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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O CANGACEIRO JURITI E AS CHAMAS DA MORTE.

 Por  Cabo Francisco Carlos PMPR-RR


Depois da cruel refrega de Angicos, dizem que alguns cangaceiros feridos em combate, ainda morreram durante a fuga e foram sepultados pelos próprios companheiros em meio às caatingas, outros procuraram a casa de amigos e parentes para se tratar e curar suas lesões até se recuperarem totalmente, e após; seguiam rumo a outros Estados enquanto a maior parte deles se entregava às autoridades locais. Era o princípio do fim da era do cangaço, alguns líderes cangaceiros e asseclas ainda resistiram um bocado de tempo, tal como o bando do alagoano 


Cristino Gomes da Silva Cleto, Corisco ou “Diabo Loiro” que implacavelmente perseguido, foi impiedosamente abatido pela ferrenha volante do intrépido Tenente Zé Rufino, no dia 25 de maio de 1940 em Barra do Mendes no Estado da Bahia, findando de vez a era do cangaço.

Tenente Zé Rufino o homem que mais assassinou cangaceiros

Dentre os poucos cangaceiros que fugiram ileso do combate de Angicos, encontrava-se Manoel Pereira de Azevedo o valente cangaceiro Juriti, baiano de Salgado do Melão que até se entregar às autoridades do lugar, ficou algum tempo foragido perambulando pela região agreste próxima do Rio São Francisco, e quando soube da morte de Corisco, Juriti vendo e sentindo que o cangaço realmente chegava ao fim, conversou e convenceu sua

Maria do cangaceiro Juriti - Esta foto pertence ao acervo do escritor e pesquisador do cangaço João de Sousa Lima - http://www.joaodesousalima.com

companheira Maria, a voltar para junto de seus genitores e demais familiares, e assim da mesma forma, posteriormente a supracitada mulher, também ajudou a convencer Juriti a se entregar ao Capitão Aníbal Soares em Jeremoabo. Então o tal cangaceiro após se render, apresentou-se ao oficial intermediário que em seguida o libertou para que voltasse a viver como um cidadão comum. Juriti já em trajes civis, depois de alguns dias naquela cidade, viajou para Salvador onde trabalhando em uma fábrica, permanecendo na capital por quase um ano, isto até 1941. 

Lampião e o cangaceiro Juriti

Sentimento é coisa que não se discute, coração é terra que ninguém pisa. E foi assim que Juriti traçou seu cruel destino seguindo ao encontro da morte; quando resolveu voltar para o interior no sertão de Sergipe. Juriti estava ansioso para rever alguns amigos de Pedra D’água e também saber notícias de sua antiga companheira a amada Maria, para depois seguir para Salgado do Melão sua terra natal. E viajando sem muitas expectativas, ele chegou até Canindé, o último porto navegável do baixo São Francisco.
             
Nesta cidade morava uma linda viúva chamada Deusdália  Nogueira, uma morena de longos cabelos negros encaracolados, trazia em seus olhos glaucos um olhar penetrante e sedicioso, seus dentes perfeitos apresentavam branquíssimos em sua boca quando esboçava um sorriso meigo e sedutor, seus lábios úmidos e convidativos enfeitavam ainda mais seu rosto trigueiro e encantador, tinha o tórax avantajado nos ombros e seus grandes seios eram rijos como o cerne da braúna;  sua cintura delgada sob seus largos quadris, além de moldar o seu corpo elegante, dava-lhe a forma perfeita do bojo de um violão. Deusdália não tinha filhos, e era filha única de um casal de portugueses, Dona Anália uma excelente costureira e o Sr. Manoel que era comerciante e dono de uma venda de secos e molhados em Canindé do São Francisco. O seu falecido marido era proprietário de um curtume, onde morreu intoxicado em consequência do trabalho.
               
Sargento Deluz

Nesta mesma urbe encontrava-se Amâncio Ferreira da Silva, o 3º Sargento Deluz que exercia a função de delegado e comandante do destacamento da polícia militar local. Deluz era um homem de estatura mediana, moreno de cabelos carapinha, forte e troncudo, mas feio, frio e muito violento, quanto muito se exaltava; sua voz mudava de tom durante a conversa, falava fino ora grosso e era muito perverso, pois além de usar dos métodos mais terríveis para castigar e assassinar os delinquentes que capturava, também procedia da mesma forma com os outros que já se encontravam presos sob a sua custódia. Por isso era muito temido e respeitado naquela região. Deluz era cortejado por muitas mulheres da cidade, por isso então sempre as esnobava, mas havia uma que ele amava veemente e a desejava de tal forma, que faria de tudo e ainda o impossível para tê-la só por um instante em seus braços e gozar as migalhas dos seus carinhos ah!  Mas esta o desprezava de uma forma tão cortês e gentil, que o bronco nem percebia, e ainda lhe enchia de valiosos presentes. O perfume que ele usava tinha uma essência insuportável.
          
Juriti tinha um porte físico perfeito, sua aparência atlética impressionava por demais as mocinhas das cidades e também as caboclinhas dos sertões que se desmanchavam de anelo por ele, sonhando um dia em gozar dos seus afagos. Em comparação a toda esta beleza, Juriti trazia em seu imo, uma terrível alma perversa inclinada a atitudes animalescas e brutais, pois era de praxe levar ao suplício com prazer extremo todos os infelizes que caíam como vítimas em suas mãos, assassinando-os com frieza e requintes de crueldades.
           
Ao chegar a Canindé do São Francisco, foi logo tomar uma cachaça para desembaralhar e clarear as ideias, e assim se dirigiu para a venda do Sr. Mané, e quando lá chegou, despertou logo o interesse de Deusdália que ao atendê-lo se engraçou com ele, começando uma prosa bem animada e a recíproca foi ótima. Juriti falou a ela que iria pousar na casa de um amigo e no outro dia iria para Pedra D’água rever alguns amigos e depois viajaria para Salgado do Melão, onde residiam seus familiares e todo o resto da sua parentalha, Deusdália pediu a Juriti que não partisse sem antes falar com ela. Fazia quatro anos que Deusdália era viúva, e sempre que podia, ela ia com uma amiga se refrescar do calor banhando-se na cachoeira de um córrego dali da redondeza. 

O Sargento Deluz descobrindo o laser das moças, sempre ficava na espreita e quando elas saíam, ele as sondava e as seguia até chegarem à queda d’água, onde escuso entre a vegetação, as observava tomando banho nuas nas águas mornas do riacho, daí então o miliciano não contendo seus impulsos lascivos, se masturbava até atingir o orgasmo.
          
No mesmo dia em que Juriti chegou a Canindé do São Francisco, já avisaram ao Sargento Deluz de sua presença na cidade, mas o miliciano não deu tanta importância ao fato naquele momento, por estar fazendo grande negócio, Deluz era proprietário de terras naquele lugar, pois ele era casado com a filha de um fazendeiro.            
          
Na manhã quente do dia seguinte, Juriti foi procurar Deusdália em seu estabelecimento comercial, e durante a prosa; ela perguntou ao cangaceiro se ele podia acompanhá-la até a um lugar  tranquilo para conversar sobre negócios. E assim foi feito eles partiram a cavalo até a tal cascata, lugar maravilhoso onde Deusdália ia esporadicamente se banhar com a amiga. Deluz logo que soube, armou-se até os dentes e partiu como um cão de caça no encalço deles.
         
Sob a sombra de um frondoso jequitibá, ela estendeu um lençol branco sobre a relva e sentando confortavelmente, pediu a Juriti que fosse até sua cavalgadura e apanhasse no alfoge, uma garrafa de vinho tinto, duas taças de cristal e trouxesse até ela. Ele assim o fez, em seguida abriu e também se sentou, mas bem à frente dela; pois apesar de ser um violento cangaceiro, ele era bem-educado e sabia se portar como um cavalheiro diante a uma dama. Durante a conversa Deusdália propôs a Juriti uma sociedade, para ambos ativarem novamente o curtume que era do seu falecido esposo, ele gostou da ideia e após tomarem algumas taças de vinho, ela o convidou para se banhar na cachoeira. A princípio ele ficou surpreso, mas enfim excitado concordou com a ideia, Juriti virou-se para tirar as roupas, e quando se voltou; viu a linda mulher já totalmente despida, entrar morosamente nas águas da pequena cachoeira, ele assim também fez; porém mantendo-se a uma certa distância. Ela de costas conversava normalmente com ele, enquanto se banhavam, parecia até que ela estava avaliando suas atitudes, mas o homem se mantinha sempre firme, agindo com a mesma postura. Mas enfim ela virou-se e pediu ao cangaceiro que ensaboasse todo o seu corpo nu. Juriti aproximou-se e com suas mãos hábeis na arte das carícias, deslizou suavemente o sabonete pelo corpo esguio da linda mulher, que mostrava a pele morena arrepiada de tanta excitação, e assim aos poucos foram deixando se  envolver nas delícias daquele momento mais sublime, o desejo de amar... Ele a beijava e a apertava com seus braços fortes, como se fosse um jaguar,  capturando uma inofensiva mateira em suas garras mortais, ela retribuía flutuando nas águas abraçando com as pernas sua cintura e com os braços segurando seu pescoço, posição esta que facilitava para que ele a possuísse. E assim prosseguiram, enquanto o sabiá sonoroso gorjeava interpretando a sua doce melodia, Juriti a penetrava delicadamente aos poucos, bem devagarinho para não a machucar, e mesmo assim por mais carinhoso e delicado que ele... Ah! Ela se contorcia toda num misto de dor e prazer, pois desde que ficara viúva até aquele momento não havia conhecido outro homem, era quase uma virgem. Após algum tempo, o cangaceiro sentindo que ela se desmanchava em deleites, na volúpia se satisfez também regando com um jorro de sêmen a mais bela flor do vale do São Francisco. E na tocaia por atrás do tronco da imburana, Deluz arrancava com os dentes lascas de madeira da coronha do seu rifle papo amarelo, vendo tal sena de sexo explícito com a mulher que ele mais desejava na vida. E mesmo assim, apesar do ódio; o graduado conteve sua fúria e não agiu naquele momento, só planejou uma cruel vingança para aquele que amargou ainda mais o seu acrimonioso coração.
           
Juriti e Deusdália muito felizes por terem se acertado em realizar um bom e vantajoso negócio, regressaram à Canindé, ela foi para a casa dela e ele conforme já lhe havia dito, seguiu com destino a Pedra Da água para visitar um amigo, depois voltaria à cidade para ficar em definitivo. Daí o terrível Sargento Deluz que ouviu tudo escondido, voltou a galope para a cidade e chegando na delegacia, ordenou ao cabo Vicente Preto que avisasse o soldado Zé de Firmino e Mamangaba um jagunço velho que era “bate pau da polícia”, e os deixasse de sobreaviso, já com tudo planejado para dar fim na vida do ex-cangaceiro.
               
Juriti posou na residência de Rosalvo Marinho, e de manhã bem cedinho que a corruíra gorjeava em seu ninho sob as telhas de barro da velha casa, Juriti tomava um café quente comendo um delicioso bolo de fubá junto do seu supracitado amigo, contando-lhe empolgado os seus planos futuros naquela cidade. A prosa estava muito boa, quando o Sargento mais seus três comandos que haviam cercado a casa e já se encontravam de arma em punho, surpreende os dois amigos e sorrindo irônico Deluz diz: 

- Mais qui surpresa! Nunca pensei qui Juriti fosse um passo tom manso, tom faci di se garrado. Teje preso cabra! Num quero cangaceiro perto de mim não. 

E sem nada poder fazer, o ex-cangaceiro é amarrado com uma corda de embira diante da mira das armas dos seus oponentes.
        
Revoltado com o ato covarde dos milicianos, Juriti desafia o sargento dizendo: 

- Deluz você é um covardi, eu sei quem você é! Mostre qui é homi e mi sorte, só assim você vai ficá sabendo quem sô eu. Vamu, mi sorte covardi! Você é um covardi! 

Deluz então transporta o pobre infeliz preso e amarrado numa carroça em direção a Canindé, mas depois de cavalgarem quase uma légua e meia, ao passar por um lugar chamado Roça da Velinha, próximo às fazendas Cuiabá, o sargento para sob as sombras de uma frondosa barriguda e ordena aos seus subordinados que ajuntem bastante lenha e as amontoa perto de um rochedo; e depois de construírem um aceiro ao redor, o graduado manda que ateiem fogo na madeira formando uma grande fogueira. Quando as chamas subiam eretas e bem aprumadas em direção ao infinito, que as brasas incandescentes oscilavam abraçando os raios do sol abrasador, bem no exato momento em que as caatingas retrocediam diante ao confronto com calor do fogo infernal, ouve-se um estanho comando: 

- Já ta boa! Ta muito boa! Sacode agora o cabra pra riba do fogo! 

Então o desventurado homem é impiedosamente lançado em meio às labaredas pelas mãos cruéis dos seus algozes, e o fogo impiedoso em pouco tempo transforma em carvão e cinzas o corpo do valente Juriti que morre sem dar um grito sequer. E naquele lugar funesto; além do que restou dos botões da braguilha de sua calça, ficam as marcas macabras daquela fumaça negra, a qual tingiu de preto as rochas que ali permaneceram por muitos e muitos anos, servindo como provas reais de um crime brutal, vindo de um veredicto banal resultante de um pré-julgamento de ódio e vingança. 

Ah! E Deusdália? Coitada! Lamentando mais uma vez a triste sorte, sempre ao passar por aquele local, a pobre viúva deixava uma linda flor banhada em prantos, que murchava aos poucos sobre as pedras aquecidas pelo sol tórrido que sempre castigou o agreste nordestino. E foi assim que se consumou o monstruoso assassinato que pôs fim na vida e nos sonhos de Manoel Pereira de Azevedo, o ex-cangaceiro Juriti do Salgado do Melão, que simplesmente pretendia seguir uma vida pacata e normal se tornando apenas um simples cidadão de bem.
                                                                      
Cabo Francisco Carlos PMPR-RR  “Saudações Militares”

Enviado pelo Cabo Francisco Carlos

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LIBERATO DE CARVALHO - ATUALIZAÇÃO DE INFORMAÇÕES

 Por Rubens Antonio


Documento da Assembléia Legislativa da Bahia:
Dep. Liberato de Carvalho
:: Dados Pessoais
Nome: Liberato Matos de Carvalho
Profissão: Militar e Médico
Nascimento: 13 de agosto de 1903, Vila Serra Negra, Pedro Alexandre-BA
Filiação: Pedro Alexandre de Carvalho e Guilhermina Maria
Cônjuge: Carmem Siqueira de Carvalho
Filhos: José Carlos, Liberato José (in memorian)
Falecimento: 16 de março de 1996

:: Formação Educacional Cursou o Primário e o Secundário em Aracaju-SE. Estudou na Escola Militar na Academia de Agulhas Negras, Rio de Janeiro-RJ. Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador-BA.

:: Atividade Profissional
Tenente-coronel por decreto de 16 de dezembro de 1932, para comandar as Forças de Operação do Nordeste dos Estados - FONE.
Promovido a Coronel, 1935.
Nomeado Comandante da Polícia Militar da Bahia, 23-02-1935 a 11-11-1937.
Foi antecedido pelo Coronel João Felix de Souza, que comandou a Polícia Militar de 20-11-1931 a 23-02-1935, e sucedido pelo Cel Tito Coelho Lamêgo , que comandou a Polícia Militar de 11-11-1937 a 28-03-1938.
Comandante do Batalhão do Exército, Recife-PE;
capitão da Infantaria do Exército Nacional, reformou-se como General de Brigada. Secretário estadual de Segurança Pública e do Interior do estado de Alagoas.


Liberato de Carvalho aparatado, na sua ação como volante. - Fonte da imagem: livro "Derrocada do Cangaço", de Felippe de Castro.



Liberato e sua volante, em Jeremoabo:


:: Mandato Eletivo:
Eleito deputado estadual Constituinte pela União Democrática Nacional - UDN, 1947-1951.

:: Filiação Partidária
UDN.

:: Atividade Parlamentar
Na Assembléia Legislativa, titular da Comissão de Polícia Civil e Militar (1947-1950).

Setor responsável: Diretoria Parlamentar / Divisão de Pesquisa
ALBA - ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DA BAHIA
Palacio Dep. Luis Eduardo Magalhaes, 1a avenida, 130, CEP: 41.745-001, CAB, Salvador-Bahia


Liberato de Carvalho na época da sua participação no combate de Maranduba.

Sepultura no Cemitério Jardim da Saudade - Salvador - Bahia



Atualmente existe a Praça General Liberato de Carvalho, em Pedro Alexandre, Bahia.


Extraído do http://cangaconabahia.blogspot.com do professor e pesquisador do cangaço Rubens Antonio.

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O LOCAL DA MORTE do traidor PEDRO DE CÂNDIDO

 

O LOCAL DA MORTE do homem que traiu o rei "Lampião" PEDRO DE CÂNDIDO que denunciou ao Tenente João Bezerra, o esconderijo do cangaceiro, facilitando o seu assassinato e de mais 10 cangaceiros e um volante policial, na Grota do Angico em 28 de Julho de 1938.

Pedro foi assassinado alguns anos depois, no local abaixo (cidade de Piranhas no Estado de Alagoas), pelo adolescente SABINO, que nas altas horas da madrugada escura, vendo-o vestido com um capote, pensou se tratar de um lobisomem, e, enfiou-lhe uma faca no peito.

Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta

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BÁRBARA DE ALENCAR

 Por Buenas Ideias

Bárbara de Alencar nasceu em 11 de fevereiro de 1760. Pernambucana casca grossa, virou líder da comunidade onde vivia na Chapada do Araripe. Liberal e libertária, criou filhos que não teriam como cair longe do pé. Junto da prole, lutou pra libertar o Brasil de Portugal. A família acabou presa e torturada e Bárbara de Alencar é considerada a primeira prisioneira política da história do país. A soltura e anistia dela e dos filhos levou quatro anos para vir -- e só aconteceu, pois, a Independência do Brasil já era praticamente inevitável. Mesmo depois de 1822, Bárbara de Alencar não sossegou: seguiu lutando pelo fim da concentração de poder e totalitarismo.

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B I O G R A F I A.

 

Luís Bento de Sousa, é cearense. Nasceu em Jati-CE, no dia 14 de março de 1957.

Filho de:

Joaquim Carolino de Sousa e

Honorinda Bento de Sousa.

Cursou o Ensino Médio na Escola Moisés Bento da Silva em Jati.



Um profundo admirador da história do Cangaço, é Escritor. Em 2017 publicou seu primeiro trabalho " Lampião, figura Controvérsia ", em breve estará lançando seu novo trabalho, " Jati em memoriam e o Cangaço em foco ". Tem duas participações literária em livros do Cangaço:

- Lampião, Cangaço e Coronelismo.

org. Adriano de Carvalho Duarte.

- Forças Volantes- Os homens que combateram Lampião de A à Z - Bismarck Martins de Oliveira.

" Jati, minha cidade ".

Berço que me viu nascer,

Berço que me viu crescer,

Pelas curtas e estreitas ruas,

Aqui dei meus primeiros passos, quando em épocas passadas era parte integrante de Jardim, hoje Jati, então Macapá.

LUIS BENTO

Diretor de Cultura.

https://www.facebook.com/luis.bento.39142/posts/pfbid0WewYLbd2bEr442ZkUaYE58Yx33o2LY9zieH2U1BRnJJ6kequBDiBdV3tCDQRuKJml?notif_id=1676307064103238&notif_t=close_friend_activity&ref=notif

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OS TRÊS PINGUINS...

 Por Gonzaguiano


Em 1949, os Três Pinguins, um trio que se apresentava em feiras e portas de hotéis de Garanhuns, chamou a atenção do emergente Luiz Gonzaga, hospedado no antigo hotel Tavares Correia. Com 7 anos, José Domingos encantou o rei do baião e acabou recebendo uma promessa de receber uma sanfona nova, caso estudasse e fosse pro Rio de Janeiro.

Com o sanfoneiro do Rio da Brígida, lapidou o que a natureza nordestina tinha de melhor. Com sorriso fácil, estudou seu piano de joelho, sanfonou jazz, choro ou a emergente bossa nova. Nas mãos e mente, carregava o diferencial de ser um dos poucos sanfoneiros que fazia Gonzagão suar naqueles antológicos duelos de sanfona pelos palcos. De herança, a continuidade de um reinado especial sem perder sua responsabilidade artística, com muita inovação e criatividade.

Nesse 12 de fevereiro, se estivesse vivo, Dominguinhos estaria completando seus 82 anos. Salve o legado desse ícone da nossa cultura.

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domingo, 12 de fevereiro de 2023

EVARISTO... O LÁTEGO DO SOBREVIVER.

 Por Rubens Antonio


Evaristo Carlos Costa seguiu uma vida cabisbaixa e penumbrosa, entre Queimadas e Santa Luzia, onde se fixou mais, após a tragédia.

Em agosto de 1939, foi promovido a 1° sargento, posto no qual veio a encerrar sua trajetória na polícia, pouco depois.

Viu Santa Luzia tornar-se Santaluz, em 1943, com o olhar obscurecido e a marcha taciturna dos que sofreram o drama, o trauma, o assombro e a tragédia de sobreviver. Mais arrastava-se que vivia.

Na década de 1960, em Santaluz, numa manhã, foi encontrado empalidecido, apavorado, trêmulo, na vendinha que, ali, abrira. A todos contou que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampeão, acabara de pedir e beber uma dose de pinga, olhá-lo nos olhos com o seu olho cego... e sair.

Correu à rua. Rodou a cidade. Procurou o quanto pôde. Foi muito difícil acalmá-lo.

Faleceu aos 86 anos de idade, sem jamais se livrar dos seus incontáveis e indesvanescíveis fantasmas. Está sepultado no cemitério de Santaluz.

Recorte do livro "SILVA FILHO, Rubens Antonio. "Cangaço na Bahia.", volume 1, no prelo.

Extraído do blog Cangaço na Bahia do professor e pesquisador do cangaço Rubens Antonio.

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ALFREDO BONESSI

 Os eternos mistérios de Angico!

A presente postagem é resultado de espetacular entrevista feita pela pesquisadora Juliana Pereira com o confrade capitão Alfredo Bonessi. (Foto)

Carissíma Juliana;

Todas as respostas as suas perguntas serão de minha parte “possivelmente” – não temos como afirmar com precisão o que realmente aconteceu na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota de Angicos – Sergipe, onde foram mortos 11 cangaceiros pela tropa volante comandada pelo Tenente João Bezerra da Força Alagoana. Quem estava lá e quem esteve lá, deixou de esclarecer a pura verdade - aquilo que hoje interessa a todos nós. Temos ainda um volante vivo e dois cangaceiros vivos (acredito) – os cangaceiros somente contarão a versão deles, onde estavam no momento do ataque, o que eles fizeram para escapar do tiroteio, depois aonde aconteceu a reunião do grupo qual foi lugar, o rumo que cada um tomou depois dessa reunião e nada mais.

Ainda sobre o bando do qual pertenciam, se lembrarem de alguma coisa, poderão comentar. Mas Lampião nunca revelava, por questão de segurança interna do grupo, os segredos que se foram com ele. Com a morte do chefe, aquela forma de Cangaço se extinguiu. Restaram, na ocasião, os grupos de Corisco e Dada, que não conseguiram levar a diante a forma de cangaço que Lampião manteve no sertão por mais de 20 anos e outros. Com a morte de Corisco, Dada revelou muito pouco a quem se interessou em saber alguma coisa sobre o grupo de cangaceiros, ou não foi perguntada, escondeu verdades com receio de ser envolvida com a justiça ou mesmo para não envolver as pessoas que estavam ligadas ao cangaço.

De igual forma Balão, Zé Sereno, Vinte e Cinco e muitos outros que sobreviveram à Angicos, não contaram os seus crimes por receio de serem presos, ou mesmo de serem mortos por aqueles que antes apoiavam de uma forma ou de outra os grupos de cangaceiros. Hoje se analisa esses depoimentos e salta aos olhos as contradições de ambas as partes, tanto de cangaceiros, como de volantes, bem como daqueles que foram os responsáveis pelo sucesso do ataque policial a Grota de Angicos.

1. Quais armas foram usadas em 28 de julho de 38 em Angico?

As armas que foram usadas foram o fuzil Mauser modelo 1898, 1908, Metralhadora Bergman 24, 32, possivelmente a Winchester 44.40, facas, facões e punhais. Ambas as partes em confronto portavam revólveres em calibres variando do 32 ao 44 e pistolas Luger 7,65, 9mm. As Armas que entraram em combate na Grota naquela madrugada de 28 de julho de 1938, fizeram parte da listagem das armas objeto da nossa palestra no Cariri Cangaço II. Por exclusão, possivelmente não tomaram parte na luta, a metralhadora *Hotchkiss, o bacamarte, o fuzil 'chuchu', o Manlicher, a Conblain.

2. O primeiro tiro, partiu de que tipo de arma? Qual o alcance do projétil e em que distancia se podia ouvir o estampido?

Possivelmente de um fuzil mauser, calibre 7 mm de um volante. Declino o ano da arma. O soldado errou o tiro no Cangaceiro Amoroso, imaginamos ser em distância de menos de 5 metros, e com certeza não deu somente um tiro, deu vários, de igual maneira todo o grupo de soldados, depois do primeiro tiro, abriu fogo nutrido em cima de Amoroso, que saiu em desabalada carreira. Amoroso morreu anos depois de maneira trágica. O alcance do projétil dessa arma é para 2400 metros. Para atirar em um homem isolado seu alcance de precisão é de 600 metros. E para um grupo de homens é de 1200 metros. O tiro de combate em um confronto bélico é de 300 metros. A velocidade da bala é de 700m/s e a força do projétil na boca do cano é de 300 Kg ( seis sacos de cimento).

O som derivado do estampido da arma pode ser ouvido em variadas distâncias, dependendo do fator local, aí incluindo temperatura, velocidade do vento, pressão atmosférica e naturalmente o estado de concentração e de saúde do ouvido de quem houve. Normalmente o som do estampido pode ser ouvido entre 1,5 Km até 3 Km de distancia.

3. Na sua opinião, independente de Amoroso ter sido atingido há 50 ou 100 metros do restante do grupo, daria para se ouvir o som do tiro?

Sim. Amoroso estava aproximadamente a 80 metros de distância de Lampião e a 60 metros de Maria Bonita. Ocorre que após este tiro a tropa (28 homens) atirou nos alvos previamente estabelecidos. O soldado Noratinho estava com Lampião na mira de sua arma e Maria Bonita estava correndo quando recebeu um tiro nas costas, bala que saiu pela frente. Caiu, levantou e saiu correndo novamente quando recebeu um outro tiro a curta distância, de lado, no ventre, indo cair próximo a Lampião. Em um combate os estrategistas se utilizam destas condicionantes para um ataque em que se visa alcançar sucesso, com menos perda possíveis: cerco - surpresa - velocidade e força. Quem cai nessa armadilha dificilmente vencerá uma luta. Nisso João Bezerra foi perfeito.

Além do mais o ataque foi ao amanhecer, quando os cangaceiros estavam se levantando, se espreguiçando, ou fazendo suas necessidades, a sua higiene. Uma pessoa nessas circunstâncias está sonolenta, sem reflexos, seus sentidos ainda não estão alertas, tempo depois de acordar e levantar e aos poucos é vão entrando na realidade da vida que o cercam, para bem depois tomar um café, fumar um cigarro, bater um dedo de prosa com alguém ou com o grupo, tratar sobre as atividades para aquele dia, quais sejam remendar o equipamento, desmontar e lubrificar o armamento, afiar facas, tratar algum ferimento, realizar o asseio corporal, tomar um banho, e até mesmo voltar a dormir por debaixo de uma fresca ramada. Mas se ainda estiver dormindo e entrar na bala, será um Deus-nos-acuda.

Juliana Pereira

4. A volante levou muitas armas, me refiro ao peso das mesmas, dada a circunstâncias, levando-se em consideração a distancia e as condições geográficas, no caso muito íngreme? 

A polícia levava o equipamento de costume que não era pesado, uma vez que o soldado saía para uma operação e depois de poucos dias retornava para sede. Bem diferente do Cangaceiro cujo equipamento necessário pesava bem mais que 24 Kg, (no mínimo). No dia 27 de julho, a noitinha, os soldados não sabiam para onde iam e nem quem iriam combater. Ficaram sabendo horas antes do combate quando já deslocavam para a Grota que o ataque seria contra Lampião. Essa medida foi adotada pelos oficiais como medida de segurança, para evitar que a operação chegasse aos ouvidos de Lampião. Se o deslocamento da polícia fosse de dia e nas vistas de pessoas de Piranhas e ao longo do rio, com certeza Lampião seria avisado a tempo.

Após o combate João Bezerra foi conduzido ao porto por dois homens, uma vez que estava ferido e mesmo por segurança uma vez que os Cangaceiros estavam espalhados por todos os lados. O restante, 45 homens, trouxeram com folga e certa vantagem o equipamento dos cangaceiros. Acredito que remar, e subir o rio até Piranhas foi o maior transtorno encontrado pela tropa, que faminta, com sede e muito cansada - estava a mais de dezoito horas sem repouso. Mas a alegria pelos troféus que conduziam em suas canoas apagavam qualquer sinal de enfado, pois os soldados orgulhosos e felizes não acreditavam que tinham matado o Cangaceiro mais famoso e o homem mais valente do sertão.

5. Como militar, como o senhor pensa que foi a estratégia usada pelo Tenente João Bezerra? Lampião morrera por falta de sorte ou atenção/descuido? 

A morte de Lampião não foi por acaso. Lampião foi vítima de uma manobra policial que deu certo entre tantas outras que não deram certo. Lampião não era fácil de ser encontrado. Quem o ajudasse de alguma forma era sustentado a peso de muito dinheiro e sabia muito bem que se o delatasse e fracassasse na tentativa, pagaria bem caro com a vida sua e de seus familiares. Além do mais entre os coiteros e informantes de Lampião cada um vigiava as atitudes dos outros. Pelo lado de Lampião, ele mesmo mantinha um certo segredo em não revelar entre eles quem era ou deixava de ser para que se fosse pego um coitero, não houvesse a denúncia de todos. Mesmo dentro da polícia, com certeza, havia informantes que poderiam avisar Lampião para que se cuidasse daquele ou outro coiteiro. Dinheiro é tudo e tudo é por dinheiro. Assim como Lampião aliciava as autoridades e policiais em seu favor, a policia também aliciava e fingia que fazia corpo mole com alguns informantes seus. O objetivo da policia era Lampião e não o coiteiro. Aquele coiteiro que a polícia sabia que era amigo de Lampião, ficava de “molho” para troca de informações, estratégia utilizada pela própria policia para descobrir o paradeiro do procurado, que era quem realmente interessava.

Depois, em pressão, a coitero assumia o compromisso de cooperar com a policia – fato esse que ficava somente com o comandante da tropa e não chegava aos ouvidos dos soldados, uma vez que dentre os soldados havia aqueles que tinham parentes Cangaceiros. O próprio vaqueiro Domingos dos Patos, que foi o canoeiro que atravessou em canoa o bando de Lampião para Sergipe, trabalhava na fazenda do pai da Dona Cyra, esposa de João Bezerra, o comandante que queria pegar Lampião. Na volante que matou Lampião e Maria Bonita estava um soldado parente dela.

Os coadjuvantes vitais...

Joca Bernardes, ou Joca da Fazenda Capim, era um desse coiteiros, que descoberto, tinha se comprometido com o Sargento Aniceto, a cooperar naquilo que soubesse contra os cangaceiros. Joca era coiteiro de Corisco e ficou sabendo da chegada de Lampião pela boca do cangaceiro 'Vila Nova' – só não sabia onde ele estava.

 Joca Bernardes


Com as compras de Pedro de Cândido de queijos fabricados por Joca e já encomendados, em grandes quantidades, Joca denunciou Pedro ao sargento Aniceto. Pedro era aquele coiteiro que estava na mira da polícia, tinha tido vários encontros com o Tenente Bezerra, mas estava de “molho” para uma ocasião futura e propícia e essa hora havia chegado.

Sgto. Aniceto Rodrigues
Mesmo assim ao receber o telegrama em Pedra do Delmiro o Tenente João Bezerra não alarmou o pessoal e marcou um encontro com o Sargento na metade do caminho entre Piranhas e Pedra do Delmiro, onde os comandantes das frações fizeram conferência dentro do mato, quatro horas depois da saída de Pedra e três horas depois da saída do caminhão com o Sargento Aniceto de Piranhas.

Era aproximadamente 16 para 17 horas da tarde. Mas ainda faltavam as confirmações que o Tenente tanto esperava. Antes da saída de Pedra passou um telegrama para ele mesmo, dizendo que alguém avisara ele que Lampião estava para os lados de Moxotó.

Mas alguém de Moxotó enviara de fato um telegrama a ele sobre o aparecimento de cangaceiros na região de Moxotó, só que não eram cangaceiros, mas a tropa do próprio Sargento Aniceto.

O Tenente antes de seguir destino para o encontro com o Sargento e de telegrama na mão gritou a pleno pulmões no meio do pessoal civil aglomerado, entre eles estavam alguns suspeitos de serem coiteiros de Lampião: vou combater o cego no Inhapi. Essa informação que a força tinha ido para o Moxotó chegou ao entardecer a Lampião no coito de Angicos, tendo Lampião brincado e dado risadas, pilherando afirmou: então pode dormir de cueca.

A força ainda se encontrou com Joca que relatou tudo ao Tenente, depois ainda na incerteza se deslocou até um ponto com segurança para então mandar buscar Pedro que relatou tudo o que sabia, e sabia até demais, sabia onde o pessoal dormia e por onde estavam os sentinelas, se é que haviam. Mesmo assim o Tenente ainda desconfiava de tudo aquilo, porque Lampião não era fácil de ser pego assim tão facilmente. Avaliando o tamanho do efetivo de cangaceiros e se deixando levar pelos desconhecidos chegou a querer desistir da operação – só um temerário atacaria Lampião naquelas circunstâncias – e mesmo porque já sabia que Lampião o tinha ameaçado de morte - aquilo tudo poderia ser uma armadilha.

Mas no momento de indecisão entra em cena a figura do Aspirante Ferreira de Melo, que contestou a ideia de atacar os cangaceiros somente pela manhã, de dia e com seus 16 homens iria mesmo assim atacar Lampião. Se tivesse ido, ele mataria Lampião somente com esses homens, uma vez que Pedro conduziu a Policia até a menos de dez metros da barraca de Lampião e ainda apontou Lampião que estava em pé, fora da barraca.

No mais a sorte de Lampião se acabara naquele dia, o destino pôs ponto final em sua vida naquela manhã. Na hora do início do tiroteio se ele estivesse deitado dentro da barraca ou mesmo a alguns metros por detrás das pedras teria escapado, mas veria a sua mulher ser morta a vinte metros de distância. Dado o primeiro tiro naquela manhã, Lampião não teve tempo para raciocinar, para saber o que poderia ser - uma arma disparou por acidente ? – alguém deu um aviso ? – tudo isso e mais poderia pensar que despertava no interior das toldas, não imaginavam que estavam cercados pela polícia e fugir daquele local era a salvação de suas cabeças.

Quem cercou Lampião naquela manhã sabia o que estava fazendo e era assim que sempre procedia: o quadrado mortífero. Só não conseguiu a exterminação total dos cangaceiros porque o alvo era Lampião e além do mais a mata espinhenta ao redor da grota e a hora do ataque, o amanhecer, sem os raios do sol, dificultava em muito quem precisava enxergar alvos e necessitava da claridade para ajustar a mira das armas e abrir fogo. Depois outro fator que contribuiu para a fuga dos cangaceiros foi a fumaça originada pela queima da pólvora por ocasião dos disparos das armas em conflito, que cobriu a grota como um manto de morte.

Negligência???

Negligência ? sim. Descuido ? sim, a começar pela escolha do local. Nada de lugar com uma só boca, como falaram depois quem escapou para contar história. Não foi isso que matou Lampião. Lampião foi morto por uma estratégia militar, num jogo de informação e contrainformação utilizado até hoje nos meios policiais. Aquele lugar, aquela gruta não é local para defesa, mas as cercanias, no cimo dos morros sim. Homens bem distribuídos , em locais previamente marcados, acordados, vigilantes, e sóbrios, impedem qualquer efetivo que se aventure a abater quem estiver no interior da furna.

Quem estiver no interior da furna terá tempo suficiente para escapar ileso de qualquer ataque que venha a sofrer, desde que a força atacante se encontre previamente com sentinelas postados a mais de cem metros de distância da furna. Além do mais o local não serve para esconderijo porque do meio do rio se enxerga com relativa facilidade o rolo de fumaça que sobe das fogueiras onde eram cozinhadas as comidas, e deveria haver mais de uma. Não é crível que 45 homens comam de um mesmo fogo.

Quanto maior a fogueira, maior é o rolo de fumaça, maiores serão os odores que exalam das carnes assadas, do café requentado, do fumo dos cigarros de palha. E o som dos vozerios compartilhados, das músicas, das toadas, das gargalhadas, dos casos contados, dos acontecidos, das boas empreitadas com ganhos fáceis, e aquele cabra que implorou para não morrer ?, aquele rosto desfigurado pelo assombro da morte, quando a ponta do punhal sangrador foi afundando devagarinho na base do pescoço ? – motivos de comemorações e de alegrias para aquele bando de gente impiedosa não faltavam.

Não se pode culpar Lampião por isso ou aquilo, ou pelo que deixou de fazer, mesmo porque o bando não era uma milícia organizada, com estratégia de defesa e ataque, as manobras de guerra a bastante tempo não eram postas em práticas depois que Antonio Ferreira e Sabino haviam desaparecidos. As orientações do chefe eram quase sempre as mesmas: não enfrente os macacos – fuja ! A policia, sabendo desse proceder dos cangaceiros, se sentia motivada a se aproximar dos grupos e de abrir fogo sobre eles, com a certeza que correriam abandonando o campo da luta.

Fugiam não por medo, mas por economia da munição, cara e escassa, pela preservação da própria vida, além do mais o que se ganharia em matar uns poucos macacos – depois desses viriam mais e mais numa sequência de mortandade que nunca terminaria. Por isso a melhor defesa residia simplesmente na grande mobilidade, nas andanças, percorrer grandes distâncias em poucas horas, e nessas poucas horas estarem em vários lugares diferentes – assim a informação dos delatores não chegaria aos ouvidos da polícia com tempo suficiente para ser transformada em uma ação planejada a ponto de surpreender o grupo.

Outro fundamento do grupo era sumir sem deixar rastros, ou deixar vestígios bem visíveis que conduziriam os soldados a um lugar determinado, culminando em uma emboscada. Outras vezes os rastros não levavam a lugar nenhum e a volante ficava bobando no meio da catinga. Na maioria das vezes os grupos de cangaceiros sumiam por meses e ninguém sabia por onde andavam, até que um caçador informava a pista deles, na maioria das vezes falsa e sem sentido, às vezes a mando dos próprios cangaceiros para despistar uma ação de assalto a alguma localidade.

Portanto, a escolha de Angicos como ponto de reunião, mesmo que seja para passar uma semana, foi um erro mortal, mesmo com a desculpa do tratamento de Maria Bonita em Própria, ou para tratar operações futuras, ou pela necessidade de aproximação com a água devido presença de mulheres, nada justifica a desatenção para com o fator segurança do chefe em particular e do grupo em geral. Caso fosse irremediavelmente necessário a permanência na área - isso até não seria considerado um problema desde que os homens fossem dispostos estrategicamente ao redor, no cimo dos morros, no leito do riacho, em vigilância constante e protegendo quem estava no fundo daquele buraco.

6. Levando-se em condição ao que já leu, Lampião morreu conforme a literatura oficial contou e conta?

Ninguém sabe ao certo como Lampião morreu. Um repórter do Rio de Janeiro chegou a falar com os soldados que atiraram no rumo de Lampião, mas esse repórter não aprofundou o assunto, mesmo porque o momento era de festa, de alegria e a segurança era necessária, ou mesmo talvez como precaução, cautela com receio de uma vingança posterior por algum grupo de cangaceiros. Naquela ocasião ninguém poderia supor que o cangaço terminaria pois outros grupos ainda operavam como o grupo de Zé Sereno, Corisco, Labareda e Pancada. Em minha opinião a ocasião mais propicia de se saber a verdade era aquela em que os homens estavam eufóricos, comemorando e não tinham tempo de enfeitar a história, aumenta-la, diminuí-la, ou fantasia-la.

Por isso que eu fico com as declarações do Comandante da volante proferidas três dias depois do ocorrido em Santana de Ipanema – sede da volante- quando ainda ferido deu declarações a esse repórter do Rio de Janeiro, em uma página de 25 linhas, como tudo aconteceu, em Angico - depois o Tenente baixou ao hospital para ser tratado.

7. Terá havido envenenamento ou alguma substancia capaz de deixar o bando sonolento ou mesmo sem reflexo?

Muita bebida alcoólica ingerida e a despreocupação que tudo estava bem. Essa ideia do envenenamento, creio eu, foi proferida por alguém do grupo para diminuir o feito da polícia e com a certeza de que mais tarde seria essa a verdade definitiva que deveria perdurar, a de que os cangaceiros foram mortos por uma procedimento vil por parte da policia, que não teve coragem de enfrentar os cangaceiros em uma combate leal - mas não foi nada disso - foi bobeira mesmo, e bala, muita bala para cima do pessoal dorminhoco e descuidado.

8. Porque escapou tantos cangaceiros, se estavam em total desatenção quando atacados? Porque só um policial foi atingido, posto que os cangaceiros já houvessem sido surpreendidos em ataques anteriores e mesmo assim saíram ilesos ou mesmo deixaram uma baixa maior na volante?

Porque o alvo do ataque era Lampião e a volante cercou a gruta. Quem estava espalhado pelas encostas dos morros e mesmo nos cimos, de lá mesmo escapou, alguns passando por cima da própria polícia. Não houve retaguarda porque a desorganização foi geral e não houve um líder de coragem para voltar e atacar os policiais que faziam festa no fundo do buraco. Mesmo porque muitos estavam desequipados, desarmados, a maioria feridos, arranhados pelos espinhos, desmuniciados, chocados ao saberem que Lampião, Maria Bonita e Luiz Pedro haviam havia morrido - noticias levadas por Zé Sereno que assistiu a morte do pessoal que estava na gruta ao redor de Lampião.

Quanto ao soldado que morreu até hoje não se sabe como. Foi fogo amigo ? – foi fogo de algum inimigo dentro da polícia ? foi fogo de algum cangaceiro ? – dizem que foi Elétrico que baleou aquele soldado, sendo em seguida metralhado por João Bezerra – Elétrico não morreu de tiro, foi esfaqueado por um soldado da volante, procedimento esse que muito contrariou o Chefe que determinara a morte do cangaceiro a tiros e não a faca.

"Não houve um líder de coragem para voltar e atacar os policiais que faziam festa no fundo do buraco"

Há uma versão que foi o soldado 'Mané Véio' que viu o soldado sofrendo por ter levado um tiro no quadril e aí aliviou as dores do mesmo matando-o com um tiro. Note que o soldado foi imediatamente sepultado naquela mesma tarde, sem autópsia – ninguém deu importância ao fato – entretanto levaram para exame a cabeça dos cangaceiros. Isso por si só demonstra que alguém queria que a morte do soldado passasse despercebida pelas autoridades. Morto em combate o corpo do soldado deveria ser examinado por um legista.

Mas mesmo assim, nesse caso se o mesmo tivesse levado tiros pela frente ou por detrás, se por acaso fossem encontrados em seu corpo os projéteis como se iria descobrir o autor ou autores dos disparos ? As únicas armas de calibres diferentes que atiraram foram as metralhadoras de João Bezerra e do Aspirante Ferreira de Melo, em calibres 7,63 ou de 9 mm. Teriam que ser examinados os projéteis encontrados no corpo do soldado pela balística – trabalho esse que naquele tempo ainda não tinha chegado ao interior do sertão.

O cangaceiro Balão assumiu publicamente a morte do soldado em declarações ao Dr Amaury, (Assim Morreu Lampião) afirmando que o soldado tinha acabado de matar o cangaceiro Mergulhão e estava dando coronhadas na cabeça do mesmo, e em ato subsequente encostaram o cano das armas e que disparam ao mesmo tempo, sendo que nele, Balão, não acontecera nada e que o soldado caíra morto. Com relação a escapar de ataques, vai depender muito como estava o dispositivo do grupo no terreno e a forma de como foram atacados. Em se tratando da Gruta de Angico quem estava lá embaixo não tinha como escapar – a policia estava perto demais – para uma bala de fuzil, em tão pouca distância, não há mandinga que sustente o corpo fechado.

9. Por que Lampião não usou a sua estratégia, já bastante conhecida e testada quando ouviu o primeiro tiro, se é que ouviu?

Não a usou porque ali naquele momento não deu tempo para nada, foi tudo muito rápido, além do mais depois que se aperta o gatilho de uma arma daquela e ela estiver apontada para alguém, não há tempo para mais nada. Quem leva tiro um tiro de fuzil, não escuta o som do tiro que o mata.

10. Qual seu parecer sobre o episódio Angico?

Angico é um mistério – o combate de Angicos é o resultado de um belíssimo trabalho policial – Angicos serve para reflexão para quem vive da lida das armas, que mais hoje, mais amanhã a lei baterá as portas de quem vive as margens da lei, quem quiser ser vitorioso sempre permaneça ao lado da lei, porque o crime de uma forma ou de outra não compensa - é uma ação incerta e a lei, vitoriosa contra o crime - é sempre certa.

Entrevista publicada pelo www.cariricangaco.com sítio do Coroné Severo  

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 *ADENDO
Como não tenho autoridade nem conhecimento necessário para maiores contestações faço apenas uma simples observação que inclusive já foi destacada em outro artigo por nosso amigo e colaborador Fábio Costa e que se faz novamente necessária. É quanto à grafia correta para a temível metralhadora: O correto é HOTCHKISS e não "HOTKISS". Prova rápida e interessante é que se você procurar no Google ocorrências para "Hotkiss" vai encontrar somente referencias à sex shops e sobre a tradução literalmente. 
Os leitores que desejarem opinar fiquem a vontade para assinalar outros pontos.
ATT. Kiko Monteiro 

http://lampiaoaceso.blogspot.com/search/label/Alfredo%20Bonessi

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