Seguidores

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Carnaval, Cangaço e Sociedade

Por: Professor Verônica Daniel Kobs

O Cangaço, em nossa História, tem função fundamentalmente social. Movimento de lutas, o “exército informal” de Lampião tinha vestimenta específica: “Certa vez Lampião chegou em uma cidade sergipana, entrou em um armazém e aceitou a proposta do dono do local para pesar toda a roupa e equipamentos que ele tinha pelo corpo. Chegou a quase 30 quilos, isto que ele tirou o fuzil e os depósitos [cantis] de água” (MELLO[1], citado em MILAN, 2014).

A arte de Aldemir Martins

Inúmeras são as referências dos críticos e historiadores ao fato de a roupa dos cangaceiros servir como espécie de farda ou armadura, o que enfatiza a importância da roupa como artefato bélico. Consequentemente, é possível ampliar a valorização dos cangaceiros, que não apenas lutavam e combatiam. Mais do que isso, eles eram protagonistas de duelos ritualísticos, nos quais a roupa era um acessório essencial e de importância estratégica.

São vários os estudos que, partindo da indumentária típica do Cangaço, associam os cangaceiros aos cavaleiros da Idade Média e até aos samurais. Sem dúvida, a comparação baseia-se nas batalhas incessantes e sangrentas e ao espírito guerreiro dos combatentes. Entretanto, muito além do aspecto bélico, está o social, que reforça a relação do Cangaço com os movimentos insurgentes (Canudos, Contestado, Balaiada...). E é exatamente nesse ponto, entre o combate e o social, que o movimento protagonizado por Lampião se amplia e se torna sinônimo de “luta social”. Os cangaceiros assumem a voz dos marginalizados[2] e lutam contra a injustiça. Contemporaneamente, as favelas reúnem essas características, que são como verdadeiros estigmas para boa parte da população. Evidente que isso remonta ao passado, com ênfase às décadas de 1930 e 1960: “No auge da ditadura militar, o Governo Federal criou um órgão chamado Coordenação da Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio (Chisam), que tinha como objetivo principal acabar com todas as favelas da cidade num prazo máximo de dez anos” (MONTEIRO, 2008, p. 1).

O processo de remoção, longe de ser uma novidade da década de 1960, tinha um histórico anterior bastante considerável. Christina da Cunha, no estudo Histórias e memórias das favelas, lembra, por exemplo, a destruição do cortiço Cabeça de porco, já em 1893, e identifica o início da ação remocionista em 1937, na Era Vargas. O que ocorre, a partir de 1960, é a retomada do projeto político, sinal claro de adesão à concepção que orientou vários governantes, os quais encaravam as favelas como “aberrações”: “Segundo relatório oficial da Fundação Leão XIII, de 1968, as favelas eram ‘uma aglomeração irregular de subproletários sem capacitação profissional, baixos padrões de vida, analfabetismo, messianismo, promiscuidade, alcoolismo... refúgio para elementos criminosos e marginais, foco de parasitas e doenças contagiosas’” (MONTEIRO, 2008, p. 4).


Favelas por Marcio Torosi

Esse processo expõe o antagonismo e a dualidade social. A oposição é acirrada, maniqueísta e, justamente por isso, remete ao Marxismo, segundo o qual a sociedade é dividida em dois vastos campos inimigos, em duas grandes classes diametralmente opostas: “a burguesia e o proletariado” (MARX; ENGELS, 2008). “Ao esboçar em traços gerais as fases do desenvolvimento do proletariado, descrevemos a história da guerra civil, mais ou menos oculta, que se desenvolve no seio da sociedade existente, até ao momento em que esta guerra se transforma numa revolução aberta e o proletariado, derrubando pela violência a burguesia, implanta a sua dominação” (MARX; ENGELS, 2008).

Geograficamente, e também socialmente, o espaço favela concretiza essa divisão marxista, sobretudo se for levado em conta o fato de sua origem, já que o Governo buscava tirar os pobres do centro e transferi-los para os arredores, preconizando um processo de assepsia social nas grandes cidades. Dessa forma, em territórios completamente distintos, bem marcados e delimitados, grupos diametralmente opostos representam o poder hegemônico e os marginalizados. A partir do momento em que o Cangaço ganhou espaço, na mídia e na História, a revolução social (e também política e cultural) passou a contar com um poderoso aliado. O movimento exigia que o povo tivesse vez e voz, em consonância aos ideais do Modernismo, que, naquela época, repercutiram na Literatura, nas Artes Plásticas e também no Cinema (nesse caso, pelo projeto ainda embrionário e que, mais tarde, daria início ao Cinema Novo).

Glauber Rocha

Glauber Rocha, precursor do Cinema Novo, em Estética da fome, escreveu sobre os famintos e, nas palavras do artista, ecoaram as ideologias do Marxismo e também do Cangaço:

A fome latina, por isto, não é somente um sistema alarmante: é o nervo da sua própria sociedade. Aí que reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida.(De Aruanda a Vida Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, escuras; foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo hoje tão condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, (...).). (ROCHA, 2014)

É intrínseca a relação do texto de Glauber Rocha com a ideologia revolucionária, já que até mesmo a estratégia anti-humana e antissocial do governo carioca é denunciada por ele. Porém, as semelhanças vão muito mais além, porque associam a fome dos marginalizados à violência:

(...) o comportamento exato de um faminto é a violência e a violência de um faminto não é primitivismo. Fabiano é primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é primitiva?

(...) uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado: somente conscientizada sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo o horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino.O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação, mas um amor de ação e transformação. (ROCHA, 2014)

De acordo com o cineasta, a violência é necessária, assim como é, também, proporcional à injustiça e à exclusão que a originaram. Para muitos, tal princípio é pessimista e desumano. No entanto, considerando a História, as características inerentes à humanidade e a divisão de classes, as palavras de Glauber Rocha servem apenas como constatação e é nesse sentido que o Cangaço pode ser considerado um movimento de luta pela transformação.


E foi justamente essa associação que deu a base para o samba-enredo da Escola carioca São Clemente, que levou para a Avenida, em 2014, o universo da favela e também um pouco da História do Cangaço. Na sinopse do enredo, de autoria de Andre Diniz e Wladimir Corrêa, há referências que explicitam a comparação entre os cangaceiros e os moradores das favelas:

(...) seja bem vindo à favela da São Clemente, e conheça toda a dimensão da audácia humana! (SÃO CLEMENTE, 2014)

Quem somos nós? Herança do olhar de esperança dos negros enfim livres.A fé dos pobres soldados que foram a Canudos vencer o próprio espelho dos sem cortiço, excluídos da cidade que limpava-se... (SÃO CLEMENTE, 2014)

Como fizemos? Da necessidade! (SÃO CLEMENTE, 2014)

Exige mudança, refaz a esperança.E protagoniza teu próprio destino (SÃO CLEMENTE, 2014)

Nos trechos do argumento do samba-enredo, são vários os pontos de contato entre a favela e o Cangaço: “a audácia humana”, a exclusão causada pelos governos de Vargas e Lacerda, a referência aos insurgentes de Canudos e até mesmo a violência necessária e reativa (tal como apresentada por Glauber Rocha, em Estética da fome). Coerente com a sinopse, a letra da música faz menção à “gangorra da vida” (SÃO CLEMENTE, 2014), com a pergunta “De que lado está?” (SÃO CLEMENTE, 2014). A metáfora é bastante adequada, porque representa muito bem a dualidade e a diferença social, evidenciando a desigualdade como motivo para a injustiça e para a exclusão.


Comissão de Frente da Escola de Samba São Clemente

A estilização do cangaço pela Escola São Clemente atualiza o movimento e enfatiza o aspecto social dos cangaceiros. Sem dúvida, essa leitura não é a mesma que foi repercutida pelo discurso hegemônico e “oficial”, ao longo das décadas. A marginalização e a injustiça, que levaram muitas pessoas a buscarem no Cangaço um modo ilegítimo e paralelo de luta e transformação, foram ocultadas pelos fatos que a mídia enfatizava, na época de Lampião: invasões, saques, estupros e castrações (no melhor estilo maniqueísta, em que os cangaceiros representavam o Mal e o Governo e os militares representavam o Bem). Quase um século depois, essa concepção é confrontada e o Cangaço é lembrado e reverenciado pelo povo, que se identifica com várias coisas que verdadeiramente fizeram parte da formação ideológica de muitos cangaceiros, dos quais Lampião foi um dos mais célebres, e do movimento do Cangaço como um todo. E, nessa retomada, o traje típico do Cangaço foi escolhido para representar o valor daqueles que participaram ativamente do movimento:

Esses artefatos – chapéu de couro e punhal –, enriquecidos por outros como embornais, cartucheiras, coldres, perneiras, cantis, luvas e alpercatas impõem-se como imagens de uma arte de síntese que refletem o orgulho de ser sertanejo, isto é, habitante dos sertões. As cartucheiras carregavam a munição, os coldres permitiam levar as pistolas a tiracolo, os cantis garantiam a água para a sobrevivência, os embornais levavam víveres, remédios, ferramentas; quanto às luvas, perneiras e alpercatas protegiam o corpo dos espinhos e garantiam a sobrevivência na caatinga. (SILVA, 2014)

Evidente que, em tantas batalhas, apenas tenacidade, patriotismo, força física e uma boa dose de estratégia (visível pela autossuficiência que o traje permitia, por reunir tudo o que era necessário para os confrontos) ajudavam. Mas não bastavam. Era preciso também buscar a proteção que a religiosidade e o misticismo podiam oferecer: “Os amuletos da sorte dos cangaceiros têm origem na antiguidade (...). Alguns chegavam a ter o signo de Salomão por todo o corpo. Ele é uma estrela de seis pontas – símbolo de Israel – e significa proteção. (...). Normalmente os cangaceiros (...) adotaram as estrelas de quatro, seis ou oito pontas.” (MILAN, 2014). Na literatura, há inúmeras referências ao poder de proteção da estrela de oito pontas, que “simboliza os mil raios da macambira, essa bromélia temível, com espinhos de ida e volta nas hastes longas de ouriço, uma aliada imemorial contra todo invasor” (SILVA, 2014). Por mais poderosos que fossem, os amuletos nunca pareciam ser suficientes[1]. Eram muitos os que faziam parte da crença mística dos cangaceiros e, de certa forma, se aliavam à devoção religiosa, representada pela figura de Padre Cícero.

Na referência que a São Clemente fez ao Cangaço, o chapéu foi elemento fundamental, pela sua tipicidade e por sua força simbólica:

O chapéu meia-lua de couro, com uma estrela no meio, lançado por Virgulino, hoje é o símbolo do nordeste brasileiro. O chapéu, que tem a aba virada naturalmente para cima quando se cavalga, durante o período do cangaço, serviu de suporte de arte (na aba iam alguns enfeites) e também de alerta: nenhum cangaceiro poderia correr o risco de ser surpreendido em uma emboscada, por isso não poderia andar com a aba abaixada escondendo os olhos. (MILAN, 2014)

Bateria da Escola São Clemente, no desfile do Rio de Janeiro, em 2014. As roupas dos participantes fazem alusão aos símbolos do Cangaço, com destaque ao chapéu típico do movimento.


Lampião, em traje e chapéu típicos, representativos do Cangaço
Foto de Benjamim Abrahão

Com base nas imagens e na passagem transcrita acima, é possível compreender que, tanto para o Cangaço quanto para o povo (no samba-enredo representado pelos moradores das favelas), o chapéu usado pelos cangaceiros é muito mais que um acessório. Ele representa o estado de alerta (para não se deixar surpreender) e também a coragem (para ver o inimigo sempre de frente). E ambos garantem a sobrevivência.

Referências: 
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto comunista. Disponível em:
. Acesso em: 13 jun.
2008.  
MILAN, P. A moda de Lampião. Disponível em:
. Acesso em: 27 mai. 2014.
MONTEIRO, M. Fantasma exorcizado. Disponível em:
com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from_info_index=21&infoid=8&sid=7>.  Acesso em: 27 jul. 2008.
ROCHA, G. Uma estética da fome. Disponível em:
nas/leituras_gg_cinenovo.php>. Acesso em: 15 abr. 2014.
SÃO CLEMENTE. [Sinopse e samba-enredo do GRES São Clemente – 2014]. Disponível em: . Acesso em: 11 mar. 2014.
SILVA, E. Q. R. e. Entre o chapéu estrelado e o punhal: o imaginário do cangaço em terras brasileiras. Disponível em:
. Acesso em: 27 mai. 2014.
[1] Vários textos mencionam também a importância de outros três símbolos: a flor-de-lis, símbolo de pureza; a cruz de malta e a cruz “oito contínuo deitado”. (Cf. MILAN, 2014)
Verônica Daniel Kobs
* Professora de Imagem e Literatura no Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade e Professora de Língua Portuguesa nos Cursos de Letras da FAE e da FACEL. 

[1] Francisco Pernambucano de Mello, autor do livro Estrelas de couro: a estética do Cangaço.
[2] O termo está sendo usado, aqui, como sinônimo de “excluídos”, dos que ficam “à margem” da sociedade.


 http://cariricangaco.blogspot.com.br/2015/04/carnaval-cangaco-e-sociedade-por.html

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Cangaceiros, coronéis e a nossa república de máscaras

Por André Raboni

Hoje (28) completam 70 anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Maria Bonita. Foram mortos em uma volante comandada pelo tenente João Bezerra, na fazenda Angico, em Poço Redondo (SE), em 1938.

Não é incomum encontrarmos referências a Lampião como um herói popular, ou mesmo um rei. Afinal, quem foram os cangaceiros?

Antes de responder essa pergunta, buscaremos nos desviar das respostas enlatadas que costumamos reproduzir. É preciso compreender um pouco o contexto social e político em que viveram Virgulino Ferreira e seu bando, bem como as relações de poder que vigoravam na época.

Lampião nasceu em Serra Talhada, sertão de Pernambuco, no ano de 1897. Morreu em 28 de julho de 1938. Assim, viveu 41 anos, no período que vai da Primeira República (1889-1930) até pouco depois do golpe getulista do Estado Novo (1937).

A realidade política e social era bem diversa de hoje (embora muitas relações ainda subsistam – sobretudo as relações de poder local e a pobreza de parte significativa da população). Outro cuidado que precisamos ter ao buscar alguma espécie de avaliação da figura de Lampião e seus aliados é que o Cangaço não foi atividade exclusiva deles, mas que também existiram outros grupos de cangaceiros.

Em primeiro lugar, gostaria de falar um pouco do contexto político da Primeira República brasileira (conhecida pejorativamente como República Velha – eu pergunto: por que Velha? Simples resposta: porque quem a cunhou assim foram estudiosos do Estado… Novo em diante. É comum encontrarmos classificações de períodos históricos que demonizam o passado a partir do presente – outro exemplo seria quando os ditos modernos crivaram o período anterior ao seu como Idade Média, ou Idade das Trevas).

A Proclamação da República (1889) prometia inúmeras conquistas sociais em detrimento do atraso monarquista. Entre elas, acabar com o centralismo do poder. Em troca dessa centralização imperial, iriam emergir formas descentralizadas de governos, em sua forma federalista. E, isso aconteceu de fato?

Não. Apesar de ser uma prerrogativa constitucional, os princípios de autonomia municipal acabaram por não sair do papel. Podemos até dizer que os municípios foram sufocados pelas práticas políticas ao nível nacional e estadual. Durante o governo do paulista Campos Sales (1898-1902), iniciou-se a chamada ‘política dos governadores’. O que é isso?

A instabilidade política dos anos seguintes à Proclamação tornava necessária a fundação de bases políticas que dessa governabilidade aos presidentes da república. A forma arquitetada por Campos Sales foi justamente estabelecer vínculos de compromissos com os governos estaduais, baseados na troca de favores, nas nomeações para cargos burocráticos, no repasse de verbas e nos investimentos vários (conquistas materiais e simbólicas, como luz elétrica, trens, telefones, etc. eram a coqueluche do momento). Por sua vez, os governadores de estados firmaram os seus compromissos com os presidentes, para garantir a ‘passividade’ das bases políticas em um nível municipal. Para isso, outra cadeia de interesses e compromissos foi firmada entre os governadores e os chefes políticos locais (alguns, coronéis).

Como você pode perceber, a estrutura arquitetada é como uma teia política, um sistema no qual as relações de interesses permeavam toda a realidade política. Foram esses compromissos que fizeram emergir de forma mais acabada as relações políticas do sistema coronelista. Dessa forma, não eram “coronéis” apenas aqueles que ainda mantinham seus títulos da Guarda Nacional. Mas todo chefete político (padre, médico, comerciante, advogado, delegado, fazendeiro, etc.) que arregimentava currais eleitorais, para garantir a estabilidade política aos governadores, principalmente durante as eleições, em troca de nomeações em cargos públicos, envio de tropas para combater as famílias rivais, repasse de verbas e bens simbólicos, etc.

Com esse sistema articulado e funcional, quem sofre as suas consequências? Os municípios, claro. Essas unidades político-administrativas viram sua autonomia plenamente sufocada com a instauração das relações de compromissos entre a União, os Estados e, por último, os Municípios. E, isso era ruim? Depende do ponto de vista. Vejamos: o sufocamento dessa autonomia prevista na Constituição garantia às famílias mais aquinhoadas dos municípios a manutenção de seu poder político e econômico local, haja vista sua força em repassar votos. Ou seja, para essas famílias era muito bom. Por outro lado, a população menos abastada era quem mais sofria as consequências desse federalismo tosco, bem como a própria Carta Magna também exalava ares de ficção e mentira. Não foram poucos os debates jurídicos nesse período acerca de uma reforma constitucional.

O cangaço no contexto político da primeira República: anseios e práticas

O que ocorre é que as práticas do Cangaço estão envoltas nesse contexto político. Não estando inseridos nas discussões bacharelescas, claro, os cangaceiros adaptaram-se à esta realidade, manobrando-a de várias maneiras e adequando-a aos seus anseios.

Quais eram esses anseios? Aqui reside uma série de divergências. Uns dizem que suas motivações eram algo próximo ao que conhecemos como Robin Hood, ou seja, que os cangaceiros eram espécies de justiceiros, que trariam ao povo o resgate da cidadania estuprada pelos chefes políticos. Mas, essa tese cai totalmente por terra quando percebemos que não era incomum os bandos de cangaceiros se aliarem aos chefes políticos locais, sejam eles padres, fazendeiros, etc. Outras interpretações, mais críveis, talvez, fossem as motivações de vingança. Mas, a vingança, após efetivada, teoricamente deveria cessar as práticas. Não era o que acontecia, em regra. Depois de inserido em um bando, o cangaceiro assumia um estilo de vida.

Em que tipo de relação se baseava essas alianças? Bem, a resposta para isso pode variar muito. O certo é que os cangaceiros também tinham seus interesses, dentro de toda essa cadeia de interesses. Estes podem variar muito: desde de recebimento de dinheiro ou bens materiais (armas, roupas, etc.), até mesmo proteção por parte do coronel ao qual o bando se aliava. Parece estranho, mas cangaceiros também se aliavam com coronéis em relações de proteção mútua, e isso já não é segredo pra ninguém.

O estilo de vida quase-nômade dos cangaceiros davam a eles um grande poder de mobilidade e sagacidade para escaparem das forças do Estado – quando as forças policias se opunham a eles -, fortalecido pelos vínculos de proteção e pelo conhecimento profundo das regiões de caatinga do nordeste brasileiro.

O medo que pairava nos povoados, certamente dava aos cangaceiros o seu status de bandos violentos e perigosos. As práticas cruéis, como o esfolamento, brigas, assassinatos, roubo, etc. eram comum, e garantia-lhes manter essa política do medo assentada sobre o banditismo social.
Como bandos seminômades, os cangaceiros forjaram uma máquina de guerra que, paradoxalmente, os afastava e os ligava ao contexto político da época. Manobrando em seu favor as práticas políticas de poder local, garantiam não apenas seu status, como a sua própria existência.

Se os cangaceiros são bandidos ou mocinhos, não posso responder. O certo é que estavam inseridos em uma trama social na qual compromissos e interesses estavam em jogo, em todas as esferas políticas. Isso confere um caráter dúbio às práticas dos cangaceiros. Ao mesmo tempo em que são bandidos (por causa dos assaltos, das brigas, assassinatos), também são ‘justiceiros’, na medida em que o inimigo perseguido é é também inimigo de quem observa. É apenas uma questão de referencial.

Dessa maneira, não acho que devemos estigmatizar os cangaceiros, nem muito menos vangloriá-los. Nem como heróis sociais (visão ampliada com a profusão do movimento mangue-beat, que convence os mais jovens, quando embebidos em seus anseios pseudorevolucionários de revolta – a revolta pode até ser legítima, mas o arsenal ideológico é falacioso), nem mesmo como meros bandidos (apesar de suas práticas).
Penso que, se existe um sujeito que deva carregar algum estigma, esse sujeito é abstrato. Podemos chamá-lo de poder local, ou, ainda, cadeia de interesses.

Mudanças aparentes encobrem permanências

Após a Revolução getulista de 1930, a perseguição ao cangaço se intensifica. Mudam-se as formas de garantir os interesses. Via de regra, também mudam-se as elites dominantes no país. O fim da ‘política dos governadores’ mostra como novas relações de poder político são instaurados. A perseguição aos grupos políticos de esquerda também tem sua vertente na perseguição aos cangaceiros – pretensos justiceiros que ampliariam o poder do povo sofrido, usurpando-o das elites. Sendo também uma ameaça so Estado (em muitos casos pelas próprias alianças com chefes locais), deveriam ser exterminados.

Essa última análise, de caráter ideológico, é discutível. No entanto, é menos discutível o fato de que a intensificação da perseguição aos cangaceiros pode nos mostrar que estava sendo operada uma nova guinada na política nacional. Com o golpe do Estado Novo (1937) e a instauração de interventoriais nos estados (os interventores eram os governadores nomeados pelo governo federal), o anseio por um Estado forte e eficaz no combate ao banditismo social e ao domínio local por chefetes e coronéis, foi uma máscara que escondia por trás de si um rosto bizarro… antidemocrático e, mesmo, fascista. Por sua vez, as políticas de massas, como as sequentes conquistas trabalhistas, davam área de progresso nos centros urbanos.

Não era o fim do elitismo, mas sim o deslocamento de elites no poder. Em muitos casos, as elites se mantiveram na base do “sou coerente e nunca mudo de lado: estou sempre com a situação “. É nesse sentido que as práticas de poder local se mantém. O fim do coronelismo é o fim de um sistema, não o fim de uma prática de dominação política e econômica – esta se mantém ainda, de diversas formas, até os dias de hoje – mas, é mais prudente chamar a isso de mandonismo local.

O fato é que logo após o golpe do Estado Novo, o bando de Lampião foi esfarelado, sobrevivendo apenas alguns remanescentes que se refugiaram em várias partes do país.

Por alguma conclusão

Essa história de mudanças e permanências evidencia que, além do fato de sermos um país muito atrasado, também somos um povo que adora se enganar. Mudamos as formas, mas as práticas, em regra, são as mesmas. Com o devido cuidado, podemos fazer relações do tipo: não temos mais coronéis, mas mantemos nossas ‘lideranças’ comunitárias (se entearmos o Coronel como aquele que paga as contas, veremos que atualmente ainda existem milhares de coronéis por todos os lados…); não temos mais cangaço, mas temos nossos traficantes que agora se pretendem domesticadores de populações, praticando até mesmo o extinto voto de cabresto.

E, além de tudo isso, ainda preferimos dar ares de elegância ao nosso banditismo social, nomeando nossos bandidos como “reis do pedaço”. É rei de palha aqui, rei da bola acolá, rainha loira daquilo outro, príncipes de araque que tornam nossa república um Império simbólico.

Enquanto isso, vamos mantendo nossos sonhos de transformação social e política com os mesmos signos do passado: não se tira máscaras, elas apenas são substituídas por outras, mais adornadas para desfilarem em nossos carnavais gloriosos e repletos de artistas-ou-não fantasiados de heróis.

Assim prossegue nossa república mascarada.

http://acertodecontas.blog.br/artigos/lampiao-cangaceiros-coroneis-e-a-nossa-republica-de-mascaras/

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS

Por Antonio José de Oliveira

Na realidade Pesquisador Mendes, o livro LAMPIÃO: A RAPOSA DAS CAATINGAS oferece total segurança nas informações, por ser fruto de um trabalho minucioso e didaticamente perfeito, realizado em profundidade durante onze anos de pesquisa.


Posso afirmar sim, uma vez que tive o prazer de lê-lo por completo. O autor desenvolveu uma ampla pesquisa de campo, além da bibliográfica e documental. 

Autor deste livro José Bezerra Lima Irmão e o escritor João de Sousa Lima

Não conheço pessoalmente o Bezerra Lima, mas pelo que pude interpretar na leitura do seu livro, trata-se de um escritor que, na medida do possível buscou a "verdade verdadeira". Acredito Mendes, que esta segunda edição irá logo desaparecer das prateleiras das livrarias, e ele terá que partir para uma TERCEIRA ETAPA.

A 2ª edição continua sendo vendida através dos endereços abaixo:

josebezerra@terra.com.br
(71)9240-6736 - 9938-7760 - 8603-6799 
Pedidos via internet:
Mastrângelo (Mazinho), baseado em Aracaju:
Tel.:  (79)9878-5445 - (79)8814-8345
E-mail:   lampiaoaraposadascaatingas@gmail.com 

Clique no link abaixo para você acompanhar tantas outras informações sobre o livro.

http://araposadascaatingas.blogspot.com.br 

EXCELENTES IMAGENS


Lampião com a família, em sua visita a Juazeiro em março de 1926

1 - Antônio, irmão
2 - Anália, irmã
3 - Joaninha, cunhada (casada com João Ferreira)
4 - Maria Mocinha, ou Maria Queiroz, irmã
5 - Angélica, irmã 
6 – Lampião
7 - Zé Paulo, primo
8 - Venâncio Ferreira, tio
9 - Sebastião Paulo, primo
10 - Ezequiel, irmão
11 - João Ferreira, irmão
12 - Pedro Queiroz, cunhado (casado com Maria Mocinha, que está à sua frente, sentada)
13 - Francisco Paulo, primo
14 - Virgínio Fortunato da Silva, cunhado (casado com Angélica) 
15 - ZÉ DANDÃO, agregado da família.



Fonte: facebook
Página: Sergio Roberto‎ O Cangaço

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

GROTA DO ANGICO À NOITE


GROTA DO ANGICO À NOITE (aqui foi o lugar que Virgulino Ferreira da Silva o Lampião perdeu o seu reinado do cangaço. Local da sua morte  Lampião e mais 10 cangaceiros, inclusive à sua amada Maria Bonita.

Nessa foto, temos o local, e onze luzes/velas, simbolizando os mortos.
Você teria coragem de passar a noite nesse local, mesmo sendo acompanhado por outras pessoas? 

Foto cortesia: Márcio Vasconcelos.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

quarta-feira, 15 de abril de 2015

CANGACEIRO " VILA NOVA " FALA AO CORREIO DE ARACAJU SOBRE O COMBATE DE ANGICO (Edição de 29/10/1938) LEIA, ABAIXO, A MATÉRIA COMPLETA…


CANGACEIRO " VILA NOVA " FALA AO CORREIO DE ARACAJU SOBRE O COMBATE DE ANGICO (Edição de 29/10/1938) LEIA, ABAIXO, A MATÉRIA COMPLETA…

NEM OS PRÓPRIOS BANDIDOS ACREDITAVAM NA MORTE DE LAMPIÃO! 
UMA CONTRA-OFENSIVA QUE FICOU APENAS NO PROJETO DOS CANGACEIROS SEM COMANDO SURPREENDENTES DECLARAÇÕES DE VILA NOVA SOBRE O COMBATE!

OUTRAS NOTAS CURIOSAS SOBRE A RENDIÇÃO.

MACEIÓ, ... Estão em Santana do Ipanema, de onde virão a Maceió, os bandidos Pancada, Vila Nova, Vinte e Cinco, Santa Cruz, Cobra Verde e Peitica, presos pela tropa volante alagoana sob o comando do sargento Juvêncio.

PANCADA VAI MESMO SE CASAR

O chefe de grupo Pancada, aconselhado por um sacerdote, vai se casar ainda esta semana com a sua companheira Maria Jovina, com quem vivia nas caatingas. Maria Jovina está para ser mãe.

REMEMORANDO O COMBATE DE ANGICO:

O bandido VILA NOVA rememorou o combate de Angico, em que pereceu Lampião, dizendo, na sua linguagem rude, que as 5 horas da manhã daquele dia, quando começou o combate, já Lampião havia ido ao mato. Aos primeiros tiros, o chefe estava quase equipado, faltando apenas abotoar as correias dos bornais, quando foi atingido por dois projéteis.

Houve um pequeno intervalo, mas, logo após, os que estavam perto de Lampião, acossados por fortes rajadas de metralhadora, caíram mortalmente feridos.

Foram eles: Quinta-feira, Mergulhão, Colchete, Maria Bonita e Macela. Eu corri ao encontro do meu padrinho Luiz Pedro, prostrado, em sangue e também mortalmente ferido, que me implorou que acabasse de mata-lo para terminar com seus sofrimentos. Eu não atendi, dizendo-lhe que, como seu afilhado, os meus braços não tinham força para mata-lo. Pediu então que levasse o seu mosquetão, no que foi atendido.

O tiroteio estrugia e eu pensei em organizar uma contra-ofensiva. Não conseguindo, tratei de fugir com outros companheiros, indo me reunir ao restante do grupo, em número de trinta e dois, na fazenda Cuiabá. Nessa ocasião, verificamos que faltavam onze companheiros, inclusive Lampião.

A princípio, muitos companheiros não acreditavam na morte de Lampião, depois confirmada. Desde ali, começou o arrefecimento dos bandidos, que perderam o gosto pelo cangaço.

Referindo-se ao tenente Ferreira de Melo, disse que o referido oficial, durante o combate de Angico, parecia um diabo em pessoa, tal sua violência na luta e tal a sua coragem.

Foto cortesia: Frederico Pernambucano de Melo, in Guerreiros do Sol.

Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

"ANTÔNIO SILVINO", DE SÉRGIO DANTAS

Por Honório de Medeiros

Em narrativa linear, atenta à lógica dos fatos históricos, Sérgio Augusto de Souza Dantas nos reapresenta a um Antônio Silvino cru, recortado do contexto mítico e inserido em sua dimensão humana, sem que restasse perdido tudo quanto o tornou um dos mais interessantes personagens da trindade básica que forjou a alma sertaneja – o cangaço, o misticismo, o coronelismo.


Louve-se a felicidade na escolha do “nome” de cada capítulo bem como o excerto que o acompanha, próprio para chamar a atenção do comprador desatento, em uma homenagem ao estilo jornalístico de outrora, e a indicar um texto enxuto, leve, de parágrafos curtos e bem encadeados. Chamam a atenção episódios trazidos a lume que por si só têm dimensão histórica, como a convivência entre Antônio Silvino e Gregório Bezerra, lendário líder comunista pernambucano, sua entrevista com Graciliano Ramos, e o assalto à Usina Santa Filonila na qual morreu Feliciana na flor da idade – crime do qual o cangaceiro jamais deixou de se arrepender. Aliás, qual teria sido o desfecho do embate entre Antônio dos Santos Dias e José Tavares de Melo, este, genro, aquele, pai de Teresa Tavares de Melo, pivô da questão? Qual teria sido o fim de cada um deles?

O Antônio Silvino que emerge do ótimo texto de Sérgio Dantas é um personagem emblemático: é o retrato nítido de uma saga que nos permite identificar e compreender os nexos causais que originam certa circunstância histórica – o período do cangaço – e até mesmo ir além, na medida em que também permite identificar o viés comum a entrelaçá-los, ou seja, a questão do Poder. Basta colocar esses retratos sobre a mesa e examiná-los com olhar crítico: Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião; Coronel Zé Pereira, Coronel Isaías Arruda, Coronel Floro Bartolomeu; Pe. Cícero, Beato Zé Lourenço, Antônio Conselheiro... Tomando distância de qualquer tentativa de apreender o fenômeno a partir de uma explicação oriunda exclusivamente de fatos alusivos à posse da terra.

É possível conjecturar se Sérgio Dantas vai aventurar-se em novos resgates ou cuidará de desbravar outras fronteiras. Sua obra tem sido, até agora, a fronteira entre um ciclo e outro no que diz respeito à literatura do cangaço. Esse ciclo por ele estudado até o momento está chegando ao fim. Já não é mais possível, até onde sabemos, ressalvada a possibilidade de documentos desconhecidos surgirem inesperadamente, prosseguir com a literatura elaborada a partir de relatos, fotos, testemunhos ou escritos, ou seja, fontes primárias. São poucos os sobreviventes e deles já se extraiu mais do que tudo. Os papéis estão virando pó, vítimas da ação inclemente do tempo e da incúria das nossas elites. Um outro ciclo está surgindo: a interpretação de todos esses dados, ou seja, uma literatura de tese, algo timidamente iniciado por Frederico Pernambucano de Mello com “Guerreiros do Sol”, através da criação do conceito de “escudo ético”.

A não ser que – e talento não lhe falta – resolva mergulhar com sua característica obstinação no jornalismo literário brindando-nos com alguma pesquisa onde sobrem indícios, mas, faltem provas – como de fato acontece nessa espécie literária - e, no entanto, seja possível povoar um texto com interrogações perturbadoras tais quais, por exemplo, as razões do estranho silêncio do Juiz e do Promotor de Mossoró em relação aos fatos que lá aconteceram em junho de 1927.


http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Aziz Francisco Elihimas


Aziz Francisco Elihimas, "sobrinho" de Benjamin Abraão, ainda criança e o próprio em 1992 com Frederico Pernambucano de Mello. Aziz faleceu no Recife em 2013. 


Fonte das fotografias: Entre Anjos e Cangaceiros (Frederico Pernambucano de Mello).

Fonte:
facebook

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

PAJEÚ: O GRANDE ESTRATEGISTA DA GUERRA DE CANUDOS

Por José Romero Araújo Cardoso

Como ficou conhecido nas lutas de Canudos, Pajeú era pernambucano do famoso vale imortalizado por Luiz Gonzaga décadas depois do massacre abominável que manchou indelevelmente a história do Brasil.
Escravo liberto que rumou para Canudos apostando nas promessas do Bom Jesus Conselheiro tendo achado por lá, às margens do rio Vaza-Barris, a tão sonhada liberdade que a sociedade negou, e ainda nega, de forma inadmissível e desumana, aos excluídos.


Quando da desastrosa campanha comandada pelo famigerado Coronel Moreira César, Pajeú se destacou pela impecável forma como conduziu a guerrilha da guarda católica do Conselheiro.

Dizem que foi ele quem pôs fim à arrogância de Moreira César, acertando certeiro tiro de bacamarte boca-de-sino, municiado com chifre de novilho, no sanguinário corta- cabeças. Não obstante usar colete de aço, Moreira César foi milimetricamente varado pelo disparo em local desprotegido.


O oficial responsável pela substituição do Coronel Moreira César no comando da tropa também não aguentou as táticas de guerrilha implantadas por Pajeú. Uma ordem do Coronel Tamarindo ficou famosa: “Em tempo de murici, cada um cuida de si”.

O que restou da tropa de Moreira César foi fustigada pelos guerrilheiros comandados por Pajeú. Verdadeira carnificina foi feita pelos bravos combatentes para pagar a profanação do arraial sagrado do belo Monte, pois inadvertidamente Moreira César desprezou todas as instruções do regimento do Exército Brasileiro e ordenou ataque de cavalaria a Canudos, cuja característica era a topografia extremamente íngreme, impossível de ter sucesso por parte de Moreira César através de investida com esse tipo de estratégia militar.


Para tentar coibir e amedrontar outras expedições que vieram em direção a Canudos, Pajeú ordenou que os cadáveres dos soldados e oficiais ficassem insepultos, pendurados em árvores como exposição macabra do ódio devotado pelos conselheiristas às tropas do governo federal.

Quando a quarta expedição foi enviada para destruir canudos, cujo comando ficou a cargo do General Arthur Oscar de Andrade Guimarães, foi com terror e suspense que a soldadesca encontrou o aviso dos guerrilheiros da guarda católica, na forma de corpos ressequidos pelo sol esturricante do sertão nordestino. Com certeza, aumentou o ódio do corpo militar do Exército Brasileiro contra os membros da comunidade mística de Antônio Conselheiro.


Pajeú foi responsável pelas mais significativas baixas contra as tropas federais. Acostumados a caçar para sobreviver, os guerrilheiros usaram a experiência adquirida e se tornaram franco-atiradores, pois quando algum soldado desavisado, principalmente em noite sem lua, acendia um cigarro, certeiro tiro o prostrava imediatamente. Usavam os “presentes” que Moreira César lhes deixou, ou seja, fuzis mausers de fabricação alemã do Exército Brasileiro.

Não obstante terem conseguido canhões e metralhadoras, esses não foram usados, pois os guerrilheiros do Conselheiro não souberam como manusear as mortíferas armas tomadas da expedição de Moreira César, destroçada pela genialidade incontestável das táticas do maior guerrilheiro de Canudos.


Quando a guerra de Canudos tornou-se insustentável, com sucessivas baixas e derrotas das tropas federais, o governo enviou verdadeiras máquinas de matar. Entre essas estava um canhão Withworth 32, a famosa “matadeira”, como ficou conhecido entre os habitantes de Canudos. Foi a única forma que conseguiram para pôr a baixo as torres da igreja nova do belo Monte.


Cada tiro da “matadeira” era verdadeiro massacre que a mesma proporcionava. O famoso canhão tornou-se o terror dos canudenses, razão pela qual Pajeú organizou grupo de assalto intuindo destruir a máquina destrutiva.

Onze guerrilheiros chegaram de surpresa a bem guardada arma. Nesse ataque, o bravo comandante conselheirista perdeu a vida, bem como nove companheiros, sendo que apenas um conseguiu escapar.

Com a morte de Pajeú, a guarda católica do Conselheiro ficou desfalcada do principal estrategista, abalando sensivelmente a estrutura das estratégias da guerra de guerrilha que até então vinha obtendo sucesso indiscutível.


Pajeú, o famoso negro ex-escravo que marcou de forma impressionante a guerra de guerrilhas nas batalhas em canudos, foi imortalizado por Euclides da Cunha, que, não obstante racismo e estereótipos, dedicou-lhe páginas de reconhecido mérito pela bravura indômita em “Os Sertões: Campanha de Canudos”.

In:  CARDOSO, José Romero Araújo. Notas para a História do Nordeste. João Pessoa/PB: Editora Ideia, 2015. P. 30-32.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Escritor. Professor-Adjunto do Departamento  de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com