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quinta-feira, 5 de julho de 2012

CRISTINA DE PORTUGUÊS


Era considerada uma das mais belas cangaceiras do Bando de Lampião. Companheira de Português, teve um fim trágico por ter cometido adultério, fato imperdoável segundo o Código de Honra do Cangaço e a pena era a morte. Mas ela conseguiu adiar essa pena por três dias, quando foi devolvida à família, e no trajeto, foi surpreendida com facadas do cangaceiro 


Luis Pedro e de outros companheiros não só pela traição, mas também, pela possibilidade de ela delatar os esconderijos e coiteiros do bando. Isso aconteceu em 21 de julho de 1938, uma semana antes do massacre de Angico.

http://www.mulheresdocangaco.com.br/?p=88

A vida do Cel. ARRUDA, Cangaceirismo e Coluna Prestes. (Comentário)

Por: Archimedes Marques
A vida do Cel. ARRUDA, Cangaceirismo e Coluna Prestes. (Comentário)

O bom trabalho literário, de grande importância para a compreensão da história regional da Paraíba, intitulado "A Vida do Coronel Arruda, Cangaceirismo e Coluna Prestes", de autoria do ilustre Promotor de Justiça paraibano, Severino Coelho Viana, sem dúvida, um dos mais brilhantes pombalenses, constitui-se em excelente contribuição para o mundo literário pertinente ao tema.

O texto, de leitura simples e direta, sem subterfúgios ou palavras difíceis, termina por envolver o leitor do inicio ao fim do livro, buscando mostrar todas as importantes passagens da vida publica do militar, do policial, do politico, do homem, do Cel. Arruda, desde a sua compreensão e retransmissão de que aquele cidadão se tratava de um ser humano espetacular, atencioso e formidável, além de ser dotado de memória estupenda, de tudo se lembrando nos mínimos detalhes, apesar da sua idade avançada quando da entrevista prestada ao autor do livro.

No decorrer da leitura, o leitor, por mais leigo que seja, percebe as grandes qualidades que possuía o Cel. Arruda, destarte para a sua coragem, destreza, honradez, honestidade, um grande homem, entretanto, teimoso e afoito por demais, talvez, por vezes agindo mais pela emoção, mas no intuito de acertar e vencer em vitórias não só suas, mas do seu povo, do povo a quem tanto amava, do povo paraibano a quem tanto defendeu. O exemplo maior dessa ousadia e extrema coragem visando defender o povo da tirania do suposto exército revolucionário que buscava novos rumos para o país, mas para tanto não deixou de praticar rosários de arbitrariedades por onde passou, foi o seu enfrentamento a grande e temível Coluna Prestes, quando da passagem daquela Unidade de Guerra pelo município de Piancó na Paraíba, em fevereiro do ano de 1926. Sem sombras de dúvidas, um ato corajoso de um destemido homem, mas ao mesmo tempo temeroso e intempestivo, vez que de tudo, houve final trágico para muitos combatentes com a cidade praticamente arrasada em verdadeiro inferno. Entretanto, o exercito revoltoso de Prestes sentiu a pungência e a força do povo paraibano, apesar de ter realizado verdadeiro e covarde massacre a certos combatentes de Piancó, já rendidos e desarmados como foi o caso do Padre Aristides Ferreira da Cruz e alguns dos seus bravos seguidores.

Tal ato combativo e heroico rendeu ao então sargento Arruda, a importante e dignificante honraria do governo do Presidente do Estado, João Suassuna, por bravura, condecorado com a espada do herói.

Passeando na interessante leitura do livro, para não muito se alongar no presente comentário que de fato merece destaque para muitos atos heroicos do bravo Cel. Arruda, deixamos de tecer dados sobre a sua atuação incansável em busca de criminosos; sobre a prisão que efetuou do temível e sanguinário bandoleiro Chico Pereira; sobre a sua luta contra o poderio dos chamados "coronéis"; sobre a sua trajetória politica de prefeito a deputado estadual; sobre os embates que ravou com o Padre Manoel Otaviano na época em que ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado da Paraíba; sobre a sua inimizade com o famoso coronel Jose Pereira e sobre tantos outros acontecimentos pelos quais passou o Cel. Arruda na sua trajetória de militar e delegado de policia em várias cidades da Paraíba embrenhando-se no matagal, nas caatingas, sob o sol causticante em busca dos cangaceiros de Lampião, deixando de tudo então, para melhor se ater a questão da citada batalha contra a Coluna Prestes, a sua mais arrojada batalha, embora pudesse ter sido evitada se alguém dos combatentes de Piancó não tivesse disparado tiros contra aquele temível e terrível exército revolucionário, como de fato ocorreu, ninguém sabendo quem teria sido o autor de tal audácia que gerou rápida, mas sangrenta guerra naquelas terras da Paraíba.

Consta da leitura que quando a Coluna Prestes entrava em Piancó, talvez em passagem amistosa, ninguém sabe, com os homens da cidade já devidamente preparados e entrincheirados em diversos piquetes de defesa, tiros certeiros alvejaram cavalos e cavaleiros daquela tropa, até mesmo oficiais. Daí por diante o tempo fechou em barulho e desespero, quando intenso tiroteio transformou a cidade de Piancó em verdadeira praça de guerra.

Havia entre os defensores de Piancó, um cidadão que na verdade era um preso que ali estava por demonstrar ser de bom comportamento e assim viver de certas regalias fora da cadeia. Esse detento que possuía tratamento diferenciado era conhecido por "preá" e que ganhara tal apelido por ser considerado exímio rastreador de animais perdidos, que para prova disso, bastavam lhe dar uma rapadura que ele conseguia trazer do meio da caatinga qualquer caprino que por ventura se desgarrasse do rebanho. Na delegacia, por conta de tais benesses, o referido "preá" era uma espécie de faz-de-tudo que lhe mandassem.

Junto aos defensores da cidade o tenente Antônio Benício, delegado de Piancó, que estava do outro lado da rua, noutro piquete, solicitou por gestos e algumas poucas palavras em meio ao barulho ensurdecedor dos estampidos vindos de todos os lados, que "preá" trouxesse quatro fuzis e munição suficiente para o piquete dele que assim necessitava. Não havendo a mínima possibilidade de "preá" atravessar a rua em meio ao cerrado tiroteio sem ser atingido, principalmente com todo aquele apetrecho pesado, então, o agora protagonista da história ora comentada, sargento Arruda, teve a idéia de instrui-lo para pendurar a camisa branca que vestia em um dos fuzis. A estratégia deu certo, pois quando "preá", mesmo tremendo mais do que vara verde, saiu à rua com o fuzil hasteando a bandeira branca, imediatamente os revoltosos de Prestes, ensarilharam suas armas respeitando a decisão contida no símbolo internacional, ou até quem sabe, pensando que os combatentes pretendiam se entregar.

Em contraponto, talvez por não saber o que de fato acontecia naquele momento de pausa, outro piquete de defesa da cidade ali próximo, o grupo chefiado pelo Padre Aristides, aproveitou o momento de distração da Coluna Prestes para intensificar o tiroteio em sua direção, trazendo como resultado de tal irrazoabilidade, muitos soldados mortos e feridos.

Disso resultou que a tropa revoltosa, em imensa fúria e ódio, comandada pelo próprio Capitão Luiz Carlos Prestes, investiu fortemente contra o piquete do Padre Aristides Ferreira da Cruz, lançando inclusive duas bombas de efeito narcótico dentro da casa do citado reverendo, o que fez com que aquele grupo, fraco, tonto, sufocado e desorientado, se entregasse.

Covardemente, usando tão somente por base, o atroz sentimento de vingança pelos seus mortos em virtude do incidente ocorrido, o comando da Coluna Prestes determinou que todos "os prisioneiros de guerra" que estavam na casa, incluindo o Padre Aristides e o prefeito de Piancó, o Sr. João Lacerda, bem como o filho deste, fossem conduzidos amarrados a um barreiro ali próximo e lá barbaramente sangrados, um a um, com ferimentos perpetrados por longos punhais enfiados nas jugulares, ou em brutais degolas das vitimas que em gritos e desesperos não foram perdoados, fazendo disso, das maiores arbitrariedades, dos maiores e horrendos crimes praticados pelos soldados revoltosos na caminhada histórica da Coluna Prestes. A água do barreiro da morte ficou tão vermelha de sangue quanto vermelha de vergonha ficou essa covarde ação daqueles homens que diziam lutar por um Brasil melhor, que se diziam revolucionários reformistas. Uma ação totalmente injustificada que jamais justificaria a desastrada ação do grupo do Padre Aristides em ter atirado contra os homens que respeitavam a bandeira branca carregada por "preá". Uma triste, desolada, insana e macabra ação de negatividade em extrema falta de hombridade, sensatez e humanidade contra homens indefesos, desarmados e presos, uma execução sumaria em verdadeira chacina, que ficou para sempre guardada nos anais da história de guerra desses valorosos paraibanos contra a poderosa Coluna Prestes.

O discurso do autor do livro não é um discurso autoritário, ditatorial ou mesmo demagógico, é um discurso livre, democrático, que busca novas discursões, mas que traz a verdade, ou pelo menos dela se aproxima, sem mentiras, invencionices, extravagâncias, baseado na história real até mesmo em certos pontos diferindo da história oficial, mas não em forma contundente, sim em trabalho cuidadosamente organizado, de forma realmente consciente, de tudo para mostrar ao leitor o que foi a trajetória vida do cidadão Manuel Arruda de Assis, um verdadeiro exemplo para todos os seus familiares, um homem imortal para os paraibanos, um exemplo a ser seguido por todos os homens de bem.

De parabéns, portanto está o autor do livro, por resgatar a historia desse homem guerreiro que tanto enobrece o solo desse tão importante Estado da Paraíba que tantos ilustres personagens trás para o cenário brasileiro. Uma leitura que de igual modo espero que todos gostem. Um livro que merece estar em todas as boas bibliotecas.

Foi assim que eu vi e senti do livro de Severino Coelho Viana.

Autor: Archimedes Marques (Delegado de Polícia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br 
  

DELMIRO GOUVEIA (7)

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 05 de junho de 1863, na fazenda Boa Vista (município de Ipu, na serra da Ibiapaba). Filho da paixão e do acaso, pois o coronel Delmiro de Farias (nome de uma rua que se inicia no bairro Jardim América e chega ao Rodolfo Teófilo), casado e pai de cinco filhos, raptou a jovem pernambucana Leonilda Flora da Cruz Gouveia. Apaixonou-se por ela quando viajou a Recife, a negócios. 

Delmiro Gouveia perdeu o pai na Guerra do Paraguai, em 1867. Dele, herdou a personalidade forte, a coragem e os arroubos da juventude. “Em uma das festas que promoveu, ele se apaixonou por uma condessa italiana. Chegou a passar meses na Itália... Em Alagoas, mantinha duas residências: numa, ficava a irmã e os filhos. No chalé, fora do cercado (região onde estava a cidade), teve muitas mulheres e muitas amantes”, conta Edvaldo Nascimento, da Fundação Delmiro Gouveia (Alagoas). 

Após a morte do pai, Delmiro e a mãe escaparam em Pernambuco. Migraram do interior para a capital até o rapaz se estabelecer no ramo de peles. Por essa época, 1883, casou-se com Anunciada Cândida de Melo Falcão (o casal se separou em 1901). O mascate era intermediário entre os produtores do sertão e os comerciantes estrangeiros de Recife. Em 1896, já era proprietário da Casa Delmiro Gouveia & Cia. A sociedade com a L.H. Rossbch, de Nova Iorque, rendeu-lhe o título de Rei das Peles.


O rei Lampião

Nesse período, Virgulino Ferreira (antes de se tornar o cangaceiro Lampião) foi almocreve de Delmiro. Ele carregava as mulas, pra lá e pra cá, fazendo o transporte das peles. Era o início do século XX, e Delmiro seguia a sina do pai: fugiu com a adolescente 


Carmela Eulina do Amaral Gusmão para Vila da Pedra (Alagoas). Um povoado, como situa Edvaldo Nascimento, na margem do Rio São Francisco, a cem quilômetros de Canudos, a 60 de Angicos e a 150 da terra de Graciliano Ramos.


Em Pedra, Delmiro Gouveia continuou a lida com as peles até viajar à Europa e conhecer a revolução industrial. Do outro lado do mar, trouxe a idéia da hidrelétrica (1910).

"O Povo", 21/10/2007:

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 6 (OS DIAS E AS NOITES)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 6 (OS DIAS E AS NOITES)

O sertão cangaceiro era o mesmo tabuleiro onde se espalhavam as peças do jogo acirradamente disputado pelos quatro cantos, desde o alvorecer ao mais fechado negrume da noite. A manhã surgida aos olhos do vivente entrincheirado nas caatingas e tocas era a mesma brotando festiva diante do olhar do velho matuto ao abrir a porta de sua tapera de barro.

Sertão bonito demais, indescritível sertão! Terra e chão, malhada e vastidão, saleta de chão e alpendre sombreado, mataria e garrancho, bicho amigo e indócil, um sopro de tempo chamando à vida, a esperança de sempre chamando a sobreviver. Um horizonte infinito, ainda que azul demais por causa do tempo seco, um entardecer que se alonga e vai tornando cada ser um poeta sem precisar escrever qualquer verso. Apenas olhar ao redor, se encantar, deixar aflorar os sentimentos e versejar os amores e as saudades no vão poético da memória.


Eis o sertão do cangaceiro e do lavrador, do coiteiro e do citadino, da volante e do vaqueiro, do bandoleiro das caatingas e do homem de paz no roçado, da beata e do vigário, do coronel e do jagunço. Sertão de muitos lados, muitas faces e muito mais. Eis que vastidão de véu e cortina, de espelho turbado, em cujo lado de lá mora a dor e o sofrimento, o grito e o lamento, a pobreza e a fome, a injustiça e a perseguição, a morte tragando a vida, o sobreviver fraquejando diante do mundo apocalíptico.

E por que será que o sertão é assim tão contrastante, de um lado a beleza e de outro a feiúra horripilante, numa face o sorriso e na outra o lanho do sofrimento? Desígnio divino, tudo vem na medida do merecer da terra e do homem. Se a grandiosidade paisagística do lugar, com seu luar inigualável, seus caminhos instigantes e as cores que vão se formando por cima da mata durante o entardecer servem para acalentar o vivente, de outro lado faz do sal do sofrimento a balança que há em tudo. Não há nada tão belo que não venha com uma pontinha de amargura.

O sertanejo vive num paraíso sem jardim, vive ao lado do roseiral sem poder cheirar a flor, vive ladeando o que há de mais belo na natureza e caminhando por estradas de pontas de pedras e espinhos pinicantes. O orgulho imenso de ser filho da terra e com ela se confundir em tudo, não afasta o desencanto que também bate à porta. O prazer de repente se transforma em dor e agonia. Porque o homem é instigado ao prazer e ao sofrimento para se conhecer o seu merecimento no mundo.

Contudo, dentro do próprio sertão, perante os seus filhos, há outras diferenças que parecem querer dividir os nativos em muitos. São vidas e jeitos de viver diferentes, pessoas com atitudes e vocações que desafiam os entendimentos. Por cima da mesma terra, gente que nasce para a paz e tantos que buscam a guerra; muitos cheios de contentamento com a vidinha humilde e simples que têm, e outros deixando a porta sossegada de casa e seguindo rumo ao desconhecido, ao perigoso, ao desafiador.


Um dia, num tempo distante, lá pelos idos dos anos desde muito envelhecidos, muitos desses jovens de famílias pobres, trabalhadoras na terra, sobreviventes do suor e do alimento da estação, de repente decidiram que a guerra era melhor que a paz, o perigo era melhor que o viver sossegado nos seus cantos. E não somente os meninos pobres, mas também filhos de famílias mais abastadas, mas que por impulsos e revoltas debandaram pelas veredas esturricadas e de encruzilhadas sangrentas.

Ao escolher a vida cangaceira, fazer valer seu ímpeto sertanejo para se tornar errante nas caatingas, o jovem certamente não tinha o pensamento suficiente claro para imaginar as consequências imediatas desse ato nem as durezas futuras no seu cotidiano debaixo do sol, sob a lua, correndo de costas, enganando a morte, saltando pedras e caindo em espinhos, deixando para trás rastros de sangue. Vida de sangue, de medo, de ataque e de fuga.

A paixão pelo cangaço, como acontece com todas as paixões, trazia a insanável cegueira até que o espinho de quipá furando olho o acordasse para a realidade. E será que estava vivendo, que aquilo era mundo, que era jeito de gente viver e morrer? Somente quando abria os olhos e já não podia voltar atrás é que é se entregava de corpo e alma ao mundo que escolhera. Primeiro o encanto, depois a realidade. E então o espanto. Em tudo a vida ao lado da morte.

Coisa simples, até sem doer, pois forçado a acostumar com toda dor, com o espinho de facheiro, de xiquexique, de mandacaru; a urtiga e cansanção roçando na pele sem ferir, sem queimar, mais parecendo pétala de flor agrestina. E tudo passa a ser visto de modo diferente porque assim tem de ser. A lama é água, o barro é líquido, a chuva é milagre do céu, pingo d’água é coisa que chega a assustar; carne de cobra parecendo com peixe, perna de preá não tem igual. Se não tivesse fogueira ou não houvesse tempo para o assamento que os cantos da boca sangrassem derramando o apetite, a fome.

Amigo do tempo, amigo do mato, amigo do bicho, amigo do matuto do lugar, muitas vezes amigo do inimigo, mas também hostil a quase tudo. Confiar sempre desconfiando, falar meia palavra porque já é demais, não se aproximar muito para não deixar marcas, ser apenas o vulto e a sombra que no instante seguinte já não é mais. Cangaceiro era tudo, quase sem ser nada. E até era melhor ser assim mesmo para ver se tinha uma vida sem tanta perseguição.


Que coisa boa ao encontrar uma casa, um imenso palácio para o merecido descanso. A porta maior do mundo, ladeando o sertão e suas veredas. Palacete de cama macia, adornada por terra cheia de espinhos, pedras como travesseiros, uma lua inteira como cobertor. E sonhar com a linda princesa que vai chegando devagarzinho, subindo pelos lados da serra, cautelosamente caminhando ao encontro do seu amado. E traz na mão alguma coisa bonita, brilhosa, reluzente. Mas não, é a volante de mosquetão. O mesmo pesadelo de todas as noites.

Que vida dura, seu moço, e o menino nem pensou um bocadinho nisso antes de tomar a decisão de ser cabra de Lampião. Mas agora é tarde demais. Está formado na vida, sabe tudo, é doutor. Conhece o remédio do mato, a cobra que é venenosa, cada pegada que encontra, todo barulho que ouve, todo farfalhar de folhagem. Sabe que há inimigo na redondeza, que o silêncio da mata logo se tornará em grito, em disparo, num pega-pá-capá desgraçado.

Correu mil léguas, caminhou mais duas mil e ainda não chegou ao coito. Todo mundo pensa o que seja um coito, porém ninguém nunca soube o que é um coito. Nem cangaceiro sabia. Quando o Capitão dizia que em tal lugar descansariam, então ali poderia ser tido como o refúgio chamado coito. Muitas vezes o lugar mais aberto no meio da mataria, um esconderijo detrás das pedras, uma toca grande moradia de animais, um lugar qualquer que servisse pra descansar. Não tinha número na porta nem ficava em endereço, apenas num local onde os bichos nativos eram espantados para que outros bichos se apossassem.

Bichos não. Nem quase bichos. Apenas seres humanos com seus destinos. E tão seres humanos que se compraziam com qualquer instante de paz que encontrassem, que conseguissem alcançar naquelas vastidões sertanejas. Sagrado era o alimento conseguido, sagrada era a visita do coiteiro que trazia o carregamento que tanto precisavam pra sobreviver, sagrada era a esperança de adormecer e amanhecer com vida, levantar cedinho para seguir adiante. E sagrada a prece da noite, a oração pedindo proteção, pois a mesma mão calejada e acostumada com o mosquetão, segurava mansamente o terço ou o rosário para o ofício da fé.

Assim eram os dias, assim eram as noites cangaceiras. Assim era a vida no sertão de Lampião.      


(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
http://blograngel-sertao.blogspot.com.br/2012/07/as-cronicas-do-cangaco-6-os-dias-e-as.html

LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE (IV)

Por: Clerisvaldo B. Chagas -Crônica Nº 812

Muitas coisas foram ditas sobre José Lucena de Albuquerque Maranhão em nosso livro “O boi, a bota e a batina: história completa de Santana do Ipanema” que ficou para o ano para novas inclusões e por ter cinco outros livros na fila, antes dele. 

Coronel José Lucena Albuquerque Maranhão

Lucena também está amplamente no livro “Lampião em Alagoas” que, pelos preparativos de lançamento, não vai dar para o dia vinte e oito deste mês, como prevíamos, ficando talvez para agosto. Uma crônica só é pouco para nossas observações sobre o Capítulo 8 do livro 



“Lampião contra o Mata Sete”, mas tentaremos pelo menos com reduzidas palavras afirmar posições. Desde 1918 que o sargento Lucena lutava na Zona da Mata Alagoana e no Alto Sertão, época em que a Família Ferreira veio morar em Alagoas. Lutou contra bandos de cangaceiros, inclusive o dos Porcino que foram chefe de Lampião. Aliás, Lampião não foi somente chefiado por Sinhô. Ele teve três chefes, pela ordem: Matilde, os Porcino e depois Sinhô Pereira. No caso da morte de José, está claro em “Lampião em Alagoas”. Lucena estava em busca do criminoso Luís Fragoso, cercou sua casa, sem resistência, morrendo aí, por infelicidade, José Ferreira, durante a invasão, pelo instinto de cão do soldado Caiçara, o assassino. Lucena esbravejou contra Caiçara, mas como comandante da pequena força, assumiu o ato do soldado. Quanto à morte do oficial de que fala o Capítulo 8, de “Lampião contra o Mata Sete”, também está escrito de forma inédita detalhadamente, em “Lampião em Alagoas”. O oficial tentara assassiná-lo na noite de escuro, anterior. Chamado para esclarecimento o tenente Porfírio desafiou o comandante e não quis atender o seu pedido por duas vezes, o que Lucena para não ficar desmoralizado mandou que dois soldados que foram chamar o oficial o trouxessem vivo ou morto. Porfírio preferiu ir morto. (Aguarde “Lampião em Alagoas”).
Em relação à morte do coronel José Rodrigues de Lima, Lucena havia sido emboscado no município de Água Branca quando morreu o capitão Eutíquio Rafhael de Medeiros. Essa emboscada foi atribuída a Zé Rodrigues. Naquele tempo − o companheiro Archimedes sabe que era assim − ou um ou outro. Lucena até demorou com a vingança. (Detalhes no mesmo livro acima).
Em 1936, com a criação do 2º Batalhão de Polícia de Alagoas e sua instalação em Santana do Ipanema, Lucena torna-se o seu primeiro comandante. O batalhão passa a ser a sede de todas as forças volantes distribuídas estrategicamente no semiárido. São frases do conhecido comandante João Bezerra “Como dei cabo de Lampião” (...) “S.S. sempre possuía dados importantes. Trabalhador valoroso, não se descuidava de um só instante de pesquisar por todos os meios ao seu alcance dos paradeiros dos grupos assassinos”.
(...) esse valente militar dava ordens à distância e nunca perdia o contato com os seus comandados, auxiliando-os constantemente por todos os meios, ora com avisos, informações escritas, por portadores e telegramas quando possível, ora fiscalizando as marchas através das caatingas, animando, estimulando e orientando os comandados que surpreendia em toda parte com a sua agradável presença de chefe destemeroso.
Ainda Bezerra (1983, p. 177): O coronel Lucena nunca vacilou para dar ordens enérgicas sempre que o interesse da campanha o exigisse. A confiança que tinha em si mesmo, a sua fé e a sua coragem aliadas à expectativa feliz de êxito nas diligências, se irradiavam sobre os seus comandados, estimulando-os a imitá-lo na esperança da vitória.

Foi Theodoreto quem sugeriu a criação do 2º Batalhão de Polícia com sede em Santana do Ipanema. O comando seria entregue ao major José Lucena de Albuquerque Maranhão, oficial reconhecidamente destemido e experimentado nas lutas cangaceiras. Sobre ele fala o santanense sargento Oscar Silva, seu comandado, depois escritor de conceito, em “Fruta de Palma”:
(...) sob o comando de um homem de cultura limitada, mas de inteligência rara e férreo espírito de disciplina: o major José Lucena de Albuquerque Maranhão (...).
(...) senso de intransigente cumpridor da Lei e da Ordem. Era um amigo incondicional dos comandados, ao mesmo tempo, um intransigente adversário de qualquer deles, conforme a adaptação ou não dos subordinados à sua maneira de comando.

(Continuação e conclusão amanhã, sobre Lucena e Capítulo 8 de “Lampião contra o Mata Sete”).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

João Mossoró: o cantor que vai de Luiz Gonzaga à música portuguesa



Envolvido com música desde menino, João Batista Almeida Lopes, o João Mossoró, ganhou destaque no cenário musical através de seu trabalho sobre Luiz Gonzaga. E apesar da forte identificação e até alguma semelhança, o cantor não se intitula cover de Luiz Gonzaga, mas um seguidor. 


O sobrenome artístico Mossoró é uma referência à sua cidade natal, no Estado do Rio Grande do Norte, onde, aliás, Mossoró conheceu e trabalhou com Luiz Gonzaga. “Participávamos de programas de rádio, e um dia ele (Luiz Gonzaga) ouviu um desses programas na Rádio Mairink Veiga e nos convidou para trabalhar com ele”, explicou Mossoró. 


No Trio Mossoró, João era responsável pelo ritmo, zabumba e vinil, sua irmã Ermelinda ficava com o triângulo e seu irmão Oseas no acordeon.
A parceria entre o Trio Mossoró e Luiz Gonzaga durou três anos e segundo Mossoró foi tempo suficiente para se tornar eterno admirador: “ele era um cara do povo”, declarou. O principal motivo para essa admiração é o fato de que o ídolo se manteve humilde mesmo depois da fama: “com tudo o que ele conquistou poderia ser um cara metido, mas continuou sendo uma pessoa humilde”.
O primeiro trabalho em homenagem ao ídolo, Mito e Arte de Luiz Gonzaga, surgiu em 2004 através do convite de Roberto Chiara, a quem Mossoró se refere com muito carinho: “tudo que eu tenho hoje, principalmente em relação à música nordestina é graças a ele”.
O cd reúne sucessos de Luiz Gonzaga interpretados por João Mossoró, e o sucesso foi tanto que em 2006 foi lançado o volume 2. “Este álbum é explosão de amor, explosão de saudade, explosão de alegria”, contou. Roberto Chiara, que proporcionou a realização do projeto declarou: “que bom que João trouxe Luiz de volta”.
O Trio Mossoró se desfez no começo dos anos 80. Hoje, só se reúnem uma vez por ano na cidade de Mossoró, mas João desistiu da música e em 1982 iniciou sua carreira solo. Tendo como padrinho musical o famoso Trio Irakitã, gravou 12 LP’s com alguns sucessos marcantes como “Carcará”, “Quem foi Vaqueiro”, “Carcará de Botina”, “Chapelão” e “Disparada”. Foi vencedor do Festival de Música Popular Brasileira e teve contrato com as gravadoras “Copacabana” e RCA Vitor. Trabalhou durante 3 anos na charmosa Casa da Cachaça, que fica nos jardins do hotel Sheraton.
Em 1996 gravou o primeiro CD com músicas de sua autoria e em 1998 surpreendeu ao gravar um cd com músicas portuguesas, o “Vinho Verde”. “Eu tenho muito carinho por esse povo”, disse. Em 2003 voltou a inovar e gravou o CD “Maré Cheia”, composto por diversos gêneros, incluindo artistas como Herivelto Martins, Luiz Vieira e Geraldo do Norte.
Com sua peculiar inquietude musical, o artista já está envolvido num novo projeto, o “Conexões Nordestinas”, no qual trabalhará com ícones da música nordestina como Elba Ramalho, Nando Cordel, Zé Ramalho, Alceu Valença, entre outros. Mas sem esquecer jamais de Luiz Gonzaga: “a minha base é Luiz Gonzaga, os outros são como discípulos dele”. O “Conexões Nordestinas” é um sonho cultivado por Mossoró há mais de dois anos e só saiu do papel porque ele teve um incentivo de um grupo de funcionário aposentados da Petrobrás. Apesar disso o cantor busca patrocínio para concluir o projeto. Já em estúdio a previsão é que o projeto seja concluído em outubro. João Mossoró trabalha com diversos gêneros de música devido à sua grande vivência na noite. Os shows podem ser com voz e violão ou com banda.

Contatos para shows ou patrocínio nos tels. 3437-9847 / 9782-2960 o no email joaomossoro@yahoo.com.br

http://jornalfolhadocentro.com.br/index4.php?edicao=165&idcoluna=416&pagina=2 

LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE, A SEPARAÇÃO DO JOIO DO TRIGO.

Por: João de Sousa Lima


É preciso se separar o joio do trigo, as ervas daninhas devem ser desenraizadas para que as árvores frutíferas produzam seus frutos. Em todos os seguimentos da vida existem os bons e os maus. Há os que produzem com sabedoria e os tolos em sua essência. Assim caminha a humanidade, em toda parte se sobressaem os que buscam a perfeição e dela se aproximam, deixando seus legados como ensinamentos para outros que trafegam na estrada do conhecimento e da perpetuação histórica, sendo o fato aqui relacionado: A análise ajustada dos acontecimentos que permearam uma época que marcou profundamente as mentes e as vidas das pessoas do nordeste brasileiro.
Há os que se aprofundam com seriedade, buscando os autênticos subsídios para registrar nos anais dos arquivos escritos suas apreciações honestas e responsáveis.
Também há os hipócritas, os insensatos, gente sem o mínimo conhecimento de certos tópicos e que são ignorantes que se apoderam de um assunto e sem o devido cuidado produzem verdadeiros absurdos. 
Nesse caso estou falando da incapacidade de Pedro de Morais com seu livro “Lampião, o Mata Sete” e a maestria de Archimedes Marques com seu apurado revide “Lampião Contra o Mata Sete”.


A leitura eu recomendo sobre o trabalho de Archimedes Marques, sem que seja necessário conhecer as inverdades do péssimo livro de Pedro de Morais, o Mata Sete.
Archimedes nos brinda com respostas ajustadas e um trabalho digno de ser adquirido e de constar nos acervos das pessoas cordatas que estudam a história do Brasil.
O simples argumento de ter sido em sua vida pública um homem da lei, que julga seus preceitos e sobre as falhas condena os responsáveis não credita a pessoa e nem pode ser aceita qualquer obra que tenha por suporte apenas o contexto de “vir de um magistrado”. Não é esse um argumento válido para se escrever qualquer obra literária, o teor histórico de um povo, de uma nação, merece o mínimo respeito. Devemos preservar os fatos, desvendar os acontecidos, checar às informações, analisar seus episódios, confrontar seus subsídios e tentar se aproximar o máximo da verdade. Esse é o caminho do verdadeiro historiador e pesquisador.
O tempo do coronelismo já passou, não devemos ficar expostos a uma lei que na realidade foi feita  para beneficiar os homens de boa índole e não nos colocar amedrontados diante da Toga de um magistrado. Não nos calemos diante dos fatos injustos.


Archimedes Marques, com esse seu livro Lampião Contra o Mata Sete, entra para o grupo das pessoas que produzem com seriedade, com discernimento e demonstra coragem, qualidade indispensável aos homens que merecem nosso respeito e nossa admiração.
Pode-se apostar no sucesso desse primeiro trabalho de Archimedes, ele vem pesquisando o tema cangaço há algum tempo e encontrou o rumo certo rebatendo uma obra que vem talhada de informações sem fundamentos legais que possam comprovar seus textos difamatórios.  
Diante da apresentação de fatos tão mentirosos levantados pelo fraco autor do “Lampião, o Mata Sete”, Archimedes é a bandeira que se levanta contra tais inverdades, um acerto ajuizado contra os pensamentos embaraçados de um escritor sem as qualidades essenciais para uma produção que se explica não por “querer” e sim por “existir”, fatos concretos que justificam novos olhares, novas apreciações, porém com a honestidade e a responsabilidade que as ocorrências históricas devem atrair, tendo por legado reparar as lacunas que ficaram adormecidas e que se juntam para agregar valores ao contexto de uma história que se reescreve a cada tempo, porém contada e acrescida em sua profundeza autêntica, ajustada em suas fontes primordiais sendo salvas nas memórias literárias que formadas com outras fontes direcionam a verdadeira historiografia do mundo.
É preciso se separar o joio do trigo, devemos desenraizar as ervas daninha para que colhamos os frutos bons, nesse caso devemos receber o livro de Archimedes Marques, Lampião contra o Mata Sete, com a devida grandeza que ele tem, pois ele é uma bandeira hasteada contra a mentira, contra a insensatez, contra a erva daninha que é esse livro de Pedro de Morais.


João de Sousa Lima (Escritor, membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso, membro da SBEC- Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço).

LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE

Peça logo o seu, leitor!
 
 
Autor: Archimedes Marques
Preço: R$ 50,00.
BANCO DO BRASIL
Agência: 3088-0
Conta: 33384.0
Em nome de Elane Lima Marques (Minha esposa)
 Autor: Archimedes Marques (Delegado de Polícia Civil no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe) 
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Romance Clássico do Sertão Baiano: Santo Antonio das Queimadas, Relatos da Prisão do Santo, Sobre Acusação de Corrupção Passiva.

Por: Guilherme Machado
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Relato da invasão de Lampião à pequena vila de Queimadas, no ano de 1929, do escritor baiano Antonio Nonato Marques. Livro histórico, que também relata a chegada de todas as expedição  militares na destruição do Arraiá de Canudos, em 1897 - sertão da Bahia.


Livro Santo Antonio das Queimadas de, Antonio Nonato Marques, lançado em 1984.


Foto do poeta, escritor; Antonio Nonato Marques. baiano da cidade de Queimadas.


Santo Antonio, padroeiro de Vila de Queimadas.  O réu julgado e condenado por corrupção passiva.




Bela fotografia da atriz; Zulmira Lantyer.  diretora de teatro que conheceu Lampião nas ruas de Queimadas.


Fotografia da  primeira igreja de Santo Antonio das Queimadas.  A capelinha centenária ainda resiste ao tempo.


Fotografia de Lampião e seu bando em Vila de  Pombal - Bahia, em 1928. Um ano depois rumou para Queimadas.

SANTO ANTÔNIO NO BANCO DOS RÉUS

Sobre o assunto, o escritor Lellis Piedade escreveu a crônica que a seguir reproduziremos:
"Nas charnecas do antigo sertão dos Tocós, parte integrante que foi do imensurável feudo do mestre de campo Antônio Guedes de Brito, o Conquistador do S. Francisco, nome famoso nos anais da Bahia seiscentistas, demarca-se o município de Santo Antônio das Queimadas. Quase todo aquele amplíssimo rincão, onde vagueavam outrora os silvícolas que lhe emprestaram o nome, é terra desnuda de arvoredo, escassa de águas perenes, e de solo pouco dadivoso, características naturais estas que anônimo aedo rústico, em era já mui afastada, - começos do século passado, ao menos - sintetizou nesta quadra, que topei na obra A família Serrinhense do Dr. Antônio José de Araújo:
"Serrinha não serra pau grosso,
Coité não dá selamim,
O Razo não tem fundura,
Queimadas não nasce capim."

Estas quatro vilas compreendiam, antigamente, o aludido sertão, que hoje em maior número de comunas se retalha. E o Razo viu seu nome transmudado para Araci. Demorei-me em Queimadas, era um dia claro e cálido do mês de agosto, percorrendo todo o modesto vilar. Quanto na terra há, ligado à sua história, esteve-me sob os olhos: o alto da Jacobina, de onde parte velha estrada que à bi-centenária cidade do ouro vai ter; a tapera da antiga povoação, que numa cheia o Itapicuru destruiu em 1910 ou 1911; o sítio onde Moreira César fez torturar um sacerdote espanhol, a quem atribuía o delito de vender pólvora aos jagunços de Antônio Conselheiro; a casa em que esteve aposentado o general Artur Oscar; a ubiquação do hospital de sangue da sua coluna; além de outros lugares vinculados à crônica da tragédia de Canudos.
Por fim, dei comigo no adro da Capelinha de Santo Antônio (foto), ao lado do cemitério, construção evidentemente mais que secular, e curiosa, devido a sua alpendrada em arcaria pavimentada de lápides funerárias, que se prolonga pelo oitão do lado da epístola. Sobre o seu orago, corre no nordeste baiano interessante tradição. Em princípio da centúria passada, ou fins da antecedente, era a fazenda das Queimadas propriedade da piedosa senhora, a qual fabricou a citada capelinha, doando ao seu padroeiro muitas terras, e numerosa escravaria; templo este que foi erigido em paróquia no ano de 1842. Passou hoje tal regalia a outro, edificado no centro da vila. Ora, aconteceu que, em certa noite de festa, um escravo do santo praticou um crime de morte a tiros de bacamarte, no adro da igreja, escapulindo-se em seguida. Naquele tempo, se o senhor do escravo criminoso não o entregava à justiça, sofria por ele. Santo Antônio não quis obrar o milagre de fazer o negro cair às unhas dos agentes da lei. Quem sabe lá se o desgraçado merecia? Vai daí o juiz do Termo, e tira devassa do crime, processa o taumaturgo capucho, e saca-lhe a imagem do santuário, conduzindo-a inquirida de cordas, no lombo de um animal, para a prisão da extinta Vila de Água Fria, cujas justiças, diga-se de passagem, gozavam então de fama inexplicáveis. Foi o Santo submetido a júri, nessa localidade, ou em Cachoeira, assistindo a imagem aos debates e ao veredictum do tribunal popular, encarapitada no banco dos réus. Os juízes de fato matutos condenaram o bem- aventurado franciscano a perder todos os seus haveres, que foram arrematados por um fazendeiro de Inhambupe (...)

Extraído bo blog: "Portal do Cangaço de Serrinha - Bahia", do pesquisador Guilherme Machado

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 5 (O SÉTIMO SELO DE LAMPIÃO)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 5 (O SÉTIMO SELO DE LAMPIÃO)

Se for verdade o que andaram dizendo por aí, espalhando pelos quatro cantos, não consigo imaginar Virgulino Lampião e o Capitão João Bezerra - dois inimigos para os outros e tão amigos nos escondidos do sertão - sentados e tranquilamente jogando baralho, senão como uma cena de filme. E uma película do cineasta sueco Ingmar Bergman chamada “O Sétimo Selo”, de 1956.

O título do filme é uma referência ao livro bíblico Apocalipse, no qual consta que na mão de Deus há um livro com sete selos, e a abertura de cada um significa um terrível sofrimento para a humanidade, mas nada comparável ao desenlace do sétimo selo, que causará o fim dos tempos.


O filme trata fundamentalmente do medo, das angústias e indagações que o ser humano tem acerca da morte. Passa-se num período sombrio da Idade Média, quando um cavaleiro retorna das Cruzadas e encontra sua terra assolada pela peste negra e a morte rondando por todo lugar. Diante da situação, começa a indagar sobre a existência de Deus e o significado da vida. E não só via a morte rondando tudo como o próprio cavaleiro acaba se encontrando com a própria morte, personificada num estranho e misterioso homem. Este se apresenta, diz que é a morte e a que veio e o convida a acompanhá-lo. Seria o fim de sua vida. Sabendo que teria pouca chance diante do inusitado visitante, o guerreiro aceita, mas impondo uma condição: que a morte aceitasse jogar com ele, disputar uma partida de xadrez. Se perdesse, a acompanharia no mesmo instante. Seu objetivo é ganhar tempo e ver se encontra meios para ludibriá-la, coisa que sabe ser muito difícil, pois a mesma já havia afirmado que sempre leva a melhor no jogo com a vida. Desse modo, a disputa surge como uma pausa na morte para que a vida procure refletir sobre tudo e principalmente sobre sua fragilidade. E o resultado final não é outro. Logo o cavaleiro reconhece que ainda que se faça tudo para adiá-la, é impossível vencer a morte.

Pelo que contam – e coisa que não levo muito em consideração, ainda que saiba que no contexto da guerra cangaceira há mais coisas entre a polícia e o cangaceiro, entre a ordem e a dita desordem, do que imagina nossa matuta filosofia -, já nas proximidades de ocorrer a chacina da Gruta do Angico (a 28 de julho de 1938, quando a volante comandada pelo Capitão


João Bezerra cercou e derrubou a bala onze cangaceiros, dentre eles Lampião e Maria Bonita), houve mais um dos tantos encontros secretos entre os dois capitães, o da polícia e o do cangaço, entre o perseguidor e o perseguido.


Em tais encontros amigueiros, sempre acompanhados de bebidas e amabilidades, e ocorrendo sempre nas matarias e grotões sertanejos, onde estranhos jamais sonhassem pudessem acontecer, o que se objetivava acima de tudo era trocar informações tanto acerca do bando como da polícia, deixar resolvidos os acertos pendentes, reafirmar os compromissos entre os dois chefes e cada um desejar vida longa ao outro. E como no filme, todo o diálogo se desenrolando enquanto jogavam um bom carteado. E muitas vezes com altas apostas.

Tudo isso pode ser a mais deslavada mentira; mas também pode ser a mais pura verdade. E por que não? Segundo muitos pesquisadores, é cantado e decantado que o Capitão João Bezerra era cúmplice do Capitão Lampião, e vice-versa. Toda aquela medonha e ferrenha perseguição da polícia ao bando não passava de um jogo, de uma encenação prestando contas às altas esferas de poder. E mesmo assim nem todas, pois é sabido que o próprio Lampião era protegido e visto com bons olhos por altas patentes, grandes lideranças políticas, coronéis nordestinos e governantes.

Contudo, como o Estado brasileiro não podia simplesmente ignorar uma guerra por justiça social, contra as arbitrariedades do poder e outras mazelas, e sendo travada praticamente dentro de uma região inteira, então teve de intervir, através do envio de tropas para combater os insurgentes, tidos como sanguinários bandoleiros a desafiar a ordem e a paz social. Ora, também era preciso passar uma imagem de um governo que não admitia que bandidos fizessem justiça com as próprias mãos nem que desafiassem as leis estabelecidas.

Contudo, as forças combatentes, ou forças perseguidoras, também chamadas volantes, pois distribuídas em várias frentes e com fácil poder de deslocamento, diferentemente do que ocorrera nas primeiras desastradas campanhas de Canudos, não eram formadas por pessoas alheias ou desconhecedoras da realidade nordestina. Daí o exercício da função policial, adentrando nas matas e cidades para combater os inimigos da ordem, mas também uma inegável cumplicidade com o cangaço. E aos olhos de muitos policiais um movimento que se justificativa positivamente.

Diante de tal contexto é que se pode afirmar que nem a polícia foi totalmente inimiga do cangaceiro, nem este daquele. Situações existiram onde grandes confrontos resultaram em mortes de ambos os lados. Entretanto, há de se observar que em tais ocorrências determinados cabras das volantes mostravam ter uma rixa quase que pessoal com os cangaceiros de Lampião, algo como ciúme doentio ou que haviam jurado matar em troca de dinheiro que não vinha do próprio comando. Ora, havia gente muito importante por trás disso tudo.

Segundo dizem, João Bezerra era comandante de um grupo de policiais que sempre preferia os acertos e conchavos do que propriamente a inimizade e o confronto, muito menos com o maior dos cangaceiros. Perseguia sim, entrava na mata sim, tocaiava, emboscava, providenciava as mais terríveis armadilhas, mas quando muito para matar bicho pequeno. E Bezerra prestava contas aos seus superiores dizendo que não passaria muito tempo pra liquidar todo o bando, principalmente quando arrancasse a cabeça de Lampião.


Mas no mesmo instante que enviava missivas com tais afirmações, providenciava, através de coiteiros e pessoas de sua extrema confiança, encontros às escondidos com aquele que deveria ser seu inimigo maior. E por que a volante, os seus comandados, também não estavam a par dessa grande amizade e dos acertos entre os dois? Só uma resposta: a volante deveria continuar predestinada na perseguição, no encalço do bando, mas não para matar o seu líder. Mas caberia a ele, enquanto comandante e amigo de Lampião, direcionar as ações para que isto jamais acontecesse.

E dizem que o último encontro entre os dois ocorreu no lado de cá do Rio São Francisco, bem pertinho da Gruta do Angico, onde o bando estava acoitado. Desse local no meio do mato, debaixo de árvore frondosa, para o lugar onde a volante estava bastava atravessar o rio, pois a macacada mantinha posto na povoação alagoana de Piranhas. Quer dizer, o comandante jogava animadamente com Lampião enquanto a tropa policial ansiava por encontrar notícias sobre o paradeiro do bando.

Neste aspecto é que ressurge a cena do filme “O Sétimo Selo”, em que o guerreiro aventureiro trava uma disputa com a morte. Se no filme os dois jogavam dama, no sertão o jogo era com baralho. Lampião, já cansado de tantas andanças e batalhas por todo lugar, desafiava aquele que poderia ser sua morte. Sim, naquela disputa o Capitão João Bezerra representava a morte. E a vida do bando talvez dependesse apenas do quanto tempo Lampião continuaria vencendo o inimigo. Mantinha amizade, mas sabia que não podia confiar demais, pois a morte traiçoeira ali presente.

Ninguém sabe quem ganhou ou perdeu naquele dia. Talvez ali Lampião tivesse obtido sua última vitória, pois a morte atravessou o rio na madrugada e veio descontar a derrota. E o último selo do cangaço foi finalmente rompido.


(*)Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com
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LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE (III)

Por: Clerisvaldo B. Chagas - Crônica Nº 811

Acho que o primeiro livro sobre o cangaço que eu li foi do autor Nertan Macedo: “O capitão Virgulino Ferreira da Silva – Lampião”, da Editora Leitura, 1962, no início da minha adolescência. Linguagem vigorosa, porém, muito poética e que impressiona os jovens no alvorecer das grandes leituras. Daí para cá, ou antes, disso, inúmeros pesquisadores esmiunçaram a existência de Virgolino e, ultimamente escrevendo até a vida de vários de seus muitos mais de duzentos seguidores. Em Alagoas ainda resta um ex-cangaceiro vivo, motivo de uma conversa que tive com um dos seus genros para escrever os feitos do sogro. Não aposto que pode acontecer, pois não me empenho para isso.


Quando o livro de Archimedes fala sobre o autor de “Lampião na Bahia”, Oleone Coelho Fontes (1998), como coiteiro de Pedro de Morais, pela sua apresentação tendenciosa no livro “Lampião, o Mata Sete”, é sem dúvida motivo de tristeza. Dizem que é um ótimo livro, o escrito por Oleone, mas sair da condição de festejado para coiteiro de Morais, pelo amor de Deus!
 


Quanto às páginas referentes e contra o coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão, não batem com o que sabemos. Informações amplas sobre o assunto, inclusive a morte de José Ferreira, logo estarão disponível brevemente em “Lampião em Alagoas”. Mesmo assim, na próxima crônica narraremos a nossa opinião sobre Lucena, baseada na tradição oral em Alagoas e nas linhas de outros escritores do cangaço.

Diante de tantas e tantas obras publicadas sobre Virgolino, vimos afirmações sobre ele, muitas, exageradas: Era parteiro, poeta, artesão, almocreve, agricultor, vaqueiro, pecuarista, dançarino, devoto, entres outras qualidades. Expressando minha humilde opinião sobre o que tenho lido do montante de títulos a seu respeito, no Sertão nordestino, o fazendeiro, vaqueiro, pequeno proprietário nasce naquele meio fazendo quase tudo. Lampião apenas fazia o que todos faziam, sem os exageros dos que dizem que ele era o melhor isso, o melhor aquilo, numa adoração sem fim.  Quantas besteiras! Compositor razoável, poeta sofrível, almocreve comum, bom dançarino como muitos outros sertanejos, vaqueiro, artesão, pequeno agropecuarista com o pai, dentro da normalidade. Agora, quando se fala da sua capacidade militar, aí sim. O homem nasceu mesmo para guerrear. Era na verdade muito superior em estratégia a todos os comandantes de volantes que enfrentaram a luta. Não confundir com valentia, pois valentes e covardes nunca faltaram nas tropas do governo e nem nos bandos cangaceiros.  Lampião nunca foi coronel dos coronéis e nem todos temiam suas investidas. Lampião nunca passou de falso capitão, mas foi o gênio militar das caatingas nordestinas em torno de vinte anos. Não há contestação. Ele nunca foi herói por ter participado de guerras do Brasil com outros países, herói nacional. Entretanto, o mestre Aurélio diz: “Herói: homem extraordinário por seus feitos guerreiros; pessoa que por qualquer motivo é o centro de atrações”. É o mestre quem diz em seu “Novo Dicionário AURÉLIO” e não eu. Está aí: o monstro, estuprador, assassino, torturador, ladrão, assaltante, bandido, herói do conceito acima pelo seu extraordinário quengo militar e convergência das atenções. VE E VE A D O DÓ, doutor Pedro de Morais, com certeza o “Diabo dos Sertões” nunca foi e nem teve vontade. A coisa tá feia doutor.
(continua amanhã).