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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado – A guerra de guerrilhas

Por Frederico Bezerra Maciel


SERROTE PRETO (22 fevereiro de 1925)

Arranchação 

Fez parada Lampião na fazenda Serrote . Preto, distante de Mata Grande quatro léguas e continuação do caminho do nascente no rumo de Mariana (Manari).

Bateu na porta da casa de taipa de Constantino Fagundes, vaqueiro do cel. José Malta de Sá. Estava ausente. Com a família, havia ido fazer farinha na serra do Parafuso. Mas, as três moças da casa deram, "sem dificuldade" e até prazenteiras, arranchação a Lampião. Que logo mandou matassem quatro perus para o almoço. Enquanto os panelões de barro fumegavam cozinhando os perus, o arroz e o feijão, e as grandes marmitas de flandes, em forma de cones de vértice truncado, ferviam água para a farofa e .o café, deitou-se Lampião numa boa rede de varanda, armada nos tornos de um quarto de dormir, a modo de tomar uma madorna.

No quarto contínuo, deitado numa cama, Sabiá, gemebundo. Os outros, na sala da frente, jogando "ouro" em cima duma esteira ou descansando na sombra do oitão da casa ou dos pés de pau. Mais adiante, de dentro do curral e trepado num pé alto e dominante de baraúna, a sentinela, que se revezava de hora em hora.

O bafo da onça 

De madrugada ainda escuro, alvoroço nas forças aquartela-las em Espírito Santo. Chegara esbaforido, montado num animal, que não se sabe como aguentou o rojão da corrida, um positivo enviado pelo coronel Juca Ribeiro pedindo socorro urgente contra Lampião, inclusive informando que o Rei dos Cangaceiros só tinha vinte homens. No claro do dia, movimentaram-se as volantes na direção de Mata Grande. 

Ao meio-dia, chegaram na casa de Firmino Vintém, no pé da serra do Parafuso. Desarriaram, para descanso e para os preparos do de-comer.

Nisso ia passando um rapazelho montado numa besta de escancho, rudado-vermelho, troteira, apenas forrado o lombo com um saco de estopa e governada por um cabresto de corda de caroá. 

— "Pere aí, esse menino!" — gritou todo -"ímpio" Chico Oliveira. E querendo ser delicado: — "Adonde vai qui má progunto?"

— "Vou pru roçado ali mais aguiente" — respondeu.

— "Dá notícia de Lampião pru essas banda?"

O menino, sobrinho de Constantino, instruído por Lampião, desembuchou tudo. Chico Oliveira ouviu e sorriu de satisfação. Calculou: setenta e cinco praças bem armadas e municiadas contra vinte cangaceiros comandados por um "chefe de nada", como ele dizia. 

Não havia de que ter sobrosso. Soltou da bainha o punhal que Zé Pereira lhe dera. Alisou-lhe a lâmina com os dois gumes afiados e com a unha experimentou o tinido da ponta aguçada. Prelibando, na sua fantasia imaginativa, o que iria acontecer a Lampião: o punhal lhe penetrando no vão ou furando a veia jugular, a carótida... o sangue esguichando... o cabra aos estertores até ficar inânime... e para completar, ele, Chico, não teria nojo, mas satisfação de lamber o punhal... Estancou, extático, o riso sardônico, o olhar distante... Terminou o devaneio vibrando nos ares, várias,a arma, no gesto de quem apunhalava no invisível a imagem visível de sua alucinação... Guardou o ferro e gritou para a tropa:

— "Me acompanhe que hoje só tomo café quando armuçá Lampião!..."

Deixaram a matutagem ali mesmo junto às trempes porque a volta seria ligeiro para o de-comer, festejando a vitória.

Puseram-se em marcha batida. Chico na frente, depois Adauto, enfim João Gomes.

Tomada de posições

A sentinela do alto da baraúna dera o alarme. Num continente movimentou Lampião a defesa. Primeiro retirou, catorze homens para dar retaguarda sob o comando de seus irmãos Antônio e Livino. Uma das moças acompanhou esses homens a fim de mostrar as águas. Recomendou aos irmãos se dividissem em dois grupos no curral e no serrote, e só dessem o ataque de retaguarda depois de meia hora de tiroteio, tempo que calculou para as forças, entusiasmadas com o pequeno número de defensores de dentro de casa, mais se aproximassem e se ajuntassem. Finalmente, atirassem de ponto, não desperdiçando cartucho, pois as forças vinham poderosamente municiadas. De dentro de casa, cuja frente dava para o sul, preparou a barricada, escorando a porta da frente com um pesado pilão de baraúna, e a de detrás com as trempes da cozinha e um grande banco de aroeira. Tirou o baleado da cama e o deitou no chão forrado por uma esteira. O trabalho desse era municiar os fuzis e entregar a um cabra que, por sua vez, passava aos defensores. As duas moças ficaram deitadas no chão do outro quarto.

As volantes, cada qual com vinte e cinco soldados, puxados pelo rapazote 'montado, assim que chegaram ao Serrote Preto, não vendo nenhum movimento de gente, facilmente cercaram a casa, entrincheirando-se pelos pés de pau, pensando iriam pegar Lampião de surpresa. A de Chico Oliveira postou-se pela traseira. E pela frente as de Adauto e João Gomes. Este, mais atilado, dividiu os seus em três grupos, fazendo-os tomar posições diferentes.

O "almoço" do tenente Imediatamente abriram fogo para cima da casa. Somente depois das primeiras descargas simultâneas dos setenta e oito soldados, começaram, numa simulação de surpresa, os seis defensores a resposta de dentro de casa, assim mesmo com tiros esparsos. Dentro de meia hora os atacantes foram se aprochegando, apertando o cerco. E quando, de inesperado, surgiram, simultaneamente contratacando, as duas retaguardas, Livino com sete homens pela frente e Antônio com outros tantos por trás. Cantando "Mulher Rendeira", berrando e insultando, arremeteram com extrema violência, enquanto os defensores de dentro da casa intensificavam a tiroteiação. Diante de tudo isso a soldadesca caiu em pânico, mas som poder fugir cercados que estavam. Chico Oliveira, meio bêbado, endoidou. De punhal sacado, avançou para a porta de detrás gritando: — "Lampião, filho da peste, vou te sangrar!..." Ao ouvir os gritos de Chico, correu Lampião da porta da frente, onde estava, para a porta de detrás. Retirou os entrIncheiramentos colocados, abriu a porta, saiu, e, à queima roupa, com dois tiros, abateu Chico Oliveira. O primeiro balaço o atingiu na boca fazendo saltar a mandíbula inferior que ficou dependurada na pele da bochecha, o sangue gorgolejando abundante, um esgar horrível. O segundo balaço lhe atingiu, a caixa dos peitos, o coração. Chico foi se arreiando, dobrando os joelhos, o braço direito esticado para o lado, duro, teso, sustentando 'o punhal... E caiu pesadamente de costas junto às rodas de um carro de boi.

O cabo-ordenança que o acompanhava levou uma bala, também, na caixa dos peitos. Piruteou três vezes sobre si mesmo, a modo de pião, os braços abertos em cruz, urrando rouquenho: ui, ui, ui... indo cair emborcado e escabujando a mil metro de distância da porta.

Lampião, ao entrar, tropeçou no batente da porta e quase caiu, recebendo nessa ocasião um tiro disparado pelos inimigos, que lhe açoitou o peito esquerdo, de raspão, gretando lhe a carne num rasgão de meio centímetro de profundidade por uma polegada de comprimento. Num átimo, fechou a porta e chamou uma das moças que lhe trouxe algodão chamuscado para deter o sangue. Continuou o tiroteio cada vez mais acelerado e feroz, sustentado pelo capitão João Gomes. Mas, as retaguardas avançando, os cabras sempre cantando, descompondo, gritando e azurrando quiném feras...

Debandada total

Aproveitando o cafus das seis da tarde, a soldadesca frechou numa carreira desabalada e louca, esbandaiados, rasgando caminho pelos matos, pulando os bancos de macambira, rasgando-se nas unhas de gato, ferindo-se nas juremas e rasga-beiço, deixando, na corrida até Mata Grande, tudo que era de armamento, munição, bornais, cometas, quepes... Livino saiu em perseguição deles, procurando lhes interceptar a fuga, seus cabras zurrando feito jumento. E o que valeu não serem eles todos barrados e dizimados foi a forte chuvada, embora de curta duração.

Após a vitória

De candeeiro aceso, ordenou Lampião se arrastassem os mortos de ao redor da casa para um valado, cavado pela erosão das águas, mais distante, perto do riacho. Contavam-se catorze cadáveres de soldados, afora os do tenente e do cabo. Com exceção do tenente, todos foram sepultados. Quanto ao tenente Chico Oliveira, seu inimigo fidagal, Lampião, de primeiro, o despojou das roupas e apetrechos que distribuiu com os seus. As apragatas lhe deram nos pés, a modo que feitas de encomenda para ele. Ainda encontrou um conto e oitocentos mil réis nos bolsos. Depois, mandou suspendê-lo por uma corda amarrada aos pés num galho de caraibeira. Mantendo-o assim dependurado Pelas pernas abertas e de cabeça para baixo, descarregou-lhe um tiro na testa, cujo tampão da caixa craniana avoou longe espalhando os miolos. Em seguida, a fortes golpes de facão lhe talhou o peito e as entranhas, deixando o corpo pendurado, horrífico, balouçando... "pra servir de exemplo"! Poucos de seus cabras estavam feridos, assim mesmo ao de leve. Além de armas, munições e outros apetrechos deixados no campo pelos vencidos, algumas cuias se encheram de cascas, ou cápsulas de bala, dando assim conta e avaliação do furor da luta.

Passou Lampião a noite na mesma casa. Todos cantando o hino de guerra "Mulher Rendeira". Na euforia da espetacular vitória nem sentiam o cansaço. Dançando, sambando, comendo os perus assados e outros apreparos do de-comer, bebendo pra esfriar o corpo...

Até Sabiá, o cabra ferido, de alegria aparentava sensível melhoria. Chegou mesmo a tomar um trago. Bem cedo descansaram um suficiente para prosseguir em novas viagens e novas aventuras.

Sobrosso em Mata Grande

Quando o povo de Mata Grande viu esturrarem, pelas ruas, magotes de soldados, fugidos do desastre do Serrote Preto, tomou-se de pavor, pânico e terror. Eram soldados sem armas, os dórmas rasgados e breados de sangue e lama, arados de fome e babatando de fraqueza, os ânimos desmerecidos e arriados... Sem falar das outras volantes, contavam-se apenas dezoito praças da do capitão João Gomes. O restante, desaparecido. Mais de vinte feridos, inclusive o tenente Adauto que, por causa da gangrena, teve sua perna amputada pelo médico dr. Bastos. Mesmo assim não resistiu, aumentando o número de mortos. Uma danação! Por felicidade, chegara uma força de sessenta praças assegurando tranqüilidade ao povo que temia a volta de Lampião.

Lealdade de amigo

Pagou Lampião os perus e o trabalho das meninas, obrigando ao fazendeiro a receber determinada importância a título de indenização pelo que sofrera sua propriedade. Reuniu o grupo, ainda não de todo refeito do cansaço da refrega e da festa, e intimou seis homens daquela região a carregar a rede do baleado que, desde Mata Grande, trazia de estrada fora.

Com uma légua de viagem, entrou na catinga. A dois quilômetros acampou ao pé da serra dos Caibros. Deixando o grupo no acampamento, saiu sozinho procurando o rancho de um velho cangaceiro seu amigo, chamado Domingos Antônio. E com ele combinou: que ele, Lampião, de volta ao acampamento, mandaria chamá-lo... que ao chegar o tratasse dando parte de não o ter visto dantes... que, enfim, lhe negasse rancho... Assim foi feito. Mandou Lampião, do acampamento, um dos paisanos, carregador da rede, chamar Domingos, que, se bem combinou, melhor se desempenhou.

Após os cumprimentos, pediu-lhe Lampião, na frente de todos, principalmente dos seis homens, licença para ficar ali uns dois ou três dias descansando e preparando uma matutagern antes de ir s'imbora. De língua passada, foi peremptório Domingos correndo Lampião de sua propriedade: que não podia ficar uma só hora com ele, Lampião, ali... que o mundo estava cheio de forças, só de Alagoas vinham quinhentos soldados, afora as forças pernambucanas e paraibanas... que, no caso de permitir e as forças soubessem, iriam ser mortos ele e toda a sua família de dez filhos, os quais estava ele ainda criando... Fingindo-se conformado, respostou Lampião que não exigia sacrifício de ninguém e iria subir para o alto sertão de Pernambuco.

Tática genial de finta

Despediu-se de Domingos e viajou, à tarde, depois do almoço, "pisando na macambira", isto é, por dentro- da catinga evitando as estradas. As seis horas da tarde, avistou pés de caraibeiras, árvores características do rio Moxotó. Agradecendo, deu vinte mil réis a cada um dos seis carregadores da rede e recomendou contassem a verdade do que viram, sob pena de morrerem. Prometendo assim fazerem, e despedindo-se, retornaram os seis homens a suas terras. Vadeou Lampião o largo leito seco e arenoso do Moxotó em direção da ribeira do Navio, deixando as pegadas bem firmadas e visíveis, de, fácil pista para os rastejadores mais vulgares. Quatro léguas adiante, enviou um positivo a vários de seus grupamentos táticos, distante distribuídos, para entrarem, de ataque por toda parte, em ação de despistamento durante dez dias. Em seguida, dividiu a tropa em grupos: dois de cinco, inclusive num deles o ferido; dois de quatro; ficando ele, com seus dois irmãos Antônio e Livino, formando o menor grupo. E, usando a velha tática sua de esconder os rastos coei apragatas de lã de ovelha para não deixar pista, mandou se espalhassem pela catinga, indo todos se juntarem no rancho de Domingos Antônio, donde haviam saído há dois dias. Um percurso total, ida e volta, de doze léguas. Todos chegados, ali no pé da serra, construíram com rapidez, no que eram peritos, bibocas ou barracas de varas e palha.

Postadas as sentinelas, trataram de se refazerem das lutas, descansando, consertando roupas e objetos de couro, azeitando as armas...

Assim passou Lampião dez dias com seu grupo, enquanto grandes volantes, no piseiro dos rastros encontrados, subiam o sertão à sua procura!... De vez em vez, se ouvia que Lampião estava ali e acolá, em lugares divergentes, desorientando e endoidando a polícia. Eram seus cabras atuando simultaneamente em diversos pontos para despistar, desviar a atenção.

Tiro de misericórdia

Mandou Lampião que Domingos Antônio fosse à farmácia do Gerson Maranhão, em Mariana, comprar iodo e outros romédios para Sabiá que, dia a dia, definhava. Não queria de forma alguma Lampião perdê-lo. Por isso, vinha transportando-o já com dezesseis léguas. E todos os outros testemunhavam com quanto desvelo Lampião cuidava dele com mezinhas e comida especial. O cabra só vivia pedindo:

— "Acabe com isso, Capitão. Pra eu num tem jeito não. Quando acaba, os macacos vão me matá. Prifiro que me mate logo". Chegou mesmo a pedir por amor de Deus, da Senhora da Conceição e do Padim Cirço. 

Lampião sempre dizia:

—. "Tá doido, Sabiá. Você vai ficá bom". Mas, nada. Ali estava ele cada vez pior. Não comia mais nada. Com muita dificuldade tomava uns golpinhos de leite. E sempre pedindo:

— "Me mate! Me mate!"

Não queria Domingos Antônio ficar com ele. Se a polícia descobrisse, ele, Domingos, e a família iriam sofrer. Perguntou mais uma vez Lampião a Sabiá se queria morrer. Diante da afirmativa insistente, mandou que ele encomendasse a alma a Deus. Quando ele disse:

— "Pronto" e fechou os olhos manejou Lampião o fuzil, aproximou-o da testa e espatifou-lho o crânio com uma bala.

A modo de não deixar sinal de cova, cavou esta no sentido vertical e enterrou o morto em pé, plantando, em cima, um banco de macambira.

Com sinceros agradecimentos, despediu-se Lampião de seu velho e leal amigo Domingos, tendo antes matado uma novilha gorda, de cuja carne, secada e retalhada, proveu todos os bornais do grupo para as novas aventuras.

Prisão do vaqueiro

Em dias da Semana Santa, passou Lucena com uma volante pela casa de Domingos e prendeu-o porque suspeito de coiteiro. Não foi morto por que, chamados por Lucena, sob indicação de Domingos, os seis homens, condutores da rede, cujos testemunhos coincidiram com as respostas do interrogatório ao prisioneiro. Era Sexta-feira Santa. A velhinha mãe de Domingos se valera de Gerson Maranhão. O qual mandara um bilhete a seu primo Lucena pedindo soltar o preso, que, aliás, já havia sido liberto.

Diário de Guerra

— Março: Gino. Demitido o tenente Gino do Comando Geral das forças em Vila Bela, com ordem de se apresentar ao tenente Pedro Cavalcanti Malta, em Triunfo.

Assumiu provisoriamente o comando geral o sargento Alípio Pereira de Sousa.

O Governador do Estado, Sérgio Loreto, proibiu Gino de penetrar no município de Vila Bela. Dada a Gino uma volante de apenas doze praças. Temendo Lampião, que já se achava à sua procura, mandou Gino pedir ajuda a Zé Pereira. Este escolheu dez de seus mais perigosos cangaceiros e os enviou ao suplicante. Por ironia da sorte, Gino, que perseguia cangaceiros, agora se valia deles e com eles andou ' mais de mês pelas catingas do Navio! ...

— 11 de março: Capturados, em Rio Branco, pelo tenente João Luís, três cangaceiros do grupo de Lampião: Antônio Clementino, velacho "Fato de Cobra", Joaquim Pedro e José Raimundo Cândido.

30 de março: Grupo de cangaceiros sob o comando de Zé Pequeno assaltou novamente o município de Mata Grande.

13 de abril: Fazenda Água Branca, no município de Vila Bela. Os cangaceiros Zé Paulo e Sabino Gomes atacaram a residência do rendeiro João Alves Pereira. Renhido tiroteio. Saldo: mortos  João Alves e Zé Paulo; feridos três filhos e nora do rendeiro; Sabino com ferimentos graves.

15 a 20 de abril: Proximidade de Alagoa de Baixo (hoje Sertãnia). Num tiroteio, Gino desbaratou pequeno grupo de cangaceiros.

30 de maio: Enviou Lampião, cartel a Pão de Açúcar (Alagoas).

-- 15 de junho: No município de Buíque, encontro da polícia com um grupo de Lampião comandado por Antônio Barbosa, velacho Parafuso, que morreu.

NOTA: Lampião deu cabo dos quatro irmãos Oliveiras — Francisco, Manuel, Cícero e José — tenentes da polícia paraibana. 

Material do acervo do pesquisador do cangaço Raul Meneleu Mascarenhas.
http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-nao-era-nem-frouxo-e-nem.html 

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O cangaceiro Beija-flor exagera na dose e diz que roubou Maria Bonita



Verdade ou mentira?

Fonte: facebook

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

“Mais uma prova do descuido com a história”


Local da primeira missa no Estado baiano, com a presença dos cangaceiros, inclusive Lampião. 

A matéria a seguir é do incansável pesquisador/historiador João de Sousa Lima. Um dos maiores garimpeiros do resgate do fenômeno cangaço. "(...) nas trilhas do cangaço: o local onde Lampião assistiu a primeira missa na Bahia.


Em 1928 quando Lampião atravessou pro Estado da Bahia a região que fica dentro do raso da Catarina foi muito explorada pelos cangaceiros. A primeira missa que os cangaceiros assistiram no Estado baiano foi ministrada pelo monsenhor Emílio de Moura Ferreira Santos. O padre era o pároco de Santo Antônio da Glória, a antiga Curral dos Bois.

O povoado São José, em Chorrochó foi uma das localidades que os cangaceiros também assistiram missa. Mas a primeira que foi celebrada pelo monsenhor Emílio aconteceu entre a fazenda Paus Pretos, que pertencia ao coronel Petro e a Roça Baixa do Boi. A missa foi na casa (de) Júlia de Subaco, na fazenda Poço Comprido(...)". Mais uma prova do desleixo das autoridades públicas com o patrimônio histórico. Fonte e foto: joão de sousa lima

Fonte:
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Amanhã, 17 de outubro de 2014, o escritor Archimedes Marques estará na rádio FM Aracaju, a partir das 08:00 horas da manhã, no Programa Balanço Geral, para falar em desfavor do livro LAMPIÃO O MATA SETE.


Caros amigos:

Amanhã, 17 de outubro de 2014, estarei na rádio FM Aracaju, a partir das 08:00 horas da manhã, no Programa Balanço Geral, para falar em desfavor do livro LAMPIÃO O MATA SETE. Quem tiver interesse em escutar é só sintonizar no link abaixo e clicar na primeira janelinha e escutar. Entretanto, para aqueles que pretendem participar segue os telefones: (79) 32262658 e 32262660. Hoje ele foi entrevistado nessa rádio e tentei entrar no ar, mas acho que ele não aceitou. Eu pretendia DESMASCARÁ-LO e DESMENTI-LO NO AR... Ele disse, mais uma vez, mentirosamente que ele não é o primeiro nem o décimo escritor a dizer que Lampião era Homossexual, é mole?... Com certeza os livros deles SÃO DIFERENTES DE TODOS APESAR DE SEREM DOS MESMOS AUTORES. DECERTO ESCRITOS SOMENTE PARA ELE EM EDIÇÃO ÚNICA DE UM EXEMPLAR! Conto com a participação de vocês.

Fonte: facebook

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"DOMINGUINHOS, O NENÉM DE GARANHUNS"


O livro "DOMINGUINHOS, O NENÉM DE GARANHUNS" de autoria do professor Antonio Vilela de Souza, profundo conhecedor sobre a vida e trajetória artística de DOMINGUINHOS, conterrâneo ilustre de GARANHUNS, no Estado de Pernambuco.

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E o Mascate Espertalhão

Por: Renato Cassimiro

Na biografia de Benjamim Abrahão Botto, recentemente lançada pelo escritor Frederico Pernambucano de Melo, este secretário do Padre Cícero é apresentado como um espertalhão, por ter se locupletado com a amizade e o cargo de confiança que ocupou na casa do padre. E é uma verdade. No início já havia uma mentira, pois ele dissera na apresentação que nascera na terra de Jesus. Em verdade, Benjamim nasceu no Líbano, na cidade de Zahle. 


Mas, julgue o leitor ao conhecer um pouco mais desta figura. Benjamim tinha negócios em Juazeiro, como um jornal e uma loja de tecidos. Também era proprietário de um rancho para romeiros. Veja o que ele diz neste boletim de publicidade que estampamos acima.

“CASA DOS ROMEIROS DO PADRE CÍCERO, de Benjamim Abrahão. Antiga Casa São Jorge. Aviso a todos os romeiros que a Casa dos Romeiros do Padre Cícero, não trata de negócio, pois foi aberta por ordem do Padre Cícero, exclusivamente para receber os Romeiros pobres e ricos, dar-lhes ranchos asseados e facilitar-lhes a entrada na casa do mesmo Padre, grátis, e sem nenhum interesse, respondendo as suas cartas, com a máxima brevidade. O encarregado desta casa é amigo íntimo do Padre Cícero, residindo ou morando com ele. Portanto, os Romeiros devem procurar a Casa dos Romeiros do Padre Cícero que serão bem servidos. Os Romeiros não devem iludirem-se com certas pessoas suspeitas que fazem pelas estradas propaganda contra esta casa que é a única que não explora ninguém, e é amiga de todos os romeiros. Encarregado geral: Benjamim Abrahão, Escrivão do Padre Cícero, Juazeiro-Ceará.” 

Deu para entender aí, ou querem que eu explique? Interessante que na lateral do boletim está à expressão: Para evitar desgosto, a casa não aceita pessoas com moléstias contagiosas. 

Renato Casimiro

Fonte: 
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LAMPIÃO - Não era nem frouxo e nem adamado (Resposta ao livro 'Mata Sete')

Material do acervo do pesquisador Raul Meneleu Mascarenhas

Quem poderia chamar Lampião de cabra frouxo, adamado, besta idiota e outros adjetivos? Pode-se chama-lo de bandido, desalmado, perverso, e outras coisas. Mas de frouxo não tinha nada, e muito menos afeminado!

O seu maior inimigo, o Tenente José Lucena, chegou até mesmo a mostrar seu reconhecimento da bravura desse cabra da peste. O caso se deu na primeira batalha entre os dois, onde o Tenente José Lucena e Lampião ficaram temendo-se mutuamente.

De sua parte José Lucena temendo  e receando a sagacidade de Lampião e o temível cangaceiro, respeitando a força do Tenente pelo poderio.

Frederico Bezerra Maciel em sua sextologia ‘Lampião, Seu Tempo e Reinado’ no segundo livro ‘A Guerra de Guerrilhas’ citado e apresentado artigo por mim escrito com o tema Lampiao, o guerreiro que corria atras do vento onde transcrevo Ipsis litteris um dos capítulos do livro para que os leitores sintam o grande estrategista que foi Lampião, onde encontramos esse testemunho do há época,Tenente José Lucena seu maior inimigo.

Tive a curiosidade de ler o livro 'Lampião o mata sete', e encontrei-o muito repetitivo para quem quer escrever algo sobre Lampião. Não procurei puxar pela memória e nem pela real história, para saber que as palavras contidas no livro, estão eivadas de impropérios particulares do autor contra o famigerado bandido. Não estou chamando o autor de mentiroso e longe de mim fazer isso com um juiz aposentado, que deve ter julgado muitos casos no sertão sergipano, contra bandidos. E de certo o magistrado deve ter julgado com honra e respeito até mesmo os piores bandidos que passaram em sua vara criminal, como homem civilizado que é.

Talvez o autor do livro tenha enveredado pelo ouvir dizer de pessoas comuns ou por aqueles que odiavam e ainda odeiam o cangaceiro Virgulino Ferreira. Como sabemos o ódio pode ser usado contra os inimigos em sua pior forma, o falso testemunho.

Quanto ao cerne da questão, se Lampião possuía essa característica de 'homem afeminado' não encontrei realmente nenhuma base histórica para a acusação que assim se portava e nenhum indicativo de escritores e pesquisadores do cangaço, indicados por ele.

Realmente está mais para o disse me disse. Ele faz referência ao Saturnino inimigo de Lampião e inimigo é capaz de tudo né mesmo? O autor usa e abusa de linguajar abusivo quando fala de Lampião, não como historiador, mas como pessoa física que não aceita a bandidagem de Lampião, e que está no seu direito de não gostar, assim como nós também não apoiamos bandidos e não pela enaltecemos a Lampião como herói e quando escrevemos sobre ele, o fazemos simplesmente para desvendar feitos, estratégias, liderança, carisma, amores por sua mulher e por outras que por sua vida passaram assim como Ciça e Mailurde que cuidaram dos ferimentos de Lampião e lhe ofereceram seu amor, que foi bem recebido por seu bem-amado.

Gostamos de falar dele, para a história, por sermos sim, admiradores não de sua perversidade e sim pelas estórias da história da vida desse bandido idolatrado e temido no sertão nordestino. Por exemplo, quando lemos sobre o caso de seu ferimento que citei acima, que está no livro ‘Lampião, Seu Tempo e Reinado’ na página 126 do segundo da trilogia. Em meu artigo O Poder da Fé ali também posto que "durante todo esse tempo, Lampião era guardado por cangaceiros que, de espaço em espaço e em pontos estratégicos, montavam incessante e rigorosa sentinela, demonstrando assim seu apreço e estima ao grande Chefe. Nessa ocasião, recebeu Lampião, em caráter sigiloso, muitas visitas de "gente fina": do coronel Zé Pereira e seus correligionários, de autoridades, de doutores, de coronéis, de fazendeiros e até dos reverendos padres Floro Dinis, vigário e prefeito de Princesa, Eliseu Dinis e José Leal (vulgo Padre Bezeca), respectivamente esses dois últimos vigário e prefeito de Triunfo. Todos por solidariedade, cortesia ou curiosidade.

Como posso chama-lo de 'mariquinha' ou 'boiola' como se diz hoje, um homem que se desmanchou em amores físicos por essas duas mulheres, pois ainda não conhecia Maria Bonita? Durante sua convalescença, essas duas "esbeltas e despachadas caboclas, rivais em carnagem e beleza, Ciça e Mailurde, cuidavam de Lampião. A primeira, alta e alva, longos cabelos castanhos claros, lhe costurava as camisas, serzia a roupa, que também lavava e passava a ferro, entregando-a sempre perfumada com água de cheiro. A segunda, baixa, olhos esbugalhados e bunduda, amorena-da, lhe preparava papas, quitutes, o de comer. Ambas, cada qual por sua vez, lhe penteavam o cabelo, botando brilhantina para brilhar e cheirar.:. cortavam-lhe as unhas... num desvê-lo minucioso em tudo. Mormente, emprestavam-lhe todo o carinho e ternura feminina, sem restrição. Certa vez, houve entre as duas uma cena de coirana, apaziguada pela interferência de seu bem-amado. Os cangaceiros gostavam de ver que, nessas xumbregações, sutilezas e doçuras femininas do amor, a recuperação de seu Chefe se apressava". - escreveu o Padre Maciel.

A meu ver, o autor desse livro erra quando agride Lampião verbalmente e o chama de 'perobo'; 'boiola'; 'viadinho' e outros adjetivos. Ele cita o livro 'Lampião, senhor do sertão: vidas e mortes de um cangaceiro' de Élise Grunspan-Jasmin na página 60 e não encontrei afirmativa nenhuma do Saturnino a não ser levantar que ele tinha 'coisas de Lampião que não podia dizer'. Isso dito por um inimigo de Lampião que a história conforme diz Rodrigo de Carvalho, citado por Élise, dizendo que Saturnino era  cruel, ciumento e obstinado. Quer dizer; poderia ter dito essas palavras para levantar falso a seu inimigo.

Ponho abaixo dados da referência da página  60 indicada no livro 'Lampião, o mata sete' onde se refere ao grande livro dessa francesa que escreveu 'Lampião, senhor do sertão' e raciocinemos sobre o único indicativo desse livro eivado de barbaridades não históricas. Pois costurar, e usar uma máquina de costura, temos o indicativo de alfaiate se for a tarefa feita por mãos de homem, no caso de Lampião por costurar, não poderia ser um indicativo de ter sido gay, afinal todos os cangaceiros costuravam suas roupas, quando em descanso de suas batalhas.


Para que o leitor possa também verificar ações, posições e atitudes de Virgulino Ferreira, abaixo tomo a liberdade de indicar a leitura do capítulo 25 do livro do Padre Maciel, uma das obras mais completas que li sobre o cangaço.

Definitivamente NÃO! LAMPIÃO não era o que esse livro do 'mata sete' diz.

http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-nao-era-nem-frouxo-e-nem.html

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“PEROLAS” CONTIDAS NO LIVRO LAMPIÃO O MATA SETE:


“Derna a mais tenra idade juvenil, Virgolino já demonstrava trejeitos afeminados no andar, no falar e no fazer das coisas. Os contemporâneos tinham medo de falar sobre sua masculinidade, senão em raras oportunidades em conversas ao pé do ouvido, prevenindo-se das retaliações. E muito se falou dos seus escondidos e confusos relacionamentos desde a adolescência. Essas desordenadas e estranhas relações foram muito criticadas, ora servindo de mangação. Essa fama foi conhecida e falada e muito repetida a centenas de quilômetros de distancia, tantos anos após no Poço Redondo, em Sergipe”. (...). (MORAIS, 2011, p. 251)

“Virgolino nem tanto ou quase nada; diferentemente dos outros, gostava de se dedicar com as meninas da escola às brincadeiras com cantigas de roda”. (...). (MORAIS, 2011, p. 22)

(...). “Feito rapaz, costumeiramente se exibia dançando e valsando em leves rodeios no ar como a pluma despencada nas correntes desfiadas pelo vento ou jogada na espuma boiando à deriva nas vagas. Gostava de cantar, recitar e dizem até ter sido tocador de harmônica, embora disso não seja conhecido qualquer registro, nunca dando a conhecer o seu talento musical”. (MORAIS, 2011, p. 22)

“Era ele quem comandava as brincadeiras com sua turminha com peculiar eloquência e saber. Escolhia e separava os pares nas danças e cantigas de roda entre tantas outras lúdicas diversões pueris, nas cantorias, nas pastorinhas e nas encenações teatrais. Tudo era ele e com ele. Viveu toda a sua infância na região que tratava no pulsar carinhoso do seu coração por meu sertão sorridente. Foi um menino criado com a avó. Vivia a andar pra cima e pra baixo com garbo e desempeno, todo engalanado, calçando meias coloridas adornando seus pés melindrosos nas alpercatas de rabicho, pisando macio a terá batida e as areias das charnecas sertanejas. Seus contemporâneos, amigos e companheiros, com ares de inveja da figura elegante, tratavam-no por almofadinha. Nos versos e nas rimas da literatura de cordel está escrito que sua mãe, dele, sonhava por uma menina ao nascimento do terceiro parto. Se Virgolino tivesse nascido fêmea, o sertão seria outro”. (MORAIS, 2011, p. 23)

“Nas festas, nas danças de rodas e nos bailes e folguedos, era ele o indicado na arrumação dos pares de rapazes e moças, escolhendo sua dama, dado que dançava muito bem, carregando leve e cavalheirescamente seu par pelos salões, sob os olhares dos presentes. Chamavam-no de Pé de Valsa. Os seus amigos e companheiros, desajeitados em finuras, recolhidos às suas humildes rudezas, isolados pela falta de talento no agradar das moças, pela força dos justificados ciúmes, próprios dos jovens, chamavam-no de fresco. Ciúme bobo daqueles rapazes. Virgolino parecia ter nascido príncipe no jeito e no bom parecer. Negou fogo à realeza, contudo”. (MORAIS, 2011, p. 24)

(...). “Enquanto Antônio e Levino, reconhecidos como bons cavaleiros, colocados à frente dos melhores na região, dedicavam-se diariamente aos trabalhos de adestramento e montaria em potros e burros, dominando esse ofício com maestria, Virgolino se dedicava com apego, saber e bom gosto, aos trabalhos com costura e outros serviços artesanais em couro, desenvolvendo com arte essa especialidade. O ofício de amansamento de animais trouxe justa fama aos irmãos Antônio e Levino Ferreira. Era uma festa a exibição desses dois rapazes em montaria, ostentando porte de um cavaleiro medieval ao montar esbelto e garboso. Embora Virgolino vibrasse com as peripécias de seus irmãos no domínio dos animais, dava-se ao tempo nessas festas ao convívio com as mocinhas, constantemente cercado delas, divertindo-se alegremente, desprezando as coisas das cavalhadas, atividade entendida como muito rude ao seu gosto, embrutecida e desprezível, imprópria ao nascido com vocação para o trato das coisas finas. Seu negócio era o corte e costura de roupas e arreios de couros e coisas similares, com tudo isso se identificando. Quando por necessidade precisava montar em mulas aos serviços da almocrevaria fazia como um nobre cavaleiro, esbanjando vaidade, atravessando garbosamente os povoados, exibindo suas qualidades de cavaleiro. Seus irmãos reclamavam constantemente do fato de ele montar por apenas querer mostrar suas reverentes qualidades de formoso montador, principalmente ao montar na mula faceira, tratada com frescura, meiguice e ternura, por “danada e sem-vergonha”. Assim foram os primeiros lustros de vida de Virgolino até engajar no mundo do cangaço”. (MORAIS, 2011, p. 24/25)

“Por volta de 1917, Virgolino juntou-se a Tonho Rosa, um amigo bem chegado, chegado até demais a ponto de provocar inquietação na desconfiada Sulena, a todo instante dirigindo um olhar atravessado àquela amizade incomum entre os rapazes machos, no exercício do sexto sentido das mães. Estava na cara. Antônio Rosa Ventura, ainda criança, entre os oito a dez anos de idade, foi deixado na casa dos Ferreira por uma família de romeiros que nunca mais deu notícias nem voltou para buscá-lo. Abandonado, sem seus pais, foi criado como ente da família, muito apegado a Virgolino que sobranceiro dizia: “dou a ele de um tudo e tomo de conta”. (...). (MORAIS, 2011, p. 49)

(...). “Muito se soube que desde a mocidade, Virgolino era mestre em arrumar festas e ensaiar bailes, arrumar casais nas danças, folguedos e outras brincadeiras da turminha sertaneja, formando os pares de namorados, levando e trazendo recados e mensagens amorosas. Os mensageiros de recados, figura, aliás, preciosa e muito benquista e cultivada entre jovens namorados eram cognominados pelo apelido de cocada ou vela. Figura típica do alcoviteiro ou alcoviteira, ou seja, o homem ou a mulher que alcovita, catalisando o par nas relações namorosas, permanecendo junto com o par enamorado durante horas pela noite adentro”. (MORAIS, 2011, p. 60) 

“Naqueles tempos idos, por alcoviteiro era também conhecido o lampião de querosene em que nele era introduzido um pavio de pluma de algodão retorcida, absorvendo o combustível e queimando em labareda protegida numa redoma, tornando-se uma só chama, permanecendo toda a noite acesa, iluminando perseverante o ambiente, permitindo por mais tempo a permanência de casais em namoro. E como Virgolino adorava alcovitar, permanecendo na presença de casal de namorados, passou a ser igualado a um lampião, restando-lhe este apelido. Esta versão decorre de um fato real, possível, palpável, sabido por todos os viventes desse tempo. O apelido não surgiu, portanto, de destreza bélica ou feito heroico; não nasceu de coisa de macho. Nasceu da alcovitice, do lampião”. (MORAIS, 2011, p. 60/61)

(...). “Todo o Pajeú sabia de suas peripécias e fantasias sexuais desde a mocidade, aflorada na liberdade com a morte dos seus pais. A viadagem de Virgolino sempre foi propalada, muito embora a mitografia tentasse esconder sua degenerada conduta, pela necessidade de fortalecer a construção ou transformação de um canalha em mito, em herói, em general das caatingas. Eventuais segredos entre os sertanejos se deveram ao medo do canalha, o mesmo não acontecendo nos centros populosos em que uma sociedade efetiva entre dois cangaceiros poderia ao máximo servir de chacota, de escárnio”. (MORAIS, 2011, p. 121/122).

Adendo
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Que coisa, hein! Como se escreve tantas maldades contra o rei do cangaço, o  Lampião? Quantas mentiras! Não acredite nestas mentiras, leitor!

Fonte: facebook

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O Cangaço em Sergipe

Por: Carlos Brás
A arte de Eduardo Lima

O pequenino Sergipe, entre todos os estados pelos quais o flagelo do cangaço deixou suas marcas, tem lugar de destaque. Entramos definitivamente para a história do banditismo nacional, de forma excepcional e definitiva, no dia 28 de Julho de 1938, quando na gruta de Angicos, localizada no município de Poço Redondo, o tenente João Bezerra e sua volante, liquidou Virgulino Ferreira da Silva, o afamado Lampião, e parte de seus seguidores, interrompendo um reinado de quase 20 anos.

O fenômeno social cangaço teve como pano de fundo o sofrido sertão nordestino com sua temível caatinga, ambiente inóspito, pouco povoado, onde só os fortes sobrevivem. O Raso da Catarina, em território baiano, sintetiza toda a insalubridade e aridez dessa região do Brasil. Tempos medonhos aqueles, onde a presença do estado quase não se fazia notar com o domínio socioeconômico exercido por poderosos coronéis, proprietários de imensos latifúndios, soberanos da terra e da gente, da vida e da morte. A miséria e os constantes conflitos políticos e familiares estão entre os motivos que originaram a escalada da violência, justificando a formação de grupos armados particulares, onde ferozes jagunços garantiam a segurança dos seus patrões.


“Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do nordeste”, conforme cita Graciliano Ramos no seu livro Viventes das Alagoas (1962). Ser cangaceiro era o grito de revolta dos que não aceitavam a opressão e injustiça. Desse cotidiano participaram outros personagens que muitas vezes faziam jogo duplo, a depender de interesses pessoais. Volantes, grupos formados por soldados (chamados de macacos pelos cangaceiros) e cachimbos (civis contratados pelo estado), que praticavam todo o tipo de violação contra a população dos povoados e grotões, sendo tão temidos quanto os bandoleiros. Coiteiros (moradores da zona de conflito, que forçados ou não, auxiliavam os bandidos com suprimentos e esconderijo) enfim uma rede de omissão, medo e cumplicidade que permitiu a longa duração do reinado lampiônico.

Mesmo passadas tantas décadas dos combates encarniçados e da morte do seu líder maior, este triste enredo ainda desperta paixões. O cangaço é uma epopeia repleta de contradições com relação a comportamento, datas e acontecimentos. A mitificação do general da caatinga é responsável pela aura que o cerca, imagem de herói e bandido, que povoa o imaginário popular, promovendo debates, movimentando um circulo gerador de divisas através de manifestações artísticas e culturais, teses acadêmicas, artigos e investigações sociológicas.

Essa condição permite afirmar que o rei do cangaço teve, na realidade, três vidas distintas: 1) o homem comum, vaqueiro, almocreve e coureiro; 2) O facínora amado e odiado; 3) o personagem imorredouro, eternizado em cordéis, filmes, literatura, história em quadrinhos, telenovelas, artes plásticas e folguedos populares.

Xilogravura de Nivaldo Oliveira compõe exposição do MHS

Em solo sergipano, os grupos de famigerados com seu chefe à frente, adentram pela primeira vez no dia 26 de fevereiro de 1929. A cidade de Carira foi escolhida para a indesejável visita dos fugitivos das volantes baianas. Dessa empreitada, conforme alguns relatos participaram apenas sete feras sedentas de tudo, o que já era suficiente para aterrorizar qualquer povoação, e ali se utilizou mais uma vez a tática do bom visitante, amigo, cordial e respeitoso, que não pretendia cometer atos violentos, pagando por tudo que precisava, e promovendo festas.

As estripulias em nossas terras gradativamente tornaram-se rotineiras. O rastro do mal logo se fez notar, trazendo ao pacato sergipano a dor da humilhação, as lágrimas pelos entes queridos ultrajados em sua honra ou mortos, as chantagens e extorsões. Como sempre acontecia, uma rede de colaboradores logo foi arquitetada, garantindo uma relativa segurança à cabroeira. Curiosamente, conforme relatos, o estado de Sergipe foi o que mais contribuiu com elementos para os grupos de meliantes, através do município de Poço Redondo.


No livro A misteriosa vida de Lampião, de autoria do cearense Cincinato Ferreira Neto, à página 158, encontra-se alusão ao nome de Eronildes de Carvalho, futuro interventor de Sergipe, e seu pai, Sr. Antônio Caixeiro, como um dos maiores protetores de Virgulino em nossas terras, fato este que é contestado enfaticamente pelos familiares dos citados. Nossa Senhora da Glória, Pinhão, Frei Paulo, Alagadiço, Gararú, Aquidabã, Saco da Ribeira (Ribeirópolis), Monte Alegre, Canindé e Capela, onde a célebre chegada do malfazejo é contada até hoje, foram cidades testemunhas da aventura cangaceira. E muitos ainda recordam desse tempo sinistro. O nome de Zé Baiano, com seu ferro em brasa, que deixou marcas indeléveis no corpo de algumas mulheres ainda causa repulsa na imagem evocada.

Lampião foi senhor absoluto do seu tempo. Enquanto uns o consideravam um facínora impiedoso e sanguinário, capaz das piores atrocidades, outros lhe atribuíam qualidades, tais como, caridoso, sábio, bondoso, justo, educado, refinado, artista etc. Porém, historiadores e pesquisadores respeitados pela seriedade de seus trabalhos, são unanimes quando reconhecem no capitão a astúcia de um guerrilheiro, o tino estratégico e inteligência de um militar experimentado. Implacável quando se tratava de vingança e autoafirmação. Benevolente quando precisava de proteção, exercia liderança absoluta sobre seus comandados, o que lhe permitiu sobreviver, lutando sempre em desvantagem, sendo vencido apenas pela traição.

A derrota, mais cedo ou mais tarde haveria de chegar, e em Angicos se escreveu a última página dessa dolorosa saga brasileira. Dali escaparam alguns, que ajudaram a perpetuar a lenda. Corisco, alcunhado de “Diabo Louro”, ausente no combate final, responsabilizou-se pelo funesto epílogo, promovendo como vingança mais mortes brutais pela região. Consta que a morte de Lampião em 28 de julho de 1938 não significou o fim do cangaço, a esperança de sua continuidade findou-se com Corisco no dia 25 de maio de 1940.

Corisco, o Diabo Louro

Pesquisador e acadêmico de Museologia da Universidade Federal de Sergipe, estagiário do Museu Histórico de Sergipe/SECULT.                   E-mail: carlos_braz@globo.com

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado. 2ª edição. Ed. Vozes. Petrópolis, 1982. (volumes IV e VI)
FERREIRA NETO, Cincinato. A misteriosa vida de Lampião. Fortaleza: Premius, 2008.
RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. 8ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1962.
FONTE:
http://museuhsergipe.blogspot.com.br/search/label/Lampi%C3%A3o

http://cariricangaco.blogspot.com.br/2014/10/o-cangaco-em-sergipe-por-carlos-bras.html

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MUSEU DO SERTÃO EM MOSSORÓ-RN


No dia 1º de Novembro de 2014, o  Museu do Sertão em Mossoró, abrirá suas portas para visitas, a partir das 7:00 horas da manhã, estendendo-se até às 12:00 horas do dia. 

 http://petcis-uern.blogspot.com.br/2013/03/visita-dos-petianos-ao-museu-do-sertao_26.html
Bulandeira de engenho - desimbloglio.blogspot.com


jaldesmar-costa.blogspot.com  - - Foto: Jaldesmar Costa

Você já é um convidado para visitar o Museu do Sertão em Mossoró, no dia 1º de Novembro de 2014. 

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Com a palavra, Ranulfo Prata.


Compartilho com os amigos os textos abaixo, que tratam do cangaço e, especificamente, do livro "Lampião", do escritor sergipano, Ranulfo Prata. Artigos estes assinados pelo jornalista da crônica paulista, Donatello Grieco.

O primeiro, sob o título "O banditismo no nordeste", Ranulfo Prata, na forma de entrevista, expõe os motivos que o levaram a produzir seu "Lampião". O segundo, "As excentricidades do banditismo", Donatello, com retórica e boa literária, diz de forma elogiosa da obra do, também, médico lagartense.

Confesso que encontrei nestes textos, informações e o olhar que eu mais aprecio:, o de quem está sob a espreita do aterrorizador cangaceiro.

"O ESTADO DE SERGIPE" - 06/03/1934
O BANDITISMO NO NORDESTE

RIO, 23 (Da nossa sucursal) – O senhor Ranulfo Prata acaba de publicar um interessantíssimo livro sobre Lampião, que foi editado no Rio por Ariel.

Procurado esse ilustre escritor, que já forma em nossa literatura com alguns bons livros de ficção, conseguimos uma entrevista interessante, para os leitores do sul que, em geral, tão pouca coisa conhecem, em linhas nítidas, desse angustioso problema do nordeste brasileiro.

DOCUMENTAÇÃO DO LIVRO

Obtive a documentação do livro, diz-nos o Sr. Ranulfo Prata, na própria região assolada pelo flagelo. Residindo em Santos, fui em dezembro de 31, ao interior de Sergipe onde, na cidade de Anápolis, tenho pessoas de minha família.

Nessas férias, permaneci em Anápolis até março de 1932, procurando sempre entrar em contato com testemunhas pessoais de façanhas do bandido, bem como colher documentação entre as pessoas que me pareceram mais autorizadas a falar sobre o assunto. Colhi, então, os primeiros dados biográficos do facínora.

Este ano, nova viagem foi empreendida por mim àquelas zonas flageladas pelo cangaço. Entrei então, posso dizê-lo com sinceridade, no conhecimento direto dos fatos que mais de perto se relacionam com o banditismo. Viajando de auto de Anápolis a Jeremoabo, quartel general das perseguições e das ações das volantes, passando em Paripiranga, Bom Conselho, Antas e mais regiões sertanejas, vê-se que a gente daquelas vilas não pensa, não fala, não cuida de outra coisa a não ser de Lampião.

Lampião é o problema obsedante; seus atos, todas as suas tropelias sangrentas são discutidos com ânsia febril pelas populações exaltadas. Por isso mesmo que todos falam do mesmo homem. Por lá andando me foi simplíssimo colher dados e narrativa das próprias vítimas, dos soldados, oficiais e mesmo de coiteiros.

Esses “coiteiros” são indivíduos que dão refúgio a Lampião e seus sequazes. Nesta palavra de velho sabor vernacular, está com certeza, o segredo do fracasso de todas as arremetidas contra Lampião. Protegendo o bandido, coagidos por seus ímpetos sanguinários ou então o fazendo por mero desforço pessoal aos policiais truculentos, os coiteiros ocultam todos os detalhes da ação do bandido; e isso dificulta extraordinariamente a captura dos miseráveis bandoleiros.

A IDEIA DO LIVRO

- E como surgiu a ideia do livro?

- Vendo o horror que afligia aquelas pobres populações senti-me na obrigação moral de, como intelectual, filho dali e partilhando daquele sofrimento, lançar um clamor e um apelo. Foi o que fiz. As notas que eu próprio tomei, foram depois completadas com as de parentes e amigos, que me merecem a mais absoluta fé. Dos próprios oficiais combatentes recebi relatórios que detalhavam a ação militar.

A amigo dedicado, velho morador de Jeremoabo, e espectador inteligente do drama, devo também muito dos informes. Esse amigo fez uma verdadeira reportagem pelo interior do sertão, falando até com o velho guerrilheiro Pedrão, sobrevivente de Canudos.

Em fins de dezembro de 31 presenciei, com os próprios olhos, o quadro que descrevi no capítulo “Êxodo”. Às cidades de Anápolis e Paripiranga, esta última uma vila baiana vizinha, vi chegarem magotes e magotes de gente expulsa dos lares sertanejos. Conversei com agigantados vaqueiros que choravam como crianças por terem deixado tudo ao léu: casa, criações, roças.

Na minha própria cidade, a principal do Estado, o bandido já tentou várias vezes entrar. Quando lá estive, noites e noites passamos sem dormir, com soldados e homens assalariados dentro de trincheiras, fuzil em punho. Os apontamentos sobre as duas visitas do facínora a Sergipe foram obtidos nas próprias cidades invadidas, de pessoas fidedignas.

Minucias do tipo físico de Lampião tive-as do meu amigo e colega Eronides de Carvalho, clínico em Aracaju, que teve o desprazer de hospedá-lo durante uma noite, em uma fazenda dos sertões de Gararu. Muitas das fotografias que estampam o livro de vítimas do bandido, foram obtidas por mim.

A SOLUÇÃO DO PROBLEMA

- E que nos diz a respeito de uma solução a esse problema angustiante do banditismo?

- A solução imediata é a morte ou prisão de Lampião, com a consequente dissolução do bando.

Posso mesmo expor aqui uma fácil comparação médica: sertão, sofredor da velha moléstia do cangaceirismo, desde longos anos, está agora, numa crise aguda a exigir uma picada de morfina que o alivie de dores cruciantes. Dando-lhe este alívio coem o extermínio de Lampião, ficará ainda a moléstia a merecer terapêutica enérgica que por uma vez, a liquide, voltando o sertão a ser o que deve ser.

Esta solução imediata só uma campanha federal poderá alcançar. Nada mais patente do que a incapacidade dos poderes estaduais, ou melhor, de todo o Nordeste congregado. É uma simples questão de meios: o governo central pode dispor de dinheiro e de força, imprimindo à campanha uma feição séria como exige o problema. Desaparecido Lampião não creio que surja outra figura que adquira a mesma aureola. Apesar dos pesares, de todo o peso das correntes que a política nos amarra aos pés, caminha-se, o sertão progride e já não é meio tão propício ao desenvolvimento do banditismo como há dez ou quinze anos atrás. Os Fords já vasculham tudo aquilo, de Sergipe a Pernambuco, trazendo as consequências civilizadoras fáceis de imaginar.

CONCLUINDO

- Com meu livro, termina o Sr. Ranulfo Prata, quis, antes de tudo, fazer obra de repercussão social.

Não me incomodei unicamente com o amontoamento dos detalhes trágicos da vida do cangaceiro, “Lampião” é um libelo, um livro que envergonha, entristece e humilha, devendo ser visto com sinceridade. É uma chaga que exponho ao sol para ver se é possível curá-la.

CONTINUA...

Fonte: facebook
Página: Antônio Corrêa Sobrinho – O Cangaço

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