“…E não apenas Vila Nova, lavrador correto; Dadá, grande mãe de família; Bananeira, funcionário municipal em Salvador; Volta Seca, empregado em Leopoldina; Deus-te-guie, benquisto professor de artesanatos de uma grande escola de menores abandonados; Saracura, excelente guarda de um notável instituto científico, na Bahia; Labareda, porteiro do conselho penitenciário e grande amigo dos presos em dificuldades, na Bahia; Balão, agricultor; Vinte e Cinco, amanuense do Tribunal Eleitoral, em Alagoas; Velocidade, Peitica, Zé Sereno, corretos trabalhadores agrícolas, em São Paulo; Criança, abastado fazendeiro no sul do país… fruem condigna existência.
Em contra-posição, fala-se que, recentemente, foi abatido, no Rio, outro Azulão, sem que obtivéssemos a certeza de que foi um ex-cangaceiro.
Desconhecemos, assim, qualquer transgressão de elementos dos antigos bandos, às boas normas, neste quarto do século.
Outros nomes poderiam ser ajuntados. E as notícias a respeito desses, igualmente boas. Devoção, Patativa, Candieiro, Laranjeira, Rio Branco, Boa Vista, Quixabeira, Quina-Quina, Pancada, Gorgulho, Pitombeira, Duca, Pedro Supriano e Santa Cruz. Até aquele impetuoso e altamente destemido - Moita Brava, algumas vezes falado neste livro.
Logo nos primeiros tempos que se seguiram à derrocada do cangaço, pelas armas de Bezerra, Ferreira e Aniceto, andou Beija-Flor em alvoroços de rebeldia, uns tiros em Sergipe, outros na Bahia. Antes de o ano de 39 findar-se, aquietou-se, mergulhando no mundão sertanejo, entregando-se ao comércio honesto, vivendo hoje tranquilo, folgado economicamente.”
O Mundo Estranho dos Cangaceiros - Estácio de Lima.
No registro, o ex-cangaceiro Ângelo Roque e o antigo coiteiro Antônio da Piçarra.
Doença nunca foi coisa Para pessoa guardar. A medicina garante Sem receio de errar, Que é melhor prevenir Do que arremediar. 1 Então você que é homem Procure se precaver, Evite o câncer de próstata, É melhor se proteger Do que descobrir depois... Que tem um pra combater. 2 Cuidar da própria saúde Pelo bem do próprio bem E não deixar pra cuidar Depois que a doença vem, É atitude de homem Que ama a vida que tem. 3 Não deixe pra ir ao médico Só quando estiver doente, Para você que não sabe Cuidar do corpo e da mente Aqui neste mundo é coisa Pra quem é inteligente. 4 Em toda Unidade Básica De Saúde do Estado, Você procurando tem Como ficar informado Sobre o que deve fazer Pro câncer ser evitado. 5 Informações preventivas Você vai ter sem pagar, Faça todos os exames Que o médico solicitar Que o mal descoberto cedo É mais fácil de curar. 6 Nosso corpo tem mistérios Pra entender me concentro! Comparemos com um ovo Que a gema fica no centro, De fora não dá pra gente Saber como está por dentro. 7 Hoje em dia o Ministério Da Saúde Nacional Oferece uma política De Atenção Integral À Saúde Masculina, Para os homens, nada mal! 8 Depois dos quarenta e um Procure quem lhe ajude, Faça o exame do toque, Prime por essa atitude, Não faz vergonha nenhuma Cuidar da própria saúde. 9 Hoje o PSA Também é recomendado E em caso de suspeita O médico tem o cuidado Redobrado de cuidar Do que deve ser cuidado. 10 Não deixe pra se cuidar Tarde demais, por favor! A próstata depois que vira Um perigoso tumor Tira mais de 100 por cento Do prazer do portador. 11 O intuito das políticas Públicas, hoje na verdade, É trazer os homens para Dentro da nossa Unidade De Saúde, pra tira-los Da invisibilidade. 12 Próstata fica na parte Mais baixa do abdômen. Por razões que não conheço Só nasce no bicho homem E em seu estado avançado Causa dores que não somem. 13 Do mal da próstata, conheça Os verdadeiros sinais. Um é a polaciúria Que faz urinar demais E o outro a hematúria Que urinar sangue, faz. 14 Tem mais a incontinência Urinária, com poder De fazer o portador Se urinar sem saber E a interrupção Do jato que traz sofrer. 15 O câncer de próstata é Diz a ciência de cor, O sexto tipo no mundo Mais comum e de maior Incidência no ser, homem, Dentre outros o pior. 16 Três quartos dos casos hoje No mundo, eu li nos jornais, Que ocorrem, justamente, Em homens que já têm mais De sessenta e cinco anos, Esses dados são reais! 17 Deve ser triste pro homem Molhar a roupa sem ver Ou não poder controlar A vontade de fazer Xixi, estando num canto Que está lhe dando prazer. FIM ------------------------------------------ Impresso na M Gráfica-Mossoró-RN, Dia 9 de outubro de 2017.
Enviado pelo saudoso professor, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano José Romero de Araújo Cardoso, em 26 de outubro de 2017.
Morre Ney Latorraca, aos 80 anos, no Rio de Janeiro. O ator
e diretor morreu na manhã desta quinta-feira, 26, na capital fluminense. O
artista estava internado desde o dia 20 de dezembro em uma clínica na Gávea por
causa de um câncer de próstata; a morte se deu por uma sepse pulmonar. Ney
Latorraca se destacou em papéis em novelas e programas humorísticos da TV
Globo, como ‘Vamp’ e ‘TV Pirata’. O artista deixa o marido, o ator Edi Botelho,
com quem era casado há 30 anos; o local e horário do velório e cremação ainda
não foram definidos. Imagens: Estadão Conteúdo
Ainda não capitão, Virgolino Ferreira da Silva, de Villa Bela, atual Serra Talhada, no Estado de Pernambuco, o famoso e sanguinário cangaceiro Lampião, encontra o religioso Padre Cícero Romão Batista no município de Juazeiro do Norte, no Ceará.
Iniciamos hoje
o Cangaço Eterno Retrô, onde todos os dias relembraremos os vídeos do canal,
vindo dos mais antigos aos atuais. Começamos com o PRIMEIRO vídeo do canal,
onde falamos da série "OS PRECURSORES DO CANGAÇO".
Conheça mais
sobre José Gomes, vulgo Cabeleira e Lucas Evangelista, vulgo Lucas da Feira.
Esses para alguns pesquisadores foram cangaceiros (hoje eu não os acho).
Peço que tenham paciência, pois esse vídeo tem mais de 4 anos e minha dicção era péssima, eu nunca tinha narrado nada na vida, era o início de um sonho que deu certo.
https://youtu.be/iO1eOZ9chQE?si=RfAfS5ksLApB2BzB
Deixe sua
opinião no espaço destinado para comentários sobre o vídeo. Tenham um excelente
dia e feliz Natal a todos.
José Alves
Matos nasceu no dia 08 de março de 1917 na fazenda Alagoinha, município de
Patrocínio do Coité, hoje Paripiranga, Bahia.
Cresceu em uma
zona pobre influenciada pelo cangaço, de uma família numerosa contando oito
irmãos, seis irmãs e mais cinco homens e três mulheres de um casamento
posterior de seu pai. Teve vários primos e sobrinhos no cangaço, tais como:
Santa Cruz, Chumbinho II, Zepelin, Ventania, Pavão e Azulão III, entre outros.
Pela constante
perseguição das volantes, entrou para o bando de Corisco aos 16 anos de idade,
em 25 de dezembro de 1933, dia de Natal. Recebeu pela data, a alcunha de
"Vinte e Cinco".
Com o passar
do tempo, por desavenças com Dadá companheira do chefe, saiu e passou a
acompanhar os grupos de Mariano e depois de Luiz Pedro e Lampião.
Após quatro
anos e sete meses de batalhas nos sertões nordestinos, no dia 28 de julho de
1938, coito de Angico, local da morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove
cangaceiros, escapou da tragédia por sorte do destino: fora buscar munições e
mantimentos longe do local de combate.
Depois da
morte do Rei do Cangaço, Vinte e Cinco se manteve escondido até se entregar às
autoridades com o grupo do cangaceiro Pancada, no dia 15 de outubro de 1938, no
município de Porto da folha, hoje Poço Redondo, Sergipe. No dia 17 do mesmo mês
foram escoltados a Piranhas, Alagoas. Mais tarde encaminhados a Santana do
Ipanema e Maceió.
Vinte e Cinco
se negou a colaborar no período da perseguição aos companheiros do tempo do
cangaço que não tinham se entregado. Ficou preso por quatro anos em Maceió.
Estudou dentro da cadeia, onde tinha certos privilégios. No dia 10 de fevereiro
de 1943, recebeu o alvará de soltura. Por indicação de um amigo, conseguiu
entrar no Estado como guarda civil. Mais a frente prestou concurso para o
Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, foi aprovado e reconstruiu a sua vida
até se aposentar.
Extrovertido,
concedeu várias entrevistas contando pormenores da vida na caatinga,
contribuindo para o enriquecimento da historiografia do cangaço.
Foi o último
cangaceiro vivo do bando de Lampião antes de Dulce, companheira do cangaceiro
Criança, que se foi no ano de 2022.
O servidor
público morreu na manhã de domingo, aos 97 anos, no dia 15 de junho de 2014, na
sua residência em Maceió, vítima de insuficiência respiratória. Deixou esposa
Mariza da Silva Matos com quem foi casado por mais de 50 anos, sete filhos e 16
netos.
REFERÊNCIAS:
BONFIM, Luiz
Ruben F. de A. Fim do cangaço: as entregas. Paulo Afonso: Graftech, 2015.
OLIVEIRA,
Bismarck Martins de. Cangaceiros de A a Z. 2.ed. João Pessoa. Mídia Gráfica e
Editora, 2020.
Por Rostand MedeirosLampião e família, em foto por ocasião de sua visita a Juazeiro em 1926
A história da famosa promoção a capitão do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, ocorrida em Juazeiro, no ano de 1926, é de conhecimento de todos e um tema já bastante divulgado. Sobre o homem que realizou este procedimento, Pedro de Albuquerque Uchoa, muito já foi igualmente comentado. Quem primeiro trouxe a história da patente e a figura de Uchoa ao conhecimento geral foi o cearense Leonardo Mota (1891-1947), no seu livro “No tempo de Lampião”. Lançado em 1930, a entrevista transcrita de Uchoa, colocou este funcionário público no centro das atenções.
Três anos após o lançamento do livro de Mota e sete anos depois deste acontecimento “burocrático-cangaceirístico”, Uchoa teceu mais alguns interessantes comentários relativos a este pitoresco episódio da trajetória do Rei do Cangaço.
Matéria com Uchoa
Através da reprodução das páginas de um vespertino carioca, apresentadas na primeira página do jornal sergipano “Diário da Tarde”, de sexta-feira, 29 de setembro de 1933, vamos encontrar o funcionário público Uchoa, aparentemente vivendo na antiga Capital Federal. Pela descrição no jornal, tudo indica que ele não era mais um membro dos quadros do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Era apresentado pelo jornal como funcionário da “Secretaria do Tribunal”, sem especificar se era um tribunal ligado a justiça Estadual ou Federal.
O jornalista que realizou a entrevista informa que se espantou ao descobrir que estava diante do homem que forçadamente provocou uma interessante querela burocrática e o mesmo, em nenhum momento da entrevista, negou o seu ”feito”.
“- Fui eu mesmo, quando estava no Juazeiro, Ceará”. Afirmou Uchoa.
Pedro de Albuquerque Uchoa. Fonte-2ºSgt Narciso.
Mas como tudo ocorreu. Para reavivar a memória de todos, recorro ao excelente livro “Padre Cícero-Poder, Fé e Guerra no Sertão”, de autoria do jornalista e escritor cearense Lira Neto, que no capítulo 11, páginas 463 a 482, traça detalhadamente os episódios que culminaram na criação da patente de capitão para Lampião.
No ano de 1925, o então presidente da República Arthur Bernardes idealizou um plano para derrotar os componentes de uma coluna de oficiais rebelados do Exército Brasileiro, que percorriam os sertões na esperança de insuflar a massa com o seu exemplo de luta, derrubar o presidente e alterar a ordem vigente na nação. Comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro dias Lopes, Siqueira Campos, eram conhecidos na época como revoltosos.
Floro Bartolomeu
Eles estavam no início de 1926 adentrando o Ceará, vindos do Piauí. O presidente da República convoca Floro Bartolomeu da Costa para organizar a resistência aos rebelados no Ceará. Floro era um médico baiano, que vivia em Juazeiro, era deputado federal, muito ligado ao Padre Cícero Romão Batista e que em 1914, havia organizado um movimento sedicioso que culminou com a derrubada do então governador cearense, Franco Rabelo. Parecia o homem certo para a função. Floro procura o Padre Cícero, carismático prefeito e religioso de Juazeiro, e, com uma dinheirama vinda do Rio de janeiro, organizam os chamados Batalhões Patrióticos. Eram mais de mil homens com uniformes de brim azul-celeste e munidos de modernos fuzis privativos das forças armadas. Foram passados em revista pelo Padre Cícero em 9 de janeiro de 1926 e saíram ao encalço dos revoltosos.
Mas a caçada não deu certo. Afeitos as táticas de guerrilhas e ao constante movimento da tropa pelo sertão, os revoltosos conseguiram driblar os membros dos Batalhões Patrióticos e seguiram atravessando o Ceará.
Batalhão Patriótico em Juazeiro.
Desesperado, o Floro pede mais dinheiro ao governo e amplia a já amalucada ideia de Arthur Bernardes. Ele envia um portador para convocar para a “Guerra Santa”, com uma carta do padre destinada a ninguém menos que Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. No início desconfiado, Lampião acabou aceitando o convite do seu “Padim Ciço”, o homem a quem ele devotava confiança cega e que aparentemente, há algum tempo protegia os seus familiares de vinganças. Virgulino partiu para o Juazeiro. Lira Neto foi muito feliz ao colocar uma frase que exemplifica esta parte desta história; “Deus e o Diabo iriam se encontrar na Terra do Sol”. Mudanças no Meio do caminho. Enquanto Lampião seguia para a “Meca do sertão”, os revoltosos driblavam os Batalhões Patrióticos e seguiam seu caminho de lutas sem nem chegar perto de Fortaleza, ou de Juazeiro, grande temor do Padre Cícero. Neste meio tempo Floro Bartolomeu adoeceu fortemente de sintomas ligados a sífilis e deixou a “frente de combate”.
Coluna Prestes.
Logo a coluna de revoltosos, que entraria para a história do Brasil como Coluna Prestes, passou pelo Rio Grande do Norte (Cidades de São Miguel e Luís Gomes) e seguiu para a Paraíba. Floro Bartolomeu por sua vez rumou para Fortaleza e depois foi de navio para o Rio de janeiro, onde morreria em pouco tempo. Tudo parecia indicar que a tempestade havia passado, mas uma nuvem negra, em formato de um chapéu de couro com a testeira quebrada, se aproximava de Juazeiro. O perigo dos revoltosos poderia ter até passado, mas Lampião vinha cobrar a sua conta para poder “cumprir seu dever cívico”. A princípio o chefe da guarnição policial de Juazeiro pensou em oferecer resistência, mas Padre Cícero não podia aceitar esta situação. Afinal o homem era um convidado e deveria ser bem recebido. Durantes três dias de um final de semana memorável para a cidade de Juazeiro, Lampião e seus homens aproveitaram ao máximo da principal urbe do interior do Ceará.
Na noite de 4 de março de 1926, ocorreu o famoso encontro de duas das mais míticas figuras já produzidas no Nordeste do Brasil. É nessa hora que entra em cena Pedro de Albuquerque Uchoa. Encontro Memorável.
Voltando a reportagem reproduzida sete anos após os fatos, Uchoa comenta que ainda na época em que vivia em Juazeiro, era “muito amigo” do líder político e religioso da cidade. Afirmou que mantinha uma boa relação com o religioso, a ponto de todo dia o Padre Cícero ir tirar um cochilo na sua casa ao meio dia. Nestas horas a casa de Uchoa ficava cheia de romeiros que vinham pedir a benção ao velho padre.
Lampião e seu irmão Antônio Ferreira em 1926.
Sobre os acontecimentos de 4 de março de 1926, Uchoa não narra o que aconteceu antes da chegada de Lampião, mas informa que nesta noite foi acordado por dois “jagunços”, em um sobradinho onde morava com seu contraparente, o cantador João Mendes de Oliveira. Os homens intimaram o funcionário público, afirmando autoritariamente que “-Meu padrinho está chamando o Senhor com urgência”. Uchoa não perdeu tempo e foi logo a casa do Padre Cícero.
Segundo sua narrativa, estes dois homens portavam fuzis a tiracolo, estavam encourados e cheios de “medalhas”. As medalhas no caso, certamente seriam imagens de santos penduradas no peito. Ao escritor Leonardo Mota, Uchoa afirmou que estes homens eram Sabino Gomes e o irmão de Lampião, Antônio Ferreira. Ao chegar a residência do líder de Juazeiro, o Padre Cícero lhe apresentou Lampião e disse, conforme está reproduzido no velho jornal sergipano de 1933.
“- Aqui está o capitão Virgulino Ferreira. Ele não é mais bandido. Veio com cinquenta e dois homens para combater os revoltosos e vai ser promovido a capitão. Olhe, o senhor vai fazer a patente de capitão do Sr. Virgulino Ferreira e a de tenente do seu irmão”.
Evidentemente que Uchoa ficou pasmo, “perplexo” em suas palavras. Fiquei imaginando a cara do pobre coitado do funcionário do Ministério da Agricultura, acordado no meio da noite com esta bomba na mão. Ele ainda tentou argumentar que não podia, mas um dos irmãos de Lampião ponderou na hora.
“- Não, se meu padrinho está mandando o senhor pode”.
O Padre Cícero lhe colocou na condição de “mais alta autoridade federal de Juazeiro” e aí não teve jeito. Com o carismático prefeito ditando os documentos, foram “lavradas” as designações de patente. Segundo Uchoa comentou ao repórter, parte dos termos do documento referente a patente de Lampião foram; “Pelo Governo Federal era concedido a Virgulino Ferreira a patente de capitão do Exército, por serviços prestados a República”. Depois o Padre Cícero foi categórico e ordenou a Uchoa um curto “assine”. Ele colocou a sua firma no controverso documento. Interessante é que em nenhum momento na reportagem, Uchoa pronuncia que concedeu uma patente a um dos mais cruéis e sanguinolentos bandidos de lampião, o famigerado Sabino.
Após os “trâmites burocráticos”, Uchoa afirma que presenciou o temível Lampião, todo equipado, se ajoelhar reverentemente e beijar emocionado a batina do Padre Cícero. Lampião informou ao Padre que se comprometia a “proceder bem”….. Uchoa informou ainda que após o encontro destas duas figuras, Lampião e seus homens receberam suas armas, munições e partiram no meio da noite. Se assim foi, este foi o último ato da visita de Lampião e seu bando a Juazeiro. Um Simples “ajudante de inspetor agrícola”?
A Leonardo Mota, o funcionário público Uchoa afirmou que ao retornar para a sua casa, por volta das onze da noite, tentou argumentar com Sabino e Antônio Ferreira que aquele documento não valia nada e que ele “não passava de um simples funcionário subalterno do Ministério da Agricultura”. Ao que o irmão do cangaceiro-mor do Brasil respondeu secamente que “se o padre dissera que era ele que devia assinar a patente, era porque era ele mesmo”. Uchoa se calou.
O escritor Leonardo Mota.
Ao ler em Mota, que Uchoa se considerava “um simples funcionário subalterno do Ministério da Agricultura”, percebi que na reportagem de 1933, Uchoa informou que era um “simples ajudante de inspetor agrícola”. Ele então se encontrava em um posto mais baixo na hierarquia dos quadros funcionais do Ministério da Agricultura daquela época? Seria obrigatório que um “ajudante de inspetor agrícola”, fosse uma pessoa com formação superior?
A resposta é não necessariamente. Mesmo com o termo “ajudante”, aparentemente esta extinta função do Ministério da Agricultura, conforme se lê em vários exemplares do Diário Oficial da União (D.O.U.) desta época, poderia, ou não, ser exercida por uma pessoa com o título de agrônomo. Encontrei várias transferências publicadas no D.O.U., do início da década de 1930, onde vemos inúmeros “ajudantes de inspetor agrícola” sendo remanejados. Alguns aparecem com o título de “agrônomo” adiante do cargo, em outros não.
Mesmo não tendo encontrado nada designando Uchoa como agrônomo, eu acredito que ele tinha sim esta formação. O interessante é que na entrevista concedida no Rio, sete anos depois do episódio em Juazeiro e reproduzida na primeira página do jornal sergipano “Diário da Tarde”, em nenhum momento Uchoa comenta sua formação superior. Isso em uma época onde o Brasil era tão carente de educação, que quem era “Dotô” fazia questão de dizer a todos sobre a sua superioridade acadêmica e ainda mostrar o seu anel de formatura.
Das duas uma; ou Uchoa era um homem muito humilde, ou o repórter do tal vespertino carioca era muito fraco… Certamente o Padre Cícero, em muito pouco tempo, deve ter se arrependido de dar continuidade à ideia de Floro de trazer Lampião a Juazeiro. Logo Lampião percebeu que de seus “colegas de farda”, estes não viriam até ele com salamaleques típicos de militares e nem com continências. Deles, Lampião só iria receber bala. Sobre a sua luta contra os revoltosos da famosa Coluna Prestes, existem indicações que Lampião e seu bando travaram um pequeno combate, sem maiores consequências, em Pernambuco. Depois o cangaceiro decidiu continuar seu caminho de depredações, saques e violências, do qual era um especialista, deixando de lado a promessa feita ao Padre Cícero.
Mas quem não deixou passar em branco a situação foram os jornais da época, que se mostraram extremamente impiedosos nas críticas ao líder de Juazeiro.
As manchetes do jornal recifense “A Noite”, de 10 de agosto de 1926, aqui apresentadas, dão uma ideia do que o Padre Cícero sofreu. O texto então é pior ainda. Nele encontramos; “E ainda agora, para coroar toda esta obra de misérias que o Padre Cícero vem desenvolvendo ao longo de anos, Lampião passeia a sua impunidade nas ruas de Juazeiro, garantido e hospedado pelo padre satânico”.
Em minha opinião o Padre Cícero não percebeu a extensão do estrago que ocorreria quando decidiu dar prosseguimento ao plano desorientado de Floro Bartolomeu. Alguém se esqueceu de lembra ao padre que seria muito difícil fazer com que certos componentes de volantes que combatiam os cangaceiros, teriam agora de parar a sua luta figadal contra o facínora e seus homens, e ainda mais, teriam de prestar continência ao capitão Virgulino. Isso tudo apenas por uma ordem emanada de Padre Cícero e sacramentada pela “mais alta autoridade federal de Juazeiro”, um “ajudante de inspetor agrícola”.
Para a imprensa do país e certos setores da elite que governava a nação, a ação do Padre Cícero foi considerada, no mínimo, “desastrada” e só serviu para manchar a sua biografia. Sobrou até para o pobre do Uchoa. Segundo a reportagem de 1933, ele teve de prestar contas do ocorrido a ninguém menos que o próprio ministro da agricultura.
Uchoa não informa se foi ao titular da pasta durante a gestão Arthur Bernardes, o baiano Miguel Calmon du Pin e Almeida, que ele teve de narrar os fatos. Ou se prestou contas ao sucessor deste, o paraense Geminiano Lira Castro. Já o paulista Paulo de Morais Barros, que assumiu o ministério depois da Revolução de 1930, na mesma época que ocorreu o lançamento do livro de Leonardo Mota, que tornou o “simples funcionário subalterno do ministério da Agricultura”, em alguém que mereceu um encontro com o titular do ministério.
Com qual ministro se encontrou, não importa. O que importa foi que neste encontro ele falou a autoridade, o mesmo que havia dito a Leonardo Mota; “Naquele momento eu lavraria até a demissão do presidente da República”… Não sei se esta verdadeira “epopeia burocrática” trouxe a Uchoa algo mais do que constar nos livros de história do cangaço.
O maior beneficiado com a visita a Juazeiro foi Lampião.
Sem dúvida alguma, apenas uma pessoa saiu ganhando deste episódio e ele foi Lampião. Além de receber novos fuzis e munições, vaidoso como era, deve ter adorado a sua “patente”. Pois assim passou a assinar seus bilhetes e seus cartões que continham sua fotografia. A partir do dia que Uchoa assinou aquele papel, todos os nordestinos que ficaram diante de Lampião, desde um rico coronel na sua casa-grande, ao simples lavrador na sua tapera, passaram a tratá-lo como capitão.
Uma situação chama atenção. Lampião sabia que nao lutaria mais com a Coluna Prestes? A Coluna Prestes cruzou o Rio Grande do Norte em 4 de fevereiro de 1926, depois foi para a Paraíba e Pernambuco. Lampião só chegou a Juazeiro em 4 de março. É possível que ele soubesse por onde andava a Coluna? Certamente. Os jornais Pernambucanos da época, que estão no Arquivo Público de Pernambuco, dão notícia praticamente dia a dia dos Revoltosos . Se os jornais em Recife sabiam, imaginem Lampião.
Esperto e bem informado, certamente Lampião deveria saber de tudo isto. Mas como diz Lira Neto, foi a Juazeiro cobrar o que lhe foi prometido. Lampião era tão sem vergonha, pilantra, que não ficou satisfeito só com as armas e munições (que já era um grande presente), quis a patente, quis sair de Juazeiro como “oficial” e “oficializado” e aí ocorre o caso do Uchoa. Me chama a atenção que, com o poder que o Padre Cícero tinha em Juazeiro, ele poderia ter mobilizado até as “corujas da torre da igreja” para lutar contra Lampião e este jamais teria pisado em Juazeiro e sei lá o que teria acontecido. Mas ele não fez. Por que?
Creio que o Padre tinha receio de um retorno dos Revoltosos a sua região. Pode ter pensado que podia precisar dos serviços do “capitão”. Não podemos esquecer que nesta época os membros da Coluna já tinham entrado em Piancó e degolado o líder político local, o também Padre Aristides, depois de um forte combate pouco conhecido.
Defesas em Favor do Padre Cícero. Chama atenção neste episódio a forma como ao longo dos anos os defensores de Padre Cícero buscaram, de todas as maneiras, alterar as características deste encontro com Lampião. Dos cantadores de feira, passando pelo sanfoneiro Luís Gonzaga e até na internet dos nossos dias, muita gente buscou dar uma nova versão aos fatos. Durante anos existiram folhetos de cordel, livros, revistas que defendiam a existência histórica do encontro e surgiam os defensores da tese que nada foi daquela forma.
Capa do disco com o show de 1972, com Luiz Gonzaga ao vivo.
Em 1972 o admirador inconteste de Padre Cícero e de Lampião, o sanfoneiro Luiz Gonzaga, de Exu, em Pernambuco, ao realizar um antológico show no Teatro Teresa Raquel, no Rio de Janeiro, defendeu abertamente o Padre Cícero em relação ao seu encontro com Lampião. Nesta época Luiz Gonzaga andava meio esquecido do grande público, devido a Bossa Nova, Jovem Guarda e outros movimentos musicais. Este show foi seu grande retorno, sendo um dos poucos registros de como era Gonzagão no palco. Quando cantou a música “Olha a Pisada”, de sua autoria em parceria com o médico Zé Dantas, fez um “break” e narrou uma história sobre o episódio. Começava com Lampião e a “cangaceirada” entrando de fuzil na igreja “com a boca do cano para baixo” em sinal de respeito. Gonzaga afirmou que o Padre Cícero Não queria que Lampião chegasse muito perto dele e, quando este pediu uma benção, o padre de Juazeiro não lhe benzeu e ainda aplicou com seu cajado uma grande surra em Lampião.
Evidentemente que nada disto aconteceu. Era uma criação fantasiosa do insuperável sanfoneiro, na defesa do Padre Cícero. Atualmente, chama atenção a defesa do Padre Cícero que ocorre no site Wikepedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Floro_Bartolomeu).
Nesta grande enciclopédia da internet, no tópico destinado a narrar a vida do médico baiano Floro Bartolomeu da Costa, encontramos um texto repleto de meias verdades, que em nada ajuda a estudantes que por ventura utilizarem este serviço para uma pesquisa sobre este assunto. O texto comenta que no ano de 1925, Floro havia recebido uma ordem do então presidente da República Artur Bernardes para defender o Ceará da Coluna Prestes. Foram então organizados os chamados Batalhões Patrióticos (verdade). Consta que Floro, teria então usado o nome do Padre Cícero sem que o sacerdote soubesse dos fatos (situação essa muito difícil de ocorrer devido ao prestígio do Padre Cícero).
Este então convidou Lampião a fazer parte do Batalhão Patriótico. Lampião, grande devoto do padre, aceitou o convite e partiu para Juazeiro, mas não encontrou Floro, que havia viajado para o Rio de Janeiro por motivos de saúde (verdade). Comenta-se que Padre Cícero ficou perplexo quando soube que Lampião estava em Juazeiro para servi-lo (O Padre Cícero sabia que eles vinham).
Ao encontrar Lampião e seu bando, Padre Cícero os aconselhou a abandonar o cangaço e lhes deu rosários de presente, com a condição de que só usassem depois de abandonar a vida bandida (o Padre Cícero pode até ter dado conselhos, rosários e escapulários, mas as armas e munições foram entregues). Os cangaceiros deixaram então Juazeiro, mas antes Lampião recebeu a patente de capitão do Batalhão Patriótico das mãos de Pedro de Albuquerque Uchoa, funcionário público e integrante do batalhão (Uchoa não afirmou isso nem em Leonardo Mota e muito menos na reportagem de 1933).
O Padre Cícero Romão Batista era um homem do seu tempo, com virtudes e defeitos. Possui uma biografia feita de altos e baixos momentos, coisa normal que qualquer ser humano passa em sua vida. Para mim, o encontro com Lampião foi um momento de baixa na história do padre.Mas em minha opinião, ele fez sim um grande milagre (e não tem nada haver com a história da Beata Mocinha). O maior milagre do padre Cícero, mesmo tendo sido realizado em meio a religiosidade popular e mística, lances de violência e muita politicagem, foi a transformação de um simples povoado em uma das mais pulsantes e progressistas cidades do interior do Nordeste.