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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

EM JARAMATAIA DE GARARU - Parte I

Por Nertan Macedo

"Acorda maria Bonita, acorda que o sol já raiou, acorda que os passarinhos estão fazendo ninho no teu bangalô..." - (Cantiga do povo do sertão).

Tanta certeza tinha o doutor capitão Eronides de Carvalho que, mais cedo ou mais tarde, haveria de encontrar Virgulino Lampião que tratou de se preparar para não ser tomado de surpresa.

Foto oficial do Governo Eronides. Acervo de Luís Rubens – Tok de História – Rostand Medeiros

Oficial médico do Exército, mais tarde governador eleito de Sergipe, convalescia o doutor na fazenda Jaramataia, em terras de Gararu, quando o Capitão apresentou-lhe, no raiar do dia, a exemplo do que costumava fazer em casa do coronel Antônio Caixeiro. Era o doutor Eronides, filho do velho casal de fazendeiros de Borda da Mata.

Antonio Caixeiro - Esta foto pertence ao acervo do pesquisador Kiko Monteiro - http://lampiaoaceso.blogspot.com

Corria agosto, madrugada fresca, nos campos de Jaramataia. As últimas sombras da noite abandonavam o espaço, quando o médico foi despertado por um portador.

- Doutor Eronides, o capitão Virgulino Lampião mandava avisar que vem fazer uma visita ao senhor.

- Pois diga a ele que venha. Estou às ordens.

Quinze minutos depois o Capitão apareceu em pessoa. Chegou montado, um cavalo magro, de bons arreios, o bando a pé atrás dele. O doutor aguardava-o no alpendre. 

Lampião demonstrou a distância e veio caminhando, sozinho, enquanto o grupo se detinha, cerca de uma vintena de cangaceiros. 

Estendeu a mão para o médico, dizendo:

- Bom dia, doutor. Eu sou o Capitão Virgulino Ferreira da Silva Lampião. Venho fazer uma visita de boa paz ao senhor.

O doutor sorriu ao cumprimento, indagando:

- Então como devo chamá-lo: capitão ou coronel? Porque eu também sou capitão e deve haver aqui uma hierarquia - como oficial do Exército nosso ser comandado pelo senhor...

Lampião compreendeu a malícia e replicou:

- Pois desde já o senhor está promovido a coronel.

- Assim está bem, Capitão. Mande o pessoal tomar chegada para um cafezinho e soltar o cavalo no pasto. 

Ezequiel Ferreira da Silva

A um gesto do chefe os homens foram se aproximando da casa grande de Jaramataia. Um deles era Ezequiel, irmão de Virgulino. Outro, seu cunhado Virgínio, homem de boas maneiras, cortês, o nariz afilado, moreno, bonito. Outro, seu cunhado Virgínio,

Virgínio Fortunato da Silva

homem de boas maneiras, cortês, o nariz afilado, moreno, bonito. Corisco, o de cabelos alourados, traços duros, modos insolentes.

Corisco

No alpendre sentaram-se pelo chão, respeitosos, à espera da comida. Um permaneceu no pátio, rifle embalado, de sentinela.

O hospedeiro falou:

- Capitão, mande recolher aquele homem, que ninguém virá aqui nos incomodar.

Virgulino atendeu, o homem sumiu do pátio, vindo juntar-se aos companheiros que conversavam baixo para não incomodar o doutor e o capitão.

Na cabeceira da mesa, posta para o café matinal, disse o doutor Eronides:

- Eu tinha tanta certeza de que, um dia, o senhor ia me aparecer, que até me lembrei de comprar um presente para a ocasião.

Virgulino mostrou-se surpreso. Parece mesmo não acreditar. 

O doutor chamou a empregada da casa, que tremia como vara verde. ordenando-lhe:

- Vá buscar os presentes do capitão Virgulino.

Dentro em pouco a moça retornava, trazendo um embrulho. O doutor desatou-o. Continha uma garrafa térmica e um queijo holandês.

E continuou:

- Lembrei-me de comprar essa garrafa em que o senhor pode conduzir café quente, para beber a qualquer hora do dia e da noite. E este queijo estrangeiro, muito caro e bom, que trouxe de Aracaju...

O visitante sorriu, enfim, satisfeito, constatando a verdade do que lhe dissera o médico. Agradeceu, solícito.

A essa altura um dos cangaceiros gemia, a um canto do alpendre.

- Que tem esse homem? perguntou o anfitrião.

- Dor de dente - informou Lampião, lacônico. - Há dias que não pode dormir.

Voltou-se o médico, novamente, para a empregada da casa:

- Vá buscar uma aspirina e um copo dágua e dê a esse homem. 

A moça voltou ao interior da casa e, reaparecendo no alpendre, com um comprimido e um copo dágua, passou-os ao cangaceiro doente

O médico pode então sentir a disciplina e a autoridade de Virgulino. Um lado do rosto inchado, o cabra ficou segurando o remédio e a água, sem coragem para ingeri-los. Seus olhos, desconfiados, inquiridores, procuravam, ansiosos, os do Capitão. Quando com os dele se cruzaram, um leve aceno de cabeça fez sentir ao cangaceiro que podia tomar a "receita", o que logo foi feito.

CONTINUA AMANHÃ

Fonte: Capitão Virgulino Ferreira: LAMPIÃO
Autor: Nertan Macêdo
Edições o Cruzeiro - Rio de Janeiro - 1970

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RELEASE ROSIL CAVALCANTI


Caríssimo(a)s.

Será hoje, em Campina Grande, que Rômulo Nóbrega e José Batista convidam todo(a)s PRA DANÇAR E XAXAR NA PARAÍBA, no lançamento do livro biografia de ROSIL CAVALCANTI.

Vejam capa e release anexos.

Quem, que nem eu por motivos de trabalho, não puder estar presente  ao lançamento, poderá solicitar seu exemplar a um dos autores, pelo e-mail abaixo:

Rômulo Nóbrega <romulocn@gmail.com>

Terão informações de preço (livro+taxa dos correios) e forma de pagamento.

Saudações musicais a todo(a)s. 

DIVULGAÇÃO

PRA DANÇAR E XAXAR NA PARAÍBA

Biografia do genial compositor Rosil Cavalcanti de Sebastiana é lançada no ano do seu centenário de nascimento, em 2015

Radialista, humorista, percussionista, renomado compositor pernambucano, radicado na Paraíba, autor de obras clássicas da música popular brasileira de todos os tempos, na voz de Jackson do Pandeiro, Marinês e Luiz Gonzaga, e outros intérpretes nacionais, o compositor Rosil Cavalcanti tem, finalmente, a sua biografia publicada neste ano de 2015 do seu centenário de seu nascimento, 47 anos depois de sua morte, em 1968, aos 53 anos de idade, em Campina Grande, onde vive a maior parte de sua vida e se projeta no Brasil.

O livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba: Andanças de Rosil Cavalcanti, da dupla de autores Rômulo Nóbrega e José Batista Alves, prefácio de Agnello Amorim, 444 páginas, editado gráfica Marcone, vai ser lançado neste dia 1º de outubro, 20h00, quinta-feira, custa R$ 50,00, no clube do Sesi – antigo BNB Clube – no bairro do Catolé, em Campina Grande (PB), com a presença de jornalistas, autoridades, artistas, pesquisadores e admiradores em geral do imortal radialista e compositor. O ex-governador de Pernambuco Joaquim Francisco Cavalcanti, primo do biografado, autor do posfácio do livro, representa a família Cavalcanti no lançamento.

A obra inicia com a morte prematura do compositor, em 1968, no auge do sucesso, aos 53 anos de idade, comovendo Campina Grande e o Nordeste, prosseguindo, cronologicamente, o minucioso relato da vida e obra de Rosil de Assis Cavalcanti. Nascido em 20 de dezembro de 1915, no engenho Zabelê, no atual município de Macaparana (PE), desde a infância e juventude participa das moagens de cana, fabrico de rapadura, de açúcar, cachaça, ouve estórias do povo, as cantadeiras de novenas, emboladores de coco, violeiros, participa de sambas (forrós).

Em sua adolescência estuda nos melhores colégios recifenses, nos anos de 1930, destacando-se nas atividades artísticas e no jeito brincalhão e espirituoso. Anos depois ingressa no 22º Batalhão de Caçadores do Exército, em João Pessoa (PB), onde permanece durante nove meses. Rosil assume emprego público em Aracaju (SE), em 1937, no setor à agricultura, onde atua na vida esportiva (vôlei, atletismo) e na vida artística da cidade, participando de programa de variedades em dupla caipira parodiando um turco. 

Desde 1941, exerce a atividade de classificador de algodão na Paraíba, onde realiza as primeiras investidas na Rádio Tabajara, de João Pessoa, cantado e improvisando emboladas. Em período de estágio em Fortaleza (CE), de classificador de algodão, Rosil Cavalcanti envolve-se com o meio artístico da cidade, atuando como percussionista do conjunto Os Vocalistas Tropicais.

De volta a João Pessoa, retoma o emprego e a atuar na Rádio Tabajara, onde o seu primeiro frevo-canção, Assunto Novo, é orquestrado pelo maestro da banda Jazz Tabajara, Severino Araújo. Entre músicos e cantores do time da famosa emissora paraibana desse tempo (1947), o percussionista Jackson do Pandeiro, com quem Rosil Cavalcanti estreou a dupla caipira-humorista Café com Leite, se consagrando no teatro de variedades da emissora.

É transferido para a cidade de Pombal (PB), em 1947, para dirigir o posto de fiscalização de produtos agropecuários local. Finda sendo contratado de uma grande indústria de óleo de oiticica (BOSA), onde participa ativamente da vida social e artística pombalense, animando festas no clube da empresa, atuando na difusora de alto-falantes Tupã, exibindo música, noticiário, e se envolvendo nas contendas políticas, o motivo da agressão sofrida, e a razão da mudança do casal Rosil-Nevinha para Campina Grande (1950).

Rosil Cavalcanti logo se integra ao meio radiofônico campinense, mantendo programas “quentes efervescentes, polêmicos”, isto durante dezoito anos até sua morte (1968), tanto na Rádio Cariri, Forró de Zé Lagoa; como na Rádio Caturité, Zum Zum da Cidade, Radar; principalmente na Rádio Borborema, a Escolinha do Nicolau, a segunda fase do Forró de Zé Lagoa. Devido a atuação corajosa nesses programas, Rosil sofreu desafetos de políticos, autoridade policial, até de vereadores, mas o seu personagem Capitão Zé Lagoa agradava enorme público regional ouvinte.

“Cômico e crítico [Rosil Cavalcanti], ora estava fazendo o povo rir, cantar, brincar, dançar, ora provocando polêmicas, denunciando situações erradas, dando suas opiniões, fazendo seus comentários como âncora, algo inusitado para a época”, consideram os autores do livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba.

O seu mais famoso programa, o Forró do Capitão Zé Lagoa, criado, animado, responsabilizado e apresentado por Rosil Cavalcanti, na Rádio Borborema, foi ao ar até um dia antes de sua morte (1968), com enorme audiência na Região Nordeste, repleto de personagens, misturando humorismo, notícias de utilidade pública, poemas, canções nordestinas, improvisos, dialogando com o ouvinte rural, em linguagem simples, misturando improvisos e piadas.

Rosil Cavalcanti cria o conjunto musical o Forró de Zé Lagoa, com variada formação de instrumentistas nos anos, participando do programa na Rádio Borborema, se apresentando em festas juninas, clubes e turnês pela Paraíba.

“O livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba tem como foco Rosil Cavalcanti, no entanto abrange personagens que estiveram ao seu lado compondo, tocando, cantando, caçando e até mesmo fazendo raiva, levando ele a explodir. Pessoas com valores inestimáveis e quase na totalidade no anonimato, a maioria artistas locais que agora levamos à tona ao lado do biografado, fazendo assim justo reconhecimento”, escreve Rômulo Nóbrega na Apresentação do livro.  

O compositor de Jackson do Pandeiro, Marinês e Luiz Gonzaga

O convívio de Rosil Cavalcanti com o meio artístico nacional, através da poderosa Rádio Borborema (muitos astros da época se apresentavam no auditório da emissora) favorece a sua projeção como compositor, desde o ano de 1953, quando a acordeonista Dilú Melo vem em a Campina Grande, a quem ele entrega as músicas Meu Cariri e Sebastiana. A primeira gravada pela cantora Ademilde Fonseca, com a intromissão indevida de autoria da acordeonista, para a fúria do verdadeiro autor Rosil. A segunda obra seria lançada por Jackson do Pandeiro, logo se tornando sucesso nacional.

Daí em diante, Rosil Cavalcanti se consagra autor e coautor de muitos sucessos na voz de Jackson do Pandeiro e outros intérpretes famosos. Além de Sebastiana, Boi Brabo, Moxotó, Coco do Norte, Cabo Tenório, Coco Social, Quadro Negro, Na Base da Chinela, Forró do Zé Lagoa.

A cantora Marinês teria o seu destino artístico selado graças às obras de Rosil Cavalcanti, inspiradas no drama da seca – Meu Cariri, Aquarela Nordestina.

O compositor participa tardiamente da discografia de Luiz Gonzaga, na década de 1960, com vários grandes sucessos, Ô Veio Macho, Festa do Milho, Amigo Velho, e a toada clássica Tropeiros da Borborema, Aquarela Nordestina.

Muitos outros artistas de todo Brasil gravaram as músicas de Rosil, entre eles, Genival Lacerda, Zé Calixto, Gal Costa, Trio Nordestino, Teixeirinha, Elba Ramalho e outros intérpretes. (Xico Nóbrega).

Rica iconografia

O livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba, 444 páginas, é enriquecido com vasta iconografia do biografado, suas fotos desde a infância, juventude, a vida de casado, em programa de rádio no papel do famoso personagem Capitão Zé Lagoa, além de imagens de Rosil com colegas de trabalho, artistas, músicos, suas caçadas e pescarias, capas e selos de discos. Toda essa iconografia bem identificada e datada (XN)

Dona Nevinha

Rosil Cavalcanti tem grande amor de sua vida na paraibana Maria das Neves Coura (Nevinha), com quem se casa (1948), e convivem vinte anos, sem filhos, e com quem trocou vasta correspondência de namorados e noivos, boa parte compondo o livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba. (XN)

Curiosidades

A formação original da dupla Café com Leite, Jackson do Pandeiro e Zé Lacerda (irmão do cantor Genival Lacerda se dera em Campina Grande.

Rosil teve como hobby a vida inteira caçar e pescar, sobretudo na região do Cariri paraibano, donde extraiu motivação para compor obras como Meu Cariri e Aquarela Nordestina.

Generoso, temperamental, irascível quando contrariado, até mesmo por um animal ele, embora explosivo, logo se arrependia, não raro chorando.

O personagem Zé Lagoa, que deu nome ao seu famoso programa de rádio, existiu de fato, era o feitor de cachaça do engenho do pai de Rosil.

Para aumentar a suas parcas rendas, o salário do emprego público e o ganho com publicidade no rádio, Rosil chegou a possuir um fiteiro.

Houve uma composição de Rosil Cavalcanti – Hotel de Zeferino – nunca gravada, cujo disco foi quebrado em quadro do programa de televisão de Flávio Cavalcante, por se referir à mulher “pilantra e vigarista”.

A toada Tropeiros da Borborema é uma homenagem ao centenário de Campina Grande (PB), em 1964. O autor da letra é advogado, poeta, tribuno e homem público Raimundo Asfora, embora o seu nome não figure no selo do disco.

(XN)

Os autores do livro

Os autores de Pra Dançar e Xaxar na Paraíba, um é paraibano de Campina Grande (Rômulo Nóbrega), o outro pernambucano do Recife (José Batista Alves). O primeiro ex-funcionário do Banco do Brasil, hoje empresário do ramo de cortinados. O segundo funcionário da Prefeitura recifense. Ambos casados, pais de famílias, pesquisadores e colecionadores natos da música popular brasileira de origem nordestina. Zé Batista é a maior autoridade brasileira em discografia de Luiz Gonzaga, Rei do Baião.

Os autores do livro Rômulo Nóbrega e José Batista Alves consultaram inúmeros arquivos públicos e privados, do Ceará ao Rio Grande do Sul, e entrevistaram dezenas de personagens que participaram de algum modo da vida de Rosil, a exemplo das cantoras Dilú Melo, Ademilde Fonseca, e muitos outros músicos e cantores.  (XN)

*Locais - Personagens - Afins de Rosil em Campina: o prédio da Rádio Borborema, no Calçadão, o local da casa onde ele morou – enfrente ao antigo Posto Futurama - os Clubes que ele freqüentou: Caçadores, Ypiranga. O seu tumulo no Monte Santo. Ainda há personagens seus contemporâneos do programa e do conjunto Forró de Zé Lagoa: Ari Rodrigues, Duduta, Severino Medeiros, e outros. Enfim o cantor Biliu de Campina é o grande intérprete das obras de Rosil Cavalcanti gravadas por Jackson do Pandeiro.

Enviado pelo poeta, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano Kydelmir Dantas.

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O MAIS NOVO LIVRO DO ESCRITOR SABINO BASSETTI - LAMPIÃO O CANGAÇO E SEUS SEGREDOS


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SURGE SINHÔ, O MAIOR DOS PEREIRAS, NO CANGAÇO

Por Manoel Severo

O ano é 1915 quando vamos encontrar Né Dadu, retornando da cidade de Triunfo após ser absolvido de crime de morte de João Jovino. Naqueles dias uma volante se formava para capturar um dos maiores desafetos da família Carvalho. Sob o comando do Tenente Teófanes Ferraz Torres e contando ainda com os Carvalho: Antonio e José da Umburana e João Lucas das Piranhas, atacam São Francisco , mas não encontram Né Dadu, espancando fortemente uma negra de nome Antonia Verônica, governanta do lugar, conhecida por “Mãe Preta” e prendem o mais novo dos filhos de D. Constança, irmão de Né Dadu: Sebastião Pereira, então com 16 anos.

Sinhô Pereira, sentado e Luiz Padre, de pé

A represália dos Pereira veio logo em seguida, quando é morto José da Umburana em emboscada de Vicente de Marina, o morticínio continua desta feita mais um Pereira tomba, Né Dadu morre em 16 de Outubro de 1916, vítima de covarde traição de um ex-cabra dos Carvalho, Zé Rodrigues, Zé Grande ou simplesmente “Zé Palmeira” que o matou com seu próprio rifle no lugar Poço do Amolar, na fazenda Serrinha. Esse caboclo Zé Palmeira havia se aproximado de Né Dadu após ardilosa trama traçada pelos próprios Carvalhos, simulando o rompimento do referido cabra com a família inimiga. Apesar de Atento e desconfiado Né Dadu acabou sendo ludibriado pelo audacioso golpe e acabaria sendo vítima fatal do mesmo.

A morte do irmão empurrou definitivamente o mais jovem da família para o mundo do crime, nascia ali aquele que seria o mais valente de todos os cangaceiros, segundo o próprio Virgulino Ferreira: Sebastião Pereira, vulgo Sinhô Pereira.
  
 Sinhô Pereira em foto da década de 70

Partindo na sanha da formação de seu grupo, Sebastião Pereira partiu em busca do Coronel Zé Inácio, do Barro, conhecido coiteiro e protetor de bandidos, dali saiu com um grupo de 20 cabras, tendo como seu lugar tenente seu primo, Luiz Padre, rumo a Vila Bela, no Vale do Pajeú.

Invadindo São Francisco, depredou e queimou a loja de Antonio da Umburana e tomou a pequena vila, partindo dali para as fazendas dos Carvalho, Umburanas e Piranhas, depredando, queimando, matando animais, destruindo cercas, arrasando tudo. Os Carvalhos diante de tanta fúria se retiraram para a cidade, finalizando assim a primeira grande investida do grande cangaceiro.

Sobre a eterna peleja entre os clãs vamos ter o episódio da invasão à fazenda Piranhas, narrado por inquérito na própria delegacia de Vila Bela, como segue: “... no dia 1º corrente apresentaram-se voluntariamente a prisão os indivíduos José Alves de Barros e José de tal conhecido por José Caboclo e Francisco Alves de Barros, Cincinato Nunes de Barros, Antonio Carvalho de Barros, conhecido por Antonio da Umburana, Antonio Alves Frazão, José André, Feliciano de tal, João Ferreira, Francisco Porphirio, Antonio Teixeira, Antonio Pedro da Costa Neto, Antonio Pequeno, José Flor e João Tapia todos denunciados neste município como incursos no artigo 294 por terem morto ao cangaceiro Paixão na ocasião em que os mesmos se defendiam do ataque feito a fazenda Piranhas pelo grupo chefiado por Sebastião Pereira e Luiz Padre dos qual fazia parte o referido Paixão (Informe ao Chefe de Polícia pelo delegado de Vila Bela, 5/9/17).

Algum tempo depois Sebastião Pereira mataria o assassino de seu irmão Né Dadu, o indivíduo Palmeira, na localidade de Viçosa em Alagoas, tendo Luiz Padre sangrado o matador de seu pai Padre Pereira, Luis de França, em São João do Barro Vermelho. Em outra oportunidade na localidade de Queixada, sob a proteção do Coronel Pedro da Luz, acabou encontrando Antonio da Umburana que foi sangrado, esquartejado e queimado, assim se configurava a vingança dos primos, Sebastião e Luis Padre.

http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2012/08/surge-sinho-o-maior-dos-pereiras-no.html

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

NOITES DE LOBISOMENS

Por Rangel Alves da Costa*

Conta a tradição popular que os lobisomens surgem das transformações humanas em bichos. Não são pessoas mortas que voltam em forma de lobos gigantes, cachorros disformes, animais asquerosos, mas pessoas vivas recheadas de maldade no coração e pecados terrenos e que acabam sendo penalizadas com a medonha transmudação, principalmente em noites santificadas. E assim porque surgem mais no período da semana santa, a chamada quaresma.

Nas noites assim, medonhamente escurecidas, cujos labirintos avançam sobre as cidades e quintais, é que os horrendos visitantes surgem para amedrontar e até querer avançar sobre as pessoas indefesas. Nos sertões nordestinos, onde tais fatos se propagam como verdades, não é difícil ouvir causos e mais causos sobre os lobisomens. Contam sobre o homem que bateu a mãe e foi sentenciando a se tornar em bicho de olhos de fogo da quarta-feira de cinzas até a madrugada da sexta-feira santa, surgindo sempre horripilante nas noites fechadas. Dizem também sobre o padre que jamais era encontrado nas noites da quaresma. E assim porque estava sentenciado a se transmudar em lobo com cabeça de cachorro uivante pelos seus pecados terrenos. Ora, o vigário tinha mais de vinte filhos sem reconhecer nenhum.

Por isso mesmo que as noites escuras sertanejas se transformam em paisagens de aflição nos períodos quaresmais. As pessoas não saem nos quintais, não enveredam pelos caminhos escuros, não abrem as portas dos fundos. Pelo contrário, se lançam às orações, aos apegos divinos, aos pedidos para que as medonhas aberrações de repente não apareçam pelos arredores. O Velho Titió, ele mesmo acusado de se transformar em lobisomem, contava como se dava a transmudação, mas o fazia sempre jurando que tinha ouvido tal história de um sertanejo bem mais antigo. Dizia o velho pecador:


“Segundo me contou o Veio Filismino, todo aquele que vira lobisomem pode ser reconhecido quando a semana santa se aproxima. Ele sabe o padecimento que vai passar e se torna noutro homem. Quem olhar bem pra o cabra logo vai perceber que já possui o olho muito mais afogueado, parece que vai babar a qualquer momento, não para quieto num canto, se coça e se pinica todo como se tivesse em riba de formigueiro. Começa a dizer coisa com coisa, parece rosnar sozinho, não para quieto num canto de jeito nenhum. A todo o momento olha pra cima pra ver se o sol já está descambando e quando a boca da noite chega é um deus nos acuda. Quando o tempo escurece mais o cabra o cabra some de vez. Ninguém sabe onde ele foi parar, mas eu sei. Gente que vira lobisomem já tem lugar certo para a transformação. No meio do mato, sabendo que a qualquer momento o corpo pode começar a se transformar, então faz uma cama de capim, no meio do escondido, e ali se deita até tudo acontecer. Daí em diante se abate de sofrimento e rola de canto a outro, urrando, uivando, esperneando, até pular no meio do tempo como o bicho mais feio do mundo. Então vai para as estradas escuras, em meio aos labirintos, quintais e malhadas das casas, onde começa a fazer estripulia com que avista ou passa. Quem quiser conhecer a cama de lobisomem basta procurar nos roçados, onde houver capim machucado, estendido pelo chão, então foi ali que o cabra se deitou esperando o pior acontecer. E é assim que sempre acontece”.

Tais fatos, pois, acontecem no período da quaresma de noites mais negras, mais escurecidas, mais misteriosas. Nos rincões distantes, nos casebres solitários, nas fazendas e pequenas propriedades, as portas e janelas das casas são fechadas ainda no entardecer. E outra motivação não há senão pelo medo dos lobisomens e suas assustadoras aparições. Até mesmo nos centros urbanos há um temor desenfreado de que a qualquer momento um bicho feio, de língua de fogo e garras imensas, seja avistado nos quintais.

Há quem jure por tudo na vida que já encontrou com lobisomem, relatando ainda ser a experiência mais medonha que lhe aconteceu. Não há retrato nem nada que possa comprovar, mas não se pode negar o que estranhamente se ouve nas noites matutas. São uivos, lamentos, gritos medonhos. De onde vêm tais uivos ninguém sabe dizer. A única certeza é de jamais se esquecer do rosário, da imagem santa, do frasquinho com água benta.

Mas também contam a história de uma solteirona que vivia contando os dias para que chegasse logo a semana santa e com ela os lobisomens. Guardava alfazemas e lavandas especiais para o período e se enchia toda de sibiteza quando alguém perguntava se já havia preparado água santa e cruz benta para colocar atrás das portas e janelas. Então dizia que era calorenta demais para fechar qualquer coisa e que também gostava de uivar noite adentro e madrugada afora. E, por falta de homem, o jeito era lobisomem mesmo.

E no outro dia aparecia lanhada e com marcas avermelhadas pelo corpo. Mas sempre feliz e cantante, só faltando mesmo apressar as horas para a noite chegar. Noites de mistérios, lobisomens e outros uivos.

Poeta e cronista
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COMPREENDER O CANGAÇO


"Estudar o fenômeno do Cangaço não significa fazer apologia ao crime, é necessário compreendê-lo."

Narciso Dias

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MADE IN COLUNA DO AMIGO EMERY COSTA NO JORNAL O MOSSOROENSE: DAVID LEITE

Por Ricardo Borges

Presentemente em Salamanca, na Espanha, nosso conterrâneo David de Medeiros Leite acaba de confirmar presença no Décimo Oitavo Encontro de Poetas Íbero-Americanos nos dias 7 e 8 de outubro vindouros. 

Espanha

Dos poetas brasileiros participantes: um gaúcho, um paulista e três potiguares, dentre eles, David De Medeiros Leite.

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UM VALENTE CANGACEIRO ATÉ NA HORA DE MORRER


Você já reconheceu a figura? É o cangaceiro Juriti, valente até na hora de morrer. 

Esta foto foi "batida" em 1940 na cidade de Salvador, quando o ex cangaceiro "Jurity" já em liberdade após um ano e meio de ter se entregado à polícia foi visitar os velhos companheiros, cangaceiros do bando de "Labareda", que estavam detidos após as ultimas entregas. 

Compare com  a sua figura na época do cangaço em foto de 1936.


Este material foi publicado no http://cangaconabahia.blogspot.com do professor e pesquisador do cangaço Rubens Antonio. Também foi publicado no http://lampiaoaceso.blogspot.com do pesquisador Kiko Monteiro.

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MARIA DA CONCEIÇÃO COMPANHEIRA DO CANGACEIRO “FERRUGEM”.


MARIA DA CONCEIÇÃO COMPANHEIRA DO CANGACEIRO “FERRUGEM”.

Presa no ano de 1932 pelas Forças Volantes atuantes no interior do Estado da Bahia.

Interrogada sobre o paradeiro de seu companheiro, o cangaceiro Ferrugem integrante do bando de Lampião, Maria da Conceição foi categórica e direta ao afirmar que sobre o paradeiro e as proezas de seu companheiro, somente ele poderia responder.

Fechando-se na sequência em silêncio sepulcral. Após a prisão foi conduzida para a Salvador/BA.

Fonte: facebook

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EIS O QUE RESTOU DO CANGAÇO

Material do acervo do pesquisador Antonio Corrêa Sobrinho

Encontro histórico de ex-cangaceiros e presenças especiais da filha e neta do famoso Virgulino Lampião, Expedida e Vera Ferreira, promovido pela escritora Christina Matta Machado, autora de “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, que “o Estado de São Paulo” trouxe a lume nas edições de 18 e 19 de outubro de 1969.


EIS O QUE RESTOU DO CANGAÇO

“Sila saiu correndo, agachada. Uma bala acertou a cabeça de outra molher, espirrou miolo no vestido de Sila; maldade, ela só tinha 15 anos. Depois, foi munto tiroteiro, finado seo Rastejador também morreu. Vi Lampião pondo sangue pela boca. Um dia, resolvemos entregar, cangaço acabou, mas só acabou mercê da traição de cangaceiros que ajudaram as Volante, contavam os pontos da gente”. Balão ajeita a gravata, no aeroporto de Congonhas. Ele, cangaceiro do bando de Lampião, hoje batedor de estacas para fundações de prédios, está com os companheiros esperando dona Expedita, filha de Lampião, Vera, neta do cangaceiro, e mais Labareda e Saracura. Todos vão reunir-se em São Paulo para o lançamento de “As táticas de guerra dos cangaceiros”, de Christina Matta Machado.

O livro vai ser lançado dia 24, a partir das 16 horas, na Aliança Francesa, rua General Jardim, 172.

Saudade – Quando o cangaço acabou e o governo deu anistia, a Polícia separou os cangaceiros: cada um teve que ir para um lado. Faz muito tempo que vários moram em São Paulo, mas não sabiam. Só quando Christina começou a procurá-los é que eles ficaram sabendo dos velhos companheiros, puderam se reunir para relembrar os causos de então. Ontem, em Congonhas, estavam vários deles, esperando os outros. Estava Marinheiro, um ano de cangaço, hoje funcionário da Caixa Econômica Estadual; estava Pitombeira, 3 anos de bando, entrou para não ser morto pela Polícia, hoje funcionário da Prefeitura. Estava também Criança, 7 anos de lutas, a glória de enfrentar sozinho, por duas horas, a Volante, para deixar o bando escapar. Criança, hoje, vende tomate como ambulante.

Em Congonhas estava também Sila, mulher de Zé Sereno que não pode ir (está com a perna engessada) e estava Dadá, apoiada na muleta. Sua perna direita ficou no sertão, crivada de balas de metralhadora, da mesma arma que matou seu marido, Corisco, que ela atentava defender. Estava em Congonhas o Balão, acompanhado de cinco de seus 8 filhos e contando para todo mundo que até hoje é solteiro. Balão, alegria do bando, tocador de sanfona, o mais valente de todos, mostrou ontem que não mudou. Ele foi piadas o tempo todo, mesmo quando tirou os sapatos e a meia por causa de um ferimento no pé que “tá ameaçando arruinar”.

Visitas – Até o dia 24, os cangaceiros vão visitar São Paulo, conhecer coisas novas, principalmente os que vieram de longe que a Varig trouxe de Sergipe e Alagoas. Ele irão ao Ibirapuera, a cinemas, restaurantes, serão entrevistados e aguentarão as luzes fortes da televisão, e queiram ou não vão acabar entendendo que hoje eles são gente importante, que apesar dos crimes que cometeram e talvez mesmo apenas por isso, eles passaram a ser história, são uma página da vida do Brasil.

Para contar a história do cangaço, Christina viajou quase todo o Nordeste, pesquisou em 34 municípios e se tornou amiga daqueles homens. Com os dados que colheu, escreveu o livro e vai defender tese em História, sob o tema “Cangaço, aspectos socioeconômicos”.

MORRER APANHANDO OU SER CANGACEIRO

Embora arrependidos de terem sido cangaceiros, os cabras de Lampião dizem que não havia saída. Balão conta que a Polícia batia em todo mundo, para que contasse o paradeiro do bandido, muitas vezes, matava. Um companheiro dele teve que servir de cavalo para um soldado com esporas. Por isso, “quem não queria morrer apanhando tinha que ir para o cangaço”. Balão, entretanto, foi para o sertão por outro motivo. Engraçou-se – diz ele – com uma menina amiga de Lampião e alguns homens do bando quiseram matá-lo; ele fugiu com outro grupo e, depois, quando esse se uniu com o de Lampião, “a intriga foi esquecida”.

Pitombeira fugiu porque um irmão e um “primo carnal” foram mortos pela Polícia, que tentava fazer com que contassem onde estava Lampião. Ele ia ser morto também e fugiu.

O final – Para todos, o fim do cangaço foi a morte de Lampião, o líder que teve até 260 homens sob suas ordens. Quando ele morreu, o bando que chefiava tinha 36 e 11 ficaram “naquela jornada”. Havia muitos antigos colegas que ajudavam a Polícia e, por isso, fugiram todos para Sergipe, estado amigo, para combinar a “entregação ao governo”.

Balão conta como foi a fuga, “a volante matou Lampião, tive tempo só de pegar embornal de subsistência e de bala e quando a metralhadora engasgou passei no meio dos macacos, fugi. O Presidente tinha espalhado aviso em toda fazenda, para entregar, que ele garantia a vida. Fomos para Sergipe e resolvemos – Juriti, Criança, Marinheiro, Pitombeira, eu – arriscar olho e mandamos avisar o cabo Miguel da volante, que viesse conversar, com três soldados, fuzil de boca para baixo. Ele veio, ficamos amigos, mas 300 praças de outra polícia cercaram o bando, tivemos que fugir para a fazenda Cuiabá, onde dançamos com a volante e bebemos oito dias sem parar. O capitão Aníbal, que trazia a ordem do governo, mandou fechar os portos das Alagoas, para que a polícia que queria matar a gente não entrasse em Sergipe”.

O caminho – “Começou então o caminho da entrega. Mas era duro, tinha tropa do capitão Aníbal, amiga, garantia a vida, tinha a tropa inimiga, queria matar a gente. Fomos ao Araticum, a Porto da folha, a Monte Belo, mas, quando cheguei no Caveira, mataram quatro cabras meus. Foi traição dos sergipanos e tivemos que brigar ainda no Pinhão. Só conseguimos achar o capitão Aníbal em Serra Negra, para entregar as armas. Não, ninguém foi preso, a gente ficava no quartel só na hora da troca de expediente e todos entregamos por livre e espontânea vontade. Cada dia chegava mais cangaceiros. Poucos foram mortos, como Juriti, na faca, quando era guarda-freio e estava regenerado. Depois, cada um foi para um lado, ninguém viu mais ninguém. Eu, fé em Deus, sou muito feliz.”

Ideologia – É Pitombeira quem fala, muito sério: “Hoje falam de subversivo, dizem que a gente era guerrilheiro, socialista; não era não. Nós só queríamos o bem, andar longe da Polícia, só atirava quando atacado e matava muito, muito menos do que o cinema tenta contar em filme de cangaceiro. Nós não fazíamos maldade com sertanejo, tinha que viver sem ódio no coração, tinha que ser amigo de todo mundo, se não estava perdido.

É, é verdade que quando não davam o que a gente pedia, tinha que tirar à força, mas não era comum. História de usar banha de gente para lubrificar parabelo, mentira é que é. Nunca faltou o óleo nem a lixa para tirar ferrugem. Arma também tinha muita, os fazendeiros davam, se não nós perseguíamos. Tinha fuzil, mosquetão, rifle, parabelo, mauser, tudo calibre grande, 7 milímetros, 30, 38. A gente atirava no ombro, apertando bem para não dar tranco ou, quando a coisa apertava, apoiava no braço, mas muito raro atirar de cima do cavalo. As balas, também, não ficavam, furou meu braço aqui, a perna do Balão, o ombro do Marinheiro, mas era bala boa, de fuzil, entreva e saia do outro lado, tudo bala bonita, de aço, niquelada”.

- “Mas esse tempo passou, hoje é diferente, vivo com a família em São Paulo, faço economia, gasto muito pouco, tenho três casinhas aqui.”

PAULO AFONSO, A MORTE DO SERTÃO

Faz alguns anos, Pitombeira voltou ao sertão. Hoje, ele não reconhece mais aquilo, nada é como onde nasceu.

“Paulo Afonso, a usina, ela matou o sertão. Hoje, não teria mais cangaço nem guerrilha, nem nada. A Usina de Paulo Afonso devorou o sertão, está comendo a caatinga, pondo civilização; muita gente sabe ler, as fazendas são diferentes, caminhão anda por tudo, tem televisão, tem pontes, tem luz chegando a todo lugar. O meu sertão, o sertão de Lampião, do cangaço, ele não existe mais.

Não há mais precisão do cavalo para a caatinga, nem o culote, meia sobre a calça, alpercata, não existe nem mais o chapéu bom para fazer chapéu de cangaceiro. Bem que em São Paulo eu vi uns que serviam, mas não é como no cinema; a gente usava chapéu de couro, bem macio, de camurça enfeitado. Comia a carne seca, às vezes um cabrito ou o boi dos outros, matando na bala”.

Maria Bonita – Do outro lado do saguão do aeroporto, Balão está fazendo graça, dizendo que cava tão fundo para cravar estacas que algum dia acha um japonês do outro lado do mundo. Dadá, mulher de Corisco, olha para ele, comenta com uma amiga: “Piada sim, mas valente, isso é uma fera”.

Balão fala ainda. “Eu brincava com Maria Bonita, lutava com ela, derrubava, rolava no chão. Lampião ria, dizia para a gente não zangar, para não dar briga. Nem parece que faz tempo que ela morreu com Lampião, pondo sangue pela boca. E hoje, eu tenho 60 anos , não tenho mais bala no corpo, o chumbo tiraram em São Salvador. Doença? Não, cangaceiro nunca adoece, não carecia de médico. Só agora, em São Paulo, cavando um poço de estaca na Consolação é que bebi água sem saber que tinha suco do cemitério. Passei doze dias vomitando sangue, mas, no sertão, nunca adoeci. Duro era ver companheiro ferido, sabendo que a polícia degolava, implorando me leva, e não poder”.

Mulheres – Criança também tem lembranças, fala das mulheres. “Tinha pouca mulher no bando, só dos chefões, ninguém mais queria, mas era valente, brigava junto com a gente. E tudo respeitava, respeitava mesmo, muito mais que aqui, em São Paulo”.

O avião está atrasado, os descendentes de Lampião demoram a chegar. Vera, com 14 anos, quer estudar medicina, espera que São Paulo lhe arranje um dia uma bolsa. Sua mãe mal conheceu os pais; criança ainda, foi entregue a um fazendeiro para criar. Lampião não gostava de criança no bando, ficava bravo quando um cabra apresentava sua mulher, de 13 ou 14 anos, perguntava se ia criar.

Pitombeira esta falando de novo, achando difícil entender o que quer dizer o objetivo final.

CANGACEIROS, SEM REMORSOS

Os cangaceiros não dizem, mas, pela sua conversa, por suas histórias, eles não estão muito arrependidos de seus crimes. Acham que fizeram as coisas certas. Na hora de denunciar quem lhes vendeu as armas, dizem “que não se cospe no prato em que se come”. São desconfiados: na hora de dizer o nome verdadeiro, relutam muito.

Lampião era um grande líder. Representava a luta contra a opressão dos fortes, os fazendeiros da época. Essa é a opinião de Balão, Zé Sereno, Labareda, Criança, Dadá e Marinheiro. As histórias de cangaceiros são sempre iguais, só o começo é um pouco diferente. Todos se dizem injustiçados, fugidos da arbitrariedade da polícia. Acabaram na vida de crimes por consequência da situação que enfrentavam. Ninguém teve culpa. É o caso de Lampião, contado por Balão, ou Guilherme Alves. Esse cangaceiro afirma ter sido amigo e confidente do cabra Lampião:

- Lampião era comboieiro – pessoa que toca a tropa de burros de uma cidade para outra, vendendo mercadorias. Um dia, ele vortô pra casa e encontrô a famia morta. Foi uma outra famia, os Fulô. Lampião ficô revortado e entrô no grupo do padre Luiz Pereira Fagundes. Depois ele passó a liderá o grupo. Muitas vêis eu ouvi ele falá que ia se entregá pra poliça. Mais tudo mundo tirava isso da cabeça dele: se ele se entregasse, era homi morto.

Depois, Balão conta que o que estragava a moral do cangaceiro era a fama que eles tinham, quase sem culpa. Os jornais falavam mal do cangaceiro – que só queria viver, sem se sujeitar à opressão dos “coronéis de fazenda”. Para isso, é que os homens se internavam na caatinga. Geralmente, fugiam para o interior acuados pela polícia, a “volante”, por terem se insurgido contra alguma injustiça. Às vezes, eram apanhado pela “volante”, que os torturava para descobrir os cangaceiros. Eles eram obrigados a fugir e, para não morrer, matavam como cangaceiros.

E o cinema, Balão, você assistiu aos filmes de cangaceiro?

- Sisti, tudo mintira, elis qué imitá, mais num consegue.

Balão viu a morte de Lampião, viu quando o amigo tombou de costas, varado por diversas balas. Existem algumas hipóteses segundo as quais o cangaceiro teria sido morto com veneno.

O sangue de Lampião saía, pelo nariz e pela boca. Balão fugiu do lugar. Posteriormente, ficou sabendo que os “volantes” cortaram-lhe na mesma hora a cabeça e a de Maria Bonita. Consta inclusive que ela teria sido decapitada ainda viva, pois seu ferimento não era dos piores.

- Ninguém morre de um tiro só.

Quando Balão fugiu, com o seu grupo, mandou um rapaz saber se Lampião tinha sido salvo. O rapaz voltou com fotografias das cabeças do cangaceiro e sua companheira. Os volantes decapitaram-nos e colocaram as cabeças em latas com vinagre e sal. Levaram depois essas latas pelas cidades, para intimidar o povo.

Zé Sereno, ou José Ribeiro Filho, perna quebrada, bengala. Ele conta que comprava suas armas de muita gente, até de “coronéis”. Pagava 600 cruzeiros por um mosquetão e 2 cruzeiros (antigos) por uma bala.

Mas o cangaceiro não podia fazer suas compras com a mesma tranquilidade de quem entra no armazém. Ele não podia se arriscar. Por isso, utilizava os serviços de um coiteiro. Era a pessoa encarregada de fazer as compras dos cangaceiros.

Zé Sereno, você pode dizer quem lhe vendia as armas? Não moço, num mi peça isso, tem muita gente viva lá ainda, num quero cumplicá ninguém.

Dadá, a mulher de Corisco, ouve a resposta de Zé Sereno e comenta:

- Num si cospe no prato que si come.

Isso mostra que, passados muitos anos das lutas, dos crimes e de toda aquela epopeia sangrenta, eles ainda continuam acreditando no que fizeram, não achando errado. Num si cospe no prato qui come diz Dadá, que é Sérgia da Silva Chagas, a mulher de Corisco.

Criança, ou Vitor Rodrigues Lima. Outrora uma fera; ontem, de terno e gravata, passou carregando uma criança no colo. Foi gozado, disseram-lhe: ao que chegou um cangaceiro, a pajem de criança.

Labareda, ou Ângelo Roque, 65 anos, parece muito mais velho. Quase não fala. Seus companheiros falam mais do que ele. Suas palavras são difíceis de ouvir, está muito velho. Mesmo assim, ele é muito objetivo, não gosta de muitos detalhes. Até repreende seus companheiros, quando estes contam suas histórias e se perdem nas minúcias. Marinheiro não fala nada, até o nome certo não quer dizer. Finalmente diz, é Antônio Paulo dos Santos.

Imagens ilustrativas da matéria.

Fonte: facebook


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CONVITE


O escritor Geraldo Ferraz tem a honra de convidar para o lançamento do seu mais recente livro, Theophanes Ferraz Torres. 


O centenário da prisão do cangaceiro Antônio Silvino e o júri do século, na Bienal do livro de Pernambuco. 

Dia: 03 de outubro, às 19h30. 
Local: Plataforma de lançamento da Bienal, Pavilhão de Exposições do Centro de Convenções de Pernambuco.
Não percam!

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NOVO LIVRO DE JOÃO DE SOUSA LIMA


Lampião, o cangaceiro! Sua ligação com os coronéis baianos, Raso da Catarina e outras histórias

Esse é o mais novo lançamento do historiador e escritor João de Sousa Lima. O livro faz um breve relato sobre quem foi Lampião; sua ligação com os dois mais famosos coronéis da Bahia, Petronilo de Alcântara Reis e João Sá.

A presente obra ainda nos remete as histórias acontecidas dentro do lendário Raso da Catarina e traz vários capítulos colhidos com exclusividade pelo autor.

O livro tem 232 páginas e dezenas de fotografias incluindo imagens inéditas na literatura cangaceira.


Pode ser adquirido diretamente com o autor no valor de R$ 45,00 (quarenta e cinco reais) com frete incluso para todo o Brasil. Entre em contato pelos e-mails e telefone abaixo: 
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Pelo telefone: (75) 8807-4138.


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