Por Sálvio Siqueira
Quando vemos acontecimentos ligados ao tema, pensamos nós que são exclusividade do Fenômeno. Esse nosso pensamento está seguindo por uma trilha errônea, equivocadamente, muitas vezes deixamos de ver o que aconteceu fora do cangaço e antes dele... Se não procurarmos saber do que aconteceu anteriormente e extra Fenômeno, não faremos um bom conceito, uma boa análise, sobre tal.
Naquele tempo, com ele ainda vivo, tinha essa visitação anual. Os romeiros faziam seus afazeres durante quase todo o ano, só que, deixavam sempre o espaço da visitação ao ‘Padim Pade Ciço’. Lembramos aos amigos que transporte, na época, de quem tinha posses era a tração animal, de quem nada possuía, era no pé. Para esses a caminhada era dura, cansativa, e faltavam víveres durante o percurso... Mesmo em anos em que na estação chuvosa não chovia, para, talvez, implorarem clemência, ou quando havia fartura, para fazerem seus agradecimentos e/ou ‘pagarem’ suas promessas.
Derrubar a mata com foices e machado, limpar o mato nos roçados, buscar água em galão ou em costas de animais, pastorar as reses e/ou as criações, montar e amansar burros e cavalos bravios, fazer viagens como almocreves , em fim, tudo o que os filhos de José Ferreira faziam, o adotivo também fazia. Tornando-se parte da família... Transformando-se em irmão dos demais.
Certo dia, no povoado de São João do Barro Vermelho, isso lá pelos idos de 1924, Antônio encontra-se com um cidadão chamado ‘Constantino’. Esse Senhor, sabendo das astúcias de Antônio Rosa, o “Antônio do Gelo”, com as armas, mostra-lhe uma que possuía. Antônio apaixona-se por ela e quer por quer comprar a arma. Constantino não quer vender. Passando alguns dias do acontecido, Antônio, volta ao povoado e assassina Constantino, roubando-lhe a arma.
Naquele aglomerado de casebres moravam várias pessoas que gostavam e admiravam Virgolino, o Lampião. Dentre elas, uma destaca-se mais por ser ‘comadre’ dele. Era a dona Especiosa.
A população do povoado reuniu-se e formam um grupo de ‘vigilantes’ para irem a busca de Antônio do Gelo a fim de matá-lo, como vingança pela covardia que fizera com Constantino. Tendo amigos, admiradores entre eles, os mesmos procuram o chefe mor do cangaço e o deixam a par do ocorrido e do que está para acontecer.
O “Rei Vesgo” leva sua trupe para terras alagoanas. Depois de certo tempo fazendo ‘escaramuças’ por lá, resolve voltar e esconder-se por um tempo em seu Estado natal.
Todos estão enfadados da dura viagem. Foram vários dias caatinga adentro a pé.
Chegando próximo ao ocaso do mesmo dia, Antônio do Gelo pega sua rede e, no alpendre da casa sede da fazenda, procura tornos para armá-la. Encontra um trono num recanto que acha um bom local. Ao passar a corda do punho da rede no torno, tendo que erguer os braços para isso, e alvejado por tiros pelas costas.
O “cangaceiro Vassoura” chama o companheiro do cangaço Enéas, e de olho nos movimentos de Antônio do Gelo, procura a melhor ocasião para por em prática seu plano. Notando o que o seu irmão de criação pretendia, espera o momento certo, que surge quando o mesmo ergue os braços para colocar a corda do punho da rede no torno. Junto com o ‘cabra’ que escolhera, atiram, simultaneamente nas costas de Antônio do Gelo, que cai sem dar um gemido. Tomba morto Antônio Rosa, seu irmão de criação... No chão do alpendre da casa sede, na Fazenda Situação, nas quebradas do Sertão do Pajeú.
Foto lampiaoaceso.blogspot.com
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