios são superiores a 50 contos de réis. Na entrada do comercio mataram os bandidos uma criança de dez anos. Assaltaram depois a residência do coronel Sobreira, o qual, não se sujeitando à quantia exigida foi atacado à bala, reagindo, havendo forte tiroteio. Os bandidos não conseguiram entrar no comercio, devido à forte resistência da população”.

No dia seguinte, 30 de setembro, “O Nordeste” comenta que “A população defendeu galhardamente o comércio, resistindo e repelindo a ação dos bandoleiros que recuaram, conduzindo três companheiros feridos. Os doutores Coelho Sobrinho, Abdiel Ferreira e José Almeida foram as primeiras pessoas atacadas, sendo o segundo roubado em um anel de engenheiro no valor de oitocentos mil réis”.

No correr do mês de outubro de 1926, vários números daquele jornal continuaram a repercutir a ação dos bandoleiros, sempre ressaltando a audácia do ataque a Cajazeiras e a eficácia da resistência civil à investida dos homens de Sabino Gomes. 
Os cangaceiros e Cajazeiras sitiada

Os cangaceiros e Cajazeiras sitiada

Por Nadja Claudino


28 de setembro de 1926, um menino de oito anos de idade se esconde debaixo da cama dos pais. Ele e outras crianças estão acuadas a espera do ataque do bando de cangaceiros liderados por Sabino Gomes (sub-chefe do bando de Lampião, o temível e famoso Rei do Cangaço). A cidade de Cajazeiras está em suspense à espera dos homens selvagens que viriam do mato, prometendo todo o tipo de destruição, caso não fossem obedecidas as suas exigências.


O sol quente, o calor abafado são alguns dos elementos menos perceptíveis nessa tarde de medo e ansiedade. Os homens testavam as armas, procuravam pontos estratégicos para a defesa da cidade. Na igreja, o bispo defendia sua fé, rezando, pedindo aos céus intervenção para que Nossa Senhora da Piedade protegesse a cidade, os homens, e mesmo os cangaceiros – que fossem eles embora com a graça de Deus. Os cangaceiros nas cercanias da cidade esperavam o melhor momento para atacar; o povo esperava o ataque. A cidade estava sofrendo com a espera angustiada.

Ivan Bichara

O menino embaixo da cama se chamava Ivan Bichara Sobreira, que muitos anos depois escreveu um livro intitulado "Carcará", romance que conta essa história acontecida em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, em uma distante tarde do mês de setembro de 1926. O romance mostra uma Cajazeiras orgulhosa da sua história, por ser uma das maiores cidades do sertão, rota de ligação da Paraíba com o Ceará, cidade símbolo da educação. Terra de famílias tradicionais como os Rolim, Albuquerque, Sobreira, Bichara. É essa cidade e são essas famílias que estão sendo ameaçadas por um grupo de cangaceiros, personagens que tanto atemorizavam a região sertaneja da década de 20 até meados de 1940, quando a morte de Corisco baniu o último dos cangaceiros.

Podemos pensar no pavor que acometia todas essas famílias, preocupadas com o destino dos seus homens e suas mulheres, caso caíssem no poder dos cangaceiros. A perversidade dos cangaceiros era altamente propagada. Os estupros de mulheres casadas e até de moças virgens, a castração dos homens, a mutilação da língua dos traidores que falavam demais, os bailes que os cangaceiros promoviam depois da vitória, fazendo as mulheres mais respeitadas da sociedade dançarem nuas na frente dos filhos e dos maridos. Verdade ou invenção eram essas as histórias que corriam de cidade em cidade.

E por conta disso os homens que protegiam Cajazeiras estavam em uma guerra de vida ou morte, de glória ou de humilhação. Ivan Bichara, traduziu esses acontecimentos que marcaram tão profundamente sua infância por meio da literatura. O moço Ivan como muitos rapazes do seu tempo sai de Cajazeiras para terminar seus estudos e se forma na Faculdade de Direito do Recife.

Volta à Paraíba e começa uma carreira política promissora, sendo eleito em 1946 para a Assembléia Legislativa, em 1955 se elege deputado federal e, em 1975, é escolhido pela Assembléia Legislativa governador. Ivan Bichara integrou um time seleto de políticos escritores da Paraíba, a exemplo de Ernani Satyro, José Américo de Almeida, Ronaldo Cunha Lima, dentre outros, que assumiram o governo do estado e deram importante contribuição às letras paraibanas.

O romance Carcará toma Cajazeiras como representativa de muitas cidades do interior do nordeste que foram atacadas por bando de cangaceiros. A verdade é que as cidades do interior eram desguarnecidas, os meios de comunicação eram incipientes e não conseguiam tirar do isolamento os lugarejos mais distantes. Esse era um dos fatores por que a maioria das cidades capitulava frente às investidas dos cangaceiros.

Mossoró, no Rio Grande do Norte, no ano de 1927, expulsou os cangaceiros da cidade, sendo também uma das primeiras cidades a desafiar o Rei do Cangaço. Esse passado de lutas até hoje é preservado pela população mossoroense, usada como discurso histórico, político e cultural. São museus, memoriais, livros, discursos que formulam a identidade de um povo valente, que não aceitou os invasores. Em Cajazeiras, a expulsão dos cangaceiros não foi explorada dessa maneira, foi silenciada, esquecida e tem no livro de Ivan Bichara uma significativa fonte de pesquisa.

O livro traz personagens representativos do universo sertanejo. São rapazes que na época desejam migrar para os grandes centros e assim poderem dar continuidade aos seus estudos, moças casadoiras, poderosos locais como coronéis, políticos, delegados e também a gente do povo, feirantes, cantadores de viola, que se movimentam e nos prendem nas teias do enredo. O livro de Ivan Bichara é inspirado em um fato real, que ele soube narrar com enorme expressão literária, ligando seus personagens à vida de um Nordeste arcaico, recôndito, lugar de acontecimentos inusitados. O ataque dos cangaceiros, a ansiedade, o medo das perversidades, tudo isso envolve o leitor do Carcará, fazendo com que ele também se angustie, tome amizade pelos personagens, se importe com sua vida e com o seu destino nas mãos dos cangaceiros.

Ivan Bichara integra a vida com a literatura, fazendo a vida pulsar em cada parágrafo. A ansiedade do menino deu subsídios para, juntamente com a técnica literária do homem escritor, gerarem um livro que mesmo empoeirado e esquecido nas estantes das bibliotecas públicas nos remete a um passado que merece ser lembrado.


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COLUNA DO AGENOR Ao JORNAL O ANACOLUTO DE CUBATÃO.


Este  foi o Senhor  ORESTO  BARBOSA,  tinha apelido de  MARANCÓ. Era natural do  ESTADO  da   BAHIA, e  foi  SOLDADO de  LAMPIÃO. Morava na  COTA 400, bairro  da  cidade  de  Cubatão-SP. Ajudou a construir  a Via Anchieta,  e foi  aposentado  do  DER, agora  ja  falecido.

Sugiro  às autoridades do  Conselho de  Cultura de  Cubatão, que  DECLARE   como  Patrimônio Cultural,  e   que as  suas FOTOS sejam  catalogadas  e arquivadas no  MUSEU  de  CUBATÃO,  ou  na  Secretaria  de  Cultura.

Agenor Antonio de Camargo,
Lider Comunitario a 35 anos e Membro Conselheiro da Agenda  21.
Rua 20 nº 91- Cota  200 - Cubatão-SP.
RG.  7.111.931-sp.,  == Cel.: 9771-0394.

Fonte:
http://anacolutocubatao.blog.uol.com.br/arch2011-08-01_2011-08-31.html
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