Por: Ivanildo
Silveira
Contatos
Outro detalhe muito importante relatado por Manoel Félix é o que se relaciona
às ligações de Lampião com influentes fazendeiros, principalmente nos estados
de Bahia, Alagoas e Sergipe, embora sempre com o cuidado de não revelar, nem
mesmo aos seus mais chegados seguidores, a identidade desses indivíduos.
Na última semana de vida, Lampião manteve, lá do Angico, contatos com
vários desses fazendeiros através de emissários que despachava secretamente, e
dos quais, por motivos óbvios, exigia absoluto segredo de suas missões,
geralmente com o objetivo de apanharem dinheiro, mantimentos, armas e munições.
De quem chegava, ou de onde chegava o que ele precisava, Lampião fazia questão
de não relatar, mantendo tudo sob o mais completo sigilo.
A confiança de Luiz Pedro
Por volta das
15 horas do dia 27/Julho/1938, treze horas portanto, antes do cerco que lhe
causou a morte, Maria Bonita, que na opinião de Manoel Félix, não competia em
beleza com Cila, deixou a gruta, onde se encontrava com os companheiros, e foi banhar-se
no riacho que passa próximo a entrada da mesma.
O coiteiro descreveu-nos a fiel e corajosa companheira de Virgulino Ferreira a
Silva, assim à vontade, como uma: "mulher baixinha, toda redondinha, uma
carinha bonita e com dois olhos pretos e grandes, morena clara, cabelos negros
e lisos, quadris relativamente largos, cintura fina, tendo os braços e pernas
roliços e muito bem feitos".
Muito "prosista e conversadeira", brincava bastante com alguns dos
bandoleiros, pelos quais era respeitada, apesar de muitos deles levarem essa
brincadeira mais além, como Luiz Pedro, por ela chamado de “Caititu”, e que
gozava da maior confiança e intimidade da mesma e do próprio Lampião, seu
compadre.
Nada de
anormal até o momento? Realmente o Juarez tava indo até "marro
meno"... vejam como a "invenção" de um gesto poe em cheque a
autoridade do Rei do cangaço perante seu comandados. (Kiko Monteiro)
Nessa tarde,
por sinal, depois de "caçoar" com Luiz Pedro, deixando de fazê-lo
somente no momento em que se dirigia para o riacho, o bandoleiro, que
estava sentado sobre uma pedra, deu-lhe uma palmada mais ou menos forte nas
nádegas, fazendo-a correr na direção do pequeno córrego, enquanto Lampião,
que a tudo assistia, sorriu como se nada tivesse acontecido.
Na véspera da morte
Manoel Félix recorda-se que, na véspera da chacina, quando esteve com Lampião,
informou não lhe ter sido possível comprar na feira de Piranhas, em Alagoas,
tudo o que ele mandara (carne, peixe, queijo, agulhas, chapéu de couro, uma máquina
de costura e brim mescla), porque, como já dissemos na reportagem anterior, a
Polícia passou a vigiá-lo.
Ainda assim, entregou as agulhas de Maria Bonita, devolvendo a Lampião os
200.000 réis que dele recebera para adquirir mantimentos. Conversaram durante
longo tempo, comendo queijo, que chegara da Fazenda Mulungu, de onde o bando
havia recebido certa quantidade de farinha e açúcar.
Lampião mostrava-se bem disposto, pedindo-lhe, inclusive, que lhe cedesse o
cinturão em virtude do seu já se encontrar bastante estragado.
Também Maria Bonita, muito "prosista e conversadeira", conversou com
Manoel Félix, procurando informar-se da situação financeira do mesmo e dos seus
familiares.
Aliás, desde o primeiro encontro que teve com o grupo, na Fazenda Bom Jardim,
em Sobradinho, no local conhecido como “ Olho D'Água de Antônio Jorge",
quando foi levar banha de peixe que o seu tio Lisboa Félix, também amigo e
coiteiro de Lampião, mandara para o cangaceiro "Boa-Noite" passar
no joelho doente, que "Maria Bonita" demonstrou haver gostado dele.
Nessa tarde, dia 27 de julho, Manoel Félix recorda-se de que vários cangaceiros
jogavam cartas, entre eles Juriti, Passarinho, e Sereno, Luiz Pedro, José de
Julião, Moeda, Mergulhão, Colchete, Alecrim, Fortaleza, Cajazeira, Criança,
Quinta-Feira, Elétrico, Macela, Canário e Caixa de Fósforo, enquanto outros
passeavam nas proximidades.
Luis Pedro, teve oportunidade de mostrar-lhe, e ao seu tio Caduda, que estava
em sua companhia, grande quantidade de ouro guardada numa pequena caixa, como
anéis, correntões e argolas.
Este bandido, de estatura mediana, claro, cabelo miúdo, e muito alegre,
juntamente com Manoel Moreno e Zé Sereno, preparou a comida para o grupo na
véspera da morte.
Embora não lhe revelassem plano de ataques a qualquer cidade, Manoel Félix pôde
ver que o grupo contava com grande quantidade de armas e munições, como fuzis e
revólveres, além de punhais.
Na última tarde que teve de vida, Lampião, segundo Manoel Félix estava
absolutamente tranqüilo, chegando mesmo a fazer pilhérias quando soube do medo
que causava ao coiteiro a possibilidade de ser descoberto pelas volantes.
Aliás, nos últimos meses, Lampião parecia mais acomodado, um tanto diferente
porque sempre pensativo, o que não impedia, porém, de manter a autoridade sobre
o grupo, inclusive com os mais temíveis dos seus integrantes, como aconteceu
com Luiz Pedro quando este, querendo botar o seu cachorro para brigar com
"Guarany” o de "Lampião", acabou se desentendendo com o chefe,
de quem levou, sem responder uma única palavra, séria repreensão.
Com relação ao cachorro “Guarany” ocorreu um fato interessante na segunda-feira
que precedeu à chacina do Angico: descansando, com a cabeça recostada a uma
pedra, Lampião cochilava, tendo ao lado seu fiel cão de guarda, quando dele se
aproximou Zé Sereno, trazendo um bode que capturara pouco antes.
Vendo o animal, “Guarany”, latindo muito, avançou sobre ele, assustando-o,
fazendo com que bode, espantado, pulasse sobre Lampião, que, extremamente
supersticioso, vendo na reação do bicho um possível mau sinal, ordenou, aos
gritos, que Zé Sereno soltasse imediatamente "esta peste", no que foi
prontamente atendido.
Até às 18 horas do dia 27/julho/1938, aproximadamente, Manoel Félix permaneceu
no Angico, de onde saiu com a recomendação feita por Lampião para retornar no
dia imediato, madrugada ainda, pois eles teriam que viajar, tudo indicando que,
como das vezes anteriores, a última das quais na Fazenda Santa Filomena,
distante duas léguas da sede de Poço Redondo/SE, iria receber 50 ou 100 mil
reis de gratificação, pelos serviços que prestou.
Este, o encontro que jamais iria se realizar, pois, de acordo com as instruções
recebidas, ao se dirigir, na madrugada do dia imediato (28/julho/1938), para a
Grota do Angico , à certa distância ouviu o tiroteio terrível, o que lhe deu a
convicção de que, afinal, a volante houvera descoberto o esconderijo de
Virgulino Ferreira da Silva, cercara-o e se encontrava dando-lhe combate,
sobrevindo, a morte do Rei do Cangaço, naquele fatídico dia.
Fonte: Segunda reportagem publicada em 28/05/1980) no Jornal "A
TARDE" / Salvador
Autor: Jornalista Juarez Conrado
Considerações
Realmente, eu achei, também, muito estranho, a narrativa do autor da matéria,
ao tecer comentários na reportagem sobre "Maria Bonita", tendo
informado: É a narrativa de um fato inusitado, envolvendo "Luiz
Pedro e Maria Bonita", e que deixa os estudiosos/pesquisadores do
cangaço de "orelha em pé ". Como se vê, ou o jornalista exagerou
na sua narrativa, ou o coiteiro Manoel Félix, lhe narrou o fato, de maneira
diversa do ocorrido, na realidade.
Na minha
opinião, acho difícil e improvável, que tal fato, tenha ocorrido.
Convém, também salientar, que na literatura cangaceira, pelo menos nos livros
que li até hoje, não constatei, nenhuma linha, em relação ao comportamento de
Maria Bonita, em que o rei do cangaço tenha externado "cenas de
ciúmes", da parte dele, em desfavor de algum cangaceiro " .
Como se constata, há muitas informações relativas ao "casal Rei do
Cangaço", que precisam de uma melhor análise, separando-se o fato real, da
lenda, bem como as insinuações de alguns escritores .
Um abraço a todos,
Ivanildo
Silveira
Natal/RN
http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2009/11/perolas-delirios-literarios-ou-seu-doto.html
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