João Malamanha
era um verdadeiro King Kong, era todo fora dos padrões humano. Ninguém se
atrevia ficar perto dele por muito tempo, àquele desajeitado homem
poderia a qualquer momento se transformar num gigante, numa fera diante dos
homens, aliás, ele já era por natureza agigantado.
Uma vez o João
Malamanha matou um domador de leões no circo com três cocorotes dados com o seu
desconforme braço, só porque o infeliz batizou um dos seus leões de João
Malamanha. Mas mera coincidência. O domador nem sabia a sua existência. Chegara
em Mossoró no meio do GranCircus. Como os seus restritos amigos assistiram a
um dos espetáculos do circo, posteriormente contaram para ele que lá existia um
leão chamado João Malamanha.
E deixar
aquela ofensa pra lá, de jeito nenhum! O desajeitado homem resolveu ser um dos
pagantes daquele circo. E assim que o domador trouxe o leão para dentro da
jaula, no momento da sua apresentação, começou a chamá-lo de João Malamanha. Ele pulou a cerca de proteção, agarrou o homem e deu-lhe três cocorotes fortes
em sua cabeça, deixando-o já pronto para o enterro.
O leão ao ver
o seu domador morto, partiu para cima do João Malamanha, tentando agarrá-lo pelo
pescoço para sangrá-lo, e com a ligeireza do Malamanha, com toda a sua força,
pegou o leão por baixo do vazio tinha um peso aproximadamente de 250 quilos,
levou-o às alturas de 3 metros, mais ou menos, e ao cair ao chão, o felino ficou
prontinho.
Agora o João
Malamanha estava sentado no banco dos réus, porque matara o domador por pura
maldade. Ninguém fica sem passar por apuros. Se os outros que devem a justiça, e
têm que pagar pelos seus atos, o João Malamanha é igual aos outros. Só porque
tinha corpo e braços de marreta de 8 quilos quando batia em alguém, não podia
se sentar no banco dos réus? Ora! Ora! E para surpresa, algemado pelos pés e
mãos. O homem era um imundo e tinha que ficar algemado por completo. Ora sim
senhor!
Diante daquela
gente toda o réu se sentia humilhado. Todos com braços e pernas soltos. Por que
só ele tinha direito a umas algemas, e ainda mais preso pelos quatro membros?
Achava ele que era uma verdadeira humilhação.
Mesmo algemado
de cima abaixo todos que ali estavam, sentiam receio. Aquele homem não era flor
que se cheirasse, a sua força era de gigante. Cada braceada que ele tentasse
contra alguém, seria prejudicial a todos.
Até mesmo o
juiz já pensava em absorvê-lo, temendo uma vingança do João contra ele. O
promotor de acusação nem quis falar, porque segundo o comentário que saiu
depois, ao ver o homenzarrão ali sentado, já estava com as calças todas com
fedor de urina.
O promotor de
defesa temendo ser banido pelo Malamanha, isto é, se perdesse a guerra, sabia
muito bem que o João Malamanha não o perdoaria, e além de levar uma boa surra
do homem, talvez o mataria, e ciente disso, foi mais além, não aguentando mais,
um mal cheiro de cocô entranhado nas suas calças. E mesmo quem estava distante
dele, sentia.
O João
Malamanha nem esperou para o final do júri. De um só soco soltou as algemas dos
pés. As das mãos ele pôs a torá-las com os dentes, ficando livre para ele
correr, poderia acontecer um possível ataque dos policiais.
Mas o João
estava preparado. E assim que os policias (seguranças) partiram para cima dele
tentando amarrá-lo foi inútil. Antes do início da cobrança judicial o João Malamanha
havia passado um líquido deslizante em todo corpo e com isso nenhum policial
conseguiu dominá-lo, porque quando eles tentavam segurá-lo na marra, seus
braços escorregavam igual ao peixe mussum de água doce.
E assim o João
Malamanha foi-se embora sem pagar nada à justiça. Quem perdeu a vida foi o
domador de leões.
O João
Malamanha foi morto pelo seu ajudante (mecânico) o anão de 1.30 centímetros. Ao
tentar enforcá-lo Leandro retirou da sua cintura uma amolada e pontiaguda faca,
enfiando-a no pescoço do homenzarrão. O João Malamanha só deu tempo para dar um
assustador grito e o sangue jorrou sobre peças e carros que estavam dentro da
oficina, caindo por cima de uns pneus encostados à parede. Vendo que tinha
vencido o homenzarrão, Leandro fez carreira sem destino certo. Nunca mais se viu
o assassino do João Malamanha.
Marcosde religiosidade no caminhodeLampião no Rio Grande do Norte
Em 2010, em alternadas viagens, estive percorrendo pela primeira os cenários da passagem do bando de Lampião no oeste potiguar, fato que ocorreu entre os dias 10 e 14 de junho de 1927. Segui principalmente por áreas rurais desde a cidade de Luís Gomes, tendo como ponto focal Mossoró e finalizando em Baraúna. Percorri esse caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros como parte de uma consultoria que prestei ao SEBRAE, no âmbito do projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião. Parte desse trajeto, que também focava em questões da espeleologia da região, percorri junto com Sólon Almeida.
Para traçar essa rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco e a bibliografia existente, com destaque ao livro do amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, autor de Lampião e a grande Jornada – A história da grande jornada.
Foram percorridos muitos quilômetros, onde visitamos vários sítios, fazendas, comunidades e cidades. Foram entrevistadas123 pessoas e obtidas mais de 2.000 fotos. Em grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais eficiente para se alcançar estes distantes locais.
Um dos fatos mais interessantes foi o surgimento de marcos de religiosidades ligados aqueles dias tumultuosos de 1927.
Cruzeiros marcando locais de acontecimentos intensos, capelas edificadas como promessas pela salvação de pessoas ante a passagem dos cangaceiros, o caso da utilização de uma igreja por parte dos cangaceiros. Além desses fatos temos a controversa situação envolvendo o túmulo do cangaceiro Jararaca na cidade de Mossoró.
Ao longo dos anos eu tive a grata oportunidade de realizar esse caminho em quatro outras ocasiões, sendo o mais importante em 2015, para a realização de um documentário de longa metragem denominado Chapéu Estrelado, dirigido pelo mineiro radicado no Rio de Janeiro Silvio Coutinho e produção executiva de Iapery Araújo.
Esses foram os locais mais interessantes ligados a esse tema e seus respectivos municípios.
MARCELINO VIEIRA
A área próxima à sede do atual município de Marcelino Vieira é repleta de lembranças e marcos que mantém vivo na memória da população local os fatos ocorridos naquela longínqua sexta-feira, 10 de junho de 1927.
Cruz em homenagem ao soldado Matos.
Sítio Caiçara e a “Missa do Soldado” – Nesse local ocorreu um combate onde morreram o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão.
Percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos de memória estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar, uma missa em honra a memória do valente militar.
Igrejinha onde é rezada a “Missa do Soldado”.
Segundo pessoas da comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais, os mais antigos moradores deram início a um ato religioso. No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo pessoas entrevistadas na região, o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”. Com o passar do tempo à missa transformando-se em uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira.
ANTÔNIO MARTINS– ZONA RURAL
Fazenda Caricé – a fazenda Caricé estava no roteiro de destruição dos cangaceiros. Caminho lógico para quem seguia em direção norte, no caminho a Mossoró, a fazenda pertencia ao pecuarista Marcelino Vieira da Costa. Este era um paraibano que prosperou com a criação de gado e tornou-se tradicional líder político. Faleceu em dezembro de 1938 e seu nome batiza atualmente a cidade onde decidiu viver.
Capela em honra a Jesus, Maria e José, no sítio Caricé, erguida como promessa pela salvação da família do Coronel Marcelino Vieira das garras do bando de cangaceiros de Lampião
Ao saber da aproximação do bando do cangaceiro Lampião, o fazendeiro Marcelino Vieira decidiu dormir em uma área onde existia um canavial, próximo ao açude da fazenda. A chegada do grupo, insuflados por supostas contas a acertar do temível cangaceiro Massilon Leite com a família Vieira, produziu um saque que resultou em um prejuízo no valor de um conto e duzentos mil réis. Os celerados deixaram o lugar antes do meio-dia.
Da velha sede da fazenda Caricé nada mais resta, mas por lá encontramos uma pequena capela.
Interior da capelinha.
Quando a família Vieira e seus empregados estavam no canavial, em dado momento alguns cangaceiros chegaram a se aproximar do esconderijo. Diante do que poderia acontecer, com muito medo, a filha do fazendeiro, rogou intensamente aos céus que os bandoleiros se afastassem.
Vista noturna da capela do Caricé.
Caso isto se concretizasse, ela e sua família tratariam de erguer uma ermida em honra ao poder de Jesus, Maria e José. Pouco tempo as imagens foram adquiridas ainda em 1927, tendo sido trazidas da Bahia e que a primeira missa rezada no local foi verdadeiramente suntuosa. O templo já apresenta sinais de abandono, com algumas telhas caindo, mas a estrutura ainda se mantém em grande parte firme.
Serra da Veneza.
Capelinha da Serra da Veneza – Uma interessante situação relativa à memória da passagem do bando nessa região ocorreu na região da Serra da Veneza, na fronteira de Antônio Martins com o vizinho município de Pilões. Nessa elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado pela passagem do bando.
Quando Lampião e seu bando se aproximavam, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros. E o mais interessante, mesmo sem se combinarem, as três famílias elegeram a mesma penitência; caso nada de negativo ocorresse a eles e as suas famílias, cada um deles teria de galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra ao santo.
Capelinha da Serra da Veneza.
Lampião passou sem acontecer problemas a essas pessoas. Logo os fazendeiros e seus familiares foram a Vila de Boa Esperança, como muitos moradores da região, para agradecer na capela de Santo Antônio pelo fato de nada de pior haver ocorrido. Nesse local as três famílias se encontraram e ao debaterem sobre os fatos vividos, para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas ideias e os mesmos pensamentos de penitência. Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza para unidos edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas coincidências chamaram a atenção das pessoas na região e logo outros penitentes subiam a serra para pagar promessas. Em pouco tempo teve início uma procissão e não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros municípios. Em 1948, vinte e um anos após a passagem do bando e do pretenso milagre, treze famílias deram início a construção da atual capela, em meio a uma intensa confraternização.
A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra.
ANTÔNIO MARTINS- ZONA URBANA
Cangaceiros na Capela de Santo Antônio – O período da chegada dos cangaceiros, no dia 11 de junho de 1927, na então pequena comunidade de Boa Esperança, atual Antônio Martins, coincidiu com as celebrações da festa de Santo Antônio, o padroeiro local. De certa maneira essa situação de comemoração e alegria do povo, serviram para a rápida ocupação do lugarejo e a sua total capitulação diante da cavalaria de cangaceiros.
A capela de Santo Antônio era o principal local em Boa Esperança para realização dos festejos relativos ao padroeiro local. Nessa festa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, ininterruptamente são realizadas missas, orações de grupos de pessoas com terços nas mãos, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo cristão. Quando o bando chegou, haviam algumas pessoas reunidas no local e um grupo de cangaceiros, visivelmente embriagados, proibiu a saída dos fiéis do local. Essas pessoas assistiram horrorizadas de dentro da capela o suplício de um habitante local, o jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça. Mesmo em meio a essa cena de terror, diante da igreja aberta e engalanada, soubemos que alguns cangaceiros adentraram o local, se ajoelharam, se benzeram e saíram sem perturbar os atônitos presentes. Na saída soltaram Vicente Lira.
Durante todo nosso percurso, esta foi a única informação de que alguns cangaceiros do bando de Lampião, teriam adentrado um templo religioso católico em todo Rio Grande do Norte.
LUCRÉCIA
Fazenda Castelo.
Capela da Fazenda Castelo – Após a saída de Frutuosos Gomes, na zona urbana do município de Lucrécia, as margens da RN-072, soubemos que o bando realizou a invasão da fazenda Castelo, propriedade tida como a mais importante da antiga localidade. No terreno ao lado da sede da fazenda Castelo se encontra uma bem preservada capelinha dedicada a Nossa Senhora da Guia. Entretanto, ao buscarmos contato com as pessoas mais idosas em busca da história da capela, não foi possível um esclarecimento mais exato sobre quem a construiu e se essa construção tem alguma relação com a passagem do bando de Lampião, como no caso da ermida da fazenda Caricé. Houve pessoas que indicaram que a construção foi consequência de uma promessa pela salvação dos proprietários locais junto a passagem dos cangaceiros, outros indicaram que ela seria anterior a 1927 e outros apontaram que ela seria posterior a essa data.
Capela da fazenda Castelo, Lucrécia, Rio Grande do Norte.
Foi perceptível a necessidade de ampliar as pesquisas sobre o local.
A Cruz dos Canelas – Depois de passarem por Lucrécia, os cangaceiros atacaram uma propriedade rural e sequestraram um fazendeiro bastante conhecido e querido na região. A notícia se espalhou entre vários parentes e amigos e logo um grupo decide com extrema coragem sair em busca do povoado de Gavião, atual cidade de Umarizal, onde pudessem levantar a quantia estipulada por Lampião para soltar o popular fazendeiro.
Sítio Serrota dos Leites, de onde foi sequestrado o fazendeiro Egídio Dias.
O grupo era pequeno, com um número que aparentemente chega a quatorze e só quatro deles, membros de uma família conhecido como “Canelas”, eram os únicos que os pesquisadores do assunto apontam como possuidores de armas de fogo com alguma potência. Esse grupo conhecia os caminhos e provavelmente confiaram no fato de ser período de lua cheia. Onde essa condição facilitaria o trajeto.
Enquanto se desenrolava esta situação, na região do sítio Caboré, cansados pelo deslocamento, esgotado pelas ações e pelo consumo de bebidas, o bando de cangaceiros decidiu descansar nas terras do Caboré. Por volta das três da manhã o grupo de amigos chegou ao Caboré em busca de informações. Não sabiam que um cangaceiro, facilitado pelo luar, vigiava os movimentos do grupo. No local conhecido como “Serrote da Jurema” foi armada uma emboscada pelo bando de experientes combatentes. Logo abriram fogo contra a incipiente tropa e três deles tombaram e o resto fugiu em franca debandada. Segundo os laudos cadavéricos a vingança do bando de Lampião nos corpos dos amigos do fazendeiro sequestrado foi terrível.
Cruz dos Três Heróis, ou Cruz dos Canelas.
Apesar de todo empenho em buscar ajudar o amigo detido, o que o grupo de resgate não sabia era que a sua ação era totalmente inútil. Algum tempo antes, no bivaque armado pelos bandidos, em meio ao cansaço generalizado da tropa de Lampião, o sequestrado conseguiu fugir para o meio do mato.
Atualmente, as margens da rodovia estadual RN-072, na comunidade Caboré, se encontra uma cruz conhecido como “A cruz dos três heróis”, aonde o povo de Lucrécia e da região vêm homenagear àqueles que agora são conhecidos apenas como “Os Canelas”, ou os “Heróis de Caboré”. No local muitos rezam e pagam promessas e acendem velas em honra desses homens.
MOSSORÓ
Caso da Igreja de São Vicente de Paula e a questão do túmulo do Cangaceiro Jararaca. A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores de Mossoró em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando atacava e saqueava o comércio.
Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró.
No dia 13 de junho de 1927, após dizer não a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época 400 milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os cangaceiros. A igreja de São Vicente de Paula foi o local principal da resistência. Lampião costumava dizer que “cidade com mais de uma torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição, mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e, portanto, mais difíceis de dominar. Os ocupantes das trincheiras no alto da Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do avanço das tropas. Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem incomodados, foram surpreendidos.
Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível José Leite de Santana, vulgo Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova.
Túmulo do cangaceiro Jararaca.
A Jararaca é atribuída todas as crueldades. A mais famosa consistia em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal. Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e às gargalhadas do cangaceiro.
O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos da cidade, enterrados no mesmo cemitério e esquecidos de todos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.
Túmulo de Rodolfo Fernandes.
O famoso chefe cangaceiro deveria ter pensado duas vezes antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Anualmente, em frente à igreja que funcionou como trincheira é encenada um musical chamado: Chuva de bala no país de Mossoró, que remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória.
Os heróis da resistência de Mossoró, de toda forma foram bravos sim!
Mas por que o santificado é um cangaceiro e não um dos resistentes? Por que não santificaram o prefeito de Mossoró que liderou a resistência? Por que as fotos dos heróis da resistência são tão pequenas e a dos cangaceiros estão expostos em painéis enormes? Parece até que o povo de Mossoró não se identificou muito com os heróis da resistência!
Memorial da Resistência.
A história por trás do túmulo de Jararaca se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca apenas foi consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. É perceptível essa situação no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao túmulo onde está Jararaca.
Licenciado em Letras e Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Linguagem Psicopedagógica na Educação pela Cândido Mendes do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Português Aplicado do Distrito Federal e assessor de revisão de textos em órgão da Força Aérea Brasileira (Cenipa), do Ministério da Defesa, Luiz Serra é militar da reserva. Como colaborador, escreveu artigos para o jornal Correio Braziliense.
Serviço – “O Sertão Anárquico de Lampião” de Luiz Serra, Outubro Edições, 385 páginas, Brasil, 2016.
O livro está sendo comercializado em diversos pontos de Brasília, e na Paraíba, com professor Francisco Pereira Lima.
franpelima@bol.com.br
Já os envios para outros Estados, está sendo coordenado por Manoela e Janaína,pelo e-mail:
O sertão nordestino sempre teve seus códigos de honra. Quando alguém ousava
quebrar tais códigos, estaria assinando uma sentença de morte.
Sabemos que o sertanejo é homem forte e destemido, enfrentando as intempéries
da seca, além de outras adversidades, mas capaz de superá-las, com coragem e
altivez. O sertão é misterioso, implacável e não perdoa os erros ou quebra da
palavra empenhada, que significa dizer: código principal da honra sertaneja.
O que aconteceu com Chico Pereira não poderia jamais ter sido diferente, mesmo
tendo prometido ao pai moribundo, não participar ou promover qualquer tipo de
vingança. Vingança aconteceu. E a história já fez o seu julgamento.
Vejamos, através da narração dos fatos, como tudo aconteceu.
O coronel João Pereira, morava na cidade de Nazarezinho, outrora distrito de
Souza/PB, era casado com Dona Maria Egilda, proprietário da fazenda Jacu,
possuía um barracão em Nazarezinho e tinha sete filhos, sendo quatro homens e
três mulheres.
Uma noite, João Pereira, já prestes a fechar seu estabelecimento, viu entrarem
três homens
armados. Ao atendê-los, o coronel chamou a atenção deles sobre o uso de armas,
quando na época havia uma proibição municipal que não permitia pessoas andarem
armadas. Isso foi o suficiente para início de uma discussão seguida de tiroteio
e facadas, pancadarias e gritaria, resultando em alguns mortos e outros
feridos, inclusive o coronel João Pereira, o qual foi levado para sua casa na
fazenda Jacu, distante cerca de cinco quilômetros.
Em consequência dos ferimentos graves, o coronel veio a falecer diante de sua
família, suplicando aos filhos para que não se vingassem. "Vingança,
NÃO." foram suas últimas palavras.
Há revolta do povo que não se conformava com a morte do coronel e pedia
justiça, uma vez que a polícia apresentava nenhum interesse em prender o
foragido Zé Dias, envolvido na chacina e protegido pelas autoridades locais.
Chico Pereira, o filho mais velho do coronel, com apenas vinte e dois anos de
idade, se viu impelido pela comunidade a fazer justiça. Pressionado, sai à
procura de Zé Dias que se refugiara nas serras da região. Chico Pereira
encontra-o, prende-o e o leva à delegacia, sendo ovacionado pelo povo que
queria ver Zé Dias preso.
Após alguns dias, o criminoso já se encontrava solto. A população revolta-se e
passa a exigir vingança por parte do filho mais velho do coronel. Este, sem
outra opção, se vê obrigado a não cumprir o pedido do pai moribundo e parte
para a Vingança, como era costume na época, exigência da lei de honra, familiar
do sertão. Depois de alguns dias, o criminoso é encontrado morto. Maria Egilda,
finalmente ouve do filho a declaração que mais temia: "Mamãe, fizeram-me
criminoso':
E foge, passando a viver clandestinamente nas matas da região. Para enfrentar a
polícia e não ser preso cria um bando de cangaceiros.
Chico Pereira começa então sua saga que dura mais de seis anos, ora fugindo da
polícia, ora comandando o bando. Mesmo diante de tantos problemas e da vida
tumultuada, sua noiva, Jardelina, jovem adolescente de doze anos de idade,
quando noivara, não hesitou em se casar com ele, aos quatorze, em cerimônia
realizada por procuração. Foi esta a única saída possível e que lhe
possibilitou ser pai de três filhos, os quais não chegaram a conhecê-lo, pois
Jarda, como era conhecida, já estava viúva com apenas dezessete anos de idade.
Absolvido em júri popular, na Paraíba, Chico Pereira foi acusado de um crime que
não cometeu no Rio Grande do Norte, onde nunca estivera. Apesar de contar com a
proteção do Presidente do Estado da Paraíba, através de um irmão deste, foi
levado para aquele estado e entregue à justiça potiguar.
Tempos depois, foi Chico Pereira transferido do presídio de Natal/RN para o
interior do estado. Os policiais potiguares, devidamente instruídos, forjaram
um capotamento do carro, massacraram-no e o matam sem a menor chance de defesa.
Estava Chico Pereira com vinte e oito anos de idade. Sua mãe, dona Maria
Egilda, nem sequer teve a sorte de enterrar o seu filho, pois preferiu seguir a
orientação do advogado da família, Doutor João Café Filho ( futuro presidente
do Brasil), que recomendou para ninguém da família pisar em terras do Estado
vizinho sob pena de ser morta.
A tragédia continua com o assassinato inesperado e brutal de Aproniano, e a
prematura morte de Abdon, que estuda medicina no Rio de Janeiro. Este,
acometido de tuberculose, veio a falecer nos braços de sua mãe, na fazenda
Jacu.
Vida longa teve o único sobrevivente, Abdias, que veio a falecer recentemente,
no dia 28 de julho de 2004, com cento e três anos de idade. Dos três filhos de
Chico Pereira, Raimundo formou-se engenheiro, no Recife; Francisco ordenou-se
padre em Roma e o terceiro, Dagmar, é frade franciscano com nome de Frei
Albano.
Chico Pereira foi um dos homens mais destemido do sertão paraibano, que levado
pelas circunstâncias da época, fez "justiça" com as próprias mãos e
tornou-se cangaceiro.
FONTES DE PESQUISA:
01- Vingança, Não - Autor: F. Pereira Nobrega (Filho de Chico Pereira);
02- A Vingança de Chico Pereira - Autor: João Dantas
Um abraço, obrigado pela leitura, e poste seus comentários, logo abaixo.
Ivanildo Silveira
Natal RN
ENTREVISTA Á TV GAZETA NO RIO IPANEMA. (FOTO/ARQUIVO B. CHAGAS).
Citado o lugar com transferência de propriedade, Maniçoba já era habitada antes da chegada dos fundadores de Santana do Ipanema. Mas ainda hoje luta tentando melhorar alguma coisa para sair do marasmo secular em que vive. Antes situada em estrada Santana/Palmeira, hoje contramão de tudo. As duas metades estão representadas ao longo do rio Ipanema a cerca de 2 km do Centro da cidade. Fora a estrada normal em que se liga ao Bairro São Pedro, um antigo caminho que vai sair na UNEAL, BR-316, foi alargado, permitindo um novo cenário por ali. Mas aquela área precisa de pavimentação asfáltica do Bairro São Pedro a UNEAL, passando nas imediações de Maniçoba/Bebedouro. Há quanto tempo este subúrbio aguarda melhorias!
Uma via asfáltica São Pedro – UNEAL desafogaria o trânsito caótico do Centro e permitiria o surgimento de conjuntos habitacionais na área, beneficiando o antigo subúrbio. Poderiam surgir mercadinhos, farmácias, açougues, padarias e outros serviços que por certo dariam força para o progresso amarrado. Algumas pessoas em melhores condições econômicas fizeram casas boas e xácaras na tranquilidade do lugar, mas a pobreza continua segurando o andamento. Semelhante ao Bebedouro de Maceió, já foi palco de grandes festas religiosas e centro de artesanato como abanos, chapéu de palha, bonecas de pano, peças de madeira para promessas e chapéu de couro de bode. Bons tempos os de João Lourenço e Zé Rosa.
Maniçoba/Bebedouro funcionava com suas fabriquetas de sola, através dos seus antigos curtumes. Dava emprego a uma porção de gente e abastecia o mercado calçadista de Santana e região. Os curtumes foram extintos ou migraram para Senador Rui Palmeira e as fabriquetas de calçados não mais existem. O caminho alargado pela parte norte, vai desaguar na escola modelo municipal o que marca um ponto positivo para a criançada. Fica por trás da UNEAL, em cuja frente formou-se um arrojado comércio e prestação de serviços. Isto quer dizer que enquanto o progresso não chega o subúrbio vai aos poucos se beneficiando da vizinhança.
Marcileide Sarmento, a amiga Marcileide, a Tia Marcileide, a educadora Marcileide, a festiva Marcileide, a sorridente, bondosa e encantadora Marcileide, a incansável lutadora e vitoriosa guerreira Marcileide, partiu na última terça-feira 30 de agosto, em inesperado e triste adeus.
Repeti muito o nome Marcileide? Jamais, pois este nome se repetirá a todo instante na vida de Poço Redondo. Pessoalmente, eu me sentia orgulhoso demais por poder sempre contar com a sua singeleza amizade. E ainda mais pelo fato de que ela cultivava muitos de meus planos e aspirações: através de seu centro educacional, tornou0se uma permanente batalhadora pela preservação de nossas raízes e tradições culturais.
Juro que muitas vezes eu chegava a dizer a mim mesmo: “Marcileide só pode estar gastando do próprio bolso pra fazer acontecer coisas tão belas e grandiosas em Poço Redondo. Não é fácil nem barato fazer o que ela faz. E qual a intenção desta mulher em formar grupo de xaxado com seus alunos, o que vem à mente desta mulher ao organizar passeios e práticas esportivas pelas ruas e avenidas, qual força que move esta mulher que sempre procura oferecer o melhor no seu centro educacional, através de comemorações histórico-festivas, de feiras de ciências e outras atividades educacionais?”
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E ainda eu me dizia, indagando: “O que realmente quer esta guerreira Marcileide ao tornar um desfile cívico numa verdadeira aula sobre a história de Poço Redondo? Quem imaginou que, através de uma iniciativa privada, pelas vias públicas da cidade pudesse passar a galeria de ex-prefeitos, as atrações turísticas, o histórico da formação, seu percurso de vida, até os dias atuais destas bandas sertanejas?”. E eu me perguntava encantado, orgulhoso, admirado demais com tamanho engajamento e determinação desta agora saudosa mulher.
Mas minha amizade com Marcileide já remonta outros tempos e diversas outras situações. Todas as vezes que necessitei de qualquer tipo de colaboração, e para o objetivo que fosse, a primeira a chegar era sempre Marcileide. Via Messenger, logo ela enviava uma mensagem: “Não se preocupe, Rangel. Pode contar comigo!”. Ela sempre fazia assim, ela fez muito assim. Quando precisei de Hidrobrilho para colocar sobre os murais do Memorial, quem se prontificou? Quando precisei fazer reparos em alguns móveis antigos, quem primeiro veio em ajuda? Quando precisei de muito mais, foi também Marcileide que estendeu sua mão.
Não faz muito tempo, e logo após um desfile cívico que se tornou histórico nos anais de Poço Redondo, um belo dia eu estava no Memorial Alcino Alves Costa quando Marcileide, acompanhada da Professora Dineide, adentrou os portões acompanhada de uma turma de crianças, alunos de seu centro educacional. Mais uma visita, foi o que logo pensei. Ao dar alguns passos para recebê-los, percebi que as crianças carregavam nas mãos os mesmos banners com atrativos histórico-turísticos utilizados no desfile. E ali estavam para doar ao Memorial. E desde então os banners doados por Marcileide estão expostos numa das salas principais do Memorial.
Não havia um só evento organizado pelo seu centro educacional que Marcileide não me fizesse um convite pessoal. Bem recentemente, eis que ela mais uma vez me surpreende via mensagem. Desta feita para dizer que havia adquirido uma casa vizinha a de Raí, em Curralinho, e que quando eu quisesse ela colocaria as chaves em minhas mãos. Como não se encantar com uma pessoa assim, de atitudes tão dignas e tão bondosas? Como não chorar agora pela sua partida assim tão desacertada com o tempo. Marcileide ainda era jovem, muito jovem...
E cerca de quinze dias atrás eu fui até sua residência na Praça Frei Damião. Pediu-me para passar por lá para fazer sua doação ao Projeto Rua Colorida. Levei alguns livros para a biblioteca de sua escola, e ficamos conversando. Acertamos que brevemente eu iria dar algumas palestras para os seus alunos. Despedi-me e voltei.
Despedi-me e agora ela partiu! E tudo parece ontem, tudo parece agora. E assim se eternizará na minha memória. Abraço-te ainda, amiga Marcileide. Fostes chamada. Vá. Leve a flor da bela fotografia. Deus dirá que é tua!