Seguidores

domingo, 5 de julho de 2020

FAMÍLIA: CONCEITO E FORMA

*Rangel Alves da Costa

O que se conhece por família vem, ao longo dos anos, passando por tamanhas transformações que atualmente se torna até difícil encontrar uma conceituação que se aproxime de sua realidade.
Com efeito, o que se observa é uma divergência entre os conceitos e as realidades. Juridicamente, família pode ser definida como o conjunto de pessoas que descendem de um tronco ancestral comum. Ou ainda como o conjunto de pessoas ligadas por um vínculo de sangue. Neste sentido, fazem parte da família toda a raiz ancestral, desde os bisavôs, tataravôs, etc.
Em sentido comum, família pode ser conceituada como o núcleo familiar formado pelos pais e filhos, englobando as raízes paternas dos pais, bem como os laços consanguíneos destes. Significa que a família seria um núcleo formado por pais e filhos, avôs, tios, sobrinhos, etc. De qualquer modo, o que caracteriza a linhagem familiar é o vínculo sanguíneo existente entre os seus membros.
A divergência é mais reconhecível quando se observa o entendimento comum sobre família. A conceituação ampla diz que a família é formada por um ancestral comum, através de vínculo sanguíneo, o que significa uma olhar para um passado distante de parentesco, que vem desde os pais do pai e da mãe, os pais daqueles, ainda os seus pais, e assim por diante, sempre em direção ao passado. Já o entendimento comum é bastante diferenciado.
Diferenciado por que geralmente considera a família apenas como o núcleo familiar existente a partir de um lar, ou seja, desde o pai e da mãe. Daí os laços sanguíneos nascidos com os filhos, os netos, os bisnetos. Ou seja, como se a família não tivesse nascido de outras raízes, dos pais dos pais, mas somente a partir do surgido após um casamento ou uma união. Por isso mesmo que atualmente a pessoa, ao dizer que é de determinada família, diz apenas que é filho, por exemplo, de João e Maria.
Que situemos, então, a família como um conjunto formado por pessoas nascidas num mesmo lar e formada pelos pais e pelos filhos. Tal recorte será necessário para que melhor se conheça o que move e o que nega este núcleo tão pequeno e de tão difícil compreensão. E logicamente que considerando a realidade atual, vez que, como dito, os tempos modernos desfiguraram totalmente a antiga feição familiar. A família de hoje, na maioria das situações, sequer se aproxima da família de outros tempos.


Para uma ideia da família de antigamente, preciso que se diga que era alicerçada no respeito e na consideração. Filhos eram filhos que obedeciam aos pais. Pais eram pais que, até mesmo de modo exagerado, educavam e cuidavam dos seus até mesmo na idade adulta. As famílias sentavam à mesa nas refeições, os pais conheciam as amizades e os problemas dos filhos, os pais acompanhavam a vida escolar dos seus, os pais mantinham seus filhos como se através de um caderno de deveres e obrigações. Nada de chegar além da hora, nada de viver em más companhias, nada de enveredar pelos maus costumes. Havia diálogo entre pais e filhos e estes jamais se esqueciam de pedir a benção aos seus genitores.
Na região sertaneja, por exemplo, o namoro de antigamente só acontecia com a permissão dos pais. Ainda assim os encontros somente aconteciam nas residências familiares, em cadeiras separadas e sob a observação do pai ou da mãe. Nada de namoros escondidos nem gravidez antes do casamento. Até para namorar tinha de pedir a mão da moça. Depois do namoro firme até de anos, o noivado era antecedido de anel de compromisso. Somente após é que havia o noivado em si e a permissão para o casamento. De vez em quando tal regra era quebrada, pois o rapaz levava, no meio da noite, a moça de sua casa. Acaso isso acontecesse, o casamento tinha de ser logo feito “sob ameaça de chicote”.
E o que se tem hoje por família? O conceito certamente continua, mas a realidade do convívio entre os familiares está muito diferenciada. Muitas famílias, erroneamente tidas como conservadoras, ainda procuram manter tanto o lar como os filhos dentro dos limites do respeito e da obediência. Os filhos respeitam os pais e estes não aceitam que suas lições sejam simplesmente rasgadas depois da porta da frente. Os filhos, mesmo convivendo em meio ao novo e aos modismos, ainda assim conhecem bem os limites que são impostos pelos genitores.
Famílias existem, contudo, que se descaracterizam de tal forma que nem os pais cuidam dos filhos nem os filhos respeitam os pais. Filhos são colocados ao mundo como bichos de cria ou objeto qualquer. Os pais não perguntam onde andam, o que fazem, o que pretendem da vida. Os filhos tratam seus pais como estranhos e muitas vezes passam dias ou semanas sem uma palavra sequer. Entram e saem de casa como se ali estivessem apenas desconhecidos.
Por que assim acontece? Ora, falta de berço, falta de criação, falta de cuidado. Filho só se desgarra dos pais quando estes primeiros se desgarram dos seus. Pais que não amam e não cuidam dos seus desde a primeira idade, certamente não amarão nem cuidarão depois. Por consequência, os filhos acabam se tornando aquilo que os pais desejaram: ausentes, desobedientes, estranhos naquilo que se chama de lar. Pais que agem assim sequer se preocupam se já está tarde e o seu ainda não retornou.
Mas nem tudo se perdeu. Família é conceito tão forte que vai além de mero parentesco e linhagem de sangue. Não é apenas um vínculo de sobrenome, mas um vínculo de coração. Família é a primeira amiga, é a mais fiel conselheira, é amais protetora que possa existir. Quando o mundo parece desabar, é a família que se faz presente como auxílio e amparo. É na família, pois, que o ser humano expressa suas melhores virtudes. E dai ao mundo, com honradez e caráter.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

AS MULHERES NO CANGAÇO


Por Archimedes Marques

A luta da mulher pela igualdade de direitos sempre foi constante na história da humanidade, vez que desde os primórdios, perdurando por séculos e séculos era considerada como se objeto fosse, um ser inferior de sexo frágil sempre dominada pelo chamado sexo forte. Na década de 30 do século passado, enquanto nos grandes centros mundiais e principais cidades do Brasil, movimentos de mudança em prol da mulher se sucediam e se multiplicavam, no nosso sertão nordestino tudo continuava como dantes, sem mudança de comportamento algum. Entretanto, mesmo sem saber que estava fazendo verdadeira revolução, a brava sertaneja ao largar tudo para seguir o cangaceiro em vida perigosa e sem futuro serviu de exemplo de força, coragem e determinação para outras mulheres do país, além, de certa forma mudar a história do cangaço, separando assim tal movimento em duas fases, fazendo também que nessa segunda fase houvesse menos selvageria e até aparecesse a figura do amor entre aqueles rudes e ignorantes personagens.

Tomando emprestadas as palavras do amigo João de Sousa Lima: “A mulher, na expressão primordial da palavra, amenizou as marcas das pegadas ferradas das sandálias de couro do cangaço e em seus rastros gravou sua passagem, nos confins do solo sagrado de uma nação chamada Nordeste”.

Buscando o fato motivador dessa inusitada atitude feminina como tipo de amor arrebatador ou mesmo como falta de uma melhor opção de vida diz o citado historiador: “Várias histórias povoam esse estranho mundo feminino. Mulheres viam nas passagens dos cangaceiros, em suas roupas coloridas e seus apetrechos brilhantes, uma forma diferenciada de vida e, no entanto, como uma armadilha, se envolveram em um mundo recheado de tiroteios, mortes, sangue, fugas alucinadas e escapadas perigosas”.

A mulher cangaceira não foi uma mulher submissa, não foi uma mulher escrava, caseira, muito pelo contrário, foi uma mulher “paparicada”, respeitada e até tratada com amor pelo seu companheiro e pelos demais componentes do bando dentro das reais possibilidades que a dura vida assim exigia, com raras exceções é evidente, pois as traições amorosas femininas não eram admitidas em hipótese alguma.

Então, de volta a nossa realidade, cumprindo um cronograma organizado pela Cyntilante Produções que realizou a turnê “Lampiãozinho e Maria Bonitinha”, uma peça teatral de grande sucesso cuja produção vencedora de 19 prêmios é uma das criações de Fernando Bustamente, um carioca radicalizado em Belo Horizonte, homem da arte e da cultura que também preserva com tal peça as raízes cangaceiras do nosso querido Nordeste brasileiro, de igual modo, de tudo foi acompanhado de 13 a 23 do corrente mês e ano, em excelentes e bem explicativas palestras com o tema AS MULHERES NO CANGAÇO, pelo nosso estimado escritor e amigo João de Sousa Lima.

Assim inteligentemente foi unido o útil ao agradável, pois nada melhor para a peça “Lampiãozinho e Maria Bonitinha” do que estar acompanhado de um nordestino nato, um “cabra macho” pernambucano radicalizado na aprazível Paulo Afonso, um pesquisador, estudioso, escritor que sabe tudo e muito mais a respeito do cangaço, um verdadeiro “Sherlock Holmes” das caatingas que esmiúça, investiga e descobre personalidades que vivenciaram aquela época de sangue e lágrimas (mas também de amor) e, porque não dizer, um historiador que desvenda verdadeiras histórias então escondidas, destarte para a trajetória de vida dos ex-cangaceiros Moreno e Durvinha, incógnitas e submersos nas Minas Gerais por sete décadas, mas trazidos à tona anos atrás graças a interferência direta de João de Sousa Lima.

Sem dúvida alguma, aquelas pessoas que tiveram o privilégio de assistir alguma das seis palestras de João de Sousa Lima – como tivemos no último dia 22 aqui em Aracaju – além de viajarem de volta ao cangaço, aprenderam muito com os ensinamentos desse grande e obstinado historiador.

As eloquentes explicações em analises das diversas fotografias relacionadas às personagens do cangaço apresentadas por João de Sousa Lima foi iniciada na cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, terra adotada pelo amado e imortal “Padim Ciço”. Ingressar para falar agora sobre o fantástico mundo de Juazeiro, sua sedição, suas lutas, suas glórias, seus heróis, seu misticismo, seu messianismo, sua religiosidade, seu povo em verdadeira adoração ao Padre Cícero Romão Batista e este por sua vez em suposto apoio a Lampião e ao cangaço é debruçar em “montanhas” de escritos e opiniões diversas, por isso é melhor que fiquemos somente neste parágrafo que bem traduz a irreverência do citado palestrante que sem dúvida ensinou e também mais aprendeu com a interessada assistência que lotou a Escola Iva Emidio Gondin naquele memorável dia 14/09/2012.

Serra Talhada foi a segunda estada do citado grupo. Justamente a área inicial de conflito dos eternos inimigos “Virgulino Ferreira da Silva e Zé Saturnino” e que de todo o conflito deu origem a era “Lampiônica”, trocando em miúdos, ao cangaço de Lampião que ganhou fama não somente no Nordeste, mas também no Brasil e porque não dizer, mundo afora. Terras circunvizinhas que também deram tantos outros componentes dessa história de sangue e barbárie, a exemplo de Nazaré do Pico, um pequeno povoado encravado no sertão de Pernambuco, cujo lugarejo localizado nas proximidades de Serra Talhada, mas pertencente ao município de Floresta, saíram os mais ferrenhos perseguidores de Lampião, dentre eles: Odilon Flor, Euclides Flor, Gomes Jurubeba, João Gomes Jurubeba, Davi Jurubeba, Enoque Menezes, João Gomes de Lira e o mais famoso deles, o incansável Manoel Neto, que chegou ao posto de Coronel da brava policia pernambucana.

Serra Talhada é hoje a mais importante cidade do sertão pernambucano e é considerada a capital do xaxado, justamente em alusão a dança mais usada, ou mesmo inventada pelos cangaceiros. Essa terra de cabras valentes é também destaque cultural e teatral com o “Grupo de Xaxado Cabras de Lampião” bem administrado pelo amigo escritor e pesquisador Anildomá Willians de Souza e sua esposa Cleonice, dentre outros grupos da região circunvizinha que encantam todos aqueles que assistem a tais espetáculos. Nessa cidade a peça teatral “Lampiãozinho e Maria Bonitinha” se destacou igualmente também ao sucesso da palestra “As mulheres no Cangaço” que encantou os estudantes e professores do Colégio Cônego Torres em inesquecível e marcante dia 17/09/2012.

A sua terceira apresentação ocorreu em Água Branca nas Alagoas região da famosa Baronesa Joana Vieira Sandes de Siqueira Torres, viúva do Barão Joaquim Antônio de Siqueira Torres, cujo assalto a essa cidade em 1922, deu a Lampião, recém "nomeado" líder do bando de Sinhô Pereira, início de sua fama de audaz bandoleiro, sem esquecer que naquelas paragens também nasceu um dos mais destacados cangaceiros da história, Cristino Gomes da Silva Cleto, mais conhecido como Corisco o Diabo Louro.  Consta que do inteligente e bem arquitetado crime de roubo realizado nessa cidade pelos cangaceiros, mais de perto, na mansão da Baronesa de Água Branca, anos depois, já na segunda fase do cangaço, mais de perto a partir de 1929, por muito tempo as jóias roubadas dessa famosa senhora ornaram e embelezaram ainda mais a figura de Maria Bonita até que se perderam nas mãos dos policiais volantes que a decapitaram em 1938.

O Ponto de Cultura Engenho da Serra na cidade de Água Branca ao lotar suas galerias em 18/09/2012 viveu dos seus maiores momentos de glória com as falas de João de Sousa Lima e a linda apresentação teatral que com certeza não se perderão no tempo e no espaço.

Como não poderia deixar de ser, o grupo chegou para a sua quarta apresentação na simpática e aprazível cidade de Paulo Afonso. Por sinal o município que deu a personagem feminina maior dessa história nordestina, Maria Bonita, a inesquecível mulata da terra do condor que sem sombra de dúvida dominava uma fera perigosa, uma morena trigueira que sabia fazer o rei do cangaço gemer sem sentir dor, como bem diz o grande poeta Zé Ramalho em uma das suas mais lindas canções. Das terras da Malhada da Caiçara saiu o único e verdadeiro amor de Lampião. De Paulo Afonso a segunda fase do cangaço se fez maior, como já dito, “mais humana”, pois onde existe mulher existe o amor. Nunca é demais falar que Paulo Afonso foi o município brasileiro que mais ofereceu componentes para o cangaço, chegando, pelas pesquisas efetuadas por João de Sousa Lima e outros historiadores ao número de 47 cangaceiros, entre homens e mulheres, que se embrenharam naquela dura vida bandida das caatingas.

Sem citar os homens, entre as mais famosas cangaceiras que saíram da região de Paulo Afonso, estão: Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, do povoado Malhada da Caiçara; Lídia Pereira de Souza, do Povoado Salgadinho (citada por todos os cangaceiros sobreviventes como sendo a mais bela de todas as cangaceiras. Assassinada covarde e brutalmente a pauladas pelo seu companheiro Zé Baiano em decorrência de uma traição amorosa); Nenê (a carinhosa Nenê, companheira de Luis Pedro), também do povoado Salgadinho; Otília Maria de Jesus (Otília, companheira de Mariano), do povoado Poços; Inácia Maria das Dores (Inacinha, companheira do feroz cangaceiro Gato, por sinal ambos índios da tribo Pankararé), do Brejo do Burgo; Catarina Maria da Conceição (Catarina, companheira do cangaceiro Nevoeiro, também um índia da tribo Pankararé), igualmente do Brejo do Burgo; Durvalina Gomes de Sá, (Durvinha, companheira apaixonada pelo cangaceiro Virgínio e após a morte deste, eterna mulher do cangaceiro Moreno), nascida no povoado Arrasta-Pé.

Das terras baianas o grupo teatral e nosso homenageado João de Sousa Lima, aportaram em Porto da Folha no nosso querido Estado de Sergipe, para a sua quinta e penúltima apresentação. Da chamada terra dos “buraqueiros”, há se ressaltar que nenhum outro município da região tem uma história cultural tão grande quanto Porto da Folha, pois em verdade os municípios de Canindé do São Francisco e Poço Redondo também faziam parte das suas terras até que ganharam suas emancipações políticas e administrativas posteriormente. Assim, Poço Redondo desponta hoje como sendo o segundo município nordestino a mais fornecer membros para o cangaço, ou seja, foram 34 filhos desse então povoado de Porto da Folha que acompanharam o bando de cangaceiros, sem esquecer do marco maior dessa história, ou seja, o local onde ocorreu o combate final de Lampião. Foi na gruta de Angico, que em 28/07/1938 Lampião e Maria Bonita, juntos com outros nove cangaceiros, foram mortos pela volante alagoana comandada pelo Tenente João Bezerra.

Com efeito, como diz o amigo escritor e poeta Rangel Alves da Costa: “Um dos fenômenos mais marcantes da história de Poço Redondo diz respeito ao banditismo social, na sua vertente cangaço, que brotou no lugar numa profusão de raízes e frutificou impressionantes consequencias. Mesmo tendo surgido em outros rincões nordestinos, foi na aridez poço-redondense que o cangaceirismo mostrou sua feição mais nítida, mais acabada, mais cruel e também a mais romântica”. Foi justamente no reinado de Lampião em Sergipe que Poço Redondo experimentou a convivência e o medo com as ações cangaceiras.

Falar em Poço Redondo sobre o cangaço e não falar do grande amigo escritor Alcino Alves Costa é a mesma coisa do cidadão ir a Roma e não ver o Papa, assim, relembrando fatos importantes, de acordo como “Caipira de Poço Redondo”, dois acontecimentos do cangaço marcaram profundamente a vida dos habitantes desse município: “Nenhum lugar, na vastidão dos campos sertanejos, viveu agonia tão grande e provações tão gigantescas como o pequenino núcleo das brenhas do Riacho Jacaré”. Por duas vezes, toda a população do então povoado Poço Redondo abandonou suas casas com medo da violência dos cangaceiros e da volante. Esses acontecimentos ficaram conhecidos como “As Carreiras”. Aquela vidinha sem novidades e aborrecimentos tinha se acabado com a chegada de Lampião em Sergipe, mais de perto, naquelas cercanias. Todas as desgraças e horrores começaram a aparecer, atingindo cruelmente as famílias e habitantes daquele abandonado pedaço do nosso pequenino Estado. O primeiro assassinato em Poço Redondo aconteceu em 1932. O cidadão conhecido por Santo da Mandassaia foi morto cruelmente por Corisco. Assustados, todos os moradores do povoado deixaram suas casas e foram morar em Curralinho, um povoado à beira do Rio São Francisco. Em Poço Redondo não ficou um só morador, daí os militares decidiram que a povoação abandonada seria um ponto estratégico para o combate ao cangaço. Uma guarnição de dez soldados, comandados pelo sargento Alfredo, se estabeleceu no local e, sabendo disso, a população que havia se mudado para Curralinho resolveu voltar para suas casas, entretanto, mesmo com a presença dos militares, os moradores de Poço Redondo continuaram sofrendo todas as represálias e malvadezas dos cangaceiros, além de sentirem na pele os seus filhos abandonarem tudo para ingressarem no cangaço. Mais adiante, em 1937, revoltados porque os soldados mataram o cangaceiro Pau Ferro, os bandoleiros assassinaram os soldados Tonho Vicente e Sisi e ainda mandaram um recado garantindo que iriam invadir a vila de Poço Redondo. O pavor tomou conta de todos. A tropa que guarnecia o povoado estranhamente teve que se apresentar ao Quartel em Propriá e novamente a população ficou órfã, sem segurança alguma. A solução foi se mudar novamente para o Curralinho, situação que perdurou até a chacina de Angico com a consequente morte de Lampião, oportunidade em que aliviados e sem nada mais temer o povo voltou para Poço Redondo.

Da história consta que a instalação do município de Poço Redondo, desligando-se política e administrativamente de Porto da Folha somente ocorreu em 6 de fevereiro de 1956, ou seja, 16 anos após o termino oficial do cangaço, com a morte de Corisco em 25 de maio de 1940.

Ainda relacionado às terras de Porto da Folha na época do cangaço, hoje pertencentes a Poço Redondo há também de se destacar o ferrenho combate denominado “Fogo da Maranduba”, ocorrido no dia 9 de janeiro de 1932, na Fazenda Maranduba, cujo intenso e sangrento tiroteio é considerado um dos três maiores enfrentamentos entre cangaceiros e policiais volantes na história do cangaço. Dizem os pesquisadores e historiadores que esse combate só é comparado à sangrenta batalha de Serra Grande, em Pernambuco e ao não menos cruento embate de Serrote Preto, nas Alagoas. As baixas em Maranduba foram muitas e das polícias volantes comandadas pelos audazes combatentes perseguidores Tenente Manuel Neto da força pernambucana, do  Capitão do Exército Liberato com a ajuda do Tenente Zé Rufino da polícia baiana, contabilizaram-se oito mortos e diversos feridos, enquanto que, por parte dos perseguidos cangaceiros somente três mortos e um ferido. Sem dúvida, uma estupenda vitória de Lampião que contava no confronto com um número de componentes inferior a três vezes ao da força policial.

Como o tema é “As Mulheres no Cangaço” não teceremos maiores detalhes sobre os homens que abandonaram as suas famílias para seguirem Lampião. Assim, das terras de Poço Redondo saíram para o cangaço as seguintes mulheres: Sila (mulher de Zé Sereno e irmã de Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro), Adília (mulher de Canário e irmã de Delicado), Enedina (mulher de Cajazeira, o Zé de Julião), Dinda (mulher de Delicado), Rosinha (mulher de Mariano), Áurea (mulher de Mané Moreno) e Adelaide (mulher de Criança, irmã de Rosinha e prima de Áurea), ou seja, um total de sete mulheres, sete valentes e destemidas guerreiras que por falta de opção ou mesmo por amor aos seus homens enveredaram na vida bandida do cangaço.

De Poço Redondo atual, não podemos deixar de citar e elogiar as ações do Grupo de Teatro e Xaxado “Na Pisada de Lampião”, criado em Julho de 1997 por Beto Patriota, Raimundo Cavalcante e Dionízio Cruz, um excelente grupo de abnegadas pessoas que aparece como mais uma iniciativa em prol de manter vivas as memórias do cangaço nesse município.

De volta a João de Sousa Lima e ao grupo teatral, os mesmos fecharam com chave de ouro as suas participações nessa turnê, aqui na nossa capital Aracaju. Bem sabido é que de Aracaju não partiu nenhum componente para o cangaço, entretanto, dessa terra, mais de perto, do Palácio do Governo na época do governador Eronildes de Carvalho, sem dúvida alguma, surgiram muitas estratégias para acobertar o cangaço, pois é fato notório que o “coronel” Antonio Caixeiro, de Canhoba, pai do citado governador, era o mais famoso e importante coiteiro de Lampião em Sergipe. Em Sergipe a polícia fazia de conta que caçava Lampião e esse, por sua vez, fazia de conta que era caçado.

João de Sousa Lima bem sabe enaltecer a forte mulher sertaneja que sem dúvida gerou uma grande referência em toda sociedade da época e deixou registrada sua passagem também nas veredas do cangaço. Todas elas tiveram grande importância no contexto histórico desse tempo. Concordamos com a opinião de que as mulheres cangaceiras vieram aplacar a fúria assassina e o desejo disforme dos seus companheiros que tanto feriram e humilharam as famílias nordestinas. Com a chegada e a permanência feminina no bando, os cangaceiros adquiriram mais respeito para com as indefesas caboclas sertanejas. Os estupros, antes presentes em quase todas as investidas criminosas, com a chegada das mulheres ao cangaço, praticamente deixaram de ocorrer.

Foi assim que eu vi e senti as boas falas do amigo João de Sousa Lima na sua irreverente palestra “As Mulheres no Cangaço”, um sertanejo, um pesquisador, um exímio escritor, um amante da nossa cultura que a despeito de todo bom e verdadeiro nordestino também cultua o grande e imortal Luiz Gonzaga, o nosso símbolo maior, o ser que conseguiu sintetizar os anseios incontidos de um povo através da cadência que intercala os sons da sanfona, do triângulo e da zabumba expressando o mais refinado circuito musical então existente na nossa história.

Privar da amizade de João de Sousa Lima é um privilégio que enriquece positivamente as relações de qualquer ser humano. João de Sousa Lima, além de tudo, sem dúvida alguma, é um cidadão possuidor de grandes virtudes, as quais se encontram indissociavelmente vinculadas ao código de honra de um povo forte, o povo sertanejo e nordestino que tanto nos orgulha.

Aracaju, 28 de setembro de 2012.

Archimedes Marques. (Delegado de Polícia em Sergipe, escritor do livro LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE e eterno estudante dos assuntos relacionados ao cangaço)


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

sábado, 4 de julho de 2020

UMA INTERESSANTE ENTREVISTA DE UMA REFÉM DE LAMPIÃO! #CANGACO #LAMPIAO IMPRESSIONANTE ENTREVISTA CONCEDIDA POR DONA MARIA JOSÉ LOPES QUE FOI APRISIONADA PELO BANDO DE LAMPIÃO EM 1927. DONA MARIA NARRA INTERESSA...

Do acervo do Rivanildo Alexandrino


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

ELEONORA CANGACEIRA - CABEÇA CORTADA.


Pobre Jovem, Cangaceira Eleonora. Cabeça Cortada, Rombo Na Testa De Tiro. Sangue, fumaça...

Edição: Davi Lima, Fortaleza/Ce.


Vilma Maciel Maciel Lira - O infortúnio de Eleonora Soares Lima foi perseguição de sua família, tornou-se companheira do cangaceiro Serra Branca. Eleonora era irmã de Aristeia mulher do cangaceiro Catingueira. Passou pouco tempo no Cangaço, não chegou nem a conviver com María Bonita. Acabou sendo morta na fazenda Patos, em 20 de fevereiro d e 1938, junto com dois companheiros.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

LOGO MAIS ÀS 20 HORAS.



Para participar SIGAM o perfil do Pedro Popoff no Instagram.
Aguardo todos vocês.

Postado pro Geralldo Júnior.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

ESSE É ZÉ DE JULIÃO. Ex-cangaceiro de LAMPIÃO.

Por Rangel Alves da Costa

E sua história está inteiramente narrada neste livro: ZÉ DE JULIÃO: A SAGA DE UM EX-CANGACEIRO DE LAMPIÃO. Adquira já o seu com Rangel pelo cel/whats (79) 99830-5644, ou com Manoel Belarmino pelo cel/whats (79) 9 9911-6318. Uma história impressionante!

A imagem pode conter: 1 pessoa, texto

OBS: Já adquiri 02 exemplares. eu recomendo em face do volume de informações/doc. acerca desse famoso personagem . (adendo por Volta Seca).



http://blogdomendesemendes.blogspot.com

MORENA


Por Hamilton Santos

Tua presença clareia a noite
E Ilumina todo o meu ser
O luar dos teus olhos ateia
O fogo do meu bem querer

Tem tanto sol no teu rosto
Tens tanta alegria em ser
Afastas de mim os desgostos
E me enches de amor por viver

Contigo cada dia é promessa
Que teu sol brilhará pra nós
Que o amor e a felicidade
Estarão em felizes arrebóis

Morena já sou teu cativo
E de tanto te amar me perdi
Ou vivo sempre contigo
Ou morro de amor por aí.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

NAPOLEÃO TAVARES NEVES: O CANGAÇO, LAMPIÃO E PADRE IBIAPINA, NO CARIRI

Fonte: YouTube  Canal:Aderbal Nogueira

Em 1869, por ocasião de uma de suas missões de evangelização, o Padre Ibiapina em visita à capela do Bom Jesus dos Aflitos localizada nas terras do senhor Antônio Emanuel de Caldas, conhece a fonte do Bom Jesus nas proximidades do local. Por acreditar nas propriedades curativas das águas minerais, o padre passa a recomendar o banho e a ingestão destas aos fieis. A partir de então a fonte do Bom Jesus, na localidade de Caldas, passa a receber uma quantidade considerável de pessoas em busca de suas propriedades medicinais. Com o passar dos anos foram surgindo casas e pontos comerciais no povoado. Uma nova igreja foi construída, assim como um cemitério e em 1946 fundou-se a Escola Rural do Caldas. Em 1958, por obra do DNOCS, foi construída a estrada que liga o povoado à cidade de Barbalha. Atualmente as fontes do balneário do Caldas em Barbalha é um dos pontos turísticos mais procurados da região e aqui, no Caldas, temos algumas passagens marcantes da historiografia do cangaço e do messianismo, nesta oportunidade nos contadas pelo memorialista Napoleão Tavares Neves, captada pelas lentes de Aderbal Nogueira por ocasião da visita do Cariri Cangaço ao Caldas em agosto de 2010 dentro de nossa segunda edição.
 
Napoleão Tavares Neves
Cariri Cangaço 2010
Imagens e Edição: Aderbal Nogueira

E AS RIQUEZAS DOS CANGACEIROS QUEM FICOU COM ELAS?


Por José Mendes Pereira

Assim que os cangaceiros foram abatidos na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, no Estado de Sergipe, em terras da cidade de Poço Redondo quem teria coragem de perguntar pelas riquezas dos cangaceiros? 

Cariri Cangaço: Mané Véio: O feroz da Santa Brígida Parte II Por ...
Volante Mané Véio

Foi solicitado pelo comandante das volantes que tudo deveria ser jogado ao chão e dividir de igualdade com os outros policiais. Mané Véio com as riquezas do cangaceiro Luiz Pedro dentro do seu bornal, além das mãos que ele tinha cortado do infeliz para tirar os anéis só em casa, bateu o martelo que não dividiria nada com ninguém, e aquele que o enfrentasse na intenção de tomar, morreria. 

E quem era doido para enfrentar um maluco com uma arma na mão e cheio de ambição? Mané Véio foi tão cruel que matou a sua primeira esposa Cidália por ciúmes. Anos depois mandou matar a 2a. esposa também por ciúmes, só que na morte foi com ela a sua filha também. O pistoleiro encomendado acertou as duas em uma parada de ônibus. 

http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

NO TEMPO DO CANGAÇO MESMO HUMILHADO, NINGUÉM TEVE MAIS SORTE NO SEU MUNDO DO CRIME DO QUE O CAPITÃO LAMPIÃO.

Por José Mendes Pereira

Às vezes eu mesmo imagino que escrevo besteiras sobre o movimento social do cangaço, mas fico satisfeito, porque os meus relatos são bem recebidos pelos amigos do blog do “Mendes e Mendes” e do facebook, com bastantes acessos em ambos, e não escrevo para ferir nenhuma autoridade no que diz respeito ao tema, como os escritores, pesquisadores e historiadores, apenas apresento as minhas inquietações sobre alguns depoentes que não usaram a seriedade quando foram entrevistados, disseram isso e depois algum desmentiu a si mesmo, mas outros fizeram o papel de bons declarantes, sem acrescentarem fatos que não aconteceram nas jornadas cangaceiras.

Uma das razões quando eu digo que escrevo besteiras é não ser conhecedor como muitos que estudam o cangaço e conhecem desde o século XVIII, com o aparecimento do primeiro cangaceiro do Nordeste do Brasil, que foi o pernambucano José Gomes o Cabeleira; e detalham cada reinado de chefes famosos de bandos de cangaceiros com firmeza como o Jesuíno Brilhante, o Antonio Silvino, Sinhô Pereira e o próprio Lampião, os quais viveram os seus movimentos desastrosos em épocas diferentes. Mas o cangaço teve seu fim no dia 25 de maio de 1940, quando o último cangaceiro que ainda reinava no sertão do Nordeste o Corisco ou Diabo Loiro foi baleado e preso pelas armas do então tenente Zé Rufino, e com horas depois veio a óbito.

Eu vi de perto através das minhas lentes oculares, aqui em minha casinhola, sentado em uma cadeira, num banco ou numa rede, sem sair do lugar, nos livros que eu tenho lidos o que os escritores e pesquisadores escreveram e continuam escrevendo, tudo que viram nas suas pesquisas por estes sertões de catingueiros. Ma eu não vi os personagens que participaram de toda trama e das maldades feitas por eles nos sertões sofridos e desprezados pelas autoridades governamentais. 

O ex-cangaceiro Asa Branca

Somente conheci um personagem do cangaço, não só de terno e gravata, mas pessoalmente, Antonio Luiz Tavares o ex-cangaceiro Asa Branca, apesar de que morávamos em Mossoró no mesmo bairro e bem próximos um do outro, mas sem nunca eu ter conversado com ele. Em anos remotos todos nós temíamos um papo com  pessoas que eram chamadas de assassinas.

Não resta dúvida o capitão Lampião foi um dos que mais sofreu covardias e humilhações durante os seus anos vividos aqui em nosso chão. O primeiro que tentou vencê-lo foi o seu vizinho Zé Saturnino quando o futuro cangaceiro descobriu peles dos animais do seu pai em uma casa de um morador do fazendeiro. Ele não aceitando a sua descoberta, a partir dali, o ódio entre as duas famílias começou. Lampião tinha desejo de matá-lo, apesar das tentativas,  mas nunca conseguiu.

Zé Saturnino - Primeiro inimigo de Lampião - YouTube

O segundo acontecimento triste foi quando a mãe dona Maria Sulena da Purificação infartou, a causa, ficara desgostosa com o que fizera o seu vizinho e amigo Zé Saturnino com a sua família. O seu coração não aguentando tamanha pressão, veio a óbito no ano de 1920. 

Caiçara dos Rios dos Ventos: A MORTE DO PAI e DA MÃE de LAMPIÃO
Os pais de Lampião

Dias depois o pai José Ferreira dos Santos perdeu a sua vida para o militar Zé Lucena, que em perseguição aos seus filhos Antonio Ferreira, Levino Ferrai e Virgolino Ferreira da Silva, findou assassinando um homem que tinha boa conduta e nada a ver com as desordens dos seus filhos. O tenente Zé Lucena seria bem mais difícil de  Lampião passá-lo no seu mosquetão, porque ele vivia rodeado de policiais todos comandados por ele.

Lampião aceso: O inimigo nº 2 de Lampião
Coronel Zé Lucena

Posteriormente, o terceiro acontecimento covarde foi praticado pelo o coronel Isaías Arruda nascido na cidade de Aurora, no Estado do Ceará, quando tentou matar o capitão Lampião juntamente com os seus empregados, servindo um almoço para toda cabroeira com comidas  envenenadas

Biografia do Coronel Isaias Arruda, ex-prefeito de Missão Velha ...

A sorte foi que o capitão Lampião tinha uma colher de metal e ao colocá-la em um dos alimentos, percebeu que a comida estava envenenada. Tudo já estava combinado caso o capitão caísse nessa armadilha preparada pelo o coronel Isaías Arruda. Mas ele foi astuto, conseguiu fugir com o seu bando do cerco que os capangas do Isaías Arruda fizeram ao redor da casa. Depois Lampião teve vontade de matá-lo, mas não houve oportunidade, já que não estava mais em terras cearenses.

Blog do Mendes & Mendes: INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA....Livro: " SAGA ...

A quarta covardia  foi feita pelo fazendeiro Antônio Teixeira Leite seu Antonio da Piçarra, em Jati, também no Estado do Ceará, entregando o capitão Lampião  às autoridades militares do governo, enquanto eles estavam com o coito armado na barreira do seu açude, e nessa noite, houve combate e o chefe perdeu o seu maior amigo desde a velha-guarda, o cangaceiro Sabino Gomes.

No detalhe, cangaceiro "MERGULHÃO" (Antonio Juvenal), quando posava para a câmera de Alcides Fraga, em 17/12/ 1928, no lugarejo Ribeira do Pombal/BA.

Este foi ferido e como não tinha mais jeito de sobreviver pediu a Lampião que o matasse, mas Lampião disse-lhe que não tinha coragem para matar um amigo e nem ordenava a sua execução. Depois de tanto sofrimento de Sabino e conversa entre os cangaceiros, Mergulhão vendo o estado crítico do seu companheiro disse ao rei Lampião que tinha coragem de executá-lo. E com um tiro no ouvido Mergulhão o matou. 

MORENO - (100 anos) Cangaceiro * Tacaratu, PE (01/11/1909) + Belo ...
O cangaceiro Moreno

Alguns falam que o capitão Lampião incumbiu o cangaceiro Moreno para vingar a covardia feita pelo seu Antonio da Piçarra, mas parece que Moreno não confirmou aos escritores e pesquisadores que este pedido Lampião havia lhe feito.

Mas mesmo com todo sofrimento o que não faltou para Lampião foram as proteções que chegavam de todos os lados. Parece que mesmo tendo sido um marginal de alta periculosidade o poder supremo não lhe via como um demônio e vingativo sobre a terra, porque ele continuava fazendo as suas algazarras, e com isso, viveu quase vinte anos no mundo do crime e das desordens sem nunca ser preso.

Blog do Mendes & Mendes: COMO MANTER O BANDO ABASTECIDO!
Lampião pagando ao coiteiro seus serviços prestados.

Lampião teve tanta sorte no seu mundo de crimes que recebeu apoio de uma porção de gente, e nesse meio, estavam figuras importantes como grandes fazendeiros, coronéis, padres, juízes, políticos, prefeitos, catingueiros, coiteiros, policiais que não cumpriam com a sua responsabilidade. 

E para facilitar mais ainda a sua vida de bandoleiro e dos seus comandados, quase não existiam estradas e rodagens, e assim, o velho guerreiro e o seu bando podiam percorrer quantos pedaços de chão sertanejos sem medo, apenas aqui e acolá, um ataque de volantes aparecia em seu rasto. Mas geralmente Lampião e seu grupo de cangaceiros eram vencedores.

Mas estes apoios teriam sido dados porque as armas mortíferas do capitão e dos seus comandados estavam em suas mãos e eles os temiam? Ou era porque o velho guerreiro sabia muito bem conquistar o seu futuro povo que poderia o ajudar nessa jornada?

O capitão Lampião tinha jeito de conquistador, de bom rapaz, dono de bom papo, usava o respeito como uma maneira de ludibriar aqueles que ele desejava fazê-los de amigos. Apesar dos seus crimes cabeludos, Lampião era generoso e tentava a paz, mas não era visto por alguns com bons olhos. 

Os remanescentes de Lampião nenhum falou mal do rei e o que os pesquisadores ouviram deles que restaram da “Empresa de Cangaceiros Lampiônica & Cia., que pertencia ao grande chefe, era um homem educado, Mente brilhante, humildade e sabedoria, prestativo, atencioso a quem conversava com ele, respeitador e amigo daqueles que queriam fazer parte do seu círculo de amizades. Lampião poderia ser um ser indesejável no planeta, mas parece que as pessoas o viam como um bom homem mesmo.

Coiteiro do capitão lampião Mané Félix.

O coiteiro Mané Félix que de todos eles que prestavam os seus serviços aos cangaceiros, principalmente ao capitão Lampião,  foi o último a falar com ele na noite do dia 27 de julho de 1938, o recadeiro o tinha como um amigão, e chegou a dizer aos pesquisadores que em Poço Redondo ele nunca fez nada contra a ninguém. 

Nós que estudamos cangaço sabemos que o capitão Lampião não era nenhum santo sobre a face da terra, ele era simplesmente o que era, mas não tanto como as pessoas diziam que ele fazia só maldades. Ele chegou a ajudar algumas pessoas, mas não souberam aproveitar a sua boa vontade. Traído por alguns desses que ele os ajudou e não agradeceram, o mais correto para ele era se vingar. E assim fazia a vingança da sua maneira.

 http://blogdomendesemendes.blogspot.com

sexta-feira, 3 de julho de 2020

LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS


Fazer o quê? Não é vaidade, O Edson, mas não tenho como me conter diante de um elogio como este. Eis o que escreveu em sua página no Facebook um cidadão de Floresta, Pernambuco, a respeito do meu livro:

“O livro Lampião - a Raposa das Caatingas, do escritor José Bezerra Lima Irmão, nos leva à verdadeira essência do Cangaço no Nordeste Brasileiro, de linguagem fácil e compreensão, em sua pesquisa séria, e quando você começa a ler esse magnífico livro não quer mais para. Um livro desse é escrito a cada 100 anos, uma verdadeira obra-prima, para historiadores pesquisadores amantes do Cangaço. Eu recomendo essa grande obra do meu amigo José Bezerra Lima Irmão”.

A mensagem é de Giovane Macário Gomes de Sá. Conhecemo-nos em Floresta, no recente encontro em Floresta, organizado pelo incansável Manoel Severo Barbosa.

Peça-o através deste e-mail:

franpelima@bol.com.br

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

MORRE O ATOR LEONARDO VILLAR QUE INTERPRETOU LAMPIÃO NO FILME "LAMPIÃO - O REI DO CANGAÇO" DE 1964.

Direção de Carlos Coimbra.

Clique no link para você ler todo conteúdo e ver as fotos.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

A MORTE DE EZEQUIEL FERREIRA

Por João de Sousa Lima

Dia 11 de julho de 2018, eu, Sandro Lee e Nilton Negrito estivemos traçando um dos Roteiros do Cangaço em Paulo Afonso e demarcamos um dos mais famosos  pontos da história  em nossa região.Na Lagoa do Mel colocamos uma cruz marcando o local da morte de Ezequiel e onde também morreram 16 soldados.Essa ação faz parte do movimento Rota do Cangaço que eu e Sandro Lee estamos lutando há anos para tornar realidade em nossa cidade. Já pontuamos vários espaços onde houve histórias sobre o tema. Ainda falta alguns locais a serem delimitados para podermos finalizar esse projeto, que esperamos encerrar ainda em 2018.

PARA ENTENDER UM POUCO MAIS DA HISTÓRIA SOBRE  O LOCAL ONDE ESTIVEMOS E ONDE MORREU EZEQUIEL, IRMÃO DE LAMPIÃO...

Um dos mais ferrenhos combates de Lampião na Bahia aconteceu em Paulo Afonso, no povoado Baixa do Boi. Nesse confronto morreu, a principio,  16 soldados  e posteriormente, em fuga e perdidos, morreram mais 3 policiais.

O cangaço era movido por tiroteios, mortes e ferimentos. Lampião foi grande estrategista e astucioso, com uma grande capacidade de pressentir o perigo que constantemente o rondava. O famoso cangaceiro vivia dividido entre os inúmeros combates e mesmo tendo desenvolvido uma quase perfeita estratégia de segurança, contando com o apoio dos numerosos coiteiros, tinha sempre a morte rondando seus dias e sofreu consideráveis baixas em seu contingente. Entre seus maiores dissabores ele sofreu trágicas perdas e ver alguns irmãos sucumbirem em combates sobre sua proteção, foi doloroso. No campo de luta ele viu três irmãos morrerem. O primeiro morto em combate foi o Livino ferreira da Silva, no ano de 1925, em um tiroteio acontecido na fazenda baixa do Juá, próximo a cidade de Flores, Pernambuco, com volantes paraibanas comandadas pelos sargentos José Guedes e Cícero de Oliveira. Livino faleceu oito dias após esse tiroteio, com 29 anos de idade.

Ezequiel Ferreira e Virgínio

O segundo irmão a deixar o mundo dos vivos foi Antonio Ferreira, nascido em 1896 e morto em janeiro de 1927, na fazenda poço do ferro, Tacaratu, Pernambuco, propriedade do coronel Ângelo da Jia, em decorrência de um acidente ocasionado por Luiz Pedro, que disparou sua arma acidentalmente atingindo o próprio amigo. O terceiro morto em combate foi Ezequiel Ferreira da Silva, o mais jovem irmão, nascido em 1908. Ezequiel passou a acompanhar Lampião em 1927, junto com o cunhado Virgínio. Ele tinha o apelido de Ponto Fino, alcunha adquirida pela justeza do seu tiro. Sua morte aconteceu em Paulo Afonso, Bahia, no povoado Baixa do Boi, terras pertencentes na época a santo Antonio da Glória do curral dos Bois.

O tenente Arsênio Alves de Souza chegou ás imediações do povoado Riacho com uma volante composta por aproximadamente 20 soldados e tendo como guia os dois irmãos Aurélio e Joví, que eram fugitivos da cadeia de Glória, preso pelo inspetor de quarteirão, o senhor Pedro Gomes de Sá, pai da cangaceira Durvinha. A volante chegou ao povoado riacho no dia 23 de abril de 1931, trazendo entre seu aparato bélico uma metralhadora Hotchkiss. O primeiro contato do tenente no lugar foi com Zé Pretinho e o jovem foi forçado a seguir com os policiais. Cruzaram o terreiro de dona generosa Gomes de Sá, coiteira de Lampião e foram armar acampamento na Lagoa do Mel, um tanque construído por Antonio Chiquinho.

Tenente Arsenio

Sargento Leomelino Rocha

Enquanto a policia se preparava para passar a noite na lagoa do Mel, outras fontes confiáveis de informações de Lampião se dirigiam para o povoado Arrasta-pé para avisar ao Rei do Cangaço sobre a presença dos militares nas proximidades. Lampião mandou avisar Corisco e Ângelo Roque, que estavam arranchados bem próximos e junto com eles combinaram um ataque aos soldados.

Ainda com o escuro da noite, próximo ao amanhecer, Lampião recolheu alguns chocalhos com Pedro Gomes e seguiu as veredas que davam a cesso a lagoa do mel.No coito da policia, prestes a amanhecer, o Zé Pretinho saiu com o intuito de pegar um bode para fazer parte do desjejum de todos ali. Com a escuridão se transformando em luz, os soldados ouviram o tilintar de chocalhos e imaginaram que seriam os bodes se aproximando para beber água (um dos sobreviventes desse combate, o soldado José Sabino, ordenança do tenente, relatou, anos depois, que realmente confundiram os chocalhos, achando que eram alguns caprinos se aproximando para beber água na lagoa). Na verdade eram os cangaceiros cercando o coito.

Despreocupados, os policiais sofreram um forte e inesperado ataque, uma verdadeira chuva de balas caiu sobre eles. Vários corpos caíram atingidos por balas mortais e certeiras. A dificuldade encontrada pelos soldados foi que eles cometeram um grande vacilo. A lagoa do Mel era rodeada por uma cerca de varas e eles haviam dormido dentro do cercado. Quando eles tentavam transpor as madeiras se transformavam em alvo fácil e caiam mortalmente feridos. Um exemplo dessas mortes trágicas foi a do sargento Leomelino Rocha que morreu e ficou de pé pendurado nas madeiras. Em um dos bolsos desse sargento lampião encontrou um bilhete do coronel Petro indicando alguns locais onde ele se escondia.



O tenente Arsênio diante o desespero do momento, conseguiu efetuar uma rajada de metralhadora e acabou acertando a barriga de Ezequiel Ferreira. A arma depois emperrou e o tenente conseguiu retirar o percussor (ferrolho) da arma e fugiu levando a peça que deixaria a arma inutilizável. Nesse dia Lampião chorou amargamente a morte do irmão caçula e teve que enterrá-lo, com a ajuda de Antonio Chiquinho, próximo a Lagoa do Mel.Era a vida dos que viviam pelo poder das armas, que tombavam no dia a dia, pelo aço lacerante do pipocar das artilharias dos diversos grupos que traçaram as páginas do cangaço no nordeste brasileiro.

João de Sousa Lima
Paulo Afonso 12 de julho de 2018
https://joaodesousalima.blogspot.com/2018/07/a-morte-de-ezequiel-ferreira-as-cruzes.html
Membro da SBEC- Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
Membro da Academia de Letras de Paulo Afonso – cadeira 06


http://blogdomendesemendes.blogspot.com