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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
“PAJEÚ EM CHAMAS: O CANGAÇO E OS PEREIRAS”
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O VELHO DO GATO
Clerisvaldo B. Chagas, 28/29 de dezembro de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.440
O homem de avançada idade morava na serra do Gugi, no município de Santana do Ipanema, segundo crônica do saudoso escritor santanense Oscar Silva. Aos sábados, dia de feira semanal, o matuto da serra hospedava-se na casa da avó de Silva, flandreleira Josefina, cuja residência ficava defronte a casa dos meus pais. As conversas do homem sempre giravam em torno das suas proezas sexuais. Uns acreditavam outros não. Estamos falando das décadas de 20 ou 30, narradas por Oscar. Certo dia o pessoal que o ouvia teve a prova dos noves. Surpresa! O matuto da serra iria se casar. Casou. Todos ficaram atentos ao desenrolar dos fatos. Em menos de quinze dias, a idosa com quem se casara abandonou a casa. Os curiosos procuraram o motivo e a própria ex-esposa contou tudo.
Segundo ela, o vigor do velho era impressionante e como o casamento parecia brincadeira, ela correra de casa por conta do velho tarado. “Vá procurar as bestas das grotas para as suas safadezas, seu velho sem-vergonha!”. Contara a frustrada velhinha. O zunzunzum foi grande desde à serra do Gugi às feiras dos sábados de Santana.
Já na minha adolescência surgiu um velho também da serra do Gugi que eu o apelidei de Velho do Gato, nem me lembro mais o motivo. O velho do gato andava sempre com um saco às costas, tinha a cara toda enrugada, um bom humor incrível e uma agilidade comprovada. Comprava retalhos em nossa loja para vender na serra e em outros lugares. Vez em quando pulava rápido como quem estava se defendendo de algum ataque e colocava a mão sob a camisa, num gesto de defesa ao puxar uma faca inexistente.
Pois o velho do gato, lembrava exatamente o personagem da crônica de Oscar. Foi não foi, puxava conversa sobre seu vigor sexual e falava de paixão por um tal Gedalva que vivia a paquerar. Impressionava-me a coincidência em ser ambos os idosos da serra do Gugi, a maior altitude do município. Seriam os ares da serra que contribuiriam para a longevidade sexual dos seus habitantes? Tá aí uma teoria para quem gosta de pesquisar nesses caminhos. Nesse caso, nunca vim a saber se o velho do gato chegou a casar com a sua Gedalva. Nunca mais soube de nada sobre ele, nem se procurava as bestas das grotas como mandara a esposa do primeiro.
A serra do Gugi continua lá a 12 quilômetros da cidade. Entretanto nem sei informar se ainda fornece velhotes assanhados para o município de Santana do Ipanema. (FOTO: B. Chagas).
VÍDEO..!
O cemitério da Serra Vermelha..!
Nele, estão enterrados, o inimigo nº. 1 de Lampião, o senhor. Zé Saturnino e outros personagens, inclusive, o grande rastejador BATOQUE.
Fonte: Cangaçologia/Youtube
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UM ADVOGADO RECÉM-FORMADO
Por José Mendes Pereira
Óbvio que o ser humano é cheio de suas macaquices, uns mais, outros menos, mas tudo isso dentro das suas possibilidades, nunca além.
Como as faculdades têm formados muitos advogados e todos os anos eles são jogados ao mercado de trabalho, isto é, na sua área, se andar pelas ruas de Mossoró uma casa outra não tem um advogado. Mas se você voltar pela mesma rua, todas as casas têm um advogado. Como em todas as atividades Mossoró tem advogados de sobras, e bons, não menosprezando as demais cidades.
Um advogado de Mossoró assim que terminou a sua faculdade de direito cuidou de abrir o seu gabinete de advocacia tão desejado. Tudo prontinho, tudo certinho e nos seus devidos lugares, sala bem arejada, birô do mais sofisticado para a época, caneta folheada a ouro, filtro do mais moderno, porque na época ainda não existia o gelágua (bebedouro), mas servia a água gelada, bureal (escrivaninha) para a secretária, cuja, era uma verdadeira beleza, linda, que ao entrar em seu gabinete, o cliente ao se deparar com ela, não queria mais sair do seu escritório.
Nesse dia, o futuro famoso advogado recebeu o primeiro cliente em seu tão sonhado gabinete. E quem o encaminhou à sua presença foi a bela secretária.
- Sente-se, senhor. Ele atenderá já - disse ela apontando com o dedo o sofá para que ele se acomodasse.
- Muito obrigado, jovem!
O futuro advogado estava no telefone (ainda era telefone convencional) em ligação não sei com quem, e vez por outra, ele espalmava uma das mãos em direção ao seu primeiro cliente, dizendo que esperasse um pouquinho, logo o atenderia.
Terminado a sua ligação, perguntou ao cliente:
- Pode dizer meu querido amigo, qual é a questão que o senhor está querendo que eu a resolva?
- Não senhor, eu não tenho causa para ser resolvida na justiça...
- E o que o trouxe até aqui no meu gabinete, amigão? - perguntou o advogado.
- Eu trabalho para a Telern, Doutor. Eu vim ligar o seu telefone.
O grande advogado não sabia que aquele senhor era um funcionário da Telern e estava ali para ligar o seu telefone através dos fios dos postes No momento ele estava querendo se mostrar, como se o telefone estivesse já ligado. Que coisa engraçada, hein! Mas isso faz parte do ser humano. Cada um como Deus ou a natureza o fez.
Na época, o serviço telefônico era prestado pela "Telern" e posteriormente a empresa mudou de razão social para "Telemar".
Fotos
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SEM MEDO
*Rangel Alves da Costa
Enquanto mundo, o mundo cala, aceita, consente. Contudo, é a omissão na verdade que faz com que o imprestável prospere e o mal tenha garantida semeadura. Mas tomei tuas palavras sem medo, e para expressar realidades que se ocultam nos cortinados sociais e nas máscaras da aceitação por conveniência. Creio que se tivesse coragem diria a verdade sobre a justiça, sobre os juízes, sobre o direito, sobre o aparato judicial. Que vergonha tudo isso! Sentenças compradas, sentenças vendidas, julgamentos infames, decisões baseadas em leis inexistentes, liminares protegendo o crime e os criminosos, togas enlameadas, órgãos julgadores putrefatos e endeusados bandidos. Ora, mas não é a justiça que condena o ladrão de galinha e deixa em liberdade o ladrão de milhões? Ora, não é a justiça que rasga as leis no instinto de proteger os protegidos e endinheirados? É esta mesma justiça que encarecera e depois esquece o pobre, do preto, do mero acusado, mas deixa solto o bandido do alto escalão. A justiça que é uma fábrica de marginais, de reclusos apinhados em lixões, mas que depois supõem uma ressocialização. Ademais, a lei só é rigidamente aplicada quando é para condenar o pobre, o preto, o já condenado pelo próprio mundo. Diferente ocorre no julgamento do poderoso. Então todo um vergonhoso aparato começa a surgir. Surge a hermenêutica, a analogia, a discricionariedade da lei, a jurisprudência forjada, o livre convencimento do julgador, etc., etc. E tudo para encontrar brechas para dizer que o crime não foi crime. E principalmente para dizer que o acusado até santo é.

Então, mundo, são coisas assim que não costumo engolir, ainda que eu saiba que são poucos os que pensam iguais a mim. Mas são poucos os que encaram a realidade com os olhos e a voz da verdade. A muitos, ao invés da verdade, o que lhes alimenta parece ser somente a omissão, a ideologia barata, a mentira, o fanatismo. Um povo que gosta de ser cuspido não é povo, mas uma escória. Uma gente que gosta de apanhar na cara não é gente, mas massa de manobra. Uma sociedade que elege o modismo, a safadeza e o imprestável, como modo de condução de suas vidas, não é sociedade, e sim um deplorável bordel. Diógenes, o filósofo que vivia procurando um honesto com uma lanterna, jamais encontraria seu objetivo. Por outro lado, demasiado fácil encontrar os antros de roubalheira, de corrupção, de desonestidade. Entanto isso, os humilhados continuam aplaudindo seus algozes.
Escritor
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ANTÔNIO DA PIÇARRA E O CANGAÇO - O CANGAÇO NA LITERATURA - #293
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CEARÁ FOI O REFÚGIO SEGURO DE LAMPIÃO
Perseguido intensamente em Pernambuco, Alagoas e Bahia, o cangaceiro desfrutava de abrigo em território cearense. Resultado da omissão de políticos, da conivência de policiais e de rede de apoios que ia de vaqueiros a fazendeiros, passando pelo clero
Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi a maior cidade atacada por Virgolino Ferreira da Silva. Sua ação mais ousada - e sua maior derrota. O bando de Lampião encontrou feroz resistência e, após cerca de uma hora e meia de combate, bateu em retirada. Na fuga, dirigiram-se ao Ceará. Em 15 de junho de 1927, chegaram a Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, Ceará, dois dias após deixarem de Mossoró. Lampião enviou mensageiro para avisar de sua chegada. A polícia, então, deixou a cidade. O bando entrou em Limoeiro dando vivas ao governador José Moreira da Rocha e ao padre Cícero Romão Batista, de quem Virgolino era devoto. Os chefes políticos mataram um boi para recepcionar os bandidos. O bando comeu, fez orações. A contribuição em dinheiro foi acertada com os líderes locais. Após o pagamento, o bando de Lampião se retirou.
De todos os Estados nos quais esteve, o Ceará foi, de longe, o que menos sofreu com a violência imposta por Lampião. Ele dizia textualmente que preservava o território. O motivo principal era o padre Cícero. Além disso, tinha boas relações com políticos e a polícia local não costumava importuná-lo. Possuia também importantes aliados. Diante dessa equação, praticamente não há registro de episódios de violência relevantes provocados por Virgolino no Estado.
Na época do ataque a Mossoró, estava em curso em Pernambuco a maior e mais eficaz campanha jamais realizada contra o cangaço. A perseguição em Alagoas também havia se intensificado. Antes da maior cidade do interior potiguar, Lampião atacou o norte da Paraíba, onde nunca havia atuado. Buscava territórios onde tivesse circulação mais fácil. Esse foi o contexto que o levou a Mossoró, em 13 de junho de 1927. Foi a cidade mais ao norte que atacou em toda sua trajetória. Diante da resistência encontrada no Rio Grande do Norte, fugiu para o Ceará.
Visitou frequentemente o Estado quando procurava descanso ou a perseguição crescia em outros lugares. Em outubro de 1925, por exemplo, o bando foi visto em Mauriti, onde fizeram compras na feira e pagaram tudo que consumiram. Como as passagens eram pacíficas, é provável que tenha visitado o Ceará em muitas ocasiões sem que se tenha tido notícia - eram os episódios de violência que faziam com que circulassem as notícias de sua presença.
Padre Cícero
No Ceará, em geral, isso só ocorria quando havia passagens marcantes. Caso de março de 1926, quando chegou a Juazeiro do Norte. Havia recebido convite do deputado federal cearense Floro Bartolomeu para integrar os Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes. Foi recebido pelo padre Cícero, no encontro que reuniu duas das personalidades mais emblemáticas da história dos sertões. A pedido do sacerdote, Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor agrônomo do Ministério da Agricultura e única autoridade federal em quilômetros, assinou numa folha de papel almaço documento dando a Virgolino a patente de capitão dos Batalhões Patrióticos. Os cangaceiros desfrutaram da estada e foram alvos da curiosidade popular. Muitos familiares de Virgolino haviam se mudado para a cidade que já então era uma Meca dos sertões. Lá fizeram a última foto de família.
Ao irem embora, receberam armas, munições e a promessa de trânsito livre. Em Pernambuco, porém, a polícia os perseguiu. O status de capitão dos Batalhões não foi reconhecido. Em pouco tempo, o bando estava novamente envolvido em violência.
No ano seguinte, pouco antes do ataque a Mossoró, em maio de 1927, Lampião esteve de novo no Ceará. Foi a Aurora e, conforme noticiaram os jornais, teve encontro e tomou café com o chefe de Polícia. No mês seguinte, já ao deixar Limoeiro do Norte, Lampião tomava a direção de Aurora quando foi alvo de inesperada hostilidade de policiais cearenses. Aparentemente, tomavam as dores do ataque a Mossoró, sobretudo pelo ataque tem ocorrido tão perto e em cidade tão ligada ao Estado. Os cangaceiros ficaram acuados e quase sem comida, mas conseguiram escapar, em episódio que rendeu duas críticas aos policiais cearenses e sérios questionamentos por parte das tropas de outros estados.
Mesmo sem a repressão ter sido bem-sucedida, a inusual hostilidade em território cearense parece ter sido determinante para uma guinada na trajetória de Lampião - e dos sertões. Em 21 de agosto de 1928, numa canoa, ele cruzou o São Francisco. A região ao sul do Rio se tornaria a base de suas operações dali em diante. O cangaço na Bahia conheceria nova era. E Lampião passou a ter como refúgio preferencial outro estado: Sergipe, onde um de seus protetores seria o médico e capitão do Exército Eronides de Carvalho, com quem Virgolino se encontrou ao menos uma vez. Em meados dos anos 1930, Eronides se tornou governador.
Paradoxalmente, Lampião veio a morrer justo em Sergipe. Mas, pelas mãos da polícia alagoana.
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domingo, 27 de dezembro de 2020
LIVRO “O SERTÃO ANÁRQUICO DE LAMPIÃO”, DE LUIZ SERRA
Serviço – “O Sertão Anárquico de Lampião” de Luiz Serra, Outubro Edições, 385 páginas, Brasil, 2016.
CORONEL MARCOLINO DINIZ E SEUS HOMENS DE CONFIANÇA, PARAÍBA.
Do acervo do historiógrafo Rostand Medeiros.
https://tokdehistoria.com.br/2020/12/22/as-metamorfoses-do-coronelismo/
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A FASCINANTE VIDA SEXUAL DE DOM PEDRO II
Por Paulo Rezzutti
Dom Pedro II - Getty Images
Filho do Demonão, o imperador do Brasil também colecionou polêmicos casos extraconjugais.
Dom Pedro II tinha fama de sábio. Conhecia aramaico, além de diversas línguas vivas. Correspondia-se com a maior parte dos cientistas de seu tempo, bem como com compositores, cantores e atores. Mas sua famosa biblioteca no Rio de Janeiro também tinha outra finalidade. Servia de ninho para seus amores clandestinos.
Quando jovem, o imperador foi criado em uma monarquia sem qualquer brilho após a abdicação de seu pai, dom Pedro I, em 7 de abril de 1831. Ele e suas irmãs herdaram uma corte que, segundo testemunho de um de seus primos europeus que o visitaram, era “a mais miserável do universo”. Essa austeridade também foi a grande marca da criação do futuro imperador, que, além da pobreza da corte, herdou o pesado fardo da lembrança dos escandalosos relacionamentos extraconjugais de seu pai.
Noites atenienses
Para que o Império e o futuro imperador dom Pedro II passassem uma imagem mais séria, a educação moral do jovem príncipe foi rígida. Desde o princípio, ele sabia o quanto o romance escancarado de seu pai com a fogosa paulista jogara lenha na fogueira moral ateada pelos inimigos da monarquia, e assim a discrição amorosa do imperador virou lei.
Como afirma o historiador Renato Drummond Tapioca Neto, “o sexo para as mulheres das classes mais abastadas tinha apenas uma função: produzir filhos, a maior alegria para o casal. O prazer não entrava nesse jogo. Dessa forma, no leito conjugal, a lei que ditava o desempenho dos homens era a perpetuação da linhagem, enquanto a paixão e o desejo carnal eles reservavam a outras mulheres, as amantes. Mas tudo por baixo dos panos. Afinal, qualquer escândalo poderia vir a prejudicar a imagem da família perante a sociedade”.
Quem olha para as pinturas e fotos daquele senhor sisudo, bochechudo e com longas barbas brancas não imagina que ele abalou tantos corações, de maneira muito mais discreta que seu pai. O mais famoso relacionamento extraconjugal de dom Pedro II foi com Luísa Margarida de Barros Portugal, a condessa de Barral, exposto por Mary Del Priore em Condessa de Barral, a Paixão do Imperador.
Ela era uma rica dona de engenho casada com um nobre francês e foi preceptora das princesas imperiais, Leopoldina e Isabel. O relacionamento durou 34 anos de ânsias e suspiros apaixonados em cartas interatlânticas, nas quais dom Pedro II relembrava com carinho das “noites atenienses” ou de quartinhos de hotéis em Petrópolis. Porém havia também nesse relacionamento uma certa paixão intelectual.
Nada, ao menos da correspondência amorosa que sobreviveu entre ele e a condessa, lembra o fulgor do pai, que tratava com paixão a Marquesa de Santos, ora com versinhos malconstruídos, ora com palavras das mais vulgares, chegando a enviar pelos pubianos à amante e sentir saudades de “ir aos cofres” dela.
Existe na historiografia brasileira a lenda de que o historiador Tobias Monteiro teria encontrado cartas picantes envolvendo dom Pedro II, e as depositou na Biblioteca Nacional, porém um arranjo na numeração as teria feito ficar desaparecidas por muito tempo no arquivo. Afinal, não pegava bem para a imagem do ex-imperador ter sua vida amorosa exposta de maneira indecorosa, como aconteceu com seu pai.
Finalmente, o historiador José Murilo de Carvalho conseguiu catalogá-lo, o que acabou por revelar um dom Pedro II menos morno que sua figura bonachona. Como diz um ditado holandês: a fruta não cai longe do pé. O velho imperador também teve seu lado Demonão.
“Te amo e sou tua”
Se as cartas da condessa de Barral para dom Pedro II são mornas, o mesmo não acontece com a sua correspondência com a condessa de Villeneuve. Casada com Júlio Constâncio de Villeneuve, conde de mesmo nome, Ana era nove anos mais nova que dom Pedro II.
Em suas cartas para o imperador, ela lembra que “cada uma de tuas expressões tão apaixonadas me fazem estremecer de amor” e declara: “Eu te amo e sou tua de toda a minha alma. Eu te abraço tão ardentemente como tu desejas”. A pedido do imperador, enviou-lhe uma foto com vestido decotado, diante da qual dom Pedro II delira, em carta de 13 de maio de 1884: fantasia uma tórrida cena de amor no sofá da casa da condessa, com corpos entrelaçados, desfalecendo de prazer.
Em carta de 7 de maio, afirma: “Que loucuras cometemos na cama de dois travesseiros!”, e, adiante, como se estivesse para atingir o clímax, declara que não consegue mais segurar a pena: “Ardo de desejo de te cobrir de carícias”.
Uma testemunha da época do Segundo Reinado, o diplomata espanhol Juan Valera, confidenciou a um amigo que “a imperatriz do Brasil (dona Teresa Cristina) é tão virtuosa quanto feia, e dom Pedro II lhe é infiel de vez em quando. O teatro de suas infidelidades é a biblioteca do palácio; o que acontece é que as damas se instruem...”.
Outra característica que dom Pedro II herdou do pai era a sovinice: esbanjava com esmolas e bolsas de estudo, mas era miserável com as amantes. Valera chega a comentar que não foram poucos os homens que acabaram falindo para manter as esposas frequentadoras assíduas da corte e da biblioteca do imperador.
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“ADEUS, POIS, PARA SEMPRE, ADEUS!” – A EMOCIONANTE CARTA DE DONA AMÉLIA DE LEUCHTENBERG PARA D. PEDRO II!
Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Logo após ter aportado na baia de Guanabara, em 16 de outubro de 1829, D. Amélia de Leuchtenberg, segunda imperatriz consorte do Brasil, surpreendeu seus enteados com brinquedos trazidos da Europa e gestos carinhosos. A partir daí, passou a ocupar no coração dos pequenos o posto de mãe, vacante desde que a morte da imperatriz Leopoldina. Mais jovem do que as irmãs, o príncipe Pedro demonstraria uma conexão especial com a madrasta, uma vez que tinha apenas um ano de idade quando se tornou órfão e, portanto, não tinha recordações de sua genitora, exceto pelo que lhe contavam sobre ela ou pelos retratos que via da mesma. A carta que segue, por sua vez, foi escrita por D. Amélia ao enteado, por ocasião da partida desta para Paris, após a abdicação de D. Pedro I ao trono brasileiro. Nela podemos constatar mais uma prova do carinho que a ex-imperatriz nutria pelo garoto e o seu pesar ao deixa-lo, visto que era a “delícia de minh’alma” e a “alegria de meus olhos”. O seguinte texto pretende analisar parágrafo por parágrafo da carta de D. Amélia, apresentando fatos circunstanciais que estiveram ligados à partida de D. Pedro I, assim como o viés emocional da autora. Começando com um triste adeus, a missiva prossegue da seguinte maneira:
Adeus menino querido, delícia de minh’alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado: adeus, para sempre adeus! Quanto és formoso, neste teu repouso. Meus olhos chorosos não se podem fartar de te contemplar; a majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua engraçadíssima fronte de um resplendor misterioso, que fascina a mente.
D. Pedro II enquanto criança, por Armand Julien Pallière (c. 1830).

Nesse trecho inicial da correspondência, a autora revela as circunstâncias em que deixava o filho que não era seu, mas que seu “coração tinha adotado”, a sua dor pela partida e a crença de que nunca mais o reencontraria. Na sequência, ela traça um retrato vivo, através de suas palavras floreadas, de como o vira pela última vez: enquanto ele estava dormindo. Os filhos do Imperador que permaneceram no Brasil não presenciaram a partida do pai que, na madrugada de 7 de Abril de 1831, foi aos leitos de cada uma e lhes deitou um beijo de despedida nas faces. Foi enquanto dormia em sono profundo que a Dona Amélia viu aquela criança e apesar de seus olhos enxergarem nela a inocência angelical própria de um menino de cinco anos, já vislumbrava o fardo que ele teria de carregar em tão tenra idade: o da coroa. Os trechos seguintes do documento são ainda mais comoventes:
“Eis o espetáculo mais tocante que a Terra pode oferecer. Quanta grandeza, quanta fraqueza a humanidade encerra representada por uma criança. Uma coroa e um brinco, um trono e um berço! A púrpura ainda não serve senão para estofo e aquele que comanda exércitos e rege um império carece de todos os desvelos de uma mãe.”
Mais uma vez aqui Dona Amélia transparece o medo que sente em deixar um menino sem o zelo materno, ainda mais quando este tem tamanhas responsabilidades que seriam impossíveis de ser compreendidas em tão tenra idade, mesmo por um garoto tão bem dotado intelectualmente como Pedro II. Era ainda tão pequeno, que o manto cor púrpura dos reis servir-lhe-ia como um estofo. O tom de preocupação é ainda mais notável pelo contraste que a escritora faz: enquanto ele dormia ainda em um berço, deveria abdicar dos brinquedos para portar a coroa e reger tão vasto Império. Em seguida, ela diz:
“Ah! Querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se minhas entranhas te houvessem concebido, nenhum poder valeria para me separar de ti, nenhuma força de arrancaria de meus braços. Prostrada aos pés daqueles mesmos que abandonaram meu esposo, eu lhes diria entre lágrimas: Não vede mais em mim a Imperatriz, mas uma mãe desesperada. Permiti que eu vigie nosso tesouro. Vós o quereis seguro e bem tratado e quem o haveria de cuidar e guardar com maior devoção? Se não posso ficar a título de mãe, eu serei sua criada ou escrava.”

Partida de D. Pedro, duque de Bragança, D. Amélia de Leuchtenberg, e D. Maria da Glória, na madrugada de sete de Abril de 1831.
Esse provavelmente é o trecho mais revelador de toda a missiva. Em primeira instância demonstra o pesar de uma mulher que amou uma criança, mesmo sem ser sua, e que se pudesse faria tudo ao seu alcance para ficar ao lado dele. Todavia, por outro lado pode demonstrar uma espécie de reserva para com o menino, na medida em que ela deixa claro que, como não é a mãe do mesmo, teria que se separar dele, apesar de sua vontade em se ajoelhar aos pés “daqueles que abandonaram meu esposo” e implorar para cuidar do pequeno. Nessa frase, Dona Amélia demonstra raiva provavelmente para com os ministros de Pedro, que pouco, ou quase nada fizeram para reaver seu prestígio junto ao povo brasileiro. Já não se via mais como Imperatriz do Brasil e aceitara o fato de que tinha de partir com o marido, para o bem da nação e do regime político. Por fim, o tom do parágrafo fica quase apelativo, quando ela diz que se não podia ficar com o “título de mãe, eu serei sua criada ou escrava”. Na sequência, ela revela um pouco mais do seu pesar por não ser a progenitora daquela criança:
“Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me pertence senão pelo amor que dediquei ao teu augusto pai; um dever sagrado me obriga a acompanha-lo em seu exílio, através dos mares e terras estranhas. Adeus, pois, para sempre, adeus!”
Nessa passagem, Dona Amélia conta ao seu correspondente qual era a sua primeira e verdadeira obrigação: o de esposa. Segundo o costume brasileiro e português daquele período, a mulher de classe aristocrática tinha em sua vida dois responsáveis: primeiro o pai e depois o marido. A partir do momento em que contraía bodas estava condicionada à vontade do cônjuge, devendo obediência a ele em praticamente todas as coisas. A felicidade da mulher, pois, deveria se concentrar no cumprimento de seus deveres conjugais, ou pelo menos era assim que a primeira Imperatriz Dona Leopoldina concebia a vida no casamento e suas particularidades. Dona Amélia, como uma mulher católica praticante, tinha plena consciência de suas obrigações para com Deus e o sagrado estado do matrimônio. Deveria, portanto, acompanha-lo no “exílio, através de mares e terras estranhas”. A última linha desse trecho soa apelativa demais. Afinal, a família imperial retornaria à Europa por um percurso marítimo feito pela própria Amélia quando de sua vinda ao Brasil:
“Mães brasileiras, vós que sois meigas e afagadoras de vossos filhinhos, a par da rola de vossos bosques e dos beija-flores das campinas floridas, supri minha vós; adotai o órfão coroado, dai-lhe todo um lugar em vossa família e em vosso coração.”

D. Améllia, por Friedrich Dürck.
A partir dessa parte, D. Amélia lança um apelo às mães brasileiras, para que cuidassem de seu precioso “filho adotado pelo seu coração”. O fato de se dirigir a outros indivíduos naquela missiva endereçada ao seu enteado indica que ela tinha plena consciência que esta seria lida por outras pessoas, além de Pedro II. Desse modo, ela tomou cuidado com cada palavra que escrevia (apesar de expor seu pensamento contrário a alguns acontecimentos, conforme podemos ler em muitas passagens da carta), que muito longe de se tornar um mero artefato pessoal, era um documento de Estado. Não obstante, a mensagem ali contida também estava voltada para as pessoas que se tornaram responsáveis pela guarda do chamado “órfão da nação” após da partida dos novos duque e duquesa de Bragança:
“Ornai seu leito com folha de arbusto constitucional, embalsamai-o com as mais ricas flores de vossa eterna primavera, entrançai, o jasmim, a baunilha, a rosa, o cinamomo, para coroar a mimosa testa, quando o pesado diadema de ouro o tiver machucado.”
Aqui a autora se utiliza de seu suposto conhecimento da flora brasileira para ilustrar que, embora criança e indefesa, as mães do Brasil deveriam lhe prestar louvores, criando, através de suas palavras, a imagem de uma criança enquanto salvadora da pátria, deitada num berço ornado pelas folhas do arbusto constitucional. Deveriam, pois, lhes perdoar as faltas que pudesse cometer para com o país, devido à sua pouca idade e também ao fardo do “pesado diadema”. Nos trechos seguintes, Dona Amélia vai se utilizar de muitas figuras de linguagem para alertar as pessoas sobre a importância de seu pedido, quando ela diz:
“Alimentai-o com a ambrosia das mais saborosas frutas: a ata, o ananás, a cana melíflua; acalentai-o à suave entoada de vossas maviosas modinhas.”
“Afugentai para longe de seu berço as aves de rapina, a sutil víbora, as cruéis jararacas e também os vis aduladores, que envenenam o ar que se respira nas cortes.”
Estes dois parágrafos que acabaram de ser citados, por sua vez, revelam o medo e o da autora: primeiro como, já salientado anteriormente, que fossem gentis com seu menino; segundo que afastem dele pessoas más que, por causa de sua tenra idade, poderiam se aproveitar de suas fraquezas, ainda mais em uma corte como a carioca, onde o bafo dos “vis aduladores” envenenava o ar. Parece que a duquesa de Bragança estava prevendo as desventuras pelas quais o pequeno Pedro passaria no período conhecido como regencial (1831 – 1840). Esse fato se torna tão apócrifo, quanto mais se alisarmos o seguinte trecho da longa correspondência:
“Se a maldade e a traição lhe preparem ciladas, vós mesma armai em sua defesa vossos esposos, com a espada, o mosquete e a baioneta. Ensinai à sua voz tenra as palavras de misericórdia, que consolam o infortúnio, as palavras de patriotismo, que exaltam as almas generosas e, de vez em quando, sussurrai a seu ouvido o nome de sua mãe de adoção.”

D Amélia de Leuchtenberg, então duquesa de Bragança, em seu últimos anos de vida.
Ainda se dirigindo às mães do Brasil, Dona Amélia, que deixou este país em um clima político tenso, diz-lhes que seria preciso incorrer em violência, caso a defesa do pequeno imperador assim o exigisse. Provavelmente, as várias revoltas ocorridas no período regencial pouco afetaram o menino afugentado no palácio de São Cristóvão. No entanto, sua autoridade estava sendo contestada e, portanto, medidas extremadas foram necessárias para garantir a unidade do Império. Não obstante, as palavras de patriotismo a que a autora se refere, foram muito bem utilizadas por D. Pedro II em episódios como a Guerra do Paraguai ou mesmo quando ele passeava pelas ruas do Rio de Janeiro, com seus trajes simples, querendo passar para os súditos a imagem de um “monarca cidadão”. Por fim, ela implora para que não deixem que o pequeno se esquecesse dela, algo que jamais aconteceria.
“Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor de felicidade de vosso país e de vosso povo; ei-lo tão belo e puro como o primogênito de Eva no paraíso. Eu vo-lo entrego agora e sinto minhas lágrimas correrem agora com menor amargura. Ei-lo adormecido.”
Aqui, a escritora observa que se sentiria mais tranquila sabendo que seu enteado estaria sob o cuidado atento das mães brasileiras, na medida em que cumprissem com fervor os pedidos que lhes fizeram ao longo da missiva. Por último, ela alude mais uma vez sob em quais circunstâncias o viu pela última vez: dormindo, como o “primogênito de Eva no paraíso”.
“Brasileiras, eu vos imploro que não o acordeis antes que eu me retire. A boquinha, molhada de meu pranto, ri-se à semelhança do botão de rosa ensopado do orvalho matutino. Ele ri e o pai e a mãe o abandonam para sempre.”
No penúltimo parágrafo da longa carta, D. Amélia demonstra a consciência de que sua missiva seria lida primeiro por outras pessoas que não o destinatário. Por isso, agora se dirige às brasileiras, e não somente às que são mães, pedindo-lhes que não o acorde antes que tivesse ido embora “para sempre”. Enquanto o herdeiro do império dormia à semelhança de um querubim, seus pais o abandonavam. Todavia, Pedro, apesar da tenra idade, demonstrava consciência dos motivos pelo quais seu pai abdicava, quando este pedia em correspondência ao mesmo “que nunca se esqueça deste filho que sempre há de guardar a obediência, respeito e amor ao melhor dos pais tão cedo perdido para seu filho” (apud GOMES, 2010, pag. 294). Na última parte da carta, a autora reitera o clima de pesar pela partida, quando escreve:
“Adeus, órfão Imperador, vítima de tua grandeza, antes que a saibas conhecer. Adeus, anjo de inocência e formosura, adeus!”
“Toma este beijo e este… e este último. Adeus, para sempre, adeus!”
“ass. Amélia, Duquesa de Bragança”.
Apesar do clima de tristeza, esse não seria o último adeus entre a agora duquesa de Bragança, e seu enteado. Em 1871, quando D. Pedro II, já com 45 anos, viajava pela primeira vez à Europa ele faria uma visita à madrasta em Portugal, encontrando-a já velha e fatigada pelas dores, tanto que faleceria apenas dois anos depois do felicíssimo reencontro com o soberano. Esta carta, por sua vez, revela a maturidade na escrita da soberana, uma vez que em 1831 tinha apenas 19 anos de idade. Apesar das distâncias, eles ainda continuariam a se corresponder frequentemente até a morte de D. Amélia, em 1873. Com efeito, até o fim permaneceriam como o “filho que meu coração tinha adotado” e ela como a sua “querida mamãe”.
Referências bibliográficas:
Carta de D. Amélia de Leuchtenberg a D. Pedro II. – Disponível em: http://ateneu1957.blogspot.com.br/2011/09/pedro-ii-e-dona-amelia.html. Último acesso em: primeiro de Maio de 2013.
GOMES, Laurentino. 1822. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. – 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
https://rainhastragicas.com/2013/05/01/a-emocionante-carta-de-dona-amelia/
http://blogdomendesemendes.blogspot.com
CORONÉIS DA CHAPADA DIAMANTINA.1921 EM MORRO DO CHAPÉU (BA)
Por Adelson Mota
A SEPULTURA DO CANGACEIRO.
Por Rangel Alves da Costa
Canário (Bernardino Rocha), cangaceiro filho de Poço Redondo, ao ser traído e morto pelo também bandoleiro Penedinho em setembro de 38, teve seu corpo enterrado sem a cabeça debaixo de um umbuzeiro (foto abaixo), logo adiante do local da traição, num lajedo beira d’água na Fazenda Coruripe, em seu berço de nascimento. Enterrado apenas o tronco porque o comandante Zé Rufino, famoso caçador de cangaceiros e sedento pelas riquezas do cangaço, logo chegou diretamente da vizinha e baiana Serra Negra para se certificar da morte e do possível espólio deixado. Tomou conhecimento da morte através do próprio Penedinho, que após matar o companheiro de sua prima Adília correu para se entregar no quartel do famoso comandante, logo após a fronteira. A entrega sempre era facilitada após a baixa de outro companheiro do bando. Assim que soube, Zé Rufino esfregou as palmas da mão, lambeu-se nos beiços, e cortou chão até Poço Redondo. Seus olhos brilhavam na avidez do que poderia encontrar, até mesmo porque o traidor já tinha confessado que havia dinheiro e joias enterrados pelos arredores. Há incerteza do que e do quanto encontrou, mas há certeza que decepou a cabeça do morto e com ela retornou. O restante do corpo foi enterrado embaixo do umbuzeiro, sob uma cruz torta e desolada e - dizem ainda hoje - o fantasma de um cachorro que por muito tempo, em noites de breu e tristezas, chorou e uivou a saudade de seu dono. O mesmo cachorro de Canário que continuou velando o corpo estendido no lajedo e que foi morto com a chegada da volante.

















