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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mais informação sobre o suposta foto de Lampião


O escritor e pesquisador do cangaço Dr. Archimedes Marques escreveu o seguinte comentário sobre a suposta foto de Lampião:

A partir da squerda - João, Severo, Lívio, Alcino, Archimede e Vilela

Caros amigos Antonio Jose de Oliveira e "blogdominervino":

Na verdade o Jornal O GLOBO diz claramente que a fotografia é de Lampião (basta acessar a página e passar o mouse sobre a foto e constatar). 

Assim, não houve equívoco da minha parte, muito pelo contrário, segui o que assevera o CONCEITUADO JORNAL O GLOBO) Se houve equívoco foi do Jornal, não meu. 

Aproveitando, procurarei um perito em fotografias para que seja definitivamente descartada, ou não, a dúvida.  

Archimedes Marques

Confira no site o que afirma o Dr. Archimedes Marques. Clique no link abaixo e passe o mouse sobre a foto em estudo. 

http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/a-morte-de-lampiao-9394818


http://blogdomendesemendes.blogspot.com


A morte do cangaceiro

Por Honório de Medeiros


A cruz de aroeira, carcomida pelo tempo – teria quase oitenta anos, repousa sob uma plataforma de tijolos grosseiros que alguma alma caridosa houve por bem construir à margem da muito antiga estrada do cajueiro, que liga Limoeiro a Mossoró. Originariamente, percebe-se facilmente, a cruz estava plantada diretamente no solo calcário. Hoje, inclusive, existe uma pequena cavidade por trás da cruz, construída com tijolos, talvez para receber velas.

 Um pouco à esquerda, uma oiticica centenária zomba da fragilidade humana derramando sua sombra testemunha daquele dia fatídico. Mais além, um denso mar de algarobas, marmeleiros, juremas, mufumos, todos acinzentados pelo pó que o vento quente revolve, dá uma precisa noção do tipo de homem que é capaz de enfrentá-lo: o sertanejo!


Ali estava sepultado um tipo de sertanejo que já não existia mais. Pelo menos como nos moldes de antigamente. Um cangaceiro. Menino de Ouro? Alagoano? Dois de Ouro? Az de Ouro? Não é provável que sejam os dois primeiros, por que há relatos de fontes primárias quanto à presença deles em episódios posteriores envolvendo o cangaço. A dúvida é: qual dos dois restantes? Dois de Ouro ou Az de Ouro? Se obedecermos à ciência, que nos manda respeitar o testemunho de quem presenciou os fatos, a tendência é que tenha sido Dois de Ouro.

Naquele dia fatídico, fugindo a passo acelerado de Mossoró, onde perdera Colchete e Jararaca, Lampião carregava consigo, tomado por dores cruciantes, esse cangaceiro que teria sido atingido por uma bala que lhe destruíra o nariz. Bala essa disparada por quem guardava os fundos da casa do Coronel Rodolpho Fernandes, respondendo ao ataque desferido sorrateiramente por comandados de Massilon, enquanto Jararaca, Colchete, e outros, ensandecidos por cachaça e adrenalina, distraiam os defensores postados à frente do casarão do Prefeito.

Lampião já parara em uma casa humilde – esse episódio é por demais conhecido – e obtivera água e sal para lavar o ferimento. Coberto de sangue, com a cabeça envolvida por um lenço sujo, o cangaceiro, entretanto, não conseguia continuar. E, à sombra da oiticica, decidiu morrer. Pediu que lhe matassem – não queria continuar. Fera tinha sido, fera era, morreria como fera. Nisso se assemelhava a qualquer samurai, que vivia para morrer, órfão do culto à batalha, às armas, e à violência.

Após muita discussão um tiro reboou no silêncio pesado da caatinga. Um seu companheiro o executou e o sepultaram em cova rasa.

No entorno da sepultura há muitas pedras – calcário. São pedras milenares. Testemunharam tudo. Pudessem relatar o que viram e ouviram contariam a nós acerca daquele momento tenebroso. Saberíamos, talvez, quem de fato teria sido o cangaceiro executado a pedidos. Diriam a nós um pouco mais acerca desses homens-feras que não temiam a morte, a sede, a fome, caminhadas sem fim por sobre um chão inóspito, debaixo do sol inclemente, fendendo a braçadas a caatinga áspera.

Não temiam os inimigos naturais – as volantes, os “macacos”, a resistência, quando havia, dos habitantes do Sertão a quem atacavam. Não temiam a traição permanente dos coiteiros e coronéis com os quais constituíam essa página da história do Brasil recém-saído da monarquia. Não temiam a morte. Não temiam nada.

Para esse cangaceiro desconhecido deixamos nossa perplexidade, algumas orações, muitas perguntas não respondidas e uma vela acesa, solitária, com a chama a teimar, trêmula, em sobreviver lutando contra o vento quente do Sertão.

Passados todos esses anos, quase um século, sua lembrança sobrevive na curiosidade de alguns apaixonados pela história do cangaço, coronéis, cantadores de viola, repentistas, místicos, jagunços, fanáticos, almocreves, todos que construíram a saga dos antepassados fundadores da cultura sertaneja nordestina, na terra sagrada por onde perambulou Lampião, Padre Cícero, o Coronel Zé Pereira e o grande, talvez o maior de todos, Zé Limeira, o poeta do absurdo...


* Arte de Gabriel Ribeiro
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Lampião: O Capitão do sertão! - Cap. I

Por A. Fleming

O reino de Lampião
A geografia do sertão- nas vozes dos poetas

O sertão pernambucano é uma vasta planura cinzenta; serras isoladas, dispersas, cujas silhuetas fulvas alteram as retas do horizonte.

Talham-se, nos horizontes, perfis de ossaturas e arcabouços, de matos garranchentos, espinhudos, singularíssimos, e de arcanos ensolarados. Bandos de negras aves numerosas esculpem rodopios ao acaso dos céus, pelo espaço mudo, parado de eternidade. Cascavéis se aglomeram nas estradas e veredas.

Terra paupérrima. Aquela solidão dardejante, aquele mar de quietude e cinza, onde se escutam, por vezes, vagos sons cavos e monocórdios. É, pois, reino de numeroso silêncio, intransfigurado reino em que as horas se sucedem monótonas e só elas renovam, nas cores do dia abrasador e da noite que chega abruptamente, enregelada, a imutabilidade do céu e da terra. Geografia de fulgurações. As mesmas fronteiras da seca e do cangaço.

É de estarrecer...

É o mundo brasileiro das ardências recurvas, côncavo, convexo, de puríssimas poalhas em escarlate azul!

Ali, naquele deserto, onde até o ar é absolutamente seco, não se conhece, senão no tempo das chuvas, o murmúrio das águas. Os rios são temporários, pulsáteis, "cortam", na linguagem do povo. E lá ficam aqueles estirões compridos, sem fim, de areia.

O famoso Vale do Pajeú, rio dos sertões pernambucanos, é dos mais belos e férteis do país dos nordestinos. Banha, entre outras localidades, Floresta, cidade natal de nosso guerrilheiro-místico Lampião, e, por isso mesmo, é famoso por seus cangaceiros, cantadores e vaqueiros.

Quando a madrugada, despertada, se sacudia nos assanhos do sol nascente, costumava este famoso Rei do Cangaço ? Capitão Virgulino Ferreira da Silva ? fincar-se de pé, nos altos dos tabuleiros desse vale, para contemplar, demoradamente e farto de altivez e satisfação, as vastidões do seu Reino , mantido na sujeição de seu ferro e sinal, e conquistado numa grande guerra de vinte anos ? a Guerra de Lampião! 

Versos de Lampião 

"Sou senhor absoluto
De todo este sertão
Aqui quem quiser passar
Precisa apresentar
Licença de Lampião".

Em anos de 1929, numa das andanças pastorais, o vigário de Glória, padre Emílio Ferreira, encontrou-se num arraial com o legendário Rei do Cangaço, que fora assistir à missa.

Por notável coincidência, o padre, momentos antes de celebrar o ofício, havia recebido de presente, das mãos de um caixeiro viajante amigo, um grande mapa-plano do Brasil que media aproximadamente 1m2, forrado de algodãozinho e pregado em dois cilindros finos de madeira para enrolar, uma edição do Ministério da Viação do Rio.

Após a missa, vai Lampião cumprimentar o sacerdote. Durante animada palestra desenvolvida entre goles de café, teve uma idéia o padre. Estendeu o mapa aberto sobre a mesa e, entregando a Lampião um grosso lápis encarnado, pediu-lhe: - "De vez que o senhor é Rei, marque e risque sobre esse mapa o tamanho de seu grande Reino".

Lampião, devagar, observando as localidades, rios e montanhas, perguntando muito e auxiliado pelo padre, foi traçando. Tomando por ponto de partida, ao norte, Mossoró, no Rio Grande do Norte, desceu, em zigue-zague, até Porto da Folha, em Sergipe. Desceu mais até Capela e daí tangenciou numa linha até a fronteira da Bahia, onde penetrou por Itapicuru, talando o Estado por Riachão do Jacuípe até Morro do Chapéu. Desceu profundamente, em ponta de lança, até Barra do Estiva e Rio de Contas, donde iniciou a subida para Remanso. Continuando para cima, atingiu Juazeiro do Norte e Caririaçu, no Ceará, depois Jaguaretama, Morada Nova e Limoeiro do Norte, donde fechou o circuito para Mossoró. Em síntese, uma imensa área de cerca de 300.000 km2!   

Mapa do Reino de Lampião


Entusiasmado, exclamou o padre dirigindo-se ao Rei do Cangaço:

- "Territorialmente falando, seu REINO faria inveja a muita cabeça coroada da Europa!..."   

Lampião - Sua gente 

Restantes da guerra de extermínio do período da colonização do século XVII, os índios da região do nordeste, já em reduzido número, e vencidos e subjugados pela força, acabaram estabelecendo alianças com os colonizadores, visando com isso barrar sua própria extinção.

Por sua vez, as alianças trouxeram a miscigenação e incrementaram o povoamento. Em dias de hoje, a população sertanejo-nordestina é predominante mestiça, cabocla: o vaqueiro tem sangue e espírito de índio. A excepcional resistência de Virgulino Ferreira era assombrosa - como se verá ao longo deste artigo - mesmo perante seus companheiros de cangaço, tanto que, muitos deles, não suportando seu duro regime de vida, deixaram sua companhia.

No final do Império, deu-se a transformação dos fazendeiros latifundiários em coronéis políticos, em geral, sátrapas, cruéis e briguentos. Assim, em meados do século XIX até quase 1940, existiu um sertão típico: o de coronéis e vaqueiros, beatos e cangaceiros, cantadores e almocreves ? o universo sertanejo - com seus pontos culminantes no coronelismo, em Antônio Conselheiro, em Padre Cícero e em Lampião.

Na resplandecência azul dos espaços e tempos, os sertanejos vivem, em geral, em casas de taipa, cobertas de telha vã; usam fogão de trempe de pedra, alimentado de lenha, graveto e maravalha; repousam em zidoras ? cama de varas - ou no chão forrado de esteiras de piriri, talos de bananeira ou palha de carnaúba.

O meio quase único do trabalhador se locomover, por conta própria, sem estar a serviço, são os próprios pés, exceto nos casos em que usam o animal do patrão. Aliás, os sertanejos são resistentes e velozes andarilhos. Mesmo nos curtidos da fome, nos flagelos das secas, é a pé que eles emigram, cambaleantes, pelos caminhos sem-fim, com a poeira frouxa levantando-se do chão pedregulhento e urente.

Uma das grandes táticas de Lampião era a sua incrível e assombrosa mobilidade que o tornava extremamente periculoso. Chegam às raias do fabulesco as longas tiradas a pé realizadas por ele e seu grupo. Como aquela, a mais famosa, de vinte léguas numa noite, das 18 às 6 horas do dia seguinte, dos fundos do Raso da Catarina (Bahia) à cidade de Capela, em Sergipe!

Bando de Lampião em 1936, Ribeira do Capiá, Alagoas

O espírito religioso do sertanejo é acentuado pelo temor a Deus. Todo mal é castigo do pecado. E o pior de todos os castigos é a seca . Tirado o pecado ? impossível porque entranhado na natureza humana ? a seca desapareceria, o sertão viraria mar e, então, se concretizaria a sonhada miragem verde da abundância e da felicidade! A mística da seca é a temática da vida e do eixo de giro de toda a religiosidade sertaneja. Mística sistematizada em doutrina através das pregações terrificantes, das procissões penitenciais de esconjuro da seca ? o mau destino! - e de clemência por chuvas, a maior benção do céu! O sertanejo não maldiz nunca a chuva, mesmo arrasadora. Mãos estendidas, apara, de joelhos, até os poucos pingos que caem, beijando-os sofregamente, devotamente. A chuva é a esperança e a salvação. A água é bênção divina que molha os corações de esperança e enche as terras de verde e de fartura. Maldição são as prolongadas estiagens, as secas sem fim, que acontecem muitos anos, aniquilando tudo o que significa vida.

Nessas épocas não há trabalho, nem o que comer. Sai o pobre sertanejo, sem tino nem destino, em retirada, como ave de arribação, estrada a fora: é o retirante. Bênçãos, lágrimas, olhos arregalados e parados na despedida que, todos sabem, pode ser definitiva.

O mistério das coisas da vida e da morte aderem, feito acréscimos, a esse misticismo. O mistério em tudo, influindo e atemorizando, fatalizando e fanatizando.

Dentro de um clima tropical semi-árido, a canícula arde impiedosa, o céu é incandescente e o sol, de rachar: é a seca influenciando a vida e condicionando o homem, um homem diferente, o homem sertanejo. Constituído em geral de grande resistência física e moral, define-se no misticismo dos beatos e penitentes, nos arremetimentos audazes das vaquejadas, na música telúrica do baião e no ritmo do coco, na resistência teimosa contra as inclemências da região agressiva e nas aberturas das brigas ? pelo sim pelo não ? em cenas sangrentas do cangaço sob a vibração épica da Mulher Rendeira.

CONTINUA...
Extraído do GEH - Grupo de Estudos Humanus
http://www.geh.com.br/forum/viewtopic.php?f=62&t=6332
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2010/12/482233.shtml 


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