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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A BELA CASA DA FAZENDA BOM DESTINO E A BIOGRAFIA DE CHICÓ PINHEIRO, EXEMPLO DE TRABALHO E LUTA NO SERTÃO POTIGUAR

Publicado em 22/02/2014 por Rostand Medeiros


Autor – Rostand Medeiros, baseado em textos dos capítulos do livro: “Nobrezas de Vida Agreste” escrito por Haroldo Pinheiro Borges e  Cláudia Bezerra Pacheco.

Fazenda Bom Destino

Sob muitos aspectos o nosso trabalho desenvolvido desde dezembro de 2010 no nosso blog TOK DE HISTÓRIA, tem chamado a atenção de muitas pessoas aqui no Rio Grande do Norte. Estas por sua vez gentilmente têm me passado informações sobre interessantes locais, pessoas e fatos da história potiguar. O que faço questão de colocar nesse nosso espaço sem nenhum problema.

Recebi recentemente do amigo Haroldo Pinheiro Borges algumas interessantes fotos de uma antiga fazenda produtora de algodão do interior potiguar e muito bem preservada. Trata-se da casa grande da fazenda Bom Destino, na zona rural do município de Lagoa de Velhos, a cerca de 90 quilômetros da capital potiguar.


Francisco Pinheiro Borges

Filho de Francisco Pinheiro Borges, Haroldo comentou que esta propriedade foi adquirida por seu pai ainda na década de 1920. Em nosso contato ele me passou um rico e interessante relato sobre a vida do mesmo, que muito bem exemplifica a trajetória de um homem que nasceu no início do século XX, no castigado interior do Nordeste e, vivendo e trabalhando da terra, venceu em tempos difíceis.

NAS TERRAS ONDE NASCEU FABIÃO DAS QUEIMADAS

A casa grande da fazenda Bom Destino está localizada em terras que anteriormente faziam parte de uma antiga fazenda denominada Queimadas. Esta propriedade pertenceu em tempos remotos ao coronel José Ferreira da Rocha e no ano de 1850 ali nasceu um escravo que foi batizado como Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha. Este ficou conhecido como Fabião das Queimadas, um dos mais importantes poetas populares do Rio Grande do Norte e que conquistou sua alforria tocando o instrumento que lhe imortalizou, a rabeca.

Francisco Pinheiro Borges, conhecido por Chicó de Ieiê, veio ao mundo no dia 05 de setembro de 1900, na fazenda Pirambu, município de São José de Mipibu. Era filho de João Batista Pinheiro Borges, conhecido como Ieiê, e de Dona Joana Ferreira de Lima. Seus avós paternos eram José Pinheiro Borges e Rosa Maria da Conceição e os maternos, Pedro Ferreira de Lima e Maria Izabel de Paiva, donos da Fazenda Japecanga, localizada no município de São José de Mipibu. Chicó de Ieiê teve quatro irmãos do primeiro casamento de seu pai: Lídio, Anália (Sinhá), Clotilde (Dona) e Joana.

Infelizmente, no dia 05 de setembro de 1905, o garoto e seus irmãos ficaram órfãos da mãe Joana Ferreira de Lima.

Chicó de Ieiê foi uma criança irrequieta, inteligente e saudável. Teve a sua criação um pouco diferente dos outros irmãos, pois começou a vida no trabalho. Com apenas dez anos veio para companhia do pai, que morava com a segunda esposa na antiga povoação de São Paulo do Juremal, então município de São Gonçalo do Amarante. Aí chegando assumiu a responsabilidade da casa, cozinhando e cuidando dos afazeres domésticos e ainda com a incumbência de tratar dos cavalos que seu Ieiê comprava para adestrá-los como bons marchadores (o que valorizava muito os animais) e vendê-los caros para a elite daquela época.

DE QUEIMADA A BOM DESTINO

Tempos depois, em 1914, seu pai adquiriu uma área que fazia parte das terras da antiga fazenda Queimadas. Esta gleba tinha uma ligação com Guarará, atual município de Lagoa de Velhos, na época pertencente ao município de Santa Cruz. Foi adquirida ao Sr. Miguel Rocha e sua mulher Izabel Ferreira da Rocha, herdeiros do coronel José Ferreira da Rocha. Chicó de Ieiê trabalhou duro na agricultura limpando a terra com a enxada, para ajudar seu pai a pagar as duas primeiras partes do sítio.

Casa de João Batista Pinheiro Borges, conhecido como Ieiê na antiga fazenda Queimadas

Dotado de forte dose de coragem para vencer desafios, Chicó de Ieiê adquiriu ainda muito jovem uma tropa de jumentos para transportar rapadura, que erram compradas a crédito e fabricadas nos engenhos de seus familiares em Japecanga. Ele também vendia esterco de gado para ser utilizado na adubação de canaviais.

Logo depois trocou essa tropa de jumentos por uma de burros mulos, animais maiores, mais rápidos e próprios para transportar suas cargas, que nesse estágio tomavam grandes proporções e novo rumo: o grande mercado de Natal. Para chegar a capital potiguar nesta época só através do porto do Rio Jundiaí, na cidade de Macaíba, embarcando sua mercadoria em pequenos barcos. Contava que para economizar dinheiro, ele mesmo transportava os pesados fardos no embarque e desembarque.


Era por Macaíba, aqui em uma foto antiga do acervo do amigo Anderson Tavares de Lyra, que Chicó Pinheiro transportava suas mercadorias de barco para Natal

Chicó era um rapaz simpático, elegante e envolvente. Buscou aprimorar-se na arte de falar e se comunicar, sempre preservando a todo custo a lisura e o cumprimento de sua palavra. Comprar e vender tornou-se parte do seu dia a dia. Isso o fez cada dia mais conhecido e respeitado em sua região pelo desenvolvimento e importância de seu trabalho. Dizia que para ser rico se fazia necessário apenas trabalhar, economizar e gastar sempre menos do que ganhava.

A gratidão fazia parte de sua vida. Fechava o dia com “Chave de Ouro” agradecendo a Deus por mais um dia de trabalho e os resultados alcançados.

O tempo foi passando e aos 24 anos, com dinheiro adquirido do fruto do seu trabalho, Chicó de Ieiê comprou a sua primeira propriedade. Esta igualmente ficava na área da antiga fazenda Queimadas, vizinho às terras de seu pai e pertencentes aos herdeiros do coronel José Ferreira da Rocha. Consta que em quase sua totalidade o local ainda era coberto de mata virgem. Ao lugar Chicó de Ieiê denominou de Bom Destino.

Caminhão abarrotado de fardos de algodão. A plantação desta malvácea foi um grande impulsionador da economia nordestina – Foto ilustrativa

Não havia trabalho que lhe afligisse. Foi ambulante das feiras livres das pequenas cidades que surgiam as margens do Rio Potengi. Logo expandiu seus negócios de compra e venda de cereais, gado, couro de boi e de miunças (pele de ovinos e caprinos), um mercado novo e promissor onde ganhou muito dinheiro. Chicó não se descuidou de plantar o algodão, o verdadeiro “Ouro Branco” que movia a economia do Rio Grande do Norte e de grande parte do Nordeste daquele época e se tornou um grande produtor desta malvácea.

Gradativamente ele foi deixando de ser Chicó de Ieiê e passou a ser conhecido como Chicó Pinheiro.

MUDANÇAS POSITIVAS

No final da década de 1920, para dar velocidade e presteza no atendimento aos seus clientes Chicó comprou um caminhão. Tinha como motorista José Germano, seguido depois de Otávio, que se tornou um grande amigo de sua família. Esse caminhão foi o primeiro a chegar à região, tendo sido recebido com muita alegria e admiração por familiares e amigos.

Contava ele que aprendeu a ler e contar sozinho, enquanto pastoreava os cavalos nas várzeas úmidas do velho Rio Potengi. Leu a cartilha do ABC, que ensinava as primeiras letras e a tabuada com as quatro operações matemáticas básicas. Sempre que contava essa história, repetia desde a primeira letra até a última operação. Terminando com a célebre frase, em letras garrafais que se encontra na última capa da sua preservada cartilha: A PREGUIÇA É A CHAVE DA POBREZA.

Apesar da pouca instrução teve suas atenções voltadas para a cultura. Gostava da boa leitura e tinha na sua coleção a Bíblia como seu livro predileto. Recebia pelo correio a revista Almanaque do Pensamento que tratava de assuntos relativos à astrologia, agricultura, pecuária, tábuas lunares e planetárias. Gostava de romances como O Conde de Monte Cristo, O Corcunda de Notre-Dame, As Profecias de Nostradamus e muitos outros.

Muito observador, Chicó Pinheiro passou a ler livros de boas maneiras e sobre etiqueta. Sabia da importância existente na sua sociedade no tocante a apresentação pessoal e como tratar as pessoas. A figura grosseira do matuto ia ficando para trás e ele foi se transformando em um homem elegante, cordial e bem-educado. Estava sempre visando boas mudanças para si mesmo.


Primeira casa da fazenda Bom Jardim

Com inteligência e a bonança proporcionada pelo algodão, começa a assumir o traquejo e a postura dos empresários daquela época. Manda confeccionar seus ternos de caxemira e linho branco nos melhores alfaiates de Natal. Passa a usar gravatas finas e chapéus de ultima moda. Abandona o velho cigarro de fumo brejeiro, daqueles enrolados em papeizinhos, pelo fino charuto cubano, além de comprar fumo e cachimbos das melhores marcas.


Logo em seguida, em 1930, edificou uma casa grande, moderna para a época, com uma cumeeira de 6.50 metros para oferecer uma boa ventilação. A vivenda ficou situada no topo de uma pequena colina, voltada para o nascente e distante apenas de uns 350 metros casa do seu pai.

ELA VEIO DE ACARI

Alimentava um sonho recorrente de só casar com moça rica e prendada, transformando este sonho em um dos seus objetivos definidos.

Neste período Chicó Pinheiro já gozava de grande prestigio entre os políticos e homens de negócios do Rio Grande do Norte. Entre eles Dinarte Mariz, João Francisco da Mota, Florêncio Luciano, Rainel Pereira, coronel João Medeiros, José Evaristo de Araújo, José Braz de Albuquerque, Juvenal Lamartine de Faria, José Varela, Stoessel de Brito e tantos outros com os quais se encontrava nos escritórios das grandes empresas compradoras e exportadoras de algodão em Natal.

Como ele, muitos moravam no interior do estado, em suas fazendas ou cidades e como eram poucas as opções de hospedaria na capital, normalmente estes homens se albergavam nos mesmos hotéis ou pensões. Nestes ambientes as refeições eram muitas vezes compartilhadas por um grande grupo, onde sempre havia um bom momento para se fazer novas amizades, falar de negócios, preços e sobre o comportamento do mercado. Foi assim que no escritório da empresa Wharton Pedrosa, Chicó Pinheiro conheceu a mulher encantada de seus sonhos, Josepha Bezerra Araújo.


Josepha Bezerra Araújo

A jovem Josepha, ou Zefinha, como era conhecida, vendo aquele homem bem vestido, já de cabelos grisalhos, alvo, simpático, sorridente e conversador, mesmo a distância, sem ouvir suas conversas, imaginou estar diante de um “lord” inglês e correspondeu aos seus olhares.

Chicó Pinheiro tomou informações sobre a jovem Josepha e disse para si mesmo: “Lamberei uma rapadura e casarei com esta jovem”.

A Jovem estava acompanhada da mãe Cipriana Bezerra de Araújo, viúva do agropecuarista e industrial acariense Joaquim das Virgens Pereira. Dona Cipriana percebeu os olhares e já buscou junto ao Sr. Fernando Pedrosa, diretor geral da firma Wharton Pedrosa, informações sobre Chicó Pinheiro. Ouviu do respeitado negociante que ele era um homem direito, correto, bom pagador, comprador de algodão, seu cliente fiel e confiável.

 

Aí Chicó Pinheiro, o matuto simpático, não deu mais trégua, Frequentou um mês inteiro a tradicional igreja de São Pedro, no bairro do Alecrim, onde Zefinha, em companhia da mãe, assistia à missa todos os dias. Logo em seguida passa a frequentar a casa da futura sogra, trazendo em algumas visitas suas irmãs como demonstração de suas boas intenções.  Foi assim que Chicó conquistou a moça rica e sabida dos seus sonhos.

O “VAPOR”

No dia 16 de setembro de 1933, Chicó Pinheiro casou com Zefinha em Natal, na Rua Meira e Sá, na residência da sua sogra. O casamento católico foi celebrado pelo Padre Agostinho e o Monsenhor João da Mata Paiva ajudou. Depois da cerimônia houve comes e bebes para todos os convidados. À noite a Srta. Lourdes do Nascimento abrilhantou a festa tocando um piano que pertencia a noiva e ainda hoje está de posse da família.

Talvez tenha sido a conquista da sua esposa um dos maiores acontecimentos da vida de Chicó Pinheiro. Gostava muito de contar essa façanha, sempre em tom de brincadeira, dizendo-se um pouco decepcionado com o tamanho da fortuna da moça, pois imaginava ser muitas vezes superior a que ele havia construído em tão pouco espaço de tempo. Mas se envaidecia muito ao apresentá-la a sociedade e aos amigos, que às vezes perguntavam, se era sua filha. Ela tinha apenas 21 anos, jovem, muito bonita, elegante e letrada. Logo Zefinha assumiu a grande responsabilidade pela administração da casa e de toda a contabilidade de seu esposo.


Haroldo Pinheiro Borges e o “Vapor” que havia pertencido ao coronel Joaquim das Virgens e veio da Inglaterra para Acari em 1906

Depois de seu casamento Chicó Pinheiro construiu ao lado direito de sua casa na fazenda Bom Destino um grande armazém com silos e paióis próprios para armazenar cereais, além de grandes espaços para guardar algodão em rama e pluma. Em setembro de 1934 instalou sua agroindústria, um locomóvel de marca “Ransomes, Sims & Jefferies”, de fabricação Inglesa herdado de seu sogro Joaquim das Virgens. Este tradicional maquinário agrícola, denominado tradicionalmente pelos sertanejos como “Vapor”, era  atrelado a um besouro, uma máquina de cinquenta serras, utilizadas para descaroçar algodão e a um dínamo para gerar energia elétrica. Todo o maquinário foi importado por volta de 1906, vindo no porão de um navio da cidade de Manchester, Inglaterra. Com esta máquina, da produção de sua fazenda e da compra feita aos seus clientes, chegou a beneficiar em torno de mil toneladas de algodão por ano.


Em 2004, o autor destas linhas teve a grata oportunidade de ver uma destas máquinas operando “a todo vapor”, em uma propriedade localizada próxima a cidade paraibana de Sousa. Foi incrível observar o seu funcionamento. Não posso deixar de comentar que  o sogro de Chicó Pinheiro, Joaquim das Virgens Pereira, era amigo do meu bisavô, o também agropecuarista Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como Quincó da Ramada e dono da fazenda Rajada, onde também existia uma destas máquinas a vapor. Outro fato que uniu na história do Seridó estes dois antigos produtores rurais de Acari, esta no fato deles terem recebido, em ocasiões distintas, o famoso cangaceiro Antônio Silvino.


O açude da Bom Destino sangrando

Mas voltando a fazenda Bom Destino, gentilmente recebi de Haroldo outra foto de um interessante maquinário existente em sua propriedade, Trata-se de uma prensa que produzia fardos de lã, com uma media de 70 quilos e uma produção diária de aproximadamente 30 fardos.

PREOCUPAÇÃO COM A EDUCAÇÃO

Os anos vão passando. Chicó Pinheiro teve grande parte de sua vida voltada para o trabalho. Sabia administrar suas economias aplicando seu capital no momento oportuno. Dizia que o dinheiro tinha que está em movimento, havendo sempre o momento de comprar e de vender. Era só observar a tendência do mercado. Por isso tornou-se um bom empreendedor na área rural, pois, estava sempre ligado aos melhoramentos das suas propriedades, através de novas aquisições de terras, realizando quando necessário desmatamentos, aquisições de máquinas agrícolas, construções de cercas, açudes etc.


O antigo Grupo Escolar 

Mas não deixou de ajudar aqueles que lhe ajudaram.

Construiu na fazenda Bom Destino o “Grupo Escolar Francisco Pinheiro Borges”, com salas de aula e um apartamento anexo para servir de residência para uma professora. O Grupo Escolar foi inaugurado no dia 24 de setembro de 1965, em meio a uma grande festa. Entre os convidados estiveram presentes Monsenhor Walfredo Gurgel, que estava em plena campanha como candidato ao governo do Estado e o então governador Aluízio Alves, por quem Chicó Pinheiro tinha grande estima e admiração. Repetia sempre uma célebre frase às crianças e estudantes “O estudo é a única riqueza do mundo que não é roubada, acompanha o homem até o túmulo”.

Educou seus filhos nos melhores colégios de Natal e Recife. Ajudou na construção do Colégio São José na cidade de São Paulo do Potengi, que tinha na sua administração a Irmã Dominicia, da Ordem da Divina Providência.


No censo de 1960, foi cadastrada a casa grande com os armazéns e mais cinquenta e uma casas destinada aos moradores da fazenda Bom Destino, todas de tijolo e telha. A propriedade abrigava trezentas e vinte e oito pessoas, 

UMA VIDA DIGNA

Certo dia, se sentindo muito cansado foi a Natal e depois de uma consulta ao seu médico e amigo Dr. Hellen Costa, foi por ele aconselhado para vir morar em Natal, pois seu coração estava muito crescido e não suportava mais os aborrecimentos próprios de um administrador na sua idade. Ele prontamente lhe respondeu “que seria uma grande dádiva de Deus se lá morresse subitamente, sem dar trabalho aos seus familiares”.

Ao se aproximar dos 80 anos comentava com seus familiares e amigos mais próximos que se fazia necessário realizar uma grande festa, pois sabia que ela seria a última.  Assim convidou seu velho amigo, o Monsenhor Expedito de Medeiros para rezar uma missa onde ele pudesse agradecer de público a Deus pelas benções recebidas durante toda sua vida. A missa foi rezada no Grupo Escolar Francisco Pinheiro Borges, localizado na sede da Fazenda Bom Destino onde compareceu em torno de 500 convidados. Chicó Pinheiro agradeceu pessoalmente pela presença e o prazer de receber com seus familiares, em sua casa, os seus melhores amigos.

Chicó Pinheiro e Dona Zefinha ao piano

No dia 22 de abril de 1981 faleceu no hospital Dr. Luís Soares em Natal, rodeado de seus familiares e assistido por um dos seus melhores amigos, o médico Ernani Rosado.
O Casal Chicó Pinheiro e Zefinha tiveram dezenove filhos, dos quais onze sobreviveram. Aqui estão nominados do primogênito ao caçula, todos com o sobrenome Pinheiro Borges: Maria das Dores casada com Ivo Ferreira Neto, Jarbas (falecido) casado com Sonia Azevedo Pinheiro, Haroldo casado com Mônica Maria Augusta de V. P. Borges; Rafael com Joana D’arc Marques de Araújo, Edda com Raimundo Dagmar Fernandes, Ana Maria com Manoel Alves Irmão (já falecido), Cosme com Maria Sonia de Azevedo Cabral, divorciado e casado em segunda núpcia com Jailda Barreto Carneiro, Eleenete casada com Pacífico de Medeiros Neto (falecido), Franklin com Vera Lopes, Maria José com Francisco Paulo e Vilma com Edvaldo Cursino Dias.
FINAL
Tenho muita preocupação com o desaparecimento gradual das antigas casas de fazenda no nosso estado. Elas são caras e difíceis de serem preservadas e muitas estão se transformando rapidamente em ruínas. Quando estas são vendidas para outras pessoas, fora dos núcleos familiares que as criou, normalmente a história do lugar cai para segundo plano e muito deste passado é esquecido. Por isso é sempre bom conhecer um pouco da história destas antigas vivendas e de quem as edificou.


Concordo com Haroldo quando ele comenta que a casa grande da Fazenda Bom Destino, pela sua beleza e pujança, serve como símbolo da época do coronelismo e da implantação da agroindústria algodoeira. Mas uma casa, qualquer casa, é apenas uma casa quando nada sabemos da história de quem ali viveu.

Por isso sou muito agradecido pela gentileza de Haroldo Pinheiro Borges, pai dos meus amigos Kacá e Eduardo (o Dado) Borges, companheiros dos bons tempos do Colégio Marista e do Tirol, por trazer para nosso espaço a biografia de Chicó Pinheiro e as fotos da bela Bom Destino.

Sobre outras antigas casas do Nordeste veja aqui no Tok de História - 

http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/07/08/1583/
http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/11/23/a-restauracao-do-engenho-machado-um-exemplo-a-ser-seguido/ 
http://tokdehistoria.wordpress.com/2014/02/15/a-triste-situacao-da-casa-do-sabe-muito/

http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

22 meses sem Anathália Cristina Queiroga Pereira

Por Dr. Lima - Cruz - CE 
22 meses sem Anathália, mas, ainda me questiono sem conseguir entender o fato que aconteceu.

 

Não tive a honra de conhecê-la pessoalmente, só depois de sua última viagem através de fotos. Mas a sua beleza, a sua formosura encantadora e o seu sorrio espontâneo me cativou e me emocionou. 

Não entendo os caprichos do destino, pois tantas pessoas maldosas que conseguem vida longa para difundir o mal, enquanto outros do Amor e da Paz, tem vida terrena tão passageira. 

Acredito que seja a impureza do mundo das maldades que não é digna de sua presença, por isto foi chamada à casa do Pai para melhor servir a humanidade. Quem precisar de sua ajuda é só chamá-la, pois se Deus permitir, estarás presente. 

Que o Reino do Céu seja sua morada eterna. Do Alto olhando para a Terra nos mandará a Paz. 

Dr. Lima

Se você quer saber o que aconteceu com Anathália Cristina Queiroga Pereira clique no link abaixo:

http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2012/05/direito-que-anathalia-cristina-queiroga.html

http://blogdodrlima.blogspot.com

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A vida e a fortuna do exibicionista cangaceiro Mariano Laurindo Granja

Por Nilo Sérgio Pinheiro

Desde o princípio dos anos trinta era comum existiram tropas legais ou ilegais a procura de cangaceiros para matá-los e ficar com o que eles possuíam, já  que era do conhecimento público, o tesouro que eles carregavam e que viviam ostentando por onde passavam, especialmente em tempos de festas, com doações generosas às igrejas e à população mais do que carente, na miséria mesmo. Geralmente quem matasse cangaceiros e conseguisse ficar com tudo que eles tivessem já poderia pensar numa aposentadoria confortável. Em Pernambuco, destacaram-se os nazarenos, que roubavam sem distinção ou escolha, tratando-se de fazendeiro, citadino ou cangaceiro.

Quem aparecesse pelo caminho era morto ou assaltado. Na Bahia, a tropa liderada pelo tenente José Rufino, vivia sonhando em pegar um cangaceiro privilegiado, isso aos olhos da macacada fardada era uma verdadeira fortuna perambulando pelos sertões nordestinos. Tenente Rufino era um policial ao gosto do governo baiano, cruel, sem remorsos e odiava a popularidade que cangaceiros tinham, angariando tudo o que fosse de simpatia e amizade. Sua coleção de cabeças era bastante extensa ao ponto da imprensa baiana perguntar se com tantas cabeças cortadas o tenente não poderia deixar algumas penduradas em cada poste da cidade de Salvador. Pelas contas do tenente José Refino ele teria decapitado cerca de quatrocentos e quarenta e oito cangaceiros nos Estados de Sergipe, Alagoas, Bahia e Pernambuco, isso num período de dezoito anos de uma perseguição tresloucada e quase desnecessária.

Somando que cada cangaceiro levava consigo uma pequena fortuna em ouro, brilhante e dinheiro, Rufino já poderia ser um homem bastante rico. O policial que liderava uma volante com cerca de sessenta e oito soldados, iniciou a sua peregrinação no começo dos anos vinte, quando pela primeira vez conseguiu cercar um grupo de vinte e oito cangaceiros liderados pelo conhecido Quinta Feira, no interior de Sergipe. Naquele tempo, ainda não havia o acordo realizado pelos governadores que facilitou a entrada de volantes nos Estados da região que bem entendesse. Quinta Feira às duras penas conseguiu safar-se juntamente com Navalha. Mas o restante do grupo foi degolado por Rufino, que não deixou ninguém prá contar história. Logo depois se soube que a volante de Rufino foi reforçada com adesão de trinta e oito novos recrutas, todos enfeitiçados pela fortuna que o tenente deu de presente ao secretário de segurança da Bahia. No Estado de Sergipe os cangaceiros viviam deitando e rolando, participando de tudo que fosse de festa, homenagens, desfiles e procissão, eram os ídolos aclamados dos sergipanos.

O volante Bem-Te-vi e o tenente Zé Rufino

José Rufino tinha todas as informações sobre as regalias dos bandoleiros errantes naquele pequeno Estado. Entrar ali com sua volante simplesmente não dava. Teria que se vestir como cangaceiro fosse. E assim foi feito. Por onde passava a população pensando tratar-se dos comandados de Lampião lhes rendia homenagens, oferecendo tudo o que fosse possível. Foi durante esse período que apareceu um jovem cangaceiro chamado Mariano Laurindo Granja, filho de um fazendeiro, com uma formação diferenciada, que tinha entrado no cangaço por razões idênticas a que levaram quase todos a viver como bandoleiros. Queria pegar os cinco policiais que tinham estuprado suas três irmãs.

Naquela época a polícia militar de quase todos os Estados nordestinos era formada, diferentemente de hoje, por gente da pior espécie. Qualquer um, independente de sua formação, podia dar baixa como policial militar, chegando até mesmo ao ponto da própria polícia desconhecer a origem e o próprio nome daquele que queria sentar praça. E muitos entraram na polícia porque não tinham as mínimas condições de se tornar cangaceiros, já que tinham sido barrados por suas péssimas condutas ou sendo famigerados criminosos. Quando esses rejeitados se tornavam policiais e se juntavam às volantes devotavam um terrível ódio aos cangaceiros. Mariano entrou inicialmente no grupo comandado por Quinta Feira, tempo depois se separou criando seu próprio grupo, perfazendo um universo de doze grupos que viviam no Estado de Sergipe.

Sua fama desde começo no comando do grupo de vinte três cangaceiros foi crescendo, lhe proporcionando vantagens às mais diversas. Cidades, povoados, fazendas, engenhos e vilelas, por onde andava era recebido com galhardia e consideração. Seu lugar tenente Zepelim era seu fiel escudeiro capaz de dar à sua vida sempre que o momento o colocasse em perigo. Galante e extrovertido, era sempre admirado pelas jovens interioranas que se encantavam com o seu porte atlético, com uma altura muito além da normal do homem sertanejo. Tinha o costume de em solenidades festivas vestir-se a caráter, com uma roupa impecável cheia de adereços chamativos, diferentemente daquelas que usava em combate.

Seu cavalo preto de nome azulão, sempre nessas ocasiões era enfeitado com alfaias cheias de prata e sela incrustada em ouro. Seu fuzil bastante ornamentado era o que de melhor tinha como armamento de última geração, podendo suportar sucessivos tiros em um longo período de combate. Era considerado um juiz para todas as ocasiões, e gostava de resolver inúmeros embates e conflitos conjugais. Certa vez enamorou-se de uma jovem e ela queria de qualquer maneira juntar-se ao grupo, e virar cangaceira. Não podendo levar a jovem consigo prometeu buscá-la assim que houvesse oportunidade, deixando-a na esperança dessa busca. Passado algum tempo Mariano soube que José Rufino descobrindo que ela era namorada de cangaceiro, torturou a moça para que ela dissesse onde estava o seu namorado.

O pai dela inconformado e obstaculizado teve um ataque do coração e morreu. Em decorrência disso, a moça com desgosto pelo passamento do pai, também morreu. Mariano ficou enlouquecido, e a partir daquele momento, prometeu perseguir Rufino até as portas do inferno. Ai começava o ódio de Mariano pelo tenente José Rufino. Inúmeras volantes perambulavam por todo o Nordeste, a procura de cangaceiros, esquecidas de que também tinham a obrigação de perseguir a bandidagem propriamente dita e os criminosos de aluguel que infestavam a região.

Agora, tudo o que fosse de bandido andava vestido de cangaceiro, aumentando ainda mais a fama de criminosos e ladrões contumazes que eles nunca conseguiram desvencilhar. Rufino não parava de cortar cabeças dos cangaceiros que aprisionava. Mariano, apreciador de um bom romance, carregava com ele alguns livros que presenteava as jovens que às vezes ficavam interessadas. Escuro, mas com uma aparência, de branco bem nutrido, vivia fazendo justiça em lugares esquecidos e abandonados dos sertões nordestinos. Carregava consigo uma palmatória, com a finalidade de dar bolos nas mulheres que traíssem seus maridos, que abandonados lhe pediam ajuda para recolocar nos trilhos as ingratas que fugiam com outro homem e do juramento matrimonial. Houve um determinado dia que um marido o procurou desesperadamente porque a sua mulher o tinha abandonado, enfeitiçada por outro homem, deixando também os seus três filhos pequenos, chorando. Procurando tomar pé da situação soube que a mulher do infeliz tinha lhe trocado por um mascate que vivia pelos sertões nordestinos vendendo tudo o que fosse de bugiganga.

Descobrindo o paradeiro da traidora mulher e do mascate gavião, Mariano soube que ele além de destruidor de matrimônio, ele era casado e tinha uma grande quantidade de filhos. Em vez de dar bolos na ingrata rainha do lar, o cangaceiro aplicou dez bolos em cada mão do mascate. Após promover a devida justiça divina, levou de volta a mulher, fazendo, ela prometer que nunca mais pensaria em homem algum a não ser em seu próprio marido e nos pequeninos inocentes que choravam a ausência da mãe. Havia também outro cangaceiro conhecido como Baiano que tinha a fama de justiceiro, ferrando no rosto qualquer mulher que traísse o marido. Para eles isso era um crime sem perdão, e seguia criteriosamente os mandamentos bíblicos. Mariano era festeiro e andava encima do seu cavalo azulão bem vestido, e geralmente perfumado.

Seu grupo era seguido por inúmeros cachorros, que partiam com ele ao perceber a sua bondade em lhes dar alimentos assim que chegava e vendo que eles perambulavam pelas ruas esfomeados. Em todos os lugares que passava sempre era coberto de presentes, entre os quais muitas joias raras talvez como pagamento pela proteção prometida. Mariano, ao contrário da polícia, sempre que encontrava criminosos que tinham realizado desatinos como assalto e outros crimes graves, fuzilava-os, limpando a região infestada de bandidos. Conta à história que também fuzilou o pai de um soldado acusado de vários crimes. Esse soldado jurou matá-lo na primeira oportunidade. Talvez em todo o cangaço não houvesse quem mais mostrasse riqueza do que o infeliz Mariano. Por isso foi aconselhado a ser mais discreto, não procurando mostrar o que possuía. Mas ao contrário, ofertava robustas somas as igrejas que ele encontrava vivendo pior do que a vida miserável de franciscano. 

Desde o começo de sua carreira no cangaço, deixou de participar de ataques contra cidades que prometiam resistência, e que também proibiam a entrada de cangaceiro. Quando os cangaceiros queriam entrar numa cidade geralmente os chefes desses subgrupos mandavam um bilhete para saber como seriam recebidos. Muitas localidades e povoados lhes abriam às portas, outras prometiam mandar balas caso insistisse na visita, o que de fato acontecia. Mariano ainda não sabia que havia inúmeras volantes a sua procura em busca de sua cabeça e da riqueza que carregava. Avisado, entregou parte de seu tesouro a um sacerdote de uma importante cidade sergipana, que tempo depois entregou tudo a um irmão do cangaceiro de nome Juvenal, quando ele foi morto. Mariano vivia percorrendo todo o sertão sergipano e alagoano, como se fosse o paladino da justiça, combatendo tudo o que fosse de coisa ruim.

A Pedofilia e o crime de estupro ele considerava inconcebíveis. Assentou o punhal em vários criminosos que aliciavam crianças e tinham tido relações sexuais a força com jovens donzelas ou mulheres casadas.Quanto aos homossexuais tinha um respeito enorme por achá-los frágeis e dignos do maior respeito, proibindo qualquer tipo de gracejos com àqueles a quem denominava criaturas esquecidas por Deus. Mariano teve um dia à oportunidade de provar a sua conduta em relação a esse grupo de pessoas. Certa vez chegou um rapaz lhe procurando dizendo que sua família o tinha expulsado de casa.

Cheio de gestos diferenciados Mariano logo desconfiou o porquê dos motivos. Ouvindo atentamente as suas argumentações, decidiu ir até a sua residência conversar com a sua família. Quando chegou às proximidades da casa, pediu o rapaz que esperasse enquanto ele se entendesse com os seus parentes. Entrando, disse para todos que “pelo caminho tinha encontrado um jovem que passava chorando, procurou saber os motivos, e ele contou que a sua família o tinha mandado embora por ter se tornado uma coisa condenável. Retrucando disse – vou até a sua casa e mato todo mundo. Apavorado, o rapaz disse que não matasse a sua família, pois o único que deveria morrer era ele. E não queria que os seus não fossem assassinados simplesmente por tê-lo expulsado de casa. Foi então que ele acrescentou, agora vou matá-lo aqui mesmo, e o jovem ajoelhou-se e começou a rezar para que Deus protegesse os pais e seus irmãos.

E Mariano para espanto de todos, finalizou, e o matei ali mesmo”, o que fez toda família desabar aos prantos, movida pelo remorso. Para surpresa de todos, Mariano mandou buscar o jovem que foi abraçado e chamado de volta ao convívio familiar. Assim era o cangaceiro Mariano Laurindo Granja. Quando uma vez reunido com o alto comando do cangaço, em Águas Belas, recebeu de Lampião uma repreensão de “a qualquer momento poderia ter a cabeça cortada se não atendesse as recomendações da previdência e da cautela no sentido máximo de sua segurança pessoal e a de seus comandados”. Lampião também recomendou que os cangaceiros, embora vaidosos, não poderiam andar feito Oxossi em dia de festa. Pediu que quando participasse de alguma comemoração procurasse sempre andar vestido de modo que não mais chamasse à atenção de ninguém. O que fosse de joias e prata teria que esconder com alguém de confiança. Mariano partiu sem saber que aquela seria a última vez que via Lampião. Depois de muitas andanças pelos sertões nordestinos, Mariano achou por bem fazer uma visita a Pai Velho em Porto da Folha, no Estado de Sergipe, um curandeiro muito procurado e respeitado pelos cangaceiros.

Da esquerda para direita: Mariano, Pai Velho e Pavão. A foto aparece como sendo  Zepelin, Mas segundo o pesquisador e colecionador cangaço, Ivanildo Alves Silveira, informou-me que é mesmo o cangaceiro Pavão, vez que a morte do cangaceiro Zepelin, aconteceu em data e combate diferente. 

Na verdade, Pai Velho, já tinha salvado da morte até soldados carregados entre a vida e a morte pelas volantes à sua procura. Deixando sua tropa em Garuru, povoado próximo, foi somente com Pavão visitar o curandeiro. José Rufino foi informado dessa visita, armou uma emboscada. Mariano acompanhado de apenas um homem, não tinha nenhuma chance. Assim que chegou foi fuzilado juntamente com pavão. Para completar o selvagem ato, Rufino também fuzilou Pai Velho, deixando o sertão sergipano sem o famoso curandeiro. O que Mariano levava de tesouro assombrou não apenas o tenente José Rufino, mas toda coluna que exigiu do comandante a divisão quantitativa daquela riqueza. Como sempre, ele dizia que aquilo pertencia ao governo baiano. Cortou as cabeças de Mariano, Pavão e Pai Velho. Depois descobriu que tinha cometido um terrível engano, matando um curandeiro importante. Para cortar a cabeça de Mariano Rufino foi obrigado a matar quatro cachorros que não deixavam que ninguém chegasse perto do cadáver do cangaceiro. Era 10 de outubro de l936.

Nilo Sérgio Pinheiro 

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Anote ai - A Biblioteca Nacional informa


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Gato, o sanguinário cangaceiro


Grupo do cangaceiro "Gato" cai o estigma de ser o mais perverso dos homens a pisar as fileiras do cangaceirismo. Ele está de chapéu com aba branca.

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