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domingo, 19 de outubro de 2014

Família de Lampião, empreendedores no sertão e uma estória de amor puro e verdadeiro.

Por Raul Meneleu Mascarenhas

“Junto com meus irmãos
Lutamos como heróis.
E a luta que travamos
Destemerosa, honramos
O sangue dos nossos avós” 

Quando verificamos em diversos trabalhos de historiadores a respeito da vida de Lampião, o Rei dos Cangaceiros, onde liderança e capacidade intelectual era imperativo para se sair juntamente com seus bando de situações críticas, vemos que seu aprendizado se deu quando menino em que desenvolvia tarefas estipuladas por seus pais que eram pessoas empreendedoras. 

Os relatos são muitos e mesmo já no cangaço, nunca deixou de ser empreendedor, pois em sociedades com alguns sertanejos, possuía bens de raiz, tais como investimentos em fazendas, chegando até mesmo a comprar e vender, para lucros imediatos. Emprestava dinheiro a coronéis que honravam o pagamento e com raras exceções, como a do coronel José Pereira, de Princesa na Paraíba, seu mui amigo, que terminou tornando-se seu inimigo, por não honrar o pagamento do dinheiro que Lampião lhe emprestara. 


Quando menino, Virgulino desenvolvia um trabalho básico para sua família, carregando água para uso em sua casa, da forma como vi muito no interior do Ceará e Rio Grande do Norte, onde com um pau atravessado nos ombros, era pendurado latas de óleo ou outro produto, pendurados com cordas, onde o precioso líquido era transportado. 

Ao crescer mais um pouco começou a receber mais tarefas em que segundo os historiadores, eram feitos com precisão e perfeição, pois tudo que fazia, o fazia organizadamente. Com certeza isso fez que tivesse condições de liderança para tratar com sertanejos tão valentes como ele, que também largaram tudo para viver do cangaço. 

Cuidava da criação de bodes, e aos porcos e galinhas, fornecia ração de milho pilada por ele mesmo fazendo o famoso xerém e outras tarefas de acordo com a sua idade. Tudo isso supervisionado por seus pais, que tinham um cuidado enorme pela família, onde todos tinham tarefas. 

Quando foi ficando mais entroncado e alto, passou, a cuidar também da roça de algodão, milho, feijão, jerimum e melancias, atocaiando as poucas chuvas do sertão que caiam sobre as terras de seus pais. Ficava olhando pro céu no mês de março, assim como fazia todo sertanejo, aguardando que chovesse no dia de São José para dizer se o inverno seria bom ou se não chovesse seria ruim. Nesse ínterim também cuidava do pouco gado vacum que a família possuía. 

O velho José Ferreira e Dona Maria Lopes tiveram ano a ano sua família aumentando e o cabeça da família, homem trabalhador e dinâmico, procurou expandir seu empreendedorismo para sustentar melhor a meninada sua e adquiriu bons burros de carga para fazer transporte de mercadorias, o que na época era chamado de almocrevia. 

Assim feito e José Ferreira aparelhou os seis pares de mulas com arreios próprios e cangalhas. Como homem organizado que era, passou esse exemplo para o jovem Virgulino, que passou a desenvolver o trabalho de almocreves e quando no cangaço, fez essa poesia simples:

“Cresci na casa paterna
Quis ser homem de bem
Viver de meus trabalhos
Sem ser pesado a ninguém.
Fui almocreve na estrada...” 

Os filho de José Ferreira, assim como seus pais, eram trabalhadores e tinham como testemunhas, a boa querença que os seus vizinhos tinham por eles, menos um, o José Saturnino. Antônio, Livino e Virgulino participavam com alegria das tarefas. Sebastião Pereira (Sinhô) dizia de Virgulino e seus irmãos que estes eram independentes e muito trabalhadores. Quanto ao vizinho que não gostava dele, José Saturnino, estudiosos como o Padre Maciel, dizem que ele era uma pessoa vingativa,  inimigo de Lampião e que a história conforme diz Rodrigo de Carvalho, citado por  'Lampião, senhor do sertão: vidas e mortes de um cangaceiro' de Élise Grunspan-Jasmin na página 60, dizendo que Saturnino era  cruel, ciumento e obstinado.

Pois bem, voltando à nova lida de Virgulino Ferreira, a almocrevia, costumava ajuntar-se ele com almocreves amigos e seguiam ajudando-se uns aos outros, embrenhados pelo sertão seco e caatingoso, onde o futuro Lampião o Rei do Cangaço, deve ter aprendido as rotas e esconderijos que os livraria das volantes sedentas de seu sangue.

A mercadoria era bastante variada e desde fardos de charque, fazendas, tonéis de bacalhau, bolachas e outros itens, até louças finas para as mesas das famílias mais abastardas. Tudo embalado com esmero nos caçuás encarapitados nos burros, que trabalhavam carregados de peso, mas à noitinha aliviados da carga, com sofreguidão comiam de tudo e por isso preferidos pelos almocreves, mas de uma coisa todos sabiam, burro gosta de ar puro e só bebe água limpinha, se não tiver água limpa, prefere ficar com sede até encontrar. E isso os almocreves não podiam vacilar; traziam as moringas do líquido precioso, com todo cuidado e esmero, era o combustível aditivado dos muares, aditivado com a pureza.
  
Através dessas viagens, Virgulino ficava conhecendo mais ainda o sertão e foi o que lhe ajudou muito, pois inteligente como era, ficou registrado esses mapas da região, em seu cérebro privilegiado. Sabia cada atalhe, cada riacho, cada olho d'água e botequins de pouso nos pernoites para descanso sem risco e ao mesmo tempo conhecia suas relações de amizade que o ajudariam na vida de cangaceiro, não que estivesse premeditando isso.

A família era dinâmica e faziam feira em diversas localidades para venderem o que produziam. Mas Virgulino vendia nas feiras apenas o que produzia em seu tempo de folga da enorme labuta em que era submetido. Era exímio fabricante de artefatos de couro, com perfeição fazia gibões, coletes, perneiras, joelheiras, guarda-pé, luvas e alforges. Tudo para o vaqueiro. Fazia também sela e arreios, cartucheiras e bainha de faca.

Diz os historiadores que ele era um rapaz bastante dinâmico e reconhecido tanto na arte do fabrico de peças de couro, quanto na arte de comerciante, ao ponto de comprar mercadorias de outras pessoas para vender na feira de Vila Bela. Comprava a crédito, vendia, e nunca deixou de pagar em dia seus fornecedores.

Rapagão bonito e vistoso só podia ser invejado por José Saturnino, que foi o causador do infortúnio de uma família guerreira e empreendedora como os Ferreira. Nenhuma cabrocha sertaneja fugia de seu olhar de galã. Era másculo e belo e as meninas todas suspiravam por ele e algumas com ele tiveram casos amorosos. Tinha o cabelo bom, era alto, e vestia-se com esmero, atraindo nas festinhas dos forrós a simpatia de todos e o desejo feminino. Era um artista, poeta tocador de sanfona de oito baixos.

Seu trabalho no dia a dia exigia músculos e isso era dotado e construído nas tarefas que fazia. Tinha coragem, presteza, argúcia e para negócios então... eram seu preparo para ser cangaceiro, que até então ele não sabia o que o destino lhe reservava. Se não fosse o ódio de graça, dispersado por inimigos, aqueles três irmãos de sangue de cabra macho, teria tido famílias e filhos. 


Mas corre a lenda, que Virgulino deixou muitas donzelas apaixonadas por ele, e algumas buchudinhas esperando filho seu. Era um macho normal, que em cada lugar que ia, escolhia a mulher mais faceira e bonita para mostrar seus dotes de homem viril. Só depois de muitos anos, Lampião encontraria seu grande amor, na pessoa de Maria Bonita, a quem foi fiel até a morte. Morreram juntos nas barrancas do Rio São Francisco.

Volta Sêca, um dos cabras de Lampião, em reportagem ao jornal O Globo de 07 de novembro de 1958, sob o título 'O Amor de Lampião', conta que a mãe de Maria Bonita, conversando com ele Lampião por ocasião de sua visita à fazenda de José Felipe, falou-lhe da filha que tinha e Lampião ficou bastante interessado e intrigado.

Dona Déia, como se chamava a mãe de Maria, a mais velha de três filhos que tinha com José Felipe, dono da fazenda Malhada da Caiçara, no sertão da Bahia, contou-lhe que Maria estava casada e morava com seu esposo, que era sapateiro por profissão, em Santa Brígida, município de Jeremoabo e que sua filha o adorava e que sempre falava em seu nome. Gostava de ouvir as estórias contadas e vibrava com as façanhas de seu chefe. Que Lampião era um deus para a menina Maria Bonita. Casara era verdade, com um sapateiro, mas seu coração era dele.

Lampião observou: 'mas ela não me conhece...' e dona Déia arrematou na mesma hora, confirmando esse amor inexplicável: 'é coisa feita...', pois não é admissível ninguém gostar sem conhecer. E no entanto Maria o 'adorava'. - Lampião perguntou: 'e ela é bonita mesmo?' E a mãe respondeu-lhe que sim, era a cabocla mais bonita da localidade e o apelido de Maria Déia, estava bem justo. Lampião queria saber a idade de Maria e quando lhe foi dito, ficou sério a saber que poderia ser seu pai.

Dona Déia parece que estava querendo mesmo desfazer o casamento de sua filha e disposta a unir sua família com o Rei do Cangaço, pois segundo Volta Sêca, ela perguntou se Lampião queria que ela mandasse chamar sua filha. Lampião estranhou e rápido respondeu: 'nem a chame e nem diga a ninguém que estou aqui. Deixe ela lá com seu marido que deve está bem.' E afastou-se.

Estava porém curioso. Tão curioso que quando a velha voltou à carga, não se zangou. No dia seguinte talvez estivesse ansioso, esperando que ela chegasse de repente. Mas a moça não chegou...

Só no outro dia Maria Bonita apareceu e quando deu com o bando, ficou surpresa. Era uma morena de pequena estatura, cheinha de corpo, cabelos lisos e compridos, castanho-escuro e uma bela dentadura. Era de fato uma cabocla bonita, e Volta Seca arremata: 'até hoje, não vi um retrato dela que lhe fizesse justiça.'

Quando ela viu Lampião, parecia ter ficado abobalhada, como quem vê um fantasma. E ele não deve ter se sentido lá muito bem, pois ambos se entreolharam algum tempo antes de apertarem-se as mãos. Lampião era alto, e ela bem pequena, não alcançando o ombro dele, mas que um tinha nascido para o outro naquele momento.

O amor dos dois foi uma coisa muito séria. O bando demorou-se mais tempo na fazenda do que estava planejado. Vários dias se passaram e lampião e Maria Bonita, bem em frente a casa, num respeito digno dos namoros provincianos, conversavam. O que falavam, não sei, disse Volta Seca, mas o que transpirou, mais tarde contado pelos dois, era que desde o primeiro momento, Maria Bonita manifestou estar entediada do marido. Mas todos os dias ela voltava para a casa, à tardinha, regressando pela manhã do dia seguinte. À medida que o tempo corria, mais e mais se fortalecia o namoro.

Eles andavam sempre Juntos, e o bando conheceu naquela época um Lampião diferente e menos bruto. Era um Lampião apaixonado... A mãe de Marta Bonita exultava por ver a filha namorando Lampião, e o pai não escondia um certo orgulho... Mas tudo não passava de um idílio, passeios de mãos dadas. O caso só se resolveu mesmo quando Lampião marcou o dia da partida. Ai Maria Bonita fez pé firme em seguir o amado a todo custo. De nada adiantava Lampião dizer com seu espirito prático: 'Menina, a minha vida é de perigo e será sem futuro. Vivo brigando com os "macacos"' e trocando bala a toda hora, você tem um marido e isso é bem melhor do que eu posso oferecer. Ao meu lado você só vai encontrar o perigo ou a morte.' Maria Bonita respondia; 'Não ouso mais viver com meu marido. Se tenho que morrer amanhã, morro lutando ao teu lado. '

E assim Lampião resolveu levá-la, 'mas fez questão que todos nós vísse que ela ia por sua vontade, pois parecia que ele receava ser tomado como sedutor'. Quando saímos da Malhada da Caiçara, o bando levava um componente a mais: Maria Bonita. E nossa partida foi triste, - pois os pais. de Maria choravam, apesar de satisfeitos por terem ganho mais um filho'... Só dois meses depois, talvez para que 'ninguém soubesse quo o .bando estivera por aquelas paragens, Lampião mandou uma carta, por intermédio do Irmão de Maria Bonita, ao marido dela. A carta foi lida em voz alta antes de ser remetida e eu ainda me lembro que pedia desculpas ao José de Nenen por lhe ter levado a mulher. Mas justificava  explicando que fora ela quem quisera assim... Tenho a impressão até hoje que, o marido de Maria Bonita era bom, educado e conformado, e deve ter compreendido o Capitão Virgulino e até lhe perdoado, quem sabe lá... "

Maria Bonita foi uma mulher de garra e decidida. Aquele amor foi profundo e levou a duração da vida de ambos, pois encontraram a morte no mesmo dia por intermédio das balas da volante, Maria Bonita era uma mulher decidida que sabia muita bem o que queria. Logo aprendeu a atirar e, embora não tivesse temperamento violento, não era covarde e nem de tomar atitudes de força. Não tremia na hora da refrega e enfrentava a situação com serenidade. Não atirava nunca, embora soubesse fazer razoavelmente. Ela era o termômetro entre o gênio terrível de Lampião o dos demais cangaceiros. Muitas vezes ela conseguia contornar um incidente, ainda que Lampião não fosse homem de dar ouvidos a ninguém, quando zangado. Mas pelo menos adiou certas situações de conflito entre eles.

Segundo a reportagem do jornal o Globo, Lampião e Maria Bonita tiveram dois filhos, embora só conheçamos Expedita, fruto vivo do amor dos dois.

Pois bem... depois de vermos essa estória tão comovente e que pode ser constatada por todos aqueles que fazem pesquisas e livros sobre Lampião, o Rei do Cangaço, como podemos acusá-lo, tanto a ele quanto a seus familiares como sendo pessoas preguiçosas? Nunca vimos na história dessa família, desses dois troncos fortes de madeira de lei, que eram os pais de Virgulino Ferreira, sequer uma leve suspeita que tenham sido tolerantes na criação de seus filhos. Mostraram-lhes sempre o caminho da justiça e do trabalho que engrandece o homem e nunca foram amantes do alheio. Após as mortes desses dois troncos de baraúna, a família continuou sua labuta de empreendedores e apenas Virgulino e dois irmão tomaram a senda do cangaço e morreram nesse caminho, mais por revolta que por índole de salteadores. Foram bandidos sim, mas levados pela conjuntura coronelística existente na época.

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sábado, 18 de outubro de 2014

FAMILIARES NARRAM A IMPRENSA SOBRE A MARIA DO CAPITÃO LAMPIÃO.

Por: Rostand Medeiros (Blog TOK de HISTÓRIA)

A NARRATIVA DE ZÉ FELIPE (PAI DE MARIA BONITA)

Sobre esta mulher sabemos que se chamava Maria Gomes de Oliveira, que nasceu no dia 8 de março de 1911, na fazenda Malhada do Caiçara, no Estado da Bahia e seus familiares chamavam-na de Maria Déia. Já seus pais eram os fazendeiros Maria Joaquina da Conceição e José Gomes de Oliveira.

Muito já foi escrito, muito já foi analisado e muito já foi comentado sobre ela. Mas não custa nada trazer para o público do nosso blog “Tok de História” duas antigas reportagens jornalísticas realizadas com familiares da famosa cangaceira.

Vinte anos após a morte de Lampião e Maria Bonita na Grota do Angico, o repórter A. C. Rangel e o fotógrafo Rubens Boccia seguiram para o sertão a serviço do periódico carioca “O Jornal”.

Este era autodenominado o “órgão líder dos Diários Associados”, sendo o primeiro veículo jornalístico adquirido pelo poderoso Assis Chateaubriand e se tornou o embrião do que viria a ser a empresa jornalística Diários Associados. O objetivo dois profissionais da imprensa era realizar uma entrevista com o pai de Maria Bonita, José Gomes de Oliveira, mais conhecido como Zé Felipe.

Os pais de Maria Bonita

O pai de Maria Bonita nada narrou sobre a esterilidade do sapateiro e nem sobre o primeiro marido da sua filha, mas comentou que ficou arruinado com a união de Maria e o “Rei do Cangaço”. Ele afirmou ao jornalista que em consequência daquela união passou oito anos andando pelo norte do país, verdadeiramente como um “cão escorraçado e sem sossego”.

Zé Felipe comentou que após Maria decidir seguir os passos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nas poucas vezes que pode estar frente a frente com a sua filha, buscou convencê-la a deixar aquela vida. Atitude bastante razoável para um pai diante daquela situação. Comentou que Lampião vivia como um “alucinado” e que não parava em parte alguma. Mas como bem sabemos, ele não conseguiu convencer a filha.

Grande parte da entrevista procura mostrar Maria Bonita como uma mulher muito valente, até mesmo violenta, que encarava Lampião sem medo.

O jornalista Rangel informa que Zé Felipe lhe narrou que em uma ocasião em meio a uma caminhada forte, com a polícia seguindo nos calcanhares, Maria Bonita foi ficando cada vez mais para trás, pois trazia embalada uma criança sua, com pouco tempo de nascida. Sem explicar como, a reportagem informa que a cangaceira com seu filhinho pegou um cavalo e conseguiu chegar próximo ao bando. Como a criança chorava muito, Lampião se exasperou e, para evitar que o bando fosse encontrado pela polícia, quis “sangrar” com um punhal seu próprio filho. Mas Maria saltou de punhal na mão e encarou o chefe cangaceiro frente a frente e este desistiu de sua ação. Noutra ocasião Zé Felipe narrou ao jornalista Rangel que Maria tinha ficado raivosa com o companheiro e chegou a quebrar-lhe uma cabaça d’água na cabeça. [2]
Em outra parte da narrativa, o velho Zé Felipe narrou uma desobediência de sua filha perante Lampião.

Sem dizer a data, afirmou que em uma ocasião o bando chegou a um lugar denominado Girau do Ponciano após haver praticado saques. Por alguma razão que Zé Felipe não detalhou, Maria passou a pegar várias peças de pano, de várias cores, jogando-as para cima e depois pisando no pano. Daí media até o alto da sua cabeça e depois mandava cortar aquele pedaço e entregava aos mais pobres do lugarejo dizendo:

 “- Quem tá noiva prá casar ganha uma peça”. 

O pai da cangaceira afirmou que apenas ela podia fazer aquele tipo de coisa e que Lampião estava zangado com ela na ocasião por alguma “Ruga” (Rusga), mas não comentou a razão.

Zé Felipe aos periodistas comentou que até aquela data não conseguia compreender o desejo irascível de Maria seguir atrás de Lampião. Mas quem pode explicar as razões do amor?

É sempre interessante ler antigas reportagens ligadas aos participantes do cangaço, com informações transmitidas por seus próprios parentes, por aqueles que conviveram com a figura pesquisada debaixo do mesmo teto. Mas interessante ainda é quando estas opiniões foram relatadas a jornalistas anos depois do fim do cangaço, quando muito da apreensão de se falar sobre os personagens deste assunto havia desparecido. Mas esta matéria de 1958 se mostrou bastante limitada, pouco detalhista e tendenciosa ao sensacionalismo. Mostrando uma extrema limitação do jornalista, que a nosso ver perdeu uma grande oportunidade de conhecer mais detalhes da vida da companheira de Lampião através do relato do seu próprio pai.

Fonte principal: 
http://tokdehistoria.com.br 
Rostand Medeiros é historiógrafo e pesquisador do cangaço

Fonte: facebook

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Eco fazenda mundo novo: um paraíso bem próximo a Paulo Afonso


Eco fazenda mundo novo: um paraíso bem próximo a Paulo Afonso  

Distante apenas 48 km de Paulo Afonso, na estrada de Canindé, Sergipe, encontra-se um verdadeiro oásis no sertão. 

O eco fazenda mundo novo conta com toda infraestrutura de pousada, ecoturismo, trilhas do cangaço e uma visão deslumbrante do cânion do Rio São Francisco. 

Fica na rodovia se - 230, km 183

 

Reservas 79-9804-0673 - 9606-0609 

augusto@ecofazendamundonovo.com.br 
www.ecofazendamundonovo.com.br 

Estive lá com  Galdino, Ricardo e Nicolas realizando uma matéria para o Jornal Folha Sertaneja e prometi voltar para curtir as belezas desse paraíso.


João de Sousa Lima é escritor, pesquisador, autor de 09 livros. Membro da Academia de Letras de Paulo Afonso e da SBEC- Sociedade Brasileira de estudos do Cangaço. Telefones para contato: 75-8807-4138 9101-2501 

email: 
joaoarquivo44@bol.com.br 
joao.sousalima@bol.com.br

http://www.joaodesousalima.com/2014/10/eco-fazenda-mundo-novo-um-paraiso-bem.html

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O CANGACEIRO BEIJA-FLOR


Assim como Dadá, este ex-cangaceiro sentia falta do tempo das caatingas. 

Fonte: facebook
Página: Corisco Dadá

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SALVO POR CAUSA DE UM “ XAROPE"...!


O cangaceiro LABAREDA, em matéria publicada pelo jornal O GLOBO, edição de 7-2-1969, informou que escapou ao cerco de ANGICO, em que morreram Lampião e mais 10 cangaceiros, porque estava com uma forte gripe, e, pouco antes do combate, foi até a cidade de Jeremoabo-BA, adquirir um XAROPE, o qual lhe salvou a vida.

Confira a matéria, logo abaixo...


Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta

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ESCRITORA MARIA CRISTINA MACHADO E OS CANGACEIROS.


No final de 1969, a dita escritora, reuniu em SP, vários cangaceiros que não se viam há mais de 30 anos, por ocasião do lançamento de seu livro...


Na matéria, logo abaixo, o velho cangaceiro LABAREDA informa, que tem um filho na Polícia Militar de São Paulo.

Confira a matéria de "O GLOBO".

Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta

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O Banditismo no Nordeste

 Por:Donatello Grieco
Ranulfo Prata

RIO, 23 (Da nossa sucursal) – O senhor Ranulfo Prata acaba de publicar um interessantíssimo livro sobre Lampião, que foi editado no Rio por Ariel. Procurado esse ilustre escritor, que já forma em nossa literatura com alguns bons livros de ficção, conseguimos uma entrevista interessante, para os leitores do sul que, em geral, tão pouca coisa conhecem, em linhas nítidas, desse angustioso problema do nordeste brasileiro.

Obtive a documentação do livro, diz-nos o Sr. Ranulfo Prata, na própria região assolada pelo flagelo. Residindo em Santos, fui em dezembro de 31, ao interior de Sergipe onde, na cidade de Anápolis, tenho pessoas de minha família.
Nessas férias, permaneci em Anápolis até março de 1932, procurando sempre entrar em contato com testemunhas pessoais de façanhas do bandido, bem como colher documentação entre as pessoas que me pareceram mais autorizadas a falar sobre o assunto. Colhi, então, os primeiros dados biográficos do facínora.

Este ano, nova viagem foi empreendida por mim àquelas zonas flageladas pelo cangaço. Entrei então, posso dizê-lo com sinceridade, no conhecimento direto dos fatos que mais de perto se relacionam com o banditismo. Viajando de auto de Anápolis a Jeremoabo, quartel general das perseguições e das ações das volantes, passando em Paripiranga, Bom Conselho, Antas e mais regiões sertanejas, vê-se que a gente daquelas vilas não pensa, não fala, não cuida de outra coisa a não ser de Lampião.


Lampião é o problema obsedante; seus atos, todas as suas tropelias sangrentas são discutidos com ânsia febril pelas populações exaltadas. Por isso mesmo que todos falam do mesmo homem. Por lá andando me foi simplíssimo colher dados e narrativa das próprias vítimas, dos soldados, oficiais e mesmo de coiteiros.

Esses “coiteiros” são indivíduos que dão refúgio a Lampião e seus sequazes. Nesta palavra de velho sabor vernacular, está com certeza, o segredo do fracasso de todas as arremetidas contra Lampião. Protegendo o bandido, coagidos por seus ímpetos sanguinários ou então o fazendo por mero desforço pessoal aos policiais truculentos, os coiteiros ocultam todos os detalhes da ação do bandido; e isso dificulta extraordinariamente a captura dos miseráveis bandoleiros.


A ideia do Livro...

- E como surgiu a ideia do livro?

- Vendo o horror que afligia aquelas pobres populações senti-me na obrigação moral de, como intelectual, filho dali e partilhando daquele sofrimento, lançar um clamor e um apelo. Foi o que fiz. As notas que eu próprio tomei, foram depois completadas com as de parentes e amigos, que me merecem a mais absoluta fé. Dos próprios oficiais combatentes recebi relatórios que detalhavam a ação militar.

A amigo dedicado, velho morador de Jeremoabo, e espectador inteligente do drama, devo também muito dos informes. Esse amigo fez uma verdadeira reportagem pelo interior do sertão, falando até com o velho guerrilheiro Pedrão, sobrevivente de Canudos.
  
Em fins de dezembro de 31 presenciei, com os próprios olhos, o quadro que descrevi no capítulo “Êxodo”. Às cidades de Anápolis e Paripiranga, esta última uma vila baiana vizinha, vi chegarem magotes e magotes de gente expulsa dos lares sertanejos. Conversei com agigantados vaqueiros que choravam como crianças por terem deixado tudo ao léu: casa, criações, roças. 
Na minha própria cidade, a principal do Estado, o bandido já tentou várias vezes entrar. Quando lá estive, noites e noites passamos sem dormir, com soldados e homens assalariados dentro de trincheiras, fuzil em punho. Os apontamentos sobre as duas visitas do facínora a Sergipe foram obtidos nas próprias cidades invadidas, de pessoas fidedignas.
  
Minucias do tipo físico de Lampião tive-as do meu amigo e colega Eronides de Carvalho, clínico em Aracaju, que teve o desprazer de hospedá-lo durante uma noite, em uma fazenda dos sertões de Gararu. Muitas das fotografias que estampam o livro de vítimas do bandido, foram obtidas por mim.


A solução do problema...

- E que nos diz a respeito de uma solução a esse problema angustiante do banditismo?

- A solução imediata é a morte ou prisão de Lampião, com a consequente dissolução do bando. 

Posso mesmo expor aqui uma fácil comparação médica: sertão, sofredor da velha moléstia do cangaceirismo, desde longos anos, está agora, numa crise aguda a exigir uma picada de morfina que o alivie de dores cruciantes. Dando-lhe este alívio coem o extermínio de Lampião, ficará ainda a moléstia a merecer terapêutica enérgica que por uma vez, a liquide, voltando o sertão a ser o que deve ser.

Esta solução imediata só uma campanha federal poderá alcançar. Nada mais patente do que a incapacidade dos poderes estaduais, ou melhor, de todo o Nordeste congregado. É uma simples questão de meios: o governo central pode dispor de dinheiro e de força, imprimindo à campanha uma feição séria como exige o problema. Desaparecido Lampião não creio que surja outra figura que adquira a mesma aureola. Apesar dos pesares, de todo o peso das correntes que a política nos amarra aos pés, caminha-se, o sertão progride e já não é meio tão propício ao desenvolvimento do banditismo como há dez ou quinze anos atrás. Os Fords já vasculham tudo aquilo, de Sergipe a Pernambuco, trazendo as consequências civilizadoras fáceis de imaginar.

Concluindo: 

- Com meu livro, termina o Sr. Ranulfo Prata, quis, antes de tudo, fazer obra de repercussão social. 

Não me incomodei unicamente com o amontoamento dos detalhes trágicos da vida do cangaceiro, “Lampião” é um libelo, um livro que envergonha, entristece e humilha, devendo ser visto com sinceridade. É uma chaga que exponho ao sol para ver se é possível curá-la.

DONATELLO GRIECO
Extraído da “Folha da Manhã”, de São Paulo, 
de 28 de janeiro de 1934.

Cortesia de postagem de Antonio Corrêa Sobrinho.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

FAMÍLIA FERREIRA - (LAMPIÃO)


Uma foto raríssima da família Ferreira (Lampião) registrada na década de 1920, em Juazeiro do Norte no Estado do Ceará.

Gostaria que os (as) amigos (as) identifiquem os personagens e deixem seus comentários sobre a foto abaixo.


Fonte: facebook
Página: Geraldo Júnior

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ATRÁS DA PORTA, DENTRO DA VIDA



Por Rangel Alves da Costa* 

Ao avistar um casebre, uma choupana, uma tapera erguida no barro e cipó, talvez a pessoa enxergue apenas a pobreza, a fragilidade da moradia, a situação de abandono e sofrimento. Tudo se apresenta com tais características. Mas poderá avistar muito mais, bastando ultrapassar a soleira.

A feição já diz tudo. Não deve ser muito diferente lá dentro quando a penúria se mostra do lado de fora. Não deve haver uma mesa farta quando a janela de madeira se mostra apodrecida, não deve haver louça reluzente se a porta está caindo aos pedaços, não deve haver mobiliário com o barro despencando da parede.

Ninguém espere encontrar um copo de água gelada onde há dificuldade até de adquirir um pote novo, filtro ou moringa. O cachorro magro não é porque o mesmo rejeita as muitas sobras colocadas à sua frente. É pela falta de comida mesmo. O olhar entristecido, a tez de profunda aflição, não é por nostalgia ou saudade. E sim de sofrimento pela desvalia da vida, de angústia pelas carências tantas.

Não há pai ou mãe que não se encha de agonias ao perceber que logo o seu filho dirá que está com fome, pedirá qualquer alimento, e o vazio da resposta desafiará toda a existência. O adulto suporta a fome e um tanto grande de sede, a maturidade traz consigo a compreensão e o suportar os padecimentos, mas com criança é diferente. Ela apenas pede e espera que os seus pais estendam a mão. Ou o prato. 

Difícil ocorrer o contrário, mas quase sempre a fachada e arredores retratam com fidelidade a feição exterior. Depois do espelho a verdade. Dificilmente a estrutura empobrecida, com barro despencando aos poucos ou fendas de passagem para chuva e sol, guardará um aspecto muito diferente nas suas entranhas, nos seus vãos ou desvãos.


Não será impossível, contudo, de acontecer o inusitado. Gente há que mal tem onde se abrigar, onde estender uma cama, mas prefere roupa nova e cara, televisão moderna e modismos luxuosos a ter uma panela no fogo, um alimento à mesa. Prefere viver com fingimento a reconhecer seus limites. Passa fome, mas materializa o irreal com endividamento. 

Assim, ao avistar uma casinha de barro toda carcomida, já com marcas profundas do tempo, com jeito de que não ficará em pé depois de uma tempestade ou ventania mais forte, que não se espere avistar mobiliário vistoso, despensa farta e feições sempre sorridentes lá dentro. Certamente que os semblantes dos moradores estarão serenos, vez que acostumados com a situação.

E coisa estranha acontece em situações assim. Quanto mais o povo é empobrecido mais se mostra contagiante, cheio de vivacidade, transbordando encorajamento. Nenhuma camada social recebe e acolhe melhor que aquela vivente em situação de extrema dificuldade. Sempre haverá um gesto de afeto, um olhar de satisfação pela visita, o oferecimento do que houver no momento.

Tudo muito contrastante com a realidade. O visitante logo fica sem entender como uma gente lastreada na miséria e no sofrimento consegue manter tanto afeto, placidez, contentamento. E também pouco entenderá sobre sua fé incontida, sobre sua esperança alentada, sobre sua força para ir enfrentando tantos desafios na estrada. E a indagação maior surgindo ao querer saber como consegue sobreviver em meio ao quase nada.

Ao menos no meu sertão, as durezas da vida são logo avistadas ao longe, desde a paisagem entristecida, passando pela cancela caída e chegando perante a parede que ainda esteja em pé. Mas a realidade mais profunda está sempre lá dentro, após a porta de entrada, que pode ser apenas qualquer coisa que divise os poucos aposentos do mundo lá fora.

É atrás da porta que a realidade se mostra na sua inteireza maior, na sua contundência mais profunda, sem meio termo ou talvez. O que se avista é o que é, o que se encontra é o que se tem, o que ali emoldurado não pode ser retocado. O que engana é a barriga grande da criancinha, que está cheia de verminoses e não de comida. O que ilude é a criança mastigando, que é o barro do pé da parede e não pedaço de pão. 

Acaso o fogão esteja sem panela por cima é porque não houve nada para ser assado ou cozido. Acaso o pote não esteja suado na parte de baixo é porque não há mais nem um pingo d’água. Acaso o menino esteja chorando sem parar é porque a fome já chegou, já foi embora, retornou e não há nada que pareça comida. Mas os acasos vão se repetindo de tal modo que logo se tornam em situações costumeiras. 

Assim, a realidade sem retoques está dentro das quatro paredes. O lado de fora pode até enganar, mas dentro da casa não há como encobrir a nudez da desvalia. É como se fosse a representação exata do ser humano. Mesmo que a aparência permita ser imaginado diferente, basta exteriorizar seus instintos e as verdades surgirão sem disfarces. Daí que da soleira da porta em diante tudo se revela, ainda que a moldura carcomida já dissesse do retrato em preto e branco.

Poeta e cronista
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