Por Nas Pegadas da História
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Por Cangaçologia
Uma entrevista sensacional com Maria Quitéria de Morais, filha de Severino Baptista de Morais e neta do ex-cangaceiro Antônio Silvino (Manoel Baptista de Morais).
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Clerisvaldo B. Chagas, 8/9 de dezembro de 2021
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.624
Quem Conheceu “A IMPERIAL” no Centro Comercial de Santana do Ipanema, do proprietário Pedro Cristino de Melo, se não me engano? Homem baixinho e muito agradável, conhecido como Seu Piduca, vendia uma variedade enorme de mercadorias, além de possuir olaria na margem direita do Ipanema, anos 60. Seu Piduca era sogro do saudoso professor Ernande Brandão e prestou relevantes serviços à sociedade santanense. Ao falecer, A IMPERIAL continuou a funcionar com seu filho Rubens e o estabelecimento passou a ser CASA DAS TINTAS e assim entrou no Século XXI. Pois bem, a loja que se tornou um patrimônio da cidade, mudou-se, segundo informações, para a Rua Pancrácio Rocha, onde mantém viva a tradição de bem servir.
Onde fora a IMPERIAL e a Casa das Tintas – falamos mais para os que estão ausentes da terrinha – está sendo reformada para abrigar uma luxuosa clínica odontológica, em mais um empreendimento de grande valor para o continuado progresso de Santana do Ipanema como Capital do Sertão. São os investimentos ininterruptos chegados de fora para a nossa terra: Arapiraca, Palmeira dos Índios, Maceió e de tantas partes das Alagoas. Em breve um titã mercado de Maceió também estará servindo Santana do Ipanema, por ora, dizem, encontra-se em negociação para o local. A cidade já está cheia de marcas nacionais e até internacionais, provando que o futuro do Sertão passa pela terra de Senhora Santana. Mas os filhos da terra também aprenderam a investir por aqui e as novidades comerciais e prestadoras de serviços não deixam nem a gente contá-las.
O bom disso tudo é que as outras cidades sertanejas do Sertão, Alto Sertão e Sertão do São Francisco, também vão se desenvolvendo rapidamente com ajuda externa e mentalidade moderna. São favorecidas e favorecem a Capital Sertaneja num intercâmbio de causar inveja. Sem conta são os transportes alternativos que desembarcam gente na cidade, principalmente no primeiro horário. Por outro lado, a cidade vai ficando cada vez mais bonita que dá gosto até entrar por todas as bibocas, mesmo sem gastar nada, porém, aguçar mais a curiosidade. Entretanto já foi tentando o transporte coletivo urbano e não deu certo. Os quase mil mototaxistas, parecem no domínio do deslocamento popular. Sei não...
RUA PANCRÁCIO ROCHA, TRECHO URBANO DA BR-316 (FOTO: GUILHERME CHAGAS).
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Por: Antônio Correa Sobrinho
Não vejo, dentre os que mais corajosa e afanosamente combateram o cangaceiro Lampião, quem tenha sobrepujado Manuel Neto, o militar pernambucano da família Ferraz, de Nazaré dos Picos, também conhecido por Mané Neto, este que, só por causa do destino, que não permitiu, deixou de dar cabo de Lampião e nem por ele foi abatido.
HOJE , ao vivo , 19h30 em nosso canal no You Tube
Por Valdir Nogueira
"O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, pelo senhor chefe de polícia, é atualmente o comandante das forças pernambucanas no sertão. Vimo-lo ontem a noite na Chefatura, conferenciando demoradamente com o Dr. Eurico de Souza Leão. As indicações que prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele oficial em todo sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados e caatingas numa luta de vida ou morte contra os mais ferozes bandoleiros. O tenente Arlindo Rocha é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado para responder então. Na face esquerda ostenta um gilvaz profundo: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.
- Onde foi esse combate? Perguntamos logo com nossa curiosidade despertada!
- Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Bellarmino. Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Dr. Júlio de Mello contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou às 8 e meia da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras, que Antônio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes pela retaguarda. E gritava: - Hoje tomo uma costureira dessas.
Clerisvaldo B. Chagas, 10 de dezembro de 2021
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.625
Se o leitor nos pede para falar sobre a Rua Santa Sofia, lembremos da antiga e falemos da presente. A Rua Santa Sofia é o principal corredor entre o bairro Lajeiro Grande e o local Largo do Maracanã. Foi resultado da antiga povoação do Bairro Camoxinga, porém, alcançou o auge do seu casario, a partir da construção do cemitério Santa Sofia no topo da ladeira que forma sua rua. O Estádio Arnon de Mello, vizinho ao cemitério, também ajudou muito a povoar a via. Hoje essa rua tão conhecida vai desde o Largo do Maracanã, passa pelos dois pontos citados acima e continua dando margem à COHAB Nova e vai em linha reta, em terreno mais baixo até a estrada que leva ao sítio Barroso. Em pesquisa realizada há cerca de trinta anos por nossos alunos, possuía o melhor padrão de vida de tantas e tantas ruas pesquisadas.
Hoje ganhou asfalto sobre seus paralelepípedos e seu lado direito para quem sobe a colina, vai expulsando residências que vão sendo transformadas em comércio, à semelhança da Rua Pedro Brandão. Sinuca, padaria, quitanda, restaurante, mercadinho, galeto, lanchonetes, bodega, açougue, escola, sorveteria, funerária, mercearia, farmácia e outros estabelecimentos movimentam a parte social e econômica da rua. O lado esquerdo para quem sobe, tem um pouco mais de resistência ao comércio tendo em vista algumas residência de calçada alta, mas em breve será totalmente comercial. E o novo comércio formado no início da COHAB Nova e nos fundos, valorizam os imóveis da Rua Santa Sofia, sequiosa por novos pontos de negócios.
Durante o dia e no início da noite, o movimento de veículos de passeio e motos, é um dos maiores da cidade. É pena não haver coletivo em Santana. Subir na perna todos os santos dias, do Largo do Maracanã ao Bairro Lajeiro Grande, é coisa para atleta ou da falta crônica de real no bolso. A ausência dos jogos de primeira divisão no Estádio Arnon de Mello, com certeza faz uma falta enorme de circulação de dinheiro ao longo de toda a Rua Santa Sofia, Largo do Maracanã e Lajeiro Grande, mas, fazer o quê? Rua e bairros vão dando um jeitinho pela conquista da autossuficiência.
A propósito, Santa Sofia foi uma Santa Romana que, convertida, passou a sofrer perseguição pelo prefeito de Roma.
Pesquise a história e sinta orgulho da homenagem da sua Rua.
AMANHECER NA ESCOLA SANTA SOFIA NA MESMA RUA (FOTO: B. CHAGAS/LIVRO 230).
Por José Mendes Pereira
Espero que os amigos entendam as minhas falhas no que diz respeito informática e a falta de postagens.
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ESTAMOS
COM PROBLEMAS PARA FAZERMOS POSTAGENS MAIORES.
Desculpem-nos.
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Clerisvaldo B. Chagas, 6/7 de dezembro de 2021
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
POESIA NA PROSA EM 2.10.2007
Era um imenso e formidável lastro. Um paizão de 220 Km, coleante entre Pernambuco e Alagoas
Os desbravadores logo perceberam que o rio Ipanema – mesmo temporário – representava palpitações de vida. Uma veia grossa que irrigava todo o corpo sertanejo. E o pai amigo, generoso e bom, logo presenteou o semiárido com uma cidade morena, dourada, plena de Sol e ornada de colinas, chamada Santana.
As águas vivas sobre as areias, as águas serenas sobre as areias, as agitações supremas de cima, as quietudes divinais de baixo, o tempero salobro da ribeira, mataram a sede da “Rainha do Sertão”. E o rio gritou bem alto: Façam as casas, eu dou a areia; fabriquem os tijolos, eu cedo o barro verde; definam seus tetos, eu contribuo com argila; lembrem dos alicerces, eu tenho pedras milenares; tragam os animais, usem meus pastos; provem dos meus deliciosos peixes, e... Quando estiverem cansados do trabalho dignificante, durmam sobre colchões e descansem com travesseiros dos meus juncais.
E as espumas desciam das roupas sob lindos cânticos das lavadeiras caboclas; dorsos robustecidos submergiam nas águas turvas; e o sopro da leve brisa amenizava o suor negros dos corpos noturnos e nus.
Grita Santana, teu nascimento! Berra Santana, tua expansão! Enfeita teus aromáticos cabelos com a flor da craibeira. Embala teu berço com o sussurro do Cruzeiro, com a lenda da caipora, com o doce murmúrio dos regatos do mês de julho.
Silêncio, que esvoaça o gavião, câmera natural que filma e comanda os céus de borboletas e bem-te-vis. Olhos mágicos que perscrutam o Panema e a flora, e a fauna, e o relevo privilegiado do lugar. Sentinela altivo das paixões, dos amores... Dos queixumes do povo santanense.
Deus fez o Ipanema, o Ipanema fez Santana, Santana observa seu criador pelas frestas das portas, pelos rachões das janelas, pelas varandas de aroeiras... Pelo mormaço das tardes preguiçosas ou pela íris da mulata da ribeira.
Erga-se meu herói sertanejo, que o astro-rei traz a luz no Oriente; que os matizes do azul marcham no firmamento. Já soaram as trombetas dos pardais.
Breve, breve, minha cidade estará de pé; bênção meu Panema. Deus no ilumine neste novo dia.
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Por Por MK Expeditions
Por Reinaldo Antiquário
Curiosa reprodução do reconhecimento de firma em Cartório de Virgulino Ferreira da Silva (1900-1938). O texto de rodapé diz, em ortografia atualizada:
"Representação fotográfica do reconhecimento da firma de Virgulino Ferreira, feitas ´primeiramente pelo sr. Antônio Timóteo de Lima, na localidade de Vila Bela (hoje Serra Talhada) em 5 de fevereiro de 1923, sendo a desse (a assinatura) reconhecida em 23 de agosto de 1924 (certo: 1934), pelo tabelião de Recife, Bacharel, Gastão da franca Marinho".
Fonte: Jornal A Noite, RJ, 29 de julho de 1938.
https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste
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Por Manoel Belarmino
No Salgadinho, nas proximidades das bordas do Raso da Catarina, no então Município de Santo Antônio da Glória, hoje Paulo Afonso (BA), nasceu a mocinha, que mais tarde se tornaria cangaceira, de nome Lídia Pereira de Souza. Seus pais eram Maria Rosa e Luiz Pereira de Souza. A cabocla da mais bela tez morena que as caatingas já forjou, Lídia crescia como uma fulô naqueles sertões dos rasos. Todos os sobreviventes do Cangaço que conheceram Lídia afirmavam que a cangaceira era linda demais. Era a mais bela das mulheres que já tiveram no Cangaço. Talvez foi chamada em algum momento, ou merecia o apelido de “Lidia, a bonita”.
Eis que o destino marcava a vida daquela sertanejinha, arrastando-a para a mais cruel vida amorosa e sangrenta que o Cangaço já produziu. O feminicídio como acordo de grupo dos bandoleiros das caatingas.
No ano de 1931, o cangaceiro Zé Baiano, um dos mais temíveis chefes de subgrupos do bando de Lampião, ficou doente e teve que ficar acoitado no povoado Salgadinho, exatamente na casa do casal dona Maria Rosa e Luiz Pereira. Um tumor no pescoço do cangaceiro provocava dores fortes, impedindo o cangaceiro de seguir o grupo de Lampião. Dona Maria Rosa cuidou de Zé Baiano com rezas e plantas medicinais até o seu restabelecimento.
Lídia já era uma mocinha. Linda de doer. No alto dos seus 15 anos. Logo Lídia foi sendo seduzida pelo mais terrível dos cangaceiros de Lampião. Aquele que pegou a fama de ferrador de mulheres, e o mais feioso dos cangaceiros. O mais esperto no manejar do dinheiro e do ouro; era agiota, chegando a emprestar volumes altos de dinheiro a “gente grande” em Sergipe. Lídia não resistiu e, por livre e espontânea vontade, resolveu seguir o Zé na vida bandoleira. Conta-se que, depois, Lídia se arrependeu e queria sair do cangaço, mas já era tarde demais. Não tinha mais jeito.
Mesmo sendo “bem cuidada” por Zé Baiano, que era louco de paixão e amor por Lídia, Lídia não podia mais corresponder os carinhos e amores recebidos do seu companheiro. E Lídia via triste e desconsolada. Arrependida daquela decisão ingênua e equivocada, mas não era mais possível desistir.
Não demora muito, e Lídia reencontra um jovem cangaceiro chamado Ademórcio, que, nos tempos de meninos, brincavam juntos nas malhadas das casas do Salgadinho. Ademórcio no Cangaço era o Bem-te-vi (nome de um passarinho cantador das caatingas e malhadas das fazendas, costumeiro dos anúncios de novidades). Lídia e bem-te-vi, às escondidas, nas moitas e sombras das quixabeiras, nas longas conversas, envolvem-se num romance proibido. Um caso amoroso, tentador, perigoso, mas de amor ardente. Um amor mais forte que a morte.
O cangaceiro Coqueiro e outros eram loucos por Lídia. Mas quem era doido tentar alguma coisa? Zé Baiano tinha fama de valente e cruel. E ainda, no cangaço, a traição não era admitida; era motivo de morte. E morte cruel.
Certo dia, o cangaceiro Coqueiro, que vivia com os olhos voltados para Lídia, flagrou na sombra de uma moita, no coito, a cangaceira transando com o cangaceiro Ben-te-vi, no maior amor do mundo.
O cangaceiro Coqueiro, aproveitando a ocasião e do fato, tentou usar o flagrante para também ficar com Lídia. Lídia resistiu. Xingou e disse que jamais faria aquilo. E que não adiantaria as ameaças, porque ela ficou com o Bem-te-vi porque o amava. E que, se fosse denunciada, ela confirmaria tudo. Não conseguindo o intento resolveu delatar o caso de traição.
Naquele mês de julho de 1934, nas Pias das Panelas, nas proximidades do Riacho do Cartavo, em Poço Redondo, quando Zé Baiano retornou de uma viagem do Alagadiço que havia feito com Lampião, o cangaceiro Coqueiro resolveu contar tudo, exatamente na hora da janta, no coito, no momento em que todos estavam reunidos. Ao ouvir a delação de Coqueiro, Zé Baiano ficou parado, estarrecido. Olhou para Lampião esperando alguma ordem. Um silêncio tomou conta do coito. Lampião tirou o chapéu... coçou o quengo. Levantou-se do cepo. Não quis mais comer. E continuou calado.
Depois de um tempo em silêncio, Lampião disse que Zé Baiano tomaria as providências sobre Lídia e os cangaceiros resolveriam o caso de Bem-te-vi e Coqueiro. Depois da sentença de Lampião, Zé Baiano mandou que o cangaceiro Demudado amarrasse Lídia num pé de umburana ali mesmo próximo das Pias das Panelas, nas margens do Riacho do Quartavo, no coito. E Lampião ordenou que o cangaceiro Gato matasse o cangaceiro traidor (o Bem-te-vi) e o delator (o Coqueiro).
Gato puxou a mauser e disparou contra o Coqueiro, que já caiu ali estirado, morto. Quando se voltou para disparar contra o cangaceiro Bem-te-vi, viu que esse já havia fugido.
Zé Baiano não conseguiu dormir naquela noite. Deitou-se separado dos outros cangaceiros, calado. Teria que matar a cangaceira mais linda já vista no mundo cangaceiro e a mulher que ele amava. Quando o dia amanheceu, antes de o Sol aparecer, Zé Baiano pegou um cacete de pau d'arco e, com várias pauladas, matou Lídia. E, sem pedir ajuda a ninguém, ele mesmo cavou a cova e enterrou o corpo da cangaceira, ali mesmo embaixo do pé de umburana, nas proximidades das Pias das Panelas, no Riacho do Quartavo.
Se Lídia foi fotografada, as fotos ainda não apareceram nas mãos dos pesquisadores. Mas eu não tenho dúvida da beleza de Lídia.
Abaixo, posto aqui uma foto, feita pelo pesquisador Sandro Lee, da casa onde Lídia morou com os seus pais antes de entrar no Cangaço.
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Por Reinaldo Antiquário
Caricatura de Lampião, pelo caricaturista e ilustrador carioca Álvaro Marins (1891-1949), pioneiro no Brasil da charge animada em cinema, produzindo em 1917 um curta metragem animado sobre o Kaiser (Império Alemão). O Editor desta imagem garante a reprodução fidedigna de Lampeão, fazendo alusões inclusive ao seu rifle. Foi publicada no jornal carioca A NOITE, no início dos anos 1930.
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Por João Costa
Ao conhecer e comparar os relatos da história do cangaço que emerge de várias fontes, o leitor tem dificuldade em separar fatos e ficção, especialmente quando se refere ao cangaceiro Meia Noite um sertanejo natural de Piranhas, que cometera seu primeiro crime aos 12 anos de idade. Ele havia permanecido no bando de Lampião de 1921 até 1924. Era alto, franzino, negro e também descendente de índio.
Após o ataque a Sousa(PB) sob o comando de Livino, Sabino das Abóboras, Antônio Ferreira e Chico Pereira, ataque este que rendera 200 contos de réis em dinheiro vivo, o bando volta para São José de Princesa, divisa entre Paraíba e Pernambuco, localidade onde Lampião descansava e se recuperava de ferimento sofrido no pé, sob a proteção do coiteiro Marcolino Diniz.
Um constrangimento surge no bando: o cangaceiro Antônio Augusto Correia, vulgo Meia Noite, descobre que havia sido roubado na quantia de nove contos de réis, enquanto dormia.
Raposa velha e conhecedor de todas as manhas, Meia Noite suspeitou de Livino e Antônio Ferreira e sentindo-se ludibriado, desencadeou uma tremenda confusão a ponto de Lampião interferir para acalmá-lo.
Pra serenar os ânimos, o próprio Virgulino ressarciu Meia Noite com a mesma quantia que haviam lhe roubado, mas o cangaceiro não ficou satisfeito; seguiu esbravejando e Lampião subiu o tom da conversa: exigiu que Meia Noite entregasse suas armas – o cabra estava brabo demais.
Lampião era tratado por Meia Noite, pelo apelido carinhoso de “Nego Véio”, uma vez que eram companheiros de armas de longa data. Alucinado com esse argumento de entregar suas armas, Meia Noite reagiu.
-“Se tiver homem no meio dessa mundiça, que venha tomar minhas armas! Inclusive você também, Nego Véio, seu filho de uma égua!”, disparou Meia Noite na frente de todo o bando.
Os cabras estremeceram, esperando pelo pior. Virgulino, então, ajeitou o chapelão na cabeça e falou para Meia Noite pausadamente.
- Meia Noite, você é meu amigo, mas não pode abusar... Já lhe dei o dinheiro que você disse que lhe roubaram, não dei? Apois agora eu quero que vá simbora; eu não quero revoltoso no meu grupo!”, foi a reação de Lampião.
- “Vou simbora mesmo e nesse mesmo instante”!.De hoje em diante não preciso mais dessa bosta! Bando de ladrões safados”, disse o cangaceiro encilhando sua montaria.
Meia Noite tinha um grande amor, uma cabocla chamada Zulmira. Deixando o bando para trás, seguiu para o sítio Tataíra, divisa da Paraíba com município de Triunfo(PE) onde morava sua amada. O cangaceiro era tão apaixonado pela namorada que, como prova de amor, ele chamava carinhosamente seu mosquetão de “Zulmira”, o nome da moça.
Na noite de 17 de agosto de 1924, Meia Noite foi visto por um agricultor entrando na casa onde Zulmira morava, e este, imediatamente, delatou para a volante que estava estacionada em Princesa Isabel.
Despachada sem mais demora, a volante de Manoel Virgolino, com 12 homens, chegou no sítio Tataíra tarde da noite.
O cabecilha bateu à porta dizendo-se com sede e pedindo água. O próprio Meia Noite, imitando voz de mulher, respondeu que “aquela não era a hora de abrir a porta para estranhos”.
O ardil não funcionou e seguiu-se um tremendo tiroteio.
A casa era de taipa e Meia Noite, prevenido, havia perfurado as paredes com vários buracos. De tal maneira que disparava sua arma ora da cozinha, ora do cômodo da frente, depois do pequeno quarto, dando a impressão que havia vários atiradores, mantendo a volante à distância.
No tiroteio cerrado, Meia Noite percebeu a munição escasseando, temendo pela vida da sua amada Zulmira, abriu negociação com a volante.
- “Vocês aí, vamos fazer um trato! Eu estou com uma moça aqui, que não tem nada a ver com nada. Deixem que ela saia, depois nós continuamos, se comportem como homens! O cabecilha da volante até que foi cavalheiro e concordou.
- Pode mandar a mulher sair!
Assim, com uma trouxa debaixo do braço, Zulmira deixou a casa e tomou distância. O tiroteio recomeçou.
Para agravar a situação de Meia Noite, chegaram mais duas volantes, lideradas pelos tenentes Manoel Benício e Francisco Oliveira. E depois mais outra. Desta feita, a volante comandada pelo sargento Clementino Quelé.
A força volante, que no início do cerco era composta por 12 soldados, agora tinha 100 homens, sob toques de cornetas, deixando Meia Noite debaixo de uma chuva de balas de fuzis.
Ali, acossado e debaixo de uma chuva de cacos de telhas quebradas, fragmentos de barro e o fumacê causado pelo tiroteio, Meia Noite conseguiu furar o cerco saindo por um buraco na parede e rastejando como cobra.
Meia Noite escapou ao cerco monumental de cem soldados de volante apenas com um leve ferimento numa perna, nada grave. Mas na fuga, ao pular uma cerca, quebrou o braço direito, exatamente o de manejar o rifle.
Após essa fuga espetacular, Meia Noite pediu socorro numa casa de um agricultor, que o atendeu prometendo buscar ajuda para tratar do ferimento no braço. Saiu em busca de socorro, mas quem voltou foi a volante.
Meia Noite ainda reagiu disparando seu parabélum até a munição acabar. Quando a polícia entrou na casa, não encontrou ninguém, mas um soldado da volante avista um vulto subindo um morro ao lado, dispara seu fuzil e acerta Meia Noite na perna, e ainda assim, o bandoleiro desaparece se arrastando.
Ferido, Meia Noite busca socorro no Saco dos Caçulas, lugar onde ele e Lampião tinham contatos e amizades. É acolhido por Manoel Lopes, o Ronco Grosso, ex-cangaceiro que se tornara cabra de confiança do coronel Zé Pereira. Após tratamento e débil recuperação, as volantes reaparecem e Meia Noite é levado à uma gruta segura por Ronco Grosso.
Conta-se que Ronco Grosso, perguntou ao coronel Zé Pereira o que fazer.
- Resolva você, Ronco Grosso, resolva! Não quero saber de cabra de Lampião por aqui, são as orelhas dele ou as suas, escolha! Foi a senha e a resposta dada por Zé Pereira.
Ronco Grosso entra em conchavo com outro ex-cangaceiro chamado Antônio Ladislau, o Tocha. Numa tarde de agosto, a dupla vai à gruta levar mantimentos para Meia Noite, que estranha do horário da chegada dos dois, mas não desconfia. Foi seu erro crasso.
Após jantar, prosear e levantar-se para se despedir, foi eliminado à queima-roupa por Tocha e Ronco Grosso, que cortam suas orelhas e o enterram em cova rasa ali mesmo.
O capitão Virgulino Ferreira assim se referia a ele.
- “Meia Noite, sozinho, valia por dez!”
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Fonte: “Lampião – a raposa das caatingas”, de José Bezerra Lima Irmão.
Lampião na Paraíba – Notas para a História, de Sérgio Augusto de Souza Dantas
Foto. Os irmãos Ferreira. Antônio, Virgulino e Antônio Rosa ( irmão de criação).
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