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domingo, 15 de dezembro de 2013

O SANTO BEBERRÃO

Por Rangel Alves da Costa*


As aventuras e estripulias do santo beberrão ganharam fama sertão adentro. Contudo, segundo afirmam, era santidade um pouco diferente das demais, vez que santo de pé de balcão e não somente de reza, igreja ou oratório. Sua estadia celestial era outra.

E santo de pé de balcão porque cultuado por todos aqueles bebedores de bares, bodegas e botequins. O verdadeiro bebedor, conhecedor como ninguém da força de sua santidade protetora, jamais ousa entornar uma dose sem antes oferecer um tiquinho ao santo.

Talvez apenas fruto da cultura e do misticismo sertanejo, e logo se espalhando pelos quatro cantos, mas a verdade é que ninguém pode beber uma pinga sem antes oferecer o primeiro gole ao danado do santo. Por isso mesmo que o copo é levemente deitado até que um pouquinho da cachaça se derrame ao pé do balcão onde ele está.

Sempre ao pé do balcão e de boca aberta, ávida para beber, está o santo protetor do apreciador da cachaça. E que ninguém se faça de besta de não oferecer. O não oferecimento resultará em drásticas consequências, sendo a instantânea embriaguez a primeira delas. Quem bebe e não oferece esquece o caminho de casa, perde o dinheiro do bolso, tudo começa a dar errado.

Muita gente logo se afasta daquele que não cumpre com sua obrigação. Temeroso, conhecedor das estripulias do santo beberrão, o verdadeiro bebedor nem se aproxima do esquecido nem aceita que este lhe ofereça dose. Pelo contrário, olha logo desconfiado e procura outro amigo pra segredar que a coisa não vai ser nada boa pro deslembrado.


Certa feita apareceu um dizendo que não oferecia mais cachaça ao santo porque era até pecado alimentar o vício duma santidade. E quem já viu dizer que o tal santo só se prestasse a viver em pé de balcão, com a boca virada pra riba e só esperando que chegue um e lhe derrame aguardente, foi o que afirmou o cabra desnaturado. E coitado desse, pois ali mesmo no balcão se engasgou com um umbu que quase bota as tripas pra fora. Acabou morrendo por causa disso.

Outro se deu mal apenas pelo esquecimento. Era cumpridor de suas obrigações, mas chegou afoito demais pra virar o copo e acabou se esquecendo de oferecer a primeira ao divino bebedor. Pra sua desgraça, o vendedor serviu a cachaça trocada. Ao invés de aguardente limpa, da boa, acabou bebendo da batizada, misturada com água, daquela que o bodegueiro guardava para cachaceiro que não distinguia mais nada. E sua perdição começou a partir desse dia.

Verdade é que a maioria tudo fazia para não esquecer o compromisso com o do pé do balcão. Mas um dia, logicamente que já fora do botequim, temendo que fosse escutado e castigado, um cabra disse ao compadre que não entendia como o danado do santo suportava beber tanta cachaça, principalmente em dia de feira. Ora, mais de cinquenta chegavam ali e mais de quarenta ofereciam cachaça. E ele bebia todas.

O compadre olhou para o outro sem saber o que responder, mas se saiu com qualquer coisa e disse ter a máxima certeza que o danado do santo vivia trocando as pernas no pé do balcão. E não sabia como ele saía dali e ainda subia na escada pro céu, que é onde certamente morava. E todo dia chegar lá completamente bêbado e dizendo que tinha sido embriagado pelos debaixo, por fulano e sicrano.

Ao ouvir isso o cabra arregalou os olhos e avermelhou. Será? Então deu meia volta e entrou novamente no botequim. Acompanhado do compadre, mandou descer duas lapadas da branquinha e disse alto, olhando pro pé do balcão, que daquela vez não ia oferecer cachaça alguma a um certo fofoqueiro que enchia a cara de pinga e depois ia dizer lá em cima quem lhe havia embebedado.

O dono do botequim, sem entender nada, perguntou se já estava de fogo antes de virar a dose. Então o cabra disse mais: De agora em diante, quem quiser ser santo cachaceiro que bote a mão no bolso e peça e pague sua dose. Não ofereço mais de jeito nenhum. Bebo e ainda cuspo no chão, bem no lugar onde ele deve estar esperando a pinga de boca aberta.

Mas nem conseguiu despejar a dose goela adentro. Caiu pra trás arroxeado, sufocado, com força apenas para implorar que despejassem uma garrafa de pinga ao pé do balcão. E nunca mais ninguém ousou deixar de oferecer a cachaça do santo. Mas ele não estava mais lá. Foi chamado à atenção e proibido de descer do céu diretamente para o pé de balcão.

Assim ouvi no sertão como absoluta verdade. Talvez o santo não esteja mais de boca aberta esperando a pinga, mas é melhor não se fazer de besta de não homenageá-lo. Tome quantas quiser, mas primeiro ofereça a dele.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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sábado, 14 de dezembro de 2013

Bangu, Memória de um Militante - Lauro Reginaldo da Rocha - Bangu - Parte IX

Por Brasília Carlos Ferreira – Organizadora, 1992


Lauro Reginaldo da Rocha era Mossoroense

“OITAVO DIA”

Na noite anterior – Sexta-feira da paixão – graça aos ideais cristãos da polícia fascista, não fui levado à sala das torturas. Não fiquei sabendo se lucrei ou se perdi com a benevolência religiosa dos tiranos, pois o meu desejo era que terminasse logo o suplício, qualquer que fosse o fim a mim destinado: viver ou morrer.

O “quadrado” deixou de emitir os seus gritos e gemidos infernais, o silêncio emendou com o da noite, até o dia seguinte. Agora só ouço a voz que vem de dentro de mim com uma força irresistível: ÁGUA! Tenho que beber água de qualquer maneira! A sede está me deixando louco.

Torno a pensar no vaso da privada. Já fui algumas vezes até lá, com o propósito de beber água, mas o investigador que me acompanha não dá oportunidade, fica grudado como um carrapato. Tenho que ter cuidado para não despertar suspeitas, o melhor é esperar a mudança da guarda.

Os acessos de sono são, agora, intermitentes. Nos intervalos surgiu um novo fenômeno até então desconhecido: a cabeça tomba repentinamente para frente, mas de maneira rápida, numa sacudidela incontrolável. Creio que é uma consequência dos cochilos e dos sustos produzidos pelas pancadas da correia de couro sobre a mesa. As sacudidelas transformaram-se num cacoete insistente e penoso. Mas, tiraram ao vigia a oportunidade e o prazer de estalar a sua correia, pelo menos até que outro acesso de sono volte a me atacar. Só o aperto na nuca não me larga e continua a progredir. As dolorosas pulsações e a peso na nuca são duas coisas difíceis de descrever, eu nunca havia sentido nada na vida que se assemelhasse àquilo.

O doutor Mariosinho é um médico atento ao “seu serviço”, tem vindo diariamente me examinar e suas conclusões são sempre as de que eu ainda possuo reservas suficientes para continuar a suportar os suplícios. E repete os elogios às minhas qualidades de nordestino resistente, acostumado a aguentar as durezas da vida. Talvez ele pense que o nosso corpo esteja revestido de uma couraça protetora toda especial, que nos torna invulneráveis e insensíveis. O médico policial é uma espécie de batedor da “turma do esculacho”: vem sempre na frente. Depois do seu “diagnóstico”, fui levado ao “quadrado”.

Os espancadores reiniciaram o seu trabalho com certa apatia, como se realizassem uma tarefa demasiadamente corriqueira. Depois foram se reanimando, como que estimulados por um estranho e cruel sentimento que aos poucos desperta e se agita em seu íntimo. Dentro em pouco são acometidos de verdadeira exaltação.

Os carrascos dão vazão ao seu sadismo, vão se reversando na pancadaria. Com a desidratação do organismo, o meu hálito se tornara insuportável. Parecia que estava poder por dentro. Percebi que o meu cheiro incomodava até mesmo os espancadores – eles que estavam habituados a lidar com a podridão e que pareciam sentir-se bem em revolvê-la. Passei a usar o meu mau hálito como auto-defesa, à moda maritacaca: disfarçadamente jogava o bafo na cara do algoz mais próximo. Ele recuava tonto. É tudo que posso fazer com vocês no momento, dizia comigo mesmo.

Em algumas ocasiões os “tiras” davam mostras de cansaço, faziam uma pausa, e o silêncio reinava por alguns minutos. Surgia, então, da sala vizinha – de onde comandava as operações – o detetive Veras e vinha incentivar seu sequazes: “Baixa o pau nesse f.d.p.! Ele está bancando o “queixo duro”, mas aqui não tem disso não. Ou ele fala ou vai ficar mudo pra sempre”.

A voz de comando era obedecida incontinente, os monstros caiam sobre mim feitos um furacão; socos, pontapés nas canelas, membros retorcidos, o mundo girava, o terreno fugia sob meus pés. O meu corpo transformara-se numa carcaça; mas o massacre prosseguia.

O que mais me revoltava eram os apelos à deleção: “Fala Bangu! Fala e te daremos água, cessaremos as torturas! “Eu pensava, Ah”! Se eu ao menos pudesse dizer alguns palavrões! Nem isso eu podia dizer, para desabafar. Eu tinha que “engolir” os insultos calados, minha única resposta era o silêncio. Apenas o silêncio.

Na oitava noite de torturas. Paguei o dobro pelo “descanso da Sexta-feira da Paixão. 

CONTINUA... 

http://www.dhnet.org.br/memoria/1935/livros/bangu/04.htm#primeiro 

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Lampião e outras histórias - Cachorras das moléstias

Por Doizinho Quental

  
  
Apesar da coragem e ousadia do bando de Lampião, eles nunca foram bem sucedidos frente aos “Jurubebas”, homens destemidos, que tinha em Odilon Flor um dos seus maiores inimigos.

 Odilon Flor e Luiz Flor
             
Certa feita, Lampião atacou o reduto deles, mas precisamente no Saco-da-Roça, pequena aldeia da região do Pajeú.

A surpresa foi grande. Homens, mulheres e meninos defenderam a pequena vila com unhas e dentes.  Verdadeira alcateia esfaimada. Afinal, eram tudo cunha do mesmo pau. Tanto Lampião como os jurubebas nascerem e se criaram no mesmo caldeirão de lutas sangrentas.

A briga não engrossou mais porque o rei do cangaço sentiu que o buraco era mais embaixo. Não contou conversa, botou o coxim debaixo do braço e retirou o ardiloso bando.

Desta empreitada maluca, o famoso celerado nunca mais havia de esquecer. Sempre que tinha oportunidade, lembrava-se desta façanha dos jurubebas.

Lampião quando estava de bom humor conversava e, às vezes, brincava. Aproveitando um destes dias, alguém que privara da sua amizade, perguntou:

- Aí, “nego véi,” cuma foi a disgraceira do Saco-da-Roça?

Ele teria respondido:

- Ô mundiça disgraçada! Mexer cum aquela praga é o mermo que futucar um buraco de abeia capuxu. Até as muler saltaro pra fora e brigaro feito umas cachorra da molésta!”.

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