Poesia de Conrado Matos
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segunda-feira, 16 de outubro de 2023
OS CANGACEIROS: MORENO E DURVALINA
DO "ALFORJE" DE BENJAMIN ABRAHÃO.
Por Geraldo Antônio de Sousa Júnior
A começar da
esquerda vemos Neném do Ouro, companheira do cangaceiro Luiz Pedro, segurando
um exemplar do extinto Jornal carioca A Noite, Maria Bonita, Lampião e o cão de
alcunha ligeiro.
Um formidável
registro fotográfico que nos ajuda a compreender e conhecer um pouco mais a
respeito do universo cangaceiro e seus personagens.
Fica o
registro!
Geraldo
Antônio de Souza Júnior - Criador e administrador do canal Cangaçologia.
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LAMPIÃO CUMPRE SUA PROMESSA.
Por Anderson Batista
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CANGACEIRO BENEDITO RIBEIRO
Por Anderson Batista
NO COITO DA PIA DAS PANELAS, SERTÕES DE POÇO REDONDO.
Por Rangel Alves da Costa
Aqui, sentado na beirada de uma das panelas abertas na pedra, de vez em quando olhando ao redor para avistar pedreiras, funduras, trincheiras, locas e esconderijos, então me vejo – até entristecido – matutando: Aqui foi templo e pedestal cangaceiro. Aqui serviu tanto como coito para repouso e ocultamento bandoleiro como para sentenças de mortes dos próprios cangaceiros. A cangaceira Lídia foi morta ali, o cangaceiro Coqueiro foi morto acolá, a cangaceira Rosinha um pouco mais adiante. E eu aqui em meio ao livro aberto no passado. Aqui rodeado de memórias tristes, de sombras medonhas de antigamente, de horrores e de ecos aflitos que o tempo jamais silencia. É como se o sangue ainda estivesse amolecido por cima das pedras e ao redor. É como se lá dentro, lá dentro da fundura da panela da pia, vultos se movessem procurando saída. Bem ali ao fundo, logo depois do velho umbuzeiro, há uma cova. É a sepultura de Lídia.
As
pedras juntadas por cima talvez tenham sido ali despejadas pelas mãos odiosas
do algoz Zé Baiano, seu traído companheiro. Lampião estava por aqui, mas deixou
que tudo acontecesse pela mão do ódio, da vingança e da violência. Mas não foi
só culpa de Lampião, e sim da hostilidade do tempo e da desesperança na luta,
do ódio entrincheirado nos corações e das incertezas em cada passo. Em meio a
tanta morte, a tanto sofrimento e a tanto sangue derramado, de nenhuma valia
seria uma vida a mais ou a menos. Mas é melhor deixar pra lá. Avisto Lampião saindo
detrás de um tufo de mato e vindo em minha direção. Eu teria muito a falar com
ele, pois muita pergunta a fazer, mas é melhor deixar isso pra lá. Aqui no
coito é assim, um reencontro com o cangaço e sua história, mas também uma
tristeza danada pelo que aqui aconteceu. E que parece tão presente como naquele
mês de julho do ano de 34.
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CANGAÇO - ANGICO EU SOBREVIVI_ PARTE 1.
Por Aderbal Nogueira.
ENTREVISTA OM A
EX-CANGACEIRA SILA..
Mais um vídeo com o
selo e qualidade
Primeira parte do vídeo-documentário onde Sila conta como entrou no cangaço, o combate de Angico, o encontro com Adília e o preconceito que seus filhos sofreram por causa do seu passado.
Link desse vídeo:
• Cangaço - Angico eu sobrevivi_ parte 1
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sábado, 14 de outubro de 2023
LIVRO
Por Célia Maria Silva
Do maravilhoso livro: O Cangaceiro X O Padre, obra do grande escritor e amigo Bismarck Martins de Oliveira, veio a inspiração para a história em cordel pela Cordelista Célia Maria. Trata da última passagem de Antonio Silvino pela cidade de Pocinhos na Paraíba em 28 de novembro de 1914.
Vale a pena adquirir pelo email: cellia2012@gmail.com
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LIVRO
Por José Tavares de Araújo Neto
Pedrinho de Pedrão, amigo desde a adolescência, já naqueles tempos nos falava de Ulysses Liberato que ouvia de seu pai Pedrão Adonias, um apaixonado pelas histórias de cangaceiros.
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LIVRO
Por Gilmar Teixeira
Tá faltando você ler o livro "Quem matou Delmiro Gouveia? " E aí vai ficar lendo o resumo do livro na mídia, saiba tudo da vida desse ícone nordestino e a elucidação dessa misteriosa morte, lendo o nosso livro você vai saber de todos esses detalhes, faça aqui o seu pedido e leve prá casa um pouco de nossa história!
https://www.facebook.com/photo/?fbid=229535829815439&set=a.123289737106716
Veja se o professor Pereira está o vendendo através deste endereço eletrônico:
franpelima@bol.com.br
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LIVRO
Por Ailton Pimentel
Você pode adquirir o livro através do Número / WhatsApp: (75) 9 9248-4502.
Guilherme Machado dos Santos nasceu na cidade de Muritiba no Recôncavo baiano, e é casado com a senhora Josefa Sousa Santos. Pai de 3 filhos e uma neta. Há muitos anos mora em Serrinha, onde mantém um museu dedicado ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga e a toda cultura nordestina.
Ficou interessado em saber mais sobre a história desse ilustre nordestino? CLIQUE AQUI e veja um pequeno vídeo produzido pelo Sistema Jolusi de Comunicação.
Via: Ailton Pimentel
LIVRO
Por José Bezerra Lima Irmão
Diletos amigos estudiosos da saga do Cangaço.
Nos onze anos que passei pesquisando para escrever “Lampião – a Raposa das Caatingas” (que já está na 4ª edição), colhi muitas informações sobre a rica história do Nordeste. Concebi então a ideia de produzir uma trilogia que denominei NORDESTE – A TERRA DO ESPINHO.
Completando a trilogia, depois da “Raposa das Caatingas”, acabo de publicar duas obras: “Fatos Assombrosos da Recente História do Nordeste” e “Capítulos da História do Nordeste”.
Na segunda obra – Fatos Assombrosos da Recente História do Nordeste –, sistematizei, na ordem temporal dos fatos, as arrepiantes lutas de famílias, envolvendo Montes, Feitosas e Carcarás, da zona dos Inhamuns; Melos e Mourões, das faldas da Serra da Ibiapaba; Brilhantes e Limões, de Patu e Camucá; Dantas, Cavalcanti, Nóbregas e Batistas, da Serra do Teixeira; Pereiras e Carvalhos, do médio Pajeú; Arrudas e Paulinos, do Vale do Cariri; Souza Ferraz e Novaes, de Floresta do Navio; Pereiras, Barbosas, Lúcios e Marques, os sanhudos de Arapiraca; Peixotos e Maltas, de Mata Grande; Omenas e Calheiros, de Maceió.
Reservei um capítulo para narrar a saga de Delmiro Gouveia, o coronel empreendedor, e seu enigmático assassinato.
Narro as proezas cruentas dos Mendes, de Palmeira dos Índios, e de Elísio Maia, o último coronel de Alagoas.
A obra contempla ainda outros episódios tenebrosos ocorridos em Alagoas, incluindo a morte do Beato Franciscano, a Chacina de Tapera, o misterioso assassinato de Paulo César Farias e a Chacina da Gruta, tendo como principal vítima a deputada Ceci Cunha.
Narra as dolorosas pendengas entre pessedistas e udenistas em Itabaiana, no agreste sergipano; as façanhas dos pistoleiros Floro Novaes, Valderedo, Chapéu de Couro e Pititó; a rocambolesca crônica de Floro Calheiros, o “Ricardo Alagoano”, misto de comerciante, agiota, pecuarista e agenciador de pistoleiros.
......................
Completo a trilogia com Capítulos da História do Nordeste, em que busco resgatar fatos que a história oficial não conta ou conta pela metade. O livro conta a história do Nordeste desde o “descobrimento” do Brasil; a conquista da terra pelo colonizador português; o Quilombo dos Palmares.
Faz um relato minucioso e profundo dos episódios ocorridos durante as duas Invasões Holandesas, praticamente dia a dia, mês a mês.
Trata dos movimentos nativistas: a Revolta dos Beckman; a Guerra dos Mascates; os Motins do Maneta; a Revolta dos Alfaiates; a Conspiração dos Suassunas.
Descreve em alentados capítulos a Revolução Pernambucana de 1817; as Guerras da Independência, que culminaram com o episódio do 2 de Julho, quando o Brasil de fato se tornou independente; a Confederação do Equador; a Revolução Praieira; o Ronco da Abelha; a Revolta dos Quebra-Quilos; a Sabinada; a Balaiada; a Revolta de Princesa (do coronel Zé Pereira),
Tem capítulo sobre o Padre Cícero, Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos, o episódio da Pedra Bonita (Pedra do Reino), Caldeirão do Beato José Lourenço, o Massacre de Pau de Colher.
A Intentona Comunista. A Sedição de Porto Calvo.
As Revoltas Tenentistas.
Quem tiver interesse nesses trabalhos, por favor peça ao Professor Pereira – ZAP (83)9911-8286. Eu gosto de escrever, mas não sei vender meus livros. Se pudesse dava todos de graça aos amigos...
Vejam aí as capas dos três livros:

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O DEPUTADO E A SANTA
Clerisvaldo B. Chagas, 11 de outubro de 2023
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.977
Estou diante
da capela de Santa Terezinha. Solitária e triste, a igrejinha contempla a
cidade das alturas convidativas do serrote do Cruzeiro. Olho a réplica do
cruzeiro de madeira fincado logo defronte, na passagem do século XIX para o
século XX. E relembrando a história, vejo um cidadão, em 1915, fazendo festas
com trabalhadores e zabumba, cozinhando e levando material serrote acima para o
pagamento de promessa – jamais revelada – a Santa Terezinha, com a tosca ermida
em sua homenagem. Vejo no futuro a capela em ruínas, paredes tombadas e o vazio
do altar. Mas também vejo no tempo, o deputado estadual Siloé Tavares, nas
faldas do serrote com muitos trabalhadores, feijoadas nas trempes, zabumba
animadora, tijolos às cabeças e o sobe e desce para o soerguimento da capela de
Santa Terezinha. Chapéu de palha a cabeça do deputado de ontem e a minha
pergunta de hoje: Por quê?
Ah! Mais uma
vez à ruína. E vem a terceira capela de Santa Terezinha. Construção sobre
lajeiros, à luz do céu azul, do mato verde, da caatinga bruta e das marcas
rochosas que viraram lendas.
A urtiga, o
imbé, a catingueira, a macambira de flecha, companheiros e companheiras da
santa ali de dentro, daquela que você vê pela vidraça de vidro rachado.
Os segredos
das promessas uivam com o vento pela vegetação ora verdosa, ora esquelética da
pequena serra, do monte residual de uma extensa cordilheira varrida pelas
intempéries... Quem sabe? Sim, lugar de meditação que mexe na dúvida da alma
sutil.
Sim, sim,
serrote do Cruzeiro!
E a geografia da vida incentiva a escalada do Tabor, do Sinai santanense que descobre os horizontes invisíveis do interior da mecânica que liberta a alma dos grilhões terrenos. Voar, voar pelo infinito, navegar na misericórdia que flui, na esperança cultivada, no lombo dos ventos que vagueia pelos pontos cardeais.
Quem sobe o
belo serrote
Busca
esperanças mil
Quem desce
traz do serrote
A tinta do céu
de anil
Odor invisível
e forte
Dos bosques do mês de abril.
http://clerisvaldobchagas.blogspot.com/2023/10/o-deputado-e-santa-clerisvaldo-b.html
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POETAS...
Por Kydelmir Dantas
Conheço o PEDRO POPOFF, que a Bauru (oficial) não reconhece... Encontrando o poeta/cordelista e gênio ANTÔNIO FRANCISCO de Mossoró, o Mestre enviou este recado pro menino criador de uma Cordelteca no interior de Sâo Paulo:
De: Poeta Antônio Francisco Para: PEDRO POPOFF:
GRUPO VOLANTE DE MANOEL FLOR.
Por João Lucas
Olá, meus
amigos, boa tarde! Me chamo João Lucas, tenho 16 anos e sou dono do perfil
Cangaço Brasileiro no Instagram. Estou muito feliz de fazer parte desse grande
grupo! E, para marcar minha chegada, venho trazer essa foto:
𝑀𝐴𝑁𝑂𝐸𝐿
𝐹𝐿𝑂𝑅.
Fotografia
pouco conhecida da força volante de Nazaré, comandada por Manoel Flor (quarto
da esquerda para a direita), na região de Jeremoabo-BA, 06 de junho de 1936.
No registro,
encontra-se também Américo Flor (terceiro da esquerda para a direita), irmão de
Manoel e dos demais Flor que lutaram contra o cangaço brasileiro.
𝐶𝑈𝑅𝐼𝑂𝑆𝐼𝐷𝐴𝐷𝐸
O fotógrafo
foi nada mais e nada menos que o famoso Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo
eternizado e lembrado por ser o único que filmou Lampião e seus companheiros.
Segundo
algumas informações, Benjamin, possivelmente, fez algumas filmagens de Manoel e
sua volante. Porém, como pode se esperar, ainda não foi possível encontrar tal
registro. Será que está no famoso filme do libanês?
O registro se
encontra no livro O Canto do Acauã, de Marilourdes Ferraz.
https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste/permalink/2296354843906780/
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sexta-feira, 13 de outubro de 2023
ZÉ PEREIRA CONCEDE ENTREVISTA
AMIGOS, leiam
esta interessante e rica matéria.
Em 1930, em pleno "Estado Livre de Princesa", na Paraíba, o famoso coronel José Pereira falou longamente ao repórter dos "Diários Associados", Victor do Espírito Santo.
Reportagem para mim duplamente interessante, por conta de um ocorrido: a inesperada e momentânea presença deste notável jornalista na minha pequena e querida Aracaju de 1930, quando o hidroavião que o transportava do Rio a Recife, de onde ele iniciou a peregrinação em busca de Princesa e do famoso Zé Pereira, precisou, vocês saberão o motivo, demorar um pouco mais em Aracaju, momento este que Victor fez questão de deixar registrado no âmbito desta histórica matéria.
EM BUSCA DE PRINCESA, O MUNICÍPIO REVOLUCIONADO DA PARAÍBA.
Victor do
ESPÍRITO SANTO
(Enviado especial d’O JORNAL e do “Diário da Noite” do Rio e do “Diário da Noite” de S. Paulo)
DO RIO A RECIFE EM AVIÃO DA CONDOR – PARADA INESPERADA EM ARACAJU E UMA OPORTUNIDADE PARA UMA ENTREVISTA PITORESCA – MANÉ CAROÇO VISTO POR UM BACHAREL DE 84 – RECIFE
RECIFE, 13 –
(Por avião) – Não fui inteiramente feliz nesta minha primeira viagem aérea.
Para que uma viagem assim longa decorra a contento, necessário é que se tenha por companheiros pessoas com as quais possamos trocar impressões, tornando menos insípidas as longas travessias quando a vista se cansa de admirar o oceano, “que castiga pela majestade e o litoral que se repete milhas e milhas sem um fato novo que prenda a atenção, que desperte a curiosidade. E eu não tive desses companheiros quando saí do Rio, no “Olinda”, o possante e seguríssimo avião da Condor. Foram meus companheiros até à Bahia, dois alemães quase mudos e cujo sono acabou por contagiar-me.
Em Canavieiras, porém, assaltou-me a esperança de que ia ser melhorada a viagem, pois nessa pequena cidade deveriam embarcar cinco passageiros para a capital baiana. Não fui, ainda desta feita, feliz. Os meus novos companheiros eram o prefeito de Canavieiras, um engenheiro, um mecânico da Condor, um médico e a sua esposa. A não ser o mecânico, todos os demais eram políticos que empregavam todo o tempo em discutir o coeficiente de votos que o coronel fulano deveria dar e não dera e outras coisas que tais enquanto isso, a senhora do médico cansava-se de enjoar...
Na Bahia, a situação mudou-se, afinal. Quando, na Ribeira, esperava o pequeno bote que deveria conduzir-me para bordo do novo avião em que iria prosseguir a viagem até Recife, uma figura muito nossa conhecida desembarcou de um automóvel para seguir também em demanda do aparelho: tratava-se de monsenhor Rosalvo Costa Rego, o vigário geral aí do Rio. Ia, enfim, ter uma ótima companhia! E o foi efetivamente. Com a sua palavra atraente, a sua verve encantadora, o seu espírito fino, a sua inteligência brilhante e os seus grandes conhecimentos da zona que íamos percorrer, monsenhor Costa Rego era a companhia desejada.
Era a primeira vez que o ilustre vigário geral do Rio embarca em um avião e o fazia, disse-nos ele, sem satisfação devido às condições que o obrigavam a utilizar-se daquele meio de viação: desejara chegar a Maceió quanto antes por precisar visitar uma pessoa cara que se encontrava gravemente enferma. Infelizmente, a bordo do "Itaité", recebera comunicação de que essa pessoa falecera. E agora prosseguia viagem por já estar de passagem comprada e ter de providenciar sobre o espólio da pessoa que morrera, sua mãe de criação.
Deixamos a Bahia às 6 horas, e pouco antes das 9, o “Blumenau”, numa descida elegante e suave pousava os seus flutuantes no porto de Aracaju a fim de aí entregar a correspondência e receber gasolina. A demora deveria ser rápida, de 15 minutos, se tanto.
Assim, pouco depois das 9 horas, o “Blumenau” erguia-se das águas, elevava-se sobre Aracaju e contornava a pequena mas linda capital sergipana. O motor, porém, não estava funcionando a contento, conforme foi notado pelos tripulantes do avião. E após atingir uma altura de cerca de 1000 metros, o “Blumenau” descia novamente e com rapidez, um tanto precipitadamente para alcançar outra vez o ponto de onde partimos.
Era, disse-nos o piloto do avião, o tubo de óleo que não estava funcionando com regularidade e, por isso, necessitava de reparos, que demandariam cerca de duas horas.
Apresentava-se-nos uma oportunidade para percorrer a cidade de Aracaju e íamos aproveitá-la.
GREVE DE
CHOFERES
Aracaju, a pacata capital do pequenino Sergipe, recebeu-nos a mim e aos meus companheiros de excursão com curiosidade. Ainda é herói em nossa terra quem viaja de avião. E nós éramos considerados como heróis...
Tornava-se incômoda aquela situação de alvos da curiosidade pública e, por isso, procurávamos um meio de evitá-la aproveitando também a oportunidade para conhecer a cidade.
Saímos em busca de automóveis, mas em vão, pois não encontramos um só desses veículos de aluguel na cidade. Um sergipano baixo e cheio incumbiu-se de dar-nos a explicação de ausência de autos e fê-lo na sua linguagem de homem do povo, dizendo a monsenhor Costa Rego:
- Hoje, “seu” padre, não há automóvel, não sinhô. Os “chofé” estão em greve porque obrigaram eles a mudar de ponto.
E um outro
habitante de Aracaju atalhou logo, desolado:
- Que triste
impressão vão os senhores levar de Sergipe!...
Mas, “há males que vêm para bem” diz o rufião. A greve dos choferes privou-nos de percorrer a cidade, que víramos do alto. Em compensação proporcionou-nos ensejo de manter com um homem simples, uma palestra pitoresca em que a língua por vezes solta de um velho bacharel, de um bacharel de 84, teve palavras de brasa contra muitos dos nossos homens públicos.
UM SENHOR DE
ENGENHO, O GOVERNADOR DE SERGIPE:
Na falta de um meio de condução que nos levasse aos diversos pontos da cidade, não nos aventuramos a andar a pé pela cidade de Aracaju, para evitar que se formasse uma procissão atrás de nós. Era, no entanto, necessário esperar que terminassem os consertos no avião. Por isso, encaminhamo-nos para o cais, onde se aglomeravam populares para ver o aparelho. Monsenhor Costa Rego, era quem mais chamava a atenção dos sergipanos, que para ele se voltavam curiosos. Assim, quando o ilustre sacerdote chegou no coreto existente no cais, foi logo abordado por um cavalheiro de idade avançada, cabeça inteiramente calva, bigodes brancos e barba por fazer, olhos empapuçados e orelhas um tanto grandes, que, de chofre, lhe perguntou:
- Seu padre, o
senhor veio de avião?!
- Sim, vim no
“Blumenau”.
- Que coragem, seu padre! Eu não viajaria naquele bichinho, nem para ganhar mais de dez anos de vida... Deus deu asas aos pássaros e só os pássaros podem voar. Se Deus quisesse que os homens voassem, ter-lhes-ia dado asas também. Se não o fez...
- Qual! – atalhou o vigário geral – não há o menor perigo em viajar-se em aeroplano. Creio que o automóvel oferece menos segurança.
Embora, porém, todos os argumentos de monsenhor Costa Rego, corroborados por mim e pelo terceiro companheiro de viagem, o velho mostrou-se irredutível, assegurando:
- Salviano Corrêa de Oliveira Andrade, advogado formado em 1884, morador em São Cristóvão, nunca viajará naquilo. Quero morrer naturalmente e não precipitar os acontecimentos.
Em pouco a conversa descambou para a política e o velhinho, entusiasmando se, provocado sempre por monsenhor, ia falando de uma situação, atacando outra oposição, elogiando Pernambuco e dizendo sempre:
- Isto é um país perdido. Então Manoel Dantas é lá homem para governar Sergipe?! Ele é um senhor de engenho, um coronel de poucas letras, um homem rude. Honesto, isto lá ele é. Mas nunca estudou direito administrativo, não sabe o que é uma administração adiantada.
- Então o
senhor é oposicionista?
- Não! Sou conservador. Não posso formar com esses malucos dos liberais. Eles querem implantar aqui doutrinas do Soviet e eu, um homem de leis, não posso estar de acordo com eles. Sou conservador e, embora tenha admirado o governo que fez o doutor Graccho Cardoso, não posso aplaudir-lhe o gesto que vem de ter rompendo com o governo. É um homem inteligente mas dessa vez falhou. Eu acho é que nós precisamos de uma monarquia como a de D. Pedro II, a de Victor Manoel, a de Jorge V. só assim é que consertaríamos a situação má que atravessamos.
- Mas Mussolini é um ditador e o senhor, um homem de lei, não pode aprovar uma ditadura! – disse provocadoramente monsenhor Costa Rego.
- De modus in rebus – fez o doutor Corrêa – Ele salvou a Itália do abismo. Eu ando bem informado, esteja certo, pois sou assinantes do Diário de Pernambuco, o decano da imprensa brasileira.
E o bom velho, atacando os liberais, fazendo caretas horríveis quando pronunciava a palavra liberal, entrou a dissertar sobre a política federal, a pernambucana até que, provocado por monsenhor Costa Rego, abordou a situação de Alagoas, assegurando:
- Lá está um
tal Sr. Paes, um homem de poucas letras, tal como o Sr. Manoel Dantas.
- Mas ele é
seu colega, bacharel – disse um dos presentes.
- Ser bacharel, hoje, não é nada. Vai-se agora analfabeto para a Bahia e volta-se sobraçando uma bolsa de couro e com o título de bacharel. Pergunta-se a um desses bacharéis o que é Corpus Juris e ele dirá que é sanduíche... no meu tempo, sim, é que se estudava para se obter um pergaminho assinado em nome de Sua Majestade o Imperador.
Hoje, parece
que os bacharéis sabem tanto como o coronel Manoel Dantas.
Monsenhor Costa Rego procurou ainda encaminhar a palestra para o seu irmão, o ex- governador de Alagoas. O avião, porém, já estava pronto e tivemos necessidade de deixar o bom velhinho, que, ao despedir-se do sacerdote, depois de abraça-lo demoradamente, fez questão de novo abraço, dizendo:
- Esse abraço
foi-me ao coração! Dê-me outro, seu padre!
Daí a instantes, depois de uma tentativa frustrada, o “Blumenau” levantava voo e demandava a Alagoas, para daí tomar a direção de Recife, onde desembarquei, afinal, às 15 ½ horas de ontem.
Preparo-me agora para atravessar o sertão pernambucano, andar várias léguas de trem e automóvel para conseguir penetrar em Princesa. Conseguirei? Lograrei defrontar-me com o coronel José Pereira e entrevista-lo? É o que vou tentar.
O Jornal - 18.04.1930.
NO REDUTO DO SR. JOSÉ PEREIRA, O CHEFE SERTANEJO DISSIDENTE DA PARAÍBA – A VIAGEM DO ENVIADO ESPECIAL D’ "O JORNAL", DO "DIÁRIO DA NOITE", DO RIO E DO "DIÁRIO DA NOITE" DE S. PAULO ATÉ A CIDADE DE PRINCESA, NO INTERIOR PARAIBANO – OS RECURSOS BÉLICOS DOS CANGACEIROS – O AMBIENTE NO SERTÃO DA PARAÍBA
Levado pelo intuito de oferecer aos seus leitores um depoimento tão amplo quanto possível, em torno dos acontecimentos que se estão desenrolando no interior paraibano, com a ocupação da importante cidade de Princesa por um grupo de homens armadas, sob a chefia do Sr. José Pereira, O JORNAL, em combinação com o Diário da Noite desta capital e o Diário da Noite de S. Paulo destacou um dos seus redatores para colher, de visu, no próprio teatro da luta armada, que ora se trava no interior daquela unidade federativa do norte, impressões que logrem dar uma justa ideia e definir as verdadeiras proporções do levante cangaceiro que se opõe ao poder constituído da Paraíba.
O nosso enviado especial teve ensejo, no desempenho da missão de que foi portador, de visitar o reduto do chefe dissidente paraibano, onde demorou-se o suficiente para observar o vulto e os objetivos das atividades rebeldes do Sr. José Pereira, cuja palavra, ainda por seu intermédio, os nossos leitores terão oportunidade de conhecer, através das correspondências que hoje começamos a publicar.
RECIFE, 15 – É das coisas mais penosas ter-se de atravessar o sertão pernambucano, percorrendo léguas e léguas das mais horríveis estradas. Logo que se sai de Recife começa o suplício com a viagem em incômodo trem da Great Western, por caminhos poeirentos, com paradas intermináveis e marcha de caranguejo. E percorrem-se, assim, durante mais de novo intermináveis horas, 270 quilômetros, para atingir-se Rio Branco, o ponto terminal da linha! Viagem bem mais incômoda que em qualquer trem da Linha Auxiliar...
De Rio Branco a Princesa são 30 léguas que se percorrem em automóvel, numa verdadeira corrida de obstáculos em que a perícia e o arrojo dos choferes são a cada instante reclamados. Chegando a Rio Branco às 16 horas do dia 12, quatro horas após embarcava eu em um auto que me deveria conduzir à cidade dominada por José Pereira e seus homens.
Não me foi fácil encontrar quem me conduzisse até princesa, dado o receio dos choferes de penetrar na cidade que se encontra fora da lei e onde se afirma José Pereira vem desde longos anos fazendo valer a sua vontade, encobrindo crimes e mandando executar outros.
Afinal, com a interferência do prefeito de Rio Branco, coronel Antonio Japiassu, que tinha interesse em mandar para o seu colega de Flores, coronel Antonio Medeiros, a fim de que este as enviasse a José Pereira, duzentas e cinquenta alpercatas de couro cru, que recebera de Recife, conseguiu-se um auto com chofer disposto a fazer a longa caminhada. No auto, porém, deveriam seguir as alpercatas...
No dia imediato, domingo, entrava eu em Princesa, onde a melhor das recepções me foi feita e da qual me ocuparei em outra reportagem. Quero agora dizer como encontrei a cidade de onde José Pereira se corresponde, como ele próprio me afirmou, diretamente com os presidentes da República e de S. Paulo.
DESOLAÇÃO
José Pereira havia sido avisado de minha visita, e, por isso, tratara de preparar ambiente para que a minha impressão fosse a melhor possível. Mandara vir para a cidade algumas famílias, determinara que se preparasse uma mesa farta para o almoço, fizera com que os melhores dos seus homens, os mais abastados, ficassem na parte central do lugar, de forma que eu trouxesse de Princesa uma impressão que desmentisse tudo o que de mal se dizia a seu respeito.
E, efetivamente, a julgar pelo que me foi mostrado em Princesa, teria eu de voltar daquele longínquo lugar aplaudindo a atitude de José Pereira, se não estivesse bem ao par da situação dos verdadeiros motivos que determinavam o seu gesto de rebeldia.
Princesa bem merece o nome que tem, pois é uma cidade de bom aspecto, a melhor dos que percorri em toda a zona sertaneja, exceção feita de Triunfo. Possui boas estradas, bens prédios, recursos próprios, embelezamentos naturais e feitos pela mão do homem, sendo, no sertão, uma cidade em que se pode viver.
Logo à entrada, porém, da cidade, tem-se a impressão de desolação e tristeza: casas abandonadas e inteiramente fechadas, com mato a atingir já à altura das janelas. Nem uma só pessoa em longa extensão, para afinal só se encontrar homens em armas, quando se entra na porta central do povoado.
Às margens das estradas, trincheiras construídas de pedra e barro, tendo a guarda-las sertanejos de caras assustadas e olhos inquiridores.
E Princesa que, em dias normais, deve ser uma cidade de movimento, atraente e interessante, apresentava naquele domingo em que lá estive um aspecto de desolação.
AS ARMAS DE
PRINCESA
Na longa palestra que comigo entreteve, José Pereira teve ocasião de referir-se às armas com que conta, armas que, escassas a princípio, ele afirma serem agora abundantes, o mesmo sucedendo com relação à munição, que me foi assegurado bastar para seis meses de luta. E disse-me:
- “Afirmar-se que o governo pernambucano me vem auxiliando, fornecendo-me armas, munição e gente, é uma inverdade. As armas que aqui tenho são de particulares e foram adquiridas para combater os cangaceiros, quando Lampião andou por aqui. O Sr. João Pessoa quis toma-las, como fez com outros municípios, mas eu não me submeti à sua ordem e por isso, tenho hoje armas. Possuo também duas metralhadoras além de um pequeno canhão que só serve para arrombar portas. O governo de Pernambuco só tem feito prejudicar-me, com revistas rigorosas e vexatórias à entrada da cidade, fazendo ainda com que amigos que tenho em localidades pernambucanas deixem de vir dar-me a sua adesão, pelo temor das consequências que as providências do Sr. Estácio fazem prever.”
Nessa revista o carro em que eu viajei sofreu e foi efetivamente rigorosa. Verificou-se o mesmo em Flores, à saída da cidade. Entretanto, pouco antes dela ser feita, o comandante do destacamento do lugar, tenente Severino Felix, respondendo a uma pergunta por mim feita sobre a passagem para Princesa e os empecilhos que poderia encontrar, disse-me:
- “A não ser armas, que só passam com ordem do governo”, tudo mais pode seguir, sem qualquer dificuldade”.
OS HOMENS DE
JOSÉ PEREIRA
Em Recife,
assegurava-se que José Pereira tinha sob suas ordens cerca de 1500 homens.
O chefe do movimento armado afirmou-me, porém, que conta com 700 homens aproximadamente, o que leva a acreditar ser ainda inferior o número de sertanejos em armas.
Os que foram apresentados o farão como fazendeiros, lavradores, operários, gente do lugar, exclusivamente, havendo até entre eles um bacharel em direito, que exercia em tempo normal as funções de promotor da cidade. Mostravam-se todos animados e confiantes na vitória.
José Pereira
teve a habilidade de fazer-lhes crer que se o governo paraibano conseguir
vencê-los,
terão todos eles as suas vidas sacrificadas e as suas propriedades incendiadas.
Por isso, o encarniçamento
com que lutam.
Um desses homens, a quem transportei de Princesa a São José, no automóvel que me servia, declarou-me: - “Eu não estou nessa luta por gosto, pois não tenho e nunca tive prazer em matar ninguém. Mas devo tantos favores a José Pereira que não posso deixar de estar a seu lado. Além disso não quero ser “sangrado” nem tão pouco que eles incendeiem a minha propriedade.”
Assegurou-me José Pereira que Princesa unânime está a seu lado e que aqueles que não lutam por não terem sangue de homem de guerra, favorecem a sua causa, fornecendo-lhe recados, roupa e mesmo gado.
A RESISTÊNCIA
DE PRINCESA
Não obstante toda a fanfarronada de José Pereira, dizendo que Princesa não cairá e que poderá manter-se em luta durante meses e meses, a impressão que trouxe daquela zona e do que observei é que o reduto de José Pereira não poderá resistir a um ataque forte das forças paraibanas, ataque que talvez, à hora em que estas notas estiverem circulando, esteja sendo feito.
As forças rebeldes não têm chefes capazes de um bom plano estratégico, pois cada qual dá a sua opinião, que José Pereira acata, para depois aceitar outra inteiramente contrária.
Em guerrilhas, em emboscadas, são capazes de manter-se em luta longo tempo. um ataque seguro não terão com que resistir. É preciso saber se a polícia paraibana conta com técnicos capazes de levar a efeito esses ataques.
A VOLTA A RIO
BRANCO
Não quis voltar a Rio Branco sem passar por Patos, onde se dera, havia pouco, um encarniçado combate entre 50 soldados paraibanos e 300 rebeldes, e por Triunfo, onde estão as forças pernambucanas incumbidas de garantir a... neutralidade.
Encontrei Patos abandonada, com suas casas cheias de perfurações de balas, umas derrubadas a dinamite e outras bastante estragadas. Nem soldados paraibanos, nem sertanejos de José Pereira. Tudo em abandono!
Triunfo é uma vila privilegiada. Situada em lugar de clima aprazível, produzindo tudo o que se queira, a Petrópolis pernambucana deveria merecer as atenções dos governantes do Estado. Celeiro de todo o sertão daqueles lados, Triunfo deveria ter boas estradas que lhe dessem acesso, a fim de que o seu movimento correspondesse ao seu adiantamento.
Entretanto, o Sr. Estácio Coimbra que cobra dos municípios um pesado imposto destinado à conservação e melhoria das estradas, deixa a que vai de Patos a Triunfo e desta cidade a Flores em estado tal que só mesmo muita necessidade pode fazer com que alguém se aventure a percorre-la em automóvel. Foi um trajeto penoso, cheio de perigos, e que, feito à noite, mais difícil ainda se tornou.
De Flores a Rio Branco, embora melhores, as estradas muito atrasaram a viagem, pois por duas vezes vi o carro atolado, só conseguindo pô-lo novamente em movimento depois dos mais ingentes esforços, só postos em prática para que não visse a retardada de 48 horas a minha partida para Recife, visto que, se perdesse o trem de segunda-feira, só teria outros dois dias depois.
Estava-me ainda reservada uma outra surpresa desagradável. Às 5 horas, depois de viajar toda uma noite por péssimas estradas, quando ainda faltavam seis quilômetros para atingir Rio Branco, a gasolina acabou. E eu, que viajara de avião milhas e milhas, que fora passageiro de trem e automóvel por caminhos intermináveis, acabei por ter de fazer 6 quilômetros a pé para alcançar Rio Branco, onde cheguei, enfim, a tempo de tomar o trem e chegar ontem, à noite, a Recife, para escrever a próxima crônica, em que inicio, realmente, o relato da minha palestra com o famoso Zé Pereira.
O Jornal -
24.04.1930
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O MOVIMENTO SUBVERSIVO DA PARAÍBA – COMO O SR. JOSÉ PEREIRA FALOU EM PRINCESA, AO REPRESENTANTE D’ O JORNAL E DO DIÁRIO DA NOITE – OBJETIVOS DA LUTA, SEGUNDO OS PROGNÓSTICOS DO CHEFE REBELDE – À ESPERA DA INTERVENÇÃO FEDERAL – UM COMENTÁRIO À MARGEM DA ATITUDE DA JUNTA APURADORA DO ESTADO
RECIFE, 13 de abril de 1930 – Prosseguindo no meu relato, tive, logo depois, de aceder a um convite do Sr. José Pereira para tomar parte no seu almoço. Durante a refeição, a palestra versou sobre os mais variados assuntos, até que, à certa altura, disse-me o chefe reacionário de Princesa, empunhando uma taça de champanhe:
- É ainda
champanhe que sobrou do banquete que oferecemos ao Sr. João Pessoa.
- E por que – perguntei, sendo oferecido esse banquete num dia logo no outro o Sr. rompeu as hostilidades?
- Simples – contestou-me o Sr. José Pereira. É que recebido aqui com todas as festas e honrarias, o Sr. João Pessoa sempre que eu lhe fazia perguntas sobre a reunião da
Comissão Executiva do Partido, fugia do assunto, atacando outra palestra. Quando, afinal, deixou Princesa entregou ao major Soubreira um papel para me ser dado. Tratava-se da chapa do Partido. Foi o que mais me exasperou.
O senhor José Pereira, ainda apreciou outros aspectos da questão, falando sempre com extrema volubilidade.
RELAÇÃO DE
CRIMINOSOS QUE SERVEM AO SR. JOSÉ PEREIRA
Depois de terminado o almoço, passamos à sala, onde a palestra prosseguiu sempre animada. Conversador incorrigível, dado a espirituoso, o Sr. José Pereira nem sempre guarda a discrição que seria (...) em um homem que tem as suas responsabilidades.
Assim foi que, ao lhe fazer eu perguntas sobre os criminosos que tem entre os seus homens, obtive a seguinte resposta:
- Eu não tenho bandidos entre os meus homens, pois procuro selecioná-los sempre. Aliás, não faço isso por escrúpulo próprio. Por mim, eu aceitaria tudo o que caísse na rede. A questão, porém, é que não quero desmerecer a confiança que em mim depositam os senhores Washington Luís e Júlio Prestes, confiança essa manifestada em telegramas que tenho em meu poder. Por eles é que não aceito bandidos para servir entre os meus homens.
Aludimos, então, à lista de criminosos publicada pela União, órgão oficial do governo paraibano.
Sem perceber o alcance de suas declarações, retrucou o Sr. José Pereira:
- Pois então vejamos: “Sinhô Salviano” – esse homem matou efetivamente dois oficiais, mas fê-lo em defesa de seu irmão, que foi morto. Desse crime já foi absolvido. “Tocha” e “Moreno”.
– Esses mataram em Triunfo, mas foram absolvidos, tendo o promotor apelado.
“Possidônio
Cosello Branco” – matou um oficial de polícia em Flores, mas já foi absolvido.
“Manoel
Virgulino” – tirou a vida a um homem, foi condenado, porém o crime prescreveu.
“José Soares” – esse nunca praticou crime nem foi condenado. Esteve preso, mas por engano, por um crime praticado por outro José Soares, que não é ele. “Marcolino Diniz” – esse é meu cunhado e teve necessidade de matar um homem em Triunfo; entretanto, já foi absolvido. E, assim, todos os demais.
E como para
frisar:
- Eu queria
agora é que o Sr. João Pessoa, por sua vez, contasse a crônica do famoso
“Quelé”,
tenente José Guedes e outros.
COMO O SR.
JOSÉ PEREIRA SE REFERE AO SENADOR EPITÁCIO PESSOA
A palestra, já agora provocada pelo Sr. Epitácio Pessoa de Queiroz, que se achava presente, voltou a girar em torno do Sr. João Pessoa, alvo da indignação do Sr. José Pereira.
O chefe rebelde de Princesa lamenta, nessa altura, que o Sr. Epitácio Pessoa tenha ficado ao lado do atual presidente da Paraíba, acentuando entretanto:
- Eu tenho pelo Sr. Epitácio a mais viva gratidão, a maior admiração, reconhecendo nele o maior dos brasileiros vivos. Nada lhe devo a não ser elogios que ele teve ocasião de fazer- me no Rio Negro, na presença do Sr. Arrojado Lisboa, ao passo que S. Excelência me deve até o governo da Paraíba, pois foi por minha causa que o seu nome saiu vitorioso em 1915. Princesa foi o fiel da balança.
AGUARDANDO A
INTERVENÇÃO FEDERAL
Mais adiante perguntei ao Sr. José Pereira, como esperava viesse a terminar o movimento subversivo e ainda o que esperava afinal de tudo isso. O chefe rebelde respondeu logo:
- Espero pôr
fora do governo ao Sr. João Pessoa.
Peguei em armas e não me entrego, visto não querer que amanhã a Câmara de que faço parte dê permissão para que eu seja processado como qualquer criminoso comum. Ainda se o governo reconhecesse que se trata de um crime político vá lã. Mas o Sr. João Pessoa não entende assim e hostiliza rudemente todos os meus correligionários, criando um ambiente de irritação surda contra o seu governo, de forma que hoje todos os habitantes de Princesa estão em armas em legítima defesa, não só para serem processados como bandidos como também para defender as suas propriedades. Se eu tivesse bandidos e quisesse saquear, como se afirma, não teria os escrúpulos que venho tendo.
Fez ainda considerações para justificar-se dizendo que tanto a mesa de Rendas como os Correios estão intactos.
- Se eu fosse assassino – prosseguiu – não teria poupado os soldados paraibanos que aqui estão presos, e não trataria dos feridos que estão em meu poder. São fatos que saltam aos olhos.
PLANOS DE
GUERRILHAS
Perguntei-lhe,
então, se pretendia depor o governo.
- Não. Eu não o atacarei. Continuarei a defender-me com toda a energia, certo de que eles aqui não entrarão. Se, por fim, não conseguir defender este reduto, dividirei meus homens em grupos de 50, 100, 200 e entrarei a assolar o Estado, fazendo guerrilhas e emboscadas. Mas creio que nada disse se verificará, por ter o governo de intervir aqui.
Ponderei que a
intervenção se podia dar para garantir o governo legal! da Paraíba.
- Não creia – respondeu o Sr. José Pereira. O governo federal fará a intervenção para apaziguar o Estado, retirando do poder o Sr. João Pessoa. Não pode vir contra mim, que tenho sofrido pelo apoio que lhe dei, em favor de um adventício da Paraíba, de um governo que se colocou fora da lei, de um governo realmente ilegal e revolucionário. Nós aqui temos como certa a intervenção do governo federal, que nos dará ganho de causa.
VISITANDO A
CIDADE
Fui, logo depois, convidado pelo Sr. José Pereira para uma excursão à linha de frente, em Tavares, o que, infelizmente, não foi possível realizar-se, pela intervenção de outra pessoas. Diante disse, fizemos uma visita à cidade. Fomos à praça Epitácio Pessoa, que o Sr. José Pereira afirmou estar sendo construída a suas expensas. Estivemos nos açudes Macapá e Barão de Ibiapina; andamos pelos arredores, percorrendo edifícios públicos, para, afinal, voltarmos ao ponto de partida.
A certo ponto, querendo provocar uma manifestação do chefe dos rebeldes sobre a atitude da Junta Apuradora da Paraíba, disse-lhe:
- Ninguém, no Rio nem em Recife, mesmo entre os mais exaltados governistas, quis ainda defender o ato da Junta Apuradora da Paraíba, diplomando os oposicionistas.
- Efetivamente – respondeu logo o Sr. Pereira – aquilo foi uma decisão escandalosa, e ninguém esperava tal decisão. Mas não tenha dúvida de que o presidente da República mandará reconhecer os diplomados...
Depois dessa confissão, pouco honrosa, aliás, para o Sr. Washington Luís, o chefe rebelde desconfiou, talvez, que teria avançado em demasia, não mais tocando no assunto, passando a dizer, já respondendo a uma pergunta minha, que, de fato, recorrera ao padre Cícero, pedindo homens e munições, no que não foi atendido. Assegurou, ainda, que não tinha agentes entre os cangaceiros do Ceará, e, nesse diapasão, sempre atacando o Sr. João Pessoa, o coronel José Pereira abordou ainda assuntos de menor importância, até à hora em que, afinal, deixei Princesa, com destino a Triunfo, para passar pela povoação de Patos, onde se travara vivo combate, há pouco.
O Jornal (RJ) - 26.04.1930
IMAGENS que integram a reportagem: José Pereira - Rua coronel José Pereira, em Princesa - Grupo de homens armados na proximidade da casa de José Pereira - Rua coronel Marcolino Pereira, em Princesa.
Enviado por Antônio Corrêa Sobrinho.
http://blogdomendesemendes.blogspot.com










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