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sexta-feira, 1 de maio de 2020

1928 – A HISTÓRIA DO PRIMEIRO VOO SOBRE O SERIDÓ E A INAUGURAÇÃO DOS CAMPOS DE POUSO DE ACARI E CAICÓ

Qual a Razão Para a Construção desses Campos de Pouso? Como Se Deu Esses Eventos? Quem Pilotou o Avião e Que Aeronave Era Essa?
Rostand Medeiros – Escritor e Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
Campo dos Franceses em Parnamirim e o avião Breguet XIV AV2, matricula F-AGBV, número 306, o experiente aviador André Depecker, que levou o governador Juvenal Lamartine ao Seridó em 1928.
Eram nove e meia da manhã de uma quarta-feira ensolarada e em uma cidade do sertão potiguar uma multidão não parava de observar o céu. Estavam todos atentos ao surgimento de algo diferente daquilo que normalmente divisavam no horizonte, as desejadas nuvens de chuva.
Estamos no dia 16 de agosto de 1928, na centenária cidade de Acari, região do Seridó, onde a maioria dos seus habitantes se concentrava em uma área a alguma distância do centro da pequena urbe. Um local que até recentemente era apenas mato. Logo circulava de boca em boca no meio da multidão, que na cidade o dedicado telegrafista Mário Gonçalves de Medeiros havia recebido uma mensagem dando conta que o governador potiguar Juvenal Lamartine de Faria estava a caminho.
E os acarienses continuavam olhando para o alto, pois dessa vez aquela autoridade não chegaria de automóvel, vindo pela Rodagem, mas estaria entre seus amigos desembarcando de um moderno avião. A primeira aeronave a voar pelo interior do Rio Grande do Norte.
Aquele era o momento da inauguração do campo de pouso de Acari, um acontecimento que era visto com extremo orgulho por todos na cidade e apontava para interessantes possibilidades de progresso.
Acari era a primeira cidade potiguar a ter esse tipo de benfeitoria inaugurada pelo governador Lamartine. Sendo uma obra construída pela comunidade, com assessoria do governo do estado, tendo a frente dos trabalhos os fazendeiros Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa e Cipriano Pereira de Araújo. Além de Acari, ainda naquele dia 16 de agosto o governador Lamartine seguiria para Caicó, a maior e mais importante cidade da região, para inaugurar o campo de pouso local. Uma grande e detalhada reportagem do jornal natalense A República (18/08/1928), foi publicada em sua primeira página sobre a construção desses campos e como ocorreram esses eventos.
Circulavam pela pista de terra dos mais abastados aos mais humildes acarienses e seridoenses. Veio gente das povoações de Carnaúba, Cruzeta, São José e outros das vizinhas cidades de Currais Novos, Jardim do Seridó, Parelhas e até de mais distante. Homens, mulheres, crianças e idosos com seus cabelos prateados se misturavam aos vaqueiros com chapéus de couros, que orgulhosamente passeavam em seus cavalos. Estes últimos circulavam ao lado dos automóveis dos coronéis, que traziam seus familiares para ver o progresso vindo dos céus.
Em meio à agonia da espera, alguns comentaram Mário Gonçalves de Medeiros havia recebido novas informações da passagem do avião sobre as cidades de Macaíba, Santa Cruz e Currais Novos.
O Avião Está Chegando
Realmente para os potiguares da época, todo aquele movimento aviatório era um assombro. Nem fazia tanto tempo assim, quase seis anos, quando o hidroavião com Euclides Pinto Martins e alguns norte-americanos, conhecido em Natal como “Libélula de Aço”, tinham sido a primeira aeronave a sobrevoar o Rio Grande do Norte e a visitar a capital. Logo vieram outras aeronaves, como um hidroavião branco que sobrevoou Natal e depois baixou no Rio Curimataú, perto de Canguaretama, sendo pilotado por um argentino chamado Ollivieri. Na sequência a capital potiguar recebeu os hidroaviões do italiano De Pinedo, do português Sarmento de Beires e a esquadrilha de três aeronaves da aviação do exército dos Estados Unidos.
Hidroavião da esquadrilha Dargue, que esteve em Natal em 1927.
Mas o que verdadeiramente encheu os potiguares de orgulho e enlouqueceu a capital foi à chegada do hidroavião brasileiro Jahú, pintado de vermelho e pilotado pelo paulista João Ribeiro de Barros. Mesmo com todos os problemas ligados a esse “Raid”, os potiguares quase explodiram de satisfação ao saber que eram os primeiros brasileiros a receber aquele hidroavião em nosso território continental.
Não demorou a circular a notícia que os franceses estavam construindo um campo de pouso em um lugar chamado Parnamirim, não muito distante de Natal. E em outubro de 1927 aquele local foi palco de um verdadeiro prodígio – Um avião francês atravessou o Atlântico com o piloto Dieudonné Costes e seu companheiro Joseph Le Brix e aterrissou em Parnamirim, depois de terem partido de Paris apenas dois dias antes. No mês anterior ao da inauguração dos campos no Seridó, os italianos Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete tinham descido em uma praia perto de Touros, depois partirem de Roma e voar sem escalas entre a Europa e a América do Sul.
População de Touros (RN) empurrando o avião S.64 de Ferrarin e Del Prete até a vila de pescadores.
Aquelas notícias corriam por todo Rio Grande do Norte. Mesmo com muitos sertanejos sem compreender totalmente seu significado, só o fato de saber que modernas aeronaves vindas do outro lado do mundo tinham como destino a sua terra, o seu estado, era algo que criava um clima diferente, positivo e intenso.
No caso de Acari, quando chegaram os homens do governo para elaborar a construção da pista do campo de pouso, tendo a frente o capitão-tenente aviador naval Djalma Fontes Cordovil Petit, o falatório e a curiosidade foram gerais. Agora, naquela ensolarada manhã de quarta-feira, ali no campo de pouso, todos aguardavam o governador Juvenal Lamartine para inaugurar aquela obra.
Djalma Petit e Juvenal Lamartine. Foto da Revista Cigarra. Fonte-http://peryserranegra.blogspot.com
Quando faltavam cerca de dez minutos para as dez, alguém viu ao longe um avião pintado de branco e o frêmito da multidão foi geral. Primeiramente a máquina sobrevoou algumas vezes Acari e logo, com extrema maestria e para assombro de todos os presentes no campo de pouso, o “bicho” passou baixo e roncando forte. Deu para ver o piloto acenando e umas letras pintadas de preto na lateral da máquina voadora. Aí o avião deu uma volta e passou de novo sobre a pista, como querendo observar o lugar para ter segurança para pousar. Não demorou e o piloto aterrissou seu avião com perfeição, mas levantou uma poeira danada.
Chegada do Breguet no campo de pouso de Acari em 15 de agosto de 1928.
A máquina rodou pela pista que tinha 500 metros de extensão, por 150 de largura. Foi aos poucos desacelerando e parou. Quando o governador Lamartine surgiu com um gorro de piloto, a multidão estourou em aplausos.
Juvenal e a Aviação  
Mesmo tendo nascido na cidade potiguar de Serra Negra do Norte, mais precisamente na fazenda Rolinha, Juvenal Lamartine cultivou uma relação muito próxima com Acari, terra de sua mulher Silvina Bezerra de Araújo Galvão. Ali foi juiz de direito por sete anos, tinha muitos amigos e a região era seu principal reduto eleitoral.
Festividade em Natal para os aviadores italianos Ferrarin e Del Prete. Da esquerda para direita vemos o Cônsul italiano em Recife, Arturo Ferrarin, Juvenal Lamartine, Carlo del Prete e a cientista Berta Lutz.
Homem inteligente, culto e vivaz, Lamartine certamente foi um dos primeiros potiguares a perceber as vantagens positivas que a localização do Rio Grande do Norte trazia para a incipiente indústria da aviação. Quando assumiu o governo potiguar em janeiro de 1928, Lamartine propagava um forte discurso desenvolvimentista, utilizando como exemplo a aviação em terras potiguares. Imaginava Lamartine que em pouco tempo o Rio Grande do Norte, bastante carente de ligações rodoviárias e ferroviárias, poderia ter na aviação uma maneira de ligar mais rapidamente seus extremos. 
Entre seus feitos nessa área podemos listar o total apoio às empresas aéreas estrangeiras que aqui se instalaram, a criação de um aeroclube e de uma escola de aviação em Natal e a construção de campos de pouso em cidades do interior.
Mesmo com toda sua inteligência e capacidade, Juvenal era um homem do seu tempo e do seu lugar. Não foi surpresa ele apoiar e incentivar fortemente a criação nas cidades de Acari e Caicó dos primeiros campos de pouso no sertão. No futuro aqueles locais poderiam até nem receber mais aeronaves, mas realizar aquelas inaugurações, diante de sua gente e chegando dos céus em uma aeronave estrangeira, era algo que não tinha preço.
De Cavalo de Batalha na Primeira Guerra, Para o Sucesso no Uso Civil
Já o avião biplano que transportou o governador era de fabricação francesa, chamado Breguet XIV AV2, desenvolvido inicialmente como avião militar na Primeira Guerra Mundial.
O engenheiro Louis Charles Breguet- Fonte – https://m.mgronline.com/general/detail/9610000054741
Seu idealizador foi o engenheiro Louis Charles Breguet, que no início de 1916 propôs as forças armadas francesas o desenvolvimento de um grande biplano monomotor de dois lugares, chamado Breguet AV. O protótipo AV1 voou pela primeira vez em 21 de novembro de 1916, com um motor de 250 hp e se mostrou extremamente bem sucedido. Essa aeronave podia levar uma carga de 730 kg, se elevando aos 6.500 metros de altitude em alguns minutos e atingindo a velocidade máxima de 175 km/h, feito que poucos aviões de caça da época poderiam alcançar. Breguet então decide ampliar a capacidade de motorização de sua nova aeronave para 275 hp e nasce o protótipo AV2, que incorpora dois tanques de combustível de 130 litros e um tanque de óleo (20 litros) no lado direito do motor.
Assim que os testes oficiais do AV2 foram concluídos em janeiro de 1917, ele é batizado de Breguet XIV e 508 unidades foram encomendados pelos franceses. O resultado geral é bastante positivo e a nova aeronave se torna um verdadeiro “Cavalo de batalha” da aviação francesa nos últimos anos da Primeira Guerra. Logo surge uma versão de bombardeio de dois lugares, equipada com motor V12 Renault, de 300 cv. Mais de 1.500 aeronaves são encomendadas a Louis Breguet, que também foi vendida para a aviação militar belga e para a Força Expedicionária Americana. Em abril desse ano Louis Breguet consegue entregar aos seus clientes quatro unidades dessa aeronave por dia e 2.000 aviões estão em serviço no final da guerra, com versões que incluem aviões de treinamento, bombardeiro de longo alcance, transporte de feridos e uma versão equipada com flutuadores.
Breguet XIV AV2 da aviação militar francesa – Fonte – http://wp.scn.ru/ru/ww1/b/48/21/0
Em fevereiro de 1919, Louis Breguet e outros sócios fundam a Compagnie des Messageries Aériennes (CMA), cuja linha principal liga Paris a Londres. Essa empresa aérea civil opera entre 1919 e 1923 e os aviões militares Breguet XIV A2 são usados com tanques adicionais e recipientes colocados sob as asas para transportar malas postais entre Paris, Bruxelas e Londres. O uso pela CMA desses aviões mostram suas vantagens e qualidades para a aviação civil. Logo outra empresa aérea francesa vai utilizar o mesmo avião com esse fim, principalmente do outro lado do Oceano Atlântico.
Breguet XIV AV2 da Latécoère na França.
Durante a Primeira Guerra Mundial o visionário Pierre Georges Latécoère, decidiu transformar sua fábrica de vagões em um centro de produção aeronáutica. Em 1918, com a paz restaurada e percebendo a urgência de acelerar a comunicação entre os países, Latécoère cria em 1º de setembro de 1919 uma linha aérea regular para transportar o correio entre a França e o Marrocos, cujo voo inicial foi realizado pelo piloto Didier Daurat, diretor das linhas Latécoère, em um Breguet XIV A2. Depois a linha, ou “La Ligne”, como os franceses a denominavam, chegou a Dacar, na antiga África Ocidental Francesa e hoje capital do Senegal. Na sequência Daurat recrutou pilotos como Jean Mermoz, Henri Guillaumet, Antoine Saint-Exupéry e André Depecker.
Em abril de 1927 Pierre Georges Latécoère cedeu a linha aérea à Marcel Bouillioux-Lafont, investidor francês radicado na América do Sul. A razão social da empresa passou a ser Compagnie Générale Aéropostale (CGA).
Marcel Bouilloux-Lafont
Lafont tinha planos ambiciosos, com a ideia de criar uma grande linha aérea postal de Toulouse, Casablanca, Dacar e daí para Natal, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Santiago do Chile. Nesta ideia empreendedora, ainda em julho de 1927, vindo do Rio de Janeiro, chega a capital potiguar um avião Breguet pilotado pelo francês Paul Vachet e mais dois companheiros. Eles vêm para implantar em um descampado conhecido como Parnamirim, o primeiro aeródromo do Rio Grande do Norte. Fato que comentamos anteriormente.
Paul Vachet, terceiro a partir da esquerda, realiza o reconhecimento completo e detalhado da linha Buenos Aires até Natal – Fonte – http://sterlingnumismatic.blogspot.com/2010/05/latecoere-aeropostale-air-france.html
Em 1 de março de 1928 foi inaugurado o primeiro serviço aeropostal entre a França e a América do Sul. Nesta operação os aviões partiam de Paris até Dacar, onde os malotes com correspondências eram então embarcados em navios pequenos e bastante velozes conhecidos como “Avisos Postais”, ou “Avisos Rápidos”, que atravessavam da África até Natal. Depois eram embarcados em aviões para o sul do país.
Como no Brasil basicamente as rotas aéreas dos franceses percorriam o litoral, certamente eles jamais pousariam com alguma regularidade em Acari, Caicó ou algum outro campo de pouso que viessem a ser criado no interior do Rio Grande do Norte. Mas não era nenhum prejuízo para esses estrangeiros realizar aquele voo e satisfazer o governador Lamartine naquela viagem ao Seridó. Contanto que este continuasse colaborando com seus interesses em terras potiguares. Percebi que a Compagnie Générale Aéropostale deu muita importância no apoio àqueles eventos, pois além do piloto e Juvenal Lamartine, seguia no avião George Piron, diretor da empresa francesa em Natal.
O Primeiro Piloto a Sobrevoar o Sertão Potiguar
E para ocasião festiva em Acari e Caicó foi convocado para pilotar o Breguet XIV A2, matricula F-AGBV, número 306, o experiente aviador André Depecker, um dos melhores da Aéropostale, com anos de atuação no transporte de correio aéreo e de passageiros na Europa, África Ocidental e América do Sul. Além de tudo isso, Depecker era um dos pilotos franceses mais populares e conhecidos em Natal.
Detalhe do avião Breguet.
Realmente aquela missão tinha de contar com um piloto como Depecker. Até aquela data nenhuma aeronave havia sobrevoado o sertão do Seridó e nem aterrissado nas cidades de Acari e Caicó. Ele tinha experiência suficiente para voar com mapas simples e poucas referências, seguindo adiante basicamente no visual. É possível que Juvenal Lamartine tenha ajudado Depecker na orientação do caminho a seguir para Acari, pois no passado já havia realizado várias viagens no lombo de burros entre o Seridó e Natal, conhecia bem as referências do caminho por terra e falava fluentemente francês.
André Depecker nasceu em 1904, na cidade de Hautmont, extremo norte da França, não muito distante da fronteira com a Bélgica. Ele tinha apenas dez anos de idade quando estourou a Primeira Guerra Mundial. Não sabemos se sua família foi atingida diretamente pelo conflito, mas sabemos que sua cidade esteva na zona ocupada pelas tropas alemãs e só foi libertada pelos ingleses em novembro de 1918.
André Depecker.
Sobre aspectos de sua vida e sua entrada na aviação, nada conseguimos apurar. Mas nos antigos jornais sempre encontramos várias notas elogiosas sobre seu trabalho, atuação e caráter.
O conceituado crítico de arte Antônio Bento de Araújo Lima, que se criou na fazenda Bom Jardim, em Goianinha, Rio Grande do Norte, registrou no Diário Carioca (12/11/1935-P.6) como havia sido seu primeiro voo, seguindo a rota entre Natal e o Rio de Janeiro, cujo piloto foi André Depecker. Para Bento o voo foi fenomenal, onde ele teve a oportunidade de sobrevoar o Rio durante a noite, “fantasticamente iluminado”, em condições atmosféricas perfeitas. O passageiro classificou o piloto francês como “Forte, calmo, corajoso e ao mesmo tempo de uma prudência incomparável”.  Segundo o periódico recifense Jornal Pequeno (14/04/1930-P.1) Depecker foi condecorado em abril de 1930 pela Societé Aeronautique de France, em decorrência do apoio prestado aos aviadores italianos Ferrarin e Del Prete em Touros.
O francês parece que gostou muito do Brasil, tendo um carinho muito especial pelo Rio Grande do Norte. Em 2007 eu realizei uma entrevista com o escritor Oswaldo Lamartine de Faria, filho do governador Juvenal Lamartine e que na juventude conheceu vários pilotos franceses que estiveram em Natal, pois sua casa no bairro de Petrópolis era próxima do local que alojava esses aviadores. Oswaldo Lamartine me disse que André Depecker havia se apaixonado ardorosamente por uma jovem da cidade de São José de Mipibu. Meu entrevistado não sabia a situação anterior dessa mulher, mas sabe que o francês montou uma casa para ela, onde se encontravam quando ele aqui escalava. O fato chamou tanta atenção na provinciana e pequena cidade, que essa mulher foi apelidada de “Maria de Depecker” e até uma música de carnaval foi para ela criada.
Avião em que pereceu André Depecker.
Anos depois, em 5 de novembro de 1935, vamos encontrar André Depecker pilotando um avião Latécoère 28, prefixo F-AJIQ. Segundo o Diário Carioca (06/11/1935-P.1) junto com ele seguiam os franceses Joseph Le Duigou, operador de rádio, Auguste Morel, engenheiro de voo, e Fernand Clavere, navegador. A aeronave procedia de Buenos Aires, Argentina, com escala em Montevideo, Uruguai, pousando nos principais aeródromos ao longo da costa brasileira e tendo como destino Natal. O Latécoère 28 transportava quilos de correspondências destinadas a Europa. Após a partida de Salvador a equipe confirmou pelo rádio que tudo estava indo bem a bordo. Algum tempo depois, no que se acredita ser o litoral do atual município baiano de Conde, o avião caiu no mar em circunstâncias até hoje desconhecidas. Os destroços da aeronave e os quatro corpos foram encontrados, bem como algumas malas postais.
Juvenal Lamartine em Acari
Segundo a reportagem de A República (18/08/1928), após Juvenal Lamartine, George Piron e André Depecker desembarcarem do Breguet XIV A2 no campo de pouso de Acari, foram recebidos por várias autoridades. Entre estes se encontravam o Coronel Felinto Elísio (de Jardim do Seridó e presidente da Assembleia Legislativa), o Padre Bianor Aranha e o Dr. Eurico Montenegro (juiz de direito de Acari). Logo se sucederam vários discursos.
Na sequência foi formado um grande corso de automóveis e todos seguiram para a residência de Cipriano Pereira de Araújo, onde foi oferecido um almoço aos presentes. No final do banquete Juvenal Lamartine levantou um brinde para Terezinha, filha do seu amigo Cipriano.
Após esse almoço o grupo seguiu para a sede da Presidência da Intendência, onde foi realizada uma cerimônia de incentivo ao sufrágio feminino no Rio Grande do Norte, que contou com a presença da cientista paulista Betha Maria Julia Lutz, ativista feminina, grande incentivadora do voto feminino. Sobre esse interessante evento eu comentarei em uma futura postagem do nosso TOK DE HISTÓRIA.
Martha Maria de Medeiros
Entre os seridoenses que vieram testemunhar o fato estava Marta Maria de Medeiros, professora formada na Escola Doméstica de Natal e filha do fazendeiro Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido por todos em sua região como Coronel Quincó da Ramada, e de Maria Florentina de Jesus. Marta vivia com os pais na Fazenda Rajada, que ficava próximo da grande e bela serra homônima e do povoado de Carnaúba, atual município de Carnaúba dos Dantas. A professora era uma admiradora do governador Lamartine, com quem sua família tinha ótimas relações. Marta havia seguido o chamamento do governador quando ele pediu que jovens senhoritas potiguares, que possuíam determinado nível de instrução, se inscrevessem para a concessão de títulos eleitorais, os primeiros da América do Sul. Ela se inscreveu oficialmente em Acari no dia 10 de dezembro de 1927, tornando-a a quarta eleitora do Rio Grande do Norte e a primeira da região do Seridó. Inclusive foi Marta Medeiros quem recebeu Bertha Lutz em Acari, conforme comentarei futuramente.
O autor dessas linhas, quando ainda era um simples estudante, teve o privilégio e a honra de ouvir Marta Maria de Medeiros, minha tia-avó, narrar a sua visão da inesquecível chegada desse avião em Acari.
Chegada em Caicó
Somente às três da tarde os tripulantes retornaram ao avião Breguet, em meio a muitos aplausos dos presentes, e partiram de Acari para Caicó,.
Após 30 minutos de voo a aeronave francesa sobrevoou Caicó e depois seu campo de pouso. A aterrissagem, segundo o jornal A República, foi dificultada pelas pequenas dimensões do campo de pouso, que teve a frente dos trabalhos de construção o Coronel Celso Dantas. Mas o pássaro de aço francês aterrissou em segurança. Segundo Antônio Luís de Medeiros, competente genealogista potiguar e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, as dimensões desse antigo campo de pouso em Caicó eram reduzidas e ficava localizado próximo da estrada que segue para Jardim do Seridó, numa área conhecida como Baixa do Arroz, não muito longe da área onde se localiza atualmente o Açude Itans.
Juvenal Lamartine, na inauguração do campo de pouso em Caicó.
Após deixarem a aeronave, tal como em Acari, começaram os discursos e aplausos. Segundo A República o empresário caicoense Renato Dantas realizou um elogio a André Depecker, comentando que o francês havia realizado uma pilotagem competente, por uma região “nunca dantes navegada”.
Eles ficaram hospedados na casa de Celso Dantas e a noite todos participaram de um evento em homenagem ao governador e a ativista Betha Lutz, que chegou a Caicó de automóvel.
Segundo o jornal natalense A República (18/08/1928), no outro dia pela manhã o Breguet decolou e pousou novamente em Acari, onde esteve na Escola Tomaz de Araújo, onde foi recebido pela professora Iracema Lopes Brandão, que pronunciou um discurso. À tarde o Breguet retornou a Natal.
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ANTÔNIO SILVINO

Acervo do Antônio Corrêa Sobrinho

ANTÔNIO SILVINO o primeiro rei do cangaço fotografado logo após sua chegada ao Rio de Janeiro, depois de cumprir pena em Recife. 

Publicação do jornal carioca Correio da Manhã, edição de 02/11/1938.


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UMA FAMOSA ENTREVISTA. EX-CANGACEIROS DE LAMPIÃO CONVERSAM COM O FAMOSO REPÓRTER JOEL SILVEIRA.

Do acervo do Antonio Corrêa Sobrinho

O JORNAL – RIO DE JANEIRO – QUINTA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 1944

]SEIS ANTIGOS CANGACEIROS EXPLICAM O CANGAÇO

Volta Seca, Ângelo Roque, Saracura, Deus Te Guie, Cacheado e Caracol na mais movimentada e estranha de todas as “mesas-redondas”

“A primeira impressão que tive de Lampião foi o de um homem sujo” – Volta Seca: “Nunca vi Lampião brigar sozinho” – Lampião dizia: “Falar alto prejudica” – Cacheado: “Os coiteiros sempre foram a nossa perdição” – Mencionado, entre os coiteiros, o pai do Secretário de Justiça de Pernambuco – Saracura: “A gente nunca sabe como se começa” – Caracol: “O povo do sertão tinha mais confiança na gente do que nos macacos da volante” – O penitenciarista mais moço do mundo – Deus Te Guie: “Houve muita injustiça por estes sertões”

(Reportagem de JOEL SILVEIRA – Fotos de JOSÉ BRITO, da Agência Meridional)

Na Penitenciária da cidade de Salvador, o repórter Joel Silveira, da Agência Meridional, continuando a série “O Caminho do Norte”, reuniu seis antigos companheiros de Lampião na mais estranha, movimentada e pitoresca das mesas-redondas. Volta Seca, Ângelo Roque, Saracura, Deus Te Guie, Caracol e Cacheado, antigos reis das caatingas e dos cangaços, durante perto de três horas falaram ao jornalista sobre suas vidas, sobre os motivos que os levaram à vida do crime, sobre suas esperanças e tristezas. A figura do capitão Virgulino Ferreira da Silva é retratada e analisada fielmente pelos seus ex-comandados, e um dos fenômenos mais típicos do cangaço, o coiteirismo, surge aqui através de tintas novas e fortes.

À “mesa-redonda do cangaço”, na Penitenciária baiana, estiveram também presentes o diretor do estabelecimento, Sr. Paulo Barreto de Araújo, O jornalista Odorico Tavares, diretor do “Estado da Bahia” e do “Diário de Notícias”, além de dois médicos.

CIDADE DO SALVADOR, setembro – Fiz, em meio à conversa, a pergunta repentina: os antigos companheiros e comandados de Lampião, se entreolharam, silenciosos. Ângelo Roque baixou a cabeça e Saracura, com os olhos mais tristes do mundo, pôs-se a olhar pela janela aberta. Segundo depois, porém, Cacheado me encara com o seu rosto de criança, ilumina-se num sorriso cândido e me diz:

- A gente matava como uns danados.

- E acrescenta:

- Mas a culpa não era da gente.

Ângelo Roque, o ‘velho Ângelo”, aprovou com a cabeça. E Cacheado continuou:

- Se os homens educados não auxiliassem a gene com munição, a história seria outra. Não teria se dado nada do que se deu. Pensando bem, os criminosos são eles. Uma pessoa que enxerga não ajuda um bandido.

RESOLVI FAZER JUSTIÇA COM AS MINHAS MÃOS

É uma tarde de quinta-feira, e estamos aqui, num dos mais amplos salões da penitenciária do Salvador, diante de seis famosos homens do cangaço: Volta Seca, Ângelo Roque, Saracura, Cacheado, Deus Te Guie e Caracol. Deus Te Guie é quase um menino, apenas dois anos de banditismo nas caatingas, mas Ângelo já vai se aproximando dos cinquenta: tem um rosto grave, de uma tristeza séria, e o sertão deixou nele profundas marcas – as faces cortadas por rugas como talhos e um brilho de sol inclemente nos olhos. Antes do repórter haver começado a tomar os seus apontamentos, o Dr. Paulo Barreto de Araújo, diretor da Penitenciária, fizera um pequeno discurso aos seis antigos bandoleiros. Aquilo ali era uma espécie de “mesa redonda do cangaço”, na qual seria debatido, entre o jornalista e os homens da caatinga, tudo que lhe dissesse respeito. Que cada um contasse sua história, as razões que o haviam levado a deixar a existência legal e ordeira de suas roças e seus empregos para a tremenda aventura do banditismo sertanejo. E que falassem livremente, com a toda a sinceridade.

- Eu sempre falei com sinceridade.

E me conta, dando início à conversa, que entrou para o cangaço para desafrontar sua honra.

“Sempre fui um homem da ordem. Sempre vivi honestamente do meu trabalho”.

Sua história, em resumo, é simples, e a escuto na própria voz do “velho Ângelo”, uma linguagem seca e típica de sertanejo. Ângelo Roque da Costa nasceu em Jatobá, Itacaratu, em Pernambuco. Entrou para o banditismo em 1928, quando conheceu Lampião. Seu primeiro encontro com Virgulino foi na fazenda Arrasta-Pé, na margem baiana do São Francisco.

- Não me esqueço da primeira impressão que Lampião me deu: a de um homem sujo que dava nojo.

Pouco antes de 28, em Jatobá, um soldado da força local deflorou uma irmã de Ângelo, é o que ele me diz. O caso foi para a justiça, mas o soldado era protegido da política “de cima” – as queixas e revoltas de Ângelo nada conseguiram.

- Então resolvi fazer justiça com as minhas próprias mãos. Fui na casa do soldado, mas só estava lá a mulher dele. Esperei na porta até que ele chegasse. De noitinha ele apareceu, e então lhe disse que ia morrer. Atirei duas vezes. O praça caiu de bruços, mas não morreu. Me disseram depois que andou muito tempo à beira da morte, mas não morreu.

O medo da prisão jogou Ângelo Roque na caatinga; durante vários meses, andou como um seu pouso pelos áridos caminhos do sertão. Pouco aparecia nas cidades. Trabalhou em roças, fez plantações, dormia no mato. Conheceu, depois, Corisco e Arvoredo, e os dois lhe explicaram que a única maneira de viver tranquilo, longe da polícia, era entrar para o cangaço. Em 1928, quando conheceu Lampião, se decidiu. Mas ficou pouco tempo com Virgulino:

- Lampião não podia ficar parado num canto, e eu nunca fui homem viageiro. Além disso, de vez em quando a gente se encrencava. Um dia tive uma briga mais séria com ele, por causa de uma coisa sem importância. A gente estava de emboscada, na caatinga, com a polícia defronte. Uma sede medonha me queimava a garganta, e em dado momento reclamei por água em voz alta. Lampião me disse: “Se falar mais, lhe liquido”. Respondi que isto era difícil. Virgulino me respondeu: “Falar alto prejudica”. Retruquei que também ele, Lampião, gostava de falar alto e reclamar. Virgulino me respondeu que era o chefe; podia fazer o que bem entendesse. “Todo chefe deve dar o exemplo”, disse. Depois outros companheiros se meteram no meio, e tudo ficou aí. Mas compreendi logo que nunca poderia me dar bem com Lampião.

Meses depois, Ângelo falou claro ao capitão Virgulino: ia deixa-lo, formar outro bando, como Corisco. Lampião não protestou, e o “velho Ângelo”, com mais dois companheiros, ficou como residente fixo na zona baiana do São Francisco.

- Mas confesso ao senhor que a vida do crime nunca me seduziu. Eu havia entrado para o cangaço sem querer, mas sempre compreendi que aquilo não estava certo. Quando 1939 começou, eu já estava com a resolução acertada: me entregaria à polícia. Não fizera isto antes, com medo da prisão. Um sertanejo livre não gosta de viver metido entre quatro paredes. Se os doutores me prometessem a liberdade, eu me entregaria com os meus companheiros, acabaria com o bando e iria viver de meu trabalho. Entrei em negociações com os capitães Felipe Castro e Salomão Rehen, da força policial de Coité, no norte da Bahia. Os dois se entenderam com as autoridades da capital e a resposta veio depois: que eu podia me entregar com meus cabras, sob garantia oficial de liberdade. Então nos entregamos. A princípio tudo correu bem. Passei uns seis meses na Bahia sem ninguém me incomodar. Meus companheiros foram para o interior, à procura de trabalho. Com umas economias que tinha, entrei como sócio de um caminhão. Mas depois aconteceu a desgraceira.

O culpado da “desgraceira”, me explica Ângelo Roque, foi o promotor de Coité, que, em 1941, requereu da justiça estadual a prisão do “velho” e dos seus companheiros.

- Este homem sempre me quis mal, não sei porque. Nunca fiz nada com ele.

A justiça foi implacável para com os antigos reis do cangaço: Ângelo e seus amigos foram condenados, cada um, a 30 anos de prisão.

VOLTA SECA BRIGA COM LAMPIÃO

O doutor Paulo Barreto de Araújo (é o mais jovem diretor de Penitenciária de todo o mundo, me explicaram na Bahia – ele tem 25 anos de idade) me diz que, na prisão, o comportamento de Ângelo Roque tem sido exemplar. Há meses atrás, o antigo bandoleiro trabalhou numa ‘Horta da Vitória” da Legião Brasileira de Assistência, e diariamente, sem qualquer vigilância, seguia, a bonde, para o bairro de Brotas, como qualquer outro passageiro da Circular. E de todos os seis ali presentes, o único que tentou fugir foi Volta Seca. Pergunto ao famoso “cabra” de Lampião, seu lugar-tenente, o que pretendia ele fazer ao se sentir livre o seguro. Volta Seca- é o mais vivo, o mais alegre e o mais inteligente de todos – me responde num sorriso:

- Ia cuidar de minha vida.

E depois:

- Me meteria num lugar bem longe, mas tão longe que ninguém ouvisse falar de mim. Mudaria de nome e ia viver tranquilo. O que passou, passou.

Sua fuga, há pouco mais de um ano, foi um pródigo de habilidade e sangue frio: com uma lima rústica, Volta conseguiu serrar uma das grades da prisão, e seu corpo fino e elástico, corpo de menino, deslizou pela pequena abertura e, depois, por um reduzido espaço entre os fios elétricos do muro da Penitenciária.

- Em pouco mais de vinte dias, fui a pé daqui da Bahia até Santa Luzia, em Sergipe. Não fui em menos tempo, porque um companheiro meu, que também havia conseguido escapar, adoeceu no caminho.

Converso com este rapaz de 28 anos de idade (parece ter apenas vinte), e às vezes me esqueço que foi ele próprio, há dez anos atrás, que comandou uma série de horrores numa fazenda de uns parentes meus, no sul de Sergipe. Seu bom humor é contagiante, e é impossível deixar de rir quando Volta nos revela, na sua maneira dialogada, ecos de sua fuga recente:

- Uma tarde cheguei numa roça e pedi emprego. A dona da roça me olhou, perguntou depois: - “Você não é o Volta Seca? ” Dei um pulo para trás, gritei: “Deus me livre, minha senhora! Isto é coisa que se diga! ” Então a moça continuou: “Pois já vi o retrato de Volta Seca e o senhor se parece muito com ele. ” Respondi: “Pois então, dona, me pareço com o diabo! ”

Pergunto a Volta Seca sua opinião pessoal sobre Lampião, e ele me responde:

- Lampião sempre foi um homem difícil de explicar.

- Mas era valente?

- Homem, não sei. Rodeado de amigos bem armados e dispostos, todo mundo é valente... Nunca vi ele brigar sozinho. Lampião só andava rodeado, e assim qualquer trabalho é fácil.

Aponta para Ângelo Roque, afogado na sua gravidade:

- Valente era aquele ali. Isto sim. Já vi várias vezes o velho Ângelo enfrentar sozinho vários “macacos” (macacos são os soldados das volantes).

Também Volta Seca brigou, certa vez, com Lampião. Foi uma briga muito séria, me diz ele, e Deus Te Guie confirma:

- Naquele dia, eu tinha certeza que um dos dois ia acabar de viver: ou Volta ou o capitão.

O mal-entendido entre o chefe do bando e o seu cabra mais importante e famoso teve lugar em 1931, após um duro combate com a força policial. Um dos bandoleiros, Bananeira, havia sido ferido pelos “macacos” e ficara estendido na estrada. Volta Seca procurou Lampião e pediu-lhe autorização para ir buscar o amigo ferido. Virgulino achou que a empresa era perigosa e que a saída de Volta poderia facilitar aos soldados a pista do bando. Mas Volta Seca não podia deixar o companheiro morrer, me diz. Então surgiu o primeiro atrito entre os dois. Em companhia de Caracol, que também está aqui presente, com seu rosto parado, Volta conseguiu arrastar Bananeira até um lugar bem seguro. Mas Bananeira estava muito ferido, e teve que ser transportado numa rede.

- Bananeira pesava como o diabo, me dia Volta Seca.

Quando os dois chegaram, com o companheiro ferido, Lampião e o resto do bando já haviam ido embora. Voltaram depois, e Virgulino procurou Volta Seca.

- Menino, a gene tem que andar depressa. Os macacos estão por perto. Solte o ferido aí e monte no seu cavalo.

Volta Seca respondeu que não podia fazer aquilo. Bananeira iria com ele – e montou o ferido no seu próprio cavalo. Virgulino, cheio de raiva, ordenou a Volta que desmontasse Bananeira.

- Então o sangue me subiu para a cabeça. Disse que não desmontava. Lampião pegou na carabina, mas fui mais ligeiro do que ele. Apontei bem no peito, e lhe disse: “Se o senhor com as pestanas, atiro” – Lampião estava verde de raiva. Ficamos assim um tempo grande, um olhando para o outro. Depois os companheiros serenaram a coisa. De noite, no meu rancho, fui avisado por Quixabeira e Gavião que Lampião ia me matar no dia seguinte. Então dei o fora.

“QUASE TODO DONO DE FAZENDA ERA COITEIRO”

Volta Seca tinha apenas 14 anos quando entrou para o bando de Virgulino Ferreira da Silva. Nascera em Itabaiana, no centro de Sergipe, fugiu de casa e andou sozinho pelo sertão. Encontrou-se com Lampião em Guloso, no município de Bom Conselho, na Bahia. Ele me diz agora que, quando menino, apanhava quase que diariamente de Lampião. De Virgulino e dos outros:

- Todo mundo gostava de enxugar a mão em mim. Até o velho Roque. Mas depois endureci o cangote, e o primeiro que me apareceu com ares de pai, recebi com a mão no rifle.

Volta Seca me garante que metade das histórias que contam a seu respeito não são verdadeiras.

- Gostam de contar, por exemplo, que eu só matava à traição. Uma calúnia. Eu posso ser tudo, meu senhor, posso ser ruim de doer, mas uma coisa não sou: covarde e traidor. Nunca matei ninguém pelas costas, sempre em defesa própria. E sempre fui amigo dos meus amigos. Eu podia ter matado Lampião, naquele dia da briga, matar pelas costas, friamente. Mas não matei, porque era feio.

Pergunto a Volta Seca os nomes de alguns dos coiteiros mais importantes e mais chegados ao bando. Ele sorri e responde:

- O que passou, passou.

Mas Cacheado toma a palavra:

- Quase todo dono de fazenda era coiteiro. Os coiteiros sempre foram a nossa perdição. Eles nos davam dinheiro, comida e munição. E eram sempre eles que nos entregavam aos macacos.

Cacheado lembra-se de dois coiteiros importantes: Antônio Caixeiro, do noroeste de Sergipe, e do Dr. Odalio, de Pau Ferro, em Pernambuco, pai do atual secretário de Justiça do Estado de Pernambuco, no governo do interventor Agamenon Magalhães.

Volta Seca tenta inocentar os coiteiros, dizendo:

- Eles tinham que ajudar a gente. Senão a gente queimava a fazenda e matava o gado.

VOLTA SECA CONTRA O SR. BERILO NEVES

Pouco antes de iniciarmos a longa conversa de mais de três horas, Volta Seca falou baixinho ao repórter, num vão da sala:

- Lhe digo ao senhor que tenho muita raiva de jornalista.

E agora ele revela que sua raiva toda nasceu de uma calúnia que, a seu respeito, divulgou “um tal de Dr. Neves”. O doutor Neves é o cronista Berilo Neves, essa teimosa preciosidade da subliteratura nacional. Numa de suas crônicas diárias do vespertino, Berilo, comentando a fuga de Volta Seca, escreveu várias coisas que o antigo bandoleiro julga extremamente injuriosas à sua pessoa. Segundo Berilo Neves, a prisão transformara inteiramente o antigo lugar-tenente de Lampião, tornando-o um rapaz pacato e acomodado, de voz fina e gestos femininos, apenas preocupado com a ciência de tricô, que aprendera recentemente. Mas a verdade é que venho encontrar um Volta Seca viril, de fala dura. Ângelo Roque me diz:

- Foi uma maldade o que o jornalista fez com Volta. Volta sempre foi um homem.

E o próprio Volta Seca me diz:

- Um amigo me mandou o artigo e nunca mais o perderei. Está cortado, muito direitinho, e guardado no meu baú. Não sou um cabra vingativo, mas gostaria de procurar aquele doutor, quando sair da prisão, para ensinar a ele a fazer crochê. Por causa de seu Neves, tomei raiva de jornalista. Só vim aqui para esta reunião porque o Dr. Paulo pediu muito, e ele é bom para comigo. E agora que o senhor está aqui, quero lhe pedir um favor: desminta lá fora o que disseram de mim. Escreva no seu jornal que sou um homem sério. Digam que sou bandido, que sou criminoso, não há de ser nada. Mas não me chamem de cabra safado, que eu não sou.

Todos os outros companheiros de Volta ficaram também revoltados com a calúnia do cronista carioca. Caracol, um homem de poucas palavras, quebrou o seu silêncio para dizer:

- Isto não se faz. Com a honra de um homem não se brinca.

A GENTE NUNCA SABE COMO SE COMEÇA

Saracura, a pele esverdeada pelo impaludismo, o olhar distante, se perde no mundo lá de fora que a janela aberta deixa ver: o telhado comprido da estação de Calçada, as casas equilibradas no morro ao lado, a chaminé comprida da fábrica. É um rapaz calado que de vez em quando morde os lábios. Suas respostas são quase monossilábicas. Pergunto:

- Como você começou essa vida de bandoleiro, Saracura?

Ele responde:

- A gente nunca sabe como se começa.

Ângelo Roque é da mesma opinião:

- Nunca se sabe. Uma coisa digo ao senhor: ninguém nasce bandido. Vamos dizer que aquele soldado casado não tivesse feito mal à minha irmã – tudo teria sido diferente. Eu continuaria na minha rocinha, talvez tivesse hoje umas economias, talvez até já fosse dono de um sítio. Nunca fui um homem da maldade. Depois que a gente cai no caminho do crime, é que é o diabo. O medo da prisão transforma o indivíduo numa fera.

Caracol, tão calado, parece despertar, e começa a falar numa espécie de explosão:

- Por aí só se fala nas crueldades dos bandidos. Mas o senhor ande pelo sertão, converse com o povo pobre de lá – todo mundo dirá ao senhor que muito mais barbaridades do que nós, praticavam os soldados da força volante. Eu poderia aqui citar casos e mais casos de coisas horrorosas que eles praticaram por estes sertões. Bandidos como a gente. Por isto é que, em muitas cidades e povoados, nós, os cabras, éramos recebidos como salvadores. Em certos lugares, meu senhor, o povo tinha mais confiança na gente do que nos macacos da volante.

Volta Seca aparteia:

- É isto mesmo: os crimes dos macacos foram iguais aos nossos. Mas nada aconteceu com eles. E com os coiteiros? Os homens importantes e ricos do sertão, que nos ajudavam, nos davam armas e víveres, continuam ricos e importantes. Quando fui interrogado pelo júri, denunciei “seu” Petronilio, de São José da Glória, aqui na Bahia, como o maior coiteiro de todo o sertão. Mas a denúncia ficou por isso mesmo.

Cacheado volta com o seu riso de menino:

- A gente matava muito, a gente matava como uns danados. Mas a polícia matava mais.

Ângelo Roque faz um gesto com a mão, e o silêncio volta para a sala. Agora só se ouve a voz grossa do “velho Ângelo”, que diz muito sério:

- Mas não vamos falar mais nisso. O que passou, passou, já disse. O que adiante agora é que nos deem a liberdade prometida. Sou ainda um homem moço, quero ficar livre, trabalhar e cuidar de minha vida.

Volta Seca volta-se para o repórter: - Veja o que o senhor pode fazer por nós. Até agora ninguém nos ajudou. Chegam aqui uns doutores, pedem para ver a gente e saem prometendo mundos e fundos. Mas a verdade é que continuamos aqui. Já passei um tempo medonho na prisão, mais de dez anos, quero a liberdade. Fugi, há pouco tempo, porque não aguentava mais. Se eu não fugisse, ficava maluco.

Deus Te Guie acrescenta:

- “Seu” Ângelo não gosta que a gente fale, mas é preciso que se diga que houve muita injustiça por estes sertões. Por que foi que “Arvoredo” ficou criminoso? Por causa das barbaridades que os macacos fizeram com sua família.

E é Volta Seca quem me conta a história:

- O pai de Arvoredo vivia em Santo Antônio da Glória. Numas eleições, o velho deixou de voltar no chefe político do lugar. O chefe mandou os volantes no seu sítio, e eles fizeram horrores: estupraram as duas filhas e mataram os quatro filhos do velho, inclusive duas criancinhas de berço. Só escapou Arvoredo, que tratou de fazer justiça com suas mãos. Acabou bandido e o velho se tornou coiteiro. Foi preso um dia e acabou morrendo aqui nesta Penitenciária, há dois anos atrás, quase com oitenta anos.

O próprio Saracura parece, agora, sair do seu sono triste. Pede a palavra e conta:

- Posso falar também do meu caso. Peguei na espingarda quase que obrigado, para vingar as misérias que fizeram com meu pai. Um dia, no Coité, as volantes invadiram o nosso sítio. Queriam à força que meu pai desse notícia dos bandidos, como se ele fosse coiteiro. O velho não sabia de nada, e então os macacos começaram a supliciar o pobre: arrancaram as barbas dele fio por fio, arrancaram suas unhas com alicate. Se o senhor pensar que estou mentindo, vá no Coité e procure André Paulo do Nascimento, que mora nas redondezas. É o meu pai. Ele dirá ao senhor se estou ou não falando a verdade. Ele mostrará ao Sr. o estado em que ficaram seus dedos. E eu próprio, antes de pegar na espingarda, fui um dia violentamente espancado na fazenda Curral, perto de Coité. Os macacos haviam dito que eu era coiteiro, mas a verdade é que, até então, eu nunca vira um bandido na minha vida.

Saracura me revela mais que é casado e tem três filhos, que de vez em quando o visitam. A última carta que recebeu do seu pai veio com a data de 6 de agosto do ano passado.

“QUERO TIRAR UM RETRATO OLHANDO LÁ PARA FORA”

A palestra chega ao seu fim, e peço agora aos antigos companheiros de Lampião que permitam ao meu fotógrafo uma série de instantâneos, coletivos e individuais. Instintivamente, Deus Te Guie abotoa a blusa e passa a mão pelos cabelos envernizados. Volta Seca diz num sorriso:

- Só deixo tirar meu retrato se o senhor mandar uma cópia para mim.

E quando o violento magnésio do meu amigo Brito rebenta na sala, como um tiro de canhão, o ex-lugar tenente do capitão Virgulino dá um pulo da cadeira:

- Um tiro desgraçado! Parece pólvora seca.

E quando lhe peço uma pose especial, Volta chega até a janela aberta e diz:

- Quero tirar um retrato olhando lá para fora com cara triste. Para mostrar aos doutores que estou doidinho para sair daqui.

Há uma larga distribuição de charutos e, ao se despedir, o velho Ângelo aperta minha mão com força:

- Disponha aqui de um criado às ordens. Desminta as calúnias que fizeram a Volta e veja o que o senhor pode fazer por nós.

Nas imagens: Na da esquerda - Saracura, Cacheado, Volta Seca, Deus Te Guie, Caracol, e o jornalista Odorico Tavares (de perfil). Nas seguintes: Ângelo Roque (Labareda), Volta Seca e o jornalista e escritor Joel Silveira.


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