Ziraldo - E as suas feridas já haviam cicatrizado?
- Continuou. Eu passei oito dias comendo folha do mato como bicho. Oito dias
pra num me entregar à policia. Bom, aí eu disse: "O caso agora é
morrer mesmo". Cheguei na casa de uma viúva, e ela me perguntou o que que
tinha acontecido. Eu disse: "O caso foi esse, assim, e tal... uma
briga e me furaram." E ela: "Mas meu filho, você tão
novo!" Eu digo: "é..." Ela começou a chorar, foi lá no
chiqueiro, apanhou lá a creolina. Já tinha bicho em todo canto. Eu vivia
agoniado. Não podia dormir nem nada...
Ziraldo - Uma febre danada, né?
- Febre e tudo, fome... Mas aí, eu tava com dinheiro e digo: "Tá bom.
E vou embora." Mas ela disse: "Filho, fica aí, que eu vou
tratar de você".
Ziraldo - Cê lembra do nome dela?
- Agora eu não me lembro, não. Mas eu sabia o nome dela.
Ziraldo - Era perto de Itabaiana, ainda?
- Não, era perto de Simão Dias. Ela foi lá no chiqueiro, me deu remédio, me deu
banho de malvão e aquele tratamento sério. Mas, toda noite a mulher chorava,
toda noite. Aí, eu perguntei a ela, um dia: "Escuta, por que que a
senhora tanto chora"? E ela: "Não, meu filho, é com pena de
você. Você é muito criança, vive assim jogado no mundo, não tem ninguém. É por
isso que eu choro."Eu disse: "Cumê que chamava o seu
marido"? - o marido dela eu sei cumé que se chamava. Ele se chamava
Davi. Era um bom vaqueiro. Ela disse assim: "Meu marido chamava - se
Davi, meu filho, um desgraçado tirou a vida dele". Aí, eu pensei:
"Ela falou isso. Eu já tô sujo..." E comecei a dizer pra ela por que foi que eu tinha
matado. Ela disse: "Então ele mereceu".
Millôr - Era o homem que você tinha matado?
- Não, esse aí era o caso da viúva que eu tava falando. Aí, ela disse: "Esse
camarada ganha 5 mil réis, 10 mil réis, pra tirar a vida de qualquer um. Ele
mora num lugar que não vai ninguém. Aí, eu digo: "Mas num vai
ninguém, por quê"? "Porque lá, ele é pistoleiro e só vive disso. Vive
ele e a mulher dele sozinhos, um lugar chamado Fundão". Aí, eu pensei,
pensei... Quando foi negócio de uns 15 dias eu já tava andando, tudo
cicatrizado, sem doer nada. Aí, eu disse: "Olha, eu não vou vingar a
morte do seu marido, porque hoje eu já sou um sujeito perdido, sem nada na
vida, num quero mais nada. Mas se a senhora me der o endereço dele, eu vou lá
buscar ele. Ela disse: "Jorge" - Jorge era o filho dela - "vai
lá, pega o Boa Dama (era o cavalo dela), cela e dá a ele". Ai, o
menino foi lá e apanhou o cavalo, um cavalo alazão bom, bonito. Aí, eu digo:
"O que é que a senhora quer dele"? Ela: "Eu quero a
orelha". E eu: "Tá bom, eu vou trazer". Montei no cavalo e
fui. Quando deu quatro horas da manhã, eu cheguei lá no fundão. Era um paredão
alto, dum lado e do outro. E ele morava no meio. Eu cheguei e bati na porta.
Ziraldo - Cê lembra o nome dele?
- Não. Aí, quando eu bati na porta, a mulher velo, Eu disse: "Bom -
dia". Ela perguntou: "O que é que você quer"? Respondi: "Eu
queria que a senhora me arranjasse água." E aí, o homem perguntou: "Quem
é que tá aí"? Ela disse: "Um moleque que tá querendo
água". Aí ele disse:"Chô olhar pra cara dele. Eu não sei se isso é
hora de tá pedindo água na porta de ninguém..."Ele chegou e foi logo me
maltratando: "Isso não é hora de pedir água na porta de ninguém. Vai
procurar água pros poços." Aí, eu disse: "Eu num vim aqui a
fim disso, não. Eu vim aqui pra dar um tiro na sua cara".
". E ele: "Em minha cara!?" Eu digo: "É".
E ele começou, botou mesmo. Eu tá, ele tá. Eu tome, ele toma. Aí, eu dei uma.
Ele quis tombar pra frente. Aí, ele botou o rifle, e quando esticou o braço, eu
bati e o rifle caiu. E eu acompanhei ele. Ele saiu correndo e caiu esticado
pela frente. E quando caiu, também, já caiu pronto. Aí eu disse: "Bom,
ela pediu a orelha. Eu vou levar a orelha, beiço... Já vou levar tudo desse sem
vergonha. Aí, cortei a orelha dele, cortei o beiço... Cheguei lá e
entreguei.
Millôr - O que é que a mulher fez?
- A mulher dele não esperou não, ela se mandou. Aí, quando eu cheguei, eu disse
pra viúva:"Olha, agora eu vou, eu só quero que a senhora me dá um café
aí". Ela diz: "Pra onde você vai"?Eu digo: "Num
sei".
Aparício - Isso é no Sergipe?
- Não, isso é na Bahia. Fundão é na Bahia.
Millôr - Esse trajeto, da sua casa até a Bahia, você fez toda a pé?
- A pé, a pé.
Millôr - Nesse período todo vocês só tinha uma roupa, não trocava nunca? Estava
sem sapatos?
- Sem nada, e descalço. E o chapéu tinha cortado as beiradas: só ficou a copa.
Millôr - E esse rifle era o famoso "papo-amarelo"?
- Não, era "cano-mamão". E aí, eu digo: "Bom: agora eu vou-
me embora". E ela disse: "Então, toma esse cavalo pra você. Quando
você achar que pode vender você vende. E é seu, pra todos os efeitos. E Deus
lhe acompanhe". Eu digo: "Amém". Eu montei no
cavalo e me joguei no mundo. Fui pra Bom Conselho, fui pras Antas, fui por
aquele mundo todo, Jair Mulato, Santa Brisa, aquele mundo todo...
Millôr - Nesse período todo, você tinha contato com a cidade, você comia em
algum lugar, conversava Com as pessoas?
- Eu comia de qualquer jeito. Conversava, conversava com as pessoas.
Millôr - Vivia uma vida mais ou menos normal?
- Não, num era normal. Era uma vida como de gato com rato. O gato lá e o
rato...
Millôr - Sempre com medo...
- Sempre com medo. Então, eu digo: "Tá certo". Aí, saí. E quando
cheguei num lugar chamado Goloso, na Bahia, eu digo: "Agora eu vou
descansar um pouco. Vou pruma fazenda dessa aí, e ficar escondido, pra ver
cumé que a barra tá, cumé que vai a maré por aí. Aí, fui lá pruma fazenda e
cheguei dizendo que queria um trabalho. Escondi o rifle, munição e tal e me
aproximei dessa fazenda. Isso, em Goloso. Aí, quando estou na fazenda, uma das
duas mocinhas chegou e disse:"Mamãe, tem um garoto querendo trabalhar com
a gente e ele vai pra roça com a gente e tal, colher melancia e plantar feijão,
e essa coisa. O que que a senhora acha"? "Bom, deixa o seu pai
chegar." Ele chamava Seu Ovídio. Aí, Seu Ovídio chegou do campo, e disse
assim: "Ah, tá bom, tá bom meu filho. Cê tem pai"? Eu digo:
"Não". Ele: "Tem mãe?" Eu digo: "Não. Num
tenho ninguém por ninguém; só Deus e eu no mundo." Ele disse: "Então,
você fica aí". Aí fiquei. Negócio de umas duas semanas que eu estava
ali...
Ziraldo - Te pagavam alguma coisa?
- Nada! Pagava alguma coisa, porque eu trabalhava feito burro e comia à
vontade, né? Mas eu ficava pensando. Eu, saindo daqui, vou andar nesse mundo à
- toa, novamente. Mas, é o jeito. E só vendo perseguição: "Passou por
aqui? Não, passou pra tal lugar", isso eles dizendo. "Num sei o
quê... Ele é assim, assim..." E eu tô só escutando
Ziraldo - Quem o perseguia?
- A polícia. Então, eu digo: "Num tem jeito não..."
Millôr - Eles chamavam "os amarelos", naquela época?
- É. Culote.
Millôr - Era polícia de Sergipe; ou da Bahia mesmo?
- Era da Bahia, do Sergipe...
Ziraldo - Você já era famoso...
- Não.
Ziraldo - Famoso, eu quero dizer, já tinha toda a polícia atrás de você?
- É, atrás de mim.
Jaguar - Por enquanto você era só Antônio? Não era VOLTA SECA ainda não?
- Não, era Antônio, Antônio dos Santos. Mas aí, nesse lugar, um dia na roça, tô
vendo aquele alvoroço, e digo: "Mas o que é que tá havendo"? E
disseram: "É que Lampião chegou aí agora, em Goloso." Eu
digo: "Lampião"? Ele disse: "É, com o pessoal
dele todo..."
Continua...
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