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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

DELMIRO GOUVEIA: A TRAJETÓRIA DE UM INDUSTRIAL NO INÍCIO DO SÉCULO XX - PARTE II

Telma de Barros Correia - (Profa. Dra, SAP-EESC-USP)
 

Derby e Pedra

Ao longo de sua trajetória empresarial Delmiro construiu ainda uma reputação de empresário ousado e inovador. Três de seus empreendimentos - o Derby, a usina hidroelétrica em Paulo Afonso e a fábrica e vila operária da Pedra - evidenciam tais atributos.
              
O Derby foi um centro comercial e de lazer - que incluía mercado, hotel, cassino, velódromo, parque de diversões e loteamento residencial - inaugurado no Recife em 1899. Depoimentos de observadores da época revelam a admiração causada pelo Derby junto a segmentos da população do Recife, e o orgulho diante deste empreendimento que parecia colocar a cidade em sintonia com o que havia de mais moderno e de bom gosto no mundo de então. O Derby surgia como expressão de progresso e civilidade, como um local ameno que ornava e dignificava a cidade, como um centro de diversões modernas que trazia ao Recife os prazeres inéditos produzidos com o auxílio da técnica e da ciência.

Tal admiração era compartilhada por viajantes. Quando trata de Pernambuco no livro "The New Brazil", publicado em 1901, a escritora americana Marie Robinson Wright confere uma relevância especial ao Derby - que visitou em outubro de 1899 -, ao qual reserva três das doze ilustrações do capítulo e um último parágrafo bastante elogioso:

"Muitos estrangeiros visitam o porto de Pernambuco todo ano, e não é raro ver meia dúzia de nacionalidades representadas nos hotéis de seus atraentes subúrbios, especialmente no Derby, que é um dos mais pitorescos lugares que se pode imaginar, com bonitas casas, sombras de arvoredos, leve movimento das águas do rio, pequenas pontes artísticas semi-enterradas na vegetação das margens, e canoas alegremente pintadas deslizando na superfície da água. Este subúrbio goza da distinção de possuir um dos melhores hotéis da América do Sul; o Hotel do Derby é perfeitamente moderno em todos os sentidos e orientado por um padrão metropolitano de serviço. O mercado do Derby é um dos maiores estabelecimentos do seu tipo, no Brasil, e está equipado para os amplos negócios que diariamente são nele realizados. O subúrbio deve seu aspecto atraente à empresa de um cidadão muito progressista, Senhor Delmiro Gouveia, o proprietário, que tem pessoalmente dirigido tudo em sintonia com o desenvolvimento do empreendimento" (WRIGHT, 1901, 314).

Uma estratégia agressiva de propaganda e de promoção do local, através da imprensa, buscava colocá-lo em evidência e firmá-lo como ponto de encontro de "famílias distintas" e local de diversões moralizadas e modernas.

Algumas singularidades diferenciavam o Mercado do Derby dos mercados brasileiros da época, aproximando-o do conceito do shopping center atual. Era um empreendimento privado e voltado, inclusive, para o comércio de produtos sofisticados. Lá, além dos artigos usualmente comercializados nos mercados na época como os alimentos, se vendia gelo, todos os jornais diários, artigos para fumantes, havia filial da Livraria Francesa, perfumarias, lojas de tecidos, de calçados, de louças, de miudezas, entre outras. Sua localização fora do centro da cidade, em área cercada por rios e mangues, garantia um isolamento espacial, coerente com a busca de um ambiente autônomo e com lógica própria, ideal para favorecer as compras e longe de tudo que possa dificultá-la - o barulho e o movimento das ruas, a falta de segurança, as intempéries naturais. Bondes de bagagem, ligando o Derby a outras localidades, trafegavam pela manhã para atender aos usuários.

No Derby o consumo era promovido como espetáculo, distração, aventura e prazer, utilizando-se diferentes estratégias que pretendiam absorver o vigor dos jovens, os anseios dos entusiastas do progresso e a vida social das famílias. Os proprietários empenhavam-se em colocar a diversão como finalidade do empreendimento. Ao Derby, procurava-se ligar a idéia de progresso, distinção, status e bom gosto. O prédio - com sua higiene, bom gosto, luxo, conforto, iluminação elétrica com uso cenográfico amplamente explorado e localização em área "aprazível" à margem do rio Capibaribe - surgia como uma atração em si. O "magnifico pessoal" que atendia os clientes, a música e a variedade de comidas, bebidas e jogos completavam o espetáculo proposto por este "Centro de Diversões". Na busca atrativos para o local, a técnica constituía-se em outro dos principais elementos mobilizados. "Suas maravilhas" foram alardeadas - a magia da luz elétrica, os "quadros surprehendentes" do cinema e as engrenagens complicadas e caras dos novos aparelhos de diversão - e exibidas, com ampla publicidade, no local. Com o título "Paris no Derby", organizou-se no mercado "um pavilhão para exhibição de diversos apparelhos electricos de diversões" (Jornal Pequeno, 11 set. 1899, 2).

A difusão da prática de esportes modernos, na qual segmentos da população urbana buscavam sinais de distinção social, foi largamente mobilizado, no Derby, pela promoção de jogos e atividades esportivas, tais como corridas de bicicleta (com casa de apostas), regatas, apresentações de ginástica, jogos de bilhar, dados e dominó, tiro ao alvo, boliche e corridas de pedestres. Também se promoveu apresentações musicais (bandas militares, colegiais e de sociedades musicais, orquestras, concertos individuais), carrossel, queima de fogos de artifício, sorteios, exposições, exibições de filmes e peças teatrais. No Derby, festas tradicionais foram recriadas: a missa se desloca do recinto da igreja para o templo do consumo, incorpora as grandes massas, mistura-se às formas novas de diversão. As comemorações do Natal de 1899 se deram entre missa campal, salva de tiros e corridas de ciclistas. Matérias de jornal noticiavam as grandes multidões - de até oito mil pessoas, segundo matéria no Jornal Pequeno - que acorriam ao Derby, elas próprias mostradas como um espetáculo à parte (Jornal Pequeno, 27 dez. 1899, 2). Com este atrativo chamado ao prazer, buscava-se estender o consumo às horas livres, comprometendo as noites e os dias santificados com a atividade.
              
A concepção do Derby foi favorecida pela divulgação de experiências européias e americanas, através, sobretudo, de revistas especializadas e de exposições da indústria. Delmiro Gouveia visitou a Exposição Universal de Chicago, de 1893, evento no qual teria encontrado inspiração para a concepção do Derby, cujo mercado revela particular inspiração no Fisheries Building, projetado para a Exposição de Chicago por Ives Cobb.
              
Mais dignos de admiração, entretanto, revelaram-se os empreendimentos da usina de Paulo Afonso e de Pedra, realizados em regiões distantes e até então pouco acessíveis do Sertão. Plínio Cavalcanti, em artigos e conferência, narrou a epopéia, comandada por Delmiro, que teria representado a construção da usina hidrelétrica: o transporte das imensas máquinas até o sertão através de estradas precárias e de abismos, superando o descrédito, o desânimo e o temor de auxiliares (CAVALCANTI, 1927). Em relatos de contemporâneos acerca de Paulo Afonso, revela-se o profundo impacto causado pela grandiosidade da cachoeira - sua beleza sublime em meio à fúria dos elementos - e o júbilo ante a possibilidade de sujeitá-la aos imperativos do progresso. O filme "A Cachoeira de Paulo Affonso e a Fábrica de Linhas da Pedra", que estreou no Recife, em 1923, centra seu enfoque na contraposição entre a força da cachoeira e força ainda maior da técnica que ousou submetê-la a uma utilidade prática (Correio da Pedra, 12 ago. 1923. p.1).
              
Mas nenhum dos empreendimentos dirigidos por Delmiro despertou mais entusiasmo e admiração que a fábrica e a vila operária da Pedra. Para Assis Chateaubriand Pedra surge como uma reversão heróica das contingências do meio, como uma dupla vitória sobre os elementos e sobre a essência do sertanejo. Sublinhando a paisagem seca e desolada e as violentas variações de temperatura, o autor enfatiza a hostilidade do ambiente natural da região de Pedra e seu poder avassalador sobre o indivíduo. Em face da visão de uma natureza sem freios, diante de cujas forças imensas e ferozes o homem se sente ameaçado e impotente, a ação de Delmiro em Pedra surge como um vigoroso embate da técnica e da razão contra os elementos (CHATEAUBRIAND, 1990). Neste confronto, demonstrando um poder que seus contemporâneos vêem como inelutável, a técnica suplanta aos seus olhos, uma a uma, todas as até então consideradas invencíveis resistências que, acreditava-se, a natureza inóspita do Sertão impunha à penetração do progresso e da civilização no seu território.
              
Na luta para subjugar esta natureza, vê-se a técnica aliada à tenacidade de Delmiro. Transpor a distância do litoral a Pedra, suplantar a fúria das águas da cachoeira, ultrapassar seus abismos e íngremes encostas, desbravar a vegetação agressiva, vencer a resistência do rígido arenito do subsolo e sobre ele levantar cidade, pomares e jardins, tudo isto sob um sol escaldante, um clima seco e um calor asfixiante, era visto como um empreendimento heróico. Tal empreendimento, considerava-se, além de conhecimentos técnicos, exigia muito de entusiasmo, autoconfiança, força de vontade, liderança, teimosia e audácia.
              
Pedra foi edificada ao longo de 14 anos. Em 1903, quando Delmiro chegou ao lugar, era um pequeno povoado às margens da Ferrovia Paulo Affonso, no Sertão de Alagoas. Junto a este povoado, Delmiro comprou uma fazenda onde construiu currais, açude, uma residência, prédios para abrigar um curtume e, a partir de 1912, uma fábrica de linhas e um núcleo fabril para abrigar seus operários. Em 1917, havia em Pedra cerca de 250 casas, chafarizes, lavanderias e banheiros coletivos, loja, padaria, farmácia e feira semanal, escolas, médico e dentista, cinema, pista de patinação, banda de música, posto do Correio e Telégrafo.
              
A localização de Pedra conciliava demandas referentes a controle social, com uma posição estratégica em relação a meios de transporte e a fontes de matéria-prima e de energia. Sua localização era estratégica em termos econômicos. Situada a 24 km da Cachoeira de Paulo Afonso, Pedra encontrava facilidades para o uso de energia elétrica e água, captadas no São Francisco, bem como a possibilidade de utilizar o transporte fluvial no escoamento da produção. Sua localização permitia, ainda, a utilização da Ferrovia Paulo Affonso.
              
Pedra foi inteiramente concebida por Delmiro Gouveia e edificada sob seu comando. Revelando uma extrema centralização de decisões, o industrial conduzia pessoalmente todas as obras. Conforme Hildebrando Menezes, "(...) repetia sempre que não queria mestres a orientarem a execução das suas obras. Preferia homens que cumprissem bem as suas ordens e executassem os seus planos" (MENEZES, 1991, 71). Segundo Arno Pearse, que lá esteve em 1921, tratava-se de "(...) uma cidade especialmente construída, onde as casas são espaçosas e a arquitetura e o plano da cidade modernos" (LIMA JÚNIOR, 1963, 206). Todos os operários da fábrica - com exceção dos rapazes solteiros sem família no local - moravam em casas de alvenaria, alugadas ou cedidas pela fábrica.
              
Coerente com a lógica que presidiu a concepção de núcleos fabris, Pedra foi concebida como um lugar do trabalho; como um espaço pensado para favorecer a produção de mercadorias e a reprodução de uma força de trabalho capacitada para o trabalho industrial e conduzida para respeitar o patrão e suas propriedades. Como uma extensão da fábrica, o núcleo existia para ela. Pedra foi estruturada como um meio onde todas as circunstâncias se atrelavam à produção, onde tudo conspirava para converter o morador em indivíduo previdente, ordeiro, metódico, trabalhador e obediente. Tal esforço comportou ações voltadas para o controle do movimento das pessoas e dos contatos entre elas, para a supervisão do consumo, para a introdução de novas formas de perceber e gerir o tempo, para a promoção do lazer regrado e da educação, para a alteração de hábitos e dos cuidados com o corpo e com as casas. A fixação de normas determinando horários para as diversas atividades, prescrições morais, regras de higiene, proibição do consumo de bebidas e interdição de hábitos considerados impróprios e maneiras julgadas indecentes ou insolentes foram algumas das medidas adotadas. Neste projeto de construção de um novo trabalhador, estratégias de convencimento foram acompanhadas por medidas puramente repressivas.
              
A obediência às normas e regulamentos que regiam a vida em Pedra era apoiada por uma vigilância sobre cada pessoa, exercida por vigias, vizinhos, chefes, professoras e pelo próprio patrão. Para evitar situações favoráveis à contravenção às rígidas normas impostas e reprimir os infratores, uma guarda privada e o próprio industrial realizavam uma inspeção constante, percorrendo as dependências da fábrica, as ruas, os locais de lazer, a feira e as moradias. Segundo Adolpho Santos:

"Todos os dias, pela manhã, invariavelmente, Delmiro fazia demorado passeio de fiscalização pela vila operaria, aconselhando uns, repreendendo os faltosos, impondo costumes de educação domestica, verdadeira romaria de evangelizador exercendo a catequese de civilização naquele centro semi-bárbaro" (SANTOS, 1947, 37).

A limpeza das casas e das ruas e a higiene dos moradores eram enfatizadas na gestão do lugar, tanto através de severos regulamentos, quanto da criação de serviços de abastecimento d'água e esgotamento sanitário. Todas as moradias eram abastecidas por energia elétrica, gerada na usina construída por Delmiro na Cachoeira de Paulo Afonso. As casas de Pedra impressionavam os visitantes pela regularidade e asseio. Salomão Filgueroa apontava nessas casas a "(...) rigorosa uniformidade de estylo na construcção e absoluta hygiene" e Plinio Cavalcanti dizia serem "irreprehensivelmente limpas" (FIGUEROA, 1925; CAVALCANTI, 1927, 51). O asseio rigoroso das ruas e das casas e a brancura das construções - a fábrica fornecia cal e exigia a pintura regular das moradias - foram enfatizados, também, por Assis Chateaubriand, que esteve em Pedra em 1917:

"Antes de tudo, falo do asseio. É irrepreensível. Dentro e fora da fábrica, individual e coletivo. A vassoura é ali uma instituição. Tudo é escovado, brunido, polido. Não vi em parte alguma por onde tenho andado (...) limpeza tamanha e tão rigorosa. (...). Nas ruas seria impossível encontrar um cisco, um pedaço de papel atirado ao chão. Aqui e ali se vêem os barris para coleta dos papéis servidos. As carrocinhas passam e vão esvaziando-os (...). Passa-se como passamos várias vezes por aquelas calçadas extensas e não se vê uma mancha, um sinal de cuspe no chão. É tudo lavado, varrido, escovado” (CHATEAUBRIAND, 1990, 65-69).

Em Pedra, Delmiro Gouveia - não é à-toa que era chamado coronel - colocava-se simultaneamente como patrão e líder político local. Ao mesmo tempo em que se opôs a qualquer interferência, em Pedra, dos coronéis da região, criou todo um aparato policial e administrativo próprio. Vigias, guardas e funcionários o auxiliavam no controle da ordem e na administração do núcleo. À frente de tudo estava Delmiro: única autoridade local. Hildebrando Menezes conta que, em Pedra, Delmiro era "(...) extremamente absorvente, sómente êle mandava" (MENEZES, 1991, 97). Lima Júnior relata que Delmiro costumava prevenir os récem-admitidos na fábrica que "(...) na Pedra, ele era tudo: Deus, o Diabo, a mais alta autoridade" (LIMA JÚNIOR, 1963, 315).
              
A vida cotidiana e o trabalho na fábrica eram orientados por normas concebidas por Delmiro. Extremamente apegado a regulamentos, estabeleceu, inclusive, um para seus hóspedes. Na fábrica, a regra fundamental era a busca constante de aperfeiçoar o produto, exprimida em norma escrita pelo industrial:

"Quem manufatura nunca esta fazendo bem feito de mais.

Por mais minuciosa e bem cuidada, nunca a fiscalização é suficiente e completa. Nunca se conseguirá ser tão asseado quanto se deveria. Jamais se poderá dizer que o produto é irrepreensível, ou livre de defeito. Enfim, todos os dias deve-se cuidar do melhoramento do produto. Não seguindo estes conselhos, tudo baqueará" (LIMA JÚNIOR, 1963, 152).

A norma essencial em Pedra - tão evidente que nem precisava constar de regulamentos - era a obediência à vontade do patrão. Lauro Góes conta que, antes de assinar o contrato para trabalhar no escritório da fábrica, foi alertado por Delmiro: "Aqui o empregado tem que fazer tudo que eu mandar, seja qual for o serviço, serve?" (GÓES, 1962, 3).
              
Os operários de Pedra eram, na sua quase totalidade, originários do próprio sertão. A maioria compunha-se de flagelados da seca de 1915. Outros eram pessoas foragidas em função de intrigas e conflitos, as quais chegaram ao local recomendadas por amigos de Delmiro, ou tendo recorrido diretamente ao industrial.
              
Nos regulamentos que regiam a vida local uma atenção especial era dispensada ao controle dos operários solteiros, sobretudo àqueles sem família no local. Moravam em pensões fora do núcleo - na Pedra Velha - e tinham seu acesso a este - principalmente o contato com as operárias - rigidamente controlado pelos vigias. Tratados como problema de ordem pública, os rapazes solteiros estavam proibidos de freqüentar as casas das famílias operárias. No cinema, homens e mulheres sentavam-se em locais separados, mesmo que fossem casados, enquanto as crianças também tinham um lugar reservado nas primeiras filas. Segundo Lauro Góes, Delmiro costumava repetir: "(...) não admito que funcionário nosso abuse das operárias". Ao tomar conhecimento de que "abusos" desta ordem estavam ocorrendo, Delmiro exigia o casamento (GÓES, 1962, 28 e 12). Para Assis Chateaubriand, Delmiro teria confidenciado:

"A maioria dos rapazes do escritório são solteiros e filhos de famílias de gente da burguesia alagoana e pernambucana. Se mexerem com as meninas operárias, não tem conversa, caso-os no dia seguinte. Nestas condições, evitemos complicações futuras. Queremos o mínimo de convivência entre os dois escritórios e a vila operária" (CHATEAUBRIAND, 1963, 3).

A fábrica exercia um controle rígido sobre o que era comercializado, regulamentando a venda de bebidas alcoólicas e proibindo a de produtos como armas, xales e cachimbo. Delmiro procurava combater formas de consumo julgadas incompatíveis com o salário e a posição dos operários. Assim, estabeleceu prêmios para as operárias que se vestissem melhor e de forma mais barata, buscando incentivar o gosto pela aparência, porém, combatendo "os hábitos suntuários das mulheres" (CHATEAUBRIAND, 1990, 68).
              
O tempo livre e as formas de lazer dos moradores de Pedra também eram objeto de atenção do industrial. Havia o cassino onde se realizavam bailes e sessões de cinema; havia banda de música, pista de patinação, parque de diversões e futebol. O "rink" era o local que concentrava parte destas atividades, definidas por Assis Chateaubriand como "prazeres honestos" (CHATEAUBRIAND, 1990, 66). Aos domingos, havia ainda retretas, cinema e carrossel. A fábrica promovia e incentivava o carnaval, oferecendo fantasias para os blocos e organizando bailes. Formas usuais de divertimento na época, como o jogo de azar, a caça e o jogo do bicho, eram proibidos (MARTINS, 1989, 122). Sobre a proibição à caça, Delmiro - em consonância com a idéia da preguiça como atentado à economia e à razão - afirmava: "Obtenho dois resultados com isso, ensino-os a serem dóceis com os animais e combato a vagabundagem. O caçador aqui é um preguiçoso" (CHATEAUBRIAND, 1990, 69).
              
A rotina das crianças também era fiscalizada com cuidado. Havia um controle rígido sobre a freqüência às escolas, tendo sido estabelecidas multas para os pais que não conseguissem justificar as faltas dos filhos. Regulamentos, vigilância severa, multas, castigos e humilhações eram os instrumentos básicos utilizados para mudar características originais dos moradores, impondo novos padrões de higiene, de vestir e de boas maneiras. As normas, em Pedra, também eram rígidas em relação aos modos de conduta dos moradores. Puniam-se atos considerados de incivilidade, como jogar papel ou cuspir no chão, riscar paredes e fumar cachimbo. Às moças era proibido fumar em público. Para os que infringiam as normas reservavam-se punições exemplares que iam de reprimendas públicas, multas e castigos corporais à expulsão do núcleo. A ordem tida como exemplar - e tantas vezes elogiada - de Pedra fundamentava-se nesta profunda ingerência sobre a vida privada dos moradores, configurada um despotismo radical do patrão sobre seus operários.

CONTINUA AMANHÃ.

www.usp.br/pioneiros/n/arqs/tCorreia_dGouveia.doc

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PAJEÚ EM CHAMAS – O CANGAÇO E OS PEREIRAS (CONVERSANDO COM SINHÔ PEREIRA),



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MISSA DE 7°. DIA!

Por Benedito Vasconcelos Mendes

Em Mossoró, a Missa de Sétimo Dia da minha irmã Maria da Glória Mendes do Lago será na Igreja São José, às 17 horas, de quarta-feira, dia 14-12-2016. 
Agradeço a todos que se fizerem presentes a este ato de piedade cristã.

Enviado pelo professor Benedito Vasconcelos Mendes

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EM 13 DE DEZEMBRO DE 1912 NASCIA LUIZ GONZAGA

Por Juliana Pereira (pesquisadora)

Em 13 de dezembro de 1912, nascia na Fazenda Caiçara, em Exu, sertão de Pernambuco, nosso eterno rei da música regional nordestina, Luiz Gonzaga do Nascimento, filho de Januário José Santos, agricultor/sanfoneiro de 8 baixos e de Ana Batista de Jesus (Santana), agricultora/ dona de casa (vendia cordas na feira). 

Luiz Gonzaga com os irmãos e seus pais.

"Luiz Gonzaga foi um matuto que conquistou o mundo, como bem nos disse o jornalista pernambucano, Gildson de Oliveira. Guimarães Rosa dizia que " o mundo é mágico, pessoas não morrem, ficam encantadas", em sendo assim, Mestre Lua encantou-se em 02 de agosto de 1989, nos deixando um legado de 49 anos de uma extensa e intensa produção musical. 

Luiz Gonzaga e sua última mulher, Maria Edelzuita Rabelo, uma sertaneja nascida em São José do Egito-PE. Ela o acompanhou durante seus últimos dias de vida e dor.

O porta-voz da nação nordestina, certa feita, disse: 

"Não é preciso que a gente fale em miséria, em morrer de fome. Eu sempre tive o cuidado de evitar essas coisas. É preciso que a gente fale do povo exaltando o seu espírito, contando como ele vive nas horas de lazer, nas festas, nas alegrias e nas tristezas. Quando faço um protesto, chamo a atenção das autoridades para os problemas, para o descaso do poder público, mas quando falo do povo nordestino não posso deixar de dizer que ele é alegre, espirituoso, brincalhão. Eu sempre procurei exaltar o matuto, o caboclo nordestino, pelo seu lado heroico. Nunca usei a miséria desvinculada da alegria." 

Gonzaga foi mais que um sanfoneiro, ele dizia que mais do que ele era, não queria ser não. Nos fez apenas um pedido: 

https://www.youtube.com/watch?v=3XDblMUgBP8

"Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana. Gostaria que lembrassem muito de mim; que esse sanfoneiro amou muito seu povo, o Sertão. Decantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes. Decantou os valentes, os covardes e também o amor”. 

Toda reverência ao Rei e ao seu legado! Salve o Mestre Luiz Gonzaga do Nascimento! Salve!!!

Juliana é pesquisadora do cangaço e sócia da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

DA PEDRA AO PÓ (OU AS LIÇÕES DO TEMPO)

*Rangel Alves da Costa

O ciclo da vida e de tanta coisa: rochedo, pedra, grão, pó... Ou simplesmente da pedra ao pó e as lições do tempo. Assim também a subida no ponto mais alto da escada e a abrupta queda, a postura arrogante e a submissão como revide do destino, o poder e a riqueza e o posterior fraquejamento na desvalia. Nada será sempre tão rochedo que mais tarde não se transforme em pó. E quanto maior a soberba maior será a deterioração.

A História exemplifica bem a indestrutibilidade que acaba se esfacelando. Grandes e poderosos reinos, impérios e civilizações, acabaram se dobrando às próprias fraquezas que se mantinham ocultas. Castelos imponentes, fortalezas abastadas, palácios suntuosos, governantes absolutos, porém tudo afeiçoados a grãos de areia. O ferro que enferruja, a rocha que sucumbe ao vento, o indestrutível que se esfacela até em pó se transformar. 

Grandes e invencíveis conquistadores acabaram sendo dizimados por uma seta qualquer, uma doença, um surto. Sobre os escudos impenetráveis, eis que uma ponta afiada alcança a mortal passagem. Alexandre, o maior dos conquistadores, ainda jovem pereceu por uma moléstia adquirida nos campos de batalha. E talvez tenha se perguntado no leito de morte: Qual a valia de tanta conquista, de submissão a tantos povos, se não pude vencer a batalha que está em mim?

Genghis Khan, o temível e terrível conquistador mongol, submeteu quase o mundo inteiro. E depois morreu acometido por uma febre. Átila, rei dos hunos e cujas sombras amedrontavam os maiores imperadores, venceu as mais difíceis, contudo não conseguiu vencer uma hemorragia no seu próprio castelo, morrendo ensanguentado em si mesmo. Golias, o guerreiro bíblico, imenso e poderoso, sucumbiu ante o pequenino Davi. Dizem que morreu atingido por uma pedra. 

E o que dizer do poderoso império romano, desbravando e conquistando quase todos os povos de então, mas que foi esfacelado pela falsa ideia de superioridade indestrutível? Ora, na ânsia conquistadora, subjugou e tributou, feriu e escravizou, todo e qualquer povo encontrado pelos seus generais. Contudo, esvaziado na própria sede, foi sendo acossado e submetido por aqueles mesmos desconhecidos que foram submetidos ao seu poder. Então os bárbaros fizeram sucumbir o presunçoso e arrogante império romano.


São apenas exemplos de como os castelos de areia sempre estiveram presentes em toda época e por todo lugar, desde os reinados poderosos aos mais temidos conquistadores. Assim, de repente, o que parecia indestrutível tombou pela força de um vento oculto chamado tempo. E este, o tempo, soprado pelas lições de um livro em cujas páginas diz que toda arrogância se destrói por si mesma, todo mando será desobedecido, tudo que se mostra de uma forma amanhã já estará revelado na sua antítese.

O ferro, esse metal duro, imperecível, símbolo de força e durabilidade, não consegue conter o avanço do tempo. Suporta tudo, menos a força do tempo. Não só a voracidade do tempo como a acidez da maresia. Com o passar dos anos, a cor férrea vai se tingindo com um matiz diferente, entre o marrom e o afogueado, para logo surgir a face voraz da ferrugem. Como uma doença que vai destruindo as células, assim a ferrugem vai se alimentando do ferro até devorá-lo completamente.

A fortaleza vai se corroendo pelo correr dos anos e o seu fim restará em escombros. A madeira rija nunca se mostra tão impenetrável que mais tarde não se transforme em moradia e caminho de cupins. Pequenos insetos vão se assenhoreando de imensas e centenárias árvores, lentamente roendo seus troncos, até que desabem sem vida. Tudo definha com o tempo, tudo morre com os anos, tudo se mostra incapaz de vencer o destino. Ora, já dizia Eclesiastes que tudo começa e acaba, tudo nasce para morrer, num ciclo constante e inevitável.

Não se pode fugir de sua leitura: Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar. Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar. Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora. Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. Assim no Eclesiastes (3:1-8), assim na vida.

Contudo, mesmo com as lições e os exemplos do tempo, nunca há garantia que o homem se reconheça na sua fragilidade. Por mais que saiba que a vida é feita de causas e consequências, por mais que reconheça ter a existência a força de uma onde que se desmancha na areia, ainda assim prefere o ímpeto à humildade, prefere a arrogância à modéstia. Não sabendo que o vento sopra e que o seu castelo é de areia.

Escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

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Dia 27 de julho de 2015, na cidade de Piranhas, no Estado de Alagoas, no "CARIRI CANGAÇO PIRANHAS 2015", aconteceu o lançamento do mais novo livro do escritor e pesquisador do cangaço Gilmar Teixeira, com o título: "PIRANHAS NO TEMPO DO CANGAÇO". 

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CONVITE MISSA DE SÉTIMO DIA!

Por Benedito Vasconcelos Mendes

A  Missa de Sétimo Dia  da minha irmã Maria da Glória Mendes do Lago  será na próxima quinta-feira (dia 15-12-2016), na igreja Christus Filius Dei, na rua Silva Paulet 1654. (Esta Igreja é a Capela do Colégio Christus, que se localiza atrás do citado colégio)A missa será às 19:00 horas de quinta-feira, dia 15.

Enviado por Benedito Vasconcelos Mendes

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OS RESPONSÁVEIS DIRETOS PELO AMOR QUE NUTRO E SINTO PELA VELHA E SAUDOSA ESTRADA DE FERRO MOSSORÓ-SOUSA

Por José Romero de Araújo Cardoso

Meu pai e minha mãe foram os responsáveis diretos pelo amor que nutro e sinto pela velha e saudosa Estrada de Ferro Mossoró-Sousa. 


Invariavelmente, quase toda semana, vínhamos de trem, da Paraíba para o Rio Grande do Norte, esperando-o sair de madrugadinha, de Sousa/PB, mas às vezes vínhamos de Pombal/PB para Governador Dix-sept Rosado/RN com Reizinho, antigo comprador de cal de saudosa memória, natural de Pombal/PB, o qual frequentou durante muito tempo esse município potiguar, remontando ainda, sua presença na localidade, integrado que foi à geografia humana do belo lugar, quando ainda chamava-se São Sebastião, a terra do gesso, do alho, da cebola e da cal.





Enviado pelo professor, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano José Romero de Araújo Cardoso.

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A RUA DOS COITEIROS”


Naquele tempo, para sobreviver às inúmeras perseguições das volantes, Lampião arquitetou uma enorme e eficiente ‘malha’, rede, de colaboradores. Essa rede se fazia necessário para aquisição de material bélico, alimentação, vestimentas e, o mais importante, informações. Que, vira e mexe, O “Rei dos Cangaceiros” usava os ‘informantes’ para passarem a ‘desinformação’. Uma espécie de espionagem e contra espionagem na caatinga sertaneja.

O roceiro tinha que ser coiteiro, não simplesmente por ser. Havia o medo do que poderia lhe ocorrer, assim como a sua família, se se recusa ser colaborador. Tinha lá suas vantagens em ser colaborador do ‘Capitão’. A vida não era, e não é fácil para quem vive exclusivamente dos produtos retirados das pequenas propriedades. Pior ainda, quando o mesmo com sua família, era morador de uma fazenda. Às vezes o dono sabia, consentia e mandava seu ‘morador’ acolher e alimentar os grupos quando por suas terras passavam. Outra era só o colaborador quem sabia da passagem e estada deles naquelas brenhas. A partir do momento em que ele matava a sede e a fome de algum cangaceiro, leva ou trazia algum recado, passava a ser colaborador, mesmo que nunca mais se repetisse esses atos. Aí vinha a dureza imposta por aqueles que os perseguiam, por ele ter dado água aos cangaceiros, eram, quando descobertos, presos, maltratados e até assassinados. No entanto, haviam aqueles que colaboravam por recompensas em dinheiro, favores e proteção, dependendo da sua colocação na pirâmide de colaboradores, se estavam na base, no meio ou no topo da mesma.

Certa feita, uma volante comandada pelo Aspençada Sinhozinho, Manoel Gomes de Sá, rastreava os sinais deixados por dois cangaceiros, que tinham estuprado uma mulher em uma fazenda da região, no leito e margens de um riacho temporário no sertão do Pajeú. Próximo às margens dos riachos e rios, era o local preferido onde os sertanejos procuravam levantarem suas taperas para morarem. Entretidos em decifrar e seguir o que os sinais ‘diziam’, os homens da volante nem percebem que estavam bem perto de uma casa.

Na casa, os dois foragidos, cangaceiros Zé Marinheiro e Sabiá, tinham matado sua sede e estavam a prosear embaixo de uma latada, quando, de repente, o dono da casa e sua esposa avisam aos dois da aproximação de soldados. Acredito que os cangaceiros que ali estavam, pensaram serem poucos os homens em seus rastros, pois um deles, Zé Marinho, faz pontaria e abre fogo contra aquele que estava na linha de tiro.

O som do disparo, repentino àquelas horas e naquele silêncio da mata, não deixa os soldados atinarem o ponto correto de onde tinha partido o mesmo. O tiro teve endereço certo. Acertou o ouvido do militar e esse morre mesmo antes de chocar-se contra o solo seco do sertão. Demorados alguns instantes, a volante, já consciente do que ocorrera, manda bala em direção oposta de onde viera o disparo.

Embaixo da latada onde estavam os cangaceiros, havia um pilão de madeira, e após matar o soldado, é exatamente onde o cangaceiro Zé Marinheiro se protege dos disparos dos soldados, os quais retiram lascas da madeira e fazem o cabra escutar o zunido do projétil tomando outra direção, ou mesmo aquelas que penetram e se alojam no velho objeto de pilar milho e outras culturas.

Vendo o companheiro tombado, seus companheiros procuram cercar o local o mais fechado e rápido que poderiam. Aquele que matara seu companheiro não podia escapar da sua sentença. E acocham cada vez mais o círculo da morte.

Vendo que estavam cercados, os dois cabras pulam para dentro da casa do roceiro, e, de lá, dão combate à volante.


Essa casa era d’um caboclo trabalhador, conhecido como Garapu. Casado com dona Carmina, geraram oito herdeiros. Quando os cangaceiros adentram na casa, sua companheira procura proteger sete, de seus filhos, colocando-os em lugar seguro. O caboclo tinha algum dinheiro, provavelmente ganho dos cangaceiros, pega seu ‘tesouro’ e o coloca entre uma telha e outra. Essa ação não passa despercebida por sua esposa, que naquela hora, lembra-se de seu primogênito que tinha ido fazer compras na vizinhança. O filho mais velho daquele casal estava mais perto do que ela, sua mãe, imaginava. Viajando montado em uma burra, já na volta de sua viagem, escuta o tiroteio vindo das bandas de sua casa. Salta do animal e procura uma moita como esconderijo, vendo o que se passava com sua família.


Soldados atacam, cangaceiros se defendem. Num momento infeliz, o comandante da volante passa diante de uma das janelas da casa, e, nessa estava o cangaceiro Sabiá, que sem demora, faz mira e abre fogo contra ele. O tiro e certeiro, levando a mais uma baixa na volante. Após a morte do comandante, vários de seus comandados não conseguem segurar o fogo. Dentre eles, estava o soldado Zé Tinteiro, valente e destemido, segura seu fuzil e combate os inimigos com maior afinco.

Outro volante, Zé Freire, homem de um Santo Protetor fora do comum, estava tiroteando contra Zé Marinheiro. Esse, salta por sobre a porta de baixo, as portas da maioria das casas do sertão rural e mesmo nas cidades, naquela época, eram em duas partes e de madeira, e avança, ficando a centímetros de Zé Freire. Aponta a arma e aperta o gatilho. À bala impina, a espoleta não ‘quebra’, a arma não dispara. Zé Freire, quase que encosta a boca do fuzil na cabeça do cabra e faz fogo, estourando o crânio de Zé Marinheiro.

Seu companheiro, o cangaceiro Sabiá, continua a combater os soldados, virado numa fera ferida. Numa tentativa de louco, salta para fora da casa e nesse momento é atingido na barriga e em uma das pernas. Continuando a combater os soldados bolando pelo terreiro da casa. Até que os dois valentes volantes se aproximam e matam o terrível cangaceiro.

Após abater os cangaceiros, a tropa aproxima-se da casa e o soldado Zé Freire grita para que o dono saia para o terreiro... para morrer.

Velório do Aspensada Sinhozinho Gomes

“(...) o soldado Zé Freire, revoltado com a morte do Aspençada Sinhozinho Gomes e dos outros dois companheiros, gritou para Garapu, dizendo:

– Saia pra fora, Garapu. Você tá sabendo que vai morrer (...).” (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de. e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa. Floresta, PE. 2016)
O coiteiro sabia sim sua sentença. Sabia que por ajudar bandidos seria condenado a morte certa. Estando dentro de um quarto, com sua esposa e os sete filhos, Garapu despede-se deles, saca de uma faca peixeira e parte de encontro a morte. Desfere um golpe em direção ao soldado que havia lhe inquirido, errando o alvo. O soldado Zé Feire, afasta-se para um lado e mata a tiros de revólver o coiteiro.


“(...) Com a morte de Garapu, Carmina teve que lutar sozinha para criar os filhos, lavando roupas de vizinhos, costurando e cuidando da lavoura(...).” (Ob. Ct.)

Dona Carmina, na época do tiroteio em sua casa, estava grávida. Alguns meses depois, pariu uma menina a qual deu o nome de Nair Carmina da Silva. Logicamente, essa, nunca soube o que é ter um pai, seus afagos e conselhos.


Os corpos dos militares mortos são levados pelo restante da tropa para seu QG. O corpo do caboclo Garapu e dos dois cangaceiros, Zé Marinheiro e Sabiá, são enterrados em uma vala comum bem próximo a casa.

As notícias voam com o vento. E aquela história da morte do caboclo Garapu se espalhou por toda a região do vale do Pajeú. Outros coiteiros, temendo a mesma sina, arrumam suas tralhas em cima de carro de bois, no lombo de animais e dão no pé. 

Na cidade de Floresta, PE, na rua Theófhanes Ferraz Torres, os fazendeiros “Manoel Januário, Rosendo Januário e Elói Januário", colaboradores de Lampião, estabelecem residência. A partir daí, essa rua passa a ser conhecida como “A Rua dos Coiteiros”, até os dias de hoje.

Fonte (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de. (Marcos De Carmelita Carmelita)e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa(Cristiano Ferraz). Floresta, PE. 2016)
Foto Ob. Ct.

Fonte: facebook
Página: Sálvio Siqueira

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ANTONIO SILVINO NO RIO GRANDE DO NORTE

Por Raimundo Soares de Brito (Raibrito)

Na sua visita a Augusto Severo-Rn – por sinal bem sucedida – Antônio Silvino deixou um recado para o povo de Caraúbas, dizendo que em breve iria até ali, com o mesmo propósito.

O recado foi transmitido pelo Padre Pinto então vigário de Augusto Severo, ao Bel. Alfredo Celso de Oliveira Fagundes, que ali se encontrava em trânsito.

O Dr. Alfredo, recém-investido no cargo de Juiz Distrital de Caraúbas, cioso dos seus deveres de guardião da lei, não viu com bons olhos a descabida e pretensiosa atitude do bandoleiro e ao chegar a sua terra, onde também já havia chegado o “ultimatum” de Antonio Silvino, encontrou o chefe local e demais autoridades sobressaltados e desalentados ante a perspectiva da indesejável visita.

Foi quando o juiz tomou a arrojada decisão: assumiu a responsabilidade da defesa do lugar, e mandou dizer ao bandoleiro que, “podia vir, mas que seria recebido à bala” – aquela mesma resposta que Rodolfo Fernandes daria mais tarde a Lampião.

Cangaceiro Antonio Silvino

É claro que Antônio Silvino não gostou da resposta e mandou-lhe o troco com esta terrível ameaça:

“Pois diga a esse dotôzinho, que breve irei lá. Vô rasgá a sua carta de dotô, queimar a sua casa, esquartejá-lo e depois dinpindurá os seus restos nos postes dos lampiões da luz...”.

Imediatamente a população foi mobilizada. Alberto Maranhão no Governo do Estado, cientificado, mandou “um cunhete de balas (1.000 cartuchos)”.

As lideranças locais e fazendeiros convocados atenderam ao chamamento do juiz e de repente 40 rifles estavam a sua disposição.

Vários dias a então vila de Caraúbas esteve em pé de guerra na expectativa do ataque iminente, mas Antônio Silvino não apareceu para “rasgá a carta do dotô...”.

De tudo ficou o fato e a foto documentando para a História um acontecimento, fruto de uma época de atraso que já se vai encobrindo na curva do tempo...

http://lentescangaceiras.blogspot.com.br/2008/07/antonio-silvino-no-rio-grande-do-norte.html

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