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sábado, 4 de abril de 2015

NAVEGANDO PELAS PÁGINAS DE “LAMPIÃO, A RAPOSA DAS CAATINGAS”

Por Antonio Corrêa Sobrinho

Navegando pelas páginas de “Lampião, a Raposa das Caatingas”, obra compêndia do sergipano José Bezerra Lima Irmão, na parte que trata da viagem de Lampião a Mossoró, no Rio Grande do Norte, ao ler: “No início da tarde, em Canto do Feijão (Santa Helena), Massilon matou o delegado Raimundo Luís do Nascimento, para vingar a morte de um primo”, lembrei-me imediatamente de um recorte de jornal que guardo há um tempo, que até hoje não sei como chegou em minhas mãos, talvez dentro de um livro a mim emprestado, por sinal, sem data de publicação e sem o nome jornal; trazendo um artigo assinado pelo filho do sobredito delegado, Raimundo Santa Helena, que o faço, a seguir, transcrito, para apreciação e consideração dos amigos.

ESTÁTUA DE LAMPIÃO

Lampião matou meu pai, delegado e fundador do município de Santa Helena, Paraíba, em 9 de junho de 1927, com um tiro num olho e outro na nuca, dado por seu irmão Ezequiel.


Depois que a imprensa divulgou sobre a estátua de Lampião, que o prefeito de Serra Talhada (PE) quer construir em homenagem ao assassino, tenho recebido telefonemas, dia e noite, especialmente de professores e pesquisadores, indagando se tenho documentos a respeito. Tenho sim. De dois prefeitos, do presidente da Câmara Municipal de Santa Helena e de 32 habitantes, todos autenticados, que comprovam tudo o que já foi divulgado. E tem mais: só agora estou revelando o pior que Virgulino fez contra a honra de minha mãe, quando, logo após ter matado meu pai, ergueu um punhal de meio metro e levantou o vestido de mamãe, grávida de cinco meses, e disse: “vou abrir o bucho desta égua pra ver a cara do macaquinho!” Foi impedido de fazê-lo pelo cangaceiro Jararaca, que conhecia nossa família. Lampião, enfurecido, foi à cozinha, esquentou seu ferro de marcar animais e marcou minha mãe, Rosinha Ferreira, conforme pode testemunhar seu médico no Rio, Dr. Miguel Morone. O facínora Virgulino Ferreira ainda estuprou minha madrinha, a cega Isabel, marcou-a também com o ferro em brasa e a deixou nua, desmaiada no chão do quintal, com terra e cinza nos órgãos genitais.


Os 66 cangaceiros mataram meu pai e seu ajudante, Eliziário, tocaram fogo na cidadezinha, mataram os animais e saquearam tudo que puderam levar em mais de 70 cavalos, burros e jumentos. Algum tempo depois, os “coronéis” roubaram nossas terras, seta casas e um açude. Mamãe, com três filhos órfãos, passou a lavar roupa para os habitantes da cidade que meu pai, Raimundo Luiz, fundara e por ela morrera. Fomos morar de aluguel num pequeno quarto do Sr. Antônio Rolim, e eu, com meus irmãos Toinho e Cândido, passamos a vender cocada e tapioca nos trens de passageiros que cruzavam o município duas vezes por semana. Todos diziam: “Seu pai foi um herói”.

Foi por isso que aos 11 anos fugi de casa, pulando de um jumento num trem a carvão, descalço e só com a roupa do corpo, com um canivete, para vingar a morte de meu pai. Mas depois que fui torturado, quando era menino de rua em Fortaleza, por um policial de chapéu vermelho, descobri que o Lampião que eu procurava poderia ser encontrado em qualquer esquina do mundo. E agora, com a morte trágica de minha mãe – que se suicidou em 23 de fevereiro do ano passado, pulando numa cachoeira, pelo desgosto de ter sido abandonada pelas autoridades – e por causa da estátua a Lampião, o desejo de vingança invadiu o pensamento do meu irmão Toinho e reativou a minha luta para que se faça justiça, isto é: que o meu pai seja lembrado como herói, que os crimes cometidos contra a minha família e contra centenas de outras famílias nordestinas não sejam esquecidos pela sociedade e que, principalmente, jamais se pense em erguer um monumento a bandido neste país, para que as futuras gerações não se envergonhem dos seus antepassados.

Tem mais: meu irmão, viúvo, sem filhos, jurou que vai explodir a estátua, nem que seja a última coisa que faça na vida. Prefiro os caminhos da Justiça, ou abandonar o Brasil que defendi na segunda guerra Mundial, tendo recebido duas condecorações da presidência da República. Democracia, que defendi com riscos de vida e sacrifício de minha mocidade, não é isso não. Realizar um plebiscito para decidir se um assassino cruel, estuprador, torturador e sequestrador merece uma estátua pública é o mesmo que realizar outro para saber se os monumentos em homenagem a Tiradentes devem ser demolidos. Os leitores que me conhecem há 46 anos na Literatura de Cordel, sabem que não estou mentindo: definitivamente, não posso conviver com a estátua de Lampião, cartões postais respectivos, etc., como se ele fosse um segundo Padim Ciço. Juro que não posso. Raimundo Santa Helena – cordelista – Rio de Janeiro.

Deste conhecido cordelista, assisti, agora, a um pequeno vídeo seu, intitulado “Assim Castrava Lampião”, onde ele confirma o que disse acima, e, no final, para minha surpresa, vir com esta: “Lampião era perverso, matava, castrava, violentava, era pedófilo. Agora, Lampião é meu maior inimigo, mas não concordo com essa história de que ele era homossexual. Ele era um tarado”.

Fonte: facebook

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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