Por José Cícero Silva
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Por José Cícero Silva
Por João Tavares Calixto Júnior
Na região sul cearense que compreende os municípios de Aurora e Missão Velha, tendo o distrito de Ingazeiras ao centro, começaram a surgir, no início do ano de 1921, os mesmos comentários que levaram Isaías Arruda de Figueiredo a sair de Cedro (CE): a prática de extravio de gado e saque a pequenos comércios locais.
A primeira queixa registrada após a volta do futuro mandão regional a sua terra natal, Aurora, foi a dos irmãos Moreira, já no fim de 1921, nas proximidades do distrito de Boa Esperança, hoje Iara, município de Barro (Ceará), próximo da fronteira com a Paraíba. Foi assim que se referiu a este fato o ex coletor de impostos José Soares de Gouveia, em interessante artigo sobre o cangaço no Nordeste brasileiro em "O Jornal" (Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1927, p.3):
“(...) Isaías refugiou-se então com sua família na Vila de Aurora, e inimizando-se com a família Moreira, atacou-a no povoado próximo de Boa Esperança com os seus cangaceiros. Roubou e transportou para Aurora todo o estabelecimento comercial do Sr. Antônio Moreira, que hoje cobra do Estado do Ceará 140 contos de indenização (...)”.
É importante salientar que a questão com os Moreiras se iniciou a partir de queixa prestada por Antônio Moreira, que era negociante, contra Isaías Arruda, então delegado de polícia de Aurora, o que lhe fez ser exonerado logo após isso.
Isaías supôs que o motivo da denúncia se deu em virtude de ter atirado e causado tumulto no dia da eleição, em 21 de fevereiro de 1921, o que lhe fez ter perdido o cargo, o seu primeiro emprego, na realidade.
Antônio Moreira de Oliveira era amigo e compadre do Dr. Daniel Cardoso, que havia se candidatado e perdido a eleição para deputado, ocorrida em fevereiro de 1921 e por isso ficou ressentido pelo prejuízo que este candidato sofrera (BRAZIL, 1923).
Depois disto, Isaías intrigando-se com Antônio Moreira, continuou com perseguições e hostilidades que culminaram com o saque realizado em seu comércio em dezembro de 1921. Para os Arrudas, foi este um “acerto de contas” pelo prejuízo que Moreira dera a Isaías em virtude da exoneração.
Em 6 de janeiro de 1922 Isaías Arruda entra em confronto com policiais nas proximidades do mercado público em Aurora, no que se acreditou ter sido vingança dos Moreiras, vinda de Boa Esperança.
Isaías, acusado de atentar contra a força policial da vila e contra a vida do soldado Francisco Paulino Sobrinho, viu ser aberto processo contra ele e alguns dos seus, dois dias depois; e já no dia 30, foi expedido mandado de prisão preventiva pelo suplente de juiz substituto em exercício da vila d’Aurora, Justino Alves Feitosa, o mesmo que iria ser padrinho de sua filha Orlandina, em 1924. Foram apontados, além de Isaías Arruda, o seu irmão Lino Arruda, seu primo José Cardoso de Figueiredo, seu sobrinho Manoel Furtado de Figueiredo, Antônio Padeiro, José Bernardo e Vicente do Carmo.
Cinco testemunhas foram intimadas e ouvidas neste processo: Antônio Jaime Araripe, comerciante, 29 anos de idade, natural de Jardim; Eduardo da Silva Leite, proprietário na vila d’Aurora, natural do Rio Grande do Norte; Gabino Bezerra de Barros, solteiro, comerciante, natural do Pernambuco; Alfredo de Castro Jucá, solteiro, 18 anos, comerciante, natural de Iguatu e Moisés Vilela de Oliveira, solteiro, de 32 anos, comerciante e natural da vila d’Aurora.
Após ouvidas as testemunhas, aos 13 de janeiro (1922), o promotor de justiça adjunto Emídio Cabral de Almeida resolve não dar prosseguimento à denúncia e o inquérito foi arquivado.
Nos depoimentos, informaram as testemunhas que Isaías Arruda encontrava-se na calçada dos fundos do hotel de Gabino Bezerra de Barros (hoje Av. Santos Dumont, Centro da cidade), quando se aproximaram cerca de seis soldados, que adentraram ao comércio de Gabino afim de comprarem aguardente e cigarros. Na entrada, um deles cumprimentou Isaías de forma cordial, tendo um outro, demonstrado hostilidade ao se referir a Isaías, e com isto, houve discussão seguida de troca de tiros. Foram unânimes, as testemunhas, ao se referirem à seguinte sequência de eventos:
1 – Que houve discussão na calçada de Gabino Bezerra entre Isaías e os policiais; 2 – Que houve tiros de revólver após a discussão; 3 – Que houve descarga de vários tiros de mauser e rifle; 4 – Que houve tiros nas paredes da casa de Isaías (que ficava próxima ao local do desentendimento), e que foram quebradas as portas da casa, inclusive as do interior.
Antônio Jaime Araripe, primeira testemunha a depor, informou que soube estar acompanhado de Isaías Arruda apenas o seu irmão Lino Arruda, além de Vicente do Carmo e quanto aos outros, não sabia se estavam no confronto. Gabino Bezerra afirmou que viu as mulheres da família de Isaías pedindo socorro e afirmando que não havia ninguém no interior da casa, estando elas sozinhas. Disse também que antes do tiroteio Isaías estava na casa dele, testemunha, que este estava desarmado e que depois que quebraram as portas da casa ouviu dois soldados discutindo entre si, tendo dessa discussão resultado dois tiros. Daí, segundo Gabino, chegou o tenente Raimundinho e levou os policiais para o quartel.
Moisés Vilela de Oliveira informou que na hora do crime estava na casa de Firmino Leite, quando passaram pela rua, de seis a oito soldados. Com ele, Moisés, estava José Bernardo, a quem os soldados lhe perguntaram se já era cangaceiro, ao que José Bernardo respondeu que não, dizendo aos soldados que estes tinham vindo de Boa Esperança, sob encomenda.
Pela leitura dos depoimentos das testemunhas, principalmente os de Antônio Jaime Araripe e Moisés Vilela, o promotor concluiu que a luta que travou Isaías Arruda e algumas praças do destacamento policial da vila foi provocada pelos policiais, e não por Isaías Arruda. Para o promotor, houve agressão por parte dos soldados a Isaías, o qual foi obrigado a se defender.
“A primeira testemunha alegou também que uma das praças aludidas, ao mesmo tempo que um seu companheiro dava a Isaías respeitosamente dirigia ao denunciado palavra insulta, ao que se seguiu o conflito referido, vendo-se Isaías obrigado a lançar mão de revólver para se defender. Assim sendo, impossível considerá-lo, assim como aos demais denunciados, como incursos na sanção do art. 294 do cod. Penal, combinado com o art. 13 do mesmo código.
Não se enquadra neste processo a figura jurídica do crime de tentativa de homicídio por não estar conforme a prova dos autos e pelas circunstâncias de que se cercou o fato delituoso. Nenhuma das testemunhas afirmou ter sido o soldado Francisco Paulino
Sobrinho, ferido por Isaías nem tão pouco os demais denunciados terem atacado o destacamento policial, fazendo diversas descargas de rifle. Além do mais, a 5ª testemunha depôs por ouvir dizer que depois do tiroteio houve luta entre dois soldados, os quais chegaram a atirar um contra o outro. Dou parecer, pois, que não havendo provas dos autos pelas quais se possa afirmar que os denunciados sujeitos á sanção do art. 294 do código penal combinado com o art. 13 do mesmo código, que os mesmos sejam
impronunciados, baseado não só nos depoimentos das testemunhas, como também no princípio de que na incerteza ninguém deve ser punido”. (Autos do Inquérito policial e processo-crime contra Isaías Arruda de Figueiredo e outros, Aurora, 1922, p.14-16).
No entanto, conforme consta no processo (p.2) foi procedido exame de corpo de delito no soldado Francisco Paulino Sobrinho, que era natural de Fortaleza e nada tinha de parentesco com os Paulinos de Aurora. Reinaldo Leite de Oliveira foi nomeado para proceder como escrivão ad hoc e intimar José Dias Neto e Luiz Altino de Andrade para atuarem como peritos no exame de corpo de delito, a pedido do delegado militar Crisóstomo Borges.
Em depoimento, o soldado afirma que no dia e hora já ditos, ele e outros do destacamento foram ao mercado a fim de fazerem uma refeição ao que encontraram com Isaías Arruda. Sem conhecê-lo, deu “boa noite”, ao que lhe respondeu Isaías Arruda: “Vocês sabem com quem estão falando, cachorros? ”, e foi logo sacando um revólver, de onde começou a enrasca.
De certo, não houve confronto sangrento entre Moreiras e Arrudas em 7 de janeiro de 1922, na sede da vila d’Aurora, como anunciado, inclusive, pelo próprio presidente do Estado Justiniano Serpa, que ao falar por telegrama com o Presidente da República sobre um outro episódio com tiroteio e mortes ocorrido em Lavras, justifica este, de Aurora.
Esclareça-se, aqui, que a data do confronto foi 6 de janeiro e não 7 de janeiro, no mesmo dia da hecatombe de Lavras episódio sangrento que ficou conhecido também como dia do barulho. O combate de Aurora foi travado com policiais e não com os irmãos Moreiras que, no entanto, tiveram seus nomes apontados como mandantes da vindita contra Isaías Arruda, fato este, que se utilizou o Promotor de Justiça para requerer o arquivamento do processo contra os Arrudas.
BRAZIL. Anais da Câmara dos Deputados. Congresso
Nacional, vol, 2, Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa
Nacional, 1923.
CALIXTO JÚNIOR, J.T. Vida e Morte de Isaías Arruda - Sangue dos Paulinos, abrigos de Lampião. Fortaleza, Expressão Gráfica, 2019.
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Por Geraldo Júnior
A história da passagem de Lampião pela região de Triunfo no estado de Pernambuco, contada pela Professora, pesquisadora e historiadora, Diana Rodrigues Lopes. Um relato importante sobre a passagem de Lampião por Triunfo antes e após seu ingresso no cangaço, a entrada de Luiz Pedro e Félix da Mata Redonda ou Félix Caboje no bando de Lampião, o ataque de Sabino das Abóboras à cidade, entre outros assuntos que vocês conhecerão no decorrer desse documentário. Assistam e ao final deixem seus comentários, críticas e sugestões. INSCREVAM-SE no canal e ATIVEM O SINO para receber todas as nossas atualizações.
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Por Antônio Sérgio Ribeiro*
O embarque
para o exílio
Todos permaneceram o dia 16 detidos no Paço, com soldados com baionetas e
cavalarianos cercando o prédio. Ficou acertado que no dia seguinte, domingo,
17/11, por volta das 15 h, D. Pedro II e os demais embarcariam, tendo sido
permitido a ele assistir de manhã à missa na Capela do Carmo, vizinha ao
palácio. Mas, de madrugada, o Conde d´Eu foi inesperadamente despertado com a
chegada do seu ajudante de ordens, o tenente-coronel João Nepomuceno de
Medeiros Mallet, acompanhado do brigadeiro José Simeão de Oliveira, que lhe
comunicou que o governo provisório temia o derramamento de sangue na partida da
família imperial, pois soubera que havia um grupo disposto a provocar atritos
quando da saída do monarca.
Acordado, o Imperador foi informado que deveria se vestir para embarcar.
Surpreso e revoltado, disse "que não sairia como um negro fugido...".
Mas, por volta das três da manhã, foi escoltado juntamente com a Imperatriz e
toda a família, além de alguns amigos, para o Cais Pharoux, bem atrás do Paço
Imperial, hoje Praça XV. Somente um coche negro puxado por dois cavalos estava
à disposição, onde foram os imperadores e a princesa Isabel; os demais seguiram
a pé. Uma lancha do Arsenal de Guerra, tripulada por quatro alunos da Escola
Militar, aguardava-os, sendo transportados para o pequeno cruzador Parnaíba,
apelidado de "gazela do mar", fundeado na Baía da Guanabara, próximo
à Ilha Fiscal.
Às 10 horas da manhã chegaram os três jovens príncipes, Pedro de 14 anos, Luiz
de 11 anos, e Antônio de 8 anos, que se encontravam em Petrópolis, acompanhados
pelo seu preceptor, o Barão de Ramiz Galvão, e do engenheiro André Rebouças,
amigo da família imperial, que havia subido a serra especialmente para trazer
os filhos da Redentora e do Conde D´eu. A bordo, profundamente abalada, estava
a Imperatriz D. Thereza Christina, que muito chorava; não menos comovida estava
a Princesa Isabel, mas aliviada com a chegada dos seus filhos.
O segundo decreto assinado por Deodoro concedia ao Imperador deposto uma soma
de dinheiro para sua viagem à Europa. O tenente Jerônimo Teixeira França foi
incumbido de levar esse documento do governo provisório a D. Pedro;
primeiramente deveria ser entregue no Paço, mas o major Mallet, receando que o imperador
pudesse criar algum mal estar no momento, não deixou entregá-lo, o que foi
feito somente a bordo do Parnaíba. Mas ele recusaria por mais de uma vez a
oferta monetária. Entre os poucos amigos que foram se despedir de D. Pedro II,
estava o velho almirante Joaquim Marques Lisboa, o marquês de Tamandaré.
Ao meio-dia de 17 de novembro de 1889, a embarcação sob o comando do
capitão-de-fragata José Carlos Palmeira, levantou ferros e partiu em direção a
Ilha Grande para encontrar o paquete Alagoas, da Companhia Brasileira de
Navegação a Vapor, o mais novo e moderno navio de passageiros da marinha
mercante do Brasil, que fora requisitado pelo governo republicano, para levar a
realeza destronada para o exílio na Europa, e o seu pequeno séquito. Além dos membros
da família imperial, de André Rebouças, viajaram o barão e baronesa de Loreto,
Franklin Américo de Meneses Dória, e a sua esposa Maria Amanda Lustosa
Paranaguá; o marquês e a marquesa de Muritiba, Manuel José Vieira Tosta e sua
esposa Maria José Velho de Avelar, amiga e dama da princesa Isabel; a
octogenária viscondessa de Fonseca Costa, Josefina de Fonseca Costa, dama da
Imperatriz por mais de 40 anos; o professor de línguas orientais dr. Cristian
F. Seybold; o médico do imperador Claudio Velho de Motta Maia, conde Motta
Maia, e seu filho Manoel Augusto, de 14 anos; as criadas da imperatriz Joana de
Alcântara, Leonídia L. Esposel, Ludomilla de Santa Mora, Maria da Gloria e
Julieta Alves; o criado do príncipe D. Pedro Augusto François N. Boucher; os criados
dos filhos da princesa Isabel, Eduardo Damer, e Guilherme Wagner Camerloker; o
professor dos príncipes mais novos Fritz Stoll, além de Francisco de Lemos
Faria Pereira Coutinho, o conde de Aljezur, substituindo o mordomo imperial. O
transbordo dos passageiros para o navio Alagoas foi realizado com dificuldades
e perigos de um mar agitado, sendo a Imperatriz ajudada por dois marinheiros.
O novo governo determinou que o encouraçado Riachuelo da Marinha de Guerra, sob
o comando do então Capitão-tenente Alexandrino Faria de Alencar (seria ministro
da Marinha em três governos da República), fizesse a escolta até a linha do
Equador do Alagoas, já fora de águas territoriais brasileiras. Durante a viagem
Dom Pedro notou a que a velocidade da embarcação estava muito lenta e indagou
ao comandante do navio - português, mas brasileiro por adoção -, João Maria
Pessoa, a velocidade do Riachuelo. Foi informado que era de apenas sete ou oito
milhas náutica. Apesar de não ser antigo - tinha apenas pouco mais de cinco anos
de uso - e D. Pedro II de muita boa memória, sabia que quando foi construído
sua velocidade máxima era de 16 milhas. Concluiu-se que a embarcação de guerra
estava com problemas mecânicos. Um dia o imperador reclamou ao capitão Pessoa,
e apontando ao 1º Tenente João Augusto do Amorim Rangel, oficial da Marinha que
estava a bordo para cumprir as determinações das autoridades republicanas,
juntamente com seu colega, o 2º Tenente Antônio Barbosa de Magalhães Castro:
- Diga a esse moço que vem a bordo, que se o Riachuelo é honraria, eu dispenso;
se quer dizer receio, eu não quero voltar. O Brasil não me quer, vou-me embora!
Na altura da Bahia, no dia 22 de novembro, para alívio de todos, e em especial
de D. Pedro, o Riachuelo encerrou sua missão, e deu meia volta para dirigir-se
a Salvador, e o Alagoas pode então seguir sua longa viagem, em uma velocidade
compatível com suas caldeiras.
Durante a viagem, o jovem príncipe D. Pedro Augusto, neto de D. Pedro II, e por
ele criado e pela imperatriz, desde a morte de sua mãe a princesa Leopoldina de
Bragança, quando contava com quase cinco anos de idade, começou a dar sinais de
debilidade mental. Com mania de perseguição, no seu primeiro surto psicótico,
tentou esganar o comandante do navio, a quem acusava de ter recebido dinheiro
para eliminar a todos. Contido e confinado em seu camarote, foi acometido de
delírios persecutórios, chegando a envolver seu corpo numa boia salva-vidas,
temendo que o navio fosse bombardeado. Alternando momentos de excitação e de
letargia, Pedro Augusto jogava garrafas ao mar com pedidos de socorro. Pelo
menos uma dessas mensagens, foi encontrada na praia de Maragogi, próximo a
Maceió, em Alagoas. Posteriormente seu pai, o príncipe austríaco Luís Augusto
de Saxe-Coburgo-Gota, o internou primeiro em Graz, e depois em um sanatório em
Tülln an der Donau, onde permaneceu por quarenta anos, até sua morte em 1934.
No dia 1º dezembro, houve uma parada para reabastecimento em São Vicente, no
arquipélago de Cabo Verde, uma possessão portuguesa, no oceano Atlântico,
próxima da costa africana. Os passageiros foram autorizados a descer, e foram
visitar alguns pontos da cidade, incluindo uma igreja, onde rezaram. Dessa
escala, foi içada na popa do Alagoas uma bandeira imitando o "M" do
Código Internacional de Sinais, com o fundo completamente vermelho e sobre
filetes brancos as 21 estrelas em filete azul, sendo a estrela do centro maior.
Essa bandeira foi entregue em alto mar pelo comandante do Riachuelo ao capitão
Pessoa, como símbolo do novo regime brasileiro. A nova bandeira iria causar uma
quase crise com Portugal, que determinou a sua retirada por não ser reconhecida
de acordo com as normas internacionais. Para evitar maiores problemas, o
governo provisório brasileiro determinou que durante a permanência do navio em
águas portuguesas não fosse arvorado nenhum pavilhão.
Quando da partida do Alagoas, o navio da marinha portuguesa Bartolomeu Dias,
que estava no porto, deu uma salva de 21 tiros de canhão. Nesse momento, foi
içada a bandeira do Império, e todos que estavam a bordo, se levantaram e
bateram palmas, alguns emocionados até as lágrimas. Da embarcação lusitana e de
alguns navios alemães que ali se encontravam, tripulantes e passageiros
sacudiram lenços brancos. No dia seguinte, foi comemorado a bordo o 64º
aniversário do Imperador, que ficou muito comovido ao ouvir as palavras de
saudação do comandante Pessoa em sua homenagem, quando este ergueu um brinde,
ao lado dos presentes. D. Pedro respondeu com palavras trêmulas:
- Bebo a prosperidade do Brasil!
Em Portugal
Em 7 de dezembro, com a bandeira do Império tremulando no mastro, o Alagoas
finalmente chegou a Lisboa. D. Pedro foi recebido com honras por seu sobrinho
D. Carlos, e toda a corte portuguesa. Permaneceu na capital lusitana por 15
dias. Nesse curto período, visitou o túmulo de seu pai D. Pedro I (D. Pedro IV
para os portugueses), na Igreja de São Vicente de Fora, onde rezou, e
depositou, no mesmo local, uma coroa de flores no túmulo do Rei Luís,
recentemente falecido, tendo participado de uma missa em intenção da alma desse
seu sobrinho. Foi a escolas superiores, associações científicas, como o Museu
do Carmo, a Escola Politécnica, o Curso Superior de Letras, onde assistiu
aulas, o bairro lisboeta da Alfama, o Jardim Zoológico, a Escola Médica, o
Hospital São José, a Academia de Ciências, o Mosteiro dos Jerônimos, onde
colocou uma coroa no túmulo do poeta e escritor português Alexandre Herculano,
e no hotel onde ficou, recebeu algumas visitas. Esteve também nos palácios das
Necessidades, residência dos reis de Portugal, e de Queluz, em Sintra. Nesse
permaneceu em silêncio por muito tempo, meditando, diante da cama aonde havia
falecido seu pai. Esteve ainda na Ajuda, palácio real de verão, e em Belém,
residência oficial dos príncipes reais, para retribuir as visitas do Rei e da
família real portuguesa fizeram no hotel Bragança, onde estava hospedado com
sua família e comitiva.
Seu sobrinho D. Carlos seria coroado rei de Portugal em 28 de Dezembro, e D.
Pedro resolveu então realizar uma visita à região do Minho, no norte do país.
No dia 22, chegou a Coimbra, sendo recepcionado pelos estudantes e professores
da velha universidade, e depois seguiu para a cidade do Porto. Seu único
intuito era não perturbar os festejos reais. No Porto, enquanto visitava a
Academia de Belas-Artes, no mesmo dia 28, a imperatriz D. Thereza Christina,
com a saúde debilitada, sofrendo de bronquite, amargurada e abalada com a
situação causada com a proclamação da República, e o consequente exílio,
faleceu repentinamente, aos 67 anos de idade. Avisado do grave estado, retornou
rapidamente ao hotel, mas quando chegou sua companheira por longos 46 anos,
estava morta. Sua tristeza foi profunda; em silêncio, chorou a partida de sua
amada Thereza Christina. Sua filha Isabel, com seu marido Conde D´Eu, e seus
filhos tinham ido à Espanha visitar os tios, os condes de Montpensier que lá
residiam, e retornaram a Portugal assim que receberam a notícia do passamento
da imperatriz.
O corpo de D. Thereza Christina, depois de embalsamado, e velado na igreja da
Lapa - local onde permanece guardado o coração do imperador do Brasil, D. Pedro
I - foi transportado de trem do Porto para Lisboa e depositado no Panteão dos
Braganças na Igreja de São Vicente de Fora, ao lado da segunda imperatriz do
Brasil, D. Amélia, com a presença da família real portuguesa, e autoridades.
Após os funerais de sua esposa, permaneceu poucos dias em Lisboa, seguindo para
a França, hospedando-se em Cannes, para fugir do forte inverno europeu.
Exílio e morte do imperador
Menos de dois anos depois, o Imperador se encontrava em Paris, para participar
das sessões do Instituto de França, na Academia de Ciências, da qual era sócio.
Em 24 de novembro, foi fazer um passeio em carruagem aberta até Saint-Cloud,
nas margens do rio Sena, onde apesar do frio do inverno resolveu fazer uma
caminhada. No dia seguinte, amanheceu febril, contraindo um forte resfriado e
seu estado de saúde foi se agravando.
O último imperador do Brasil veio a falecer aos vinte minutos do dia 5 de dezembro
de 1891, vitimado por uma pneumonia aguda no pulmão esquerdo, em um modesto
quarto do Hotel Bedford, três dias após completar 66 anos de idade.
D. Pedro II, em seu leito de morte, estava vestido com o uniforme de marechal
do Exército imperial brasileiro, com as condecorações do Brasil, França,
Portugal, e um crucifixo em suas mãos, que havia recebido do Papa Leão XIII. Um
livro, significando que descansava sobre o conhecimento, foi colocado embaixo
do seu travesseiro com terra de todas as províncias (hoje estados) brasileiras.
Um pedido que havia deixado por escrito.
O governo francês resolveu prestar as últimas homenagens de Estado ao Imperador
brasileiro, e comunicou à princesa Isabel que aceitou as honras oficiais, mas o
governo brasileiro protestou por essa atitude. No Brasil, ao saberem da morte
do antigo monarca, o comércio fechou as portas, e várias missas foram
realizadas por sua alma por todo o país.
O corpo embalsamado do imperador foi levado para a Igreja da Madalena, situada
perto da Praça da Concórdia, a poucos passos do hotel onde morreu. Ao meio dia
de 9 de dezembro, com o caixão coberto com a bandeira do Império brasileiro,
colocado em um catafalco elevado na nave da igreja, foi celebrada as exéquias
solenes, pelo arcebispo de Paris, com a igreja totalmente lotada, e a presença
da Casa Militar do presidente da França, Sadi Carnot, que o representou. Além
dos presidentes da Câmara e do Senado da República francesa, esteve presente o
cônsul-geral de Portugal em Paris, o escritor Eça de Queiroz, todo o corpo
diplomático, dentre inúmeras autoridades.
Pelas ruas de Paris, 80 mil homens das tropas francesas participaram das
honras. O coche fúnebre, puxado por oito cavalos cobertos de negro, foi
escoltado pela guarda republicana, acompanhado por uma banda de música militar
tocando a marcha fúnebre de Chopin, e nada menos que 300 mil pessoas, apesar do
frio, foram prestar as homenagens a D. Pedro II. Quando o cortejo passou pela
Praça da Concórdia, foram prestadas as honras militares, e uma bateria de
artilharia deu as salvas de estilo. O corpo foi transportado em um trem
especial para Lisboa, com uma parada em Madrid, onde a Casa Real espanhola
prestou também suas homenagens. Em Lisboa, o rei D. Carlos, toda sua família, o
ministério, altas autoridades, e milhares de pessoas participaram também das
honras e despedidas ao velho imperador brasileiro. Na igreja de São Vicente de
Fora, o cardeal Dom José Sebastião de Almeida Neto, Patriarca de Lisboa,
recebeu o esquife. Depois de rezada uma missa, o corpo do Imperador foi
colocado ao lado da imperatriz Thereza Christina, no panteão da família
Bragança.
No governo Epitácio Pessoa, em 1920, foi revogado o decreto de banimento da
família imperial, e no ano seguinte a bordo do encouraçado São Paulo, da Marinha
de Guerra, os restos mortais de D. Pedro II e de D. Thereza Christina foram
trazidos para o Brasil. No ano de 1939, foram finalmente depositados em um
túmulo especialmente construído na catedral de Petrópolis, no estado do Rio de
Janeiro, em solenidade presidida pelo então presidente Getúlio Vargas.
*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É diretor do Departamento de
Documentação e Informação da ALESP.
https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=346367
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