A relação de
poder existente entre homem/mulher no cangaço foi de dependência; a cangaceira
era associada ao companheiro seja enquanto mulher, companheira ou amante. O que
resume a ideia de pertencimento a alguém e todo universo moral da religião
católica; do poder econômico de homens sobre mulheres. Fora ou dentro do
cangaço, elas tinham que enfrentar a tirania da moral conservadora do seu
tempo.
O caso da
sergipana Cristina, de Português é emblemático. A chegada à
fazenda onde morava de um bando de homens jovens e bem armados, trajes exóticos
e exibindo joias despertou a empatia nas moças do lugar. Ganhar o mundo, ser
livre e correr riscos eram sonhos de muitas mocinhas, e Cristina pensava assim.
Ela mesma
assediou e se ofereceu ao cangaceiro Português, chefe de bando, para
segui-lo, tipo “amor à primeira vista”. Nos dias atuais, Cristina seria
aceita e passaria por mulher liberada, e do tipo modelo de passarela: alta,
magra, de sobrancelhas e olhos marcantes, cabelos pretos e bastante compridos.
Mas seu comportamento
liberal não se enquadrava no padrão feminino da sua época. Seu espírito de
mulher livre incomodava, tornou-se perigoso.
Além de Português, Cristina passou
a se relacionar com o cangaceiro Gitirana, descrito como moreno escuro e
poeta repentista e por isso mesmo bom de papo.
O formidável
escritor Antônio Amaury conta o desfecho desse triângulo amoroso:
Durante uma
reunião dos bandos de Lampião e Corisco, em Alagoas, “Português cochichou
algumas palavras ao ouvido do seu cabra de confiança chamado Catingueira e se
afastou”. Este gesto despertou a atenção e desconfiança de Corisco e Dadá.
“Vai ter
coisa”,disse Corisco para Dadá.
Cristino,
o Diabo Loiro, conhecia o seu gado. O cangaceiro Catingueira era
cabra de confiança de Português, pois a mando deste, eliminara à
traição Marreca, um desafeto.
Rapidamente,
ao perceber a artimanha, Corisco interveio.
- Que é
isso boi do cu branco, quer matar meu rapaz? Você está pensando que vai fazer
aqui o que fez com Marreca? Você não é homem para atirar num rapaz meu! Advertiu Corisco.
Se instalou um
clima barra pesada entre os bandos. Todos de armas engatilhadas.
Nesse momento
então, Lampião, o capo di tutti capi que acompanhava a confusão
de longe, resolveu intervir. Com os ânimos controlados, se instalou o tribunal
de inquisição e de justiçamento.
A
própria Maria Bonita, mulher do chefe maior, não teve uma atitude de
sororidade para com Cristina, pois deu seu voto favorável à sua execução
sumária. Mas Corisco se posicionou contra.
- Ela deu o
que era dela, ninguém tem nada com isso, argumentou Corisco.
Maria
Bonita, incisiva, expressou sua posição favorável a Português.
- É, mas
desse jeito, Português vai ficar desmoralizado”, replicou Maria
Bonita.
E Corisco foi
para a tréplica.
- Ele que
cuida da mulher dele; do meu rapaz cuido eu!
Agindo feito
um magistrado, Lampião que acompanhava tudo em silêncio, deu a sentença final.
- Compadre
Corisco está com a razão, Português que cuide de Cristina, que é a mulher dele
e Corisco faz o que quiser com Gitirana, disse Virgulino para arrematar:
- Já está
tudo se acabando na boca dos fuzis das volantes, e nós ainda vamos dar esse
gosto a eles de se matar uns aos outros?
A solução
encontrada foi devolver Cristina à família. Ela ganhou roupas novas
confeccionadas por Dadá, que coseu dinheiro na barra da saia da moça e ela
partiu a cavalo escoltada por um coiteiro de confiança.
Não demorou
muito, o dito coiteiro retornou às pressas, sozinho, ao bando com um relato
trágico.
- Capitão,
foi uma desgraça! Na beira do caminho saltaram, de repente, Luiz Pedro, Juriti
e o Cadeeiro, que nos obrigaram saltar dos cavalos. Cristina implorou, chorou,
pediu por todos os santos, mas não teve jeito, disse o coiteiro.
Para a
execução da cangaceira, os três carrascos alegaram que Cristina poderia
ser capturada e delataria os pontos e coitos dos bandos.
A moça que
sonhava correr o mundo em liberdade, foi morta a facadas, a sangue frio.
Já uma certa
Maria, do cangaceiro pancada Pancada, quase teve o mesmo destino de
Cristina; ela é mostrada de forma preconceituosa numa biografia curta e
machista, além de ser descrita como “fogosa” e por conta de suas múltiplas
relações com outros cangaceiros, quase foi executada por Corisco.
Em seu socorro
acudiu Dadá e Maria recebeu como punição a expulsão do
bando e devolvida para casa dos pais.
Tal qual Maria
Fernandes, de Juriti, que também foi devolvida à família, durante o
período das entregas, sob a alegação do cangaceiro de que a moça não era mais
virgem quando ele a "conheceu biblicamente".
Essa Maria
de Juriti durou apenas 3 meses no cangaço, esteve em Angico, e foi
salva pelo próprio Juriti, que a arrastou pelos cabelos durante a chuva de
balas, despejada na grota de Angico pelas volantes do aspirante Francisco
Ferreira de Melo e de João Bezerra.
João Costa.
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Fotos: 1.
Cristina ao lado de Português. Foto 2. Cristina(E) e Maria Bonita(C). Acervo
Benjamim Abraão. Abba Filmes
Fonte “Amantes
e Guerreiras”, de Geraldo Maia
“Lampião, as
mulheres e o cangaço”, de Antônio Amaury
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