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domingo, 5 de maio de 2019

ADRIANA NEGREIROS: “MARIA BONITA FOI UMA MULHER EMPODERADA”


A escritora Adriana Negreiros (Crédito: Marcos Vilas Boas).

A autora da biografia da cangaceira Maria Bonita conta como realizou a pesquisa para o livro – e o que ela descobriu

Luiz Antonio Giron

Paladina dos pobres, amazona dos sertões, bandoleira ou precursora do feminismo? São variadas e contraditórias as versões de Maria Bonita (1910-1938), a companheira do capituão Virgulino, ou Lampião, o Rei do Cangaço. Para fornecer um retrato mais fiel e desvendar os mistérios em torno de Maria Bonita, a jornalista paulistana Adriana Negreiros dedicou-se a pesquisar sobre o tema. O resultado é o livro “Maria Bonita – Sexo, violência e mulheres no cangaço”, lançamento da Companhia das Letras. Trata-se de seu primeiro livro. Ele é importante porque evidencia o papel das mulheres na bandidagem rural nordestina dos anos 1930, no qual Maria de Déa, ou Maria Gomes de Oliveira se destacou. É a trajetória de Maria (que não foi chamada de Maria Bonita em vida) que fornece a estrutura do livro, pois foi ela a primeira mulher a entrar no cangaço, ao se juntar ao bando do marido Lampião, em janeiro de 1930.

Nesta entrevista, Adriana conta como realizou a pesquisa e por que Maria foi uma espécie de precursora da liberdade feminina.

Por que você se dedicou a pesquisar o papel da mulher no cangaço? 

Havia uma lacuna nos estudos da área nesse aspecto? Os historiadores do cangaço costumam mitificar as mulheres?

Sempre fui fascinada pela história do cangaço – minha família é da cidade de Mossoró (RN) e cresci ouvindo minha avó contar histórias de cangaceiros. Quando escolhi o tema para meu primeiro livro, motivada por esse fascínio, decidi que deveria conta-lo a partir da perspectiva de Maria Bonita, e não de Lampião. A história costuma ser contada pelo ponto de vista do homem (branco e ocidental) e a decisão de adotar como fio condutor uma personagem feminina foi, também, um ato político.

Na universidade, há excelentes estudos sobre a participação das mulheres no cangaço. Mas, nas livrarias, são raros os livros a respeito do tema. Geralmente, quem escreve sobre o cangaço escolhe como personagem central a figura de Lampião.

Os melhores historiadores que estudaram o cangaço estão longe de mitificar as bandoleiras – Frederico Pernambucano de Mello, Luiz Bernardo Pericás e Elise Grunspan-Jasmin já demonstraram, em seus livros, como se dava a relação de opressão contra as mulheres no interior do bando. Porém, a literatura de cordel, alguns relatos memorialísticos e, sobretudo, a indústria cultura criaram a imagem da cangaceira como uma valentona, uma matadora, uma justiceira voraz. Nada mais equivocado.

Com que tipo de fonte e documentos você trabalhou? Conseguiu algum depoimento direto ou usou testemunhos deixados pelos cangaceiros?

Jornais e revistas de época, livros, testemunhos deixados pelos cangaceiros e entrevistas com descendentes.

A situação oprimida das mulheres, e de Maria Bonita, já era conhecida por meio de outras pesquisas sobre o tema? Em que aspecto o seu livro traz novidades?

Os melhores livros sobre o cangaço, como os dos já citados historiadores, deixam claro que as mulheres viviam sob a égide da opressão. Acredito que meu livro contribua para o debate e para os estudos sobre o cangaço por seu enfoque: as mulheres são o assunto principal do meu trabalho. A história é contada pelo ponto de vista delas, e seus relatos não são relativizados. Narro, com o máximo de detalhes que pude levantar, como se deram as experiências de violência contra as cangaceiras. Examino essa história dos anos 30 com o olhar de uma mulher de 2018 e faço uma pergunta que, penso, ainda não havia sido feita: por que os relatos dessas mulheres têm sido costumeiramente desacreditados? Por que, quando as cangaceiras contaram sobre suas entradas no bando – muitas delas, raptadas e estupradas quando crianças – foram tidas por mentirosas, exageradas e dramáticas? Concluí que se trata da mesma lógica que, até hoje, insiste em transformar vítimas em culpadas. Uma distorção atávica.

Maria Gomes de Oliveira a Maria Bonita (Crédito:Benjamin Abrahão) Benjamin Abrahão

Como se criou o mito da Maria Bonita como uma Joana D’arc? Você pode descrever como era a mulher real? Era realmente chata, como diz Dadá? Agira como primeira-dama?

O mito começou a ser criado pela lacuna de informações sobre Maria. Os jornais da época davam pouca importância às cangaceiras. Estavam mais interessados em Lampião, Corisco e outras celebridades masculinas do banditismo rural. As raras informações publicadas sobre as mulheres, inclusive Maria, vinham quase sempre das fontes oficiais, ou seja, da polícia, que tratava as cangaceiras como bandidas – embora elas não atirassem, não participassem dos combates e nem dos saques. A despeito de não serem criminosas, eram presas e, muitas delas, mortas e decapitadas. Para justificar esses atos bárbaros, o melhor para a repressão era incutir nelas a imagem de matadoras, cruéis e sanguinárias.

Esse retrato foi perpetuado pela TV e pelo cinema, mas com uma roupagem romântica, como convém à indústria do entretenimento. Assim, as cangaceiras, Maria Bonita em especial, foram ganhando ares de heroínas, justiceiras, sertanejas revolucionárias.

Maria agia, sim, como primeira-dama, razão pela qual era tida como chata por Dadá. Quem participava da intimidade do grupo, ainda que por alguns dias, destacava que Maria trabalhava bem menos do que as outras bandoleiras. Também tinha influência sobre as decisões de Lampião, para desgosto de Corisco, que dizia que “homem governado por mulher não dá certo”. Zombeteira, caçoava das colegas por darem duro na labuta e ria alto, de forma escandalosa, eventualmente fazendo troça das características físicas de Lampião, como suas pernas finas. Era uma mulher bem-humorada.

Você dá a Maria Bonita o status de ter sido a primeira mulher a acompanhar os cangaceiros. Neste ponto, ela foi pioneira da liberação feminina?

Maria foi uma transgressora. Em pleno sertão do nordeste dos anos 30, largou o marido, com quem era infeliz, para acompanhar o fora-da-lei mais procurado do Brasil. O esperado de uma mulher insatisfeita com o esposo mulherengo era que se conformasse com a situação (e não nos esqueçamos que o Código Civil em vigor na época, de 1916, determinava que as mulheres deveriam ter autorização do marido para trabalhar e dava aos homens o direito de anular o casamento caso descobrissem que sua senhora não era virgem). Nesse aspecto, Maria Bonita foi uma mulher “empoderada”.

Ao mesmo tempo, Maria Bonita era conivente com os estupros coletivos que o bando de seu marido empreendia nos assaltos pelo sertão. Eram duas faces contraditórias da mesma mulher?

Maria era dona de si, não dava muita bola para o que diziam dela – a ponto de, mesmo casada, frequentar os forrós e, ao que tudo indica, ter um amante –, mas não era uma feminista. Não estava preocupada com as questões de gênero – tampouco era adepta do que se viria a ser conhecido como sororidade. Não se opunha às execuções de mulheres por traição. Chegava até a incentivá-las, como aconteceu quando Cristina foi morta por suspeita de trair Português.

Bando de Corisco (Crédito: Benjamin Abrahão) Benjamin Abrahão

Em que consistia o código de conduta do cangaço, com seus interditos e regras rígidas em relação ao sexo?

Havia um código de conduta elaborado a partir de crendices e superstições que desestimulava o sexo em algumas ocasiões: por exemplo, às sextas-feiras e em vésperas de mudanças. Também estabelecia a dedicação ao sexo apenas quando a situação se mostrasse segura – antes da relação, em respeito ao Todo Poderoso, os cangaceiros tiravam os colares com saquinhos nos quais carregavam orações para santos escritas em pequenos pedaços de papel. Desse modo, ficavam desprotegidos, ou com o “corpo aberto”.

Lampião era ele próprio um mitômano, frequentador de cinema e leitor de romances policiais e de aventura. Será que de alguma forma ele não alimentava o mito de Rei do Cangaço e, por isso, vendia a imagem de par romântico de Maria?

Lampião foi um gênio do marketing. Soube construir, em torno de si, a imagem de um rei, um bandido de classe, a ponto de, ainda hoje, ser adorado por muitos sertanejos (não são poucos os que dizem que, fosse ele o presidente da República, o Brasil estaria melhor). Para isso, soube fazer uso da imprensa, que nos anos 20 e 30 começava a tomar forma mais profissional, com jornais e revistas organizados em grandes empresas – em 1926, por exemplo, aceitou dar entrevista a um jornalista do Ceará, ocasião em que tratou o repórter com cortesia. Mas não o classificaria como um mitômano. Lampião era um homem discreto quanto a seus feitos, um sujeito de alguma elegância no trato com aqueles que tinha por seus pares, como coronéis e políticos. Bebia, mas não gostava de ficar bêbado. Tinha autocontrole. Era educado e cumpridor de promessas – fazia questão de ser reconhecido como um homem de palavra. Até na hora de sangrar seus inimigos agia com sofisticação.

Há alguns registros de idas de Lampião ao cinema, mas não se pode dizer que ele fosse um entusiasta da sétima arte – em uma das ocasiões, inclusive, abandonou a sessão na metade porque achou o filme chato (“Ninho de amor”, do diretor Buster Keaton, de 1923). Tampouco acredito que Lampião fosse um leitor voraz de romances policiais e de aventura. Essa versão de um Lampião apreciador de livros policiais foi criada pelo fotógrafo sírio-libanês Benjamin Abraão, segundo a qual o Rei do Cangaço consumia a obra de Georges Simenon e Edgard Wallace. Lampião tinha noções rudimentares de escrita, o que pode ser atestado pelos bilhetes eivados de erros de ortografia que deixaria para a posteridade. A escrita precária, quase incompreensível, não combina com um espírito inclinado à literatura. Embora consumisse o que se publicava a seu respeito, acho improvável que se dedicasse a leituras de maior fôlego.

Também não restam dúvidas de que Lampião foi o Rei do Cangaço. Nunca houve cangaceiro mais poderoso do que ele. E, em vida, seu romance com Maria não foi consideravelmente celebrado. Ela só seria conhecida no final de 1936, pouco antes de sua morte (em julho de 1938), em decorrência do registro de Benjamin Abraão.

Bando de Lampião com Maria Déa em primeiro plano (Crédito:Benjamin Abrahão)Benjamin Abrahão

Em que medida os meios de comunicação da época – jornais, revistas, emissoras de rádio, cinema – ajudaram a espalhar – e a deturpar, às vezes, a fama de Lampião e Maria Bonita?

Lampião foi presença quase diária nos jornais nas décadas de 20 e 30. Embora as matérias dos jornais e das revistas narrassem os feitos do cangaceiro a partir das fontes oficiais, destacando sua crueldade, havia, entre os articulistas, alguns que interpretassem sua figura como a de um mártir dos oprimidos. A partir dali, já se começaria a desenvolver a dupla interpretação que, até hoje, predomina sobre o fenômeno do cangaço – há quem veja nos “cabras” a figura de bandidos e os que, por outro lado, tomem-nos por heróis. Segundo essa última versão, Lampião seria uma espécie de Robin Hood da caatinga.

Quanto ao cinema, o filme da época que chegaria aos dias de hoje seria “Lampião, o Rei do Cangaço”, de Benjamin Abraão, que humanizaria os cangaceiros, apresentando-os em sua rotina mais comezinha. Por meio das imagens captadas por Abraão, descobre-se que os cangaceiros rezam, usam perfume e dançam. Nas cenas, vê-se Lampião e Maria Bonita na intimidade, afetuosos um com o outro. Com o filme, percebe-se que os facínoras também amam, o que tornaria a leitura acerca dos cangaceiros bastante difícil para os que gostam de análises mais chapadas, como se personagens históricos pudessem ser classificados entre aqueles que são “do bem” e os que são “do mal”.

As mulheres do cangaço eram puramente vítima ou de alguma maneira partilhavam os valores de seus homens?

As mulheres eram vítimas de um ambiente extremamente machista e opressor que as colocavam umas contra as outras. Nesse ambiente, reproduziam os valores de seus homens, não se reconhecendo como oprimidas e naturalizando a violência da qual eram vítimas. Não à toa, muitas consideravam que suas colegas, ao ser punidas com a morte por adultério, haviam feito por merecer o castigo.

O legado de Maria Bonita como símbolo da mulher destemida, disseminado sobretudo pela literatura de cordel, deve ser descartado? Por quê?

Não. Maria Bonita era, sim, uma mulher destemida. É preciso muita coragem e determinação para decidir acompanhar o bando de Lampião, enfrentando fome, sede e a perseguição policial em nome de amor e aventura.

Você afirma que o apelido de Maria Bonita foi póstumo. Mas os cangaceiros do bando de Lampião costumavam cantar a canção “Acorda, Maria Bonita”, atribuída a Lampião, desde o início dos anos 30. A música precedeu a mulher real?

O hino de guerra dos cangaceiros era a canção “Mulher rendeira”. Ao que tudo indica, a canção “Acorda, Maria Bonita”, de autoria desconhecida, é posterior aos fatos do cangaço. A confusão deve-se ao fato de, em 1957, Antônio dos Santos, nome do cangaceiro Volta Seca, ter gravado um LP intitulado “As cantigas de Lampião”, no qual consta, além de “Mulher rendeira”, “Acorda, Maria Bonita”. No disco, Antônio dos Santos (este, sim, um mitômano de primeira) aparece como autor das canções. Mas, como disse Dadá em uma entrevista de 1970, “Acorda, Maria Bonita” não é de Volta Seca coisa nenhuma (tampouco de Lampião). É “música do povo”, como ela definiu.



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ENTRADA DO CANGACEIRO VOLTA SECA PARA O CANGAÇO


Por Orildes Holanda

Fazenda Caritá, Sítio do Quinto-BA, aqui o cangaceiro Volta Seca entrou para o Cangaço! Mais uma novidade para nosso canal que sempre tem algo novo e exclusivo. 


Enfrentamos fome, chuva, queda de moto e tudo mais por vocês! Valeu! Quer ver o programa?

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sábado, 4 de maio de 2019

LIVROS SOBRE CANGAÇO É COM O PROFESSOR PEREIRA


Peça através deste e-mail:

franpelima@bol.com.br

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JORNAL A REPÚBLICA (SC) - 17.06.1931 LAMPIÕES


 Transcrito por Antonio Correia Sobrinho 

 Lampião é um personagem digno de estudos. Às vezes eu duvido mesmo da existência real desse homem. Mata e rouba. Vai à igreja e paga promessas.

É um crente. É um monstro. Para julgá-lo, devemos conhecer-lhe, antes, a história. Há quem o odeie. Há quem o adore.

Contam que, injustiçado, perseguido, fez-se bandido; que rouba aos ricos para distribuir aos pobres. Dizem que furta a ambos. Não se sabe. Lampião é um enigma.

Opera numa região árida, entre florestas e montanhas quase impraticáveis, onde a água escasseia sempre. Onde mora? Ninguém sabe.

Criaram-lhe em torno uma figura de lenda. Na hora do combate, anda à frente de suas cortes. As balas não o atingem.

Sempre fugitivo, dorme, se é que dorme, onde a noite o encontra. É estranho, anda sempre armado e municiado. Jamais lhe foram sonegados recursos bélicos. Donde os tira?
Lampião é a mão negra do Norte. Faz contínuas ligações com os centros civilizados. Publica até editais, convocando asseclas.

Tem a resistência heroica dos sertanejos do Norte; conhece, a miúdo, o segredo daquelas paragens inóspitas.

Lampião não será vencido à força. Ninguém o conhece, ninguém o encontra. Lampião é uma incógnita. Lampião não é um homem. Ele representa a injustiça do Norte, a consequência natural do desgoverno nordestino.

Não o abaterão, jamais, nem metralhadoras nem canhões. Preso, morto que seja, nada adiantaremos; os Lampiões proliferam naquelas regiões. Terá sempre substitutos.

Abram-se escolas, construam-se estradas de ferro, aí sim, acabaremos de vez com os Lampiões do Norte. Lampião é o meio; criaram-no os maus governos. O Norte é uma incubadora de criminosos. Destruamos a causa, logicamente, ficarão extintos os efeitos. Ali há feudos e senhores feudais. A escravatura ainda remanesce naquele setor do Brasil. O direito da vida, ali, é do mais forte.

O Norte é o pêndulo invertido de Euclides da Cunha – marcando um recuo do passado.
Lampião não é um homem antes, um símbolo; tem a significação da esfinge: civiliza-me ou eu te mato.

Não devemos mata-lo mas, instrui-lo. Em vez de cadeias, escolas; em vez de metralhadoras, caminhos de ferro.

Resplandeça ali o clarão sereno da Justiça e não teremos mais Lampiões.
 

À luz do progresso e da civilização, Lampião baterá em retirada. Nem D. Quixote nem Sancho Pança o correrão dali. Lampião é o Norte inculto, sem governo e sem justiça. Lampião é um símbolo: caracteriza um meio e uma época.

*As pinturas são de Cybéle Varela e não compõe a matéria original, foram escolhidas por nós para ilustrar o artigo.


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POLÍCIA DE PERNAMBUCO FOI PROIBIDA DE USAR UNIFORME COM ACESSÓRIOS DE CANGACEIROS


Telegrama do coronel Wolmer Augusto da Silveira, comandante geral da polícia de Pernambuco, enviado aos destacamentos no interior.

Fica expressamente proibido o uso de peças que não constam do uniforme em vigor, como sejam: cartucheiras cow-boy, chapéus exagerados à moda Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiros, alpercatas todas enfeitadas, etc. É preciso ter em vista que a Força Pública, auxiliar do Exército de 1° linha é uma força regular, e que deve antes copiar o que lá existe e não os que os cangaceiros usam. Vi uma fotografia do Destacamento de Buíque, em que comandante e soldados pareciam mais cangaceiros que soldados. É preciso acabar com esta prática ridícula, ficando de hoje em diante constituído transgressões disciplinares o uso do uniforme com quaisquer alterações não permitidas.

Recife, 4 de julho de 1928.
Coronel Wolmer Augusto da Silveira.
Fonte: O CANGAÇO: poder e cultura política no tempo de Lampião
De: Marcos Edílson de Araújo Clemente


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O ÚLTIMO APITO...

Por Manoel Severo

A todos os apaixonados pela Estrada de Ferro..
Na próxima Terça-Feira, dia 07 de Maio 
às 19 horas
Cariri Cangaço e Café Patriota 
Av Santos Dumont, 1453 Aldeota
Fortaleza, Ceará
EVENTO ABERTO AO PÚBLICO

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O CUSCUZ DA VELHA

   Clerisvaldo B. Chagas, 3 de abril de 2019
             Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
            Crônica: 2.104


Civilização do milho, o Nordeste brasileiro continua levando seus usos e costumes do sertão para o litoral. São inúmeros os pratos regionais desse produto originário das Américas. Entre as comidas costumeiras do (Zea mays), está o cuscuz, o mais popular de todos. Rico em proteína, potássio e gordura, o milho sustenta o sertanejo há séculos. Até certo tempo atrás, após a espiga ralada, a massa era colocada em um pano dentro da cuscuzeira. O cuscuz fumegante aromava toda a casa e saía em forma de montanha. Com mais moderno modo de fazer, o cuscuz sai arredondado, pois no lugar do pano, tem-se um dispositivo vazado, arredondado por onde sobe o vapor. Essa iguaria invadiu as capitais nordestinas e até São Paulo onde existem vários lugares especializados no tema.


Existem muitas histórias, piadas, brincadeiras sobre o cuscuz sertanejo de cada dia. Hoje a massa já vem industrializada, cabendo ao usuário medir a quantidade, colocar numa vasilha, acrescentar metade d’água, sal, misturar e aguardar por uns cinco minutos. Terminado o prazo coloca-se na cuscuzeira no recipiente vazado. Um pouco d’água no fundo da cuscuzeira vai ferver e, em carca de dez minutos no fogo, o bicho estará cheirando nos quatro cantos da casa. Pode ser servido de várias maneiras, a mais tradicional, porém, é com leite. Conhecido como comida forte é bom para as longas caminhadas, trabalhos ou viagens. Em Santana do Ipanema tem lugares que servem o cuscuz com carne de bode. Em Maceió, na Serraria, tem a Casa do Cuscuz.
 Pois a velha Totonha, sertaneja dura de embarque, conseguiu chegar facilmente aos 97 anos de idade. Adoeceu, e ficava muito pensativa ao receber visitas. Uma delas ousou perguntar se a mulher tinha medo de enfrentar o outro mundo. A velha Totonha respondeu com a maior desenvoltura: “Não tenho medo de morrer não, minha ‘fia’; somente fico desgostosa em deixar o cuscuz com leite”.
E o cuscuz vai com tudo: com leite, com carne assada, piaba torrada, torreiro, pilombeta frita, charque, linguiça e... Deixe-me parar por aqui para não ter que falar igual à velha Totonha.
Ah, Sertão macho da gota serena!


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“OUÇA AQUI, SEU MOÇO!”

*Rangel Alves da Costa

“Sou de mintira não, seu moço. Na verdade verdadera, pago dobrado e num quero troco. Só quem vive sabe o que é viver, só quem sofre sabe o que é sofrer. Oiá nos óio num é certeza de avistar o estambo. Oiá pa cara num é saber o que o cabra sente pru dento. Munta gente se engana pru mode oiá sem preceber o que tá na verdade. Munta gente pensa que ter uma casa é ter tudo, que ter um prato na mesa é ter tudo, que ter saúde é ter tudo. Mai num é assim não, seu moço. Munta coisa tomem é munto ou mai importante. O respeito, a consideração, o jeito que trata a gente, faiz munta diferença. Arguns, é verdade, inté trata nóis cuma se fosse iguar. E nóis é mermo tudo iguar a todo mundo. Mai outos num pensa assim não. Pruque é pobe entonce num presta. Pruque num tem carro entonce é sem valia. Pruque num anda de roupa nova nem bonita entonce num pode nem tá no meio deles. É cuma se a gente fosse bicho ruim, imprestave. Nóis é pa viver numa vida mió. Mais num vive pru causa desse oiá atravessado na gente. Se é pobe deixa pa lá, pa se virar cuma puder, pa morrer cuma quiser. Tarvez trate mió o bicho do que a gente. Ora, o bicho é dinheiro, é valor, é riqueza. E nóis, nóis o que é? Nóis é pa vive cum pé na cova, assim eles pensa e quer. Só pode ser assim. Nada é mai esquecido que nóis. Nóis num tem outa serventia a não ser servir. Prantá pa encher a barriga deles, servir de escravo pa eles, fazer tudo o que eles mandar. E adespois abaixar a cabeça dizeno que tá bom. Mai num tá bom não.”


“Sim, sinhô. Pru mode dizê tem de tudo. Arrebenta e esquarteja pru dento, mai num se deve negá não. Pru que negá se tudo num dexa mentí? Sim, seu moço, a gente vive num mundo de seca triste sem fim. Num há um só dia no sertão adonde a seca triste num caia pru riba de nóis. A seca triste tomem no tanque cheio, na boneca de mio. Um mundo nublado demai merma sem nuve lá em riba. Oiá da maiada e só avistá desalento. Um bicho berra, uma galinha cisca. Quano morre um entonce a gente chora a vida intera. Tudo aqui é como um luto sem fim. O sertanejo inté parece feito com lágrima nos óio e maresia de suó. A gente tem alegria sim, munto contentamento tomem. Mai o carcará e o arubu só farta querê pinicá o tiquinho de contentamento de nóis. Entonce, pru mode dizê, num é só a seca da farta de chuva que é triste não. Há uma seca que nunca acaba. Oi, seu moço, pa mode falá em seca num é só fala em farta de parma, em pasto derreteno no fogo, em tanque no barro duro, em bicho no couro e osso ou já caído pros carnicento. Não. É munto mais. Aquerdite, seu moço, que num há seca mai triste que a seca da desvalia, da percisão, da necessidade. Munta gente pensa que seca é só farta de chuvarada, de comida pro bicho e gente e a secura do tanque. Oiano direito, há seca maió que o esquecimento, que o fazê de conta que a seuventia do povo é só na hora de votá? Há seca mai danada que fazê de conta que nem ixiste o povo pobe que vive no mato? É a seca do abondono, sim sinhô. Tem uma seca chamada umiação que é a que mai dói. Num se devia umiá ninguém não, poi todo mundo fio de Deus. Mai o que mai tem é umiação. O povo da cidade oia pa gente cuma se fosse do outo mundo. Uma mão num é istendida e nem um bom dia é dado. Tudo isso é umiação. Pur isso que mermo na chuva grande a seca continua. Pur isso que mermo cum a pranta nasceno e munta água no barrero, num deixa de ter seca não. A seca é essa merma que eu dixe. É a seca de um sertão pareceno de porta fechada pros da cidade. Ninguém vive nossa vida pa sabê cuma ié. Só a gente sabe o que passa e o que sente. Mai todo mundo iguar a todo mundo. Omeno ansim devia de ser, num é? Entonce a seca maió é essa, a seca do fazê de conta que a gente num ixiste. Mai num há vida mió do que essa não, seu moço. Da porta da frente adento tudo que a gente percisa. Tem candiero, tem pote e muringa, tem fogo de lenha, tem panela de barro e arupemba. E tem munto mai. A gente tem a filicidade e o gostá de vivê desse jeito. A gente sofre com a seca da farta de chuva, mai sofre munto mais cum os outo tipo de seca. Mai que ansim seja. Na grandeza de Deus, do meu Padim Pade Ciço e Frei Damião, a gente vai levano a vida. Tudo cuma rosaro de fé, pelas mão de Nosso Sinhô!”

Escritor
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CASA FECHADA

*Rangel Alves da Costa

A casa está fechada. Porta fechada. Janela fechada. Não se sabe desde quando a casa está fechada, mas somente agora esta percepção.
Talvez já desde muito que ela está assim, cem, mil anos ou mais. Ou mesmo um ou dois dias. A verdade é que as pessoas só avistam aquilo que lhes aproveita.
E qual proveito de uma casa fechada? Uma casa numa rua, uma casa já desgrenhada de tempo e agora fechada. Mas existem muitas casas assim. E as pessoas passam e olham.
Uma mansão certamente não passaria despercebida. Igualmente se ao lado ou adiante existisse um jardim suntuoso. Mas ali não existia nem riqueza arquitetônica nem jardim.
Casa muda, silenciosa, sem visitantes, sem ninguém que entre ou saia. Também a ventania não açoita para abrir e fechar. Apenas a casa em sua inércia de tempo e de solidão.
Muitas vezes, as casas fechadas e abandonadas são abertas pela ventania. De repente e a porta e a janela se abre e se fecham para a entrada de folhas secas, garranchos e restos soltos.
Mas não nesta casa. Que estivesse fechada a dez mil anos ou três dias, a verdade é que nem sua porta nem sua janela jamais foram abertas. Lá dentro apenas as velharias deixadas.
Quem morava ali, qual família tinha ali sua vida, quantas pessoas ali conviviam, quais suas motivações de viver, o que enlaçava a vivência familiar e o que permitiu ou forçou a partida?
Ninguém diz nada sobre isso. Certamente que os mais velhos, os vizinhos e outras pessoas, conhecem alguma coisa daquela família e de seus membros. Mas ninguém diz nada sobre isso.
Talvez aquela janela já tivesse servindo aos sonhos e devaneios de alguma bela donzela, Ali debruçada, suspirava seus sonhos, suas fantasias, suas quimeras da idade. Será que existiu mesmo?
Talvez aquela calçada já tivesse recebido muitas cadeiras para os proseados ao entardecer. Amigas e vizinhas dedilhando prosas enquanto as brisas da tarde sopravam e passavam.


Talvez aquela porta já tivesse dado passagem à alegria e à tristeza. Pessoas chegando da luta, saindo esperançosas, num vai e vem apressado e necessário. Para depois, num dia qualquer, ser apenas fechada.
Fechada e talvez para sempre. Imagina-se até que a casa pode um dia se tornar escombros sem que jamais aquela e porta e aquela janela sejam novamente abertas. Restos caídos, apenas.
A casa continua fechada. As pessoas passam, vão e voltam, e até muitas vezes por sua calçada, mas ninguém sequer dá conta de sua existência, ao menos para olhar pelas frestas ou perguntar sobre o abandono.
É uma casa que existe, mas também como uma casa inexistente. Pelo que se observa agora, ela em pé ou caída terá a mesma valia perante aqueles que passam. Ninguém sequer quer saber a quem pertence aquela casa.
Mas somos também uma casa fechada, abandonada, desvalida. Somos também uma casa de pouca valia ao olhar de muitos. Somos aquilo que tanto faz estar em pé como já caídos aos pedaços.
Ao menos assim acaso não vivamos de ilusões. Se forjarmos mansões inexistentes, certamente seremos sempre avistados e comentados. Contudo, quando não passamos apenas de uma casinha humilde e simples, então será um tanto faz que exista ou não.
Melhor assim. Que nossa casinha continue fechada. E que dentro dela, mesmo na humildade, viva uma imensa felicidade.

Escritor
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OS LIVROS DE HISTÓRIA DEVEM SER ANALISADOS E SÃO FONTES DE PESQUISA.


Por Cristiano Ferraz

Os livros de história devem ser analisados e são fontes de pesquisa. No caso do recente livro de Frederico Pernambucano de Mello encontramos várias afirmações que deixam espaço para questionamentos. Uma delas é a data da chacina da Tapera. Pra mim o autor errou quando citou o dia 26/08/1926. O dia correto foi 28/08/1926, a madrugada de um sábado. 

Quanto ao tiro dado pelo soldado Sandes (um verdadeiro "furo jornalístico 80 anos após o fato") seria até possível ser verídico pois este poderia estar no grupo de soldados que acompanharam o Aspirante Ferreira de Melo atravessando o riacho e se aproximando do coito pelas barrancas do Alto das Umburanas. Seria possível que por ali ele tivesse realmente conseguido se aproximar a ponto de conseguir alvejar Lampião durante o tiroteio. E com certeza partiram tiros dali também naquele dia. Mas eu, sinceramente, não acredito nessa hipótese pois o autor narra que Sandes estaria amarrado ao coiteiro no momento do disparo. 

Essa afirmação pra mim já seria suficiente para colocar por terra a hipótese inteira. Eu não acredito que nenhum soldado cometesse tal asneira, principalmente num combate contra quase quarenta cangaceiros. Isso seria suicídio. Se aproximar-se de um grupo de cangaceiros era uma tarefa arriscada, o que dizer de uma tentativa a noite, no escuro, em terreno acidentado, para lutar contra Lampião e ainda amarrado a um homem desarmado? Outra coisa: Como eles foram amarrados e durante 80 anos nenhum volante, cangaceiro ou o próprio coiteiro citou esse detalhe? Com certeza esse pormenor teria sido citado. 

Como falei anteriormente, não tenho dúvidas de que houve disparos daquele lado do coito contra os cangaceiros, mas o primeiro tiro a atingir Lampião naquele dia, na minha humilde opinião continua envolto em mistério.


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A FUNÇÃO DA MARIA BONITA NO CANÇAGO.

Por: Verluce Ferraz

Entender o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, demanda estudos de sua personalidade para se entender a origem motivadora que, não raro,desperta aparência de sabedoria no cangaceiro. Os perigos que o ameaçavam Lampião convertia em vantagem e adquiria consistência interna como possibilidade de expansão de sua própria segurança.Também nos doentes mentais encontram-se ideias sólidas, mas com quebra de significado porque suas raízes se nutrem do êxtase doentio. Algumas ideias que, se projetadas através de uma fantasia inconsciente, tem distorções alucinatórias de natureza diversa, podendo, por exemplo, multiplicar fantasias patogênicas. 


Como a vida do cangaceiro Virgulino, o Lampião, ficou sendo de fato conhecida de todos pelos incontáveis ataques; seus crimes eram atividades ritimicas a despertarem uma impressão de divertimento pois os praticava com firmeza e depois se entregava às cantorias e danças, ponte para a relação mais íntima de desejos que levam à sexualidade. Dentro desse complexo se afastava das mulheres. Segundo Freud, que mencionou Watschandis, nas tribos mais primitivas, esse tipo de costume seria uma celebração do hierógamo (os homens antes dos combates se excitavam, mas excluiam as mulheres, deslocando a sexualidade para outras áreas e questões),mas isso pode levar à neurose. 


Destarte Lampião ficou sendo é fato conhecido de todos pelas ações criminosas; como forma de que uniam fatos tem sido criminosa concepções enganosas inteligível, asseguro que as questões levantadas não seriam últimas soluções a definir o comportamento do cangaceiro, trago apenas a proposta que é o despertar para o pensamento que possa sair do campo inteligível. O estilo do dinâmico Lampião num ambiente hostil do Sertão Nordestino, demandaria muito de sua vitalidade, até para a própria sobrevivência. Uma inversão de comportamento, processo análogo à transformação de um elemento oposto. "Seus desejos de ser uma rendeira e costureira, o levaria a despojar-se de suas vestes masculinas para criar o estilo UNIGÊNERO".


Com o ingresso da Maria de Déia, a Maria Bonita, no mundo cangaeiro, a mesma veio trazer benefícios para Lampião; visto que, a mulher teria a função de afirmar a masculinidade do cangaceiro.


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