A quarenta anos atrás, Deus
mandou esse presente para mim , hoje você é a minha base onde sustento a minha
vida, Deus te conserve sempre essa filha querida.
E te der uma vida longa, feliz
aniversário é que ele te abençoe sempre.
Fazenda Lagoa
dos Patos ou simplesmente " Fazenda Patos, local de uma das maiores
barbáries cometidas na história do cangaço. Essa terra, que por muitas vezes
seca devido ao sol agressivo do sertão, no início de Agosto de 1938 foi regada
por sangue inocente.
Uma família
quase completa dizimada, por conta de uma vingança mal sucedida, alinhada a uma
mentira que custou seis valiosas vidas.
Corisco tomado
de fúria buscou informações sobre os delatores de Lampião. Porém o real culpado
( Joca Bernardes ) usou de malícia e jogou a culpa em cima de um homem que nem
imaginava o triste fim que teria junto de sua família.
Corisco e seu
bando partem em busca de vingança e descarrega sua cólera sobre aquela família
que por tantas vezes o ajudou fazendo seus mandados...
No muro do
curral de pedra, cai a base do facão do cangaceiro Velocidade, as seis cabeças
sob ordens enfurecidas do temido Corisco, a tragédia só não foi maior, pois
Dadá impede a morte dos dois ( talvez três, dizem que a filha Carmelita também
estava presente ) filhos mais novos de Domingos Ventura.
Neste dia mais
uma vez o sertanejo que ficou no meio das lutas entre cangaceiros e volantes,
verdadeiros HERÓIS desse fenômeno social, sentiram na pele a dor da injustiça,
da impotência, da falta de apoio e dos abusos que sofriam de ambos os lados.
Neste dia
aqueles que hoje muitos chamam de heróis, mostraram que a maldade não tinha
limites...
Neste dia o
solo do sertão nordestino chorou lágrimas de sangue inocente...
Vídeo gravado
em 2017, durante o evento Sertão Cangaço, promovido pelo amigo Jairo Luís, no
qual tivemos a oportunidade de gravar com Almerinda dos Santos, a Dona Miró. Nessa
segunda parte ela narra um "sucesso", ou seja, acidente ocorrido com
Aniceto. Fala do medo das volantes e dos cangaceiros. Diz também sobre os
boatos de onde os cangaceiros conseguiam armas. Discorre sobre as torturas que
os coiteiros eram submetidos e a morte de Hercília. Termina falando de Sila e
da saudade do tempo de menina.
Segunda parte
do vídeo-documentário onde Sila conta como entrou no cangaço, o combate de
Angico, o encontro com Adília e o preconceito que seus filhos sofreram por
causa do seu passado.
Primeira parte do vídeo-documentário onde Sila conta como entrou no cangaço, o combate de Angico, o encontro com Adília e o preconceito que seus filhos sofreram por causa do seu passado.
Cangaço - O massacre da Fazenda Patos Sílvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá, Alcino Costa e Josias Valão falam sobre o massacre na Fazenda Patos, cometido pelo cangaceiro Corisco, o Diabo Loiro.
Tudo pode-se
dizer do chefe cangaceiro Virgolino Ferreira, o Lampião, menos que não era um
ás em táticas de guerrilha no ventre da Mata Branca nordestina. Esse dom
acompanhou-o desde a tenra idade quando, segundo a jornalista,
pesquisadora/escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, nos
informa de que o mesmo, durante as brincadeiras nos intervalos das aulas, junto
a seus colegas e irmãos, já demonstrava liderança e raciocínio lógico tático
entre ‘bandidos e polícia’.
Esse é um tipo de divertimento que toda criança, principalmente do Nordeste brasileiro, até bem pouco tempo atrás, praticou, curtiu, fez parte e brincou. Com o passar dos anos, o mesmo torna-se apenas lembranças guardadas de uma infância feliz. No entanto, para o jovem Virgolino não ficou apenas na lembrança. Aos poucos, com o avanço da idade e o discorrer do tempo, viera o aperfeiçoamento de tal dom.
Escritora Marilourdes Ferraz
Virgolino e seus dois irmãos mais velhos, Antônio e Livino, desde cedo que pegaram no batente do roçado e na profissão de almocreve juntamente com seu pai. A labuta na almocrevaria trouxera aos irmãos “Ferreira” um maior conhecimento de toda a região, desde os confins do sertão baiano, do Vale do Pajeú das Flores, dos cariris cearenses e paraibanos aos contornos e contrafortes geográficos sergipanos e alagoanos.
Cidades, Vilas e Povoados, arruados e sedes de grandes propriedades rurais, latifundiários, ‘coronéis’, assim como o conhecimento de grande parte da população ‘moradora’, pobre, subservientes aos mesmos, os pistoleiros, jagunços e cangaceiros da época fora e dentro dos limites das propriedades, municípios e Estados percorridos com a burrarada e suas mercadorias. Começa assim a formar-se em seu cérebro, juntando-se ao dom tático e de liderança que nascera com ele, mais uma coragem inconteste, as mais brilhantes ideias e projetos para um futuro negro e sangrento, porém, promissor e vantajoso.
Lampião e o irmão Antonio Ferreira
Quando nos embrenhamos nas entre linhas das várias obras literárias sobre a saga deste chefe cangaceiro, sempre notamos suas artimanhas em guerra de movimentos aplicadas de maneira astuciosa, sagaz e planejada. Suas emboscadas causaram grandes baixas nas fileiras das Forças Públicas oficiais, aos contratados pelos Estados, aos ‘voluntários’ e ‘cachimbos’ que formavam e compunham as alas de seus perseguidores.
Além da tática móvel posta em ação no campo das batalhas, Lampião empregou, criou, naquela época, a maior e mais eficaz forma de derrotar o inimigo: uma grande malha de colaboradores. Auxiliares pagos a peso de ouro, ou, na ‘moeda de troca de favores’, e em todas as camadas da pirâmide social. Desde ao menos notado, do mais pobre sertanejo, calejado e subjugado ao patrão, a mais alta autoridade dentro de alguns municípios e Estados que compuseram o caminho por onde impôs seu cangaço. A criação da ‘equipe’ de informação e desinformação foi uma das táticas empregadas que o levaram há um tempo demasiado longo para um chefe cangaceiro permanecer vivo e ativo. Como exemplo, citamos a presença do telegrafista militar, ou mesmo civil, como exímio colaborador, pois, até o momento, não vemos se quer uma linha referindo que foi agredido, morto ou torturado esse profissional pelo ‘rei dos cangaceiros’ nos inúmeros livros dos escritos sobre o tema a não ser o constante corte dos fios telegráficos.
Livino está atrás a esquerda
Uma das maiores, se não a maior, emboscada colocada, arguida, planejada por Virgolino Ferreira a Força Pública foi, com toda certeza, a da Serra Grande, no município de São Serafim, hoje, Calumbi, PE, em novembro de 1926, aonde causou as maiores baixas aqueles que o combatiam. Tanto que, após o episódio, seus familiares, irmãos, irmãs, primos e cunhados, que nada tinham haver com seus atos criminosos e morando em Juazeiro do Norte, CE, passaram a ser perseguidos e presos.
Próximo a “Passagem do Pereira”, boqueirão natural nos contrafortes naturais laterais da Serra Grande, aonde rebanhos de caprinos fizeram sua vereda para acessarem a alimento e água no topo da mesma, aliás, única via de acesso para subi-la naquela extensão, o comandante da Força Pública perseguidora, tenente Hygino José Berlamino, olhando seu relógio de algibeira, segundo o sociólogo, pesquisador/escritor Frederico Pernambucano de Mello, diz, “São 7h45. Morra quem morrer, escape quem escapar, eu fico aqui à espera da quebra da espoleta no alto da serra”.
Lampião determinou o local, a hora e a maneira do grande combate, o qual é considerado o maior entre cangaceiros e volantes. Desde o sequestro dos dois cidadãos, Benício Vieira e Pedro Paulo Mineiro Dias, próximo a cidade de Triunfo, PE, representantes de duas grandes empresas, aquele da Souza Cruz e Cigarros e esse, da Standard Oill Company, até o cerco a casa de José Esperidião, no sítio Varzinha, em São Serafim, o incêndio em sua casa e, por fim, seu assassinato após mais de cinco horas de combate. Esperidião, sozinho, enfrentou Lampião e sua caterva, algo em torno de cem homens, aonde demonstrou ser mais um valente homem do Vale do Pajeú, pois, segurou o fogo durante cinco horas de combate, defendendo sua casa, sua esposa e seu filho único de apenas sete dias de nascido, morrendo sem deixar-se ser subjugado aos anseios do perverso chefe cangaceiro. Para nós, o verdadeiro herói da historiografia cangaceira.
O tenente Hygino, como maior graduado naquela missão aonde o contingente era por volta de 300 praças, composição de várias volantes, depois de ter discutido com os comandantes de duas volantes, sargento Arlindo Rocha e o cabo Manoel Neto, a fim de formarem um plano de ataque, com precaução e designação de uma patrulha para fazer o entorno da serra, essa seria comandada pelo cabo Euclydes Flor, com isso deixar os cangaceiros em duas frentes de combates, porém, por insistência dos dois, desiste dessa tática e permite que se faça a vontade de ambos que era de adentrarem o boqueirão, a única passagem e, de frente, desalojarem o inimigo, distribuído taticamente por Lampião ao longo do paredão rochoso. Resultado, além de várias baixas nas fileiras, os dois são feridos, Manoel Neto nas pernas e Arlindo Rocha tem sua mandíbula despedaçada por uma bala de fuzil.
Essa batalha perdura por todo o dia e, aqueles comandantes de volantes, o sargento e o cabo, são, na verdade quem menos dá combate devido terem sido colocados fora de ação logo no início da contenda.
Ao ‘percorrermos’ as entrelinhas da historiografia do cangaço, principalmente aquele imposto por Virgolino Ferreira, notamos que possuir coragem sem ter tática, planejamento, tornara-se um erro fatal daqueles que davam combate ao crime nas entranhas da caatinga sertaneja. O interessante é que, mesmo acontecendo várias vezes com distintos comandantes de volantes, os mesmos permaneceram na teimosa insistência da ação mal aplicada contribuindo assim para baixas fatais em seus comandados, isso quando não de suas próprias vidas.
Alguns, ainda
no início dos estudos ou por não quererem ampliar seus conhecimentos, pensam
que Lampião, ou qualquer outro chefe cangaceiro, vivia em busca das volantes
para dar combate. Esse, de princípio, torna-se um erro que jamais devemos ter.
A munição gasta nos combates com as volantes custavam muito caro aos chefes de
grupos cangaceiros. Havia fornecedores, porém, aplicavam valores muito acima do
preço de mercado a época. Pernambucano de Mello, citando sobre a aquisição de
munição por parte dos cangaceiros e fazendeiros, colhido informação em um processo
de denúncia crime aberto pelo promotor público Osvaldo Tavares de Mello, em 8
de maio de 1927, refere: “O informante Ascendino Alves de Oliveira diz ter
ouvido de Lampião e de Sabino a queixa de que estavam pagando três mil-réis por
cada pente de cinco balas de fuzil, mesmo sabendo que, “na fonte, o pente
custava, no máximo, um mil-réis”.
A primeira obra é "LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS" que já está na 5ª. edição, e aborda o fenômeno do cangaço e a vida do maior guerrilheiro das Américas. Um homem que não temeu às autoridades policiais e muito menos aqueles que lutavam contra a sua pessoa, na intenção de desmoralizá-lo nas suas empreitadas vingativas, e eliminá-lo do solo nordestino. Realmente foi feito o extermínio do homem mais corajoso e mais admirado do Nordeste do Brasil, na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, no Estado de Sergipe, mas não em combate, e sim, através de uma emboscada muito bem organizada pelo alagoano tenente João Bezerra da Silva.
O Segundo livro da trilogia do escritor e pesquisador do cangaço é: "FATOS ASSOMBROSOS DA RECENTE HISTÓRIA DO NORDESTE" com 332 páginas, e um grande acervo de fotos relacionado ao assunto. E para aqueles que gosta de ler e ver fotos em uma leitura irá se sentir realizado com todas as fotos.
O terceiro livro da trilogia também do escritor José Bezerra Lima Irmão é: "CAPÍTULOS DA HISTÓRIA DO NORDESTE" resgata fatos sobre os quais a história oficial silencia ou lhes dá uma versão edulcorada ou distorcida: o "desenvolvimento" do Brasil, o desumano progresso de colonização feito a ferro e fogo, Guerra dos Marcates, Cabanada, Balaiada, Revolução Praieira, Ronco da Abelha, Revolta dos Quebra-Quilos, Sabinada, Revolta de Princesa, as barbáries da Serra do Rodeador e da Pedra do Reino, Guerras de Canudos, Caldeirão e Pau-de-Colher, dando ênfase especial à saga de Zumbi dos Palmares, Invasões Holandesas, Revolução Pernambucana de 1817, Confederação do Equador e Guerras da Independência, incluindo o 2 de Julho, quando o Brasil se tornou de fato independente... São assuntos que dão gostos a gente lê-los.
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Recentemente o escritor e pesquisador do cangaço Guilherme Machado lançou o seu trabalho sobre o mundo dos cangaceiros com o título "LAMPIÃO E SEUS PRINCIPAIS ALIADOS".
O livro está recheado com mais de 50 biografias de cangaceiros que atuaram juntamente com o capitão Lampião.
Eu já recebi o meu e não só recebi, como já o li. Além das biografias, tem fotos de cangaceiros que eu nem imaginava que existiam. São 150 páginas. Excelente narração. Conheça a boa narração que fez o autor.
Pesquisador Geraldo Júnior
Prefaciado pelo pesquisador do cangaço Geraldo Antônio de Souza Júnior. Tem também a participação do pesquisador Robério Santos escritor e jornalista. Duas feras no que diz respeito aos estudos cangaceiros.
Jornalista Robério Santos
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As mortes destes cangaceiros citadas acima aconteceram na madrugada do dia 28 de julho do ano de 1938, na Grota do Angico, em Porto da Folha, atualmente Poço Redondo, no Estado de Sergipe, quando foram eliminados 11 facínoras, pelas malditas armas dos volantes comandados pelo tenente João Bezerra da Silva. Ali, ficaram mortos os seguintes desordeiros: o velho e afamado capitão Lampião o comandante geral destes delinquentes. Quinta-feira, Maria Bonita a rainha do capitão. Luiz Pedro amigo de fé dos reis do cangaço desde a velha guarda. Mergulhão, Alecrim, Enedina companheira do cangaceiro Cajazeira, Moeda, Elétrico, Colchete (não confundir este Colchete com o que foi morto em Mossoró, no ano de 1927, no momento do ataque de Lampião à cidade). Macela, além do volante Adrião Pedro de Souza, que há quem diga que este foi morto por fogo amigo.
Adrião Pedro de Souza é o primeiro da esquerda. A foto pertence ao professor, escritor e pesquisador do cangalo Antonio Vilela, doado a ele por pessoas da família do policial.
Os cangaceiros ainda estavam em suas barracas quando a madrugada fria recebeu tiros e mais tiros, na intenção de eliminar todos os bandoleiros que lá estavam. Mas por sorte, alguns cangaceiros conseguiram esquivar, e entraram nas matas, procurando lugares seguros para protejerem as suas vidas.
Os cangaceiros que estavam lá, nesta madrugada de terror, comentaram a vários pesquisadores, escritores, cineastas e jornalistas, que o ataque não foi brincadeira, e naquele momento era: "Cada um por si e Deus por todos". Um verdadeiro inferno vivido por eles que conseguiram escapar da mira das metralhadoras que procuravam alvos.
O certo é que, quem ali permanecia, não teve tempo para nada, nem mesmo para juntar os seus pertences. E o mais correto, era sair da Grota do Angico e do meio do fogo o quanto antes possível, vez que se não fugissem, seriam mortos pelas perversas metralhadoras que vomitavam fogo a cada momento. Alguns facínoras já estavam mortos, e as armas não desistiam.
No estudo cangaceiro foi registrado que os primeiros eliminados foram os reis do cangaço, o capitão Lampião e sua amada Maria Bonita. Há quem diga que Maria Bonita foi degolada ainda viva. Na sequência, mais 9 cangaceiros caíram ao chão sem vida.
Vamos conhecer o tenente João Bezerra da Silva, o homem que eliminou o perigoso cangaceiro Lampião?
João Bezerra
da Silva nasceu em Afogados da Ingazeira, no dia 24 de
junho de 1898, e faleceu na cidade de Garanhuns, no dia 4 de
dezembro de 1970. Foi um oficial da Polícia Militar de Alagoas, e ficou
conhecido nacionalmente como o comandante da volante que pôs fim ao
cangaceiro Lampião e seu bando, em 28 de julho de
1938 no município de Poço
Redondo, em Sergipe.
Posteriormente foi recebido no Palácio do Catete, pelo então Presidente Getúlio
Dornelles Vargas, quando foi elogiado e recebeu honrarias pelo grande
feito. Durante a carreira militar atuou por 35 anos e 7 meses, obtendo durante
esse período 19 nomeações de comando, chegando inclusive a assumir o comando
geral da corporação alagoana. Em setembro de 1940, lançou um livro intitulado Como
Dei Cabo a Lampião, obra em que ele relata os fatos marcantes que ocorreram no
combate de Angico. Entrou para a reserva da Polícia Militar de Alagoas em 4 de
novembro de 1955, aos 57 anos de idade, passando a se dedicar à agricultura.
Biografia
Era filho de Henrique Bezerra da Silva e Marcolina Maria Bezerra da Silva.
Curiosamente João Bezerra é primo em segundo grau do famigerado
cangaceiro Antônio Silvino, segundo ele, com quem aprendeu a
atirar. Também nasceu no mesmo mês e ano que Lampião. Sua cidade natal fica
na Microrregião do Pajeú, onde está localizado o município de Serra
Talhada, tera natal de Lampião.
Quando jovem,
João Bezerra decidiu fugir de casa, após desentendimento com seu pai Henrique
Bezerra, que tinha-lhe proibido de namorar uma moça da localidade. Sentindo-se
desmoralizado, partiu para a capital Recife, onde
começou a trabalhar como assentador de dormentes na linha férrea, entre outras
profissões que teve durante sua estada. Após um ano, decidiu voltar para sua
casa na Serra da Colônia, onde abriu um pequeno estabelecimento comercial
(bodega) que vendia de tudo. Ao ver que João Bezerra estava progredindo com seu
comércio e chegando inclusive a realizar festas no fim de semana, um importante
fazendeiro local sentiu-se incomodado e acabou abusando sua sobrinha contra a
vontade dela. Diante da barbárie, João Bezerra pôs fim ao fazendeiro e foi
embora do lugar para evitar retaliações, sendo este o segundo motivo de sua
saída. Com isso foi procurar refúgio no município de Princesa Isabel, onde
trabalhou para o Coronel José Pereira, que era inimigo ferrenho de Lampião e
uma importante autoridade local. Ali João Bezerra ficou famoso por ter matado
uma onça que estava dizimando criações e de ter matado uma pessoa.
Em seguida
João Bezerra decidiu ir para Maceió, em
1919, ano em que iniciou sua carreira militar, sendo incorporado em definitivo
em 1922, fazendo grande carreira ao conquistar muitas promoções por bravura e
merecimento. Casou-se com Cyra Gomes de Britto, em 1935 no município de
Piranhas.
Como militar
ganhou reconhecimento nacional por ter comandado a volante policial que matou
Lampião e seu bando, em 28 de julho de 1938. Sua bravura esteve presente em 11
combates contra os cangaceiros, durante toda sua carreira, onde chegou a perder
quatro centímetros de uma das pernas, causando-lhe dificuldades de locomoção,
fato esse que lhe rendeu o apelido dado por Lampião de "Cão Coxo" (na
cultura nordestina "cão" é sinônimo de bravura, valentia e
"coxo" se refere a pessoa com uma extremidade mais curta que a outra
). Em contrapartida, João Bezerra lhe chamava de "O Cego", devido
Lampião não ter o olho direito.
João Bezerra
da Silva faleceu no município de Garanhuns, em 4 de dezembro de 1970, por
consequência de um acidente vascular cerebral, aos 72 anos
de idade. Seu corpo encontra-se enterrado no cemitério Parque das Flores, no
município do Recife.
A Boa Localização Para Disparar Foguetes – A Doação de 2.000 Hectares na beira da Praia – O Início da Construção – Primeiro Disparo – O Foguetório – O Dia Que os Russos Espionaram a Barreira do Inferno – Futuro Incerto – Memórias Inesquecíveis Para o Povo de Natal
Rostand Medeiros – IHGRN
Efetivamente a ideia galgar o espaço exterior se inicia com o desenvolvimento dos processos tecnológicos de lançamento de foguetes pelos países vencedores da Segunda Guerra Mundial. Com a ideia de não perder o “bonde da história” e diante das perspectivas altamente estratégicas que a conquista do espaço criava para uma nação com dimensões continentais como o Brasil, apontou para a necessidade do desenvolvimento de um projeto de programa espacial nacional. Logo a criação de instituições como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1950, e o surgimento do Centro Técnico de Aeronáutica, hoje o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), como órgão científico e técnico do Ministério da Aeronáutica, apontou os caminhos a serem seguidos.
Preparação de um foguete para disparo na Barreira do Inferno na década de 1970 – Fonte – Biblioteca Nacional.
Nesse desejo da nação brasileira de alçar o espaço sideral ficou evidente que um dos caminhos a ser seguido era a criação da primeira base de lançamento de foguetes no país. E foi no Rio Grande do Norte que o Governo Brasileiro decidiu desenvolver esse local.
E porque razão fomos escolhidos?
Primeiramente o fator posição geográfica foi decisivo para que a terra potiguar participasse desse projeto de alto interesse para a nação. Natal está distante apenas 5 graus da linha do Equador e essa proximidade muito facilita o lançamento de foguetes ao espaço, pois quanto mais próximo desse marco geográfico, utiliza-se uma menor quantidade de combustível para a ascensão desses equipamentos. De certa forma repetiu-se o mesmo que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando militares norte-americanos construíram a base aérea que eles denominaram de Parnamirim Field, pela excepcional posição estratégica de Natal para o desenvolvimento do transporte aéreo militar dos Aliados durante o conflito.
Desenvolvimento de foguetes nos Estados Unidos – Fonte – NASA
Outro fator estava na existência de um tipo de “anomalia magnética” sobre o Rio Grande do Norte e outros estados nordestinos. Ocorre que nessa região as linhas do campo magnético da Terra formam uma espécie de “funil” e essa situação facilita as medições espaciais com foguetes, que não necessitam se elevar a grandes altitudes para cumprir suas missões, diminuindo o custo dos lançamentos.
Outros fatores que pesaram favoravelmente na decisão de construção dessa base de lançamento de foguetes na área metropolitana de Natal foram o clima estável da nossa região, a proximidade com a capital potiguar, proximidade do porto no Rio Potengi e a pouca distância da Base Aérea de Parnamirim.
A Doação do Terreno de Fernando Pedroza
Ficou decidido que o local para implantação da base ocorreria em um terreno de quase 2.000 hectares, localizado as margens do Oceano Atlântico, próximo a praia de Ponta Negra. Era um lugar abandonado, cercado de altas dunas de areia, aquinze quilômetros do centro de Natal, no caminho para a região das praias do litoral sul e conhecida como Barreira do Inferno.
Para alguns a denominação nativa evocava a coloração avermelhada das altas falésias de arenito ali existentes. Para outros o nome era uma lembrança das trágicas mortes de jangadeiros nas águas turbulentas daquela região, provocadas pelas fortes correntezas marinhas e rochas que dificultavam a navegação. O certo é que essas condições sempre limitaram a ocupação da área por populações de pescadores.
O terreno pertencia a Fernando Gomes Pedroza, que morava no Rio de Janeiro mas era membro de uma tradicional família potiguar. Logo, em 7 de agosto de 1964, os quase 2.000 hectares foram integralmente doados para o então Ministério da Aeronáutica.
Aos olhos de hoje, diante da intensa especulação imobiliária existente no belo litoral potiguar, pode parecer estranho alguém doar um terreno daquelas dimensões ao Governo Federal. Mas alguns fatores talvez possam explicar essa decisão.
Instalações da Barreira do Inferno – Fonte – Arquivo Nacional.
Como comentamos anteriormente Pedroza morava no Rio, onde ele certamente tinha seus interesses, objetivos e investimentos e naquele início da década de 1960, dentro da realidade do paupérrimo Rio Grande do Norte, dificilmente Fernando Pedroza poderia usufruir pecuniariamente daquele local a curto prazo. Consta que Aluízio Alves, então governador potiguar e com ligações pessoais com Pedroza, intercedeu para a doação da área, mostrando o quanto seria proveitoso para o Estado a implantação daquela base. Não sei se também pesou na decisão de Fernando Pedroza o fato de ser complicado para ele se colocar contrário aos objetivos estratégicos da classe fardada naquele período, poucos meses após os militares deflagrarem a revolução de 31 de março de 1964.
Em todo caso o terreno foi entregue e tempos depois, certamente pelos seus “sentimentos de brasilidade e patriotismo”, o antigo proprietário foi agraciado pela Força Aérea Brasileira (FAB) com a medalha do Mérito Aeronáutico.
Instalações da Barreira do Inferno – Fonte – Arquivo Nacional.
Início das Obras e Primeiros Lançamentos
As obras foram iniciadas em 5 de outubro de 1964, com parte delas sendo executadas pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte, que na época tinha recrutado quinze presidiários para trabalharem no desmatamento da área, em troca de benefícios nas penas. Consta que sem o apoio do governo Aluízio Alves para o desenvolvimento da Barreira do Inferno, a base de lançamento de foguetes poderia ter ido para Aracati, no Ceará, ou para o Arquipélago de Fernando de Noronha, administrado por Pernambuco.
Quem primeiro noticiou a construção da nova base foi o jornalista Paulo Macedo, recentemente falecido, em sua coluna da segunda página do Diário de Natal (Ed. 09/10/1964).
Casamata blindada da Barreira do Inferno – Fonte – Arquivo Nacional.
Em meio as dunas logo surgiu todo um complexo de estradas pavimentadas, garagens, prédios, abrigos, depósitos, rampas, antenas e radares. Foram construídas a casamata blindada para os técnicos acompanharem os lançamentos de foguetes a curta distância e as várias rampas de disparo. Estradas pavimentadas ligavam estas rampas aos depósitos e hangares onde ficam abrigados os foguetes, antes de serem preparados para ir aos céus. Outras estradas interligavam esses depósitos aos centros de rastreio e telemetria, instalados em prédios próprios, e aos prédios administrativos.
Nascia assim o CLFBI – Centro de Lançamento de Foguetes da Barreira do Inferno, um local que sem dúvida alguma encheu de orgulho os potiguares, ao ponto dos radialistas locais designarem Natal como “Capital Espacial do Brasil”.
Instalações da Barreira do Inferno – Fonte – Arquivo Nacional.
Nos jornais natalenses da época existe a informação que alguns foguetes de teste foram disparados em abril, ou junho, de 1965. Mas oficialmente o primeiro lançamento de um foguete aconteceu em dezembro daquele ano, em um evento que contou com a presença do brigadeiro Eduardo Gomes, então Ministro da Aeronáutica. Nessa ocasião foi disparado um foguete de dois estágios denominado Nike-Apache, utilizado para sondagens, de fabricação norte-americana e capaz de atingir quase 200 km de altitude. O foguete subiu ao espaço exatamente as 16 horas e 28 minutos de 15 de dezembro de 1965.
Em tempo – A Barreira do Inferno não é a primeira base de lançamento de foguetes da América Latina. A honra cabe a Base de Santo Tomás, em Pampa de Achala, Província de Córdoba, Argentina, onde em fevereiro de 1961 foi lançado um foguete tipo Apex A1-02 Alfa-Centauro, que alcançou 2.170 metros de altitude. Esse foi o primeiro artefato desse tipo lançado nessa parte do Planeta. Inclusive alguns acreditam, mesmo sem apresentar provas, que muito do desenvolvimento da Barreira do Inferno por parte do Governo Brasileiro se deveu ao positivo andamento do programa espacial argentino.
Atividade dos técnicos nas instalações da Barreira do Inferno – Fonte – Arquivo Nacional.
Desenvolvimento
Bem antes da Barreira do Inferno lançar seus primeiros foguetes, o pessoal do Grupo Executivo de Trabalho e Estudos de Projetos Espaciais (GETEPE), do Ministério da Aeronáutica, providenciava junto a NASA, nos Estados Unidos, o treinamento do pessoal técnico necessário às operações de lançamento e para se familiarizarem com esses artefatos. Logo, cerca de dez norte-americanos desembarcaram em Natal para instruir a equipe da Barreira do Inferno no uso de uma série de equipamentos cedidos ao Brasil.
Nos anos seguintes a Barreira do Inferno foi palco do lançamento de centenas de foguetes.
Disparo de foguete – Fonte – Arquivo Nacional.
Aquilo visto nos céus potiguares foi um verdadeiro foguetório de fazer inveja em festa de São João no interior. Chegou um momento que de tão comuns, os rastros dos foguetes já nem chamavam mais a atenção das pessoas na cidade. De toda maneira o espetáculo enchia de orgulho o povo de nossa terra, sendo referência no Brasil. Até o grande sanfoneiro Luiz Gonzaga colocou na sua música “Nordeste prá frente“ o seguinte refrão;
“Caruaru tem sua universidade
Campina Grande tem até televisão
Jaboatão fabrica jipe à vontade
Lá de Natal já tá subindo foguetão…”
Fonte – Arquivo Nacional.
Desde os brasileiríssimos Sondas I, II e III, onde esse último alcançava mais de 500 quilômetros de altitude, a foguetes estrangeiros como os Nike Tomahawk, Nike Cajun, Aerobee, Black Brant, Javelin, Arcas e Hasp, foram disparados da Barreira do Inferno. Alguns foguetes superaram os 1.000 quilómetros de altitude e outros foram lançados como parte de importantes programas de pesquisas nacionais e estrangeiros.
Além de técnicos norte-americanos, passaram pela Barreira do Inferno técnicos franceses, canadenses e alemães. E a presença desses últimos por aqui, vindos do Max Planck Institute, acabou gerando um incidente internacional.
Preparação para disparo na década de 1970 – Fonte – Arquivo Nacional.
Foguetório Teuto-Brasileiro
De dezembro de 1965 a março de 1972 a Barreira do Inferno já havia disparado um total de 381 foguetes. O lançamento de número 382 estava previsto para ocorrer no dia 7 de março de 1972 e este seria um modelo Black Brant 5C, fabricado pela empresa canadense Bristol Aerospace e vendido para os alemães desenvolverem seus projetos de pesquisa espacial.
Esta operação era parte do Projeto Aeros, onde o custo de um milhão de dólares do disparo era totalmente financiado pelo estado germânico e trazia algumas novidades em relação aos lançamentos anteriores. A sua carga útil de componentes eletrônicos de medição, pesando 98 quilos, seria recuperada a cerca de 145 milhas náuticas (268 km) de distância da base, o Black Brant 5C atingiria a altitude máxima de 230 km e após o fim do combustível cairia livremente até 4.500 metros de altitude, quando seria acionado seus paraquedas e a carga desceria tranquilamente no oceano. Essa carga seria recuperada com o trabalho conjunto de uma corveta do Grupamento Naval do Nordeste da Marinha do Brasil e dois helicópteros SAR (do inglês: Search And Rescue – busca e salvamento) da Força Aérea Brasileira.
Fonte – Arquivo Nacional.
Até então normalmente eram disparados foguetes cuja área de recuperação de sua carga útil atingia em média de 40 milhas náuticas (74 km) e metade da altitude do Black Brant alemão. Diante da situação a FAB e a Marinha criaram uma área de exclusão ao redor da Barreira do Inferno de 60 milhas náuticas (111 km), onde todo o tráfego aéreo e marítimo foi expressamente proibido por razões de segurança.
Durante a operação a corveta da Marinha ficaria permanentemente em alto mar e caberia também a sua tripulação a missão de informar a Barreira do Inferno, cinco horas antes do lançamento, as condições do tempo, velocidade do vento, visibilidade e cobertura das nuvens.
Fonte – Arquivo Nacional.
Ainda em relação a meteorologia o monitoramento também era realizado pelo então Centro Meteorológico do Instituto de Atividades Espaciais, com sede em São José dos Campos, São Paulo, que utilizava informações vindas do satélite meteorológico americano ESSA-8. Todo este cuidado era importante, pois naquele início de março de 1972 estava ocorrendo chuvas na costa potiguar.
O evento era coberto de extrema segurança e contava com a presença do então Ministro da Aeronáutica, o brigadeiro José Campos de Araripe Macedo, toda a cúpula da FAB, do setor técnico aeroespacial brasileiro e do pessoal diplomático e técnico alemão.
Para manter a cobertura aérea segura a FAB disponibilizou duas aeronaves de patrulha Lockheed P-15 Neptune, pertencentes ao Primeiro Esquadrão do Sétimo Grupo de Aviação (1º/7º GAv), o conhecido Esquadrão Orungan, sediado em Salvador, na Bahia.
E foram os membros deste esquadrão que localizaram em alto mar, às dez horas da manhã do dia 1 de março, um penetra no foguetório teuto-brasileiro.
O Intruso Vermelho
As aeronaves de patrulha da FAB eram equipadas com radares de busca, podiam voar horas sobre o mar e segundo os jornais da época teriam detectado um forte sinal que aparentava ser de um navio de grande porte e agindo de maneira suspeita em águas territoriais brasileiras. Prontamente eles foram investigar.
Os tripulantes se depararam com um grande navio pintado em cor clara, equipado com enormes antenas parabólicas, navegando lentamente a cerca de 144 milhas náuticas (266 km) da costa de Natal. Os dados mostraram que o tal navio estava 56 milhas náuticas (103 km) dentro de águas territoriais brasileiras, em clara violação das nossas leis. Não demorou e os tripulantes viram a bandeira vermelha, com a foice e o martelo estampados em dourado, mostrando que aquele era um navio da União das Repúblicas Socialista Soviética.
O Iuri Gagarin e sua inconfundível silhueta – Fonte – Wikipédia
Vale frisar que nesta época a União Soviética, atual Federação Russa, não reconhecia o mar territorial brasileiro como tendo 200 milhas náuticas. O decreto ampliando a nossa faixa marítima havia sido instituído apenas em 1970 e, além dos soviéticos, os arquivos do Itamaraty registraram notas de protesto, ou de não reconhecimento, ou de reservas quanto ao ato unilateral de ampliação do nosso mar territorial, vindos de países como a Bélgica, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Japão, Noruega, Reino Unido, República Federal da Alemanha e Suécia.
Mas para os aviadores do P-15 Neptune os soviéticos e seu grande navio estavam sim em nossas águas territoriais e ou caíam fora, ou poderiam sofrer alguma consequência. E lá embaixo não estava um “barquinho” qualquer, era o grande e recém-lançado navio soviético de monitoramento espacial Cosmonauta Iuri Gagarin.
Desenho do P-15 da FAB – Fonte – wp.scn.ru
Um verdadeiro monstro com 230 metros de comprimento, autonomia de 24.000 milhas náuticas (44.448 km) e uma tripulação de 180 pessoas, onde entre estes se encontravam alguns dos mais especializados técnicos de monitoramento e rastreamento eletrônico da extinta União Soviética. Em operação desde dezembro de 1971, a silhueta do navio Cosmonauta Iuri Gagarin se caracterizava pela existência de quatro grandes antenas parabólicas e elas serviam para monitorar tudo que fosse interessante e relativo a área espacial produzida pelos países ocidentais.
Apesar de vivermos um período de extrema censura jornalística durante a ditadura militar brasileira, o interessante neste caso foi que os militares não negaram aos jornais praticamente nenhuma informação sobre a presença em nossas águas deste “intruso vermelho”. Desejavam mostrar que as nossas Forças Armadas estavam atentas a movimentação daquele barco carregado de alta tecnologia russa e em clara missão de espionagem tecnológica.
Navio Cosmonauta Iuri Gagarin – Fonte – Wikipédia
Raspando as Antenas e o Mastro do Navio Soviético
E não podemos negar que o pessoal do Esquadrão Orungan estava realizando corretamente seu trabalho. Segundo o então comandante da operação de lançamento do foguete Black Brant 5C, o coronel aviador Paulo Henrique Correia do Amarante, não havia dúvidas que o navio Cosmonauta Iuri Gagarin estava no mar territorial brasileiro para monitorar e rastrear o lançamento do foguete adquirido pelos alemães.
Ele afirmou que após a localização visual do navio, ocorreu uma primeira passagem para fotografias e depois os P-15 Neptune da FAB realizaram voos rasantes “raspando as antenas e o mastro do navio soviético”. A tripulação do Iuri Gagarin prontamente acelerou as máquinas e deslocou a nave para fora de nossas águas territoriais, em uma direção que o conduzia a região do Arquipélago de Fernando de Noronha. O coronel Paulo Henrique chegou mesmo a apresentar fotografias do navio espião à imprensa.
Foi divulgado que no dia 6 de março os P-15 Neptune retornaram a missão de buscas ao navio Cosmonauta Iuri Gagarin, em uma operação que durou mais de cinco horas, alcançando uma área de 900 milhas náuticas de patrulha, incluindo Fernando de Noronha. Foi utilizado constante busca por radar, seguiram a bordo cinegrafistas para registar a presença da nave, mas o grande navio não voltou a ser localizado.
Para os militares brasileiros o lançamento do foguete Black Brant 5C e a parceria teuto-brasileira não tinha nada de secreto. Tanto que as atividades na Barreira do Inferno eram amplamente divulgadas, até como forma de mostrar que o governo militar era atuante e tecnologicamente moderno. Deduziu-se que a presença do navio Cosmonauta Iuri Gagarin, violando as novas águas territoriais brasileiras e arriscando um possível problema diplomático, era um claro aviso aos alemães que os soviéticos estavam plenamente atentos as suas atividades aeroespaciais, ocorressem elas onde ocorressem.
Fonte – Arquivo Nacional.
Esta situação de bisbilhotagem eletrônica entre a extinta União Soviética e os países ocidentais eram ações mais do que corriqueiras durante a chamada Guerra Fria. Eles se xeretavam mutuamente na tentativa de descobrir os avanços tecnológicos dos inimigos e muitas vezes estas ações serviam para mostrar ao adversário que o outro lado estava atento e alerta.
Nós brasileiros é que não estávamos acostumados com este tipo de coisa.
A Visita das Baleias
Serguei Mikhailov, o então embaixador soviético no Brasil na época, negou qualquer declaração à imprensa por parte daquela representação diplomática e não sei se o Itamaraty chegou a emitir alguma nota de desagravo. Desconheço se o caso teve maiores desdobramentos diplomáticos.
Apesar de alguns atrasos devido à chuva, exatamente as 7h32m53s da manhã do dia 8 de março de 1972, o foguete Black Brant 5C foi lançado da Barreira do Inferno em direção ao sol.
O artefato alcançou 230 km de altitude e precisamente 10 minutos e 15 segundos após o lançamento, a sua carga útil de equipamentos eletrônicos de medição tocou o Oceano Atlântico a 15 milhas náuticas (28 km) da corveta da Marinha. Já os P-15 Neptune da FAB localizaram visualmente a cápsula no mar e apoiaram a chegada do navio da marinha brasileira.
Fonte – Arquivo Nacional.
Os militares da FAB não avistaram o navio Cosmonauta Iuri Gagarin novamente, mas informaram que foram visualizadas duas graciosas e grandes baleias próximas ao artefato aeroespacial. Consta que os cetáceos se mostraram completamente indiferentes com a presença humana no seu território, com as tolas diferenças ideológicas dos homens e com seus brinquedinhos tecnológicos.
Dias Atuais
Ao longo dos anos a Barreira do Inferno continuou a exercer com dignidade a sua missão, mas o crescimento de Natal ligou o sinal de alerta para os militares brasileiros. Um acidente com um foguete que por ventura caísse na área urbana da capital potiguar, carregado de combustível altamente inflamável, seria uma catástrofe. Nesse sentido os militares passaram a desenvolver uma base de lançamento na região do município maranhense de Alcântara, onde continuam as pesquisas espaciais do nosso país.
Fonte – Arquivo Nacional.
Já faz tempo que o povo de Natal não olha mais para o céu e observa interessantes rastros espiralados de fumaça branca, que muitas vezes marcavam grandes extensões do firmamento, as rádios locais já não transmitem o bordão “Capital Espacial do Brasil” e tudo isso ficou na memória dos natalenses. Hoje é tudo tão ligado a memória, que até um museu foi criado próximo a entrada da Barreira do Inferno.
As últimas notícias que tive em relação a essa base informam que muito do pessoal ali lotado foi transferido para a Base Aérea de Parnamirim e não se sabe o que exatamente a FAB fará com aquele local.
Mas uma coisa é certa, seja lá o destino que a Barreira do Inferno venha a ter, esse local jamais vai deixar de fazer parte da história potiguar e quem viu aqueles foguetes nos céus de Natal jamais esquecerá aqueles momentos.
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Extraído do blog Tok de Histórias do historiógrafo e pesquisador do cangaço Rostand Medeiros.