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domingo, 25 de maio de 2014

Serra de São Caetano, aqui no Povoado Bela Vista, Município de Serrinha-Bahia

Por Antonio José de Oliveira

Nobre historiador Clerisvaldo: 
O meu boa-tarde!

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Quando você relata o tesouro do Sítio da Pedra Rica na sua bela Cidade de Santana do Ipanema, faz-me lembrar da nossa Serra de São Caetano, aqui no Povoado Bela Vista, Município de Serrinha-Bahia, onde provavelmente tenha havido um quilombo; quilombo esse exterminado por um Capitão-do-mato de nome JOSÉ JOAQUIM, que após o extermínio tomou posse das terras onde os escravos fugitivos implantaram seus mocambos. 

O José Joaquim, de Capitão-do-mato passou a ser assaltante de estrada, ali mesmo na fazenda (serra) que ele ganhou como recompensa, uma vez que o lucro era pouco para manter seus asseclas. Roubava os fazendeiros que transitavam na chamada Estrada Real para vender suas boiadas e negociarem com ouro. 

O ouro e o dinheiro dos negócios eram tomados pelo "Capitão". Acontece que, quando a polícia o expulsou para outras terras, ele (dizem) abandonou tudo nas grandes fendas das pedras da serra há quase 200 anos. Cremos que lá, muito bem guardados estão os ouros roubados. Resta alguém descobrir, se é que existem.

Abraços,
Antonio José de Oliveira
Pesquisador do cangaço
Povoado Bela Vista
Serrinha-Bahia
E-mail: antonioj.oliveira@yahoo.com.br


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Sargento Honorato - o matador de Lampião

O homem que matou Lampião 

Este é o sargento Honorato o homem que matou Lampião. Na foto ao lado seu sobrinho de 18 anos que o matou nesta casa abaixo dando  fim ao homem que foi o matador de Lampião.


Casa onde foi morto o sargento Honorato pelo seu sobrinho. Aqui o destino escreveu a página final da vida do matador de Lampião. Nesta casa ele morreu assassinado.


Adendo
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Incrível! O sargento Honorato foi o único que conseguiu eliminar o rei Lampião do sertão com sua maldita arma. Agora é morto por um deficiente que lhe faltava um braço. Imagine se o matador do sargento Honorato, fosse já um policial. Não ficava um cangaceiro vivo.

Fonte das fotos: facebook

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Balbina foi ferrada pelo cangaceiro Zé Baiano

Trabalhado por Rubens Antonio

"A mais cruel armadilha
Encruzilhada dos fins
E os alicerces das ilhas
Roídos pelos cupins
A fina flor da ferida
Doendo até no facão
E o mapa da minha vida
Na palma da minha mão."
Zé Ramalho 

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Mulher marcada com ferro em brasa, pelo cangaceiro Zé Baiano, por ter cabelos curtos.


Fonte:: facebook
Página: Rubens Antonio

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Zé do Papel

Por Archimedes Marques
João de Sousa, Manoel Severo, Lívio Ferraz, Alcino Costa, Archimedes Marques e Antônio Vilela

Em meados de outubro de 1930 quando o bando de Lampião entrou na cidade de Aquidabã, em Sergipe, o ínfimo contingente policial fugiu às pressas deixando as pessoas totalmente desprotegidas e nas garras dos cangaceiros. Aquele era o retrato da força policial sergipana do governador Eronildes de Carvalho, filho de Antônio Caixeiro, sem dúvidas, dos maiores coiteiros que o famigerado Lampião teve na sua vida bandida por cerca de 20 anos no nordeste brasileiro.

Jose Custódio de Oliveira, o Zé do Papel, em virtude de ser uma pessoa aparentemente de classe privilegiada, de classe média para rica, um pecuarista e proprietário da Fazenda Pai Joaquim, fora abordado por Lampião e dentro da sua residência na cidade de Aquidabã, além de certa quantidade de dinheiro, fora encontrado dez balas de fuzil em uma cômoda, sendo daí interpelado para contar onde estava a arma, pois pela lógica, havendo munição haveria a consequente arma, oportunidade em que o trêmulo cidadão afirmou ter emprestado o mosquetão para o juiz de direito daquela comarca, Dr. Juarez Figueiredo. 

Tal fato, provavelmente incutiu na mente de Lampião que a arma fora passada ao juiz, justamente para que ele se defendesse do seu bando, daí, enraivecido com o fato, o chefe do cangaço, irracional e impiedosamente arrastou Zé do Papel ruas acima e em frente a um armazém próximo da praça principal da cidade decepou à golpe de faca a sua orelha, depois do bando ter praticado saques no comércio local e tantos outros crimes de torturas contra pessoas amedrontadas, dentre os quais o assassinato de um débil mental de nome Souza de Manoel do Norte, mais conhecido por Abestalhado, que se fez de corajoso na sua insanidade sacando um pequeno canivete com o qual cortava fumo de corda para fazer seu cigarro de palha e com tal arma teria desafiado os cangaceiros. Diante do fato, o sanguinário Zé Baiano partiu em verdadeira fúria contra o pobre do doido ceifando a sua vida a golpes do seu longo e afilhadismo punhal de 70 centímetros, em luta totalmente desigual de um ínfimo canivete em mãos de um doente mental contra um longo punhal em mãos de um feroz e impiedoso cangaceiro. Não satisfeito com o bárbaro assassinato, Zé Baiano abriu a barriga da pobre vítima para retirar gordura e untar as suas armas de fogo. Tal pratica era useira e vezeira quando os cangaceiros eliminavam as suas vítimas e queriam impressionar a população para serem mais respeitados ainda do que já eram.

Cangaceiro Zé Baiano

Consta que Zé do Papel na agonia de sentir o sangue escorrendo pescoço abaixo ainda foi obrigado a beber um litro de cachaça que ao mesmo tempo era usada para estancar o seu ferimento e aliviar a sua dor. Em meio a esse místico de humilhação, crueldade, sangue e cachaça o endiabrado cangaceiro Zé Baiano pegou o roceiro Eduardo Melo e após espancá-lo com o coice do seu fuzil, também cortou a sua orelha seguindo o exemplo do seu chefe. Zé do Papel ainda viveu por muito tempo e viu o cangaço se acabar e seu carrasco morrer, entretanto, o Eduardo Melo não teve a mesma sorte e faleceu cerca de um mês depois da perversidade sofrida.

Assim, Aquidabã viveu o maior dia de terror da sua história. Assim Aquidabã fora vítima das atrocidades dos cangaceiros e para sempre pelos seus sucessores moradores aquele dia será lembrado.  Assim, Aquidabã fora vítima também do próprio Estado que deveria ser o protetor do povo, mas que estava ausente. Ausente pela covardia dos seus policiais que fugiram mato adentro sem esboçarem reação alguma. Ausente pela pouca ou nenhuma vontade política de verdadeiramente se combater o cangaço nas nossas terras.

De tudo isso, por incrível que pareça, a Justiça de Aquidabã, sequer abriu Processo Criminal contra Lampião e seu bando. Teria o juiz Juarez Figueiredo, o mesmo que estava com o fuzil emprestado de Zé do Papel, responsável indireto pela decepação da sua orelha se acovardado para não providenciar qualquer procedimento judicial contra Lampião?...Por outro lado, em igual modo de impunidade falando, dizem – e a história de certo modo comprova –  que a polícia de Sergipe era uma polícia de “faz de conta”: Fazia de conta que caçava Lampião, e, Lampião por sua vez, fazia de conta que era caçado.

Archimedes Marques

Delegado de Policia Civil no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe - archimedes-marques@bol.com.br

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25 de Maio de 2014 - Dois anos sem Anathália Cristina Queiroga Pereira






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Café. O ouro negro em grãos

Por José Mendes Pereira

Nas décadas de 50 e 60, e estendendo-se até o início da década de 70, café era considerado o "ouro negro em grãos", devido o seu alto custo, talvez pela redução da colheita. Como o preço era altíssimo, muitos proprietários de caminhões enganavam o governo trazendo o produto para o Nordeste sem o pagamento dos impostos, a chamada venda contrabanda. 

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Na década de 60, mais ou menos no início desta, o meu pai ainda morava em terras alheias, mas não era vaqueiro do fazendeiro, apenas plantava, criava seus animais sem nenhum compromisso com o proprietário. Naquela época transportar café sem o pagamento de impostos, para muitos era um bom negócio, e assim traziam café pelas rotas que não passavam pelas alfândegas.


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Um senhor que não tinha nenhum vínculo com a propriedade, mesmo assim ludibriou o fazendeiro para guardar feijão, milho, arroz, farinha... em um dos seus armazéns, lugar onde era batida as palhas das carnaubeiras para a extração do pó, e neste período, o armazém estava vazio, ainda não havia iniciado o corte de palhas das carnaubeiras.


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Ciente de que seria mesmo legumes o proprietário aceitou a solicitação, enviando ao meu pai a autorização da entrega da chave do armazém ao homem, para que ele armazenasse seus legumes. Mas o certo é que o homem não guardava legumes, e sim, trazia café contrabandeado e o guardava no armazém, que geralmente chegava altas horas da noite, com o seu caminhão carregado com o produto ilegal, acompanhado de alguns ajudantes para a descarga.

Assim que o meu pai descobriu que não se tratava de feijão, milho..., e sim de sacas e mais sacas de café, não gostando daquela arrumação  e não querendo contar ao proprietário o que o homem estava escondendo em seu armazém, e temendo ser preso por estar escondendo a mercadoria ilegal, apavorou-se, resolveu sair da propriedade. Alguns vizinhos até o alertaram que ele estava correndo o risco de ser chamado à justiça, para prestar depoimento de quem era aquele produto.

O meu pai estava preocupado, e de imediato conversou com minha mãe, sobre uma possível compra de uma propriedade, só assim se livraria daquilo que o  incomodava no momento, já que ele não era homem de se aproveitar do que não era dele. E de imediato, dirigiu-se a minha mãe dizendo-lhe:

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- Dona Antonia (como o meu a chamava), não podemos mais viver aqui. Descobri que o homem não está guardando no armazém cereais, e sim café. E eu não vou ficar escondendo roubos de ninguém. A solução será nós procurarmos outra propriedade para morarmos, ou desfazermos dos nossos animais para comprarmos nem que seja uma linguinha de terra.

Se o meu pai estava preocupado, igualmente minha mãe, que muito o incentivou a negociação da terra dizendo-lhe: 

- Pedro, nós precisamos sair daqui o quanto antes. Não é justo que você venha pagar um preço caro por ilegalidade dos outros.

O meu pai respondeu-lhe que concordava. E a partir daí,  ficou desesperado. Precisava sair o quanto antes dali. Nunca fora preso, nunca fora chamado em posta de delegacias, e agora estava sujeito a visitar um delegado, uma  casa que prende...

 Manoel Duarte - irmão de Lili Duarte

Mas para tudo há um jeito. Por sorte, Luiz Duarte, irmão de Manoel Duarte, o matador do cangaceiro Colchete, tinha duas propriedades. A primeira herdada quando a  sua mãe Inácia Vicência Duarte falecera.


 Inácia Vicência Duarte - primeira esposa do fazendeiro Chico Duarte

E a segunda recebera de herança do seu pai Francisco Duarte Ferreira, um dos maiores latifundiários de terras ao lado leste da cidade de Mossoró. E como o Lili Duarte não precisava de duas terras na mesma localidade (Barrinha), ele resolveu por uma delas à venda.


Francisco Duarte - o fazendeiro Chico Duarte

Assim que o meu pai tomou conhecimento da futura venda da propriedade, abalou-se até Mossoró para saber o preço, e posteriormente venderia os seus estimados e bem zelados animais para a compra. Negociado a terra, meu pai vendeu todo gado, e um monte de cabras e bodes, só no intuito de sair o mais rápido possível daquele armadilha. O certo é que ele conseguiu comprar 1 légua de terra na década de 60. 

No dia 10 de Maio de 2011 o meu pai despediu-se do nosso planeta, e a pequena propriedade que deixou, ainda continua em nosso poder, sem que nenhum de nós tenha pensado vendê-la.

Minhas Simples Histórias

Se você não gostou da minha historinha não diga a ninguém, deixe-me pegar outro.

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Fogo da Lagoa do Lino... O lamento.

Por Rubens Antonio

Depoimento de Elisia Sampaio Moreira, da Lagoa do Lino, a “Zi do Bó”, residente em Quixabeira:
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O meu pai chamava-se Raimundo Moreira de Oliveira. Ele era chamado "Raimundo, de Cirila", porque era filho de Cyrilla Moreira de Jesus, minha avó... Apesar do tempo passado, eu nem sei se devia contar estas poucas coisas... Penso aqui que não devia falar muito, porque o meu pai sempre evitava falar dessas coisas para mim, desde quando eu era criança, e, depois, para as minhas filhas... Para você ter uma noção, ele sempre teve preocupação de que algo pudesse voltar a acontecer... Aquilo tudo, quando aconteceu, eu ainda não era viva, pois meu pai casou velho, mas eu cheguei a viver na casa do jeito que era como quando tudo aconteceu... Não era de taipa... Como sede da fazenda era de tijolos de adobe e um pouco de barro prensado sobre aquelas estruturas de madeira. O chão era chapado batido de barro mesmo... Como se fazia. Apenas se roçava e se batia. A fazenda, como eu nasci e cresci, sempre se chamou "Lagoa do Lino"...
Não sei de Lino que morou lá, mas tinha uma lagoa lá na baixada e outra um pouco mais adiante... Passava umas seis tarefas... Acho que o nome é por causa da lagoa que ficava mais perto, mas não tenho certeza...
Esse Lino, o meu pai chegou a dizer pra mim que não sabia quem tinha sido. Mas, se a lagoa era dele, significa que terra era dele e a gente pensava ser um antigo dono, que meu pai não conheceu.
Isso de chamarem "Lagoa do Limo" é coisa do povo. Sei não de onde surgiu isso.


A casa da sede, em que eu nasci e vivi, não era onde está agora. Se vocês olharem aquela parte cimentada na frente da casa... Ali era onde ficava a antiga casa... Quando a situação melhorou um pouco, o chão da casa foi cimentado... É isso que a gente vê ali, como área cimentada na frente da porta atual. Então, aquela casa está onde era o fundo da nossa casa.

Raimundo Moreira de Oliveira

Então, veio toda aquela violência que traumatizou meu pai... Não digo que foram os cangaceiros... Isto porque aqueles que pinicaram ele queriam que entregassem o esconderijo dos cangaceiros... Se era para entregar o esconderijo, como eram outros cangaceiros? Mas não passa na cabeça como a polícia fez aquilo com um homem bom, trabalhador, simples, quieto no canto dele. Foram uns homens que ele disse que chegaram. Se o meu pai disse que não dava pra saber se eram mesmo da polícia. Só me disse que eram esquisitos e maus. E ele foi pego. Amarrado. Bateram nele. Deram tapas. Deram socos. E ele foi muito pinicado. Foi todo todo pinicado com uma arma parecida com uma faca, mas ele disse que era mais bonita... Assim, com rodelas de ouro e de prata, no cabo... Era a única coisa que ele conseguia ver e pensar pra tirar a mente daquilo. E ele sempre temeu mesmo falar disto, mesmo depois de velho... Fizeram uma roda em torno dele e feriram assim... Era meu pai... As costas dele ficaram horrorosas. Parece que foi a pior parte. Só vendo... Eram tudo marcado de pinicada... Aqueles homens não tiveram dó. Cravaram faca e canivete... Tudo que fosse coisa de ponta usaram no meu pai.
Eles diziam.
– Você sabe onde eles estão!
– Não sei não! Nem sei do que vocês tão falando!
– Tava fazendo o quê, então?
– Só quero ir embora daqui preparar minha farinha!
– Ou entrega ou vamos ficar aqui muito tempo! Vamos oito dias. E você vai ter que abrir pra gente. E vai ter que manter a gente. Vai ter de cozinhar e a gente vai acabar com tudo seu!
Eles, finalmente, parece que cansaram. Não tinha mesmo como saber nada do meu pai... Estavam mais pra ir embora. Aí, encontram a Maria Velha... Alguns chamam Nega Velha, mas que eu conhecia como Maria Velha.
Foi ela quem levou eles até lá.
Sei que teve um tiroteio horrível... E, depois que tudo acabou, e aqueles que maltrataram meu pai foram embora, aconteceu mais uma coisa. Minha mãe disse que ainda passou um aqui. Quem viu e disse a ela foi a minha vó Cyrilla. Ela só não soube dizer se era cangaceiro que escapou ou se era da polícia também... Estava sozinho e armado. Roubou um cavalo que tinha aqui, do meu pai, e partiu em disparada... A minha vó Cyrilla, é claro, não podia fazer nada.

Seu Raimundo, Zi e dona Antonia

Meu pai contou tudo mesmo foi para a minha mãe, Antonia Moreira de Oliveira... Eu fui sabendo aos pouquinhos as coisas... Mas ele mandava eu deixar pra lá que era um assunto ruim que ele queria esquecer.
Ele mesmo, dificilmente eu via sem uma camisa. Só muito rápido... quando estava trocando... Então eu podia ver as marcas... Como fizeram mal ao meu pai...
Ele nasceu em Mairi, em 5 de março de 1909, e morreu em 7 de abril de 1997.
A minha vó, que também sofreu com a passagem dos cangaceiros, nunca quis falar sobre isso... Não sei se fizeram mal a ela mesma... Porque, se no meu pai eu via, nela era pior ainda de ver... E ela apenas dizia pra eu deixar pra lá, que era assunto ruim... Muito ruim mesmo... Minha mãe, que ela bem menina na época, nasceu em 1910  ainda não casada, não quis contar também o que sofreu com o pessoal dela... Ela morreu em 22 de junho de 2008...
Estão os dois sepultados no cemitério da povoação de Maracujá...
É isto o que contei e não sei se devia ter contato... mas, um dia, todo mundo se vai... Minhas filhas acham que não tem problema e é até melhor eu contar... E, agora, já contei mesmo. Fica o que foi como foi.


Rubens Antonio é Mestre em Geologia, Artes Plásticas e História, Historiador Natural, com aspectos também de Filósofo Natural. Ministrou aulas, na Universidade Estadual da Bahia -UNEB de: - Antropologia - Epistemologia - Metodologia do Trabalho Científico - Ensino de História - Elementos de Geologia - Paleontologia - Sedimentologia - História da Ciência * email: historiageologica@gmail.com. É também pesquisador do cangaço.

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sábado, 24 de maio de 2014

Memórias de uma Cabeça Emancipada


Hoje é nada menos que o dia que arrancaram minha cabeça fora com um facão de quase meio metro. Antes, jogaram meu corpo já desfalecido no chão duro e cheio de espinhos. Meu braço esquerdo cravado de balas, meu pulmão esfaqueado e quase todo o sangue já havia saído de meu corpo. Fui arrastado por mais ou menos cinquenta metros pelas pernas, cada risada de um macaco me dava ódio, mas eu estava imóvel. Olhava através de um único olho que me restava, mal dava para ser aberto de tão inchado que se encontrava, mas eu procurava atentamente uma chance de escapar daquele calvário. Ninguém voltou para me socorrer, eu não escaparia.

Engoli sangue, desfaleço pela primeira vez antes dos dez metros iniciais. Começo a sonhar. Entrei no cangaço aos dezesseis anos, por volta do ano de 1928, não porque fui obrigado, mas eu queria muito. Eu ficava vendo jornais velhos que serviam para enrolar mamão na feira de Itabaiana, nele estava estampado o grupo de Lampião em Juazeiro do Norte visitando o afamado Padre Cícero em 1926. Se o santo padre confiava no Virgulino quem seria eu para não fazer o mesmo? Eu fazia armadilhas com grude de jaca para pegar passarinho quando era menino, matava tejú com foice, pegava preá na arataca... as pessoas diziam que eu era gente ruim, mas eu não era, eu era criança. Sou neto de escravos, tenho a pele preta e o sangue nos olhos, aprendi com meu pai a nunca me render. Sou valente, medo só tenho da morte, pois quero viver o suficiente para adestrar meus instintos.

Um dia qualquer, o povo de Itabaiana se alertou, Lampião ia entrar na cidade, ele viria pelo povoado Pé do Veado. As casas se trancaram como que num toque na planta dormideira, o povo se armou, a polícia se alvoroçou, Maria Carreiro montou seu cavalo branco e partiu com espingarda em ombro e eu também queria sair de casa. Era o ano 29, fui pelo quintal que ficava já fora da rua, perto do Tanque da Pedreira e fui de encontro ao bando. Levei um punhal que havia roubado da venda de Sinhozinho Dutra, esta arma servia para cortar fumo para uso próprio, num descuido, passei pela janela e a coloquei na cintura. Este foi meu primeiro delito. 

Vi ao longe o bando arranchado às margens de um riacho. Não pareciam amedrontadores como diziam os mais velhos como forma de punição aos mais jovens. O medo era maior do chefe não me aceitar no bando. Fui em disparada, o grupo se alertou, eu estava sozinho no pasto vazio e seco, sem uma pintinha de rama verde. Um dos cangaceiros mirou sua arma na minha direção e atirou. Não acertou e se tivesse acertado eu não teria sentido, eu estava determinado. Comecei a correr na direção deles e Lampião, em pessoa mirou sua arma, com calma ele disparou. Não me acertou. Estava a cinco metros deles e comecei a gritar.

- Não atire, não entre em Tabaiana, tá cheio de macaco esperando ocêis.
Lampião disse aos comparsas.

- Num mate o minino não, ele pareci tê o corpo fechado e nos trôxe nutiça. Quê qui tu qué?

- Quero í cum ocêis, sô valente mais que Cavalo do Cão!

- Ôxi, o moleque qué virá ômi! Disse Volta Seca, este mais jovem que eu.

Lampião olhou para o horizonte, parou por alguns minutos e respirou. Olhou para trás e disse.

- Eu dêxo tú í cunosco, mais tem qui pasá por uma provação. Leve um biete ao Sinhozin Dutra e ardepois vorte.

Meu coração bateu mais acelerado que sapatilha de dançarino e aceitei a encrenca. Peguei o pedaço de papel dobrado em quatro e corri mais que o vento, meu pensamento era só um: será que o bando estaria no mesmo lugar quando eu voltasse? Será o que tinha escrito no bilhete? Eu nem o abri, pois nem sabia ler mesmo que olhasse as letras. Era um tom indecifrável assim como as línguas estrangeiras a um leigo. 

Cheguei ao centro da cidade, era um sábado, dia de feira, seria fácil encontrar Antônio Dutra. Fui até sua casa, esta que ficava perto do centro que se encontrava vazio, as bancas com os produtos e o povo trancado. Esmurrei na porta do ex intentende e ele não respondia. Talvez por achar que eram os cangaceiros. Resolvi dar um grito e me identificar.

- Seu Tonho, sou eu Mané de Totonho, neto de Zé Preto das Laranjeira.

- Que é que tú qué, muleque?

- Vim ti trazê um biete, é de de Lampião, é ugente.

A janela da casa na rua da Vitória Velha começou a se abrir de fininho, uma cabeça sai e olha para um lado e para o outro na rua deserta. O senhor olha pra mim com um olhar misto de curiosidade e animação, logo estende o braço e me pede.

- Me dá o bilhete. 

- Só dô si ocê mi deixá entrá e lê in vóiz arta.

- Tá bem, moleque desgramado, pode entrar.

Antônio Dutra começa a ler.

ILLMO. SR. CEL. ANTONIO DUTRA DE ALMEIDA
LHE FAÇO ESSA PURQUE SEIO QUE O SR. PODE E NÃO EGNORA. MANDO ESSE BIETE PEDINO QUE ME MANDE CINCO CONTO DE RÉIS E MAIS GUARNIÇÃO PRA MEUS MININO QUE TÃO SE ARMA I MUNIÇÃO, MAIS U QUE NÓS TEM É CAPAIZ DE DERRUBAR MAIS DE CINQUENTA MACACO, INTÃO É MIÓ MANDÁ Ô NÓIS INVADE I NUN DÊXA NINGUÉM DI PÉ. VÔ ISPERÁ COM URGENÇA SUA RESPOSTA.
CAPT. FERREIRA, VULGO LAMPIÃO.

Sinhozinho começou a caminhar para lá e para cá dentro de casa com o bilhete na mão e olhou pra mim. Ele me disse que poderia arrumar o dinheiro no final da tarde e que iria mandar um de seus empregados em uma carroça nas carreiras levar tudo e que dissesse ao capitão que não se avexasse, pois era muito dinheiro e também ele estava sem armamento em sua loja.

Voltei para o povoado, o grupo estava nervoso. Dessa vez fui reconhecido e não atiraram em mim. Mas, por não trazer o dinheiro, Lampião mandou me segurar e arrancou uma rama cipó caboclo que estava enramado numa moita, no mato perto e me deram mais de vinte varadas. Fiquei quase sem o couro das costas, mas não chorei. Eu sabia que ele ia me querer no bando, eu sabia. Quando a surra acabou, Lampião chegou perto e me disse.

- Vá se lavá, se tá cum fome coma tripa assada qui nóis fêz cum farinha. Se alimente, ocê vai cum nóis mostrando o caminho. Vamos invadi Tabaiana Grande si num chega a incumenda.

- Mais Virgulino, Sinhozin vai trazê, num se avexe.

- Minino insolente, quem já se viu fala assim cum capitão. Disse um dos preto como eu, depois soube que era Zé Baiano, o Pantera Negra.

O sol estava morrendo, a noite se empretecendo e o bando de olho em mim como se eu fosse responsável por alguma coisa que viesse a dar errado. Eu sabia que eles me, sangrariam como um bode, matariam e me salgariam como carne seca se as coisas não chegassem como combinado. Por volta das 18h uma carroça aponta ao longe, ela vinha pela estrada e a poeira levantava. Eu estava salvo. Tudo chegou como nos conformes, Lampião não invadiu Itabaiana, seguiram seu rumo, para o norte, e eu fui com eles. Me deram uma das armas, a menorzinha, um chapéu de couro sobressalente que um deles carregava e mandaram que o jovem carroceiro desapeasse o cavalo da e me deram ele. Eu montei com a felicidade de um moleque que pega na teta de uma donzela pela primeira vez. Depois de alguns dias, ganhei a confiança do Capitão, fui aos poucos me tornando um cangaceiro afamado. Todos me conheciam pelo apelido Cavalo do Cão, mas como eu era de poucos amigos, acabei sendo esquecido de minha terra natal.

(...)

Cinco anos depois, já nos sertões da Bahia, estávamos sendo perseguidos por uma volante bem armada. Trocamos tiros e eu estava com um mal pressentimento. Olhei para os lados e não vi mais o bando, o silêncio tomou conta do ambiente. Olhei pra frente e uma figura estranha aparece do nada. Era um homem, todo de preto, roupa rasgada, cara lisa, olhos azuis e pele branca como leite. Causava arrepios. Ele veio em minha direção e me diz.

- Sou o Diabo, vim pegar sua alma. No dia que você entrou para o cangaço selou um pacto comigo, seu corpo sempre foi fechado, nunca soube por que? Mas, você me esqueceu, não merece mais ficar vivo.

- Num querdito nessas coisa do Tinhoso, sô crente no meu Santantônho e ele vai mi protege.

- Quem decidiu foi você, agora morra.

Acordei do transe e recebi uma rajada de tiros no braço, a dor do osso sendo atravessado pela bala quente me fez perder o oxigênio do corpo. Rodei, caí de costas para o chão, senti que se aproximavam algumas pessoas. Rezei para que fossem meus amigos. Vi que não tinha amigos mais. Os soldados me esfaquearam, retiraram minhas vestes, dividiram entre eles. Comemoravam assim como fazia o pescador quando pegava a carpa premiada. Era uma verdadeira caça. 

Hoje é nada menos que o dia que arrancaram minha cabeça fora com um facão de quase meio metro. Antes, jogaram meu corpo já desfalecido no chão duro e cheio de espinhos. Meu braço esquerdo cravado de balas, meu pulmão esfaqueado e quase todo o sangue já havia saído de meu corpo. Fui arrastado por mais ou menos cinquenta metros pelas pernas, cada risada de um macaco me dava ódio, mas eu estava imóvel. Olhava através de um único olho que me restava, mal dava para ser aberto de tão inchado que se encontrava, mas eu procurava atentamente uma chance de escapar daquele calvário. Ninguém voltou para me socorrer, eu não escaparia. O facão corta o ar, atinge o chão, minha cabeça se separa do corpo. Eu morri.

Robério Santos

Membro da Academia Itabaianense de Letras

Fonte: facebook
Página: Robério Santos‎ Lampião, Cangaço e Nordeste

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A LENDA DO SÍTIO PEDRA RICA

Por Clerisvaldo B. Chagas, 23 de maio de 2014 - Crônica Nº 1.195

O pesquisador tem que rodear muito. Pode rodar do centro de Santana do Ipanema via povoado São Félix que fica fora do eixo Santana-Maceió. São doze quilômetros até ali, por uma estrada de terra razoável. Seguindo em frente o curioso percorrerá grotas e grotões pouco habitados, beirando a fronteira com Pernambuco até chegar a uma imensa área de areia branca, onde está o sítio denominado Pedra Rica.

Pinturas rupestres da Serra da Capivara, Piauí.

As imediações de uma escola municipal parece ser o ponto de referência de circulação da área. Está bem pertinho do prédio o lajeiro responsável pela denominação de Sítio Pedra Rica que supõe riqueza financeira. Mais fácil, porém, não menos longe é seguir para o local através do município de Dois Riachos, passando pela sede num roteiro de terra branca em melhores condições.

Segundo comentários dos habitantes do lugar, foi enterrado na periferia do lajeiro um tesouro de muitas joias e moedas de ouro, em tempo que ninguém sabe definir. Os moradores são cautelosos, entretanto, diante da pergunta se alguém do sítio Pedra Rica tentou encontrar esse tesouro existe uma apatia ou certo receio de falar sobre o assunto.

Conduzidos por um guia fomos até o local, onde existe no lajeiro uma pedra arqueada para dentro, habitada por ferozes marimbondos. A primeira vista não vimos vestígios de esqueletos, cerâmica, flechas ou outro material naquela parte rochosa, mas a pintura rupestre está presente no teto da pedra, mostrando círculos e outras formas comuns, como as encontradas em outros lugares do Brasil.

Talvez tenha sido a imaginação popular a autora de tantas joias e moedas de ouro que estão enterradas pela região. Os desenhos rupestres despertam o imaginário das pessoas simples do lugar que não percebem que o verdadeiro tesouro são as marcas deixadas pelos nossos antepassados e que irão enriquecer o estudo da História e outras ciências afins. Os vestígios, entretanto, sugerem uma pesquisa mais apurada nas imediações que é assim que se encontra um sítio arqueológico.

Estima-se que existam cerca de 20 mil sítios arqueológicos espalhados por todo território brasileiro. Todos os sítios são considerados, por lei, patrimônio da União, devendo contar com proteção especial, pois fazem parte da história do povo brasileiro e das Américas.

A pequena amostra de pintura rupestre do sítio Pedra Rica pode ser “a ponta de um iceberg” na região ou apenas um caso isolado de passagem rápida de indígenas. Muito mais difícil é considerar a lenda de que aquela pedra fora apenas um ponto de referência para enterro de riquezas por parte de aventureiros. De qualquer modo não ficou ignorada A LENDA DO SÍTIO PEDRA RICA.

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O HISTORIADOR E A VERDADE HISTÓRICA

Por Rangel Alves da Costa*

Há um problema sério - e de difícil resolução - na relação entre o historiador e a História. Assim ocorre porque os historiadores se diferenciam perante o modo como abordam o fato histórico. E infelizmente, no afã de se tornarem os donos da verdade, muitos estudiosos subjugam os próprios fundamentos da História para transformar uma dada realidade naquilo que desejam impor como verdade incontestável, absoluta.

Sem rodeios, necessário que se diga que chega ser absurda a apropriação, ou usurpação, que muito historiador faz de determinados fatos históricos. Mas não que tenha pesquisado, confrontado fontes, estudado a fundo o problema, mas simplesmente porque acha que o seu entendimento é o correto. E está acabado. Assim, pretende se tornar o dono da verdade e, na maioria das vezes, negando qualquer validade às conclusões de outros estudiosos.

Veio-me a ideia de abordar esse tema porque recebi a visita de um historiador, professor universitário, com alguns livros publicados e cuja linha de pesquisa envolve, dentre outras abordagens nordestinas, o cangaço e o messianismo. Conversando sobre uma coisa e outra, espantei-me diante de sua verve contestatória daquilo que já foi escrito, negando as abordagens feitas pelos pesquisadores, sempre acentuando que não foi assim, que é mentirosa tal versão escrita.

Só restou dizer que somente ele sabe de tudo, que é o dono da verdade histórica. Mas nem precisava fazê-lo. Evitando alongar desnecessariamente a conversa e dar ao proseado um contorno mais acirrado, simplesmente afirmei que mesmo aqueles fatos históricos tidos como mais importantes são constantemente revistos, reescritos e trazendo novas conclusões e, por isso mesmo, aquilo um dia escrito como verdade absoluta pode depois perder tal caráter. Ademais, assim acontece em todos os campos do conhecimento, onde as novas pesquisas têm o dom de refutar as investigações anteriores.


Então, ele me dizia ser possuidor de dados e informações que negam o que foi escrito como verdade. No momento recordei o que meu pai Alcino Alves Costa havia escrito na introdução do seu livro “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistérios de Angico”, tratando exatamente das dificuldades de se obter informações seguras mesmo diante daqueles que tiveram envolvimento com o fato pesquisado. Eis o que escreveu:


“Que tristeza sente o pesquisador quando, todo cheio de esperanças, encontra e conversa com os que participaram dessa odisséia e, decepcionado, vê que cada um dos que presenciou pessoalmente os acontecimentos se conflita e, com uma versão penosamente diferente, conta a sua própria história. Os historiadores, coitados, se perdem nesse emaranhado de contradições”.

Alcino se refere aos próprios envolvidos nos acontecimentos históricos e que, quase sempre tentando direcionar os fatos a seu favor ou porque procuram esquecer ou esconder determinados acontecimentos, acabam distorcendo a realidade. E se os próprios personagens se controvertem diante dos fatos, que se imagine o labirinto em que os pesquisadores enveredam para retratar os acontecimentos com a mais fidelidade possível. E ainda assim não conseguem, pois de repente surge um pretenso suprassumo do conhecimento se arvorando de ser o dono da verdade histórica, como ocorre com o historiador inicialmente citado.

Na História, a verdade acaba com o próprio acontecimento, com o seu desfecho. Após isso, mesmo ainda no calor dos acontecimentos, impossível a descrição fidedigna e a contextualização absolutamente verdadeira do fato. Elementos são acrescentados, outros esquecidos ou não citados, e ainda outros que chegam para florear e permitir grandiosidade ao feito. E a cada novo escrito sobre o mesmo fato novas nuances surgirão, tanto para negar ou que foi descrito ou para acrescentar situações ainda desconhecidas. Dessa maneira a história vai ganhando percursos os mais diversos e diferentes possíveis, tornando-se até mesmo como algo que, de tanto ser manipulado e transformado, pode ser tido como pura inventividade.

A cangaceira Sila esposa do cangaceiro Zé Sereno

Desse modo, que me desculpe o nobre amigo escritor e historiador, creio ser um exercício de arrogância e presunção alguém querer se apresentar como o dono da verdade dos fatos e acontecimentos passados. E não adianta dizer que tem testemunhos que comprovam os fatos de forma totalmente diferentes, vez que até mesmo Sila, falecida ex-cangaceira e companheira de Zé Sereno, prestou diversos depoimentos completamente contraditórios.

O cangaceiro Zé Sereno esposo da Sila

Assim como na vida pessoal e social, a humildade deve ser também uma característica sempre presente no ofício do historiador. Que imagine que os escritos e as pesquisas dos demais historiadores não estão completos como deveriam, mas não simplesmente afirmando que tal descrição é mentirosa ou fantasiosa. Ademais, não basta afirmar, é preciso provar. E é preciso que traga ao conhecimento da sociedade sua irrefutável verdade histórica, algo que verdadeiramente duvido.

Poeta e cronista

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ENTERRO DO BRAÇO E CABEÇA DO CANGACEIRO " CORISCO"


Após permanecerem expostos, por quase 30 anos no Museu Nina Rodrigues - Salvador, O BRAÇO DIREITO E A CABEÇA DE CORISCO, FORAM SEPULTADOS NO CEMITÉRIO QUINTA DOS LÁZAROS - 

VEJAM ACIMA, FOTO DA URNA FUNERÁRIA EM QUE SE ENCONTRAVAM AS PEÇAS...

Fonte: facebook
Página Voltaseca Volta

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O cangaço desmistificado -

Por Aldo Gama - Aldo Gama

Livro analisa a história do fenômeno do banditismo que assolou o nordeste brasileiro
   
Seja nas xilogravuras dos cordéis, nas canções populares, no cinema ou na literatura, os cangaceiros habitam o imaginário dos brasileiros até os dias de hoje. Histórias de revolta contra os desmandos das oligarquias e as péssimas condições de vida dos pobres do sertão nordestino costumam caminhar lado a lado com relatos de crimes de extrema crueldade. Lampião, o cangaceiro mais famoso, é, por vezes, descrito como um tipo de Robin Hood ou como aquele “que invade os lares, levando a toda parte sofrimento e morte”, como dizia um anúncio da época.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o  historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os Cangaceiros, apresenta uma série de argumentos que buscam desmistificar o fenômeno que atingiu seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930, durante o reinado lampiônico. 

Brasil de Fato - O contexto de injustiça social, com o controle do aparato policial e judiciário pelas oligarquias, não justificaria a leitura de que o cangaço foi uma espécie de guerrilha popular?

Luiz Bernardo Pericás - A forma de luta dos cangaceiros era, certamente, baseada em técnicas de guerrilha. Na década de 1930, jornalistas e oficiais das volantes chegaram a chamar os cangaceiros de “bandidos-guerrilheiros”, o que mostra que a associação é factível. Boa parte dos bandos era certamente de origem popular. Mas temos de nos perguntar o que significaria dizer “guerrilha popular”. Ou seja, os bandos tinham estrutura hierárquica, nos quais as lideranças, por vezes, eram de estratos mais altos da sociedade sertaneja e davam a tônica da atuação do grupo. Esses “chefes” de grupos não tinham nenhum objetivo de mudar a situação social da região, nem de aliar-se às camadas mais pobres do sertão nordestino. Alguns líderes do cangaço eram “coronéis”, descendentes de membros da Guarda Nacional e de latifundiários, e aliados de parte da elite local. Eles viam a massa anônima do cangaço como seus “empregados”. E estes, consideravam as lideranças como “patrões”.Houve muitas diferentes motivações para o ingresso no cangaço, mas é possível que nenhuma destas tivesse como objetivo lutar por câmbios “revolucionários”.

Nunca houve qualquer intenção de mudança social por parte dos cangaceiros. Só no cinema e literatura, ou seja, em obras de ficção. Obras, em geral, produzidas a posteriori, e utilizando o cangaceiro como símbolo de luta política, como metáfora da insurreição do homem do povo contra o regime vigente. Na verdade, os cangaceiros praticavam crimes hediondos, repetidamente. Seus crimes, em geral, não eram circunstanciais. Ou seja, o cangaço acabava tornando-se um meio de vida, no qual, por anos seguidos, indivíduos cometiam crimes como torturas, sequestros, roubos e assassinatos.

E cometiam essas atrocidades indistintamente, tanto contra alguns “coronéis”, como também contra policiais e contra o próprio “povo” pobre local. Há muitos relatos de torturas e assassinatos cometidos por Lampião, Zé Baiano e outros contra “trabalhadores”, “cassacos”, “agricultores”, gente comum do povo, sem nenhuma piedade ou remorso. Não havia identidade de classe entre os cangaceiros e a população mais pobre. Na prática, Lampião preferia se relacionar com “coronéis” e “políticos”, do que com o “povo” sertanejo. 

A violência das tropas oficiais e das volantes não justificaria a simpatia da população pelos cangaceiros? 

As tropas volantes eram, em grande medida, mal preparadas e mal treinadas. Recebiam pagamentos irrisórios. Seus soldados, em boa parte, eram homens da mesma região e da mesma origem étnica e social dos cangaceiros. Ou seja, gente da mesma “massa e encarnadura”, como disse, certa vez, um conhecido comentarista do tema. Se um jovem cometia algum crime contra outra família e entrava no cangaço, era muito provável que algum parente daquele atacado ou assassinado ingressasse nas volantes para perseguir e punir seu rival. E vice-versa. Há casos de cangaceiros que abandonaram o cangaço e se tornaram policiais, assim como soldados das volantes que largaram a polícia e se fizeram bandoleiros.

A situação, ali, era relativamente fluida quando se tratava especificamente da atuação de cangaceiros e volantes. As tropas volantes, de fato, podiam ser tão ou mais violentas que os cangaceiros, agindo com extrema agressividade e arbitrariedade, e isso quiçá fizesse com que parte da sociedade sertaneja se voltasse para os bandoleiros como símbolos da luta contra as autoridades. Por outro lado, os cangaceiros eram tão violentos que a população, em geral, tinha pavor deles. Várias vezes ocorria que, ao ouvir o boato da aproximação de cangaceiros em algum lugarejo, os moradores locais saíam correndo em disparada, desesperados. A maior parte da população sertaneja, na verdade, não se tornou nem parte das volantes, nem integrante de bandos de cangaceiros.  Em realidade, o povo ficava num fogo cruzado entre esses dois grupos.  A população era de trabalhadores e, em geral, não tinha interesse em ingressar no banditismo ou na polícia, a não ser que tivesse de se proteger dentro de uma dessas “organizações” ou que as utilizasse como meio de vingança contra entreveros, normalmente, familiares. 

O PCB tentou, de fato, recrutar os cangaceiros?

Na década de 1930, o PCB e o Comintern iriam discutir a possibilidade de cooptação e utilização dos cangaceiros na luta revolucionária no Brasil. Um documento do escritório sul-americano do Comintern de 1931, por exemplo, já mencionava os cangaceiros nesse sentido, e outro, do Comitê Executivo da Internacional Comunista, indicava mais explicitamente que “o PCB deve empenhar-se na tarefa de estabelecer contatos mais estritos com as massas de grupos de cangaceiros, postar-se à frente de sua luta, dando-lhe o caráter de luta de classes, e em seguida, vinculá-los ao movimento geral revolucionário do proletariado e do campesinato no Brasil”. Na 3ª Conferência de Partidos Comunistas da América Latina e Caribe, em Moscou, em 1934, o chefe da delegação brasileira, Antônio Maciel Bonfim (o “Miranda”), faria um relatório completamente irreal da situação no campo brasileiro, insistindo que “os partisans cangaceiros estão chamando à luta, estão unindo os camponeses pobres na sua luta por pão e pela vida... Na província da Bahia, somente, os partisans representam um destacamento de aproximadamente 1,5 mil homens, armados com metralhadoras, equipados com caminhões”. Tudo isso, como se sabe, não correspondia à realidade. Alguns acreditavam que os cangaceiros poderiam, inclusive, adotar o programa da ANL (Aliança Nacional Libertadora), e há até mesmo documentos da ANL sugerindo a cooptação de cangaceiros. Mas isso não ocorreu. Ao que consta, apenas um cangaceiro teria se filiado ao PCB, ou seja, não houve sucesso do partido em arregimentar os bandoleiros para a luta revolucionária.

Por que Lampião tornou-se o símbolo do cangaço? 

Se não fosse por Lampião, provavelmente não estaríamos falando, hoje em dia, do cangaço da mesma forma.  Ele foi o mais importante de todos os bandoleiros, sem dúvida nenhuma. É só recordarmos dos outros líderes do cangaço. Quem se lembra, na atualidade, de Jesuíno Brilhante? Ou de Sinhô Pereira, o primeiro chefe de Lampião? Em geral, apenas os estudiosos do tema. Sinhô Pereira, por exemplo, teve uma atuação mais limitada, uma carreira episódica de crimes. Abandonou definitivamente o cangaço em 1922, foi para Goiás e depois, para Minas Gerais, onde mudou de vida. Antônio Silvino, o primeiro “rei dos cangaceiros” foi ferido no tórax em 1914, se entregou à polícia e foi preso. Já Lampião nunca abandonou o cangaço, nem se rendeu. Nunca foi preso. Acabou a vida como líder cangaceiro. Seu bando, no auge, em meados da década de 1920, chegou a contar com 120 homens. Chegou a ter vários subgrupos, que se uniam ao bando principal quando requisitados, uma espécie de “confederação” de cangaceiros, da qual ele era o chefe inconteste. Lampião atuou por mais de duas décadas, num território enorme, em sete estados nordestinos.  Em seu bando, a partir da década de 1930, também havia mulheres, crianças e animais de estimação, o que deu outra aura para o cangaço.
Toda a estética associada ao cangaço nas artes plásticas e no cinema vem principalmente do período lampiônico, especialmente nos anos 1930, com uniformes e chapéus extremamente adornados (verdadeiros trabalhos artísticos). É bom lembrar que nos anos 1920 e 1930 a mídia estava mais desenvolvida, o rádio, as revistas, os jornais e o cinema divulgavam fotos e histórias de Lampião e seus asseclas. Benjamin Abrahão chegou a filmar Lampião e seu grupo.  Ou seja, há até mesmo imagens em movimento do “rei dos cangaceiros”. Os bandos lampiônicos tinham uma vida social que incluía música, danças, “esportes” e festas com muita bebida, o que também ampliou a imagem daqueles bandoleiros.  A ferocidade e agressividade dos bandidos dos grupo de Lampião eram notórias, e as práticas de torturas, “sangramentos” e assassinatos com requinte de crueldade eram muito mais significativos do que nos períodos anteriores, certamente.  Não houve um cangaceiro tão inteligente e hábil “politicamente” como Lampião, alguém que conseguisse construir uma rede de apoio de coiteiros tão eficiente, que teve relações com tantos “coronéis” importantes e que atuou num território tão dilatado, por tanto tempo. Por estes e outros motivos, Lampião foi, incontestavelmente, o rei dos cangaceiros. 

É correto afirmar que a morte de Corisco determina o fim do cangaço?

Desde 1935 (ano do Levante Comunista) até 1938 (massacre do Angico), vários cangaceiros conhecidos  foram assassinados. Em 1938, Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros são assassinados e decapitados após o Massacre da Grota do Angico. Ou seja, a partir de 1935 a intensidade do combate ao banditismo sertanejo aumenta, e após 1937, pode-se dizer que seria decretado o fim do cangaço. Na prática, o assassinato de Lampião em 1938 representou, de fato, a eliminação do cangaço como fenômeno social, como um elemento de forte presença cultural e criminológica no ambiente sertanejo. A partir daí, muitos bandos se rendem, se entregam às forças policiais. Foi assim com os bandos de Pancada e de Vila Nova, em Alagoas.  O próprio Corisco, iria se decidir por abandonar o cangaço.  Mas em sua fuga, perderia a vida pelas mãos do tenente Zé Rufino.  Corisco era um dos mais importantes chefes de subgrupos, se autodenominava “Chefe dos Grandes Cangaceiros”. Por isso, simbolicamente, muitos consideram seu assassinato, em 25 de maio de 1940, o fim do cangaço, já que ele foi o último líder importante a perder a vida. 

O avanço tecnológico foi determinante para o fim dos cangaceiros? 

São muitos os motivos para o fim do cangaço.  Entre as diferentes variáveis, o fator tecnológico certamente conta, ainda que seu peso seja relativo.  O cangaço iria terminar mesmo sem a superioridade dos equipamentos da polícia.  Mas, de fato, o armamento utilizado pelas forças policiais nos anos 1930, e principalmente após o Estado Novo, fez alguma diferença. Vale lembrar também que as tropas começaram a utilizar o rádio para se comunicar.  E que muitos soldados das volantes transitavam no sertão em caminhões, o que lhes dava maior velocidade e mobilidade na região. 

É possível traçar algum paralelo entre a atuação dos cangaceiros com os jagunços e pistoleiros que atuam nos dias de hoje?

Os jagunços e pistoleiros são contratados de políticos e potentados rurais, são assassinos a soldo, por vezes, solitários, que matam, em geral, de tocaia.  São, normalmente, desprezados pela população, vistos como “paus mandados”, como covardes.  Já os cangaceiros andavam em bandos, eram nômades e, mesmo que pudessem receber apoio e proteção de coiteros poderosos, não eram assalariados de ninguém.  Podiam até fazer “serviços” para “coronéis”, mas eram, em geral, “autônomos”, não tinham patrão.  Eles também não matavam pelas costas, de tocaia, escondidos. Enfrentavam os inimigos frente a frente, combatiam forças policiais, mostravam bravura.  Assim, enquanto os pistoleiros até hoje são vistos como indivíduos desprezíveis no meio sertanejo, os cangaceiros gozam de maior prestígio. Como diria Câmara Cascudo, “o sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”. Na visão de muitos, os “crimes” daqueles bandoleiros seriam algo “secundário” se comparados à valentia, bravura e coragem dos cangaceiros diante das adversidades, das agruras do sertão, das perseguições e dos combates. Por isso, há uma distância muito grande entre esses tipos de indivíduos. Além disso, o cangaço apresentava uma “organização social” muito peculiar.,

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