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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

ATÉ LAMPIÃO É SUSPEITO DA MORTE DE BENJAMIN ABRAHÃO

 Por Sálvio Siqueira


Como tantos outros mistérios envoltos na historiografia cangaceira, principalmente em face do cangaço lampiônico, 1918/19 a 1938, a morte de Benjamin Abrahão Calliu Botto, o árabe que teve a façanha de registrar um bando de cangaceiros chefiados por Lampião em plena caatinga, também é um mistério. Ninguém, nenhum pesquisador, trouxe-nos até o momento, e nessa altura do tempo o certo é que jamais saberemos o nome da pessoa que assassinou o sírio nem tão pouco o mandante, coisa mais provável que possa ter ocorrido.

Benjamin, ao longo de sua vida aventureira, tapeação e mentiras, isso só referindo o pós 1934, depois da morte do Padre Cícero, criou uma ruma de inimigos de ‘grande porte’ tais como o comandante José Lucena, o ‘coronel’ Audálio Tenório, Lampião o “Rei do Cangaço” e outras várias pessoas que também se tornaram inimigas ferrenhas dele.

Botto, para conseguir o consentimento de Lampião para filmar e fotografar sua ‘cabroeira’ em seu habitat, logicamente que fizera determinado acordo sobre a divulgação e data desses registros. Virgolino Ferreira era vaidoso, isso é fato, porém, também era inteligente e sabia que uma divulgação fora de época e em massa, faria com que as autoridades ficassem mais ativas quanto a sua perseguição. Em 1936/37, o cangaço já estava mais do que encurralado e, após as filmagens feitas pelo sírio do bando de cangaceiros, produção cinematográfica que balançou os pilares do Palácio do Catete, na ocasião exibido em seção única em um cinema na Capital cearense, pois em seguida é apreendido pela censura federal, na época, o arrocho tornou-se maior ainda. No entanto, a imprensa, através do jornal Diário de Pernambuco, já havia feito divulgação de determinadas fotografias referentes aos bandidos em escala nacional e internacional. Na Europa, especificamente na França, e isso foi o fiel da balança que deixou o governo federal mal visto diante da população. Determinado a exterminar de uma vez por todas com aquela ‘epidemia’ no sertão nordestino, o banditismo rural, Vargas dá a ordem direta para que acabasse com Lampião, chefe cangaceiro de maior renome dentro do Fenômeno Social Cangaço, custasse o que custasse, doesse em quem doesse. A ordem foi sendo repassada de ‘cima para baixo’ na cadeia de comando e as reponsabilidades, logicamente, idem.


O sírio, segundo o escritor Pernambucano de Mello, era um empreendedor dono de uma “empresa” na Juazeiro do Norte, CE, ‘Benjamin Abrahão & Cia’, depois de estar prestando serviços para a Aba-Film, essa última sendo quem forneceu o material cinematográfico e fotográfico. O árabe toma emprestado a algumas pessoas na cidade cearense de Juazeiro do Norte, para gastar na viagem e nas suas noitadas nos cabarés e jogatinas, alguns mil réis, os quais pagaria com o que ganhasse com a divulgação e venda da produção.

Com a apreensão da fita cinematográfica, o tiro saiu pela culatra e o sírio fica devendo muito. Ele tem uma nova ideia ao saber de uma ocorrência interessante no sertão pernambucano: Um coiteiro ‘arrependido’ resolve emboscar alguns cangaceiros e mata-los. Após as mortes, os participantes do embate são encorajados por um fotógrafo amador a registrarem o fato: “Em dias de 1935, o prefeito de Mata Grande, José Campos Uchoa, fotógrafo amador, cedera a um amigo a chapa com que registrara o massacre de quatro cangaceiros importantes do bando de Lampião, na fazenda Aroeira, lá mesmo do município, a 19 de setembro, em cilada bem urdida por certo Antônio Manuel Filho, o Antônio de Amélia. Um coiteiro que se declara arrependido, mãos tintas de sangue, e pede o amparo do governo em decorrência dos riscos em que incorrera, findando por ser alistado na polícia de Pernambuco como sargento. Atraído pelo lado moral da história de regeneração de alguém que se transforma em martelo contra seus antigos benfeitores, o amigo do prefeito monta uma cena fotográfica em que figuram em corpo inteiro, além de Amélia já metido na farda, os cadáveres horrendamente golpeados dos cabras Medalha, Suspeita, Fortaleza e Limoeiro, eis os vulgos das vítimas, disso resultando a impressão de um cartão-postal que foi vendido como banana entre Alagoas e Pernambuco.” (MELLO, pg 263, 2012).


Benjamin então manda imprimir milhares e milhares de fotografias que havia registrado dos cangaceiros do bando de Lampião. A Aba-Fim se encarrega da impressão e envia para o sírio no sertão pernambucano. Após receber a encomenda, Botto chama algumas pessoas e as mostra. Notando o grande impacto e admiração daquelas pessoas, contrata alguns empregados e os envia para o sertão alagoano, a fim dos mesmos venderem o ‘produto’. Ora, com o aperto que as autoridades estaduais vinham sofrendo do governo federal, ao ficarem sabendo de tais divulgações, se irritam e ordenam seu confisco. “Pelo meado de outubro, em maços ou isoladas, há fotografias de cangaceiros por todo o sertão, distribuídas por seis auxiliares escolhidos por Antônio Paranhos para o velho amigo Benjamin.” (MELLO, pg. 263, 2012).

O comandante do II Batalhão da PMAL, locado em Santana do Ipanema, AL, major José Lucena, na época, é o que mais se irrita e, imediatamente, ordena que seus comandados façam o confisco das mesmas, não só na cidade de Santana, mas nas circunvizinhas. Além das imagens dos cangaceiros, aquelas fotografias vinham dizer à população que não era tão difícil assim chegar aos bandoleiros como ditavam as autoridades já que um estrangeiro o fez. Lucena estava com a corda no pescoço devido Lampião estar agindo há muito tempo no território sob seu comando. O comandante geral da PMAL, na ocasião o coronel Teudureto, já o havia chamado em Maceió e dando-lhe um grande aperto, cobra-lhe resultados.

Benjamin ao saber que suas fotografias foram confiscadas a mando do major José Lucena, um frio lhe escorre pela ‘espinha’, ao saber que tinha feito mais um inimigo perigoso, pois sabia que se tratava de um homem que não era de brincadeiras e mandava matar, ou mesmo matava uma pessoa sem cerimonia alguma. Estando em terras pernambucanas, manda chamar os auxiliares e recolhendo o que sobrou, pega os pacotes que ainda estavam guardados tacando fogo em tudo. “Quem comprou, comprou; quem não comprou, não compra mais. Melhor a vida!” (MELLO,pg. 264, 2012).


O medo de Benjamin era tanto do comandante alagoano que ele corre à Capital pernambucana e, indo à sede do jornal Diário de Pernambuco, solicita do mesmo uma espécie de credencial referindo que estava naquela região, da Vila do Pau Ferro, município de Aguas Belas, PE, a serviço do mesmo. Logicamente, com tantos furos, através das fotografias, que o sírio cedeu ao jornal, seu pedido foi aceito e a autorização para usar o nome do jornal concedido.

Achando que esse problema estava resolvido, Benjamin retorna ao interior com a perspectiva de filmar, na fazenda do coronel Audálio Tenório, pela primeira vez, uma vaquejada. A visão do árabe, realmente, era muito boa, ele conseguia ver além do presente. O coronel determina que o evento ocorra em novembro daquele ano, 1937. Mandam avisar seus amigos, fazendeiros, familiares, vaqueiros e outras pessoas que ficam sabendo os quais chegam aquela data a pequena Vila do Pau Ferro, que estava totalmente ornamentada, a caráter, para aquela ‘Festa de Apartação’. Entre os convidados estavam figuras ilustres da força pública de Pernambuco e Alagoas, sendo do primeiro o coronel João Nunes e do segundo, o major José Lucena.


O coronel Audálio Tenório era um homem com uma estatura de 1:80 metros, apresentando-se em cima de uma montaria de pelo branco, saúda a todos e dá as boas vindas aos vaqueiros que participarão da ‘apartação’. “... os oitenta vaqueiros ouvem a saudação de um coronel Audálio montado em quartau branco impecável, metido nos couros dos pés à cabeça, traje completo de campeador das caatingas. Quebrando no chapéu de couro rebatido, no guarda-peito, no gibão, nas perneiras, nas luvas, nas esporas de prata do finado coronel Chico, seu pai, nas botinas vermelhas de couro de veado e na ligeira, passada no punho a modo de peia-de-mão.” (MELLO, 2012)

A presença de Lucena deixa o árabe um pouco preocupo e apreensivo, no entanto, balança o dedo pra cima e registra momentos magníficos e eternos para a história, os quais saem em edições futuras do Diário de Pernambuco. Após esses registros, Benjamin fará novamente registros inéditos nas terras da fazenda Barra Nova, do coronel Audálio, e onde se realizou a festança de gado. Botto consegue filmar vaqueiros correndo atrás de ‘barbatões’ e novilhas na mata da Mata Branca. De volta à pequena Vila, onde os comes e bebes eram servidos durante quase toda a noite, Calliu marca mais um momento para posteridade, registra o coronel Audálio Tanório, um dos maiores acoitadores de Virgolino Ferreira, o cangaceiro Lampião, a desfilar de braços dados por entre as ‘ruas’ improvisadas pelas barracas com um de seus maiores inimigos em território alagoano, o major José Lucena, os quais, ainda estavam ladeados pelo coronel João Nunes e o fazendeiro Gerson Maranhão, esse último parente de Lucena.


Quem organizou as barraquinhas para venda de comidas e bebidas havia sido Benjamin Abrahão. O coronel Audálio havia fornecido a grana para que o árabe pudesse comprar a comida e as bebidas a serem vendidas na festa, além de ter emprestado dinheiro para a compra dos filmes e outras coisas. A festança é ótima para os participantes, porém, para Benjamin não o fora. O apurado não chega, nem de longe, com a quantia que tinha que pagar ao coronel. Pela quantidade de transeuntes, participantes, o árabe chega a desconfiar do pessoal que estava auxiliando ele. Num momento crítico, chama um deles de ladrão. Era um homem de cara dura e marcada com sequelas de bexiga que tinha vindo da região de Mariana e, acusando-o de ter-lhe roubado o apurado, ou parte deste, arranja mais um inimigo perigoso, pois era uma ofensa imperdoável nas quebradas do sertão nordestino. Pois bem, o patrono do evento festivo manda chamar o aventureiro árabe e cobra-lhe o que havia lhe emprestado. Sem ter saída, Botto pede alguns dias ao coronel para ir à Capital, Recife, levantar e trazer a quantia devida.


No Recife moravam vários parentes de Benjamin, no entanto, acreditamos por já terem levado calote, não emprestam nem um réis a ele. O sírio está mais do que apertado, pois havia determinado uma data para vir e prestar contas, pagar, ao coronel e resgatar as promissórias assinadas. Em vez disso, passa a adiar o pagamento referindo que arranjará emprestado com seus amigos em Juazeiro do Norte, CE. Nada feito, ninguém estava doido para emprestar dinheiro e perde-lo. Logicamente o coronel deu-lhe um ultimato, colocando sua vida em risco. Mais um grande inimigo que o aventureiro sírio acabava de arrumar, e esse de peso pesado.

Lampião, com a determinação de Getúlio Vargas, ver as portas se fecharem. Sem o apoio dos fornecedores nenhum grupo de bandoleiros sobreviveria por muito tempo.


A divulgação das imagens do bando feita por Benjamin havia agitado, e muito, as autoridades em cada Estado nordestino. Planos novos foram feitos e ações novas foram determinadas quanto aos colaboradores. Alguns correram e entraram no meio do mundo, outros foram presos, muitos mortos e uma boa parte muda de lado. A vida de cada um estava em jogo. E a grande e eficiente malha formada pelo “Rei do Cangaço” começa a se quebrar em vários pontos. O fim do cangaço estava se aproximando. Nos meses subsequentes, Virgolino, por medida de segurança e cautela, mantem-se mais no Estado sergipano. Certa feita, conversando com o cangaceiro Candeeiro, na ocasião um daqueles que fazia sua guarda pessoal, referindo-se a Benjamin, detona: “- Ele foi falso comigo, levando de mim para contar aos oficiais.” Virgolino acreditava que Botto o havia traído. Além dessas imagens na pequena Vila de Pau Ferro, no município de Aguas Belas, PE, onde aparece o major Lucena e da divulgação, através da venda, de suas imagens, ele consegue registros inéditos e históricos em Jeremoabo, BA, e outros lugares, de comandantes inimigos ferrenhos de Lampião, como a imagem do comandante Manuel Flor, o tenente Zé Rufino e outros.


Sabedor de que o retratista encontrava-se na vila de Pau de Ferro, Virgolino levanta acampamento em Sergipe e vai em direção a Pernambuco via Alagoas. No dia anterior ao do assassinato de Benjamin, Lampião encontrava-se acampado há mais ou menos 9 km, légua e meia, de onde se encontrava o árabe.

Segundo o sociólogo/pesquisador/professor e escritor Frederico Pernambucano de Mello, nas entrelinhas do livro “Benjamin Abrahão - Entre Anjos e Cangaceiros”, 1ª edição, o sírio teria feito, ou tentado fazer chantagem com algum coronel coiteiro de Lampião, o coronel Audálio por exemplo, devido a localidade em que se encontrava ou algum outro de seus colaboradores de renome na sociedade, por ter informações secretas sobre ele e o cangaceiro: “A pelo menos um amigo revelou não ter levantado sequer a metade do dinheiro que tinha de pagar, mas que estava pensando em cotar a peso de ouro o seu silêncio, depois das semanas de convívio no bando de Lampião em 1936. Em que se assenhoreara de informações tanto mais delicadas quando mais incômoda se mostrava para a elite sertaneja a situação de suspeita generalizada em que estava mergulhando o país.” O escritor refere-se ainda ao ‘aventureiro’ como “o colecionador de inimizade”.


Quando estava na Vila de Pau Ferro, Benjamin costuma se alojar numa pensão. Dessa vez dividia um quarto com o amigo Antônio Paranhos, aquele que arranjou os seis auxiliares para venda das imagens dos cangaceiros, que não sai do quarto. Benjamin troca de roupas e vai passear nas ruelas da Vila. Benjamin era um namorador nato. Citam alguns autores que ele estava apaixonado por uma mulher casada, por isso a insistência de permanecer num local tão perigoso para ele. Encontrando com alguns conhecidos, vão para um boteco tomar cervejas. O tempo passa e a noite cobre com seu manto negro aquela pequena povoação no interior pernambucano. Após o ocaso algumas luminárias são acesas através da força elétrica de um gerador. Algum tempo depois, Botto despede-se dos conhecidos e ruma no sentido da pensão. Após dobrar uma esquina, as luzes são apagadas, algum defeito no gerador? Talvez. Porém, para o que ocorreu em seguida, notadamente, o motor foi desligado. Estando o vilarejo em total escuridão na noite do dia 7 de maio de 1938, de repente alguém começa a gritar, pedindo socorro, por estar sendo esfaqueado. Na sequência, em fez de escutar-se pedidos de socorro, passasse a escutar gemidos de dores, os quais vão diminuindo até sumirem por completo. O amigo de Benjamin, Antônio Paranhos, logo após as luzes terem se apagado, passa a escutar alguém pedindo socorro. Reconhecendo o timbre da voz, tem certeza de que se trata do amigo sírio. Rapidamente deixa a pensão e vai ao sentido em que os gritos o levam, no entanto, antes de chegar perto, das sombras vem uma voz que lhe diz: “-Arreda, cabra, que é encrenca!” (MELLO, 2012)


Imediatamente Antônio, sabidamente, retorna para o quarto da pensão e fica a esperar ouvir ou saber de alguma coisa. A noite é longa. As horas não passam e a ansiedade aumenta. Só quando o dia amanheceu é que se começa a escutar um zom zom danado vindo de algum local na vila. Havia um paraplégico, José Rodrigo Lins, conhecido pela alcunha de Zé de Rita, que morava ali perto. Os moradores se dirigiam para a casa desse paraplégico, pois lá, dentro da casa, encontrava-se um corpo inerte, de barriga para cima, com 42 punhaladas no corpo, era o aventureiro árabe que um dia foi secretário do Padre Cícero. O deficiente físico era casado com dona Alaíde Rodrigues de Siqueira, e foi por ela que o sírio havia se apaixonado. Segundo autores, essa paixão jamais foi correspondida.

Além de ter um defeito físico, vemos, notamos que Zé de Rita aparentava ter outro problema de saúde, alguma coisa não batia bem em seu cérebro, ao lermos a cena descrita pelo pesquisador Pernambucano de Mello: “A um canto, sobre um tamborete, Zé de Rita se mantém impassível, pernas encolhidas, pés sobre o tampo, comendo o tutano que retira lentamente de um osso grande, lambendo dedo a dedo, parecendo fora de si. “Mais vida tivesse, eu matava”, repete sem cessar.” Com certeza não era só de defeito físico que o coitado Zé de Rita sofria. Agora o mais incrível, é que esse cidadão, paraplégico e com problemas mentais, é considerado o matador de um homem forte, novo, saudável e de um porte físico acima de mediano.

“A 17 de maio, passados somente dez dias da ocorrência, o delegado corre a se livrar da batata quente: fecha o inquérito policial no segundo distrito de Águas Belas, apontando nominalmente o casal como responsável único pelo homicídio, segundo noticia o Diário de Pernambuco de 19, renovando o lamento pela perda do “nosso colaborador especial” que fizera constar do registro de morte, saído na edição de 10, com direito a fotografia.

O delegado joga o jogo das aparências forjadas. Que mais lhe restava fazer ante um assassinato de desvendamento impossível nas circunstâncias, a unir em sorte comum o policial de ontem ao historiador de hoje?

No sétimo dia da tragédia, absolutamente só, o padre Nelson de Barros Carvalho reza a missa pela alma da vítima. Ele e Deus. Nem o coroinha dá as caras na capela.” (MELLO, pg.272 a 273, 2012)

Evidentemente que, sabedores do possível mandante do crime, a população não se arriscou para ir, pelo menos rezar, por aquele aventureiro de outras terras... nas quebradas do sertão pernambucano.
Fonte/foto “Benjamin Abrahão – Entre Anjos e Cangaceiros” – MELLO, Frederico Pernambucano de. 1ª Edição, São Paulo, 2012

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O Canto do Acauã – FERRAZ, Marilourdes. 4ª Edição Revisada e Atualizada. Recife, 2012.


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MATÉRIAS / PERSONAGEM - BENJAMIN ABRAHÃO BOTTO: UM FOTÓGRAFO DESTEMIDO NO BANDO DE LAMPIÃO

 Por André Nogueira

Benjamin Abrahão com Lampião e Maria Bonita - Wikimedia Commons

Lampião e o cangaço talvez não fossem tão famosos nos dias atuais se não fosse uma série de fotografias de seu bando, que representa os registros mais conhecidos dos bandoleiros no Brasil.

Essas imagens são de autoria de um importante e influente fotojornalista dos anos 1930: o libanês erradicado no país, Benjamin Abrahão Botto. Nascido em 1890, ele ficou conhecido após a divulgação de sua cinebiografia Baile Perfumado, auxiliado pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de Entre anjos e cangaceiros (que retrata sua vida).

O fotógrafo viveu em seu país de origem até 1915, quando, com a Primeira Guerra, fora convocado ao Exército Otomano e migrou para o Brasil. Trabalhou inicialmente como mascate no Nordeste — incialmente Recife e então, Juazeiro do Norte, onde fez mais sucesso — até que conheceu a maior figura da cidade: o Padre Cícero Romão.

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Imagem de Benjamin

Botto deixou a vida de comerciante para trabalhar como secretário pessoal do famoso padre cearense, ganhando grande influência e conhecendo as principais figuras do Nordeste. A importância de Padim Ciço foi a chave para a maior guinada da carreira do jornalista: numa das visitas de Lampião à cidade, em 1926, o cangaceiro foi pedir a benção de seu padroeiro e Benjamin pôde o conhecer.

Na ocasião, Lampião teria ido participar da iniciativa do deputado Floro Bartolomeu de criar uma guarda patriótica contra a Coluna Prestes. Então, Botto fotografou Virgulino e Cícero, numa demonstração de aumento da credibilidade do cangaceiro. Em 1934, com a morte do sacerdote, Benjamin utilizou esse primeiro contato e conseguiu uma reunião com Rei do Cangaço, onde se ofereceu para acompanhar o bando e gerar um acervo de fotos.

Bando de Lampião por B. Abrahão / Crédito: Wikimedia Commons

Inicialmente, os bandidos desconfiaram dessa aproximação, claro. Porém, Abrahão não apenas convenceu Lampião de suas intenções midiáticas, como aproveitou o gosto do líder cangaceiro por tecnologias para apresentar as câmeras. Durante a ocasião, ofereceu o equipamento para que Virgulino o filmasse, e assim selassem uma relação de confiança.

Lampião, que era um homem excêntrico e centrado, aceitou a proposta e Botto começou a acompanhar seu bando pela caatinga. Esse foi o auge tanto da carreira do fotógrafo quanto da fama dos cangaceiros, que foram imortalizados pela obra. Para tanto, recebeu ajuda de Ademar Bezerra de Albuquerque, que, com sua empresa ABAFILM, equipou e treinou Botto para a missão.

Maria Bonita com os cachorros / Crédito: Wikimedia Commons

Uma viagem inicial de sucesso forneceu uma série de imagens icônicas do bando de Lampião, que posava para o fotógrafo. Com isso, Benjamin retornou a Fortaleza, onde seu sucesso possibilitou uma recarga dos rolos de filme, para que retornasse ao acampamento do cangaceiro. As suspeitas contra seus relatos (incluindo a posição do bando) divulgados em jornais aumentaram, mas Botto continuou tranquilamente sua jornada.

Quando encerrou seu trabalho, as fotografias de Benjamin Abrahão foram apreendidas pela polícia do Governo Vargas, que o considerava uma ode ao banditismo e antagonismo ao regime. Os documentos passaram para as mãos da censura, e só ficaram conhecidos nos anos 1950, quando a Fundação Getúlio Vargas as divulgou.

Unidade de Corisco, por B. Abrahão / Crédito: Wikimedia Commons

Pouco tempo depois, Benjamin Abrahão morreu assassinado num caso até hoje não resolvido. Foi esfaqueado quarenta e duas vezes, sem que se saiba razão ou autor, na cidade pernambucana de Itaíba, no ano de 1938. Especula-se que se trata de uma morte política pela ditadura varguista, ou que fora assassinato durante um assalto.

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A MORTE DE BENJAMIN ABRAHÃO | O CANGAÇO NA LITERATURA #76

Por O Cangaço na Literatura 

https://www.youtube.com/watch?v=AxktRcFU2I4&ab_channel=OCanga%C3%A7onaLiteratura

Bem, que ele morreu já sabemos, mas como foi e onde ele tombou para a pátria dos imortais? Pois bem, este é nosso programa de hoje.

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MEMÓRIAS DO AMAZONAS CONHEÇA A BIOGRAFIA DA TENENTE ROXANA BONESSI, BRUTALMENTE ASSASSINADA EM MANAUS POR UM COMPANHEIRO DE FARDA EM 2002

 Por Marcus Pessoa

Amigos e familiares homenagearam a militar, assassinada a golpes de punhal em dezembro de 2002, a tenente Roxana Bonessi.

Para quem não conhece a história, siga neste link sobre os monumentos à tenente Roxana Bonessi espalhados pela cidade de Manaus, o principal, situado no bairro do São Jorge, próximo ao Lanche do Castelo, marcando a rotatória do bairro.

Tenente Roxana Pereira Bonessi Cohen / Divulgação

Em 31 de março de 1975, data do nascimento da Roxana Pereira Bonessi. Essa data coincide com o término das Olimpiadas Militares da Guarnição de Porto Velho-RO. O então Sargento Bonessi disputava uma partida final de volei de quadra entre o 5º Batalhão de Engenharia e Construção e a 10ª Brigada de Infantaria de Selva.

O jogo, muito disputado, entrava no seu último e derradeiro set, aproximadamente as 22:40 hs, quando a sra Filomena Bonessi, grávida de mais de 8 meses, das arquibancadas do ginásio de esporte onde o jogo estava sendo realizado, lhe acenava constantemente e gritava pelo seu nome porque estava sentindo as cólicas iniciais de parto.

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O Sargento Bonessi as voltas com o jogo respondia com gestos que a esposa esperasse. O Sargento Bonessi nem pode comemorar com seus companheiros a vitória no jogo e das Olimpíadas da Guarnição porque teve de ir as pressas para o Hospital Militar e Maternidade do 5 BEC conduzindo a sua esposa. As 23:40 hs nascia uma linda menina que se chamaria Roxana, em homenagens a Princesa Roxana – esposa de Alexandre da Macedonia – O Grande.

A Roxana desde pequena sempre foi alegre, responsável, obediente, sincera, comunicativa, amiga, correta em todas as suas atitudes. Nunca mentiu, nunca fez uma maldade a ninguém, nunca destruiu nada, nunca matou.

Considerava importante todos os seres existentes em nosso planeta. Nunca matou, nem mesmo um inseto. Tudo que era dela, seus brinquedos, seus presentes, suas roupas, sua mesada, dividia com seus irmãos e com as pessoas que pedissem. Possuía desprendimento das coisas materiais. Preferia a oração e a comunhão com Deus às coisas mundanas. Ao seu redor tudo era alegria, era vida, era amor.

Dava amor, mas nem sempre recebia amor das pessoas estranhas e que não lhe conheciam o caráter. Mas as desfeitas que recebia não lhe causavam mágoas, nem a deixava triste. Perdoava sempre. Extremamente religiosa, rezava diariamente, três ou mais vezes ao dia. Na maioria das vezes não pedia nada para si mas rogava a Deus pelos aflitos e necessitados. Não possuía vícios. Nunca os teve. Seu prazer era brincar com seus familiares e adorava dançar. Foi estudante sem problema.

Nunca foi preciso mandar fazer seus deveres escolares; foi sempre uma aluna querida e exemplar. Suas notas sempre foram altas e nunca foi reprovada. Quando criança, pequena demais em idade e muita adiantada nos estudos teve, por orientação pedagógica, que esperar um ano, até que sua idade fosse compatível com o grau de estudo em que estavam seus colegas de mesma idade. Nunca desobedecera pai e mãe. Nunca atacou um irmão ou qualquer outra pessoa. Ficou moça. Era atleta.

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Gostava de equitação, natação, pescaria e de outros esportes como vôlei e futebol, jogando-os muito bem. Sua beleza era natural. Possuía um corpo escultural e para realçar essa beleza não era necessária a maquiagem. Possuía dezenas de títulos de beleza e as vezes que não ganhou ficou em segundo lugar. Era denominada e reconhecida pelo título “Rainha da Natureza”, que lhe foi conferido em programa de televisão no Estado do Ceará. Com 27 anos de idade já estava formada em Contabilidade, possuía Pós-Graduação em Auditoria e Pós-Graduação em ReAdministração, cursava Direito e 21 dias antes de ser assassinada concluíra o curso de Mestrado em Administração.

O tema da sua Dissertação é: “Amazônia, Vida, Riqueza e Morte: O Turismo Sustentável como Atividade Sócio-econômica para Ambientes de Significativas Mudanças Ecológicas”. Nesse trabalho se mostra inconformada com a destruição da Floresta Amazônica e preocupada com as origens e as conseqüências dos problemas Amazônicos, com o futuro das gerações carentes, principalmente a população ribeirinha. Nesse trabalho de pesquisa aponta as soluções para preservação da vida de todos os seres que habitam a floresta.

No momento de sua morte era Professora Universitária e, por seus próprios valores reconhecidos documentalmente, seu caráter integro e sua aprovação nos testes militares a que foi submetida, foi incorporada nas fileiras do Exército e considerada “Combatente de Selva”, sendo designada para servir na 12a ICFEX, onde desempenhou várias atividades, sendo uma delas “Tomadora de Contas”, uma espécie de Fiscal dos trabalhos de outras Organizações Militares, onde era mais orientadora e esclarecedora do que julgadora.

Como Professora foi exemplar em todos os aspectos. Como Militar foi modelo de virtude, um exemplo a ser seguido de devotamento à Pátria, amor à profissão, camaradagem e espírito de corpo. Morreu em serviço, no cumprimento do dever, às 11:05 hs, do dia 02 de dezembro de 2002, em Manaus – AM, no interior do aquartelamento onde servia, assassinada pelas costas, a punhal, por um companheiro de farda e ex-namorado.

A Roxana foi muito homenageada pela Comunidade Amazonense, seu nome é nome de uma importante avenida de dupla via em Manaus, é também nome de uma eficiente e premiada escola no bairro Colônia Oliveira Machado em Manaus, também é nome de uma escola infantil da capital amazonense, foi também homenageada na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas e nas Câmaras Municipais de Presidente Figueiredo e de Manaus.

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A contribuição científica deixada pela Roxana Bonessi para a integração-desenvolvimento e preservação da Amazonia foi um trabalho de pesquisa que realizou fundamentada no Turismo Sustentavel como alternativa socio-economica para uma região que fora devastada pela construção da Hidreletrica de Balbina, na Região de presidente Figueiredo -Am – trabalho esse reconhecido mundialmente pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e que estimulou o progresso ambiental de todas as regiões ribeirinhas do Amazonas pelos recursos alocados desde então pelo BID.

A Roxana foi também homenageada pela Comunidade do Amazonas com dois monumentos, um no bairro onde ela morava, monumento esse em homenagem as mulheres e crianças, vítimas de violencia no Amazonas e no Brasil, e outro monumento foi construído como marco localizatório onde fora colocado o seu corpo por ocasião de sua prematura morte. A Roxana nos deixou muitas saudades – somos agradecidos e honrados por termos tido o privilegio de sua encantadora companhia.

Obrigado Familia Bonessi

Texto extraído do D24AM

https://noamazonaseassim.com/conheca-a-biografia-da-tenente-roxana-bonessi-brutalmente-assassinada-em-manaus-por-um-companheiro-de-farda-em-2002/

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JORNAIS A PROVÍNCIA, RECIFE, 20/12/1928

 Arq. Joaquim P. da Silva.

 

Ex-cangaceiros presos na casa de detenção.

http://lampiaoaceso.blogspot.com/search/label/Mour%C3%A3o

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A MULHER E O CANGAÇO REMANESCENTES, VITIMAS E FAMILIARES

 Por: João "das meninas" de Sousa Lima



Há um fascínio natural quando se fala da mulher no cangaço. Em uma época tão difícil o que levou tantas mulheres - meninas a entrarem para esse mundo desconhecido e de certa forma brutal? Que tipo de atração o mundo feminino viu no movimento cangaceiro? Quais foram os motivos que causaram tanto deslumbramento aos olhos daquela juventude?


 *Ximando o almoço de Durvinha


A sergipana Adília


Apreciando o silencio de Maria de Jurity

Essas são algumas perguntas que fazemos tentando entender os reais motivos da entrada da mulher no cangaço. Mesmo diante dos depoimentos de algumas que foram forçadas a seguir seus companheiros, como foi o caso de Dadá que foi raptada por Corisco, no caso de Dulce que foi trocada por jóias pelo cunhado, de Aristéia que seguiu o cangaceiro Catingueira por sofrer maltrato da policia, Tanto Antônia quanto Inacinha forçadas por Gato, podemos citar vários casos dessa natureza, porém a maioria foi por pura paixão como é o caso de Durvinha que se apaixonou por Virgínio, Lídia por Zé Baiano, Maria por Lampião, Nenê por Luiz Pedro, Eleonora por Serra Branca, Naninha por Gavião, Aninha por Mourão, Catarina por Nevoeiro, Joana por Cirilo de Engrácia.

Edson Barreto, Ex Cangceira Dulce, João e Maria Cícera irmã de Dulce com "103 anos de idade"

João vive a mimar a ex cangaceira Aristéia

Alguns cangaceiros não concordaram com a entrada das mulheres no cangaço como foi o caso de Balão que deixou depoimentos confirmando que as mulheres atrapalhavam as caminhadas dentro da mataria, principalmente quando ficavam grávidas. Os tiroteios diminuíram e Balão era um dos cangaceiros que gostava dos confrontos.


Dona Rita, vitima de estupro praticado pelo cabra  Sabiá


A centenária Dona Mocinha (irmã de Lampião)

Para outros, com a mulher no cangaço, os estupros diminuíram, a violência sem aparente razão se atenuaram.
A verdade é que com a mulher no cangaço o movimento ganhou uma áurea romanesca, as histórias contadas sempre falam do amor entre casais famosos, no cinema, nos versos tantos eruditos quanto populares, no livreto de cordel, na arte plástica, na música, no teatro, na literatura, os romances sempre mexeram com a capacidade de imaginar o cavaleiro em seu cavalo alado salvando as mocinhas e donzelas para viverem o amor eterno.


Dona Joana ( irmã de Dadá)

Uma irmã da cangaceira "Moça" de Cirilo

A mulher cangaceira deixou para sempre na historiografia do nordeste brasileiro o nome da mulher sertaneja como sinônimo de mulher guerreira, bravia, independente, sem perder sua feminilidade, sua capacidade de amar, independente das circunstâncias.

*Ximar? É o mesmo que  desejar

Pescado no Açude do primo João

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