Por Ticianeli
Joaquim Rezende (à
esquerda) conversa com Melchiades da Rocha. Foto: Maurício Moura - A Noite
A notícia da
morte de Lampião, em 28 de julho de 1938, chegou ao conhecimento dos
jornais da então capital do país, Rio de Janeiro, pelas mãos de um
alagoano, Melchiades da Rocha, que era repórter do jornal carioca A
Noite.
Foi ele quem
recebeu o telegrama do seu irmão Durval da Rocha, despachado de Santana
do Ipanema, em Alagoas, comunicando que “onze bandidos, inclusive Lampião,
foram mortos pela polícia alagoana na fazenda Angico, em Sergipe”.
Naquele dia,
às três horas da tarde, Melchiades havia deixado a redação quando a
última edição do jornal já estava sendo impressa. Já na rua, lembrou que tinha
uma carta para levar ao correio e voltou para apanhá-la.
“Nesse momento
fui abordado por um solícito contínuo que me entregou um telegrama,
dizendo-me: ‘é para o senhor e chegou agorinha mesmo'”, relatou o repórter.
A Noite de 28 de
julho de 1938, edição das 19 horas, anuncia a morte de Lampião
Essa
informação gerou um dos maiores furos de reportagem daquela época.
Meia hora depois uma edição do jornal circulava com oseguinte título: “Morto
Lampião“.
A título de
curiosidade, a participação da família da Rocha no episódio não foi
somente esta. Quando as cabeças dos cangaceiros chegaram à Santa
Casa de Misericórdia de Maceió, foram autopsiadas pela equipe chefiada pelo
Dr. Ezechias da Rocha, outro irmão de Melchiades.
Como prêmio pelo
furo de reportagem, e também porque era alagoano, Melchiades recebeu
a incumbência de viajar no dia seguinte para a sua terra natal
e acompanhar os acontecimentos.
Na madrugada
do dia seguinte, 29 de julho, o alagoano e seu colega Maurício Moura,
repórter fotográfico, embarcaram no avião Tupã, do Sindicato Condor, no
aeroporto do Caju, com destino a Maceió, onde chegaram às 15 horas.
Da capital
alagoana, o repórter se dirigiu imediatamente para Santana do Ipanema,
onde as cabeças iriam ser expostas.
No dia 30 de
julho de 1938, Melchiades, já em Santana, descobriu que naquela cidade do
sertão alagoano se encontrava também o prefeito recém-eleito de Pão
de Açúcar, Joaquim Rezende, identificado por alguns como sendo um amigo
de Lampião.
O Coronel
Joaquim Rezende foi prefeito de Pão de Açúcar entre 1938 e 1941.
Segundo Etevaldo Amorim no livro Terra do Sol, Espelho da Lua, a
sua administração foi marcada por investimentos importantes para cidade,
principalmente na melhoria das condições de moradia da população mais
pobres.
Morreu assassinado em
1954, quando ocupava o cargo de delegado de Polícia. Os assassinos formam
os irmãos Elísio e Luiz Maia. Elísio era então prefeito do
município.
Melchiades da
Rocha, em Bandoleiros das Catingas, lançado em 1942, recorda do encontro que
teve com Joaquim Rezende em Santana do Ipanema.
Ele se refere
ao prefeito de Pão de Açúcar como sendo “um abastado proprietário em
seu município” e que ele estava em Santana também “à espera da cabeça de
Lampião, pois desejava certificar-se se de fato ele havia morrido”.
A condição de
amigo de Lampião ostentada por Joaquim Rezende aguçou os instintos
do repórter, que começou a se perguntar o que teria levado um rico cidadão a
“se tornar um afeiçoado do Rei do Cangaço”, quando era prefeito de
uma cidade que poderia ser alvo das ações do bandido.
A narrativa a
seguir é um valioso documento de como se davam as relações de
Lampião com o poder político e econômico das regiões sertanejas vítimas do
cangaço. Com a palavra Melchiades da Rocha:
Sem quaisquer
etiquetas, pois nós sertanejos não somos, apenas, iguais perante a lei,
apresentei-me ao Cel. Rezende e lhe disse à moda da terra:
— “Seu”
Rezende, eu queria uma palavrinha do senhor!
— Pois não! —
respondeu-me, amavelmente, o prefeito de Pão de Açúcar.
Momentos
depois o Sr. Rezende e eu nos achávamos na sede da Prefeitura de Santana.
Em poucas palavras relatei os meus propósitos ao cavalheiro que me fora
apontado como sendo grande amigo de Lampião.
Após ter-me
oferecido uma cadeira, o Sr. Rezende sentou-se e narrou, pormenorizadamente,
como e por que se tornara amigo do Rei do Cangaço, amigo ocasional, bem
entendido, pois não poderia ter sido de outro modo.
Fala o Coronel
Rezende
Conheci Lampião em
1935, época em que me escreveu ele, pedindo mandasse-lhe a importância de quatro
contos de réis, prometendo-me, ao mesmo tempo, tornar-se meu amigo se
fosse atendido.
Frente do
Salvo-conduto entregue por Lampião ao Coronel Joaquim RezendeEm resposta à
carta do terrível bandoleiro, mandei dizer-lhe pelo mesmo portador que lhe
daria de muito bom grado o dinheiro, mas que só o faria pessoalmente.
Três dias
depois Lampião mandou-me outro bilhete do seu próprio punho,
dizendo-me que me esperava às 10 horas da noite na fazenda Floresta,
município de Porto da Folha, em Sergipe, recomendando-me que fosse até
ali, mas não deixasse de levar o dinheiro.
Não obstante
os naturais receios que tive, à hora aprazada cheguei ao local do
encontro, onde permaneci até uma hora da manhã, quando surgiu um cangaceiro que,
ao ver-me, perguntou-me se eu era o moço que desejava falar ao capitão.
Respondi que sim.
Dentro de
poucos minutos, então, o Rei do Cangaço ali se apresentava
acompanhado de quatro homens, “Juriti”, “Zabelê”, “Passarinho” e
“Nevoeiro”. Ao ver o grupo aproximar-se, identifiquei logo Virgulino e
a ele me dirigi, cumprimentando-o.
O famoso bandoleiro,
ao contrário do que eu esperava, recebeu-me amavelmente e foi logo
perguntando sobre o que lhe havia levado. Sabendo que o Rei do Cangaço
gostava de beber, eu, que levava comigo três litros de conhaque, lhos
ofereci.
A fim de que
desaparecesse logo qualquer suspeita do bandoleiro, prontifiquei-me a
ser o primeiro a provar a bebida. Encarando-me com olhar firme,
Lampião me disse em tom natural: “Concordo em que o senhor beba primeiro,
mas não é por suspeita e sim porque o senhor é um moço decente e eu
sou apenas um cangaceiro”.
Verso do
Salvo-conduto, com os seguintes dizeres:“Au Amo Joaquim Rezendis, como prova di amizadi e garantia perante os
Cangaceiro.
Offereci C. Lampião.”
Tomamos,
então, o conhaque e, em seguida, abordei o Rei do Cangaço sobre o dinheiro que
ele me havia pedido. Como resposta, disse-me ele: “O senhor dá o que
quiser, pois eu dou mais por um amigo do que pelo dinheiro”.
— Esse fato —
disse o conceituado comerciante de Pão de Açúcar — teve lugar no mês
de agosto de 1935, e a minha palestra com Lampião durou três horas,
tendo ele me falado de vários assuntos, entre os quais o relativo à perseguição de
que era alvo, acrescentando que, de todas as forças que andavam em seu encalço,
a que mais o procurava era a do então Major Lucena, dada a velha
inimizade que o separava desse oficial da polícia alagoana, a quem
reconhecia como homem de fato e dos mais corajosos.
Quanto às forças
dos outros Estados, disse-me Lampião que se arranjava “a seu
gosto…”, fazendo nessa ocasião graves acusações a vários oficiais dos
que andavam em sua perseguição.
— Aí está como
foi o meu primeiro encontro com o Rei do Cangaço. — Depois —
acrescentou o prefeito de Pão de Açúcar — Lampião mandou pedir-me
bebidas, charutos e também objetos de uso doméstico. Mais tarde,
porém, fui informado de que ele estava empregando esforços no sentido de matar o
Sr. José Alves Feitosa, ex-prefeito de minha terra que, como eu, o
esperara muitas vezes ali, a fim de fazer-lhe frente, pois foi das mais
terríveis a ação de Virgulino em nosso município.
Tratando-se de
um amigo meu o homem que estava destinado a morrer às mãos de
Lampião, procurei um pretexto para me avistar com este e não me foi
difícil encontrá-lo. Todavia, após uma série de considerações, em que fui
até exigente demais, Lampião, dizendo ao mesmo tempo que só fazia tal
“sacrifício” para me satisfazer, prometeu-me sustar a realização de
sua sanguinária intenção, declarando-me naquele momento que já tinha em
campo dois homens para fazer o “serviço” lá mesmo na cidade de Pão
de Açúcar, já que o visado andava resguardado, não saindo para parte alguma.
Tal
conhecimento com Lampião, deixou-me, aliás, em situação crítica, pois
inimigos meus denunciaram ao Coronel Lucena que eu era um dos coiteiros do
celerado cangaceiro.
Ao ter ciência
de tal acusação, dirigi-me ao referido oficial e lhe expus as razões que
me levaram a ter contato com o Rei do Cangaço, após ter andado prevenido contra
ele, longo tempo. Jamais faria isso se não fosse a situação em que, como muitos
outros sertanejos, me encontrei durante longo tempo.
Intercedi,
depois disso, em favor de várias firmas comerciais de Maceió e
Penedo, cujos representantes teriam caído às garras do bando sinistro se não
fora a minha intervenção junto a Lampião. Há dois meses passados, fui
forçado, do que não guardei reserva ao Coronel Lucena, a intervir novamente em
defesa de algumas vidas preciosas, no que fui feliz, conseguindo que
Virgulino desistisse dos seus sinistros propósitos.
Outras
informações
Expedita
Ferreira Nunes, filha de Lampião aos 21 anos de idade, com seu filho
Dejair. Foto de setembro de 1953 Revista O Cruzeiro.
Após este
depoimento, Joaquim Rezende continuou a conversar informalmente com o
repórter e revelou que Lampião confessara a ele que tinha uma filha fruto
da relação com Maria Bonita. A menina, então com 12 anos, estava sob a
guarda de um vaqueiro no município de Porto da Folha, que a adotara.
Lampião também
disse a ele que entrou para o cangaço aos 16 anos de idade, aderindo ao grupo
do bandoleiro Antônio Porcino. Tinha a intenção de vingar a
morte do pai e de um irmão que tombaram num choque com a Polícia alagoana.
Joaquim
Rezende contou ainda que Lampião tinha vontade de abandonar o cangaço para
se dedicar à pecuária, pois gostava da vida no campo. O cangaceiro disse
ainda que havia adquirido duas fazendas no município de Porto da
Folha pela quantia de nove contos de réis e comprado dois belos cavalos em
Xorroxó, na Bahia, arreando-os luxuosamente.
Diante da
possibilidade apresentada pelo prefeito de Pão de Açúcar de negociar a sua
rendição às autoridades de Alagoas, poupando-lhe a vida, Lampião
achou boa a ideia, mas argumentou que seria impossível isso acontecer por
considerar que os governos da Bahia e de Pernambuco fariam tudo para eliminá-lo.
“Não tenho
dúvidas de que Lampião, se tivesse podido, havia mudado de meio de vida,
pois sei que nestes últimos tempos ele não atacava senão quando se
via forçado a assim proceder”, concluiu Joaquim Rezende.
...
A filha de
Lampião citada por Joaquim Rezende era Expedita Ferreira Nunes. Foi
criada em Porto da Folha pelo casal Manoel Severo e Aurora, que
também tomavam conta de duas fazendas — provavelmente as que Lampião citou como
suas, mas que são citadas numa entrevista de Expedita como de Juca Tavares,
padrinho dela.
Quando Lampião
morreu, Expedita tinha cinco anos e nove meses. Isso indica que a
informação de Joaquim Rezende sobre a idade da filha, 12 anos, estava
errada. É possível que Lampião tenha falado 2 anos e não 12.
Expedita,
depois dos 8 anos, foi viver com seu tio João Ferreira da Silva, o Joca
Ferreira.
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