Seguidores

domingo, 12 de junho de 2011

Lampião, um rastro de ousadia e ódio pela caatinga

Por Joan Edessom de Oliveira

          Embora tenha sido morto aos quarenta e um anos, a figura do “rei do cangaço”, Virgulino Ferreira da Silva, se fixou no imaginário popular. Até hoje a memória de Lampião, de seus “cabras” e de sua companheira, Maria Bonita, corre o sertão, nos romances de cordéis, na boca dos cantadores e nas investigações sobre a história do Brasil

Lampião e Maria Bonita

            Amanhecia o dia 28 de julho de 1938. No acampamento – uma grota perdida nos sertões – os homens e mulheres despertavam. O fogo da metralha rasgou os ares, quebrando o silêncio da caatinga, apenas pontuado pelas aves que despertavam. Nas mãos de João Bezerra e sua tropa alagoana, arautos da morte, a “bordadeira” costurava o estreito espaço onde os cangaceiros buscavam fugir e se defender, tudo a um só tempo.

João Bezerra - o matador de Lampião

            O capitão Virgulino Ferreira da Silva foi dos primeiros a tombar, se não o primeiro dentre eles. Em seguida foram caindo, de peito aberto, à traição, de qualquer jeito abatidos, enquanto um punhado buscava escapar à morte certa.

O cangaceiro Luiz Pedro

            Luís Pedro, o valente cabo de guerra do bando, já havia furado o cerco quando a voz de dona Maria ressoou, cobrando a promessa antiga de ficar ao lado do capitão até a morte. Voltou olhando para os soldados, mirando a morte.
             Foram quinze minutos apenas, ao amanhecer de 28 de julho. Foi o mais curto dos combates travados pelo capitão ao longo de duas décadas. Ao término, Lampião e Maria Bonita, os reis do cangaço, jaziam ao lado de outros nove integrantes do grupo.
            Os “macacos” da volante de João Bezerra se esbaldaram em selvageria. Um cortou a mão de Luís Pedro para poder arrancar-lhe os anéis com calma quando saíssem dali; outro seviciou Maria com o tronco de um mandacaru; por fim, cortaram as cabeças para expor nas escadarias das igrejas, das prefeituras, num cortejo cruel e macabro. A prática do Estado brasileiro, de degolar os seus adversários, inaugurada muito antes, se estenderia ainda por longo tempo. Em Angicos começara a agonia do cangaço, o princípio do fim.

lampião, cangaço, fotos de lampião, lampião fotos
As cabeças do 11 cangaceiros mortos na grota de Angico

Origens do cangaço

            O termo cangaço começou a ser utilizado ainda na primeira metade do século dezenove e se relacionava à canga, ao jugo dos bois. A maioria dos estudiosos sobre o cangaço se inclina a acreditar que deriva de uma associação entre a canga dos bois e a forma como os cangaceiros carregavam o rifle, atravessado nas costas. Ainda no final do século dezenove, tanto os grupos de homens a serviço de um fazendeiro quanto os primeiros grupos independentes já eram chamados de cangaceiros.
           Por vingança, como meio de vida, como refúgio, homens como Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino, Sinhô Pereira, Luís Padre e muitos outros, entraram para sempre na crônica dos sertões, imortalizados pelos cantadores e cordelistas, gravados na memória do povo geração após geração.
             Fenômeno exclusivo dos sertões, os autores dividem-se quanto às causas do cangaço. O que levou homens e mulheres à vida de banditismo num período de quase dois séculos, desde que Cabeleira passou a agir até a morte de Corisco?

O cangaceiro Corisco 
          
           Uma primeira explicação para o fenômeno, de forma mais generalizada, deve ser buscada no entendimento dos sertões. Os sertões constituíam, dentro do Brasil, uma sociedade à parte, com seus códigos e leis próprias, onde o Estado era uma figura distante, abstrata, presente apenas na legitimidade do autoritarismo e na repressão
            Na ocupação do espaço sertanejo pelo branco europeu a marca maior foi a violência. Era um território sem lei nem rei, e o império do mais forte foi a característica predominante.
             Os criadores de gado, acostumados a sangrar o boi para o abate e a castrar porcos e bodes para a engorda, não tardaram a achar que entre o sangue dos bichos e o sangue da indiada que lhe opôs resistência não havia muita diferença.
Índios

            Nos sertões, o massacre dos índios limpava as margens dos rios para o estabelecimento das fazendas de criar. O Regimento de Cavalaria do Çertam, corpo de vaqueiros encourados e armados, “limpou”, por exemplo, as margens do rio Jaguaribe, no Ceará, para que os fazendeiros pudessem nelas instalar seu criatório, dizimando para isso tribos inteiras de icós, icozinhos, jucás, quixelôs.


Foto do Rio Jaguaribe
         
           Instalados nos sertões, potentados donos de léguas sem fim de terra e de cabeças sem conta de gado, faziam da sua vontade a lei com base na violência. E essa violência findava por se transformar em marca do tempo e do lugar.
           Quanto mais duradoura tenha sido a fase cruenta de um processo de colonização, tanto mais duradoura se mostrará, via de regra, a permanência dos hábitos violentos, numa fase em que racionalmente já não mais se justificam (MELLO: 2005, p. 64). 
           Os mais sérios pesquisadores sobre o tema buscam explicações sociais para o cangaço, mesmo quando divergem entre si. Segundo Chandler (2003: p. 28), as secas mais intensas contribuíam para o surgimento do banditismo e a frequência com que ocorreram no final do século dezenove e início do século vinte fez aumentar o nível de violência do cangaço. Facó (1976: p. 38), por sua vez, considerava o cangaço como uma réplica ao latifúndio.

Bando de cangaceiros de Lampião

            Certo é que, mesmo quando se buscam as explicações nas histórias individuais dos cangaceiros, elas não teriam ocorrido sem que determinadas condições históricas tivessem preparado o fértil terreno para o seu surgimento. A brutalidade e a violência daquela sociedade, a miséria e a exploração, a ausência do Estado e a presença da lei do mais forte, são fatores que propiciaram o surgimento de homens e bandos com uma lei própria, a desafiar a ordem estabelecida mesmo quando, aparentemente, eram elementos dessa própria ordem.
             Lampião foi o mais bem acabado exemplo do cangaço, fruto de um tempo e de um lugar, e deve ser estudado à luz desse tempo e desse lugar: a caatinga sertaneja da primeira metade do século vinte.

Virgulino Ferreira

          
           Terceiro filho de José Ferreira, Virgulino era hábil artesão e vaqueiro exímio. Bom dançarino, tocador de sanfona, na adolescência alcançava o seu sonho de criança. Quando perguntado pelo tio Manuel Lopes se desejava estudar para ser doutor, o menino Virgulino respondeu com convicção: 
           - Quero. Mas não para ser doutor. Quero ser é vaqueiro (MELLO: 2005, P. 165). Vaqueiro, pequeno criador, tangedor de burros pelos sertões, desde o Pernambuco até a Pedra de Delmiro Gouveia, nas Alagoas, Virgulino e seus irmãos criaram-se como tantos no sertão, até que a violência, filha legítima dessas paragens, cruzou o seu caminho, fazendo-se dele irmã inseparável, sua contra os outros, dos outros contra ele. Uma rixa entre famílias lançou-o nos braços do cangaço.

Delmiro Gouveia
         
           Segundo alguns afirmam, ele fez do cangaço meio de vida, esquecendo a vindita inicial. E isso pode até ser verdadeiro, mas o fato é que a briga entre sua família e os Nogueira e Saturnino, em 1916, constitui o estopim, o fogo inicial transformado em imensa coivara a rasgar como um grande incêndio os sertões de sete estados do nordeste brasileiro.

Primeiro inimigo de Lampião - O Zé Saturnino

            O assassinato do pai, na sequência dos acontecimentos iniciais, selou o seu rumo. Não havia mais volta. Virgulino não seria nem doutor e nem vaqueiro. Seria capitão de homens, comandante dos sertões.

Sinhô Pereira e seu primo Luiz Padre

             Integrado inicialmente ao bando de Sinhô Pereira e Luís Padre, Virgulino não sairia mais do cangaço. A partir de 1922, quando Sinhô Pereira e Luís Padre abandonam o cangaço e refugiam-se em Goiás, ele passa a atuar com seu próprio grupo, do qual faziam parte seus irmãos Antonio e Levino. Mais tarde, um terceiro irmão, Ezequiel, e um cunhado, Virgínio, também foram para o cangaço. Todos morreram antes de Virgulino. O único dos irmãos que sobreviveu a ele foi João, que não entrou no cangaço.

Por traz de Lampião, Ezequiel, e ao lado Virgínio, cunhado
Lampião e Antonio Ferreira - seu irmão

           A área de atuação de Virgulino se espalhou por sete dos nove estados do nordeste, deslocando-se progressivamente para o sul ao longo de duas décadas. A atuação em Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba foi se deslocando para Bahia, Alagoas e Sergipe.

Padre Cícero

             No Ceará e em Sergipe sempre atuou mais livremente, por conta do respeito pelo padre Cícero no primeiro e por conta dos acordos políticos firmados no segundo.

Um capitão de guerrilhas

              Embora tenha atuado com muitos homens em algumas vezes, registrando-se ataques e escaramuças em que o bando tinha cem ou mesmo cento e cinquenta homens, a regra de Lampião sempre foi a de pequenos grupos, agindo com autonomia, juntando-se quando necessário. Cristino da Silva Cleto, o Corisco, apelidado também de Diabo Louro, foi o seu mais famoso cabo de guerra, sobrevivendo ainda por dois anos após o massacre de Angicos, ao qual não estava presente.
              Lampião sempre procurava atacar em condições que lhe fossem favoráveis. Tinha profundo respeito pelos corajosos e sabia bem que sua sobrevivência estaria comprometida caso se desse a arroubos de valentia constantemente. Ousado e cauteloso, fustigava e fugia, atacando quando necessário, procurando render os adversários sem que houvesse combate, combatendo apenas quando não havia outra saída. Naquelas paragens, essa astúcia guerrilheira era antiga, desde a resistência indígena, passando pelos negros quilombolas ou amucambados, até os canudistas de Antônio Conselheiro.

Antonio Conselheiro
           
             Além do conhecimento absoluto do território, Lampião contou sempre com uma extensa rede de apoios, fundamental em sua guerra de guerrilhas sertaneja. Essa rede de apoio ia desde grandes fazendeiros, políticos influentes, governadores de estado, até os mais humildes sertanejos, vaqueiros, pequenos criadores; de armas de propriedade exclusiva do exército brasileiro até mantimentos por vezes indispensáveis e em situações nas quais o bando não podia comprar e nem pilhar.
              O capitão Virgulino sabia ainda recompensar regiamente os seus amigos, garantindo com isso a fidelidade da maioria, embora, por mais de uma vez, inclusive em Angicos, tenha sido surpreendido pela traição.
              Ele era um combatente habilidoso. Para Chandler (2003: p. 170), a capacidade que Lampião tinha de despistar a polícia e escolher a hora propícia para o combate era uma habilidade que muitos achavam extraordinária.
              O que a polícia considerava essencial, para o sucesso dessas táticas, era a fantástica habilidade de Lampião de cobrir seu rastro. O mais comum era viajar nos caminhos de pedregulhos, ou lajeiros, onde quase não deixavam evidência de sua passagem. (...) Sabia-se também que às vezes chegavam num lugar, e, então, caminhavam para trás, na mesma trilha, até que a pudessem deixar, cruzando a superfície dura, ou pulando para o lado.
             Para a polícia, os cangaceiros tinham desaparecido no ar (CHANDLER: 2003, p. 171). Durante as duas décadas em que viveu no cangaço, Virgulino Ferreira sofreu revezes e contabilizou importantes vitórias. A certeira pontaria e uma maneira peculiar de atirar, fazendo o seu primeiro rifle parecer automático, valeram-lhe a alcunha imortalizada, segundo a versão de muitos. O cano da arma, “aceso” na batalha, parecia um lampião a iluminar a caatinga.
                Foi ferido tanto em combate, por diversas vezes, inclusive no pé, causando-lhe um pequeno defeito que o acompanhou para sempre, quanto pela caatinga, no espinho atrevido que lhe custou um olho. Parcialmente cego, ligeiramente manco, a bravura e a sagacidade só aumentaram.

Dona Maria e as mulheres no cangaço

             Em fins de 1930 ou início de 1931 a primeira mulher entrou no bando. Não poderia ser de outro que não a do seu próprio comandante. Deixando o marido para seguir Virgulino, Maria Déa, Santinha, Maria Bonita ou simplesmente dona Maria, como era tratada pelos cangaceiros, a primeira dama do cangaço reinaria absoluta até morrer com seu amado no coito de Angicos.

Maria Bonita

               Sua data do nascimento é emblemática, 08 de março. Como tantas outras que ingressaram no cangaço depois dela, essas mulheres se agigantavam na valentia e no sofrimento. Quase todas elas engravidaram e tiveram filhos em meio a perseguições, correrias, tiroteios. Nenhuma pôde ficar com os filhos, entregues a padres, promotores, juízes, parentes, ricos fazendeiros. De Lampião e Maria Bonita sobreviveu Expedita, ainda viva.

Dadá de Corisco,
Sila de Zé Sereno (à direita),
Inacinha de Gato,
 
Maria de Pancada,
Neném de Luís Pedro, e tantas outras.
Aristéia e Durvinha, heroínas de uma saga sem rumo.
 

               No meio da caatinga, histórias de amor e desamor se construíram, como o ódio inicial de Dadá por Corisco transformado no amor imenso que a fez defendê-lo até a morte, sacrificando uma perna em combate para tentar salvá-lo.


              A tragédia amorosa de Lampião e Maria Bonita lhes rendeu um lugar de honra na literatura popular. Encarnam o amor em luta e guerra contra tudo e contra todos. É que naqueles ermos, como bem disse o poeta Crispiniano Neto, o papel da ternura era tão duro que o amor precisava andar armado. As mulheres no cangaço, seu papel, sua história, não cabem nos estreitos limites deste artigo.

Crispiniano Neto

Lampião, Padre Cícero e Coluna Prestes

             Um dos mais controvertidos e explorados aspectos da vida de Lampião diz respeito à sua relação com padre Cícero Romão Batista, o patriarca de Juazeiro do Norte, no Ceará. Personagem singular na nossa história, tal qual o famoso bandoleiro, nos anos de 1920, padre Cícero já era um mito em todo o nordeste. Erigira uma cidadela sertaneja, território dos seus romeiros, e era respeitado por todo o sertão nordestino. As imensas romarias que levam mais de dois milhões de romeiros todos os anos à chamada cidade santa nordestina, já ocorriam com padre Cícero em vida.
              Lampião, como a maioria dos sertanejos, tinha o velho padre como um verdadeiro santo, admirando-o e sendo a ele devotado. Para a maioria dos historiadores, esse respeito por padre Cícero, junto aos acordos políticos realizados com grandes fazendeiros do Ceará, explica por que Virgulino nunca tenha praticado ataques mais sérios no Ceará, limitando-se a pequenas e insignificantes escaramuças durante todo o período em que combateu.


            Um episódio, entretanto, entrou na vida de ambos como um dos mais significativos. A chamado de Floro Bartolomeu, médico baiano, deputado federal e considerado uma espécie de alter-ego do padre Cícero, Lampião foi a Juazeiro em 1926. Floro estava no Rio de Janeiro, adoentado, vindo a morrer enquanto Lampião se encontrava com o padrinho Cícero. Em Juazeiro do Norte Lampião conversou com o patriarca, deu entrevistas, fez algumas de suas mais famosas fotografias e recebeu armas, fardamentos e munições para compor os Batalhões Patrióticos, que davam então combate à Coluna Prestes.

Arquivo Tok de História

               Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor agrícola do Ministério da Agricultura, a pedido do padre Cícero, e na presença de Antonio Ferreira e Sabino Gomes – lugares-tenente de Lampião, sendo o primeiro seu irmão – assinou um documento em nome do governo da República dos Estados Unidos do Brasil, dando a Lampião a patente de capitão e a permissão para viajar livremente, de estado a estado, em companhia dos Batalhões Patrióticos, em combate à Coluna.

Sabino Gomes

          Mais tarde, Uchôa declarou que teria assinado até mesmo a exoneração de Artur Bernardes da Presidência da República se Sabino e Ferreira tivessem pedido.

Artur Bernardes
Presidente do Brasil - Artur Bernardes

              A partir de então Virgulino passaria a assinar como capitão Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. O único dentre os cangaceiros a também poder se chamar assim, até o fim do cangaço foi Cristino da Silva Cleto, o capitão Corisco.
              Jogo político de Floro, artimanha do octogenário padre Cícero, ou ingenuidade de Lampião. Fosse o que fosse, o agora capitão pareceu sair de Juazeiro do Norte disposto a cumprir sua palavra e combater os revoltosos de Prestes. Tão logo saiu do Ceará, entretanto, as polícias da Bahia e de Pernambuco lhe deram combate. A promessa feita a padre Cícero de se retirar do cangaço tão logo cumprisse aquela missão se esvaiu na desilusão. A patente de capitão não foi reconhecida pela polícia, nem a permissão de viajar livremente teve qualquer serventia.
              Com as armas e munições do exército recebidas em Juazeiro, Lampião deixou a Coluna de lado e, fortalecido e bem armado, embrenhou-se novamente nos sertões. Sua vida não permitia voltas, e a partir de então seguiu em marcha batida rumo a seu destino final. Virgulino era agora o capitão Lampião, cada vez mais temido e perseguido, cada vez mais uma lenda sendo erguida sob o sol da caatinga.

Angicos, o fim da caminhada

              Lampião viveu quarenta anos, mais da metade no cangaço. Comeu o pó das estradas sertanejas ao longo de mais de vinte anos. Palmilhou, por vezes a cavalo, mas no mais das vezes a pé, com suas sandálias de couro, incontáveis léguas por sete estados brasileiros. Travou centenas de combates e escapou a todos eles. Em Angicos, o cego não disparou um tiro sequer.
             Cometera, em toda a sua trajetória no cangaço, um erro muito sério. O fracasso do ataque a Mossoró, no Rio Grande do Norte, acompanhou-o por toda a vida. Atacara uma cidade grande, próxima ao mar, importante politicamente. Fora derrotado, uma dura derrota, de valor simbólico muito grande. Atraíra sobre si ainda mais a violência repressora do governo. Mossoró virou um símbolo, um ícone. Lampião não cometeu jamais o mesmo erro.
              Em Angicos, ele errou uma segunda vez. Muitas vezes repetira que não se fica em coito com uma única saída, “ratoeira” segundo os cangaceiros. Angicos era exatamente uma delas. Corisco ali estivera e dissera isso. Zé Sereno dissera para Lampião a mesma coisa.

Zé Sereno à esquerda

             O capitão insistira em ficar, confiava em Pedro de Cândido, o coiteiro que o trairia. Angicos é uma sequência de erros que desafia os historiadores do cangaço até hoje. Como o capitão Virgulino cometera um erro tão grosseiro? Como Juriti e Ligeiro, famosos cachorros de Lampião, juntamente com os outros, não latiram dando o alarma? Como, em esconderijo tão desfavorável, não havia sentinelas? A história ainda busca respostas setenta anos depois.
              Na manhãzinha de 28 de julho de 1938 havia em Angicos os bandos de Lampião, Luís Pedro e Zé Sereno. Corisco ainda chegaria com Dadá e seu bando. Conforme dizem os sobreviventes, o combate durou apenas quinze minutos. Foi o mais curto da vida de Lampião, e também o que apresentou o maior número de baixas. Foi o combate fatal. Há setenta anos passados.
              Lampião e Maria correm o sertão até hoje, nos romances de cordéis, na boca dos cantadores, na voz sussurrante das contadoras de história sertanejas, nas inúmeras pesquisas dos historiadores, na boca do povo, de pai para filho, de avô para neto, de bisavô para bisneto.
                Segundo Chandler (2003: p. 218), “Lampião era um bandido social, mesmo não sendo um nobre salteador. (...) a sociedade em que viveu era tal que um jovem corajoso, como ele, poderia cair no banditismo muito facilmente. Ou como disse um cantador:

“Era brabo, era malvado,
Virgulino, o Lampião,
Mas era, pra que negar,
Nas fibras do coração
O mais perfeito retrato
Das caatingas do sertão.”

          Joan Edessom de Oliveira é mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e diretor da Escola de Formação Permanente do Magistério, em Sobral-CE.

Referências Bibliográficas:

           
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião, o rei dos cangaceiros. 4ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
ARAÚJO, Antonio Amaury Correia de. Assim morreu Lampião. 3ª ed. Santos: Traço, 1982.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. 4ª ed. São Paulo: A Girafa, 2005.
FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
DIAS, José Umberto. Dadá. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1988.
SOUZA, Ilda Ribeiro de (Sila). Sila: memórias de guerra e paz.         
Recife, Imprensa Universitária-UFPE, 1995.

EDIÇÃO 96, JUN/JUL, 2008,
PÁGINAS 67, 68, 69, 70, 71

Extraído do blog:  "CDM - Centro de Documentação e Memória"

sábado, 11 de junho de 2011

Scans: Revista Veja, 19 de Novembro de 1975.

Por: Ivanildo Alves da Silveira
Ivanildo Silveira e João de Sousa Lima

Encontraram o ex cangaceiro "Curió"




            Pedimos ao leitor desconsiderar o trecho: "Preso, CURIÓ foi obrigado pelas volantes a cortar as cabeças de seu chefe, de Maria Bonita, Angelo Roque e Vila Nova..." pois, não corresponde a VERDADE HISTÓRICA DOS FATOS.

Um abraço a todos
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN.

Para saber o destino do
"velho pássaro" não deixe
de ler este adendo de
Messier Rostand.

           Procurei mais detalhes e descobri no "Diário de Pernambuco,, edição de domingo, 19 de Agosto de 1990, um dia antes, as 7:40, havia falecido no Hospital da Restauração, de embolia pulmonar, Marcos Alexandre da Costa. Ele tinha 88 anos, havia sido atropelado por um ônibus no Complexo de Salgadinho, no dia 16 de agosto de 1990.
             Depois que foi solto em 1975, o então governador de Pernambuco, Moura Cavalcante lhe arranjou um emprego de marceneiro no Juizado de menores.

jose-francisco-de-moura-cavalcanti-margarida
Margarida Krause e José Francisco de Moura Cavalcanti.
Ex-governador de Pernambuco
      
            Morava na chamada Vila Popular, no bairro de Peixinhos, em Olinda. Havia residido anteriormente na Estrada da Caixa D'Água.
             Do seu casamento, depois que foi solto, cuidou de três enteados, que lhe deram 26 netos e 22 bisnetos.
             Segundo a reportagem, Curió havia nascido no dia 7 de maio de 1907, na cidade de Bom Conselho, Pernambuco.
            Primeiramente, entre 2006 e 2007, eu estava trabalhando em Caicó-RN, onde conheci uma senhora que nasceu em Olinda e vivia (acho que vive ainda) na cidade potiguar e me falou que quando morava em Olinda conheceu "Seu Marcos". Passou-me algumas informações que foram corroboradas, em parte, pela reportagem. Ela comentou que sobre sua vida cangaceira, ele era extremamente reticente em comentar este assunto. Mas na região onde eles viviam todos sabiam quem foi Curió.

Rostand, João de Sousa Lima e Juliana Ischiara

          Em 2007 postei sobre este encontro com esta senhora na comunidade do Orkut "Lampião, Grande rei do cangaço". Mas devido ao silêncio gélido "dos gênios" que aqui comentavam sobre cangaço, achei melhor me resguardar para depois não levar o nome de mentiroso.      
           A única pessoa que se interessou e tentou encontrar alguma coisa sobre este cangaceiro em Recife foi nosso amigo Jal Gomes. Mesmo infrutífera na sua busca, valeu pela iniciativa maravilhosa.
             Depois achei este artigo no "Diário de Pernambuco", mas aí assunto já tinha morrido. E agora vejo, de forma muito positiva, o amigo Ivanildo trazer este artigo da Veja. 
             Lembrei-me de outros detalhes: Se não me engano, na época em que Curió foi atropelado, a senhora me comentou que a empresa proprietária do ónibus se chamava “Vera cruz”, mas não tenho certeza. Que a família do ex-cangaceiro ficou revoltada, cogitando até entrar na justiça.
             Outra coisa que ela me falou foi que em Peixinhos ele igualmente havia morado próximo a um antigo local que foi um “matadouro”. Pessoalmente não conheço estes locais. Seria legal nossos amigos de Pernambuco comentarem se estas informações poderiam, ou não, terem sentido. È só o que recordo. 
             Analisando esta questão do ex-cangaceiro Curió, percebemos que num primeiro momento ele teve até sorte e sua saída chamou atenção da sociedade local. O próprio governador pernambucano da época mandou buscá-lo em “carro oficial”, lhe recebeu como “herói” no palácio, lhe deu emprego e o utilizou (mesmo sendo ele analfabeto) como “garoto-propaganda” em uma feira regional de municípios. 
             Interessante como estes acontecimentos apontam a mudança de percepção da sociedade pernambucana, e por tabela a brasileira em geral, em relação ao cangaço. 
             Se em 1975, a saída de um ex-cangaceiro da prisão gerava toda esta notoriedade, se ele tivesse sido solto no final da década de 1950, certamente Curió buscaria inicialmente o anonimato, pois seria muito mais fácil ele ser execrado pela população como “marginal”, “bandido”, ou levar uma bala de algum desafeto.
              Aparentemente, apesar da sorte inicial, sua vida posterior deve ter sido de muitos apertos. 
Comento isso analisando as várias fontes apresentadas neste tópico, pois mesmo com o seu emprego de marceneiro no Juizado de Menores, ele deve ter ralado muito o ex-cangaceiro. Vemos que primeiramente passou a residir na “Favela do Córrego do Euclides”, em Casa Amarela, depois aparentemente na “Estrada da Caixa D'Água”, seguindo para a “Comunidade de Peixinhos”, onde viveu próximo ao antigo “Matadouro”, ou na “Vila Popular”. Além disso, teve de cuidar da mulher, três enteados, vários netos e bisnetos. 
            Detalhe; Não sei se procede (os colegas de Recife podem me corrigir), mas pelo que sei, estes locais que Curió morou na Região Metropolitana de Recife, são (ou eram) locais de alta periculosidade, de ocorrência de tráfico de drogas, etc. Mas, pelo menos até onde se sabe o ex-cangaceiro não se envolveu com nenhum tipo de problema envolvendo a marginalidade.
             Não sei, mas creio que Curió foi o último cangaceiro a deixar vivo (e na época totalmente lúcido) um ambiente prisional no Brasil. Será? 
             Perda de oportunidade
            Fosse por que Curió não gostava de falar, ou talvez por que em 1975 os estudiosos do assunto “cangaço” tinham “material de sobra” para pesquisar (ainda haviam muitos dos velhos coronéis, ex-perseguidores, ex-coiteiros, etc). Fosse por que estes estudiosos entendiam que naquela época não valia à pena perder tempo com um cangaceiro que, talvez, não fosse considerado “importante”, ou no bando era apenas um "lavador de cavalos”. 
             Fossem por estas ou outras razões, sei de uma coisa, para aqueles que gostam do assunto, faltou naquela época alguém ir até este Senhor e “furar” a sua barreira de prevenção em relação a falar sobre o seu passado.

Pesquisador e escritor João de Sousa Lima

               Faltou alguém ter tido a oportunidade de ao menos tentar conseguir dele a sua memória sobre este período. Faltou naquele tempo um “batalhador da história”, como um João de Sousa Lima, que trouxe a bela a rica saga de Moreno e Durvinha.

              Vemos que este ex-presidiário só ganhou notoriedade pelas suas andanças no cangaço. Provavelmente a reportagem da Veja, edição de Novembro de 1975, gentilmente postada por Ivanildo, foi publicada a partir de algum “furo” conseguido por algum correspondente da revista lotado em Recife, ou através de notícias publicadas nos jornais recifenses.        
            Se ele não tivesse sido o cangaceiro "Curió", a morte do aposentado Marcos Alexandre da Costa seria uma simples notinha de rodapé da cronica policial recifense.
           
Um abraço.

Extraído do blog: "Lampião Aceso"

Observação:

Gostaria de informar aos amigos que fazem os seus comentários, que eu estou os lendo, mas não  consigo agradecer na própria página, pois a minha  senha não está sendo reconhecida na janela de comentários.

Primeira Viagem de Sinhô Pereira e Luiz Padre, do Nordeste Para Goiás

Por: Napoleão Tavares Neves

           Vivia-se a segunda metade do ano de 1918. Obedientes ao Padre Cícero Romão Batista, Sinhô Pereira e Luiz Padre decidiram deixar o Nordeste para o norte de Goiás. Eram muito jovens e tinham toda a vida pela frente. Todos aconselhavam a viagem. Só assim a família Pereira poderia levantar a cabeça e recuperar o seu prestígio social, político e econômico seriamente abalado por tantas lutas e tanto sangue derramado em vão!


            Manoel Pereira Lins, “Né da Carnaúba”, promoveu vários encontros de família em sua fazenda estruturando a saída dos primos do cenário nordestino conflagrado pelas lutas de famílias, sobretudo pelas lutas entre Pereiras e Carvalhos.         
           Depois de marchas e contra-marchas, a viagem foi decidida. O roteiro foi traçado, segundo orientação do Padre Cícero Romão Batista que certa vez recebeu Luiz Padre e o aconselhou a abandonar a luta por uma vida de paz no Brasil Central onde ninguém soubesse da vida pregressa dos dois vingadores da família Pereira.

Padre Cícero
           
            Segundo foi planejado, os dois Pereiras deixariam o sertão, beirando o sopé da Chapada do Araripe, lados de Pernambuco, buscando o Piauí de onde deveriam demandar o norte de Goiás.

Sinhô Pereira, sentado e Luis Padre em pé
          
             Atravessar os sertões de Pernambuco era uma temeridade para eles que seriam impiedosamente perseguidos. Naquele tempo cada polícia só perseguia cangaceiros até a fronteira do seu Estado! Atravessar os limites de um Estado para outro era considerado agressão! Assim, entrando no Piauí, seria mais fácil para Sinhô Pereira e Luiz Padre fazerem a difícil travessia sem obstáculos. Por isto os dois primos deixaram o Nordeste com o seguinte roteiro:           
             Fazenda do major Zé Inácio, no Barro, Ceará. Fazenda Olho d’Água do Araripe, lados de Pernambuco até o Piauí, pelos municípios de Serrita, Exu e Araripina. Simões, de Jaicós, no Piauí. Foi esta a primeira etapa da viagem feita por Sinhô Pereira e Luiz Padre, a cavalo e levando seis cabras de confiança escolhidos a dedo. Iam armados de revólveres e com as carabinas desmontadas nas pequenas malas.
           Em Simões, já distante do Pajeú, decidiram se separar para despistar possíveis perseguidores, marcando um reencontro no sul do Piauí, em Correntes, próximo à fronteira com Goiás. Luiz Padre, com dois cabras, tomou o rumo de Uruçu, mais para o centro do Piauí, pelo Vale do Gurguéia.
            Sinhô Pereira, com quatro cabras, seguiu na direção de Correntes por São Raimundo Nonato, em roteiro paralelo à fronteira de Pernambuco. Com ele iam os homens de confiança: Cacheado, Coqueiro, Raimundo Morais e Gato.

O cangaceiro Gato
Luiz Padre
            
           O trajeto planejado evitava a travessia do Rio São Francisco que ainda não tinha pontes e a perseguição policial de Pernambuco. A meta de ambos era uma só: sul do Piauí e daí, norte de Goiás, por caminhos diferentes. Luiz Padre ia mais pela direita e Sinhô Pereira mais pela esquerda, não muito distante um do outro, de tal modo que não fosse tão difícil o reencontro planejado no sul do Piauí. Ambos levavam cartas de recomendação para famílias amigas do Piauí: família do Barão de Paranaguá, do Marquês de Santa Filomena e Marquês de Paraíso, já que Luiz Padre era neto do Barão do Pajeú, coronel Andrelino Pereira da Silva.

 Coronel Andrelino Pereira da Silva

             Os barões sempre se entendiam muito bem. A viagem ia sendo feita com marcha de 6 a 10 léguas por dia, mais durante as noites para serem menos percebidos.             
           Ao atingir Nova Lapa, município piauiense de Gilbués, Luiz Padre soubera que Sinhô Pereira fora cercado pela polícia do Piauí nas proximidades da cidade de Caracol. É que as autoridades do Piauí receberam precatória contra os dois e o tenente Zeca Rubens ia no encalço de Sinhô Pereira com 20 homens, sendo três soldados e os demais civis, jagunços a serviço da polícia! A casa em que Sinhô Pereira e seus homens dormiam foi cercada pelo pessoal do tenente Zeca Rubens. As carabinas de Sinhô Pereira estavam desmontadas, mas depois de um tiroteio de uma hora, Sinhô Pereira e o seu pessoal fugiram, deixando dois soldados feridos levemente e carregando Cacheado quase nos braços, gravemente ferido. Sinhô Pereira nunca abandonou cabra ferido, sendo muito solidário a seus homens!          
           Sinhô Pereira ficou visivelmente irritado com a perseguição. Seus inimigos do Pajeú não queriam que ele encontrasse a paz em Goiás e o perseguiam tenazmente!           
           Luiz Padre resolveu prosseguir a viagem e perdeu por completo o contato com Sinhô Pereira que ficou por quatro dias na Fazenda Mulungú, com Cacheado muito ferido, até que o tenente Zeca Rubens, através de um seu irmão mandou lhe dizer que não o perseguiria enquanto ele tivesse tratando do cabra ferido! Foi um gesto muito nobre, indiscutivelmente.
            Somente em março de 1919 Luiz Padre chegou no Duro.

Escritor Nertan Macedo

           Sinhô Pereira ficou por 57 dias, quase dois meses, tratando de Cacheado para além de Caracol. Não abandonaria o ferido, custasse o que custasse, disse ele, de viva voz, ao escritor Nertan Macedo e ao pesquisador Luíz Lorena, de Serra Talhada, seu primo.

Luiz Lorena e Sá
              Cacheado não resistiu à gravidade dos ferimentos e morreu. Sinhô Pereira reiniciou a viagem, mas em Jurema, encontrou o cabra que ferira Cacheado, João de Bola, que foi morto por um dos seus homens.
            A partir deste episódio a perseguição policial recrudesceu, com o tenente Zeca Rubens à frente de 40 soldados seguindo as pegadas de Sinhô Pereira que ia trocando de animais cansados substituindo por animais tomados ao longo das fazendas percorridas. Novamente cercado pela polícia quando dormia 40 léguas para além de Caracol, Sinhô Pereira e seus homens conseguiram furar o cerco policial, mais uma vez, depois de meia hora de tiroteio, morrendo um soldado e saindo ferido um rapaz da casa onde estavam arranchados. Em Tocoatiara Paulista, perderam os animais: um cavalo e três burros.
            Em Sete Lagoas tomaram novos animais que foram trocados novamente em Barra de São Pedro. Foi aí que Sinhô Pereira decidiu voltar ao Pajeú e lutar com os seus inimigos até um dia, já que não o deixaram buscar a paz e o esquecimento em terras distantes, como era o seu desejo.
            Foi uma decisão nervosa, mais em oito dias Sinhô Pereira estava novamente nas barrancas do Pajeú até 1922 quando conseguiu deixar o Nordeste, desta vez em definitivo, saindo da Fazenda Preá, Serrita propriedade do coronel Napoleão Franco da Cruz Neves, casado com Ana Pereira Neves, prima de Sinhô Pereira e Luiz Padre, além de madrinha de batismo deste último.

Bando de Lampião recebido das mãos do Sinhô Pereira

            Com a volta de Sinhô Pereira, de Caracol (PI), foi que Lampião, passou a integrar o seu bando. Por outro lado, a segunda e definitiva viagem de Sinhô Pereira para Goiás, será objeto de outro trabalho oportunamente. Só em março de 1922 foi que ele pôde chegar ao Duro!


Barbalha, 16.11.1989 Médico, escritor. Sócio da SBEC.

Extraído do blog: "Lentes Cangaceiras" 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

As muitas versões do cangaço

Por: Juliana Ischiara


            Caros pesquisadores do Cangaço, não é minha intenção polemizar, mesmo em se tratando de cangaço, terreno bastante fértil para debates, controvérsias e discordâncias, porém, todos nós devemos ter em mente que não existem verdades absolutas, mas, simplesmente verdades. O que é uma verdade para mim, pode não ser para o outro e assim sucessivamente, pois, em se tratando de história como ciência, podemos falar de verdades históricas, ou seja, a verdade dos vencedores, dos vencidos e daqueles que tiram suas conclusões tendo como base as duas primeiras elencadas.
           A história não é uma ciência exata, não podemos sair por aí argüindo nossos pensamentos como se fosse uma idéia absoluta do objeto pesquisado.

Frederico Pernambucano de Melo       
           
              Esta semana que passou lemos em alguns blogs e no Jornal da Cidade de Sergipe, um excelente debate entre dois grandes pesquisadores do cangaço. De um lado o acadêmico Frederico Pernambucano de Melo, autor de vários trabalhos importantes sobre a temática em tela e, do outro lado, o sergipano Alcino Alves da Costa, um exímio conhecedor do fenômeno cangaço, em particular os seus dez últimos anos tendo Lampião como líder.

Juliana e Alcindo

             Alcino é de Poço Redondo, um irmão de sua mãe foi cangaceiro, além de ter crescido em meio à história viva do cangaço, pois se em Poço Redondo, ainda nos dias de hoje, o cangaço é assunto comum nas rodas de conversa, imagine na meninice e ao longo de sua vida, com um tio cangaceiro, o sogro sendo o velho “China do Poço” amigo de Lampião. Alcino também é autor de vários livros sobre o cangaço.

O rei Lampião

           Se por um lado, um pesquisador tem como esteio de suas pesquisas o aparato acadêmico, tendo inclusive conversado como alguns sobreviventes, do outro lado temos um pesquisador que nasceu, cresceu e passou sua vida em meio a sobreviventes do cangaço como ex-cangaceiros, outros jurados de morte por cangaceiros, coiteiros e amigos de Lampião. Com isso, não estou medindo a competência dos pesquisadores, nem mesmo aceitando um pensamento em detrimento de outro, pois cabe a mim, assim como aos demais, aprender com estes dois mestres da historiografia cangaceira a arte do bom debate. Tanto um quanto outro são autoridades no assunto.
 
Da esquerda para a direita:
Vila Nova, lá nos fundos, um   cangaceiro desconhecido,
Luiz Pedro, Amoroso, Lampião, Cacheado, Maria Bonita, Juriti,
outro cangaceiro desconhecido e Quinta Feira. Foto do repórter
Benjamim Abrão em 1936. Acervo Abafilm – Fortaleza.      
          
           O bom do debate é perceber as diferentes versões acerca do mesmo objeto. Ao analisar as duas ou mais vertentes, individualmente tiramos nossas próprias conclusões.
           Um exemplo disso é que, mesmo respeitando o trabalho e os anos de pesquisa de Frederico Pernambucano de Melo, não concordo quando ele disse “... que a valentia e a capacidade de urdir planos vinham na cabeceira dessa criteriologia de ascensão hierárquica no bando, da qual passou a fazer parte, de início timidamente, e depois como concausa cada vez mais relevante, especialmente no meado dos anos 30, a habilidade com as agulhas e as linhas, assim como o domínio da máquina Singer de mesa”.
             Penso que ter habilidade em contornar situações delicadas e difíceis, capacidade de estratégia, facilidade em comandar adversidades comuns em um grupo de seres pensantes, dada a particularidade de cada um, ter pulso forte diante de eventuais divergências, fossem os critérios para ascensão hierárquica dentro do bando e não o manuseio da máquina de costura, mesmo porque, viviam e sobreviviam em meio a combates, no liame entre a vida e a morte.
          Sendo assim, não creio que ter habilidade na arte de bordar e costurar fosse de suma importância para o chefe de um subgrupo. As máquinas de costura, na famosa foto das cabeças, não sinalizam que Lampião e/ou seus comandados gostavam de relaxar, tirar o estresse dos dias difíceis no manejo da máquina de costura, mas que usavam tal ferramenta para fazer seus pertences como bornais e roupas, deixando claro que não discordo dos bordados, nem da habilidade dos mesmos nesta arte.

Casa do coiteiro Pedro de Cândido
      
            Por falar nas ditas máquinas de costura, nota-se duas delas na famosa foto das cabeças. Sabemos que a máquina de dona Guilhermina, mãe de Durval e de Pedro de Cândido foi levada para o coito por Mané Félix e Vicente – este ainda com vida,

Coiteiro Manoel Félix

– e que a mesma iria servir para Sila e Maria Bonita fazerem a roupa do sobrinho de Lampião que ali havia chegado com a finalidade de acompanhar o tio.

Sila
Maria Bonita

             Em momento algum se falou que quem iria “costurar” a roupa do rapazinho seria Lampião e, ainda, por que com uma máquina no coito, Maria Bonita (ou mesmo Lampião), mandou buscar a da senhora proprietária da fazenda Angico?
             Ainda sobre as questões levantados pelo pesquisador Frederico ao falar do divórcio cultural entre o litoral e o sertão, concordo plenamente com ele. Houve realmente uma falha no processo de colonização, processo este que sentimos o ranço ainda nos dias de hoje. Porém, não digo que este fato não tenha reflexo no surgimento do cangaço, mas, em nada tem a ver com o cangaço da geração lampiônica, pois, sem sombra de dúvida, trata-se de uma insurgência nascida de uma particularidade estendendo-se para um campo mais amplo, porém não atingindo os ideais da divisão geopolítica e cultural. Seria forçoso demais pensar o contrário.
          Quanto ao simplismo dos marxistas em considerar o cangaço filho exclusivo da luta de classes envolvendo coronéis e cangaceiros, também concordo que até então estes fenômenos, em especial o cangaço, era tratado de forma mais simplista. Existe uma complexidade bem mais faraônica envolvendo todo este período.

Lampião
          
            Lampião era bem quisto por alguns coronéis, pois se sabe que em meio à medição de força e poder entre os donos dos sertões nordestinos, Lampião foi um veículo utilizado por uns em desfavor de outros. Claro, quando digo utilizado, não estou dizendo que Lampião foi um fantoche nas mãos deste ou daquele coronel, mas que todos ganhavam, porque no acerto entre Lampião e o coronel, cada um tinha como objetivo a satisfação dos seus intentos.
           Dizer que: “... o cangaço sai à luz como uma espécie de conspiração tácita sertaneja, irmanando coronéis e cangaceiros na luta surda contra inimigo comum: o poder litorâneo, fonte de toda repressão.” Não é nem forçoso, mas é absurdo mesmo.
          Controvérsias à parte, sabemos que realmente Lampião sabia manusear a máquina de costura, bem como bordar. Percebemos que atrás daquela fera, muitas vez insana, havia um indivíduo capaz de sutilezas como costurar, mesmo em um universo tão machista. Quanto a ser um sucesso ou não, bem, sabemos que trabalhar com oralidade é complicado, dada a subjetividade de conceitos e ao fato de a memória ser seletiva. Tanto é verdade que temos depoimentos de sobreviventes que caíram em total descrédito por conta do surrealismo em demasia.

CangaçoDa esquerda para a direita
Cobra Verde, Vinte e Cinco, Peitica, Maria Jovina, Pancada,
Vila Nova, Santa Cruz, Barreira, e possivelmente um oficial
da polícia. Barreira não fazia parte deste bando
             
            Um exemplo claro de um depoimento deste é o de Barreira ao então pesquisador Frederico. Pelo visto, a memória dele é tão seletiva que esqueceu que Lampião tinha um feeling apurado, tanto que mesmo sem saber que ele seria um traidor execrável, já não gostava dele.
           No mais, parabenizo os dois pesquisadores, por serem grandes mestres e nos darem um exemplo tão bom sobre um debate, donde se pode discordar do posicionamento do outro sendo respeitoso e sem perder a admiração mútua.
            Sou uma admiradora dos dois mestres e muito tenho aprendido com ambos. Sou uma iniciante nesta seara tão complexa e, por vezes, tão árida de se transitar, mas não podemos e nem devemos desanimar, pois, se as veredas percorridas pelos cangaceiros e volantes não foram nada fáceis, não vamos querer um campo de rosas como terreno para pesquisar.
            Se todos colaborassem de alguma forma para com as pesquisas, estaríamos muito mais avançados e não teríamos o que vez por outra temos. Pessoas que usam suas pesquisas como holofotes, sem se preocupar com o futuro do conhecimento, dada a imensidão de teses mirabolantes defendidas com objetivo único de serem mercadológicas.

Saudações Canganceiras
Juliana Ischiara é Pesquisadora, sócia da SBEC.
Quixadá / CE

Extraido do blog: "Lampião Aceso" 

Amigo Leitor:

Eu sei que nos dias de hoje ninguém usa mais parágrafo,
mas eu o acho tão bonito que continuo usando. Mania de antes.

O bolero de Lindomar Castilho

   Ramiro Zwetsch, de Goiânia
  

            Conhecido como o rei do bolero na década de 70, Lindomar Castilho retorna a carreira depois de cumprir doze anos de prisão por assassinar a mulher
           Nem os boleros mais tristes teriam desfecho mais dramático. A história que envolveu os cantores Lindomar Castilho e Eliane de Grammont acabou em tragédia, abrindo uma ferida que ainda está longe de cicatrizar.
           O goiano Lindomar e a paulista Eliane se casaram no dia 10 de março de 1979, dois anos depois de se conhecerem nos corredores da antiga gravadora RCA, em São Paulo.

Ag F4/ Lucrecio Jr
Lindomar e Eliane

           O cantor, na época, já era conhecido como o rei do bolero enquanto ela ainda ensaiava os primeiros passos de sua carreira. O casal teve uma filha, Liliane de Grammont, e se separou exatamente um ano depois da data do casamento.
            “Antes de casar, os dois decidiram que ela não cantaria mais para se dedicar ao lar”, conta Helena de Grammont, 50 anos, irmã de Eliane e repórter do Fantástico.
          Depois da separação, a cantora voltou a fazer shows. Na madrugada de 30 de março de 1981, ela cantava no Café Belle Époque, em São Paulo, acompanhada pelo violão de seu novo namorado, Carlos Randall, primo de Lindomar.

Lindomar Castilho na rua e em sua casa, em Goiânia: “Carrego
um sentimento de culpa enorme”, diz o cantor, que recomeça
a carreira, ainda atormentado pelas lembranças
do crime que cometeu
          
            Enquanto cantava os versos “Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim”, da canção “João e Maria”, de Chico Buarque, levou cinco tiros pelas costas. O autor do crime era seu ex-marido.

Chico Buarque de Holanda

           Depois de cumprir doze anos de pena – seis deles em regime semi- aberto – Lindomar Castilho ganhou liberdade em 1996 e tenta agora retomar a carreira, na esteira do sucesso de Reginaldo Rossi, outro cantor romântico que estourou nos anos 60 e voltou a ser notícia recentemente.

 
Reginaldo Rossi

           O cantor está lançando Lindomar Castilho ao Vivo, o primeiro CD por uma grande gravadora desde o cumprimento da pena. “Minha voz não é a mesma, mas continua boa”, opina.
           Desde que se encontra em liberdade, Lindomar mora em Goiânia e evita ir a São Paulo. “Eu carrego um sentimento de culpa enorme”, diz o cantor. Arrependimento, no entanto, é uma palavra que ele prefere não pronunciar. “Não é arrependimento. A tragédia aconteceu, independente do meu querer ou não querer”, diz ele, enxugando as lágrimas e tentando mudar de assunto. “Agora estou procurando ocupar minha cabeça, trabalhando dia e noite nesse disco.”
          Por ironia do destino, Lindomar saiu de Goiás para começar a carreira em São Paulo, em 1961, a convite de Paulo de Grammont, tio de Eliane e diretor artístico da Organização Vítor Costa, grupo de comunicação que detinha a concessão do canal 5. Nessa época Eliane nem era nascida. “Embora nossa família tivesse contato com Lindomar, nós só o conhecemos de verdade através de Eliane”, lembra Helena. “Conhecíamos o artista, não a pessoa”.

 violencia2.jpg
Eliane

           Ainda em 1961, o cantor lançou seu primeiro álbum, com repertório de Vicente Celestino. Daí em diante trilhou um caminho de sucesso, chegando a vender, na década de 70, 500 mil cópias de um LP, marca mais do que satisfatória para os padrões da época.

Vicente Celestino

           Com o novo disco, Lindomar pretende vender ainda mais. “Minha filha, Liliane, me fez uma grande surpresa, me procurando um dia antes do meu aniversário, em 1998”, lembra Lindomar. “Foi ela quem me sugeriu que eu retomasse a carreira”.
           Lindomar não via a filha havia 17 anos. Liliane – que não retornou o contato ao ser procurada por Gente – cresceu em São Paulo, criada pelas tias Helena e Carmen de Grammont. Ela tem hoje 20 anos, é dançarina e realizou um curso de seis meses na escola de dança Julliard School, de Nova York, financiado pelo pai.

Liliane

         Desde aquele reencontro, Lindomar e Liliane voltaram a se ver poucas vezes. “Eu não a procuro por respeito à família atingida”, argumenta o cantor que não se sente à vontade em ligar para a casa de Helena de Grammont, com quem a filha mora atualmente. “Liliane foi atrás da história de sua vida. Ela precisava conhecer o pai”, explica Helena. “Nós nunca falamos mal do pai dela, aliás nós quase nunca mencionamos sequer o nome dele.”

Lindomar Castilho
Lindomar Castilho

           Depois de ser procurado pela filha, Lindomar voltou a fazer alguns shows. Logo veio o convite da gravadora Sony, que foi aceito na hora. O repertório reúne grandes sucessos de sua carreira, incluindo composições próprias e canções de outros autores que ficaram famosas na sua interpretação. Estão no disco, entre outras, “Eu Vou Rifar Meu Coração” (que tem mais de 50 regravações mexicanas), “Você É Doida Demais” (regravada por Leandro e Leonardo) e “Cabecinha no Ombro”. 

 
Leandro & Leonardo

           Lindomar vive em Goiânia e namora a funcionária pública, Vera Cruz de Castro Lobo, 49 anos, que o cantor faz questão de manter distante da imprensa. “Ela não tem nada a dizer sobre tudo que aconteceu”, afirma Lindomar.


Copyright - Editora Três