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segunda-feira, 8 de novembro de 2021

A DANAÇÃO EM NAZARÉ DO PICO O CASAMENTO DE LICOR (PRIMA DE LAMPIÃO)

 Transcrição da Obra do Padre Fredercio Bezerra Maciel, por Raul Meneleu.

No arruado de Nazaré nos idos de 1923, era o cochicho entre os moradores, esse casamento e a vinda de Lampião para assistir esse evento. Contava Nazaré com uma capela, vinte e sete edificações ( casas, casebres e quartos) alinhadas em uma única rua, sendo doze do lado do riacho Ipueiras, dez no riacho Carqueja e cinco ao sul, de frente para a capela. Era assunto palpitante e preocupante.

 Nazaré do Pico em 1967

Como em todo lugar que junte gente, tinha ali naquela pequena povoação o ponto certo pra se ouvir as "urtimas" e esse é claro, era a barbearia de Manuel Flor que segundo o Padre Frederico, era o local onde "aviciados em conversas de toda versidade" reuniam-se para "sortar as premeras do dia".

- "Tem muita volante esgravetando esse sertão brabo na persiga de Lampião!"

E citavam seus comandantes, homens de têmpera de aço, a perseguir o famoso cangaceiro e seu bando.

- "Mas Lampião diz que gosta que persigam ele e açula pra briga de vera. O cabra é da peste!"

- "Nunca mais fartou volante aqui. É uma atrás da outra."

- "Inté se espera uma no casamento de Licô."

- E Lampião num vem mermo pru casamento da prima!"

- "Danega! Já tou vendo: vai ser bala quiném os trinta!"

Rapazes e meninotes não davam palpite. Apenas ouviam, aperuando.

Depois do banho de cuia no fim das lidas do dia, cheirando a folha de mato novo, ao mesmo tempo mesmo tempo que preparavam a ceia de coalhada adoçada com rapadura raspada, pão de milho e café, três cabrochas bisbilhoteiras tagarelavam:

— "Visse o vestido de Licô como está dolero?
— "Os apreparo da festa são grande mesmo!"
— "Pie só: sabe quem vem pra festa?
— "Lampião!"
— "Ele e os menino. Tem cada um da pontinha!..."
— "Eu acho Juriti e Antônio Rosa os mais bonito".
— "Dextá, o mais bonito é Lampião!"
— "Ah! isso é", — confirmaram as outras duas a uma só voz.
— "Açoita os mais todos!"
 
O noivo Enoque e Maria Licor
Acervo Lampião Aceso

Sá Leopoldina, cabocla escura e franzina, a cabeça enrolada com um regô, dona do único hotel local, resumido a uma latada, coberta de mato, em frente do chalezinho de taipa onde vivia. Servindo almoço a dois fregueses de passagem para o vilarejo de Santa Maria, comentava se rindo toda:

— "Lampião tem o coração muito bom para as fraqueza dos pobre. Inté ajuda com dinheiro e de-comer. Toda a vez que aparece pruraqui, compra muito pano nas loja de seu Zé Tiburtino, de seu Quinca e de seu Gominho e dá a pobreza. As irmãs de Mané Neto recebero bastante vestido".

Enquanto eram fritados os mandins que pescara num poço do riacho Ipueiras e aguardava os aficionados do jogo de que era aviciado, Raimundo do Pico, sentado num tamborete na calçada de sua casa e muito ancho na sua sanfona de oito baixos, tocava "Mulher Rendeira", dizendo para os passantes: — "Gosto dela! Foi Lampião que fez os verso e a musga se alembrando de sua avó, a Tia Jacosa, que criou ele e era rendeira. ."
O casamento de Licor foi o momento culminante do rompimento definitivo, que aos poucos vinha se processando, em desde 1919, através de tranças e atritos frequentes, entre os Ferreiras e nazarenos.

Maria Licor Ferreira de Lima, simplesmente Licor, era prima legítima de Lampião, cujas mães eram irmãs. Sabedor de seu casamento, chegou Lampião no dia marcado para sua realização, a 31 de julho de 1923. Ao sol ardente e faiscante do meio dia, penetraram, inesperadamente, na povoação, dezesseis cangaceiros na ativa, sob o comando de seu garboso e elegante chefe, Lampião.

Além de seus irmãos Antônio e Livino, tinha Meia Noite, Juriti I e seu irmão Batista, Manuel Tubiba, Chá Preto, o corneteiro Firmo, Caixa de Fósforo, Piloto... Antes, arredadas duas léguas para trás, deixara estrategicamente Lampião, perto da serra do Pico, na fazenda Enforcado, de seu amigo Pedro de Engrácia, um grupo tático de reserva: oito cangaceiros sob o mando de um cabra macho, Antônio Rosa.

Entre as armas, portavam os cangaceiros rifles papo amarelo e cruzeta, exceção de Lampião e de Chá Preto que conduziam mosquetões. Traziam, também, alguns chicotes de fio cortado da linha telegráfica.

O primo famoso em foto de 1922
Foto de Genésio Gonçalves

Postadas sentinelas em cada esquina da rua, espalharam-se os demais pelas casas, indo logo beber truaca e zinebra "Gato" nas vendas de João Ferreira e Enoque de Sá Menezes. Surpreendida, assustou-se a população. De logo correram boatos: que Lampião tinha vindo para ajustar contas... tirar forra de questões passadas... aquelas Peias eram para dar pisas...

O povo todo sabia que não era coisa do gosto de Lampião aquele casamento de sua prima com Enoque, um sujeito calabar, suspeito de informante à polícia dos movimentos do seu grupo. O destacamento policial local, de seis praças sob o comando do cabo João Cabecinha, cujo quartel era a casa-da-rua cedida por seu dono, Gomes, havia sido retirado pelo delegado de Floresta.

Certo de mesmo, a propalada vinda de forças volantes para aqueles dias.

Cerca das duas da tarde. Pela estrada, vindo de Vila Bela, chegara, com seis horas de viagem, o vigário da freguezia, Padre José Kehrle, ou somente Padre José, mais por simplificação do falar do que pela dificuldade da pronúncia do sobrenome alemão.

Montava a cavalo, guarda-pó branco revestindo-lhe a batina preta e grande chapéu de palha na cabeça e ensombrando-lhe o rosto vermelhão, onde pespegadas as duas bolas azuis de seus olhos buliçosos e vivos.

Lampião tocando na sanfona de Raimundo do Pico, debaixo da latada da feira no meio da rua. Os cabras por todos os lados. Com a chegada de seu vigário, os cangaceiros, nos seus alegramentos, soltaram foguetes, salvando seu estimado amigo e conselheiro. Com os papocos, o animal espantou-se muito, quase Derrubando o reverendo cavaleiro no chão.

Um dos cabras, porém, dominou a montada, segurando fortemente as rédeas abaixo da brida. Os outros se aproximaram, e pedindo a bença beijavam a mão do padre, que os abençoava e retribuía os cumprimentos, satisfeito e agradecido.

Costumava o bom vigário, nas desobrigas mensais em Nazaré, hospedar-se na casa de Antônio Gomes Jurubeba, ou simplesmente Gomes. Mas, este, logo da chegada dos cangaceiros, fugiu para sua fazenda, deixando a casa trancada. Ficou assim desarvorado o vigário, no meio da rua, por um momento sem a ter para onde ir. Não teve dúvidas João Ferreira, acolhendo-o, imediatamente e de muito gosto, em sua residência. atitude insólita de Gomes, taxada de "ignorância", porque não tirava as coisas por menos, e censurada até por amigos e parentes como "afrontosa" ao padre, acirrou ainda mais os ânimos desconfiados, arredios, prevenidos e recalcados de toda 'aquela gente. Aceso assim o estopim de uma explosão preparada e prestes a rebentar em consequências irreversíveis.

Confiado no apoio e no respeito que o vigário imprimia com sua presença na terra, Alfredo Ferreira de Lima, irmão da noiva, sentindo o ambiente tenso reinante, fora ter com Lampião, fazendo-lhe ver que não ficava bem, num dia de festa como aquele, a sua vinda com o bando assim solto, acintosamente armado, e, às bicadas em desde que chegaram.

Meio agastado, Lampião olhou-o a fito com olhar desafiador e o dedo nas fuças do primo:

— "Deixe de bestage! Eu sóstou você acolhendo bandido de gravata, bandido encapado..." Referia-se a certas autoridades que faziam muito pior do que os cangaceiros.

E, ainda puando: — "Nós também somos gente, podemos participar da festa". Nesse momento oportuno apareceu um homem de muito preceito e respeitado, Cândido Ferreira que, auxiliado pelo Padre José, pôs termo àquela discussão e convidou Lampião a ir à sua casa.

Na residência de Cândido começou Lampião a puxar o fole. Os cabras dançando com as moças... muita alegria... Cândido, de sobrosso, reclamou essa dança a modo de não se comprometer depois com as autoridades embuanceiras. Lampião, compreensivo e sem dizer nada, guardou a sanfona. Porém, seu irmão Livino, enticado com a atitude do tio estragando aquela gostosa e singela brincadeira, ficou com a goitana e disgranido ameaçou: — "Pois aqui ninguém dança mais, senão tudo se acabal..." Deu de mão de sua mausa e levantando-a para o alto, sortiu a sala com gritos repetidos: "... se acaba Nazaré!" E mais: — "Não tou esquecido da cicatriz no ombro! Quero todos os rifles de todo mundo agora, aqui, senão boto fogo nas propriedades".

Foi um tendéu danado... Padre José conseguiu a custo amoitar o ânimo exaltado dele, sob promessa de que não haveria dança. E aproveitou o ensejo para mandar os noivos se aprontarem logo.

Esperava Livino pelo tocador, Luís, de Andréza, gente de Zé Saturnino, contratado para a festa dos noivos. — "Quero dar uma pisa nele e rasgar a harmônica". Mas o tocador, sabendo em caminho, da presença de Lampião, no casamento, deixara-se, escabreado, ficar na fazenda Zé Dias, de Chico Flor, onde estava homiziado Luís Soriano, e dali mesmo se esgueirou, sumindo-se, que não era besta, não.

O cortejo

Às quatro horas da tarde, saiu o préstito nupcial para a igrejola, com muitos convidados fazendo par, braço dado, exibindo-a lordeza matuta e ladeados de alguns cangaceiros, respeitosos, chapéus na mão.

Nessa ocasião apareceu Davi Jurubeba com estranha idéia, que depois se deu o nome, mais estranho ainda, de "conspiração". Vendo os nazarenos perdidos, Davi teve a idéia de convidar Manuel e Euclides Flor para escolherem tantos nazarenos quantos dessem para cada um se encarregar de matar um cangaceiro. Os cangaceiros não estavam juntos, mas espalhados pelas casas de Cândido Ferreira, D. Joaninha Ferreira, João Ferreira, Anízia da Ipueira... o que facilitaria o "serviço". Essa "opinião de doído" teve imediata repulsa de João Flor: — ".É, vocês faz isto e eu vou morrer?» Significando que não dava certo e temia por sua sorte.

 Davi Jurubeba em 1978
Acervo Lampião Aceso

A noiva, como sempre, objeto máximo das atenções. Vestida de branco vuale suíço, comprido véu descendo da grinalda — um primor de capela com arranjos de flores de laranjeira de seda branca e botões de goma —, enfim toda linda, distribuindo sorrisos, uma graça de brejeirice... Na passagem do acompanhamento por frente da casa de Cândido, os que estavam sentados em cadeiras na calçada se levantaram, mas Antônio Ferreira ostensivamente virou as costas. Além de não simpatizar com o noivo, suspeito de falso e denunciante, curtia ele paixão arrecolhida, de penar e de tristeza, pela noiva, com quem, outrora, antes do cangaço, apiançava casar-se.

Após o casamento, a fim de desanuviar o ambiente, combinaram os parentes da noiva botar mesa, na casa dela própria, onde os cangaceiros, de apetite aceso, se serviriam juntamente com o Padre José. Durante a janta, tendo Lampião sentado a seu lado, o Padre José, que lhe tinha amizade e muito o admirava, persistente aconselhava: — "Deixe essa vida. Você não é para estar nesse bando. Você .não é ovelha negra, desgarrada..." — "Num tem jeito, não — respondia Lampião. Num quiseram assim? Mataram meus pais. Desmantelaram minha família e negócios. Querem me matar também. Vou até o fim... Ë o meu destino!"

A contrafesta

Terminada a janta, que foi lauta e de tudo o que o prato sertanejo dispõe, aos insistentes pedidos de seus tios Cândido e João, e de sua tia D. Joaninha, foi Lampião, com os seus, fazer arranchação na fazenda do velho preto Antônio do Campo Alegre, obra de menos de quinhentas braças do povoado, do outro lado do Ipueiras.

O bando passou a noite na casa de Sebastião Eusébio onde Livino, ferido, se refugiara, em 1919. À luz amarelenta e vacilante de cuviteiros fumacentos, uns Jogando bozó, outros dançando com cabrochas vindas da rua, outros versejando cantigas no improviso, a sanfona sempre roncando...

Aproveitando a ida de Lampião com seu grupo para Campo Alegre, saíram os nazarenos, nas caladas da noite, para se armarem. Entre eles, Davi Jurubeba, Manuel e Euclides Flor, Gomes Jurubeba, Manuel e Pedro Gomes... aos quais se juntaram Mais outros, ao amanhecer, num total de quinze. Intencionavam cedinho ocupar a 'dia e esperar pelos cangaceiros, mas acharam que eles, os nazarenos, eram "poucos".

Aos acordes animantes da "Mulher Rendeira", foi repisada com ovações a quadra sarcástica:
 "Os cabras de Nazaré
        Chorava que faz horror
             Com pena das muié
                 Que Lampião carregou".
O vilarejo, porém, afogado dentro duma noite desalegrada e de cruviana... Nenhum pé de pessoa na rua. Apenas o grugunhado de gente na casa da noiva, sob a luz dos pavios espevitados das placas.

O Carreiro de Santiago luminando lá na escurideza do infinito...
Cantos de galos tristes rasgando pela madrugada o silêncio da natureza...
No oco de um pau seco, caburés, frientos e arrepiados, piando, agoirentos... De vez em vez, e isto até o quebrar da barra, em revezo contínuo, chegava a Nazaré um cangaceiro.
Encontrando-se com dois deles, perguntou Cândido:

— "Que é que vocês estão fazendo aqui?"
— "A gente — repostou um deles — está jogando lá, e passa uma pessoa e diz: — "Vamos pra rua?" e a gente vai..." Mentira, a modo de ocultar que estavam boscando, inteirando se havia dança.

A Missa

Quando foi o rasgar do dia seguinte, 1° de agosto, chegaram mais dois cangaceiros na rua e foram logo se justificando diante de Cândido, atento a seus movimentos:

— "Passemos a noite inteira sonhando uma voz que mandava a gente ir pra Missa. A gente, também, é cristão, ninguém é cão, não".

A pouco e pouco os outros foram chegando até se completarem os dezesseis.

Da calçada da capela, adonde desarriaram o equipamento, ensarilhando as armas, em cujo entrançamento das bocas se dependuravam as cartucheiras, deitados no chão os bornais refertos e cobertos pelos chapéus de couro, os dezesseis assistiam, com toda a fé e respeito, à Missa, que foi cedo, às 7,00; porque seu vigário estava vexado, tinha de ir logo simbora. A pequena igreja estava dura de gente atochada. Gente do arruado e de toda a redondeza. O canto do Oficio da Imaculada Conceição se arrastava, dominantemente por vozes femininas, quiném querendo não chegar ao fim, numa latomia dolente característica da sofrida alma sertaneja:
— "Dai pressa Senhora
           Em favor do mundo,
                Pois vos reconhece
                     Como defensora".
Para sua breve prática, o padre tomou por tema o profeta Jeremias (17,8): — "O coração do homem é dissimulado e perverso". Depois da Missa, os cangaceiros retomaram o equipamento. maioria saiu para fazer restos de compras. — "Tudo correu bem, na santa paz, graças a Deus!" — dizia o vigário, a satisfação sublinhada nas faces cheias com um sorriso.

O segundo fogo

Lampião, com alguns, apenas aguardava, antes de partir, que o padre terminasse uns batizados a fim de se despedir e receber a bença dele. Nesse quando, coincidiu ser Lampião informado pelas sentinelas e ouvir, ao mesmo tempo, de alguém se aproximando:

— "Vigie! Que cumandita de gente, lá longe, na estrada! Será que vêm pra feira?"

Lampião, de detrás da casa de João Ferreira, mão em pala sobre a testa, buscando acomodar a vista, exclamou alteando as sobrancelhas.
— "É macaco!"

A disgraceira estava feita!

Nunca houve tanta gritaiage e correria do povo, que se esbandaiava por todos os lados, doidamente... Lampião, agindo com rapidez e eficiência, sempre se revelando autêntico comandante inteligente e seguro, imprimindo assim confiança aos seus, imediatamente apitou chamando seu pessoal.

Antônio Ferreira, com outros, estava na barbearia cortando o cabelo e fazendo a barba. Ajuntou, em menos de um sufragante, os homens diante de Lampião, que, calmo e firme, tracejou, com técnica, o cinturão defensivo, estabelecendo os pontos de operação fora da rua e dentro das casas e muros, distribuindo os piquetes de defesa, instruindo para não se perder munição à toa, sem objetivo.

Depois, pegou de um cavalo pombo-seleiro, ali amarrado no pé da quixabeira plantada mesmo defronte da casa de João Ferreira e pertencente a um amigo, e enviou nele um positivo, que num átimo avoou o corpo em cima da sela, para ver Antônio Rosa, no Enforcado, com instrução de dar uma retaguarda, para o que deveria tomar o caminho do outro lado, descendo pela margem direita do riacho da Ema.

De suas posições de combate dentro dos muros das casas, os cangaceiros furavam buracos enviezados na parede, formando assim "torneiras", onde enfiavam o cano dos rifles para atirar.

Livino Ferreira, esse esconjurado do medo, entrincheirou-se na casa de D. Anízia, mesmo em cima do fogo! A volante de mais de trinta praças, sob o comando do sargento Bento Senhorzinho Alencar, vinda em diligência da zona de Pajeú, fora notada logo ao irromper, em fila indiana, a sudoeste.

Ao topar com o riacho Carqueja, parte da soldadesca foi logo se entrincheirando ao longo das ribanceiras barrentas; outra parte vadeiou o leito seco e arenoso do mesmo riacho tomando posição de ataque pelo lado sul, agachando-se por trás da amontoeira de pedra do pequeno serrote que mirava de soslaio; a entrada da rua.

O cabo Manuel Amaro, nutrido na peba* e no gosto de contar pabulagem, temeramente se achegou mais para frente dessa linha de ataque, amalocando-se atrás de uma grande pedra arredondada.

* Cachaça. A denominada "peba" ou "rinchona" é fabricada no sertão e nos agrestes por processo sintético: mistura de álcool, açúcar preto e água. O açúcar preto era o de torrão, de forma, de bangué, o chamado pão-de-açúcar. Em sua substituição. usava-se o açúcar sumeno, mascavo ou demerara, cristalizado e de cor amarelo-queimado. O preparo dessa cachaça se faz em tachos. É, portanto, urna aguardente ordinária, ou cachaça. Um de seus sinônimos: "lasca-peito". Na zona canavieira da "Mata" ou do "Sul", a aguardente é extraída da cana-de,' açúcar ou do mel de cabaú, melaço ou mel de furo (escorrido do açúcar preto por, um furo no depósito). destilada em alambique (raro o de barro). A primeira destilada chama-se aguardente "de cabeça" a média, aguardente "boa"; a terceira, restante, fraca de teor alcoólico, mais água que álcool, denomina-se "caxixi".

Por volta das nove horas, rompeu o tiroteio e prosseguiu, cerrado e violento, trancando o mundo... Bonito que fazia gosto a fuzilaria seca no estrondo dos mosquetões e os estampidos fofos dos rifles! Vez por outra parava. Parecia que tinha acabado. As mu-lheres, dentro de casa suspiravam de alívio. Mas, era só um arejo de momentos, nas mudanças dos combatentes para melhores posições. Em seguida, recomeçava intenso, danasco, em rajadas tatalantes, debaixo de palavrões e insultos, o sangue cada vez mais esquentando.


Partido do meio da rua, ouvia-se o toque guerreiro da "Mulher Rendeira". Era Lampião, nos intervalos em que dirigia a luta e atirava também, com sua sanfona animando os cabras. Os nazarenos, conluiados por João Flor, aproveitaram a oportunidade para se levantarem em armas contra Lampião. Lá para as dez horas, articularam-se com a polícia, entrincheirando-se por trás da cerca de pau-a-pique do cercado da fazenda Campo Alegre, do lado de cá do Ipueiras.

Eram uns quinze homens armados, entre os quais João Flor com seus filhos Euclides e Manuel, os dois irmãos João Domingos e Luís Soriano, Pedro Gomes que portava pistola máuser FN, dois rapazes de fora e Gomes Jurubeba com o pessoal que trouxera para isto de sua fazenda Jenipapo.

Davi Jurubeba, que viera de mãos abanando, armou-se com o fuzil de Zé Preto, o único "aspençada" da volante. Este, chega ia que ia, todo entusiasmado, se protegendo por trás de uma quixabeira.

Divulgando-o, Lampião avisou a Chá Preto que combatia de dentro da barbearia. Atirando de ponto, com seguridade, Chá Preto gritou: — "Lá vai macaco da gota!" Atingindo-o no braço e avoando-o contrafeito de dor, fora de combate. O cangaceiro largou desadorada risadona de mangação. A polícia e os paisanos estabeleceram verdadeiro bolsão ou semi-cerco ao tomarem posições no flanco sul e parte do Poente e em toda a linha do flanco nascente.

Na Igreja

Desde o início do tumulto provocado pelo alarme, o padre José mandou fechar imediatamente as portas da capela pelo sacristão, Zé Rufino, o qual em seguida escapuliu, fugindo montado num cavalo em osso, em disparada louca, numa toada só, até esbarrar, cinco léguas adiante, na fazenda São Miguel.

O padre amparou-se na parede entre as duas portas da entrada. E mandou as pessoas, que ficaram dentro, deitarem-se no chão da nave. Passou o vigário o tempo todo suando, nervoso e pálido, com o rosário na mão, rezando por suas ovelhas desavindas. Poucos balaços alcançaram as paredes externas da capela. Quase meio-dia. A luta, com bem quatro horas de duração, continuava indecisa.

Lampião falou com Cândido para abrir um buraco na parede da casa dele a modo de estabelecer uma passagem para a casa de D. Joaninha. Cândido discordou e, aperriado com a insistência do sobrinho, foi tirar o padre da capela, assim mesmo, debaixo de todo o tiroteio, e levá-lo para a casa de João Ferreira.

A retirada
Ali, na casa do irmão, com muito pedido e imploração, obteve Cândido, com a ajuda do padre, que o opinioso Lampião se decidisse retirar da localidade, principalmente em atenção a seu vigário, que não podia ficar prejudicado diante de compromissos inadiáveis em Vila Bela.

Antes, porém, de se afastar, gritou Lampião para os adversários:

— "Cambada de macaco! Covardes! Vou sair, não por covardia, mas atendendo ao pedido de meus dois grandes amigos, Padre José e tio Cândido Ferreira".

Enquanto, a um sinal seu — a pistola descarregada ininterruptamente — ia se reunindo o grupo em frente à casa de João Ferreira, coincidiu, de novo, as sentinelas lhe avisarem o irrompimento de outra força, que avançava pelo flanco norte, podendo dar ataque de retaguarda e fechar o grupo em perigosíssmo cerco.
Era uma volante de mais de trinta praças, sob o comando do sargento João Francisco, de alcunha João Fininho, vinda das bandas de Vila Bela e, como a primeira, a chamado do próprio Enoque, o noivo, em carta secreta ao então ao comandante da polícia, ten.-cel. João Nunes.

Lampião compreendendo as posições inimigas, agora envolventes, com superioridade numérica e bélica, e temendo o esgotarnento de sua munição, ordenou impetuosa esfuziada, modo de, atarantando o inimigo e aproveitando o fumaceiro, - a retirada ficar facilitada e garantida.

"Cumpadre, foi tanto papoco no oco do mundo que -nunca vi! — o panavueiro cobriu tudo! Maldei que tinha chega o fim do mundo!..."

Pelo caminho, à tangente, lançado do oitão direito da capela, os cabras, todos ilesos, se retiraram, aos xingos e pilhérias, agachando-se e rebolando, correndo e sempre atirando.

Cruzaram o valado seco do riacho, subiram pela margem direita, mais adiante se encontrando com o grupo de Antônio Rosa, vindo à toda para o contra-ataque. Mas era tarde. Empalhara-se ele com a aproximação da segunda volante, que o aturdira, ficando sem saber que rumo tomar. E embrenharam-se todos os cangaceiros na caatinga...

A danação

Terminado o tiroteio de mais de três horas, os atacantes, desconfiados de alguma das indecifráveis ciladas do astucioso Lampião, demoraram bem meia hora para penetrar na rua, assim mesmo cautelosamente. Mas, quando entraram, deu de súbito uma doideira dos diabos naquela soldadesca, que começaram a lançar, assim na doida, disparate de balas nas paredes, portas, janelas, por toda parte, chegando mesmo os projéteis a pegar em quadros de santos pendurados nas paredes do interior de algumas casas momentaneamente abertas.

Desencadeou-se, então, novo pânico. Correrias, gritos, choros, portas e janelas aos baques se fechando outra vez. Incontinenti reclamou o Padre José ao sargento Senhorzinho aquela desordem, o qual, de pronto, ordenou que cessasse. Com mais pouco chegava a volante do sargento Fininho. A rua esborrava de soldado.

Dada por Fininho uma batida por perto, no derredor da povoação, para certeza do afastamento dos cangaceiros. Depois vieram os interrogatórios sobre quem ou não coitei-ro, as acusações fáceis, ameaças de toda sorte, ou sejam de pisa, de capar, de sangrar, de saquear, de incendiar... O terror! A vítima principal naturalmente tinha de ser a família Ferreira ali domiciliada.

Quem pôde, fugiu, no seu animal ou a pé, ou se escondeu. A situação agora pior do que a anterior, pois sob o guante da autoridade, despótica, absoluta, oficial.

E, lá vai o pobre do Padre José, pressuroso e amargurado, suando e exausto — anjo providencial da paz — defender de novo o povo e restituir-lhe a tranqüilidade.

Conformado, senão convencido, com as muitas explicações e justificativas do vigário, o sargento Senhorzinho saiu batendo naquelas portas ainda fechadas de medo:

— "Podem abrirem. Tá todo mundo agarantido".

De todo o jeito, porém, aquele povo, pobre e sacrificado, humilde e abandonado, teve de pagar, e muito caro, uma dívida estranha: almoço com bebida e tudo mais para tanto sol-dado!...

Guarnecendo o vilarejo contra uma daquelas possíveis e perigosas surtidas de Lampião, a soldadesca, refestelada e quente, de entusiasmo vibrante, cantava — coisa curiosa! — "Mulher Rendeira", como se fosse essa canção o hino comum daqueles sertões sangrentos! ...

Consumou-se nesse segundo tiroteio a intriga definitiva e gadal entre Lampião e os nazarenos.

A família Ferreira daí em diante sofreu os piores vexames, ao ponto de ter, mais tarde, de se retirar da localidade. Entretanto, essa família fora sempre a desvelada defensora e salvadora de Nazaré contra os propósitos e as investidas de Lampião. Logo nesse mesmo dia 19 de agosto, dois fatos lamentáveis:
a) O sargento Zé de Xanda, com um tiro, espatifou o grande e belo espelho de cristal da sala de visita da casa de D. Joaninha Ferreira.

b) Apareceu o tenente Senhorzinho Alencar querendo obrigar a mesma D. Joaninha a entregar os vestidos da primeira comunhão das meninas Josefa e Dulce, filhas de Antônio Matilde e que ela criava. Alegava o tenente que os vestidos pertenciam às filhas do finado Gonzaga. Exigia, também, as sapatinas e os trancelins. Chamados, à presença do tenente: o senhor João Cominho, da loja onde foi comprada a fazenda; a costureira D. Ernestina Correia Cruz; Tonheiro, o portador dos vestidos prontos; e René, outra testemunha de tudo. Genésio Ferreira, irmão da noiva Licor, procurou Davi Jurubeba Respondeu que ele obtivesse do tenente o nome da pessoa que lhe dera a informação falsa. respondeu o militar: — "De uma parenta da viúva de Gonzaga, aqui residente (e disse o nome)..."

A família Ferreira ainda hoje é muito grata a Davi Jurubeba e a Manuel Neto, os quais, apesar de inimigos figadais de Lampião e seus irmãos do cangaço, sempre respeitaram e até defenderam os outros membros da familia o seus bens.

O PADRE JOSÉ KEHRLE


Padre José Kehrle. Nascido em 1891, em Wurttemberg, Alemanha. Veio para o Brasil em 1909. Beneditino e veterinário. Sacerdote em 1914. Como padre secular desenvolveu, no sertão, intensa atividade apostólica, além da construção e reforma de igrejas. Ocupou altos cargos e missões na diocese de Pesqueira, ao mesmo tempo que, por infeliz contraste, chega às raias do incrível o que sofreu da parte de bispos. Vigário de Vila Bela (Serra Talhada) de 1922 a 1936, conheceu e acompanhou toda a trajetória de Lampião no cangaço.

Sua força moral sobre ele quase se igualava à do Padre Cícero. Porém, a esse superava no conhecimento do foro íntimo. Lampião era seu confidente. Diante do Padre Kehrle despia sua realeza cangaceiresca para se tornar simples ovelha, nem sempre dócil por motivações extrínsecas. Realmente, grande parte da vida de Lampião não pode ser escrita desligada desse virtuosissmo sacerdote, que chegou mesmo ao impossível de retirar cangaceiros do seu bando.

Em 1936, no sítio Guarda, da serra de Ororubá, perto de Cimbres, município de Pesqueira, testemunhou, com sérias averiguações, as aparições de Nossa Senhora dos Graças a uma humilde camponezinha, depois freira conversa. Nessa ocasião, indignou-se contra as medidas violentas usadas pelo bispo que se valeu da polícia para acabar com aquele "fanatismo", de qualquer modo, "mesmo debaixo de pau", o que, Lamentavelmente, aconteceu àquela pobre gente que, na simplicidade de sua fé, acorria ao local.

Muitos os episódios interessantíssimos em sua vida que merecia escrita para edificação espiritual, principalmente dos sacerdotes. Há anos vivia ele em Buíque (PE), carregando uma saudável velhice dentro um exuberante espírito, cada vez mais acentuando o traço predominante de sua alma — a caridade, quando a 4-8-1978 faleceu.

Pois bem, cabe a cada um ao ler sobre fatos como esse e outros para dizerem se Lampião era Herói ou Bandido. Uns chegam a dizer que ele era uma mistura dos dois adjetivos. Vemos em sua estadia no povoado de Nazaré, que ele estava ciente de sua situação, esta levada por intrigas que descambou para a violência. Lampião foi uma cria do sistema latifundiário brasileiro onde imperava o coronelismo.

Pescado em Caiçara dos Rios do ventos

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A MORTE DE MANÉ NETO | O CANGAÇO NA LITERATURA | #316

 Por O Cangaço na Literatura

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domingo, 7 de novembro de 2021

MEU JOVEM E VALENTE TIO IDELFONSO DE SOUZA FERRAZ!

Por Hildegardo Luna Ferraz Nogueira

Lampião tinha a astúcia de dar voltas em torno das localidades. Ziguezagueava de rotas para rotas misturando seus rastros. Com isso confundia muito os "rastejadores", peça principal na caça aos bandoleiros.

Essa tática usada pelo rei dos cangaceiros foi primordial para sua sobrevivência... não foi por acaso que durou quase duas décadas infernizando as quebradas do sertão nordestino.

Em termos de táticas de guerra de movimentos, Lampião serve de exemplo para muitos generais.

No ocaso da segunda metade do ano de 1925, o "rei vesgo", rasga as entranhas da caatinga em busca de um local para descansar. Vindo das bandas do Estado cearense, passa muito perto da cidade de Vila Bela, segue rumo ao Cipó, vai até próximo a Betânia e volta por outro caminho para junto de Vila Bela, fazendo parada nas terras da fazenda Abóboras.

Há pouco mais de uma légua de Vila Bela, num 'pedaço' da Serra do Saco, mais precisamente conhecido como Serra do Xiquexique, ele e sua 'cabroeira' estavam pegando a 'boia' escondidos dentro do curral do gado. A comida tinha sido preparada e servida pelo coiteiro Isaías Viera, que depois vem a torna-se o cangaceiro "Zabelê", igual alcunha de outro que fora preso no embate do Serrote Preto. Antes de findarem de comer, escutam a voz do coiteiro e demais familiares, responderem com uma negativa.

A volante dos bravos "nazerenos", incansáveis perseguidores do rei, composta, na ocasião, por 21 guerreiros adolescentes de Nazaré. Tendo como comandante o aspençada João Gomes de Sá Ferraz. Faziam parte da coluna os jovens Euclides Flor, Manoel Flor e Idelfonso Flor, que eram irmãos, Davi Gomes Jurubeba, João Jurubeba, Hercílio Nogueira e Lero de Chico dentre outros. E, em sua vanguarda, contava com os serviços do esperto e bravo rastejador Antônio Joaquim dos Santos, conhecido pela alcunha de 'Batoque'.

E é justamente o rastejador que estranha o tom alto das respostas dos moradores da casa, quando perguntado se tinham visto algum cangaceiro por aquelas bandas. Seu sexto sentido investigador o leva a começar a examinar em volta, no oitão da casa e dentro do curral.

Notando naquele momento a fuga desesperada dos cabras de Lampião adentrando na mata. Dá o alarma imediatamente e a pipoqueira começa. Tiro, tiro e mais tiros são trocados em poucos minutos. Devido a munição ser carregada com pólvora preta, a fumaceira toma conta do mundo.

Mesmo tendo notado o aviso dos coiteiros, e caindo, as pressas na lasca das brenhas, a formação natural de uma das laterais do curral, os impede de uma fuga rápida. O grupo de bandoleiros teve várias baixas. A cabroeira, nessa ocasião era composta por 15 cangaceiros mais o chefe. O cangaceiro "Juriti", tomba morto dentro do curral, outros baleados estão, mas, a luta pela vida os faz manter o fogo e a fuga. O cangaceiro "Jurema" morre logo em seguida e, dois ou três dias depois do combate, é encontrado o corpo do cangaceiro "Morcego".

A volante, dos valentes de Nazaré, também teve baixa. O jovem Ildefonso Flor, Ildefonso de Sousa Ferraz, com uma bravura descomunal, mas, com expressa inexperiência, parte para cima do inimigo acostumado as trocas de tiros. Tentando de todo jeito dar cabo da horda, entra no curral atirando feito louco. É atingido por um projétil bem no meio da testa. Contava na ocasião com apenas "16 anos de idade".

Fonte: "Memórias de um Soldado de Volante", Lira, João Gomes.

"Lampião - a Raposa das Caatingas", irmão, José B.

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CANGAÇO - VIRGULINO E SATURNINO, O INÍCIO DE TUDO

 Por Aderbal Nogueira

https://www.youtube.com/watch?v=rkxSMzsIW-g&ab_channel=AderbalNogueira-Canga%C3%A7o

João Saturnino, filho de José Saturnino fala da origem das brigas entre seu pai e Virgulino. Link desse vídeo: https://youtu.be/rkxSMzsIW-g

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PEÇA LOGO ESTES TRÊS LIVROS.

     Por José Mendes Pereira 

A primeira obra é "LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS" que já está na 5ª. edição, e aborda o fenômeno do cangaço e a vida do maior guerrilheiro das Américas. Um homem que não temeu às autoridades policiais  e muito menos aqueles que lutavam contra a sua pessoa, na intenção de desmoralizá-lo nas suas empreitadas vingativas, e eliminá-lo do solo nordestino. Realmente foi feito o extermínio do homem mais corajoso e mais admirado do Nordeste do Brasil, na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, no Estado de Sergipe, mas não em combate, e sim, através de uma emboscada muito bem organizada pelo alagoano tenente João Bezerra da Silva. 


O Segundo livro da trilogia do escritor e pesquisador do cangaço é: "FATOS ASSOMBROSOS DA RECENTE HISTÓRIA DO NORDESTE" com 332 páginas, e um grande acervo de fotos relacionado ao assunto. E para aqueles que gosta de ler e ver fotos em uma leitura irá se sentir realizado com todas as fotos.


O terceiro livro da trilogia também do escritor José Bezerra Lima Irmão é: "CAPÍTULOS DA HISTÓRIA DO NORDESTE" resgata fatos sobre os quais a história oficial silencia ou lhes dá uma versão edulcorada ou distorcida: o "desenvolvimento" do Brasil, o desumano progresso de colonização feito a ferro e fogo, Guerra dos Marcates, Cabanada, Balaiada, Revolução Praieira, Ronco da Abelha, Revolta dos Quebra-Quilos, Sabinada, Revolta de Princesa, as barbáries da Serra do Rodeador e da Pedra do Reino, Guerras de Canudos, Caldeirão e Pau-de-Colher, dando ênfase especial à saga de Zumbi dos Palmares, Invasões Holandesas, Revolução Pernambucana de 1817, Confederação do Equador e Guerras da Independência, incluindo o 2 de Julho, quando o Brasil se tornou de fato independente... São assuntos que dão gostos a gente lê-los.  

Adquira-os com o professor Pereira através deste e-mail: 

franpelima@bol.com.br

ou com o autor através deste g-mail: 

josebezerralima369@gmail.com

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HERMELINDA DE ALMEIDA LOPES.

 Por José Mendes Pereira

Hermelinda de Almeida Lopes nasceu na cidade de Mossoró no Estado do Rio Grande do Norte, no dia 31 de outubro de 1945. Iniciou a sua carreira musical no Trio Mossoró, juntamente com os seus irmãos Oséias de Almeida Lopes o Carlos André, e João de Almeida Lopes o João Mossoró, ou ainda conhecido e nomeado por Luiz Gonzaga de Cibito. O trio teve início ainda na década de 50. 

Discografia com o Trio Mossoró

Carcará - Orós, 1965.

Quem Foi Vaqueiro, 1965.

De Norte A Sul, 1966.

Convocação, 1967.

Terra De Santa Luzia, 1967.

Tem Mais Gente, 1973.

Forró Do Velho Inacio, 1975.

Forró do Mexe Mexe, 1977.

Discografia como Ana Paula

Perdidamente apaixonada Vol. 2, 1978 (Tapecar • LP)

Perdidamente apaixonada, 1977 (Tapecar • LP)

Discografia como Hermelinda

Forró verdadeiro, 1986 (Gel/Chantecler • LP)

Meu jeitinho de amar, 1987 (Chantecler • LP)

Vou bulir com tu, 1988 (Gel/Chantecler • LP)

Vem me ver, 1989 (Gel/Chantecler • LP)

https://www.youtube.com/watch?v=HPBrMliVKYQ&ab_channel=MAISM%C3%9ASICA

Nos dias de hoje cada um dos irmãos canta solo, mas vez por outra eles se reúnem e cantam as velhas músicas do Extinto Trio Mossoró. 

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ARIANO EM ESTRELAS DE COURO...

 

Foi no início da década de 1970 que conheci pessoalmente Frederico Pernambucano de Mello e travei contato com os primeiros resultados de suas pesquisas e reflexões sobre o Cangaço — tema que nos fascina a ambos e que é, a meu ver, o maior responsável pela sedução que o Sertão nordestino vem exercendo, por motivos diversos e desde o início do século XX, sobre várias gerações de escritores, sociólogos, historiadores e artistas brasileiros, de todas as regiões do País. 

Em 1973, em um artigo que publiquei no extinto Jornal da Semana, do Recife, a propósito do romance Sem lei nem rei, de Maximiano Campos — escritor nascido no Recife, de estirpe da Zona da Mata pernambucana e das casas de engenho, mas cujo romance gira em torno do Cangaço, da caatinga e das casas de fazendas sertanejas — fiz referência ao trabalho de Frederico Pernambucano nos seguintes termos: "Ao tempo cm que apareceu Sem lei nem rei, eu ainda não conhecia Frederico Pernambucano, um dos maiores conhecedores do Cangaço com quem já tive oportunidade de conversar. Não conhecia, portanto, sua teoria a respeito da personalidade dos cangaceiros, teoria que procura explicar a psicologia desse nosso herói extraviado através de dois polos principais: o orgulho e aquilo que Frederico Pernambucano chama de 'o escudo ético'. 

Com a franqueza e a ausência de inveja com que procuro me pautar, digo que, sem sombra de dúvida, a teoria de Frederico Pernambucano — que eu espero ver um dia colocada por ele em livro — foi a única que, até o dia de hoje, me pareceu convincente: foi a única que explicou a mim próprio os sentimentos contraditórios de admiração e repulsa que sinto diante dos cangaceiros". (jornal da Semana, Recife, 24 a 30 de junho de 1973).


O meu desejo de ver a teoria de Frederico Pernambucano em livro se realizaria em 1985, com a publicação do seu admirável Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, livro que se tornou um clássico da historiografia do Cangaço. Trata-se, de fato, de um livro de qualidades incomuns, ao qual tenho voltado de vez em quando para relê-lo e sentir o mesmo impacto, a mesma força que ele me transmitiu na primeira leitura — sem que eu tenha até hoje compreendido bem, diga-se de passagem e sem desrespeito à memória de Gilberto Freyre, a afirmação que este faz em seu erudito prefácio, quando aponta as "lições" que Frederico teria aprendido com os "romancistas ingleses". 

Tendo passado toda a minha infância e parte da adolescência no Sertão da Paraíba, entre os anos de 1928 e 1942, foi desde cedo que entrei em contato com "o mundo estranho dos cangaceiros", para fazer-me valer da expressão de Estácio de Lima. Menino ainda, antes mesmo de ter aprendido a ler, ouvia casos e histórias envolvendo os cangaceiros, suas incursões pelas vilas e fazendas e seus atos de heroísmo e crueldade, narrados por meus familiares e pelo povo sertanejo, por agregados e trabalhadores das fazendas do meu Pai e dos meus tios. 

Depois, na feira de Taperoá, entrava em contato com os cantadores e poetas populares, através dos quais muitas daquelas histórias reais eram transfiguradas na primeira poesia de natureza épica que conheci em minha vida. Com o passar do tempo, naturalmente, à medida que eu crescia e abria os olhos para o mundo, tudo aquilo foi se identificando com o meu universo familiar e pessoal. Eu tomava consciência, por exem-plo, de que meu Pai, João Suassuna, que governara a Paraíba de 1924 a 1928, e que, então Deputado Federal, tombara assassinado em 1930, numa rua movimentada do centro do Rio de Janeiro, naquele que até mesmo um dos seus adversários políticos — José Américo de Almeida — considerou "o mais monstruoso dos atentados", foi, ao longo do seu mandato de Governador — ou de "Presidente", como se dizia no tempo —, incansável na luta contra o Cangaço, tendo sido o grande responsável pelo fim dos ataques e incursões dos bandoleiros em terras paraibanas. Com o aumento considerável no efetivo da força policial, reforço no armamento, adoção de uniforme mais condizente com as condições ecológicas da caatinga e a criação de tropas "fora de linha", a Paraíba, durante o governo de João Suassuna — que contava com o apoio incondicional do Coronel José Pereira, seu correligionário e líder político da cidade de Princesa — passou inclusive a colaborar de modo efetivo com outros estados nordestinos na luta contra o Cangaço, tendo as volantes paraibanas ido em auxílio de municípios de Pernambuco, do Ceará e de Alagoas. 


Foi, aliás, no município de Flores, em Pernambuco, lutando contra uma volante da Paraíba, que o bando de Lampião sofreu, em 1925, uma de suas maiores baixas — a morte de Levino Ferreira, um dos irmãos do chefe. De maneira que é com imenso orgulho que ouço, ainda hoje, o repente popular:

Lampião acovardou-se 
com a sua cabroeira. 
Não entra na Paraíba 
com medo de Zé Pereira: 
o doutor João Suassuna 
mandou dar-lhe uma carreira.

Que se entenda, então, que quando afirmo a minha admiração pelos cangaceiros, fazendo a sua exaltação enquanto figuras romanescas e de expressão do Nordeste, ou reconhecendo a coragem da sua vida épica e desgarrada, não estou, de maneira nenhuma, fechando os olhos para o fato de que eram também bandidos impiedosos, que sacrificavam vidas de pes-soas indefesas e pacatas da forma a mais brutal possível — e creio que isso tenha ficado claro naquele artigo há pouco citado, quando falo num sentimento contraditório de admiração e repulsa. 

Mas, de fato, não há como negar o fato de que o cangaceiro não era um bandido comum. Sem entrar em detalhes que identificariam "tipos de Cangaço" dentro do Cangaço, o cangaceiro era um guerreiro extraviado no tempo, com sentimentos de honra e lealdade fora dos padrões normais, às vezes somente compreendidos no seio do seu próprio grupo. Como já afirmei em outra oportunidade, creio sim que somente quem estuda o fenômeno do Cangaço com espírito sectário pode se extremar na admiração sem reservas ou na condenação total dos cangaceiros, vendo-os ora como reivindicadores sociais, por um lado, ora como simples bandidos, no sentido estritamente jurídico do termo, por outro. 

A aura de epopeia que indiscutivelmente o envolve tem feito do Cangaço, ao longo do tempo, fonte inesgotável de inspiração para artistas dos mais diversos gêneros — da Literatura ao Cinema, do Teatro às Artes Plásticas — tanto na vertente erudita quanto na popular. E se há no Cangaço um elemento épico, este é ainda exacerbado pelos trajes e equipagem dos cangaceiros, com os seus anéis e medalhas, seus lenços coloridos, seus bornais cheios de bordaduras, os chapéus de couro enfeitados com estrelas e moedas — tudo isso que se coaduna perfeitamente com o espírito dionisíaco de dança e de festa dos nossos espetáculos populares e compõe uma estética peculiar, rica e original, agora minuciosamente estudada por Frederico Pernambucano neste seu novo trabalho, que tenho a honra de prefaciar. Como bem afirmou Carlos Newton Júnior, em um dos poemas do seu livro Canudos, trata-se, de fato, de uma:

Estética orgânica, 
estética de organismo, de vida. 
Contrária ao branco, ao cinza, 
à morte descolorida.

Ora: se todo prefaciador é de certo modo suspeito em seus elogios, devo confessar que, no meu caso, a suspeição aumenta ainda mais, pois vejo que eu e Frederico Pernambucano concordamos em quase tudo o que diz respeito ao Cangaço. Além disso, Frederico encontra frases e expressões precisas e de grande efeito poético para definir as suas ideias, sempre ricas e cheias de sugestões. 

Para dizer, por exemplo, aquilo que afirmei há pouco, no tocante ao fato de que os cangaceiros não eram bandidos comuns, afirma Frederico que eles eram "criminosos na epiderme e irredentos no mais fundo da carne". Outra expressão muito bem conseguida é a "blindagem mística" que Frederico identifica a certa funcionalidade dos trajes dos cangaceiros, pela profusão de signos de defesa e rebate que eles usavam como adornos. De maneira que, se tivessem sido outras as minhas inclinações no campo das Letras; se o destino e a vida tivessem me direcionado, em algum momento, não para a Beleza da Literatura, mas para a Verdade das ciências — da História, da Sociologia ou da Antropologia; se a enigmática roda da Fortuna tivesse me lançado em outro palco que não o do Picadeiro-de-Circo onde exerço, até hoje, ainda animoso e cheio de esperanças, as minhas artes de Palhaço frustrado, de Cantador sem repentes e de Professor; não seria outro, senão este Estrelas de Couro, de Frederico Pernambucano de Mello, o livro que eu gostaria de ter escrito.

Ariano Suassuna Recife, 15 de março de 2010
Prefácio da Obra "Estrelas de Couro" de
Frederico Pernambucano de Melo

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CANGACEIRA DULCE NO LIVRO TERRA DE BRAVA GENTE

O Livro Terra de Brava Gente narra a história da cangaceira Dulce. O autor João de Sousa Lima reencontrou em Paulo Afonso a dona Maria Cícera, irmã de Dulce e que há mais de 60 anos não se viam, o historiador fez o encontro das duas e por essa ação acabou sendo privilegiado com uma entrevista com Dulce, pois ela não dava entrevistas.

Para adquirir a obra: João de Sousa Lima 75-988074138 ou joaoarquivo44@bol.com.br

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A MORTE DE SABIÁ E A DOENÇA RUIM DO MATADOR

 Por Manoel Belarmino

Aqueles 9 anos de cangaço em Sergipe, quase uma década, mais parecia um século sem fim. O sertão estava em alvoroço. Mortes, tragédias, chacinas, combates, medo, carreiras, atrocidades. Cangaceiros, coiteiros e volantes. Um dos acontecimentos que marcou a história do Cangaço em Sergipe foi a morte do cangaceiro Sabiá e a lenda que nasceu dessa morte.

Sabiá (provavelmente este era o quarto cangaceiro com este nome) era natural de Poço Redondo e filho de Dona Maria Antônia Alves e Zeca Bié. O seu nome civil e de batismo era João Alves dos Santos, conhecido como João Preto. Sabiá, ao entrar no cangaço, logo passou a pertencer ao grupo comandado por Zé Sereno. É naquela segunda visita dos cangaceiros à cidade de Aquidabã, feita pelo grupo de Zé Sereno e que Sabiá estava presente, que acontece a trágica morte do filho de Zé Bié.

Era o mês de outubro de 1936. O grupo de Zé Sereno chega às proximidade de Aquidabã. E um grupo de jovens, já escaldados daquela visita de 1930 feita por Lampião e seus cangaceiros, quando aconteceram diversas malvadezas praticadas pelos cangaceiros aos moradores daquele lugar, resolveram perseguir os cangaceiros que se aproximavam dali. Houve, ali, um tiroteio e o cangaceiro Sabiá foi atingido na cabeça, na malhada da Fazenda Barra Salgada, no município de Canhoba. A bala do jovem Gustavo Guimarães atingiu o cangaceiro Sabiá. Era a vingança dos homens de Aquidabã contra Lampião que, quando em 1930 esteve ali, arrasou aquela povoação. Os cangaceiros, imaginando que fosse uma perseguição da volante, fugiram.

Manoel Severo, João de Sousa Lima e Manoel Belarmino

Sabiá ainda não estava morto. Horas depois, os jovens de Aquidabã retornaram à sede da fazenda Barra Salgada e vêem o cangaceiro baleado, mas ainda vivo, agonizando. O mesmo Gustavo que desferiu o tiro certeiro que atingiu a cabeça do cangaceiro, escarra e cospe na boca do já quase morto Sabiá. O cangaceiro já quase morto, em seguida, é arrastado por um caminhão até Aquidabã onde é exibido como troféu e como vingança às atrocidades feitas naquele lugar quando Lampião ali esteve.

Aquele ato impensado e cruel de Gustavo gerou uma lenda. E o próprio Gustavo afirmava que o fato realmente aconteceu, dando conta que naquele momento que cuspiu na boca do quase morto cangaceiro Sabiá, sentiu o seu corpo coçar, surgindo borbulhas estranhas e mal cheirosas. Apareceu, dias depois, uma doença ruim que tomou conta do seu corpo, desconfigurando-o completamente. Nem médico e nem reza forte dos mais renomados rezadores de Aquidabã e Canhoba deu jeito.

Segundo alguns pesquisadores, o próprio Gustavo Guimarães dizia que aquela doença ruim invadiu o seu corpo naquele momento infeliz do seu cuspe na boca do cangaceiro Sabiá.

Sabiá morreu ali nas terras de Canhoba e Aquidabã, depois de ser ferido de bala de fuzil, cuspido, pisado e arrastado, e, logo depois, Gustavo, o matador do cangaceiro Sabiá, morreu de uma doença ruim que invadiu o seu corpo.

Manoel Belarmino, pesquisador, poeta e escritor

Conselheiro Cariri Cangaço

Poço Redondo, SE

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O CANTO DE ACAUÃ - PARTE 2

 

https://www.youtube.com/watch?v=K3BVhFcIRiQ&ab_channel=fliperama14

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"MEMÓRIAS SANGRADAS, VIDA E MORTE NOS TEMPOS DO CANGAÇO"

 

O livro "Memórias Sangradas, vida e morte nos tempos do Cangaço" está saindo do forno na gráfica Ipsis. Terá um período de pré-lançamento a partir de meados de novembro e oficialmente em dezembro pela editora Olhares.

Um livro de autoria do fotógrafo e jornalista Ricardo Beliel com 125 fotografias em preto e branco e em cores, contendo um texto principal com depoimentos e histórias contadas por personagens que vivenciaram o cangaço entre os anos 20 e 40, um movimento que dominou o interior de sete estados do nordeste brasileiro.

No texto, depoimentos diversos e a experiência pessoal do autor em busca de seus personagens em seus próprios ambientes originais são apresentados através de uma narrativa em que se misturam elementos das linguagens da reportagem, da crônica histórica e, em parte, como um diário de viagem.

Foram realizadas nove viagens no período de 2007 a 2019 nas regiões dos sertões de Alagoas, Pernambuco, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, São Paulo e Minas Gerais para a coleta de materiais narrativos e imagéticos de míticos cangaceiros, coiteiros e volantes e alguns de seus descendentes. Onze mil quilômetros foram percorridos, em grande parte em precárias estradas do interior sertanejo, resultando no encontro com quarenta e três personagens contemporâneos ao cangaço. São eles que guardam relatos importantes relacionados à história do cangaço - ocorridos na primeira metade do século XX - em quarenta e nove localidades – palco de lutas, amizades, emboscadas, amores e massacres entre cangaceiros, volantes, jagunços, coronéis e camponeses; um mundo sertanejo que está se extinguindo nas suas tradições orais. Em cada personagem testemunha-se esse fluxo da memória e do esquecimento, onde os encontros nas pesquisas de campo revelaram uma potente e épica narrativa das memórias pessoais que envolvem tradições e lugares. Os personagens entrevistados, em sua grande maioria pessoas quase centenárias, possuem uma riqueza assemelhada ao mistério da terra. São descendentes da época do cangaço, personagens de um ciclo da história do Brasil que aqui resgatamos para que não fiquem no esquecimento, como pedras silenciosas no meio do caminho.

Editora Olhares e apoio do Rumos/Itaú Cultural

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FAIXA 04: A MORTE DE CACHEADO - AUTORIA: CANGACEIROS DO BANDO DE SINHÔ PEREIRA.

 Por Cangaçologia

https://www.youtube.com/watch?v=hcLPnfq-Vfg&ab_channel=Canga%C3%A7ologia

LP "O Canto do Acauã": Projeto Documentação Fonográfica do Ciclo do Cangaço no Vale do Pajeú, produzido pela escritora e pesquisadora Marilourdes Ferraz, no ano de 1987. O LP (Vinil) trás músicas, muitas delas inéditas, que foram compostas por personagens da história do cangaço e outras de autorias desconhecidas, mas que fizeram parte das cantigas cantadas por paisanos, cangaceiros e volantes na época em que o cangaço prevalecia e devastava os sertões do Nordeste. Esse LP (Vinil) resgata o que há de mais precioso em termos de musicalidade regional nordestina e nos faz viajar através do tempo de volta a um período conturbado e sangrento da nossa história chamado... Cangaço. Lembrando que as músicas estão sendo apresentadas por faixas. Antes de encerrar quero agradecer ao amigo e confrade Fabiano Ferraz e a sua mãe Marilourdes Ferraz, pela concessão desse material histórico de valor imensurável. 

Ouçam e ao final deixem seus comentários, críticas e sugestões. Inscrevam-se no canal e não esqueçam de ativar o sino para receber todas as nossas atualizações. 

Forte abraço... Cabroeira! Atenciosamente: Geraldo Antônio de Souza Júnior - Criador e administrador do canal.

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O CANTO DE ACAUÃ - PARTE 1

https://www.youtube.com/watch?v=2XAd6sHhxj0&ab_channel=fliperama14

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ESPECIAL - ÂNGELO OSMIRO E SUA BIBLIOTECA

 Por Aderbal Nogueira

https://www.youtube.com/watch?v=YwQqHw1Ve0c&ab_channel=AderbalNogueira-Canga%C3%A7o

Programa 13 - Especial - Ângelo Osmiro e sua biblioteca Ângelo Osmiro Barreto, pesquisador e escritor das histórias do cangaço possui uma das maiores, senão a maior, biblioteca com o tema Cangaço, no Brasil. 

Já foi presidente da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço e hoje é presidente do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará. Toda sexta-feira, às 19:15h, fique com a Dica de Leitura do Prof. Ângelo Osmiro. 

Link desse vídeo: https://youtu.be/YwQqHw1Ve0c

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ILUSTRE VISITA DE VERA FERREIRA NETA DE LAMPIÃO E MARIA BONITA: AO PORTAL DO CANGAÇO DE SERRINHA. ONDE VERA ME CONTOU, QUEM FOI OS SEUS AVOS, LAMPIÃO E MARIA BONITA. AFIRMA! VERA: NETA COM MUITO ORGULHO E MUITO AMOR.

 Por Guilherme Machado - Dezembro de 2011.

Vera Ferreira - Neta de Lampião e Maria Bonita

Vera Ferreira construiu sua própria história, independente de ser neta de Lampião e Maria Bonita. Foi a primeira cinegrafista mulher a empunhar uma câmera no Brasil, criou reboliço no Senado Nacional e hoje leva, no peito e na raça, o projeto de manter vivo esse momento tão importante da história do Brasil que foi o cangaço. Mas também o que se poderia esperar dessa que é da "raça de Lampião" e tem como avó uma mulher que é exemplo da força feminina... 

RAÇA DE LAMPIÃO! 

"Quando éramos crianças, ninguém chegava perto da gente. Só brincávamos com os nossos primos... Para as pessoas nós éramos "raça de Lampião" e vivíamos assim. 

Minha mãe teve quatro filhos, Dejair, Vera, Gleuse Meire e Iza Cristina, além de três bisnetas que são karla que faz faculdade em São Paulo, Cleudi que faz Arquitetura na Unit e Luana que é campeã brasileira de natação. Muita gente acreditava, ou acredita, que descendente de cangaceiro viria a ser bandido; e não se tem nenhuma informação que algum descendente de pessoas que estiveram no cangaço tenham tido problema com a justiça. 

EXPEDITA AOS 21 DIAS.

Minha mãe, aos 21 dias de nascida, foi dada para ser criada por um casal, porque todas as crianças que nasciam no cangaço eram dadas, visto que não se tinha a menor condição de se ter crianças no bando. E foi assim que, até os oito anos de idade, minha mãe foi criada por Severo, que era vaqueiro, e sua esposa, Aurora. Depois ela foi para Propriá, para ser criada por João Ferreira, que foi o único irmão do meu avô que, por determinação dele, não entrou para o cangaço para tomar conta das irmãs e do irmão mais novo, que era Ezequiel. Aos dezesseis anos, minha mãe veio trabalhar em Aracaju e aos dezoito anos se casou. 

VERA AOS TREZE ANOS.

Aos treze anos de idade eu fui para São Paulo, junto com minha mãe, pela primeira vez, para um encontro de cangaceiros. Até então, eu não sabia nada da vida de meu avô, só sabia que éramos "raça de Lampião", e que as pessoas não gostavam disso. Nesse encontro, em São Paulo, organizado pela autora do livro "Táticas de Guerra de um Cangaceiro", Cristina da Mata Machado, que conheci Dadá, Balão, Criança, Sila, Zé Sereno, Labareda e outros; eu fiquei impressionada como tratavam com respeito minha mãe e eu. Era como se meu avô estivesse presente. Foi então que eu prometi, pra mim mesma, que iria pesquisar e cuidar da memória dos meus avós. 

DADÁ, MULHER DE CORISCO.

Era uma mulher fantástica! Foi quem me esclareceu muita coisa sobre meus avós e o cangaço, ela tinha uma memória fantástica e muito detalhista, além de contar realmente os fatos, sem fantasiar, porque hoje em dia, ainda existem cangaceiros que fantasiam. 

MULHER CINEGRAFISTA.

Aos dezenove anos, casei e fui morar em São Paulo. Separei, fui para Brasília e comecei a fotografar. Daí para câmera foi um pulo, fui a primeira mulher, no Brasil, a empunhar uma câmera. Trabalhei na Rede Globo, Manchete, Bandeirantes, TV Sergipe e depois em produções independentes. Tenho muito orgulho de ter sido a primeira jornalista cinegrafista. 

SAIAS, CALÇAS E SENADO.

Eu fui designada pela Globo para trabalhar como repórter cinegrafista no Senado e lá mulher só podia entrar de saia. E como eu, com uma câmera de quase dez quilos no ombro, tendo que subir em mesa, nos ombros do meu assistente, poderia usar uma saia? Muitas vezes peguei o paletó do meu assistente, outra vez tranquei uma fotógrafa enorme dentro do banheiro para pegar a saia dela e fazer as imagens que eu não podia perder, até que o Moacir Dala me liberou para entrar no Plenário de calça. 

MUSEU DO CANGAÇO... 

Em 88 foi comemorado os cinqüenta anos de morte de Lampião e Maria Bonita, além de outros cangaceiros que estavam no momento da tocaia no coito. Então resolvemos criar um museu que seria uma homenagem aos meus avós e ao cangaço em geral. Montamos ele onde fica o Centro de Turismo de Sergipe, e esse museu tinha tudo para dar certo, porque em agosto daquele ano, que não é um mês forte para o turismo, tivemos 3.327 visitantes, que é mais do que tiveram os três museus daqui em três anos. Recebemos a visita de jornalistas da Bélgica, da Romênia e de outros lugares do mundo... Pena que o museu só funcionou 4 meses, em novembro caiu uma chuva forte e choveu através do teto e perdemos muitas coisas. Perdemos documentos históricos, fotos, armas... 

O NOVO MUSEU! 

Nós temos propostas de alguns lugares para fazer o museu, Alagoas, Bahia, o Shopping Rio Mar... Aqui a Emsetur nos ofereceu um lugar na Orla, mas já nos tirou, inclusive o Arquiteto Eduardo Carlos Magno, que projetou a planta do museu, disse que se o museu não for na orla, quem sairá perdendo é a própria Orla e, claro, Sergipe... Enfim eu sei que eu vou montar esse museu não sei aonde, gostaria muito que fosse aqui, mas acredito que seja preciso que as pessoas que estão a frente do governo percebam o quanto é preciso valorizar os acontecimentos históricos da sua terra. 

ENQUANTO ISSO... 

Uma parte do acervo está no Memorial da UNIT que fica na Av. 13 de julho, e pode ser visitado... 

MAS NÃO DURA MUITO TEMPO! 

Nós queremos muito montar esse museu aqui, mas não vou ficar muito tempo esperando que políticos percebam o quanto isso seria importante para o nosso estado. A minha familia não ganha nada com isso, muito pelo contrário, perde, porque temos que botar do próprio bolso para viajar, pesquisar e manter essa passagem histórica do Brasil que foi o cangaço... paciência tem limite. 

AS QUATROS OPÇÕES DE LAMPIÃO! 

Ele poderia calar, virar jagunço de um coronel rico, volante (polícia) ou cangaceiro... ele optou pela última, mas só quando o pai foi morto, que era um homem muito pacato e que se mudou quatro vezes para não brigar e foi morto assim mesmo. 

MARIA BONITA! 

A revista Desfile Internacional colocou as cem mulheres do século, minha avó estava presente, um encarte da Folha de São Paulo colocou as maiores mulheres brasileiras, minha avó estava presente, saiu agora na revista Cláudia as mulheres mais importantes, minha avó estava presente. Então acho que só isso basta para dizer qual a importância dessa mulher como referencial para as mulheres brasileiras e do resto do mundo. 

DE VIRGOLINO A LAMPIÃO... 

Quem escreveu o livro foi eu e Antônio Amaury, que é o maior pesquisador sobre cangaço que existe atualmente, com um trabalho de cinquenta anos dedicado a esse tema. A Dana Corporation foi quem patrocinou o nosso livro juntamente com o Ministério da Cultura, Através da Fundação Augusto Franco. e o que me deixou muito feliz foi que, durante dois meses, ele foi o mais vendido na Livraria Escariz e a saída continua muito boa. Lançamos agora em Porto Alegre, e estaremos fazendo outros lançamentos durante o ano todo... 

O FILME? 

Nós já fomos procurados por alguns diretores para comprar os direitos de filmagem do " Virgolino a Lampião" e estamos estudando a melhor proposta, porque chega de filme mentiroso sobre o cangaço... o único trabalho que é um pouco fiel foi um Globo Repórter Especial que se chamou " O último dia de Lampião’’... 

LAMPIÃO, MENTIRAS E VERDADES... 

Eu e o Antônio Amaury já estamos trabalhando em outro livro que vai revelar as mentiras que se falam sobre o cangaço... existem coisas absurdas do tipo que meu avô só usava perfume francês e que só escrevia os bilhetes em máquina de escrever, imagina em pleno sertão fazendo bilhetes em máquina de escrever, a pessoa que escreve um négocio desse é um irresponsável.

Postado por Portal Do Cangaço.

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