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terça-feira, 24 de novembro de 2020

90 ANOS DA MORTE DE ISAIAS ARRUDA

 Por José Cícero Silva

Cel Isaias Arruda de Figueiredo

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Na última quarta-feira, dia 8 de agosto completaram-se os 90 anos do célebre e terrível assassinato do Cel. ISAÍAS ARRUDA DE FIGUEIREDO ocorrido na Estação do trem de Aurora. Episódio do dia 4 de agosto de 1928 tendo o coronel morrido quatro dias após(8 de agosto do ano predito). Pondo um fim a uma rixa histórica entre os Arrudas e os irmãos paulinos. 
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Iniciado com a morte do chefe João Paulino um ano antes, o episódio continua até hoje sendo um dos mais marcantes e também palpitantes casos que compõem as narrativas historiográficas do Cariri. Por conta disso, o pesquisador do cangaço, meu amigo Jair Tavares, radicado em João Pessoa na Paraíba me propôs um "desafio", quer seja, que eu escrevesse uma carta fictícia e literária como se fosse do punho do próprio cel. Isaías. A fim de comemorar os 90 anos da morte do caudilho caririense; filho de Aurora e então prefeito de Missão Velha. De bom grado, aceitei o desafio de produzir literariamente e do meu jeito, a tal missiva.De cara, um dos maiores coiteiros de Lampião no Cariri que, inclusive, patrocinou e ajudou a arquitetar a trama Lampiônica com vistas à invasão de Mossoró, um ano antes da sua morte. Vejamo-la a seguir... 
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Pesquisador e escritor José Cícero Silva
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"Meus amigos!
Deixai que o tempo e a história pacientemente julguem ao seu modo, todos os seus homens, porque os homens de carne e osso, até hoje e em geral são lobos e inimigos de si mesmos. Por conta disso, sequer com um pingo de justiça e de juízo, jamais conseguiram julgar ninguém.
Apenas vinte e oito anos de vida eu vivi. Tive o tempo necessário para alcançar na vida, o que a eternidade da história exigiu de mim. No fundo eu sei, que o preço que sempre se paga quando não se é compreendido por mais que se queira é demasiado.,, Ainda, deveras grande, o castigo de ter que aprender com seus próprios erros na vida e com os lajedos quentes em que se pisa, a robustez da alma e dos sentimentos. Crescer nas agruras e nunca reclamar em vão da dor. Tampouco, não se entristecer tão fácil diante dos sofrimentos mais agudos. Nunca abdicar de fazer o que por necessidade já se parece imperioso e preciso. E assim a alma da gente se depura, eu imagino, nada temi no mundo, senão a falsidade dos amigos que, acaso confiei em qualquer momento. E que eu diria ainda agora, que me foram tão poucos e muito caro.
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Viver é isso. Quer seja, provar o tempo todo deste risco iminente que nos ronda dia e noite como um cão danado latindo alto no nosso quengo. Como igualmente, desse gosto amargo que nos molha a língua o tempo todo. Fel e sangue que nos enchem a boca justamente nos momentos mais difíceis e determinantes, tanto na sobrevivência do dia a dia, quanto no derradeiro instante. Quando nos afirmamos ou nos arrependemos do que fizemos.Travei o bom combate do meu jeito. Diria que, a ferro e fogo. Sem nunca dizer “amém” ao tal destino que pela vida inteira me fizera acreditar que estávamos para todo o sempre condenados ao sofrer, sem dó nem piedade. Há quem diga que fui por todos estes anos, um inveterado fazedor de inimigos. Mas não. Eu apenas me fiz respeitar e, quando preciso usei dos meus métodos mais ferrenhos. Impus aos inimigos as regras duras e infalíveis do meu jogo. Quem assim mesmo me desafiou e decidiu por jogar comigo, sabia disso. Perdi muito pouco. Como pouco ou quase nada foi a minha disposição para aprender o sentido de qualquer derrota.
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Sempre soube que na vida tudo tem um preço. Vencer a qualquer custo foi sempre o meu prumo. Mas somente diante do esforço e do trabalho empreendido. Conquanto, foi este o meu maior desiderato. O meu sentido prática de estar de fato vivo e útil entre os cães do mundo. Nunca dormi em paz com qualquer desaforo não resolvido, 'freviando' na minha cabeça como piolho. Não gosto de senti minha alma em parafuso. Resolvi todos eles sempre no calor dos próprios fatos acontecidos. Pois, para mim desaforo é comida que se come quente. Porque depois dá congestão e bucho inchado. 
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Penso que, ‘perder’ ficou mesmo para os fracos. Os piedosos desmiolados. Os ingratos. Os preguiçosos. Os covardes. Os que em vão imaginam ainda agora com medo dos pecados, aplacar nos seus corpos frágeis as próprias chagas de Cristo. E que por conta disso, se puseram de joelhos diante dos seus impiedosos carrascos. Todos aqueles para quem a vida não passara de uma noite insone de 'malassombro' e medo. Os que se deram ao sofrimento mundano como algo predeterminado e merecido. Os vassalos ingênuos. Os que se acostumaram demais com o sofrimento a guisa de castigo merecido. Os que se benzem até diante de jumentos mancos quando passam pelas encruzilhadas dos caminhos.
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Não fui bandido como dizem. Fiz-me forte apenas com as armas que estavam ao meu alcance para assim não ser tragado por toda sorte de violência dos poderosos. Os que nunca me aceitaram como um deles, sequer em fazer uso da tal alcunha de “coronel”. Uma eguagem sem tamanho. Porque muito mais que o “coronel” sisudo gritou forte dentro de mim a voz altiva do jovem homem sobremaneira indignado com as mentiras, as injustiças, a violência e a dureza bruta de uma realidade no mais das vezes, fabricada de propósito para oprimir os que a desdita da vida já os oprimiam além da conta..
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Jagunços de Isaías Arruda, sob o comando de Zé Gonçalves
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Lutei, portanto, com unhas e dentes, contra a minha sina e a imposição dos que se achavam grandes o suficiente para querer escravizar as gentes desse meu mundo chamado sertão. Os que mais sofriam pagando, inclusive, o alto preço por se manterem vivos e abnegados sobre aquele ressequido chão. Eis a maldição de nascença a que todos os miseráveis dos sertões, acreditavam estar, de algum modo condenados. E assim, me impus ao suposto determinismo da ordem natural das coisas. Não me deixando jamais ser escravo de seu ninguém. Principalmente quando me dei conta de que o paraíso prometido pela resignação dos sertanejos, não estava noutro lugar, senão ali mesmo, onde eles todos sofriam. Fiz, portanto, o que foi preciso para conquistar o meu lugar no tal paraíso. Quem sabe, um pacto de sangue com o ser esperançoso que habitava minhas entranhas. 
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Nunca culpei ninguém(senão eu mesmo) pelas escolhas ou pelas lutas que enfrentei. Nem Deus, nem os santos, nem os anjos, nem o diabo. Sempre fui o principal sujeito de todos os meus atos. Êxito ou fracasso há de ser tão somente uma questão de tempo e de oportunidade. Só a essência das coisa me interessavam. Confesso até que me dei bem, com as opções que fiz e as decisões que tomei. Tive sucesso na minha ousada empreitada de quase três décadas de existência terrena. Quis rapidamente concretizar todos os projetos que sonhei. Tomei gosto pela coisa.,, Segui em frente a passos largos. Acho até que perdi por algum momento a exata noção do limite na dimensão do meu próprio tempo. Tinha pressa de viver e de conquistar o quanto antes, o galardão a que me propus buscar.
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Juntei num só espaço ousadia, inteligência e coragem. Logo progredi, ao tempo que também comecei a colher os meus primeiros frutos e um montão de inimigos(diga-se de passagem). Despertei o ódio e a inveja de muitos ricos da região. Minha fama começou a romper fronteiras. De modo que precisei arregimentar de chofre, a minha proteção. Foi o que fiz desde então. Crie também meu bando de proteção pessoal. Cresci num tempo e num ambiente onde não era comum sequer acreditar nos sonhos. Onde e quando só se podia ser grande de verdade pela força do dinheiro, da violência e do poder político. Custei um pouco para aprender tudo aquilo. Mas, logo superei todos os demais...
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De menino pobre, filho de roceiro esquecido no oco do mundo; lavador de cavalo dos potentados nas águas do rio Salgado durante as missas dos sábados e nas feiras do domingo; cheguei ao posto de delegado. Tendo aprendido a ler por mim mesmo, quase num piscar de olhos orientado pelos padres que vinham para Aurora nas festas do padroeiro.
Nasci e cresci às margens do rio Salgado. Tempos difíceis aqueles. Mas o destino havia me reservado algo. Até o dia que um juiz da capital, sob o pedido de um influente padre me fizera delegado. E eu correspondi bem neste ofício. Muito aprendi e em seguida me rebelei pela primeira vez no mundo. Revoltei-me contra tudo o que eu até então achava injusto, mentiroso e errado. Terminei assim por acabar uma eleição na bala, na terra em que nasci. Perdi por causa disso o meu primeiro emprego. Corri para não morrer. Fui me esconder na vila do Juazeiro. Aproveitei para pedir conselhos ao padre Cícero. Disse-me que eu não era disso. Pediu-me prudência e eu, nem mesmo um resto de fé tinha mais para lhe oferecer. Logo em seguida terminei por me fixar em Missão Velha. Julguei ser ali um bom lugar. Fiz amigos, correligionários e levei parentes para lá morar.
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José Cícero mostrando a Fazenda Ipueiras no Cariri Cangaço Aurora
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Fui um homem de diálogos. Fiz contatos. Peguei o trem, fui à capital. Falei de eleição e de inusitados projetos políticos. Gostaram de mim. Estariam do meu lado(claro) sempre que eu vencesse. Já me era algo. 
Voltei animado, com novo fôlego e até com um pouco mais de prestígio e de dinheiro na algibeira. Refleti assim que cheguei. Conclui que precisava de uma pequena guerra para alicerçar de vez a minha paz. Uma ferroada de marimbondo, quem sabe, para o necessário despertar dos adormecidos dos grotões. As armas de fogo eu conseguiria fácil na terra do padre. Lá eu fiz alguns amigos que também se aliaram ao meu propósito. Mas tudo estava guardado no mais completo dos segredos. Correram-se os dias, finalmente.
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Tudo o mais era mistério. Quase um previsível milagre dos acontecimentos; fácil como se fosse mel de engenho a escorrer aos poucos pelos dedos sujos de doce dos meninos. Chegara por fim o momento oportuno que eu tanto queria.Logo percebi que pelo Estado inteiro o poder da força também estava a fazer seus prefeitos. E, decerto, vi que nenhuma lei se rebelava contra aqueles novos acontecimentos. Estava aberta a porta que me levaria ao paraíso ou até mesmo ao inferno que eu não mais desejava. Não poderia eu, perder a única chance da vida de montar de vez a mula selada que passava a minha frente. Não titubiei. Criei coragem. A sorte estava lançada. Naquele instante, não cabia em meus planos de conquistas o medo da vida e nem da morte. Não podia mais retornar. 
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Não sei se porventura Deus naquela hora decisiva me olhava. Mas penso que ele depois me batera palma. Pois, nenhum homem que se preza pode mentir para si mesmo sobre as coisas que confia e acredita. E Deus sabia disso, em relação a mim. Minha sinceridade era do conhecimento dele...Fui em frente. Sem, no entanto, perder mais tempo com questões relacionadas ao sagrado ou ao profano. Porque na história o que mais interessa é o próprio homem.Acerquei-me de armas, de cobre e de alguns amigos que confiei naquele instante. Parti. Fui aos finalmente. Expulsei os dirigentes. Destitui sem muito diálogo e com a persuasão de alguns tiros o cel. Senhor Dantas do comando da cidade. E não o que acaso o povo possa pensar dele em qualquer tempo. De repente, estava eu prefeito. Mas não esqueçam! Em seguida fui eleito.
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Bando de Lampião em Limoeiro no retorno a invasão mal lograda a Mossoró
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Fortaleza me deu votos de parabéns e eu, me animei. Abiscoitei rapidamente fama e prestígio. Acreditei na razão da força do meu juízo para amestrar do meu jeito, a ignorância dos homens. Estava fascinado pela primeira vez com o poder que conquistei. Desde então, não sei por que cargas d’água todos passaram de repente a me chamar de coronel. Achei esquisito, mas asseguro-lhes que gostei.Choveu em meu entorno novos amigos e, com os quais, também a proporção numérica dos meus inflexíveis inimigos. Mas eu nunca confiei sem as devidas reservas em nenhum deles. Nem nos que me diziam amigos sendo inimigos, tampouco nos que, mesmo sendo inimigos, às vezes me eram mais dignos e mais sinceros do que aqueles. Razão porque até hoje desconheço qualquer homem sábio que seja feliz e viva bem sem ter que conquistar a duras penas seus verdadeiros inimigos íntimos. 
A meu ver, são um desastre, todos os que imaginam que ao seu redor só existem amigos. Confiar na lealdade no escuro é um tremendo perigo. Um pecado. Uma estupidez sem tamanho. Os que assim pesam estão definitivamente fadados ou ao fracasso ou quando muito ao anonimato.o
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Na função de prefeito, depressa me tornei fazendeiro. Dono de terras. Criador de gado, produtor de cereais. Diria que um homem relativamente rico com tino para ganhar dinheiro nos negócios. Quase um predestinado como diria mais a diante governo.Como disse, quando me senti invejado e perseguido pela ira dos inimigos criei meu bando de proteção. Jagunços mesmo... Mas modestamente disciplinados sob as duras ordens do seu comandante. Todos bem pagos, confesso, pelos bons serviços prestados. Muito melhor do que os que uma vez compunham o bando do tal Cel. Zé Inácio. Confiei o comando ao amigo Zé Gonçalves. Um dos homens mais inteligentes e leais que conheci na vida. Que mesmo sem nenhum estudo sabia muito e, muito igualmente, aprendi com ele. Ademais, quem foi bom vaqueiro na caatinga braba deste mundo haveria de ser também um bom condutor de homens rudes. E o foi sem par. Muito do que fiz confidencie(quando deu) com ele.
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Ainda quanto ao bando, não nego que à distância fizeram aqui acolá algumas estripulias. Algumas sem o meu apreço ou conhecimento. Outras com meu crivo quando era absolutamente necessário. Como da vez que puseram fogo e destruíram a ponte do trem no Olho d’água nas proximidades de Ingazeiras. posto que mexeram comigo os chefetes da RVC e ainda cometeram a desfeita de romper o contrato sobre o fornecimento de madeira que firmamos. Como ainda, se negaram a pagar o resto do dímetro que me deviam por direito.
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Por conta disso fiquei de mal com o então governo que prometera me processar e retaliou o diabo a quatro. Uma vez tive que expulsar do bando, alguns cabras por andarem brigando, criando problemas sem ser preciso...O grupo também se precipitara quando resolveu dá cabo do João Paulino - chefe dos irmãos Paulinos d'Aurora. Mas nada disso me impôs medo. Toda minha vida foi administrar conflitos e desafiar mim mesmo..Ninguém me amou no mundo, além da minha Estelita com quem casei no início da década de 20 na Aurora. Além da minha pequenina Orlandina, minha filha. Só por causa delas, vez por outra, sentir o raro temor de morte repentina. No mais, posso dizê-los que o cangaceirismo entrou na minha vida mais por acaso do que por necessidade. Foi, por assim dizer, um acidente de percurso. Ou ainda, um ato falho. Mas, tudo o que foi é porque era mesmo para ter sido.  

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Explico: o bando que formei para me proteger dos inimigos em umas das suas incursões mais distantes terminou por conhecer outras gentes por aí, Assim, me trazendo notícias de Décio Holanda do Pereiro, Júlio Porto e Massilon. Por sinal, foi por intermédio deste último, que acabei por conhecer o próprio Lampião. Num encontro acertado numa manhã de sábado na fazenda Ipueiras de minha propriedade na Aurora, confiada aos cuidados de Zé Cardoso, meu parente.
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Massilon
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Nada se diz, mas naquela reunião havia mais gente interessada no lucrativo negócio de invadir Mossoró. Uma empreitada que não geraria apenas lucros financeiros, mas acertos de contas, desejo de vingança e muitos dividendos políticos para tantos outros no seu entorno.Após a reunião predita, Lampião, homem experiente, não quis ficar na referida fazenda. Segundo ele, seria um alvo fácil para os seus perseguidores(as volantes que vinha desde Mossoró no seu encalço). De fato, a fazenda(Ipueiras) ficava bem nas proximidades da cidade. Preferiu então, o capitão, o seu antigo coito... Um esconderijo estratégico bem no alto do inóspito serrote do Diamante, sob os prestimosos cuidados do vaqueiro Miguel Saraiva.Pediram-me para aquela empreitada, além de homens, alguns animais de monta, armas, munição e dinheiro. Acenei com tudo. Apenas solicitei que mantivessem segredo, isto é, deixassem meu nome distante dos acontecimentos.

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Final de junho quando, enfim, partiu o bando sob o comando do afamado rei do cangaço. Nem sei como o capitão Virgulino se deixou levar pela conversa mole daquele tal de Massilon Leite. Um aventureiro falastrão querendo ser jagunço a pulso, porém, mais parecia um caixeiro-viajante tangedor de burros e jogador de carteado. Penso, contudo, que o capitão fora mais por curiosidade de conhecer de perto em seus meandros as terras do riogrande, do que pelo dinheiro que lhe prometeram.
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Em meu compromisso firmado sob a forma de patrocínio vos garanto, não tive nenhuma culpa pelo ocorrido, visto que eu também fui convidado e, por isso mesmo enganado acerca de um suposto lucro fácil. Além de prestar favor a uns amigos distantes. Emprestei meu dinheiro, pouco mais de 30 contos de réis contados, com a garantia de que era um investimento exitoso e seguro. Não tive outro interesse na tal invasão da povoação potiguar. Nem tampouco, do que fizera antes pelos caminhos, Massilon aquele mentiroso desgraçado.
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Naquele fatídico dia 13 estava eu em Missão Velha onde era prefeito. Fiquei sabendo dias depois pelo trem, acerca grande ato malogrado. Não esperei muito. Antecipei-me aos fatos logo que percebi que Lampião estava em perigo e uma vez acuado pelas volantes de três estados, voltaria certamente para o coito da Ipueiras e Diamante.  


Peguei o trem. Rumei para à capital. Fui ter com Moreirinha meu aliado político; chefe do Governo, então presidente do Ceará. Novamente expliquei-lhe meus planos. Ele aquiesceu deveras comigo. 
 
Agora, além de livrar meus couros do fracasso iminente de Lampião com seu bando, negociei outros possíveis lucros com o Governo. Moreira da Rocha tinha interesse em dizer para todos que deu cabo dos facínoras e temíveis bandoleiros nordestinos. Os jornais da época não falavam de outra coisa.De modo que deixou tudo a cargo do major Moises, curiosamente, meu parente.
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Casa do Cel Isaías Arruda em Missão Velha
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Voltei. Dei ordem à Cardoso. Falei-lhe dos últimos acontecimentos e das consequências do tal fracasso. Era teimoso. Não achou razoável a linha dos procedimentos. Pensava como Moises. Tinham eles, uma outra linha de raciocínio. O major pedira-me num bilhete rabiscado; que eu me aquietasse e deixasse as coisas sob seu tirocínio. Mantive-me mesmo assim preocupado com o ocorrido. Não me agastei. Retornei à Missão Velha. Deixei que Viana o agente da RVC de Aurora me pusesse a par de todos os vindouros acontecimentos. Voltei de troler já que não era mais prudente esperar o trem do outro dia. Eu precisava correr contra o tempo...Foi o que fiz. Depois de Limoeiro, a coisa ficou mais preta. Jornais davam conta de que a morte ou prisão de Lampião se daria a qualquer momento. ‘Mas o homi era muito esperto, um verdadeiro preá das caatingas’. De todos os fogos e dos piquetes, malgrado os pouquíssimos homens que ainda lhe restaram e, acossados pelo cansaço, a fome e a pouca munição, ele ainda assim saíra ileso de todos os conflitos. Mesmo em absoluta desvantagem de armas e de homens. Era de fato, insuperável na sangrenta batalha do seu mundo catingueiro. Não dava tiro à toa. Munição pra ele naquele momento era ouro.
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Como supus, vinha mesmo na direção da Aurora. Atravessara por fim, a serra da Várzea Grande. Venceu o fogo que se deu no Ribeiro no riacho do Bordão do Velho. Amanheceu com seus cabras já nas matas seguras da Ipueiras. Mas, deixei ali tudo pronto.O trem da volante já estava estacionado na estação esperando Lampião e seus comandados, vivos ou mortos. Major Moises ainda se mantinha distante demais do palco do conflito. Nascera o novo dia...E quando enfim, o sol apontou seus primeiros raios: Um intenso tiroteio deu as boas-vindas para o bando. Lampião gritou: - Fomos traídos cambada! Viva Jesus Cristo e o padre Cícero do Juazeiro! E os cangaceiros em uníssono lhe responderam: - Não temos medo. Deus seja louvado, capitão! Em disparada corriam atirando pra todos os lados. E, quanto ao veneno, aquilo foi ideia de Miguel, o tal vaqueiro.Porém, esperto demais, Lampião não caiu em nenhuma dos engôdos tramados. Quando se deu conta dos tiros e, em seguida do incêndio no baixio; empreendeu fuga com seus homens pela margem direita do velho açude. Cardoso depois me contou tudo em detalhes...
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Danado. O major ainda continuava longe demais dos fatos concretos.De certo modo, fiquei feliz em saber da fuga do capitão, que não nego, era meu amigo. Fui seu coiteiro, afora esta vez, asseguro, ele nunca foi embora sem me deixar um bom dinheiro. Não me enraivo quando me chamam de bandido, mas juro que me dói por dentro quando me têm como traidor e covarde. Não foi nada disso, eu vos prometo que não minto. Em nome de Deus ou dos seiscentos diabos! Perdi um amigo. Acrescentei na minha lista mais um considerado inimigo de vulto e peso.Deixei-lhe até uma carta escrita contando tudo(tim tim por tim tim) sobre o meu aperreio e tudo o mais que se passou comigo. O portador, uma ex-vaqueiro das Emboscadas não chegou a tempo de entregá-lo no cruzamento da linha do trem depois da Ingazeiras pras bandas do Morro Dourado, quando Lampião fugia na direção de Milagres e Mauriti rumando, enfim, na direção Conceição de Piancó na Paraíba.
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Adailton Macedo e José Cícero no Cariri Cangaço Aurora

Nunca mais o vi. Apenas tive aqui acolá, algumas notícias vagas dando conta da sua passagem pelo Coité, dizendo um dia se vingar de mim. Um padre foi quem me trouxe este recado. Desde então me preparei pra isso. Fiquei de olho na Lagoa do Mato na serra da Goianinha.Não sei até hoje se por conta de tudo disso, posso dizer seguramente, que estou em paz com Deus e com os homens. Só sei que a vida não me foi tarefa fácil. Foi preciso ser fogo e pedra para conseguir chegar aonde cheguei. Isso é fato.E, não obstante todos estes acontecimentos fatídicos, como então se daria a história do fim? Passei o resto daquele ano remoendo estes tormentos. Veio o ano de 28, meados dos meses de julho e agosto... A velha rixa com os Paulinos e os Santos da Aurora não me deu nenhuma trégua. Parecia um imbróglio que não tinha mais fim.Quando parava e se arrefecia um pouco era porque estava a tomar novo fôlego. Eu tinha efetivamente que preparar chumbo grosso.Viana sempre me cobria de informações e de cuidados enviando-me recados escritos, ou notícias pelo código Morse da estação do trem. Adoecera naqueles dias o agente.
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Eu não via poder de fogo nos Paulinos. Faltavam-lhes um pouco mais de coragem e muito dinheiro. Contudo, é mister saber que os grandes inimigos nunca dormem. E eu os subestimei neste quesito, pois nunca é prudente permitir que os inimigos se reúnam contra a gente sem uma peleja atras da outra. Havia uma trégua estranha.Os paulinos foram usados por muitos dos meus inimigos, inclusive gente grande daqui e do além-fronteira.Tudo parecia tranquilo. Porém nunca gostei quando avistava um céu de chumbo no horizonte. Nem urubus brincando sobre minha cabeça. Mais uma vez viajei à capital. Tinha muitos negócios a resolver. Dias tranquilos aqueles. Edifiquei grandes obras sociais na Missão Velha. Novos correligionário estavam do meu lado. Estava feliz, como nunca estive.Na volta de Fortaleza contabilizei bons lucros, inclusive políticos. Namorei, visitei amigos. Esqueci um pouco das intrigas da minha vida cotidiana. Vinha na companhia dos primos.Viana há dias que não fora ao trabalho na estação do trem. Estava doente me disseram o cobrador e o maquinista. Fiquei assim sem suas notícias acerca do que se passava na terrinha. Alheio demais dos acontecimentos.
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Estelita tinha até pedido para que eu deixasse a política e fôssemos morar de vez na Fortaleza. Que eu poderia me tornar na terra de Alencar um grande comerciante. Fiquei de pensar qualquer dia em tudo aquilo. Ela adorava contemplar o mar. Era filha daquele litoral bonito. 
Nossa filhinha Orlandina haveria de crescer muito bem, sob os ventos saudáveis e frescos do grande mar. E aprender muitas letras. Pensei nisso durante a viagem. Queria mudar meu rumo e fazer novos planos...Mas não é tão fácil assim a gente não ter que aceitar de bom grado o seu destino. Cochilei um pouco. Nem vi quando passei nas Lavras. Só despertei no riacho fundo(na pequena estação do Iborepi). Em seguida, fiquei tagarelando umas amenidades que não lembro. Quando me dei conta o trem já adentrava a bela paisagem de Aurora ladeada pelo rio que parecia correr ao contrário do trem. Na estação de Aurora eu iria descer tomar um café e talvez rever algum amigo.
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José Cícero Silva mostra o local onde Isaías foi baleado na Estação da RVC em Aurora, aos pesquisadores, Sousa Neto, Bosco André e Manoel Severo
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De repente, quando o trem ainda deslizava sobre os trilhos. Um barulho de gente... Senti um cutucão na constela. Outro e mais outros. Seguida de uma sensação de frio e um formigamento na barriga. Um afã no peito. Uma tontura. Um repentino cansaço. Uma falta de ar. Um gosto diferente na boca.Quando em seguida, vi a cor do meu próprio sangue pintando de vermelho a parte inferior do linho meu terno cinza. Fortes pisadas sobre o assoalho do vagão onde eu estava. Som de batidas nos acentos. Uma correria. Uma gritaria de gente dizendo: - É tiro, é tiro!
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Tentei pegar a arma que eu trazia comigo. Não deu tempo. Tampouco tive a força necessária em minha mão para segurá-la no tempo devido. Pela janela vi o meu primo correndo na direção da rua. Estava em perseguição dos meus agressores. Meus antigos inimigos aurorenses.
Tentei sair da ali. Mas foi em vão. Apenas alguns passos na direção da porta de acesso à plataforma... Sustentado sob os braços das pessoas desci do trem. Puseram-me sobre a pedra morna da velha estação que muitas vezes pisei altivo com meus passos firmes. Estava então abatido como um pássaro canoro em seus últimos estertores. Mas eu estava calmo. Não era medo o que eu sentia naquele instante. Era saudade e desilusão da vida. E, assim mesmo sob a rês do chão ainda enxerguei, ao nível dos sapatos e dos chinelos da multidão que me cercava o céu do mundo daquela Aurora pela última vez.Roucamente com a voz cansada ainda expressei: - Covardes, covardes! Ao que respondeu meu outro primo: - Foram os paulinos Isaías, foram os paulinos. – Mas eles vão pagar por isso, completou.
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Estação da RVC em Aurora, cenário da morte de Isaias
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Ainda vi também o farmacêutico dizendo: - “o estado do coronel é grave. Chamem depressa o dr. Sérgio Banhos de Iguatu. Avise ao pessoal de Missão Velha. Pois estar muito grave o coronel. Mas ele é jovem há de aguentar, quem sabe.” dissera ele.Quase sem visão, ainda me foi possível vislumbrar o meu velho amigo Augusto Jucá, pedindo para que me levassem para a sua casa. Depois adormeci. Sem senti nenhuma dor. Apenas com uma sensação estranha de quem ia morrer assim, tranquilamente, logo que os olhos se fechassem e quando dormisse. Dormi suavemente...Era uma tarde morna do dia 4 de agosto de 1928. Um ano de muitas mudanças em que todas as promessas acumuladas por minha vida inteira iriam ser realizadas de vez em minhas mãos. Estava disposto a mudar.
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Nada mais que se diga. Nada puderam fazer os dois médicos(Banhos e Antenor) que me assistiram durante os quatro dias que ainda tive de vida. Durante todos aqueles dias, homens disfarçados de bêbados retirantes, mendigos e de vendedores de cavalos ficaram pelos arredores da cidade, bem como no entorno da estação e da residência em que eu me encontrava moribundo. Homens dispostos e de confiança armados até os dentes, com a missão de garantir a minha segurança e, que também tentaram vingar a minha desdita.No dia oito daquele mês, o bando estava pronto para invadir pela região de Ingazeiras o lugar onde moravam meus assassinos. Mas, minha familiar ordenou que não.
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Dona Orlandina, filha de Isaías Arruda, entre os Conselheiros do Cariri Cangaço; 
Bosco André, Manoel Severo e Aderbal Nogueirao
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Parti finalmente às 6h da manhã do dia 8 de agosto daquele ano. Meu corpo foi de troler para Missão Velha onde uma multidão entristecida me esperava pela derradeira vez na mesma estação em que tantas vezes cheguei com boas notícias e grandes novidades. Fui sepultado à tardinha após a missa, no antigo cemitério da terra em que fui prefeito e que também amei.Quis o destino, todavia, que na mesma terra em que nasci se findassem os meus dias. Foi assim que tudo aconteceu de verdade. Tudo o mais, ou é incompreensão subjetiva dos fatos ou pura má-fé dos que não aceitaram até agora o necessário acerto de contas do passado com o presente e o futuro, sob o pano de fundo da história.E lá se foram 90 anos...Ainda tem quem não acredite na eternidade. Um forte abraço, de algum lugar no passado.
Cel Isaías Arruda de Figueiredo"

José Cícero, poeta, pesquisador e escritor
Secretário de Cultura de Aurora
Conselheiro do Cariri Cangaço
Aurora – CE.

http://cariricangaco.blogspot.com/2018/08/90-anos-da-morte-de-isaias-arruda.html

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

O CANGACEIRISMO E A RIXA ENTRE "ARRUDAS" E "MOREIRAS" EM AURORA - CE (1921-1922).

 Por João Tavares Calixto Júnior

Na região sul cearense que compreende os municípios de Aurora e Missão Velha, tendo o distrito de Ingazeiras ao centro, começaram a surgir, no início do ano de 1921, os mesmos comentários que levaram Isaías Arruda de Figueiredo a sair de Cedro (CE): a prática de extravio de gado e saque a pequenos comércios locais.

A primeira queixa registrada após a volta do futuro mandão regional a sua terra natal, Aurora, foi a dos irmãos Moreira, já no fim de 1921, nas proximidades do distrito de Boa Esperança, hoje Iara, município de Barro (Ceará), próximo da fronteira com a Paraíba. Foi assim que se referiu a este fato o ex coletor de impostos José Soares de Gouveia, em interessante artigo sobre o cangaço no Nordeste brasileiro em "O Jornal" (Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1927, p.3):

“(...) Isaías refugiou-se então com sua família na Vila de Aurora, e inimizando-se com a família Moreira, atacou-a no povoado próximo de Boa Esperança com os seus cangaceiros. Roubou e transportou para Aurora todo o estabelecimento comercial do Sr. Antônio Moreira, que hoje cobra do Estado do Ceará 140 contos de indenização (...)”.

É importante salientar que a questão com os Moreiras se iniciou a partir de queixa prestada por Antônio Moreira, que era negociante, contra Isaías Arruda, então delegado de polícia de Aurora, o que lhe fez ser exonerado logo após isso.

Isaías supôs que o motivo da denúncia se deu em virtude de ter atirado e causado tumulto no dia da eleição, em 21 de fevereiro de 1921, o que lhe fez ter perdido o cargo, o seu primeiro emprego, na realidade.

Antônio Moreira de Oliveira era amigo e compadre do Dr. Daniel Cardoso, que havia se candidatado e perdido a eleição para deputado, ocorrida em fevereiro de 1921 e por isso ficou ressentido pelo prejuízo que este candidato sofrera (BRAZIL, 1923).

Depois disto, Isaías intrigando-se com Antônio Moreira, continuou com perseguições e hostilidades que culminaram com o saque realizado em seu comércio em dezembro de 1921. Para os Arrudas, foi este um “acerto de contas” pelo prejuízo que Moreira dera a Isaías em virtude da exoneração.

Coronel Isaías Arruda

Em 6 de janeiro de 1922 Isaías Arruda entra em confronto com policiais nas proximidades do mercado público em Aurora, no que se acreditou ter sido vingança dos Moreiras, vinda de Boa Esperança.

Isaías, acusado de atentar contra a força policial da vila e contra a vida do soldado Francisco Paulino Sobrinho, viu ser aberto processo contra ele e alguns dos seus, dois dias depois; e já no dia 30, foi expedido mandado de prisão preventiva pelo suplente de juiz substituto em exercício da vila d’Aurora, Justino Alves Feitosa, o mesmo que iria ser padrinho de sua filha Orlandina, em 1924. Foram apontados, além de Isaías Arruda, o seu irmão Lino Arruda, seu primo José Cardoso de Figueiredo, seu sobrinho Manoel Furtado de Figueiredo, Antônio Padeiro, José Bernardo e Vicente do Carmo.

Cinco testemunhas foram intimadas e ouvidas neste processo: Antônio Jaime Araripe, comerciante, 29 anos de idade, natural de Jardim; Eduardo da Silva Leite, proprietário na vila d’Aurora, natural do Rio Grande do Norte; Gabino Bezerra de Barros, solteiro, comerciante, natural do Pernambuco; Alfredo de Castro Jucá, solteiro, 18 anos, comerciante, natural de Iguatu e Moisés Vilela de Oliveira, solteiro, de 32 anos, comerciante e natural da vila d’Aurora.

Após ouvidas as testemunhas, aos 13 de janeiro (1922), o promotor de justiça adjunto Emídio Cabral de Almeida resolve não dar prosseguimento à denúncia e o inquérito foi arquivado.

Nos depoimentos, informaram as testemunhas que Isaías Arruda encontrava-se na calçada dos fundos do hotel de Gabino Bezerra de Barros (hoje Av. Santos Dumont, Centro da cidade), quando se aproximaram cerca de seis soldados, que adentraram ao comércio de Gabino afim de comprarem aguardente e cigarros. Na entrada, um deles cumprimentou Isaías de forma cordial, tendo um outro, demonstrado hostilidade ao se referir a Isaías, e com isto, houve discussão seguida de troca de tiros. Foram unânimes, as testemunhas, ao se referirem à seguinte sequência de eventos:

1 – Que houve discussão na calçada de Gabino Bezerra entre Isaías e os policiais; 2 – Que houve tiros de revólver após a discussão; 3 – Que houve descarga de vários tiros de mauser e rifle; 4 – Que houve tiros nas paredes da casa de Isaías (que ficava próxima ao local do desentendimento), e que foram quebradas as portas da casa, inclusive as do interior.

Antônio Jaime Araripe, primeira testemunha a depor, informou que soube estar acompanhado de Isaías Arruda apenas o seu irmão Lino Arruda, além de Vicente do Carmo e quanto aos outros, não sabia se estavam no confronto. Gabino Bezerra afirmou que viu as mulheres da família de Isaías pedindo socorro e afirmando que não havia ninguém no interior da casa, estando elas sozinhas. Disse também que antes do tiroteio Isaías estava na casa dele, testemunha, que este estava desarmado e que depois que quebraram as portas da casa ouviu dois soldados discutindo entre si, tendo dessa discussão resultado dois tiros. Daí, segundo Gabino, chegou o tenente Raimundinho e levou os policiais para o quartel.

Moisés Vilela de Oliveira informou que na hora do crime estava na casa de Firmino Leite, quando passaram pela rua, de seis a oito soldados. Com ele, Moisés, estava José Bernardo, a quem os soldados lhe perguntaram se já era cangaceiro, ao que José Bernardo respondeu que não, dizendo aos soldados que estes tinham vindo de Boa Esperança, sob encomenda.

Pela leitura dos depoimentos das testemunhas, principalmente os de Antônio Jaime Araripe e Moisés Vilela, o promotor concluiu que a luta que travou Isaías Arruda e algumas praças do destacamento policial da vila foi provocada pelos policiais, e não por Isaías Arruda. Para o promotor, houve agressão por parte dos soldados a Isaías, o qual foi obrigado a se defender.

“A primeira testemunha alegou também que uma das praças aludidas, ao mesmo tempo que um seu companheiro dava a Isaías respeitosamente dirigia ao denunciado palavra insulta, ao que se seguiu o conflito referido, vendo-se Isaías obrigado a lançar mão de revólver para se defender. Assim sendo, impossível considerá-lo, assim como aos demais denunciados, como incursos na sanção do art. 294 do cod. Penal, combinado com o art. 13 do mesmo código.

Não se enquadra neste processo a figura jurídica do crime de tentativa de homicídio por não estar conforme a prova dos autos e pelas circunstâncias de que se cercou o fato delituoso. Nenhuma das testemunhas afirmou ter sido o soldado Francisco Paulino

Sobrinho, ferido por Isaías nem tão pouco os demais denunciados terem atacado o destacamento policial, fazendo diversas descargas de rifle. Além do mais, a 5ª testemunha depôs por ouvir dizer que depois do tiroteio houve luta entre dois soldados, os quais chegaram a atirar um contra o outro. Dou parecer, pois, que não havendo provas dos autos pelas quais se possa afirmar que os denunciados sujeitos á sanção do art. 294 do código penal combinado com o art. 13 do mesmo código, que os mesmos sejam

impronunciados, baseado não só nos depoimentos das testemunhas, como também no princípio de que na incerteza ninguém deve ser punido”. (Autos do Inquérito policial e processo-crime contra Isaías Arruda de Figueiredo e outros, Aurora, 1922, p.14-16).

No entanto, conforme consta no processo (p.2) foi procedido exame de corpo de delito no soldado Francisco Paulino Sobrinho, que era natural de Fortaleza e nada tinha de parentesco com os Paulinos de Aurora. Reinaldo Leite de Oliveira foi nomeado para proceder como escrivão ad hoc e intimar José Dias Neto e Luiz Altino de Andrade para atuarem como peritos no exame de corpo de delito, a pedido do delegado militar Crisóstomo Borges.

Em depoimento, o soldado afirma que no dia e hora já ditos, ele e outros do destacamento foram ao mercado a fim de fazerem uma refeição ao que encontraram com Isaías Arruda. Sem conhecê-lo, deu “boa noite”, ao que lhe respondeu Isaías Arruda: “Vocês sabem com quem estão falando, cachorros? ”, e foi logo sacando um revólver, de onde começou a enrasca.

De certo, não houve confronto sangrento entre Moreiras e Arrudas em 7 de janeiro de 1922, na sede da vila d’Aurora, como anunciado, inclusive, pelo próprio presidente do Estado Justiniano Serpa, que ao falar por telegrama com o Presidente da República sobre um outro episódio com tiroteio e mortes ocorrido em Lavras, justifica este, de Aurora.

Esclareça-se, aqui, que a data do confronto foi 6 de janeiro e não 7 de janeiro, no mesmo dia da hecatombe de Lavras episódio sangrento que ficou conhecido também como dia do barulho. O combate de Aurora foi travado com policiais e não com os irmãos Moreiras que, no entanto, tiveram seus nomes apontados como mandantes da vindita contra Isaías Arruda, fato este, que se utilizou o Promotor de Justiça para requerer o arquivamento do processo contra os Arrudas.

BRAZIL. Anais da Câmara dos Deputados. Congresso

Nacional, vol, 2, Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa

Nacional, 1923.

CALIXTO JÚNIOR, J.T. Vida e Morte de Isaías Arruda - Sangue dos Paulinos, abrigos de Lampião. Fortaleza, Expressão Gráfica, 2019.

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LIVRO "LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS"


Depois de onze anos de pesquisas e mais de trinta viagens por sete Estados do Nordeste, entrego afinal aos meus amigos e estudiosos do fenômeno do cangaço o resultado desta árdua porém prazerosa tarefa: Lampião – a Raposa das Caatingas. 

Lamento que meu dileto amigo Alcino Costa não se encontre mais entre nós para ver e avaliar este livro, ele que foi meu maior incentivador, meu companheiro de inesquecíveis e aventurosas andanças pelas caatingas de Poço Redondo e Canindé. 

Este livro – 740 páginas – tem como fio condutor a vida do cangaceiro Lampião, o maior guerrilheiro das Américas. Analisa as causas históricas, políticas, sociais e econômicas do cangaceirismo no Nordeste brasileiro, numa época em que cangaceiro era a profissão da moda. Os fatos são narrados na sequência natural do tempo, muitas vezes dia a dia, semana a semana, mês a mês. Destaca os principais precursores de Lampião. 

Conta a infância e juventude de um típico garoto do sertão chamado Virgulino, filho de almocreve, que as circunstâncias do tempo e do meio empurraram para o cangaço. Lampião iniciou sua vida de cangaceiro por motivos de vingança, mas com o tempo se tornou um cangaceiro profissional – raposa matreira que durante quase vinte anos, por méritos próprios ou por incompetência dos governos, percorreu as veredas poeirentas das caatingas do Nordeste, ludibriando caçadores de sete Estados. 

O autor aceita e agradece suas críticas, correções, comentários e sugestões: josebezerra@terra.com.br (71)9240-6736 - 9938-7760 - 8603-6799 

Pedidos via internet: 

 franpelima@bol.com.br 
Mastrângelo (Mazinho), baseado em Aracaju: 
Tel.: (79)9878-5445 - (79)8814-8345 E-mail: lampiaoaraposadascaatingas@gmail.com 

 Clique no link abaixo para você acompanhar tantas outras informações sobre o livro. 

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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

LIVRO “O SERTÃO ANÁRQUICO DE LAMPIÃO”, DE LUIZ SERRA

 

Sobre o escritor

Licenciado em Letras e Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Linguagem Psicopedagógica na Educação pela Cândido Mendes do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Português Aplicado do Distrito Federal e assessor de revisão de textos em órgão da Força Aérea Brasileira (Cenipa), do Ministério da Defesa, Luiz Serra é militar da reserva. Como colaborador, escreveu artigos para o jornal Correio Braziliense.

Serviço – “O Sertão Anárquico de Lampião” de Luiz Serra, Outubro Edições, 385 páginas, Brasil, 2016.

O livro está sendo comercializado em diversos pontos de Brasília, e na Paraíba, com professor Francisco Pereira Lima.

franpelima@bol.com.br

Já os envios para outros Estados, está sendo coordenado por Manoela e Janaína,pelo e-mail: 


Coordenação literária: Assessoria de imprensa: Leidiane Silveira – (61) 98212-9563 


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LAMPIÃO E O CANGAÇO EM TRIUNFO - PERNAMBUCO.

 Por Geraldo Júnior

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Cangaçologia

A história da passagem de Lampião pela região de Triunfo no estado de Pernambuco, contada pela Professora, pesquisadora e historiadora, Diana Rodrigues Lopes. Um relato importante sobre a passagem de Lampião por Triunfo antes e após seu ingresso no cangaço, a entrada de Luiz Pedro e Félix da Mata Redonda ou Félix Caboje no bando de Lampião, o ataque de Sabino das Abóboras à cidade, entre outros assuntos que vocês conhecerão no decorrer desse documentário. Assistam e ao final deixem seus comentários, críticas e sugestões. INSCREVAM-SE no canal e ATIVEM O SINO para receber todas as nossas atualizações. 

Forte abraço, cabroeira! 

Atenciosamente: 

Geraldo Antônio de Souza Júnior - Criador e administrador do canal.

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15 DE NOVEMBRO DE 1889, A REPÚBLICA NO BRASIL

Por  Antônio Sérgio Ribeiro*

Dom Pedro II e dona Thereza Cristina em 1888

O embarque para o exílio

Todos permaneceram o dia 16 detidos no Paço, com soldados com baionetas e cavalarianos cercando o prédio. Ficou acertado que no dia seguinte, domingo, 17/11, por volta das 15 h, D. Pedro II e os demais embarcariam, tendo sido permitido a ele assistir de manhã à missa na Capela do Carmo, vizinha ao palácio. Mas, de madrugada, o Conde d´Eu foi inesperadamente despertado com a chegada do seu ajudante de ordens, o tenente-coronel João Nepomuceno de Medeiros Mallet, acompanhado do brigadeiro José Simeão de Oliveira, que lhe comunicou que o governo provisório temia o derramamento de sangue na partida da família imperial, pois soubera que havia um grupo disposto a provocar atritos quando da saída do monarca.

Acordado, o Imperador foi informado que deveria se vestir para embarcar. Surpreso e revoltado, disse "que não sairia como um negro fugido...". Mas, por volta das três da manhã, foi escoltado juntamente com a Imperatriz e toda a família, além de alguns amigos, para o Cais Pharoux, bem atrás do Paço Imperial, hoje Praça XV. Somente um coche negro puxado por dois cavalos estava à disposição, onde foram os imperadores e a princesa Isabel; os demais seguiram a pé. Uma lancha do Arsenal de Guerra, tripulada por quatro alunos da Escola Militar, aguardava-os, sendo transportados para o pequeno cruzador Parnaíba, apelidado de "gazela do mar", fundeado na Baía da Guanabara, próximo à Ilha Fiscal.

Às 10 horas da manhã chegaram os três jovens príncipes, Pedro de 14 anos, Luiz de 11 anos, e Antônio de 8 anos, que se encontravam em Petrópolis, acompanhados pelo seu preceptor, o Barão de Ramiz Galvão, e do engenheiro André Rebouças, amigo da família imperial, que havia subido a serra especialmente para trazer os filhos da Redentora e do Conde D´eu. A bordo, profundamente abalada, estava a Imperatriz D. Thereza Christina, que muito chorava; não menos comovida estava a Princesa Isabel, mas aliviada com a chegada dos seus filhos.

O segundo decreto assinado por Deodoro concedia ao Imperador deposto uma soma de dinheiro para sua viagem à Europa. O tenente Jerônimo Teixeira França foi incumbido de levar esse documento do governo provisório a D. Pedro; primeiramente deveria ser entregue no Paço, mas o major Mallet, receando que o imperador pudesse criar algum mal estar no momento, não deixou entregá-lo, o que foi feito somente a bordo do Parnaíba. Mas ele recusaria por mais de uma vez a oferta monetária. Entre os poucos amigos que foram se despedir de D. Pedro II, estava o velho almirante Joaquim Marques Lisboa, o marquês de Tamandaré.

Ao meio-dia de 17 de novembro de 1889, a embarcação sob o comando do capitão-de-fragata José Carlos Palmeira, levantou ferros e partiu em direção a Ilha Grande para encontrar o paquete Alagoas, da Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, o mais novo e moderno navio de passageiros da marinha mercante do Brasil, que fora requisitado pelo governo republicano, para levar a realeza destronada para o exílio na Europa, e o seu pequeno séquito. Além dos membros da família imperial, de André Rebouças, viajaram o barão e baronesa de Loreto, Franklin Américo de Meneses Dória, e a sua esposa Maria Amanda Lustosa Paranaguá; o marquês e a marquesa de Muritiba, Manuel José Vieira Tosta e sua esposa Maria José Velho de Avelar, amiga e dama da princesa Isabel; a octogenária viscondessa de Fonseca Costa, Josefina de Fonseca Costa, dama da Imperatriz por mais de 40 anos; o professor de línguas orientais dr. Cristian F. Seybold; o médico do imperador Claudio Velho de Motta Maia, conde Motta Maia, e seu filho Manoel Augusto, de 14 anos; as criadas da imperatriz Joana de Alcântara, Leonídia L. Esposel, Ludomilla de Santa Mora, Maria da Gloria e Julieta Alves; o criado do príncipe D. Pedro Augusto François N. Boucher; os criados dos filhos da princesa Isabel, Eduardo Damer, e Guilherme Wagner Camerloker; o professor dos príncipes mais novos Fritz Stoll, além de Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho, o conde de Aljezur, substituindo o mordomo imperial. O transbordo dos passageiros para o navio Alagoas foi realizado com dificuldades e perigos de um mar agitado, sendo a Imperatriz ajudada por dois marinheiros.

O novo governo determinou que o encouraçado Riachuelo da Marinha de Guerra, sob o comando do então Capitão-tenente Alexandrino Faria de Alencar (seria ministro da Marinha em três governos da República), fizesse a escolta até a linha do Equador do Alagoas, já fora de águas territoriais brasileiras. Durante a viagem Dom Pedro notou a que a velocidade da embarcação estava muito lenta e indagou ao comandante do navio - português, mas brasileiro por adoção -, João Maria Pessoa, a velocidade do Riachuelo. Foi informado que era de apenas sete ou oito milhas náutica. Apesar de não ser antigo - tinha apenas pouco mais de cinco anos de uso - e D. Pedro II de muita boa memória, sabia que quando foi construído sua velocidade máxima era de 16 milhas. Concluiu-se que a embarcação de guerra estava com problemas mecânicos. Um dia o imperador reclamou ao capitão Pessoa, e apontando ao 1º Tenente João Augusto do Amorim Rangel, oficial da Marinha que estava a bordo para cumprir as determinações das autoridades republicanas, juntamente com seu colega, o 2º Tenente Antônio Barbosa de Magalhães Castro:

- Diga a esse moço que vem a bordo, que se o Riachuelo é honraria, eu dispenso; se quer dizer receio, eu não quero voltar. O Brasil não me quer, vou-me embora!

Na altura da Bahia, no dia 22 de novembro, para alívio de todos, e em especial de D. Pedro, o Riachuelo encerrou sua missão, e deu meia volta para dirigir-se a Salvador, e o Alagoas pode então seguir sua longa viagem, em uma velocidade compatível com suas caldeiras.

Durante a viagem, o jovem príncipe D. Pedro Augusto, neto de D. Pedro II, e por ele criado e pela imperatriz, desde a morte de sua mãe a princesa Leopoldina de Bragança, quando contava com quase cinco anos de idade, começou a dar sinais de debilidade mental. Com mania de perseguição, no seu primeiro surto psicótico, tentou esganar o comandante do navio, a quem acusava de ter recebido dinheiro para eliminar a todos. Contido e confinado em seu camarote, foi acometido de delírios persecutórios, chegando a envolver seu corpo numa boia salva-vidas, temendo que o navio fosse bombardeado. Alternando momentos de excitação e de letargia, Pedro Augusto jogava garrafas ao mar com pedidos de socorro. Pelo menos uma dessas mensagens, foi encontrada na praia de Maragogi, próximo a Maceió, em Alagoas. Posteriormente seu pai, o príncipe austríaco Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, o internou primeiro em Graz, e depois em um sanatório em Tülln an der Donau, onde permaneceu por quarenta anos, até sua morte em 1934.

No dia 1º dezembro, houve uma parada para reabastecimento em São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, uma possessão portuguesa, no oceano Atlântico, próxima da costa africana. Os passageiros foram autorizados a descer, e foram visitar alguns pontos da cidade, incluindo uma igreja, onde rezaram. Dessa escala, foi içada na popa do Alagoas uma bandeira imitando o "M" do Código Internacional de Sinais, com o fundo completamente vermelho e sobre filetes brancos as 21 estrelas em filete azul, sendo a estrela do centro maior. Essa bandeira foi entregue em alto mar pelo comandante do Riachuelo ao capitão Pessoa, como símbolo do novo regime brasileiro. A nova bandeira iria causar uma quase crise com Portugal, que determinou a sua retirada por não ser reconhecida de acordo com as normas internacionais. Para evitar maiores problemas, o governo provisório brasileiro determinou que durante a permanência do navio em águas portuguesas não fosse arvorado nenhum pavilhão.

Quando da partida do Alagoas, o navio da marinha portuguesa Bartolomeu Dias, que estava no porto, deu uma salva de 21 tiros de canhão. Nesse momento, foi içada a bandeira do Império, e todos que estavam a bordo, se levantaram e bateram palmas, alguns emocionados até as lágrimas. Da embarcação lusitana e de alguns navios alemães que ali se encontravam, tripulantes e passageiros sacudiram lenços brancos. No dia seguinte, foi comemorado a bordo o 64º aniversário do Imperador, que ficou muito comovido ao ouvir as palavras de saudação do comandante Pessoa em sua homenagem, quando este ergueu um brinde, ao lado dos presentes. D. Pedro respondeu com palavras trêmulas:

- Bebo a prosperidade do Brasil!

Em Portugal

Em 7 de dezembro, com a bandeira do Império tremulando no mastro, o Alagoas finalmente chegou a Lisboa. D. Pedro foi recebido com honras por seu sobrinho D. Carlos, e toda a corte portuguesa. Permaneceu na capital lusitana por 15 dias. Nesse curto período, visitou o túmulo de seu pai D. Pedro I (D. Pedro IV para os portugueses), na Igreja de São Vicente de Fora, onde rezou, e depositou, no mesmo local, uma coroa de flores no túmulo do Rei Luís, recentemente falecido, tendo participado de uma missa em intenção da alma desse seu sobrinho. Foi a escolas superiores, associações científicas, como o Museu do Carmo, a Escola Politécnica, o Curso Superior de Letras, onde assistiu aulas, o bairro lisboeta da Alfama, o Jardim Zoológico, a Escola Médica, o Hospital São José, a Academia de Ciências, o Mosteiro dos Jerônimos, onde colocou uma coroa no túmulo do poeta e escritor português Alexandre Herculano, e no hotel onde ficou, recebeu algumas visitas. Esteve também nos palácios das Necessidades, residência dos reis de Portugal, e de Queluz, em Sintra. Nesse permaneceu em silêncio por muito tempo, meditando, diante da cama aonde havia falecido seu pai. Esteve ainda na Ajuda, palácio real de verão, e em Belém, residência oficial dos príncipes reais, para retribuir as visitas do Rei e da família real portuguesa fizeram no hotel Bragança, onde estava hospedado com sua família e comitiva.

Seu sobrinho D. Carlos seria coroado rei de Portugal em 28 de Dezembro, e D. Pedro resolveu então realizar uma visita à região do Minho, no norte do país. No dia 22, chegou a Coimbra, sendo recepcionado pelos estudantes e professores da velha universidade, e depois seguiu para a cidade do Porto. Seu único intuito era não perturbar os festejos reais. No Porto, enquanto visitava a Academia de Belas-Artes, no mesmo dia 28, a imperatriz D. Thereza Christina, com a saúde debilitada, sofrendo de bronquite, amargurada e abalada com a situação causada com a proclamação da República, e o consequente exílio, faleceu repentinamente, aos 67 anos de idade. Avisado do grave estado, retornou rapidamente ao hotel, mas quando chegou sua companheira por longos 46 anos, estava morta. Sua tristeza foi profunda; em silêncio, chorou a partida de sua amada Thereza Christina. Sua filha Isabel, com seu marido Conde D´Eu, e seus filhos tinham ido à Espanha visitar os tios, os condes de Montpensier que lá residiam, e retornaram a Portugal assim que receberam a notícia do passamento da imperatriz.

O corpo de D. Thereza Christina, depois de embalsamado, e velado na igreja da Lapa - local onde permanece guardado o coração do imperador do Brasil, D. Pedro I - foi transportado de trem do Porto para Lisboa e depositado no Panteão dos Braganças na Igreja de São Vicente de Fora, ao lado da segunda imperatriz do Brasil, D. Amélia, com a presença da família real portuguesa, e autoridades. Após os funerais de sua esposa, permaneceu poucos dias em Lisboa, seguindo para a França, hospedando-se em Cannes, para fugir do forte inverno europeu.

Exílio e morte do imperador

Menos de dois anos depois, o Imperador se encontrava em Paris, para participar das sessões do Instituto de França, na Academia de Ciências, da qual era sócio. Em 24 de novembro, foi fazer um passeio em carruagem aberta até Saint-Cloud, nas margens do rio Sena, onde apesar do frio do inverno resolveu fazer uma caminhada. No dia seguinte, amanheceu febril, contraindo um forte resfriado e seu estado de saúde foi se agravando.

O último imperador do Brasil veio a falecer aos vinte minutos do dia 5 de dezembro de 1891, vitimado por uma pneumonia aguda no pulmão esquerdo, em um modesto quarto do Hotel Bedford, três dias após completar 66 anos de idade.

D. Pedro II, em seu leito de morte, estava vestido com o uniforme de marechal do Exército imperial brasileiro, com as condecorações do Brasil, França, Portugal, e um crucifixo em suas mãos, que havia recebido do Papa Leão XIII. Um livro, significando que descansava sobre o conhecimento, foi colocado embaixo do seu travesseiro com terra de todas as províncias (hoje estados) brasileiras. Um pedido que havia deixado por escrito.

O governo francês resolveu prestar as últimas homenagens de Estado ao Imperador brasileiro, e comunicou à princesa Isabel que aceitou as honras oficiais, mas o governo brasileiro protestou por essa atitude. No Brasil, ao saberem da morte do antigo monarca, o comércio fechou as portas, e várias missas foram realizadas por sua alma por todo o país.

O corpo embalsamado do imperador foi levado para a Igreja da Madalena, situada perto da Praça da Concórdia, a poucos passos do hotel onde morreu. Ao meio dia de 9 de dezembro, com o caixão coberto com a bandeira do Império brasileiro, colocado em um catafalco elevado na nave da igreja, foi celebrada as exéquias solenes, pelo arcebispo de Paris, com a igreja totalmente lotada, e a presença da Casa Militar do presidente da França, Sadi Carnot, que o representou. Além dos presidentes da Câmara e do Senado da República francesa, esteve presente o cônsul-geral de Portugal em Paris, o escritor Eça de Queiroz, todo o corpo diplomático, dentre inúmeras autoridades.

Pelas ruas de Paris, 80 mil homens das tropas francesas participaram das honras. O coche fúnebre, puxado por oito cavalos cobertos de negro, foi escoltado pela guarda republicana, acompanhado por uma banda de música militar tocando a marcha fúnebre de Chopin, e nada menos que 300 mil pessoas, apesar do frio, foram prestar as homenagens a D. Pedro II. Quando o cortejo passou pela Praça da Concórdia, foram prestadas as honras militares, e uma bateria de artilharia deu as salvas de estilo. O corpo foi transportado em um trem especial para Lisboa, com uma parada em Madrid, onde a Casa Real espanhola prestou também suas homenagens. Em Lisboa, o rei D. Carlos, toda sua família, o ministério, altas autoridades, e milhares de pessoas participaram também das honras e despedidas ao velho imperador brasileiro. Na igreja de São Vicente de Fora, o cardeal Dom José Sebastião de Almeida Neto, Patriarca de Lisboa, recebeu o esquife. Depois de rezada uma missa, o corpo do Imperador foi colocado ao lado da imperatriz Thereza Christina, no panteão da família Bragança.

No governo Epitácio Pessoa, em 1920, foi revogado o decreto de banimento da família imperial, e no ano seguinte a bordo do encouraçado São Paulo, da Marinha de Guerra, os restos mortais de D. Pedro II e de D. Thereza Christina foram trazidos para o Brasil. No ano de 1939, foram finalmente depositados em um túmulo especialmente construído na catedral de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em solenidade presidida pelo então presidente Getúlio Vargas.

*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É diretor do Departamento de Documentação e Informação da ALESP.

https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=346367

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