Seguidores

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Cangaceiros, coronéis e a nossa república de máscaras

Por André Raboni

Hoje (28) completam 70 anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Maria Bonita. Foram mortos em uma volante comandada pelo tenente João Bezerra, na fazenda Angico, em Poço Redondo (SE), em 1938.

Não é incomum encontrarmos referências a Lampião como um herói popular, ou mesmo um rei. Afinal, quem foram os cangaceiros?

Antes de responder essa pergunta, buscaremos nos desviar das respostas enlatadas que costumamos reproduzir. É preciso compreender um pouco o contexto social e político em que viveram Virgulino Ferreira e seu bando, bem como as relações de poder que vigoravam na época.

Lampião nasceu em Serra Talhada, sertão de Pernambuco, no ano de 1897. Morreu em 28 de julho de 1938. Assim, viveu 41 anos, no período que vai da Primeira República (1889-1930) até pouco depois do golpe getulista do Estado Novo (1937).

A realidade política e social era bem diversa de hoje (embora muitas relações ainda subsistam – sobretudo as relações de poder local e a pobreza de parte significativa da população). Outro cuidado que precisamos ter ao buscar alguma espécie de avaliação da figura de Lampião e seus aliados é que o Cangaço não foi atividade exclusiva deles, mas que também existiram outros grupos de cangaceiros.

Em primeiro lugar, gostaria de falar um pouco do contexto político da Primeira República brasileira (conhecida pejorativamente como República Velha – eu pergunto: por que Velha? Simples resposta: porque quem a cunhou assim foram estudiosos do Estado… Novo em diante. É comum encontrarmos classificações de períodos históricos que demonizam o passado a partir do presente – outro exemplo seria quando os ditos modernos crivaram o período anterior ao seu como Idade Média, ou Idade das Trevas).

A Proclamação da República (1889) prometia inúmeras conquistas sociais em detrimento do atraso monarquista. Entre elas, acabar com o centralismo do poder. Em troca dessa centralização imperial, iriam emergir formas descentralizadas de governos, em sua forma federalista. E, isso aconteceu de fato?

Não. Apesar de ser uma prerrogativa constitucional, os princípios de autonomia municipal acabaram por não sair do papel. Podemos até dizer que os municípios foram sufocados pelas práticas políticas ao nível nacional e estadual. Durante o governo do paulista Campos Sales (1898-1902), iniciou-se a chamada ‘política dos governadores’. O que é isso?

A instabilidade política dos anos seguintes à Proclamação tornava necessária a fundação de bases políticas que dessa governabilidade aos presidentes da república. A forma arquitetada por Campos Sales foi justamente estabelecer vínculos de compromissos com os governos estaduais, baseados na troca de favores, nas nomeações para cargos burocráticos, no repasse de verbas e nos investimentos vários (conquistas materiais e simbólicas, como luz elétrica, trens, telefones, etc. eram a coqueluche do momento). Por sua vez, os governadores de estados firmaram os seus compromissos com os presidentes, para garantir a ‘passividade’ das bases políticas em um nível municipal. Para isso, outra cadeia de interesses e compromissos foi firmada entre os governadores e os chefes políticos locais (alguns, coronéis).

Como você pode perceber, a estrutura arquitetada é como uma teia política, um sistema no qual as relações de interesses permeavam toda a realidade política. Foram esses compromissos que fizeram emergir de forma mais acabada as relações políticas do sistema coronelista. Dessa forma, não eram “coronéis” apenas aqueles que ainda mantinham seus títulos da Guarda Nacional. Mas todo chefete político (padre, médico, comerciante, advogado, delegado, fazendeiro, etc.) que arregimentava currais eleitorais, para garantir a estabilidade política aos governadores, principalmente durante as eleições, em troca de nomeações em cargos públicos, envio de tropas para combater as famílias rivais, repasse de verbas e bens simbólicos, etc.

Com esse sistema articulado e funcional, quem sofre as suas consequências? Os municípios, claro. Essas unidades político-administrativas viram sua autonomia plenamente sufocada com a instauração das relações de compromissos entre a União, os Estados e, por último, os Municípios. E, isso era ruim? Depende do ponto de vista. Vejamos: o sufocamento dessa autonomia prevista na Constituição garantia às famílias mais aquinhoadas dos municípios a manutenção de seu poder político e econômico local, haja vista sua força em repassar votos. Ou seja, para essas famílias era muito bom. Por outro lado, a população menos abastada era quem mais sofria as consequências desse federalismo tosco, bem como a própria Carta Magna também exalava ares de ficção e mentira. Não foram poucos os debates jurídicos nesse período acerca de uma reforma constitucional.

O cangaço no contexto político da primeira República: anseios e práticas

O que ocorre é que as práticas do Cangaço estão envoltas nesse contexto político. Não estando inseridos nas discussões bacharelescas, claro, os cangaceiros adaptaram-se à esta realidade, manobrando-a de várias maneiras e adequando-a aos seus anseios.

Quais eram esses anseios? Aqui reside uma série de divergências. Uns dizem que suas motivações eram algo próximo ao que conhecemos como Robin Hood, ou seja, que os cangaceiros eram espécies de justiceiros, que trariam ao povo o resgate da cidadania estuprada pelos chefes políticos. Mas, essa tese cai totalmente por terra quando percebemos que não era incomum os bandos de cangaceiros se aliarem aos chefes políticos locais, sejam eles padres, fazendeiros, etc. Outras interpretações, mais críveis, talvez, fossem as motivações de vingança. Mas, a vingança, após efetivada, teoricamente deveria cessar as práticas. Não era o que acontecia, em regra. Depois de inserido em um bando, o cangaceiro assumia um estilo de vida.

Em que tipo de relação se baseava essas alianças? Bem, a resposta para isso pode variar muito. O certo é que os cangaceiros também tinham seus interesses, dentro de toda essa cadeia de interesses. Estes podem variar muito: desde de recebimento de dinheiro ou bens materiais (armas, roupas, etc.), até mesmo proteção por parte do coronel ao qual o bando se aliava. Parece estranho, mas cangaceiros também se aliavam com coronéis em relações de proteção mútua, e isso já não é segredo pra ninguém.

O estilo de vida quase-nômade dos cangaceiros davam a eles um grande poder de mobilidade e sagacidade para escaparem das forças do Estado – quando as forças policias se opunham a eles -, fortalecido pelos vínculos de proteção e pelo conhecimento profundo das regiões de caatinga do nordeste brasileiro.

O medo que pairava nos povoados, certamente dava aos cangaceiros o seu status de bandos violentos e perigosos. As práticas cruéis, como o esfolamento, brigas, assassinatos, roubo, etc. eram comum, e garantia-lhes manter essa política do medo assentada sobre o banditismo social.
Como bandos seminômades, os cangaceiros forjaram uma máquina de guerra que, paradoxalmente, os afastava e os ligava ao contexto político da época. Manobrando em seu favor as práticas políticas de poder local, garantiam não apenas seu status, como a sua própria existência.

Se os cangaceiros são bandidos ou mocinhos, não posso responder. O certo é que estavam inseridos em uma trama social na qual compromissos e interesses estavam em jogo, em todas as esferas políticas. Isso confere um caráter dúbio às práticas dos cangaceiros. Ao mesmo tempo em que são bandidos (por causa dos assaltos, das brigas, assassinatos), também são ‘justiceiros’, na medida em que o inimigo perseguido é é também inimigo de quem observa. É apenas uma questão de referencial.

Dessa maneira, não acho que devemos estigmatizar os cangaceiros, nem muito menos vangloriá-los. Nem como heróis sociais (visão ampliada com a profusão do movimento mangue-beat, que convence os mais jovens, quando embebidos em seus anseios pseudorevolucionários de revolta – a revolta pode até ser legítima, mas o arsenal ideológico é falacioso), nem mesmo como meros bandidos (apesar de suas práticas).
Penso que, se existe um sujeito que deva carregar algum estigma, esse sujeito é abstrato. Podemos chamá-lo de poder local, ou, ainda, cadeia de interesses.

Mudanças aparentes encobrem permanências

Após a Revolução getulista de 1930, a perseguição ao cangaço se intensifica. Mudam-se as formas de garantir os interesses. Via de regra, também mudam-se as elites dominantes no país. O fim da ‘política dos governadores’ mostra como novas relações de poder político são instaurados. A perseguição aos grupos políticos de esquerda também tem sua vertente na perseguição aos cangaceiros – pretensos justiceiros que ampliariam o poder do povo sofrido, usurpando-o das elites. Sendo também uma ameaça so Estado (em muitos casos pelas próprias alianças com chefes locais), deveriam ser exterminados.

Essa última análise, de caráter ideológico, é discutível. No entanto, é menos discutível o fato de que a intensificação da perseguição aos cangaceiros pode nos mostrar que estava sendo operada uma nova guinada na política nacional. Com o golpe do Estado Novo (1937) e a instauração de interventoriais nos estados (os interventores eram os governadores nomeados pelo governo federal), o anseio por um Estado forte e eficaz no combate ao banditismo social e ao domínio local por chefetes e coronéis, foi uma máscara que escondia por trás de si um rosto bizarro… antidemocrático e, mesmo, fascista. Por sua vez, as políticas de massas, como as sequentes conquistas trabalhistas, davam área de progresso nos centros urbanos.

Não era o fim do elitismo, mas sim o deslocamento de elites no poder. Em muitos casos, as elites se mantiveram na base do “sou coerente e nunca mudo de lado: estou sempre com a situação “. É nesse sentido que as práticas de poder local se mantém. O fim do coronelismo é o fim de um sistema, não o fim de uma prática de dominação política e econômica – esta se mantém ainda, de diversas formas, até os dias de hoje – mas, é mais prudente chamar a isso de mandonismo local.

O fato é que logo após o golpe do Estado Novo, o bando de Lampião foi esfarelado, sobrevivendo apenas alguns remanescentes que se refugiaram em várias partes do país.

Por alguma conclusão

Essa história de mudanças e permanências evidencia que, além do fato de sermos um país muito atrasado, também somos um povo que adora se enganar. Mudamos as formas, mas as práticas, em regra, são as mesmas. Com o devido cuidado, podemos fazer relações do tipo: não temos mais coronéis, mas mantemos nossas ‘lideranças’ comunitárias (se entearmos o Coronel como aquele que paga as contas, veremos que atualmente ainda existem milhares de coronéis por todos os lados…); não temos mais cangaço, mas temos nossos traficantes que agora se pretendem domesticadores de populações, praticando até mesmo o extinto voto de cabresto.

E, além de tudo isso, ainda preferimos dar ares de elegância ao nosso banditismo social, nomeando nossos bandidos como “reis do pedaço”. É rei de palha aqui, rei da bola acolá, rainha loira daquilo outro, príncipes de araque que tornam nossa república um Império simbólico.

Enquanto isso, vamos mantendo nossos sonhos de transformação social e política com os mesmos signos do passado: não se tira máscaras, elas apenas são substituídas por outras, mais adornadas para desfilarem em nossos carnavais gloriosos e repletos de artistas-ou-não fantasiados de heróis.

Assim prossegue nossa república mascarada.

http://acertodecontas.blog.br/artigos/lampiao-cangaceiros-coroneis-e-a-nossa-republica-de-mascaras/

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS

Por Antonio José de Oliveira

Na realidade Pesquisador Mendes, o livro LAMPIÃO: A RAPOSA DAS CAATINGAS oferece total segurança nas informações, por ser fruto de um trabalho minucioso e didaticamente perfeito, realizado em profundidade durante onze anos de pesquisa.


Posso afirmar sim, uma vez que tive o prazer de lê-lo por completo. O autor desenvolveu uma ampla pesquisa de campo, além da bibliográfica e documental. 

Autor deste livro José Bezerra Lima Irmão e o escritor João de Sousa Lima

Não conheço pessoalmente o Bezerra Lima, mas pelo que pude interpretar na leitura do seu livro, trata-se de um escritor que, na medida do possível buscou a "verdade verdadeira". Acredito Mendes, que esta segunda edição irá logo desaparecer das prateleiras das livrarias, e ele terá que partir para uma TERCEIRA ETAPA.

A 2ª edição continua sendo vendida através dos endereços abaixo:

josebezerra@terra.com.br
(71)9240-6736 - 9938-7760 - 8603-6799 
Pedidos via internet:
Mastrângelo (Mazinho), baseado em Aracaju:
Tel.:  (79)9878-5445 - (79)8814-8345
E-mail:   lampiaoaraposadascaatingas@gmail.com 

Clique no link abaixo para você acompanhar tantas outras informações sobre o livro.

http://araposadascaatingas.blogspot.com.br 

EXCELENTES IMAGENS


Lampião com a família, em sua visita a Juazeiro em março de 1926

1 - Antônio, irmão
2 - Anália, irmã
3 - Joaninha, cunhada (casada com João Ferreira)
4 - Maria Mocinha, ou Maria Queiroz, irmã
5 - Angélica, irmã 
6 – Lampião
7 - Zé Paulo, primo
8 - Venâncio Ferreira, tio
9 - Sebastião Paulo, primo
10 - Ezequiel, irmão
11 - João Ferreira, irmão
12 - Pedro Queiroz, cunhado (casado com Maria Mocinha, que está à sua frente, sentada)
13 - Francisco Paulo, primo
14 - Virgínio Fortunato da Silva, cunhado (casado com Angélica) 
15 - ZÉ DANDÃO, agregado da família.



Fonte: facebook
Página: Sergio Roberto‎ O Cangaço

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

GROTA DO ANGICO À NOITE


GROTA DO ANGICO À NOITE (aqui foi o lugar que Virgulino Ferreira da Silva o Lampião perdeu o seu reinado do cangaço. Local da sua morte  Lampião e mais 10 cangaceiros, inclusive à sua amada Maria Bonita.

Nessa foto, temos o local, e onze luzes/velas, simbolizando os mortos.
Você teria coragem de passar a noite nesse local, mesmo sendo acompanhado por outras pessoas? 

Foto cortesia: Márcio Vasconcelos.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

quarta-feira, 15 de abril de 2015

CANGACEIRO " VILA NOVA " FALA AO CORREIO DE ARACAJU SOBRE O COMBATE DE ANGICO (Edição de 29/10/1938) LEIA, ABAIXO, A MATÉRIA COMPLETA…


CANGACEIRO " VILA NOVA " FALA AO CORREIO DE ARACAJU SOBRE O COMBATE DE ANGICO (Edição de 29/10/1938) LEIA, ABAIXO, A MATÉRIA COMPLETA…

NEM OS PRÓPRIOS BANDIDOS ACREDITAVAM NA MORTE DE LAMPIÃO! 
UMA CONTRA-OFENSIVA QUE FICOU APENAS NO PROJETO DOS CANGACEIROS SEM COMANDO SURPREENDENTES DECLARAÇÕES DE VILA NOVA SOBRE O COMBATE!

OUTRAS NOTAS CURIOSAS SOBRE A RENDIÇÃO.

MACEIÓ, ... Estão em Santana do Ipanema, de onde virão a Maceió, os bandidos Pancada, Vila Nova, Vinte e Cinco, Santa Cruz, Cobra Verde e Peitica, presos pela tropa volante alagoana sob o comando do sargento Juvêncio.

PANCADA VAI MESMO SE CASAR

O chefe de grupo Pancada, aconselhado por um sacerdote, vai se casar ainda esta semana com a sua companheira Maria Jovina, com quem vivia nas caatingas. Maria Jovina está para ser mãe.

REMEMORANDO O COMBATE DE ANGICO:

O bandido VILA NOVA rememorou o combate de Angico, em que pereceu Lampião, dizendo, na sua linguagem rude, que as 5 horas da manhã daquele dia, quando começou o combate, já Lampião havia ido ao mato. Aos primeiros tiros, o chefe estava quase equipado, faltando apenas abotoar as correias dos bornais, quando foi atingido por dois projéteis.

Houve um pequeno intervalo, mas, logo após, os que estavam perto de Lampião, acossados por fortes rajadas de metralhadora, caíram mortalmente feridos.

Foram eles: Quinta-feira, Mergulhão, Colchete, Maria Bonita e Macela. Eu corri ao encontro do meu padrinho Luiz Pedro, prostrado, em sangue e também mortalmente ferido, que me implorou que acabasse de mata-lo para terminar com seus sofrimentos. Eu não atendi, dizendo-lhe que, como seu afilhado, os meus braços não tinham força para mata-lo. Pediu então que levasse o seu mosquetão, no que foi atendido.

O tiroteio estrugia e eu pensei em organizar uma contra-ofensiva. Não conseguindo, tratei de fugir com outros companheiros, indo me reunir ao restante do grupo, em número de trinta e dois, na fazenda Cuiabá. Nessa ocasião, verificamos que faltavam onze companheiros, inclusive Lampião.

A princípio, muitos companheiros não acreditavam na morte de Lampião, depois confirmada. Desde ali, começou o arrefecimento dos bandidos, que perderam o gosto pelo cangaço.

Referindo-se ao tenente Ferreira de Melo, disse que o referido oficial, durante o combate de Angico, parecia um diabo em pessoa, tal sua violência na luta e tal a sua coragem.

Foto cortesia: Frederico Pernambucano de Melo, in Guerreiros do Sol.

Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

"ANTÔNIO SILVINO", DE SÉRGIO DANTAS

Por Honório de Medeiros

Em narrativa linear, atenta à lógica dos fatos históricos, Sérgio Augusto de Souza Dantas nos reapresenta a um Antônio Silvino cru, recortado do contexto mítico e inserido em sua dimensão humana, sem que restasse perdido tudo quanto o tornou um dos mais interessantes personagens da trindade básica que forjou a alma sertaneja – o cangaço, o misticismo, o coronelismo.


Louve-se a felicidade na escolha do “nome” de cada capítulo bem como o excerto que o acompanha, próprio para chamar a atenção do comprador desatento, em uma homenagem ao estilo jornalístico de outrora, e a indicar um texto enxuto, leve, de parágrafos curtos e bem encadeados. Chamam a atenção episódios trazidos a lume que por si só têm dimensão histórica, como a convivência entre Antônio Silvino e Gregório Bezerra, lendário líder comunista pernambucano, sua entrevista com Graciliano Ramos, e o assalto à Usina Santa Filonila na qual morreu Feliciana na flor da idade – crime do qual o cangaceiro jamais deixou de se arrepender. Aliás, qual teria sido o desfecho do embate entre Antônio dos Santos Dias e José Tavares de Melo, este, genro, aquele, pai de Teresa Tavares de Melo, pivô da questão? Qual teria sido o fim de cada um deles?

O Antônio Silvino que emerge do ótimo texto de Sérgio Dantas é um personagem emblemático: é o retrato nítido de uma saga que nos permite identificar e compreender os nexos causais que originam certa circunstância histórica – o período do cangaço – e até mesmo ir além, na medida em que também permite identificar o viés comum a entrelaçá-los, ou seja, a questão do Poder. Basta colocar esses retratos sobre a mesa e examiná-los com olhar crítico: Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião; Coronel Zé Pereira, Coronel Isaías Arruda, Coronel Floro Bartolomeu; Pe. Cícero, Beato Zé Lourenço, Antônio Conselheiro... Tomando distância de qualquer tentativa de apreender o fenômeno a partir de uma explicação oriunda exclusivamente de fatos alusivos à posse da terra.

É possível conjecturar se Sérgio Dantas vai aventurar-se em novos resgates ou cuidará de desbravar outras fronteiras. Sua obra tem sido, até agora, a fronteira entre um ciclo e outro no que diz respeito à literatura do cangaço. Esse ciclo por ele estudado até o momento está chegando ao fim. Já não é mais possível, até onde sabemos, ressalvada a possibilidade de documentos desconhecidos surgirem inesperadamente, prosseguir com a literatura elaborada a partir de relatos, fotos, testemunhos ou escritos, ou seja, fontes primárias. São poucos os sobreviventes e deles já se extraiu mais do que tudo. Os papéis estão virando pó, vítimas da ação inclemente do tempo e da incúria das nossas elites. Um outro ciclo está surgindo: a interpretação de todos esses dados, ou seja, uma literatura de tese, algo timidamente iniciado por Frederico Pernambucano de Mello com “Guerreiros do Sol”, através da criação do conceito de “escudo ético”.

A não ser que – e talento não lhe falta – resolva mergulhar com sua característica obstinação no jornalismo literário brindando-nos com alguma pesquisa onde sobrem indícios, mas, faltem provas – como de fato acontece nessa espécie literária - e, no entanto, seja possível povoar um texto com interrogações perturbadoras tais quais, por exemplo, as razões do estranho silêncio do Juiz e do Promotor de Mossoró em relação aos fatos que lá aconteceram em junho de 1927.


http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Aziz Francisco Elihimas


Aziz Francisco Elihimas, "sobrinho" de Benjamin Abraão, ainda criança e o próprio em 1992 com Frederico Pernambucano de Mello. Aziz faleceu no Recife em 2013. 


Fonte das fotografias: Entre Anjos e Cangaceiros (Frederico Pernambucano de Mello).

Fonte:
facebook

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

PAJEÚ: O GRANDE ESTRATEGISTA DA GUERRA DE CANUDOS

Por José Romero Araújo Cardoso

Como ficou conhecido nas lutas de Canudos, Pajeú era pernambucano do famoso vale imortalizado por Luiz Gonzaga décadas depois do massacre abominável que manchou indelevelmente a história do Brasil.
Escravo liberto que rumou para Canudos apostando nas promessas do Bom Jesus Conselheiro tendo achado por lá, às margens do rio Vaza-Barris, a tão sonhada liberdade que a sociedade negou, e ainda nega, de forma inadmissível e desumana, aos excluídos.


Quando da desastrosa campanha comandada pelo famigerado Coronel Moreira César, Pajeú se destacou pela impecável forma como conduziu a guerrilha da guarda católica do Conselheiro.

Dizem que foi ele quem pôs fim à arrogância de Moreira César, acertando certeiro tiro de bacamarte boca-de-sino, municiado com chifre de novilho, no sanguinário corta- cabeças. Não obstante usar colete de aço, Moreira César foi milimetricamente varado pelo disparo em local desprotegido.


O oficial responsável pela substituição do Coronel Moreira César no comando da tropa também não aguentou as táticas de guerrilha implantadas por Pajeú. Uma ordem do Coronel Tamarindo ficou famosa: “Em tempo de murici, cada um cuida de si”.

O que restou da tropa de Moreira César foi fustigada pelos guerrilheiros comandados por Pajeú. Verdadeira carnificina foi feita pelos bravos combatentes para pagar a profanação do arraial sagrado do belo Monte, pois inadvertidamente Moreira César desprezou todas as instruções do regimento do Exército Brasileiro e ordenou ataque de cavalaria a Canudos, cuja característica era a topografia extremamente íngreme, impossível de ter sucesso por parte de Moreira César através de investida com esse tipo de estratégia militar.


Para tentar coibir e amedrontar outras expedições que vieram em direção a Canudos, Pajeú ordenou que os cadáveres dos soldados e oficiais ficassem insepultos, pendurados em árvores como exposição macabra do ódio devotado pelos conselheiristas às tropas do governo federal.

Quando a quarta expedição foi enviada para destruir canudos, cujo comando ficou a cargo do General Arthur Oscar de Andrade Guimarães, foi com terror e suspense que a soldadesca encontrou o aviso dos guerrilheiros da guarda católica, na forma de corpos ressequidos pelo sol esturricante do sertão nordestino. Com certeza, aumentou o ódio do corpo militar do Exército Brasileiro contra os membros da comunidade mística de Antônio Conselheiro.


Pajeú foi responsável pelas mais significativas baixas contra as tropas federais. Acostumados a caçar para sobreviver, os guerrilheiros usaram a experiência adquirida e se tornaram franco-atiradores, pois quando algum soldado desavisado, principalmente em noite sem lua, acendia um cigarro, certeiro tiro o prostrava imediatamente. Usavam os “presentes” que Moreira César lhes deixou, ou seja, fuzis mausers de fabricação alemã do Exército Brasileiro.

Não obstante terem conseguido canhões e metralhadoras, esses não foram usados, pois os guerrilheiros do Conselheiro não souberam como manusear as mortíferas armas tomadas da expedição de Moreira César, destroçada pela genialidade incontestável das táticas do maior guerrilheiro de Canudos.


Quando a guerra de Canudos tornou-se insustentável, com sucessivas baixas e derrotas das tropas federais, o governo enviou verdadeiras máquinas de matar. Entre essas estava um canhão Withworth 32, a famosa “matadeira”, como ficou conhecido entre os habitantes de Canudos. Foi a única forma que conseguiram para pôr a baixo as torres da igreja nova do belo Monte.


Cada tiro da “matadeira” era verdadeiro massacre que a mesma proporcionava. O famoso canhão tornou-se o terror dos canudenses, razão pela qual Pajeú organizou grupo de assalto intuindo destruir a máquina destrutiva.

Onze guerrilheiros chegaram de surpresa a bem guardada arma. Nesse ataque, o bravo comandante conselheirista perdeu a vida, bem como nove companheiros, sendo que apenas um conseguiu escapar.

Com a morte de Pajeú, a guarda católica do Conselheiro ficou desfalcada do principal estrategista, abalando sensivelmente a estrutura das estratégias da guerra de guerrilha que até então vinha obtendo sucesso indiscutível.


Pajeú, o famoso negro ex-escravo que marcou de forma impressionante a guerra de guerrilhas nas batalhas em canudos, foi imortalizado por Euclides da Cunha, que, não obstante racismo e estereótipos, dedicou-lhe páginas de reconhecido mérito pela bravura indômita em “Os Sertões: Campanha de Canudos”.

In:  CARDOSO, José Romero Araújo. Notas para a História do Nordeste. João Pessoa/PB: Editora Ideia, 2015. P. 30-32.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Escritor. Professor-Adjunto do Departamento  de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

terça-feira, 14 de abril de 2015

O COMBATE DAS CARAÍBAS EM FLORESTA


Travado entre Lampião e as forças volantes na quinta-feira dia 04 de fevereiro de 1926 às margens do riacho da maravilha, afluente do riacho do navio - nas divisas entre os municípios de Floresta e Betânia .
Participaram as volantes comandadas pelo Tenente Higino José Belarmino e Optato Gueiros contra o grupo de Lampião. Junto com Lampião encontrava-se entre outros o conhecido Manoel Pequeno (da fazenda Saco – na ribeira do riacho do navio) e seu grupo. Os cangaceiros se entrincheiraram no leito do riacho e em um serrote à margem deste emboscando a força em campo aberto.


O confronto teve a participação da força Nazaré composta por, Afonso de Sá Nogueira , Altino Gomes de Sá, Antônio Joaquim dos Santos (o famoso rastejador Batoque), Aureliano de Souza Nogueira (Lero), Aureliano Francisco de Souza (Lero Chico), Constantino Marcolino de Souza, David Gomes Jurubeba , Euclides de Souza Ferraz (Euclides Flor) , João Cavalcanti, João Domingos Ferraz, João Gomes Jurubeba, João Jurubeba de Sá Nogueira (João Gato), Joaquim Ferraz de Souza (Quinca Néo), Joaquim Francisco de Souza (Quinca Chico), Manoel de Souza Ferraz, Manoel Neto (Anspeçada), Pedro Gomes de Lira, Pedro Marcolino e Pedro Tomaz de Souza Nogueira.


O tiroteio durou até o final da tarde quando lampião se retirou do local levando seus mortos (acredita-se que em número de cinco) sepultando-os na caatinga entre o local do combate e o poço do ferro e deixando entre os volantes um saldo de pelo menos três baixas fatais, os soldados Aristides Panta da Silva (Este de Floresta), Benedito Bezerra de Vasconcelos e Antônio Benedito Mendes.


Os soldados mortos foram sepultados na margem esquerda do riacho da maravilha próximo ao local onde o riacho do Jacaré se une a este . O riacho da maravilha é a divisa entre os municípios de Floresta e Betânia.
No combate saíram feridos o Tenente Higino no braço, Manoel Neto no braço direito, Antônio Joaquim dos Santos (Batoque) na perna, João Cavalcanti, Altino Gomes de Sá, João Pereira de Souza e João Pinheiro Costa.

Em visita ao local tomamos conhecimento que durante o combate o boiadeiro florestano Joaquim de Alencar Jardim (Quinca Jardim) retornava a Floresta após a venda de uma boiada. Antônio Ferreira, que brigava no serrote no momento, sabendo da passagem deste pelo local o esperou com mais dois cangaceiros na sombra de um umbuzeiro (conhecido como umbuzeiro do Marçá – ou Marçal) abordando-o para lhe pedir dinheiro.

Quinca Jardim naquele momento se acompanhava de Joaquim Serafim (conhecido como Joaquim Grande do Rancho dos Homens) e mais duas ou três pessoas. Joaquim Grande então disse a Antônio Ferreira que Quinca Jardim não tinha a quantia pedida pois vendera a boiada mas não recebera o pagamento. Antônio Ferreira se contentou com a resposta sem saber que o dinheiro do pagamento da boiada estava no bornal que Joaquim Grande carregava a tiracolo.

Dois dos outros acompanhantes de Quinca Jardim disseram a Antônio Ferreira que um dos cangaceiros que o acompanhava tomara o pouco dinheiro que estes carregavam. Antônio Ferreira então perguntou quem pegara o dinheiro e o mandou devolver. O cangaceiro o fez embora queixando-se do trabalho ingrato onde era obrigado a devolver o dinheiro ganho.

Menos de um ano após, no final do ano de 1926 Lampião mataria 129 reses de Quinca Jardim no Rancho dos Homens por não ter recebido dinheiro após um pedido (acredita-se que um bilhete). Isso, provavelmente aconteceu ao descobrir que fora enganado cerca de dez meses antes.

Comenta-se que apenas uma rês escapou porque este fato se deu no dia da morte de Antônio Ferreira no Poço do Ferro. Na ocasião lampião se encontrava na região (Poço do Ferro – Pipocas – Rancho dos Homens) preparando-se para dar uma brigada com Ildefonso Ferraz do Curral Novo. Com a morte de Antônio Ferreira Lampião teve que ir às pressas ao Poço do Ferro para sepultar o irmão, morto pelo companheiro Luiz Pedro (do retiro) em um disparo acidental.

Fonte: facebook
Página: Cristiano Ferraz

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

"O GLOBO" - 21/07/1984 NUM SÓ DISCO, O QUE HÁ DE MELHOR NA MÚSICA DO CANGAÇO

Por Antônio Mafra

SÃO PAULO – De “Mulher rendeira” a “Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor”, esta última, uma recente toada em versos de martelo agalopado, de Otacílio Batista e Zé Ramalho, o cangaço sempre foi um bom filão para os compositores brasileiros. Dele, saíram obras esporádicas enaltecendo o movimento ou um de seus personagens, que, na maioria dos casos, nunca foram retomadas. “A música do cangaço”, álbum do Selo Eldorado lançado há menos de dois meses, reúne as melhores e mais significativas canções que a população urbana já ouviu sobre a saga de Lampião e seu bando, compondo, com o texto de Fernando Portela, que acompanha o disco, um painel histórico que até mesmo o mais leigo vai entender.

“A música do cangaço” começa com “Olha a pisada” (Zé Dantas e Luiz Gonzaga), interpretada pelo Rei do Baião. A inclusão desta música é ainda mais válida porque recupera versos de “Mulher rendeira” – “Ô Ô mulher rendeira/ Ô Ô mulher rendá/ Chorou por mim não fica/ Soluçou vai no emborná” – que estavam esquecidos.

“Cavalos do cão” (Zé Ramalho), a canção seguinte, um xaxado que lembra as harmonias que Elomar Figueiredo descobriu nas suas pesquisas em busca de uma linguagem musical do sertão brasileiro, dá um flash da vida de Lampião e suas fugas: “Correr da volante no meio da noite/ No meio da caatinga/ Que quer me pegar”. Essa composição e “Mulher nova...”, que está no bloco que inicia o lado B e fala das mulheres cangaceiras, eram para serem cantadas, respectivamente, por Zé Ramalho e Amelinha, a CBS, inexplicavelmente, não cedeu os fonogramas originais, mas o tiro saiu pela culatra; escolhendo outros intérpretes, com destaque para a bela voz de Teca Calazans, o Selo Eldorado deu novo brilho a obras que estavam desgastadas.

“Se eu soubesse que chorando/ Empato a tua viagem/ Meus olhos eram dois rios/Que não te davam passagem”. Quem é que não se lembra desses versos? E com eles, num registro quase inédito do ex-cangaceiro Volta Seca, que se diz autor da música, que se abre o lado B. O destaque aqui é o frio e impressionante depoimento de Sila, viúva de Zé Sereno, companheiro de Lampião sobrevivente do célebre Massacre de Angico.
Uma canção homenageando o líder do cangaço (“Lampião” de Sérgio Ricardo e Glauber Rocha), um texto enaltecendo a bravura de Corisco (“Reza do Corisco”, da mesma dupla) e uma música que faz uma advertência sobre a continuação do cangaço nos dias de hoje, “De gravata e jaquetão/ Sem usar chapéu de couro/ Sem bacamarte na mão (“Lampião falou”, de Venâncio e Aparício Nascimento) fecham o álbum.

Fonte: facebook
Página: Antônio Corrêa Sobrinho

http://blogdomendesemendes.blogspot.com


LILI, ESTRELA BANDIDA


Ela nasceu Djanira Ramos Suzano, em Mato Grosso do Sul, ano de 1944. Foi a assaltante de banco mais famosa que o país já teve. Comandava uma quadrilha que agia fantasiada e ela, vestia roupas justas, peruca loira e óculos escuros para seduzir os seguranças das agências bancárias. Ganhou o apelido de Lili Carabina, embora só usasse pistola como arma. Era também chamada de Djanira Metralha. Sua fama chegou ao auge nos anos 70/80 como uma bandida estrela.

Djanira casou muito cedo para satisfazer a vontade dos pais, mas se apaixonou por um traficante e veio com ele para o Rio de Janeiro. Entrou para o crime também muito jovem, aos 20 anos. Com a morte do companheiro, assumiu a liderança do grupo e matou por vingança os responsáveis por essa morte. Deu muito trabalho a polícia que sentia dificuldades em encontrá-la.

Finalmente, em 1980 foi presa e condenada a mais de 100 anos pelos inúmeros crimes. Fugiu seis vezes da penitenciária. Em 1988, numa das fugas, foi baleada na cabeça, entrou em coma durante 33 dias. Uma das balas ficou alojada na cabeça e não foi retirada. De volta à prisão, virou evangélica e pregava a Bíblia para as companheiras mesmo de muletas. Não se deixava abater.

Em 1999 recebeu o Indulto de Natal do então presidente FHC, mas morreu no ano seguinte de infarto aos 56 anos de idade. Deixou três filhos.

Sua vida foi transformada em documentário de TV pelo telenovelista Agnaldo Silva.
www.mulheresdocangaco.com.br

htp://blogdomendesemendes.blogspot.com

O CABO LEONÍDIO TRABALHOU COM ZÉ RUFINO


O cabo Leonídio trabalhou com Zé Rufino, mas passou a maior parte do tempo sob as ordens de Odilon Flor e a este fez um grande favor: Cortar as cabeças dos cangaceiros mortos.

- Era dia de São João, às nove horas da noite. Nós demos um combate na fazenda Gararu, em Sergipe. Chovia bala, depois silêncio. Os bandidos tinham ido embora. Procuramos pelos cantos para ver se tinha ferido. O combate tinha sido tão cerrado que não tinha dado tempo de ninguém sair carregando baleado. Encontramos três cangaceiros mortos: Manoel Moreno, a mulher dele Áurea e Gorgulho. Quando foi de manhã, o sargento Odilon juntou a tropa e disse: - Vamos cortar as cabeças dos defuntos. Mas ninguém quis ir. Não quiseram ir porque, você já sabe, cortar o pescoço de uma pessoa é preciso que a pessoa também tenha a cara dura, porque se não for, não corta não.

Então ele virou-se para mim e disse: - nego, vem cá, apanha aqui este facão e vá onde ta os cangaceiros, corte a cabeça e traga. Então eu fui e respondi pra ele: - sargento, o senhor já mandou todo mundo; nenhum quis ir, só eu é que posso cortar? O senhor podia ir, porque o senhor tem mais costume do que eu. Ele então disse: - eu quero é que você corte.

Aí eu apanhei o facão e fui. Quando eu peguei no cabelo do cabra, balancei, fechei a cara pro lado assim e sentei o facão, pá-pá, cortei, e joguei pra lá; peguei a mulher, cortei a cabeça da mulher. Peguei no outro cabra, cortei também a cabeça. Peguei todos os três, levei: - Pronto, chefe, taqui. Depois de uns dias, eu senti assim um remorso. De vez em quando, à noite quando eu dormia, sonhando com Manoel Moreno, um pouco assim de nervoso comigo, e coisa. E ele me apareceu um dia, me pegou dormindo. Pela abertura da rede e veio com um punhal em cima de mim; eu então pelejei, não pude fazer nada, gritei: - cabra mata o homem, cabra, me dá as armas, cabra, até que dentro do quarto (eu estava deitado perto da rede de uma criança, meu filho que hoje está em são Paulo), então eu tranquei os pés, a mulher levantou-se, tirou o menino da rede e ficou de lado quando eu ajuntei, pensando que o cabra estava me sangrando.

Levei a rede de uma vez só, agarrei-me nela, pensando que fosse o bandido, levei uma pancada na cabeça, (bati com a cabeça na parede) aí foi que me acordei, cansado, sufocado, sem fôlego, com o aperto que o cabra me deu. Bom, aí eu fiquei, coisa e tal e disse ao sargento Odilon: - sargento, eu tô me vendo aperreado com Manoel moreno. Ele então disse: - Você vai comigo daqui uns dias na casa de Pedrinho. Então eu fui. Cheguei lá, o Pedrinho fez lá um remédio pra mim e perguntou como era. Eu disse então os sintomas e depois de uns dias foi desaparecendo. Odilon me ensinou um defumador, umas coisas que o Pedrinho ensinou a ele e mandou eu tomar este defumador e com isto desapareceu. Não vieram mais me aperrear.

Depois da noite na rede a alma de Manoel Moreno tornou a aparecer; e aparecia com os braços estendidos, as mãos para cima, pedindo: - Leonídio, cadê minha cabeça que você cortou? (Retirado do Blog Lampião Acesso)

Adendo - http://blogdomendesemendes.blogspot.com
Juliana Pereira e Alcino Alves Costa

Eu não estou querendo contrariar o que escreveu o autor deste texto, respeito o seu excelente artigo, mas o escritor Alcino Alves Costa, diz em “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistério de Angicos”, que os cangaceiros abatidos lá em Poço da Volta, na Fazenda Palestina foram: Mané Moreno (que era primo de Zé Baiano e de Zé Sereno), Áurea, sua companheira (que era filha de Antonio Nicárcio, sendo este primo-irmão de Lê Soares (segundo Juliana Ischiara), este último pai de Rosinha de Mariano e de Adelaide, esta companheira de Criança).


Depois de vasculharem todos os locais onde aconteceu a chacina, Odilon Flor tomou conhecimento como sendo os mortos: Mané Moreno, sua companheira Áurea, e o bandido Cravo Roxo, o Serapião, que era filho de Mané Gregório, lá da Guia. Este deixou casa, pai, mãe, irmãos, parentes para se aliar aos cangaceiros, afirmando que queria ser mais um a entrar naquela desgraçada vida.

Certo dia ele tomou conhecimento que os cangaceiros se encontravam acoitados na Serra Negra, resolveu ir até lá. Depois de algumas advertências e como usar a arma, Mané Moreno o presenteou com rifle, munições, balas, bornais, chapéu e outros utensílios que eram necessários à vida cangaceira. E depois que ele recebeu os equipamentos, embrenhou-se às matas. E lá, deu um tiro que posteriormente causou a morte de Adelaide que estava grávida, por ela ter pensado que era volante que se aproximava do coito.

O Gorgulho, o qual aparece como sendo um dos que foi abatido, no momento foi baleado e através de um coiteiro amigo, arrumou um animal e foi se tratar no centro do Cajueiro. Um senhor de uma família “Félix”, o "Lisboa", foi quem cuidou dele até sua total recuperação. E depois desse acontecimento, Gorgulho resolveu abandonar o cangaço e retornou para sua terra que era o Salgado do Melão, incorporando-se novamente à sociedade. 

Diz ainda Alcino Alves Costa que é bom lembrar que o combate em que Odilon Flor matou Mané Moreno, Áurea e Cravo Roxo, conhecido como o fogo do "Poço da Volta", foi na realidade na Fazenda Palestina.

José Mendes Pereira – Mossoró-RN.

Fonte: facebook
Página: Anderson Gomes

http://blogdomendesemendes.blogspot.com