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quarta-feira, 17 de julho de 2013

REGABOFE CANGACEIRO - II

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

REGABOFE CANGACEIRO - II

O regabofe cotidiano do cangaceiro, usual no ato da sobrevivência sertão adentro, consistia apenas naquele alimento necessário a suportar as exigências da lide, de modo a dar sustentação física. Como dito, era a comida comum, geralmente preparada com antecedência e colocada no embornal e desfrutada durante a caminhada ou mesmo debaixo de um sombreado.

Comida do vaqueiro no mato, do caçador, do nordestino nas lides debaixo do sol, consistia, dentre outras coisas, na carne seca, no bode assado, na caça encontrada pela caatinga, na farofa ou mesmo farinha seca. Tudo descendo de goela abaixo com a preciosa água do cantil ou no apreciado gole de pinga. E da boa. Mas tudo que se queria era ter um tempo maior para acender fogo e preparar uma comida mais apurada. Coisa rara era encontrar tal oportunidade.

O regabofe de coito, ou aquele preparado com mais apuro, fazendo com que os cheiros se espalhassem pelos arredores sertanejos, somente era possível quando o bando, sentindo-se em segurança, se refugiava em local adequado. Como não levava o suprimento necessário para a comida diferenciada, recorria-se ao velho amigo coiteiro. Este era quem providenciava tudo aquilo que o bando necessitasse na sua panela ou caldeirão. E chegavam a caça, a carne fresca de bode e de gado, a galinha e o capão, a carne e a toucinhada de porco gordo, o feijão, a farinha, o arroz, o açúcar, o café. Uma fartura.


O regabofe de estrada, ou aquele encontrado pelo caminho, nem sempre era tão farto quanto o providenciado pelo coiteiro, mas certamente era muito melhor e mais apreciado que a comida levada nos couros do bando. Os olhos do cangaceiro brilhavam quando após a mataria ou nos arredores das estradas, avistavam uma moradia sertaneja. E brilhavam mais ainda quando viam criações pastando ao redor. Galinha de capoeira, cabrito, bode, qualquer coisa que por ali existisse seria de grande valia para matar a fome.

Então batia à porta da casa e ordenava que sem demora fosse preparado alimento para todo o bando. No instante seguinte e o temeroso e sempre acolhedor sertanejo começava a providenciar uma fartura de comida. Muitas vezes era família pobre, sem os alimentos necessários nem para a própria prole, vez que o sertanejo geralmente passa fome mas não sangra uma cria sua para colocar na panela.

Contudo, diante da presença do famoso cangaceiro e seu bando, se enchia de contentamento em poder servi-los com o melhor que tivesse. E não demorava muito para a cangaceirada se fartar com a avidez dos famintos. Muitos cochilavam enquanto a comida fervia na panela de barro, no velho caldeirão ou mesma em bacia de alumínio. Outros, com eterna vigilância, ficavam por ali proseando, fumaçando um cigarro, limpando as armas, impacientes para abocanhar o que temperadamente surgisse. Ou apenas com o tempero da terra, com folhagens ou ervas de quintal. Mas é a fome quem tempera a comida, verdade seja dita.

O folclore cangaceiro conta que foi numa residência com tais características que ocorreu um curioso episódio. Conta-se que Lampião mandou preparar o devido regabofe para o seu grupo e um dos cangaceiros cometeu a imprudência de dizer que a carne estava sem sal, insossa. Então o Capitão se enfureceu de tal forma que, após reprimir com palavras duras a observação impensada de seu liderado e afirmar que deviam agradecer a Deus e àquela família por comida tão saborosa, pediu todo o sal existente na casa e ordenou que o cabra engolisse tudo. E sem deixar um só tiquinho. E também um dia inteiro sem beber uma só gota d’água. Castigo exemplar para os mal agradecidos.


Por último, o regabofe saboreado nababescamente na residência de coronel ou de outra ilustre figura sertaneja. Ora, é sabido por todos que a influência de Lampião era exercida perante todas as hierarquias sertanejas, desde o homem mais simples e empobrecido ao coronel e demais autoridades. De alguns apenas a consideração pelo temor, pelo medo que possuíam; mas verdadeira reverência de outros, num lastro de amizade que permitia com que o bando tivesse guarida e acolhida nas varandas e mesas mais portentosas. Bastava a sua presença e toda e qualquer cozinha parecia fervilhar, com alvoroço de panelas e facas pinicando alimentos.

Dificilmente o Capitão antecipava o conhecimento sobre sua chegada a qualquer lugar. Era perigoso demais avisar com antecedência, vez que a desconfiança era instrumento essencial na estratégia de sobrevivência. Contudo, nada impedia - e assim aconteceu - que mandasse bilhete a uma determinada influência interiorana dizendo que tal dia se faria presente com a sua caravana de luta. Missiva sempre enviada por alguém de sua extremada confiança.

Ao chegar era recebido com as mordomias dos grandes, com direito a boa bebida e mesa farta. Não só muita comida como diversidade de pratos. O nordestino, principalmente se poderoso economicamente, é um desregrado nos alimentos que manda preparar e servir a convidado ilustre. Os mesmos pratos nordestinos, porém mais temperados, requintados e diversificados. Numa mesa assim certamente não faltava a buchada, o sarapatel, a galinha ao molho pardo, o porco assado, a carne de bode e de gado, e as aves apetitosas. E também as saladas, os molhos, as massas, os pratos ao forno de lenha.

Mas não precisava ser pessoa rica, de muitas posses e coronelato sobre o mundo sertanejo, para servir bem ao amigo Lampião. Meu avô materno Teotônio Alves China, ou China do Poço como era mais conhecido, se enquadrava nessa categoria dos que receberam o Capitão com mesa farta, mas sem ser latifundiário ou pessoa de muitas posses. Pequeno comerciante, dono de bodega, lhe sobrava, porém, a grande influência que possuía na povoação sergipana de Poço Redondo. Amigo do líder cangaceiro, era na sua residência que este buscava acolhida e mesa abastecida quando de visita ao lugarejo.

Não só Lampião e seu bando eram recebidos por Seu China, pois as autoridades regionais ali também faziam estadia. E numa ocasião, num mês de agosto em que se celebrava a festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição, eis que o bando maior desponta na estrada e segue em direção à casa do amigo. O Capitão não sabia, contudo, que num dos quartos da residência repousava um feroz combatente de suas práticas: o Padre Arthur Passos.

Os donos da casa, Seu China e Dona Marieta, nervosos demais diante da situação inusitada, tendo ali a presença da arma e da cruz, já nem sabiam o que fazer quando foram perguntados por Lampião o que se passava para estarem assim tão aflitos. Não vendo saída, o amigo segredou-lhe sobre a presença do velho padre tirando uma soneca antes do almoço. Segredou e ficou esperando o pior acontecer.


Mas não, pelo contrário. Aconteceu muito diferente do tão temido. O Capitão sorriu com a informação recebida e disse apenas que por gentileza avisasse ao da igreja que também estava ali e que desejava muito ter o prazer de dividir a mesa com ele. Então surge outro problema para China resolver, eis que temia ser excomungado no mesmo instante que repassasse o recado ao Padre Arthur, reconhecido pela intolerância com as ações cangaceiras e inimigo declarado de Lampião. Alguns, entretanto - como verdade ou mentira -, juram na cruz que os dois mantinham grande amizade.

Amigos nos escondidos sertanejos ou não, verdade é que as pazes foram devidamente seladas na mesa servida por Dona Marieta. Com a ajuda de comadres e vizinhas, a esposa de Seu China colocou tantos pratos apetitosos à disposição que o velho padre, sempre de boca cheia e deixando cair caldo gordo pelos beiços, não conseguia dizer uma palavra inteligível sequer.

E dizem que Lampião ficou três dias sonhando com a comida e repetindo em devaneio: Me passe a buchada, me passe esse capão gordo, me passe esse lombo de porco...

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.

Poeta e cronista
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Antônio Gomes de Arruda Barreto.

Por Jerdivan Nóbrega de Araújo

Antônio Gomes de Arruda Barreto nasceu em 1856 em Pedra Lavrada/PB e faleceu em 1909 na Parahyba, hoje cidade de João Pessoa. Era filho de Antônio Gomes Barreto e de Ana de Arruda Câmara. Homem inteligente e de caráter nobre, dedicou-se ao magistério, especialmente à educação dos jovens sertanejos. Em 1875 seguiu para Catolé do Rocha/PB, fixando-se lá, onde formou sua família.


Em 1897 fundou o Colégio Sete de Setembro em Brejo do Cruz/PB, primando pela qualidade. O seu Colégio era procurado tanto por alunos paraibanos como por aqueles que residiam no Estado do Rio Grande do Norte. Em decorrência da seca que assolou a região no ano de 1898, Antônio Gomes de Arruda Barreto viu-se obrigado a fechar o seu educandário e emigrar para o Rio Grande do Norte, em 1900. Antônio Gomes era autodidata e poliglota. Além de professor, era poeta satírico, jornalista polêmico e combativo. Foi advogado e promotor sem ser bacharel.

Foi deputado provincial no Estado da Paraíba por duas legislaturas (1901/1904 e 1908/1911), tendo falecido no exercício do mandato. Republicano, ao lado de Epitácio Pessoa, Castro Pinto e Argemiro de Souza, prestou relevantes serviços jornalísticos à sua terra. Foi redator do jornal O Estado da Paraíba; redator-chefe de O Mossoroense e colaborador de O Combate e O Eco.

Também se dedicava à poesia satírica, arma utilizada para atacar os adversários políticos do seu tempo. Entretanto, segundo Oscar de Castro, seus versos eram cheios de um humor sadio, que não chegavam a provocar ódios ou melindres justificados. Publicou também em O Comércio. Era tenente-coronel da Guarda Nacional, bem como membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Publicou em jornais muitas poesias, usando sempre os pseudônimos Pincelle e F. Santarém. Também escreveu uma gramática e um Tratado de Direito.

Jerdivan Nóbrega de Araújo. Bacharel em Direito. Poeta e escritor. Funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço: José Romero Araújo Cardoso

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Rostand Medeiros na Serra Grande


Olá amigo Mendes, espero que esteja tudo bem com você, meu grande amigo. 

Como sei que você gosta de história e pesquisa, gostaria de compartilhar contigo algumas fotos da minha última viagem ao Sertão do Pajeú (PE), para trabalhar em uma consultoria junto a TV Brasil/EBC, de Brasília, em um documentário sobre o cangaço, que em breve vai estar na telinha.


Estava com o André Vasconcelos, de Triunfo, meu amigo e parceiro de empreitadas. Estivemos em várias partes do Pajeú, principalmente em Triunfo e Serra Talhada. Nesta última cidade ficamos na zona rural, na Fazenda Barreiros, onde passamos ótimos momentos. Dali subimos a Serra Grande, palco do maior combate de Lampião contra as volantes. 

 




Foram 900 metros de altitude que tivemos de encarar e assim compreender o que ocorreu neste local em novembro de 1926. Neste local, Lampião e seu bando, segundo algumas fontes com 85 homens, venceu várias volantes, que totalizavam 300 policiais pernambucanos. 

Um abraço.

Rostand Medeiros

Material do acervo do historiógrafo e pesquisador do cangaço: Rostand Medeiros.

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terça-feira, 16 de julho de 2013

Ganha força o movimento pelo tombamento da Casa de Chico Pereira


Na edição de hoje, 16 de julho de 2013, do jornal A União, que circula no Estado da Paraíba, foi vinculada uma reportagem fazendo alusão ao pedido de tombamento, restauro e criação do museu do cangaço na cidade de Nazarezinho – PB.

A cada dia o movimento está
ganhando mais força.

Wescley Rodrigues

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Parque Cultural “O Rei do Baião” realiza VI FESMUZA

Regulamento


VI FESMUZA – Festival de Músicas Gonzagueanas

Promoção do Grupo União São Francisco
Apoio “Caldeirão Político”

Música homenageada do ano: “Paulo Afonso”

REGULAMENTO
A Comissão Organizadora do VI FESMUZA, CONVIDA para participar das festividades em homenagem a Luiz Gonzaga e seus seguidores, com as seguintes promoções: I VAQUEIZAGÃO, VI FESMUZA e II CONPOZAGÃO.

I -  DATA:

24 de Agosto – I VAQUEIZAGÃO, VI FESMUZA e II CONPOZAGÃO

II – LOCAL: Parque Cultural “O Rei do Baião”, Comunidade São Francisco – São João do Rio do Peixe – PB.
III – INSCRIÇÕES PARA O FESMUZA:
a – O período de inscrições será de 01 de maio a 10 de     agosto-2013

b – Cada participante poderá inscrever somente uma     música

c – As músicas terão que ser exclusivamente do     cancioneiro de Luiz Gonzaga

d – As inscrições poderão ser feitas através dos e-mails:
dos telefones: (83) 3531-    4429, (83) 9615-7942 ou (83) 9379-1893, e pelo seguinte     endereço: Rua Dr. José Guimarães Braga, 70, Vila do Bispo     – CEP: 58900-000 – Cajazeiras (PB).

IV – PREMIAÇÃO PARA O FESMUZA:
1° Lugar…………………R$ 4.000,00

2° Lugar…………………R$ 2.000,00

3° Lugar…………………R$ 1.000,00

4° Lugar…………………R$     600,00
5º Lugar…………………R$     400,00
6º Lugar…………………R$     300,00
7º Lugar…………………R$     200,00
Melhor Sanfoneiro…..R$ 1.000,00
Melhor Intérprete……R$ 1.000,00
Serão distribuídos os Troféus “O REI DO BAIÃO”, aos     vencedores do VI FESMUZA.

V – PROGRAMAÇÃO:

- Dia 24 – Às 18:00 horas – I VAQUEIZAGÃO

- 19:00 horas – anuncio dos vencedores do II     CONPOZAGÃO, entrega dos troféus e apresentação do     livro “O I CONPOZAGÃO”

- 20:00 horas – Realização do VI FESMUZA na Quadra     “Antonio Alcino”e entrega do Prêmio “DOMINGUINHOS”,     aos vencedores.


CONVITE – VAQUEIZAGÃO
O Grupo União São Francisco e o “Caldeirão Político” convidam o heroico Vaqueiro para participar do I VAQUEIZAGÃO, por ocasião da abertura do VI FESMUZA – Festival de Músicas Gonzagueanas, em homenagem ao “Rei do Baião”, no dia 24 de agosto de 2013, na Comunidade São Francisco, município de São João do Rio do Peixe (PB).
PROGRAMAÇÃO
01 – A CAVALGADA terá início às 17h00min, pontualmente, no posto de combustíveis do Sr. Ovídeo Fernandes, na cidade de São João do Rio do Peixe (PB), seguindo até a Capela de São Severino, na Fazenda São Francisco.
02 – O I VAQUEIZAGÃO contará com a presença honrosa do Padre Fábio Mota, da Paróquia de Jijoca de Jericoacoara (CE).

03 – TRAJE: Típico do Vaqueiro Nordestino.

04 – Cada Vaqueiro participante receberá uma MEDALHA alusiva a data histórica.

05 – HOMENAGEADO: O saudoso Luiz Peixoto, o eterno vaqueiro de Lagoa Redonda, região sertaneja paraibana.

FONTE: http://www.caldeiraodochico.com.br/parque-cultural-o-rei-do-baiao-realiza-vi-fesmuza-regulamento/

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço: 
José Romero Araújo Cardoso

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Moção da SBEC

 Por: Wescley Rodrigues

Caros(as),

Segue em anexo a moção de apoio da SBEC em prol do restauro da casa grande do sítio Jacu.

Cordialmente

Prof. Wescley Rodrigues

Foto

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço: Wescley Rodrigues

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SBEC na luta pela Restauração da Casa de Chico Pereira


Esta é a casa do cangaceiro Chico Pereira



O cangaceiro Chico Pereira


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REGABOFE CANGACEIRO - I

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa


É de conhecimento generalizado que cangaceiro, ainda que diuturnamente convivendo com as mais difíceis situações, era sujeito zeloso e vaidoso. Demasiadamente cuidadoso com sua aparência, sim senhor. Tome-se como exemplo as vestes vistosas, os adornos coloridos, os apetrechos cuidadosamente bordados e costurados, sem falar no uso da brilhantina, do óleo de coco e dos perfumes e loções. E dizem que até importados.

No anseio de se mostrar ao mundo como pessoa de vida normal, feliz, contente, nos seus afazeres cotidianos de repouso e retomada de energia, aceitou de bom grado que o fotógrafo sírio-libanês Benjamin Abraão o registrasse quase que artisticamente. Fazia poses, fingia estar atirando, era retratado solitariamente ou em grupo. E nas fotografias um Lampião familiar ao lado de sua Maria e seu cão; o líder lendo a missiva talvez de um coronel importante; tomando conhecimento do prêmio de sua cabeça através de um jornal. Num dos retratos, Virgulino folheia uma revista com modelo em traje de banho. E, sem qualquer receio, mostra o que estava apreciando. E bem ao lado de sua Maria. Cangaceiro era assim, quase um artista.


Na verdade, cangaceiro era um espalhafatoso, gostava de aparecer, de causar uma imediata e aparatosa impressão. Que o medo acaso causado fosse por outro motivo, não pelo aspecto apresentado. As mãos que apertavam o gatilho para matar, que puxavam o punhal para sangrar e para afastar os garranchos e pontas de espinhos da caminhada, eram as mesmas mãos reluzentes dos anéis dourados se enfileirando nos dedos.

E um jeito assim vaidoso de ser não podia ser diferente quando se tratava do alimento. E é inegável que todo mundo quer se fartar do melhor. Mas neste ponto tinha de obedecer à fome e o que estivesse à disposição. O que não significa que abdicasse da escolha do melhor que pudesse ser encontrado na região onde estivesse de passagem ou de refúgio. Mas num sertão empobrecido, de pobreza reinando perante a maioria da população, fortuna quando encontrava uma criação ou uma mesa mais sortida.

Sertanejo, conhecedor e apreciador da cozinha matuta, um guloso pelas misturas e pedaços depreciados pelos sulistas, o cangaceiro só não comia do bom e do melhor se a ocasião só permitisse se contentar com um naco de carne seca e um punhado de farinha seca. E tantas vezes nem disso pôde dispor. Mas o seu intento era sempre ter um prato de alumínio transbordante de feijão de carne com carne de bode, só para citar uma das iguarias autenticamente nordestinas.

Apetitoso no seu regabofe, costumeiro esvaziador de prato de estanho e de qualquer prato. Mas, antes que esqueça, pelas bandas de cá nordestinas, ou sertanejas mesmo de chão rachado de sol, chama-se regabofe o alimento que dá sustança ao cabra. Pode ser uma buchada gorda de bode, um sarapatel apimentado, um mocotó suculento, mas também a perna de preá assada ou até mesmo a carne de palma refogada. Dependendo da fome e da situação, tudo é festança no bucho, na barriga esfomeada.

Por isso mesmo, todo esforço que se faça para citar quais os alimentos da mesa cangaceira, necessário será que se aponte quatro situações ou momentos diferenciados no seu regabofe, e tudo na dependência de onde e como estivesse. Porque a fome existia sempre, e acrescida pelo esforço físico, ainda que sem tempo para comer e ela ali judiando por dentro. Logicamente que o alimento colocado à disposição do coito não era o mesmo que o apressadamente engolido na caminhada pelas matarias.


Do mesmo modo, diferente era a comida de coito e aquela encomendada às pressas nas moradias sertanejas que fosse encontrando na caminhada. E mais diferente ainda era o farto alimento encontrado quando recebido como ilustre e importante visitante de um coronel ou outro poderoso qualquer. Quer dizer, o regabofe variava segundo o local e a situação onde estivesse.

Assim, foi dito que o alimento se diferenciava perante quatro situações. A primeira seria aquela cotidiana, da vivência no bando, saboreada no calor da caminhada ou do repouso na mataria; a segunda seria aquela servida com mais fartura, mais aprimorada, colocada à disposição quando bando se acoitava por mais tempo em determinado lugar; a terceira seria aquela encontrada pelas estradas, nas moradias sertanejas onde batesse à porta e ordenasse o preparo de urgente alimentação; e a quarta seria aquele regabofe mais faustoso, de lamber os beiços e repetir o prato, vez que saboreado na condição de convidado ou de ilustre visitante na residência de um portentoso senhor nordestino.

Continua...

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.


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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Convite - Lançamento em Cajazeiras - Paraíba

Caros(as) amigos(as),

Saudações cangaceiras!

No próximo dia 17 de julho, no auditório da Universidade Federal de Campina Grande, campus de Cajazeiras (Centro de Formação de Professores – CFP), às 09:00h,  será lançado o livro com as conferências e palestras proferidas no II Congresso Nacional do Cangaço que aconteceu em outubro de 2012 em Cajazeiras – PB.


Para quem não pode participar, essa é uma oportunidade de inteirar-se do que foi debatido. Em anexo encaminho os elementos pré-textuais do livro.



Abraços
Professor Wescley Rodrigues

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O admirável talento do escritor Rangel Alves da Costa

Por: Antonio José de Oliveira
Antonio José de Oliveira

Mendes, amigo:

Não sei onde o escritor e advogado Rangel Costa consegue tempo para constantemente nos trazer as informações de que tanto necessitamos para as nossas pesquisas.

Rangel Alves da Costa

Certamente é um cidadão ocupado na sua profissão de advogado, entretanto, pelo gosto que tem pela pesquisa, e em especial na área do cangaço, está sempre a nos proporcionar importantes artigos.


Parabéns ao Dr. Rangel e a você Mendes, que de boa vontade publica as matérias recebidas dos companheiros.

Antonio José de Oliveira
Povoado Bela Vista
Serrinha - Bahia.
Email:
antonioj.oliveira@yahoo.com.br


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Passagem do Pedro – São Sebastião – Sebastianópolis – Governador Dix-sept Rosado: Meu relicário sagrado

José Romero Araújo Cardoso (*)

Indubitavelmente há nítida ênfase em minha subjetividade à topofilia definida pelo geógrafo Yi-Fu-Tuan quando lembro de assuntos pertinentes ao despertar de identidade com a geografia humana do município norte-riograndense de Governador Dix-sept Rosado.

Foto
Governador Dix-sept Rosado

A fixação em minha memória da preparação dos plantios de alho e cebola às margens do rio Apodi-Mossoró, onde João Cruz possuía propriedade encravada entre as supracitadas glebas rurais, é imagem contida em minhas reminiscências de infância que o tempo não apaga.

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O alho teve importância econômica de destaque em Governador Dix-sept Rosado. Quando das colheitas, as estruturas do espaço urbano do município transformavam-se literalmente em locais de exposição de um dos principais produtos cultivados no lugar. Milhares de tranças de alho e cebola ficavam expostas aguardando compradores que não tardavam em aparecer.

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A Festa do Alho era bastante concorrida, culminando na coroação de uma rainha. Certamente nos dias de hoje apenas os mais velhos guardam as recordações de uma época marcada pelos festejos que assinalavam boas colheitas que resultavam em interessante poder aquisitivo para àquelas pessoas que se dedicavam ao artesanal feitio dos terraços com a areia do escoamento fluvial, destinados ao plantio de alho e cebola, o qual muitas vezes era consorciado com o cultivo de batata-doce.

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O velho trem que foi sonho de Ulrick Graf transportava alho e cebola para todos os recantos onde passava a linha férrea. A qualidade dos produtos fazia com que fossem disputados por exigentes
consumidores espalhados pelo país.

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Não alcancei o pleno funcionamento da extração de gipsita nas vossorocas da Espadilha ou pedreira, como era mais conhecida a região que abrigou a maior mina de gesso da América Latina, mas guardei na memória as histórias que Severino Cruz Cardoso me contava sobre o cotidiano da área de extrativismo onde a maioria das pessoas que lá residiam tratavam-se carinhosamente por primos, tendo em vista a origem comum destas através de vínculo genealógico com o português Jerônimo Ribeiro Rosado.

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Nessa época, conforme relato de diversos moradores da pedreira, era comum encontrar-se na caatinga grande quantidade de emas, bem como porcos-do-mato. Infelizmente essas espécies estão extintas devido à caça predatória e ao desmatamento intenso.

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Recordações daqueles tempos são profusas na memória de Raimundinho de tio Jerônimo Rosado Bandeira, pois ele viveu intensamente momentos gloriosos que marcaram profundamente as vidas dos habitantes da verdadeira comunidade familiar erguida sob a égide das tradições e dos valores da paraibanidade marcante que permeou a edificação dos elos de identidade, sobretudo àqueles referentes a Pombal (PB) e a Catolé do Rocha (PB).

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A caprino-ovinocultura é uma atividade pecuária tradicional em Governador Dix-sept Rosado. Tenho profunda gratidão a um eminente e respeitado cidadão de nome Fausto Martins, de saudosa memória, pois certa vez fez questão de separar diversas cabeças de criação de pequeno porte visando custear no futuro algo que precisasse em meus estudos.

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Nunca esqueci o sabor das groselhas cultivadas no quintal da residência do casal Nô Rosado Bandeira-Penha Formiga. A casa de Dona Santa Formiga, nora dos simpáticos pombalenses, sempre foi referência no que tange às visitas, tendo em vista o grau de amizade que sempre foi reverenciado, fruto da convivência e da afinidade do esposo  José Formiga com Severino Cruz Cardoso.

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Participei de várias e inesquecíveis Festas de São Sebastião. A residência de Lourenço Menandro Cruz localizava-se próxima à igreja dedicada ao santo católico martirizado em razão de sua conversão ao cristianismo. Em sentido diagonal, estava a morada de outro paraibano conhecido por Pedro do Alecrim, amigo de longas datas de toda família, onde sempre tive livre trânsito.
          
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No mercado, parada obrigatória a fim de colocar a conversa em dia, era praxe cumprimentar Leôncio Carlos, de saudosa memória, bem como Fernando aleijado, pois ambos foram amigos de longas datas de Severino Cruz Cardoso. A panelada preparada por Necí tornou o principal espaço de comercialização Dix-septiense uma referência para todos que cultuam as tradições da culinária sertaneja.

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A prosa de Chico Bacatela, homem de caráter, justo e honesto, sempre foi admirada por todos que o conhecem, pois em verdade esse grande sertanejo é um verdadeiro repositório da história do
lugar.
          
Sintetizo a importância de Governador Dix-sept Rosado em minha vida através da definição de que o lugar personifica relicário sagrado onde estão contidas lembranças marcantes de momentos felizes
ali vividos dos quais nunca hei de esquecer.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto da UERN.

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço: 
José Romero Araújo Cardoso

Parabéns para você, professor Romero Cardoso. Pensei que eu não iria consegui colocar o seu artigo no blog, como tem acontecido com materiais de outros colaboradores, pois ele anda muito sem graça. 

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PROJETO POESIA PERNAMBUCANA HOJE CONTEMPLA OBRA DO POETA VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


Com incentivo do Funcultura, o esperado volume I da antologia Poesia Pernambucana Hoje, será lançado no dia 19 de julho de 2013 (sexta-feira), no Centro Cultural Correios, no Recife, às 19h.

A série de antologias POESIA PERNAMBUCANA HOJE pretende ser uma espécie de guia para estudantes e demais leitores que querem incursionar pelo rico e vigoroso conjunto da atual poesia realizada em nosso Estado. Iniciamos a série com a obra de Vital Corrêa de Araújo, cujos poemas foram selecionados e organizados pelo também poeta e professor universitário Carlos Newton Júnior, que afirma, em seu prefácio: “Se nenhuma obra poética de qualidade – nenhuma obra de arte, diríamos melhor – pode ser dissecada friamente, como se faz a um cadáver, a poesia de Vital Corrêa de Araújo parece-nos, assim, não se submeter nem mesmo àquela serena e racional contemplação que se poderia ter diante de um ‘paciente anestesiado sobre a mesa’: deve ser perscrutado na sua dinâmica de organismo em movimento e permanente transformação, o que nos leva também à conclusão de que as afirmações sobre essa obra não podem nem sequer recender àquele perfume perigosamente agradável de coisa definitiva”.

VITAL CORRÊA DE ARAÚJO  Nasceu em Vertentes-PE (1945). Poeta, escritor, jornalista, auditor do tesouro, bacharel em Direito, com curso de História e Filosofia (estágio de administração tributária na Alemanha e especialização sindical na Venezuela), professor do curso médio, conferencista, tradutor, especialista em Jorge Luís Borges, ex-Presidente da UBE (União Brasileira de Escritores, membro das Academias de Letras do Recife e ALANE (Academia de Letras e Artes do Nordeste), Editor do Jornal O Monitor, de Garanhuns e das Revistas literárias PAPEL JORNAL e SINGULAR.

A publicação recebeu seleção, notas e prefácio do poeta e professor Carlos Newton Júnior; coordenação editorial de Adriano Marcena, produção executiva de Rogério Generoso e revisão de Neilton Limeira.

Lançamento:

Local: 
Centro Cultural Correios – Recife
Data: 
19 de julho de 2013 (sexta-feira)
Horário: 
19h
Preço do livro: 
R$ 20,00 


Incentivo: Funcultura, Fundarpe, SECULT e Governo de Pernambuco. 

Enviado pelo escritor: Adriano Marcena

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O SERTANEJO ANTES DE SE TORNAR CANGACEIRO - IV

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

O SERTANEJO ANTES DE SE TORNAR CANGACEIRO - IV 

Uma vez fixado no bando, sentido o primeiro espinho rasgando a pele, ouvido o primeiro zunido do fogo inimigo, outra vida não teria senão aquela. E que vida. Desconhecer o cansaço, a doença, a fome e a sede para seguir cada vez mais adiante por entre arvoredos cortantes, espinhos afiados, pedras talhantes e animais peçonhentos, na fuga apressada pela sobrevivência. Buscar refúgio no meio do mato ou no coito escondido, e ali dormir ao lado de mandacaru e xiquexique, ouvindo assustado o zunido da natureza, com um olho aberto e o outro fechado para que o de repente pudesse acontecer. Era a vida cangaceira.

Era também vida cangaceira a comida no meio do tempo, a cantoria dolente debaixo da lua, o proseado saudoso e desiludido, o namoro dentro das moitas, a espera do dia seguinte, porém sem saber até quando teria o dia seguinte. E a vida da luta intensa, da guerra desenfreada, dos repentinos confrontos, das armas pipocando sedentas de sangue, dos gritos de dor, das correrias. E também do silêncio das tantas mortes. Os corpos esquecidos no meio da refrega, dolorosamente deixados na correria. Ou a sepultura em terra rasa, no chão ressequido, tendo por cima uma cruz de galhagem de catingueira. E a vela da lua chorando seus mortos.


Raros eram os momentos de descanso mais intenso, raros eram os instantes de alegria e contentamento. Por isso que gostavam tanto quando deixavam as caatingas e seguiam rumo às fazendas, povoações e cidades, ainda que sempre mais perigoso. Seria muito arriscado, porém com outro mundo ao redor. Cangaceiro era cabra apreciador da cantoria, do xaxado, da festança ao ronco do “pé-de-bode”, da pinga boa e da fumaça do cigarro. Por isso que parecia estar noutro mundo quando tinham oportunidade de sentir-se “gente”.

Raríssimos eram os momentos assim, tudo acontecendo de surpresa e sem muito tempo para aproveitar. E um instante ou outro de desconcentração não modificava o contínuo estado de vigilância que deviam manter. Daí tudo ser tão angustiante, apreensivo, inquietante e doloroso, pois no instante seguinte o fogo já podia surgir adiante. Urge, então, indagar: Por que tantos filhos sertanejos optaram por essa vida de imensos sacrifícios e infinitos sofrimentos?

As respostas são difíceis, e certamente nunca estarão a contento com aquela realidade. Contudo, algumas observações podem ser feitas para tentar compreender como o sertanejo via o cangaço e como uma parcela optou por enveredar nas suas fileiras. Mas tal compreensão nem precisaria analisar tais aspectos em si, bastando procurar entender como era o sertanejo antes de se tornar cangaceiro. Visualizada tal situação se torna mais fácil saber por que o homem simples, violento ou não, rixoso ou vitimado, quase sempre jovem, muitas vezes empobrecido, um dia resolveu deixar a liberdade do tempo para se tornar prisioneiro da mata.

Mas como era aquele sertão onde o cangaço vingou, enraizou e percorreu distâncias? Em muitos aspectos, o mesmo sertão de hoje, sempre esquecido pelos governantes, relegado às esmolas de qualquer dia, sempre marcado pelos períodos de estiagens e secas prolongadas. Mas muito diferente noutros aspectos. A divisão social era tão visível quanto a fartura do latifúndio e o prato vazio do miserável; a justiça protegendo “os homens de bem” e a injustiça comandando as demais vidas; a certeza de que nascer pobre era viver num mundo de desesperança e dor.


Nas regiões mais afastadas, nas moradias distantes e esquecidas, a pobreza verdadeiramente se afeiçoava ao bicho do mato. Vivia entocada, sedenta e faminta, praticamente desconhecendo a realidade do mundo ao redor. Nos dias de feira, acaso o sertanejo se bandeasse para as povoações de saco nas costas em busca de adquirir qualquer coisa, logo tomava conhecimento daquela luta travada entre os bandidos e os mocinhos, entre os cangaceiros e as volantes. E tantas vezes já havia recebido a visita daqueles homens, já havia sido forçado a matar e entregar a carne fresca da única criação que possuía.

Por todo lugar não havia outro assunto que não aquela guerra sertaneja no meio do mato. Um dizia que o bando de Lampião estava nos arredores, outro afirmava que a polícia já estava no seu encalço; um defendia com unhas e dentes a luta cangaceira, já outro afirmava não passar de um monte de assassinos. Mas tudo radicalmente mudava quando, de repente, o Capitão e os seus cabras despontavam pelo caminho empoeirado do lugarejo. Então todo ódio se transformava em respeito e toda aceitação se transmudava em devoção. A maioria agia assim.

Havia medo sim, o temor imperava, muita gente perdia a fala, desmaiava, se escondia debaixo da cama ou simplesmente fugia desesperadamente pela janela ou porta dos fundos, numa correria desembestada, sem destino, por cima de tudo que encontrasse pela frente. Mas os que ficavam se sentiam verdadeiramente maravilhados com tudo aquilo que avistavam, com todos aqueles homens com suas vestimentas e armas, seus chapéus e seus brilhos dourados, seus olhos brilhando e correndo de canto a outro. O medo, mas também o fascínio; o espanto, mas também o deslumbramento. Não era só a fama, o ouvir dizer, mas a presença da cangaceirada e o imenso arrebatamento que provocava entre todos.

Desse modo, quisesse ou não, o bando de Lampião possuía indescritível atratividade entre os sertanejos. Para muitos, os cangaceiros eram tidos, comentados e avistados quase como seres míticos, de outro mundo. E se a ocasião lhes permitisse presenciar sua passagem ou estadia, certamente que as marcas do encanto se tornavam ainda maiores, ainda mais fortes. Daí que não é difícil perceber a força atrativa que o bando de Lampião exerceu sobre o sertanejo.

Do mesmo modo, e pelos motivos acima descritos, não é difícil compreender porque tantas meninas e meninos verdadeiramente se apaixonaram por aquela vida errante. Os meninos em busca de afirmação, de mostrar sua valentia, de experimentar outra realidade, de sair daquela vida difícil e de empobrecimento. E, pela idade, sem a exata consciência do que lhes esperava acaso fossem aceitos no bando.

As meninas, por sua vez, talvez vissem os homens encourados, cabeludos e cheios de adornos, como os atores novelescos da atualidade. Fascinadas, tomadas de encantamento, ficavam desejosas de serem olhadas por algum daqueles príncipes das caatingas. E quando se engraçavam e o cabra respondia o olhar, então não havia família que pudesse esconder sua cria, não havia como evitar que seguissem pelos caminhos da luta e do amor. Assim ocorreu nas povoações e nos casebres distantes. Muitas das mulheres do cangaço saíram ainda meninas de suas residências para se entregar aos braços quase sem tempo de amar.

O fascínio provocado pelo jeito de ser e pela vida cangaceira foi o que permitiu a sua existência por tanto tempo. Havia uma legião de meninos e meninas, sertanejos de todos os tipos e motivações, querendo seguir o mesmo destino, desejosa de entrar na mataria para servir ao grande Capitão. E quem seguiu jamais conseguiu esquecer. Mas pelos motivos dolorosos que todos conhecem.

Mas os bandos não eram formados apenas por fascinados e sonhadores, nem por jovens desiludidos ou empobrecidos. Muitos entravam nos grupos por outras motivações. Tinham em mente o que queriam, eram conscientes do que desejavam combater, conheciam a realidade que desejavam transformar. Entretanto, talvez não soubessem da impossibilidade de, apenas através das armas, mudar aquela realidade moldada pelo poder.


Um rapazinho de Poço Redondo, por exemplo, conhecido por Zé de Julião, era filho de família abastada, era alfabetizado, casado, e se vendo diante de tanta barbárie e atrocidades praticadas pelas forças policiais, de repente resolveu entrar no bando de Lampião e com ele levou sua esposa. Verdade é que não suportava mais ver a volante tirando à força a moeda do pobre, chantageando e usando da violência a cada passo. Testemunhou, por diversas vezes, seu pai ser extorquido por aqueles homens que diziam agir em nome da lei. Tudo isso rebentou um dia. Tinha de fazer alguma coisa para combater aquela situação.  E assim se tornou cangaceiro. Na caatinga foi apelidado de Cajazeira e a esposa continuou como Enedina.

Tal fato demonstra que não era apenas o encantamento e o fascínio que acabavam transformando meninos em cangaceiros, mas também a consciência de uma perversa situação existente e que precisava ser combatida. Se não havia a voz da lei nem da justiça, então que a luta cangaceira fosse meio de combater todos os absurdos praticados contra o humilde e pacato povo sertanejo. E de lutas e inglórias, eis a história. 

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.

Poeta e cronista
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II Grande Encontro da Família Xavier

Por: José Cícero

Na noite do sábado (13) aconteceu no hotel Verdes Vales na cidade de Juazeiro do Norte (CE) a abertura oficial do 2º Grande Encontro Nacional da Família Xavier, cuja gênese genealógica no Ceará remonta o longínquo ano de 1797 a partir do nascimento do patriarca coronel Francisco Xavier de Sousa (fundador ou co-fundador de Aurora) na vila de Aracati. Indo em seguida para Aurora (antiga Venda) e seus descendentes (Aristides Xavier) para Missão Velha, Crato e Ipueiras (em Serrita no Pernambuco) e de lá se espalhando para o resto do Brasil e o mundo.

"Foi um encontro dos mais memoráveis e alegres, ocasião em que várias gerações do clã Xavier se reencontraram para matar saudade, trocar ideias, debater amenidades e, mais uma vez, conhecer um pouco mais da sua própria história a partir do Cariri cearense", enfatizou o secretário de cultura de Aurora que igualmente participou do acontecimento como palestrante convidado.  

 
 Audízio Xavier
 Socorro Xavier e o relançamento de "A Saga da Ipueiras"

Uma verdadeira saga, na opinião de alguns historiadores presentes, tais como Dr. Napoleão Tavares Neves e  Socorro Cardoso Xavier, Lonny Sampaio e José Carlos Gentil.

A abertura aconteceu a partir de recepção da família, amigos e outros convidados. Seguida da apresentação de três palestras com os seguintes temas: 1º - "A origem da família Xavier de Aracati à Aurora no Ceará", proferida pelo secretário de cultura e Turismo de Aurora professor José Cícero. 2º - 'De Aurora ao sertão do Pernambuco' por Eimar Granjeiro Xavier e 3º - 'Família Xavier em crônicas Cangaceiras' por Dr. Napoleão Tavares Neves. 

 
Napoleão Tavares Neves
 José Cícero Silva

A programação do 1º dia constou ainda de: exibição  do documentário: "Causos e Acasos da família Xavier" por Audízio Xavier Almeida,; apresentação dos núcleos famílias por cidades residentes e lançamentos dos livros: Lagoa dos Cavalos de autoria de José Carlos Gentil - presidente da academia de letras de Brasília(ALB) e A Saga de um clã Xavier de Maria do Socorro Cardoso Xavier. Além de depoimentos e imagens  da estirpe Xavier, bem como do jantar de confraternização e muito forró de pé de serra com o sanfoneiro pernambucano Ciço do acordeom e sua banda.

Serão três dias de atividades programáticas festivas e culturais (13, 14 e 15) de Juazeiro do Norte, Barbalha, Exu e Ipueiras dos Xavier (PE). O III Encontro de 2014 segundo afirmou o organizador do evento Audízio Xavier está previsto para acontecer na cidade de Recife no Pernambuco. Além de representantes da verdadeira colônia Xavier de diversas partes do país e amigos e autoridades convidadas também participaram do evento. Por sinal, bem criativo, organizado e informativo.

José Cícero Silva
Fotos João Silva

NOTA CARIRI CANGAÇO: É com muita satisfação que abraçamos a todo o Clã Xavier na pessoa do companheiro Audízio Xavier, pelo brilhantismo do II Grande Encontro da Família Xavier; o Cariri Cangaço, representado por seus Conselheiros, Napoleão Tavares Neves e José Cícero, se une ao sentimento de preservação e resgate da memória de tão importante família. Que em 2014 possamos ter mais um grande momento Xavier.


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