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domingo, 28 de julho de 2013

Piranhas, Patrimônio da Humanidade e terra do Cariri Cangaço !

 Prefeito Dante Bezerra de Meneses e Manoel Severo

Aconteceu em clima de festa na noite desta sexta-feira, dia 26,  a abertura da terceira Avante-Première do Cariri Cangaço 2013, durante a realização da Semana do Cangaço em Piranhas, Alagoas; uma promoção da Prefeitura Municipal de Piranhas e Cariri Cangaço. A solenidade de abertura da Semana do Cangaço em Piranhas aconteceu no Centro Cultural Miguel Arcanjo que recebeu a família Cariri Cangaço de todo o país.

 
Mesa de abertura da Semana do Cangaço: Cariri cangaço chega a Piranhas !


Tendo a frente o pesquisador Jairo Luiz, o secretário Luiz Carlos Salatiel  e Francisco Edson  a organização da Semana do Cangaço em Piranhas reuniu em sua noite de abertura um público espetacular que lotou o auditório do Centro Cultural Miguel Arcanjo. 

 Manoel Severo, entre Francisco Edson e Luiz Carlos Salatiel, secretário de cultura de Piranhas

Doutor Lamartine Lima, uma das presenças ilustres do Cariri cangaço em Piranhas

Pesquisadores de todo Brasil marcaram presença na noite de abertura do Cariri Cangaço em terras alagoanas. Um dos principais convidados, Dr. Lamartine Lima, que pertenceu à equipe do doutor Estácio de Lima, do Instituto Nina Rodrigues, foi um dos últimos que realizaram pesquisas científicas a partir das cabeças do casal mais famoso do cangaço: Lampião e Maria Bonita.

Neli Conceição, filha dos cangaceiros Moreno e Durvalina, e Elane Marques

Juliana Ischiara, Manoel Severo e Ingrid Rebouças

 Lamartine Lima e Lyli

Representantes da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, do GECC - Grupo de Estudos do Ceará, do GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço, dentre outras representações estiveram presentes à noite de abertura do Cariri Cangaço em Piranhas abrilhantando o inicio de mais um qualificado fórum de debates sobre a temática.

 Wescley Rodrigues

 Jadilson Ferraz e Afranio

Para o Prefeito de Piranhas, Dante Bezerra de Meneses, "É uma honra e uma grande alegria Piranhas, que tem tanta história ligada ao cangaço, está promovendo esta Semana do cangaço e recebendo o Cariri Cangaço, movimento que aprendi a admirar e ainda mais porque vejo sempre o blog do Cariri cangaço para aprender com os mestres". Já o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo "Chegar a Piranhas era uma sonho antigo que alimentamos por muito tempo ao lado de Jairo, de Alcino, de João de Sousa, e hoje é dia histórico para a consolidação dessa integração daqueles que pesquisam cangaço no nordeste, sem dúvidas, Alcino, o velho caipira de Poço Redondo está entre nós".

Manoel Severo

Cariri Cangaço em Piranhas
Semana do cangaço

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Homenagens da Noite de Abertura

Por: Manoel Severo

O grande homenageado na noite de abertura do Cariri Cangaço em Piranhas, dentro da Semana do Cangaço, foi o pesquisador, escritor, poeta e Conselheiro Cariri Cangaço, in memoriam, 

Alcino Alves Costa, 
o "Caipira de Poço Redondo".

 
 Archimedes e Elane Marques, poesia e repente em homenagem a Alcino

 

Durante a Programação da noite foi apresentado vídeo clip com a homenagem do pesquisador Jairo Luiz e os organizadores da Semana do Cangaço ao Decano Mestre Alcino. Na platéia: Irmãos, sobrinhos, filhos e netos do homenageado. Ao final o repente regional e a poesia de autoria do casal Archimedes e Elane Marques marcaram a reverência a memória de um dos maiores pesquisadores e escritores do cangaço de todos os tempos: Alcino Alves Costa.

Manoel Severo

Cariri Cangaço em Piranhas
Semana do Cangaço

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ONDE SOU IMPORTANTE (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

É em Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo, ou simplesmente Poço Redondo, onde sou verdadeiramente importante. Não porque eu seja diferente de qualquer pessoa, seja mais respeitado que qualquer cidadão. Pelo contrário. Minha importância está na igualdade com todo mundo.

Porque sou igual a todo e qualquer conterrâneo é que me sinto no direito de ser reconhecido e respeitado, ser visto e valorizado. Porque também respeito e valorizo. Daí o reconhecimento de minha importância diante daqueles que não se diferenciam uns dos outros. Queiram ou não, são todos iguais. Desejemos ou não, somos em tudo semelhantes.

Porque somos o espelho do espelho do espelho. Reflexo que vem de outros tempos e que nos faz com a mesma feição. Apenas a moldura parece ter outra aparência para um retrato que é sempre o mesmo. E colocado na parede única desse imenso sertão.


Sou filho do mesmo sol e da mesma lua; prole da mesma distância e da mesma imensidão; gênese do mesmo destino dado por Deus aos outros que vieram antes ou depois de mim. Por isso sou eu, sou todos e cada um. E não há condição social que possa fazer distinção entre aqueles que vieram do mesmo cordão umbilical da terra sertaneja.

E a igualdade em tudo. Filhos da mesma terra, nascidos no mesmo berço árido do sertão, aprendendo a caminhar pelo mesmo chão. Pele curtida do mesmo sol, sangue fervente da mesma seca, esperança própria de qualquer sertanejo. E mais: Irmãos de mesmo destino, pois tudo que há na - e com - a terra é ressentido igualmente pelos seus filhos.

Tenho uma gravata e também um chapéu de couro; tenho um sapato e uma chinela de cortar chão; tenho uma agenda, mas também tenho um embornal de caçador e um cantil de matar a sede. E o que não tenho, possuo no meu conterrâneo, pois nele o que lhe é próprio e também de todos. Assim, o que sou é pelo que somos, e o tudo que somos está em cada um e todos nós.

Por isso sou tão importante. E sou ainda mais importante porque possuo reinado e coroa. Não troco minha cabeça-de-frade pelo cetro mais reluzente; não troco meu rincão de nascimento pelo castelo encantado; não troco minha condição sertaneja por qualquer paraíso artificial. Porque sou importante e feliz demais para me deixar viver além do que sou e daquilo que tenho.

Alguém duvida dessa importância? Haverá importância, reconhecimento e valorização maiores que sentir que a sua terra lhe abraça, a sua natureza abriga, o seu povo acolhe com palavra e afeto? Haverá maior satisfação que estar entre a família e o irmão? Tudo isso transmite uma importância tamanha que nos sentimos escolhidos a reinar sobre a terra.

Triste daquele que se amesquinha diante da grandiosidade; pobre daquele que lamenta o tanto ter como se pouco ou nada tivesse; frágil espírito imaginar que está ou vive esquecido quando seu coração clama por gritar de prazer pelo reconhecimento da vida. E tal tristeza, pobreza ou fragilidade não há naquele que se reconhece importante pelo que é, e sem ter de inventar o que não é para ser feliz.


Meu sobrenome está em tantos sobrenomes espalhados por todo lugar. Desde o Poço de Cima ao Poço de Baixo, pelos seus quadrantes e fronteiras. Alves que também é Marques, Cirilo, Florêncio, Sousa, Firmino, Santos, Rosa, Gomes. Costa que também é Santana, Vieira, Góis, Brito, Félix, Vítor, Saturnino. E todos os nomes e sobrenomes sertanejos.

Cito um trecho de um belíssimo poema de Fernando Pessoa (sob heterônimo de Alberto Caeiro) que expressa essa medida que temos perante o que somos. Diz:

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.../ Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/ Porque eu sou do tamanho do que vejo/ E não do tamanho da minha altura...”.
E como somos imensos!

Poeta e cronista
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Neci, Antonio, Maria, Luzia, Anzelita, Laete, Sobrinho, Carminha, Vera Lúcia, sobrinhos, parentes e amigos faleceu o nosso sobrinho Lulu

Por José Mendes Pereira
Foto: MEUS IRMÃOS, FALECEU O NOSSO SOBRINHO LULU!

Meus irmãos Neci, Antonio, Maria, Luzia, Anzelita, Laete, Sobrinho, Carminha, Vera Lúcia e todos os nossos sobrinhos e parentes:

Esperávamos uma recuperação completa do nosso sobrinho Lulú, mas, infelizmente, esta é a vida. Nada podemos fazer nada podemos dizer coisas contrárias com a natureza, isto só quem sabe explicar é as Três pessoas da Santíssima Trindade.

O Lulu nasceu, cresceu, ali, naquela estimada terra, "Barrinha “ e anos depois, veio morar em Mossoró. Aqui atingiu a maioridade, e vendo que tinha condições de construir uma família, assim fez. Casou-se pela primeira vez, e por motivos, o casal resolveu se separar, e deste casamento, nasceu a Alice, uma mocinha ainda nova, talvez, 14 anos. Sozinho, caminhou em busca de outro relacionamento, e deste último, deixou duas filhas lindas.

Amigo e inseparável dos seus irmãos, que hoje, no momento em que ele descer para sua casa eterna, lá no cemitério, tenho certeza, que a despedida dos seus irmãos com o seu corpo, será muito choro, muita emoção, que quem assistir, irá chorar também, porque é muito difícil uma irmandade tão unida quanto a dele.

Enquanto viveu, lutou muito para cuidar dos seus filhos e esposa, e durante o período em que esteve enfermo, mantinha fé que iria se livrar da doença. Mas chegou o dia em que tudo se acabou. 

Hoje, nesta madrugada fria, o nosso sobrinho Lulu, se despediu da terra, do céu estrelado, das brancas nuvens que passeiam pela imensidão do universo, do sol que esquentava o seu corpo para seguir o caminho da vida, dos corações humanos que mantinham amizades sinceras. Dos amigos, dos sobrinhos, dos tios, dos primos, e principalmente, dos seus irmãos, que sentirão a sua falta. 

Realmente, todos ficarão tristes, muito tristes, mas não haverá ninguém mais triste do que os seus pais, Toinha e Nilton, meu irmão, porque eles esperavam que você fosse os acompanhar até ao cemitério. E infelizmente deu tudo errado. Eles, hoje, irão te acompanhar até lá, ver a saída do teu corpo em busca da sua última morada aqui na terra. Lá, serás depositado em uma urna que ninguém a quer. Mas, realmente ninguém a quer para si, mas não tem jeito, a mesma urna que você será depositado, é a mesma que todos nós iremos um dia. Um dia que ninguém sabe quando.

Adeus Lulu! Adeus!

Morrer jamais será o fim.
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Esperávamos uma recuperação completa do nosso sobrinho Lulú, mas, infelizmente esta é a vida. Nada podemos fazer, nada podemos dizer coisas contrárias com a natureza, isto só quem sabe explicar é: as Três pessoas da Santíssima Trindade.

O Lulu nasceu, cresceu, ali, naquela estimada terra, "Barrinha“ e anos depois, veio morar em Mossoró. Aqui atingiu a maioridade, e vendo que tinha condições de construir uma família, assim fez. Casou-se pela primeira vez, e por motivos simples, o casal resolveu caminhar para a separação, e deste casamento, nasceu a 


Foto
Ianca, sobrinha e Alice Ingrid - filha

Alice Ingrid, uma mocinha ainda nova, talvez, 14 anos. Sozinho, caminhou em busca de outro relacionamento, e deste último, deixou um filho e duas filhas lindas.

Jucélia, Lulu, Júlia, Kelly e Pedro.

Amigo e inseparável dos seus irmãos, que hoje, no momento em que ele descer para sua casa eterna, lá no cemitério, tenho certeza, que a despedida dos seus irmãos com o seu corpo, será muito choro, muita emoção, que quem assistir, irá chorar também, porque é muito difícil uma irmandade tão unida quanto a dele.

Enquanto viveu, lutou muito para cuidar dos seus filhos e esposa. E durante o período em que esteve enfermo, mantinha fé que iria se livrar da doença. Mas chegou o dia em que tudo se acabou.

Hoje, nesta madrugada fria, o nosso sobrinho Lulu se despediu da terra, do céu estrelado, das brancas nuvens que passeiam pela imensidão do universo, do sol que esquentava o seu corpo para seguir o caminho da vida, dos corações humanos que mantinham amizades sinceras. Dos amigos, dos sobrinhos, dos tios, dos primos, e principalmente, dos seus irmãos, que sentirão a sua falta.

Realmente, todos ficarão tristes, muito tristes, mas não haverá ninguém mais triste do que os seus pais, Toinha e Nilton, meu irmão, porque eles esperavam que você fosse os acompanhar até ao cemitério. E infelizmente deu tudo errado. Eles, hoje, irão te acompanhar até lá, ver a saída do teu corpo em busca da sua última morada aqui na terra. Lá, serás depositado em uma urna que ninguém a quer. Mas, realmente ninguém a quer para si, mas não tem jeito, a mesma urna que você será depositado, é a mesma que todos nós iremos um dia. Um dia que ninguém sabe quando.

Adeus Lulu! Adeus! Um dia nos encontraremos na casa do Senhor Deus. Você se foi, mas todos nós, jamais esqueceremos de ti.

A bíblia diz que nós não morreremos, apenas a matéria. Se é realmente assim, 
Morrer jamais será o fim. 

Lulu será sepultado hoje, às cinco horas da tarde, no cemitério novo de Mossoró

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Roteiros Integrados e os Caminhos do Velho Chico

Por: Manoel Severo
 O Velho Chico foi tema das Conferências

A primeira noite do Cariri Cangaço em Piranhas, dentro da Semana do Cagaço teve como Conferencistas, o pesquisador, escritor, poeta, Sócio da SBEC e Conselheiro Cariri Cangaço, João de Sousa Lima com o Tema: Roteiros Integrados do Cangaço e o pesquisador, escritor  turismólogo e também Conselheiro Cariri Cangaço, Jairo Luiz com o Tema: Caminhos do São Francisco:De Pedro II a Lampião.

Para uma platéia atenta, formada por autoridades, pesquisadores, curiosos, profissionais da área do turismo, entre outros, o pesquisador João de Sousa Lima nos trouxe as experiências e os potenciais do Turismo Cultural de Paulo Afonso a partir da restauração da Casa de Maria Bonita e traçou paralelos com relação a integração dos turismo cultural, ecológico e de aventura na região do Baixo São Francisco. 

 
João de Sousa Lima e a Casa de Maria Bonita


A segunda Conferência da noite trouxe o pesquisador Jairo Luiz fazendo uma verdadeira viagem no tempo e apresentando os "Caminhos do São Francisco", desde a chegada dos colonizadores até os dias de hoje  com ênfase em sua navegação notadamente marcada pelas canoas de tolda, passando pela marcante expedição de imperador |edro II e chegando as incursões do cangaço de Lampião.

 
Turismólogo Jairo Luiz e a Canoas de Tolda do Velho Chico

 

Manoel Severo
Cariri Cangaço em Piranhas
Semana do Cangaço

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Criação da Diocese de Mossoró - 29 de Julho de 2013

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Geraldo Maia e Kydelmir Dantas

Em 28 de julho de 1934, num dia de sábado, através da bula PRO ECCLESIARUM OMMIUN, o Papa Pio XI criava a Diocese de Mossoró, desmembrando-a da Diocese de Natal e ficando sufragânea da Arquidiocese da Paraíba. O seu Administrador Apostólico foi o Bispo de Natal Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas. A nova Diocese compreendia as freguesias do Assu, Pau dos Ferros, Portalegre, Apodi, Augusto Severo, Martins, Santa Luzia de Mossoró, Patu, Caraúbas, São Miguel, Areia Branca, Luís Gomes, Coração de Jesus (na sede) e Alexandria.


Foto
Matriz de Santa Luzia

A Matriz de Santa Luzia ascendia ao predicamento de Sé Catedral, instalada liturgicamente a 18 de novembro de 1934. O mais que centenário jornal “O Mossoroense”, em sua edição de 16 de novembro de 1934, trazia uma matéria onde se lia:
              
“... De muito, o nosso povo orientado pela ação indefesa do nosso operoso Diocesano, o Exmo. Sr. D. Marcolino Dantas, acalenta a esperança de ver transformado em realidade o antigo sonho que ora se positiva: - Mossoró sede de um Bispado.


Os que acompanham o desenvolvimento econômico de Mossoró, quer pela sua situação geográfica e surto de progresso, vem sendo o empório de uma larga faixa do Nordeste, compreenderão facilmente o nosso entusiasmo ao saudarmos, bem próximo, o raiar dessa alvorada que há de espargir, sobre tudo e sobre todos, os clarões benfazejos de uma vida nova de fé e de progresso.
               
O nosso povo sempre se fez notar pelo amor e dedicação indefectíveis aos seus princípios religiosos, às suas tradições de fé. Por isto, é justo que nas nossas colunas que tanta vez abrigou artigos e notícias de propaganda por esse ideal salvador, enviemos, com a nova alvissareira, nossos mais sinceros saudares a todos os que são capazes de sentir o alcance deste acontecimento tão promissor para o nosso futuro de povo amante da felicidade e progresso de nossa terra.
               
Esses cumprimentos se dirigem de modo especial, àqueles que para o advento de tão feliz acontecimento já empenharam esforços morais e materiais juntando aqui um voto de louvor ao Exmo. Sr. Bispo Diocesano em primeiro lugar e depois aos dignos sacerdotes que presidem aos nossos destinos espirituais.”
               
Dessa forma o jornal dava conhecimento ao povo de Mossoró da inauguração da Diocese de Santa Luzia. O ato de inauguração está registrado no 4º Livro de Tombo da Matriz, pg. 64v e 65.
               
“Tendo recebido procuração de S. Excia. Revma. para em seu nome oficiar na cerimônia conforme as prescrições canônicas, o fiz com toda a solenidade na Catedral de Santa Luzia em sessão pública, com o comparecimento de todas as associações católicas, clero, autoridades e grande público. Nesta ocasião, tomei da palavra para explicar o grande acontecimento e declarar oficialmente inaugurada a Diocese de Mossoró.
               
O Cônego Amâncio Ramalho, como secretário do ato, procedeu a leitura em vernáculo da Bula de criação da Diocese, do S. Padre Pio XI, datada de Roma, no dia 28 de julho do corrente ano como também da Provisão da Nunciatura Apostólica do Rio de Janeiro, nomeando o Sr. Bispo de Natal, D. Marcolino Dantas, Administrador Apostólico da nova Diocese até a nomeação do seu primeiro Bispo. De tudo fez-se ata especial em Livro próprio para os atos da Diocese e foi assinada por todos os presentes. Em seguida à solene sessão, oficiou-se um “Te Deum” de ação de graças. A Catedral estava repleta de todo povo católico de Mossoró, representado por todos os seus elementos sociais. Era notada a satisfação geral dos assistentes ao verem a glorificação da nossa querida Padroeira Santa Luzia com a elevação da sua Igreja à dignidade de Sé-Catedral e nossa cidade distinguida com tão grande honra pela Igreja de N. S. Jesus Cristo. Renovaram-se os cumprimentos ao Sr. Bispo de Natal, nosso Administrador Apostólico, ao Vigário da Catedral de Santa Luzia, ao Clero.”
               
No dia 20 de dezembro de 1935 chegou a Mossoró a notícia da nomeação do seu primeiro Bispo, que recaia na pessoa do Monsenhor Jaime de Barros Câmara, que foi sagrado em Florianópolis/SC no dia 2 de fevereiro de 1936 e empossado como Bispo de Mossoró em 26 de abril do mesmo ano.
               
Parabenizamos a Diocese de Mossoró pelos seus 79 anos de trabalho e evangelização sob a invocação da nossa padroeira Santa Luzia, a Santa das doces claridades visuais.


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Fonte: http://www.blogdogemaia.com

Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento

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sábado, 27 de julho de 2013

Notas sobre a arborização da avenida professor Antônio Campos e Silva

Por José Romero Araújo Cardoso

Geógrafo de formação acadêmica, naturalista por convicção, professor Antônio Campos e Silva escreveu a quatro mãos com o renomado pesquisador potiguar Jerônimo Vingt-un Rosado Maia clássicos da literatura científica, a exemplo do enfoque memorável ao francês Louis Jacques Brunet.

Ser humano magistral, de origem humilde, nascido no adusto Seridó norte-riograndense, em Currais Novos, Antônio Campos notabilizou-se pelo amor às letras, pelo contato direto com as ciências naturais, com a geografia, com a paleontologia e uma infinidade de interesses que o imortalizaram como um grande estudioso, sobretudo das condições apresentadas pelo semiárido nordestino.

O trágico acidente que lhe ceifou a vida, ocorrido na década de setenta do século passado, entre Felipe Guerra e Apodi, apagou um talento indescritível. Vingt-un Rosado lamentou até seu encantamento a perda do grande amigo, do notável cientista de inteligência privilegiada que foi desprezado nas plagas da capital potiguar, mas que teve seus méritos reconhecidos na terra da liberdade, sagrada terra de Santa Luzia do Mossoró.
          
Foi de Vingt-un Rosado a solicitação para que a Antônio Campos se tornasse patrono da avenida universitária, a qual divide no sentido norte-sul a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA).
          
Com certeza absoluta, Vingt-un Rosado e Antônio Campos e Silva aprovariam a decisão louvável da Prefeitura Municipal de Mossoró de implementar a arborização da avenida universitária. Os dois saudosos cientistas foram intransigentes defensores da preservação da flora e da fauna do semiárido. Foram dois ecologistas que contribuíram de forma significativa para o estudo do meio ambiente do sertão nordestino, incluindo neste as árvores e os animais.
         
Plantas nativas das caatingas sertanejas estão sendo fincadas no capeamento sedimentar que recobre o calcário jandaíra, ambos presentes na avenida professor Antônio Campos, cumprindo-se dessa forma diretrizes contidas no Plano Diretor do Município de Mossoró.
          
Mossoró se destaca pelas condições climáticas peculiares ao semiárido, com intensas insolação e evaporação, razão pela qual reflorestar áreas urbanas com espécies nativas das caatingas significa enfatizar bases ecológicas que permitirão melhor convivência do homem sertanejo com as características adversas apresentadas pela região na qual o município está inserido.
          
Formar pontos de satisfação que no futuro se responsabilizarão pela estruturação de melhores condições a quem se destina à Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e aos núcleos habitacionais situados a leste é decisão que merece todos os aplausos.
          
Mas não basta apenas contemplar as mudas plantadas na avenida professor Antônio Campos e Silva. Cabe a cada um de nós zelar pela integridade dos exemplares nativos da nossa flora tão ameaçada de extinção. Vigilância e amor aos nossos irmãos vegetais são condições sine qua non para o sucesso desse belo exemplo de amor à natureza
          
O meio ambiente agradece, pois, assim, haverá melhoria significativa das condições de vida de um povo sofrido pela inclemência das condições ambientais extremamente severas que vem sendo deterioradas pela antropização cada vez mais crescente, a qual gera impactos formidáveis que precisam ser revertidos enquanto ainda há tempo.

José Romero Araújo Cardoso. Professor-adjunto IV do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

Enviado pelo professor e pesquisador cangaço: José Romero Araújo Cardoso

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CIAO MERLETTÀ: A VOLTA ITALIANADA DA MUIÉ RENDERA – A INTERESSANTE E INUSITADA HISTÓRIA DE UM FILME ITALIANO SOBRE O CANGAÇO

Publicado em 27/07/2013 por Rostand Medeiros
ocangaceirox

Antônio Carlos Amâncio*
Fonte
Estud. hist. (Rio J.) vol.24 no.47 Rio de Janeiro Jan./June 2011 - http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-21862011000100005&script=sci_arttext

RESUMO

O cangaceiro é personagem marcante no cinema brasileiro, ligado a uma dada mitologia do sertão e a uma perspectiva regional. Associado ao filme de cangaço, reapropriação do western, mereceu poucas representações em cinematografias estrangeiras e por isto causa surpresa a produção, na Itália de 1970, do filme O cangaceiro,de Giovanni Fago, que pretendemos analisar à luz de algumas interfaces com elementos da cultura brasileira.  Consideramos a dupla apropriação do gênero (western, filme de cangaço, western spaguetti), e as atualizações temáticas, pensando as transgressões aos modelos canônicos, a partir de uma singular absorção de conteúdos historicamente definidos.

Como traduzir para o italiano a expressão “Olê, muié rendera”, tema musical do filme O Cangaceiro e canção popular do folclore nordestino? Foi esta estupefação de minha amiga napolitana naturalizada que me deu as coordenadas iniciais deste texto. Para chegar a Ciao merlettá ela me descreveu todo o percurso dessa transcodificação linguística: “Olê” seria “ciao”, ”salve”,  e “rendeira” é “merlettaia”: Ciao merlettaia, ciao merlettà…? O “ciao”, que em italiano significa “salve” (“oi”) e “arrivederci” (“até logo”), era muito usado em músicas populares ligadas ao trabalho ou à guerra: “Bella ciao”, “Ciao amore ciao“. O “merlettà” seria um neologismo, aceitável porque é possível cortar a sílaba final de uma palavra desse jeito, sobretudo num italiano mais popular.

Essa explicação me serve como uma luva, porque na verdade estou lidando com transferência de códigos, intertextualidades, adaptação, remake. E me serve porque aqui temos um procedimento usual neste gênero de operação de linguagem: aproximamos sentidos, imaginamos associações, sintetizamos ou ampliamos conceitos, montamos correspondências. Tudo em nome de estabelecer uma relação de contato, diacrônica ou sincrônica, com um fato original de cultura no momento de transpô-lo a outro sistema de referências. Pois esta introdução certamente localiza nosso assunto, uma reflexão assistemática sobre o filme O Cangaceiro. Não o original escrito e dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz, realizado em 1953 e produzido pela Vera Cruz. Não este, premiado em Cannes como melhor filme de aventura e também como melhor trilha sonora – o clássico “Muié Rendera” – interpretado por Vanja Orico e com coro dos Demônios da Garoa, um filme que teve ampla circulação internacional.

Cartaz de um dos filmes de western dirigidos pelo italiano Giovanni Fago
Cartaz de um dos filmes de western dirigidos pelo italiano Giovanni Fago

Estaremos falando de outro O Cangaceiro, seu sucedâneo italiano, filmado em 1970 por Giovanni Fago, chamado de Viva Cangaceiro nos Estados Unidos, com locações na Bahia e temática associada ao gênero cinematográfico inventado no Brasil, o nordestern. É ele que nos leva a pensar na questão do remake, no universo expressivo do filme de cangaço e suas apropriações e finalmente no que este filme em particular evoca.

O remake, ou refilmagem, faz parte do universo das interfaces com obras pré-existentes, onde cabem também a adaptação, a referência e a alusão. Em sua proporção  industrial, o remake é associado à serie, à continuação ou ao ciclo, a domínios expressivos no interior de uma obra ou na serialização de produtos, temas ou estilos. Um campo determinado por um sistema de repetições, já institucionalizado, que integra procedimentos ligados ao universo legal, de direitos e plágios, ou referencial, de citações e iterações. Constantine Verevis se debruça sobre o assunto, e é de seu livro Film remakes que vêm as principais considerações aqui apresentadas.

Citando outros estudiosos, ele identifica três marcas para o remake: a de uma categoria industrial, que lida com assuntos de produção, que envolve estruturas de comércio e negociação de direitos; a de uma categoria textual, que lida com taxonomias e textos, enredos e estruturas; e finalmente a de uma categoria crítica, que lida com recepção, incluindo públicos, com seus processos de reconhecimento e com a consolidação de um discurso institucional. Mas é o uso da variação e da diferença (em relação aos originais) que vai levar a outras categorizações, estabelecidas por Michael Druxman e desenvolvidas por Harvey Roy Greenber: a) a refilmagem estrita, identificável; b) a refilmagem identificável, mas transformada; e c) a refilmagem não identificável, disfarçada (apud Verevis, 2006: 7). As leituras avançam por esse caminho tortuoso, com variações sobre a similaridade entre obras, a tensão entre inovação e imitação, empréstimos, autoria, questões de autenticidade e de referencialidade, homenagem, imitação ou roubo.

Mas não cabe aqui apenas articular conceitos. O que finalmente encontramos é a perspectiva, também rarefeita, de uma estética da diluição, na qual elementos de variadas formas culturais se dissolvem em outros, de maneira indefinida e inconstante, integrando- se ao universo da nova obra gestada. É de uma espécie de solução química que estamos falando aqui, dispersões que montam um sistema homogêneo, inseparáveis do dispersante. O resultado desta operação, entretanto, nem sempre é líquido e transparente. Como em qualquer obra de cinema, aliás.

A ira de Deus

O que motivou Giovanni Fago naquele longínquo 1970 a se debruçar sobre os cangaceiros foi a ideia de que eles eram “bandidos políticos”, ou seja, não apenas ladrões, mas rebeldes com posição firmada contra os latifundiários. Segundo o autor, o filme define-se, assim, pela escolha ideológica de seu objeto: uma posição política forte contra a colonização e o imperialismo. Obviamente ele já conhecia O Cangaceiro, de 1953, grande sucesso comercial na época, assim como alguns filmes do Cinema Novo. Fago argumenta que sua intenção não era fazer uma “releitura comercial” desse fenômeno, até porque respeitava certas características da cinematografia brasileira, a qual, primitiva na aparência, era, na verdade, dotada de grande refinamento e inteligência, animada por forte tensão política e impulso à rebelião. Um cinema que correspondia a suas convicções políticas e sociais, frente aos conflitos da América Latina. 1 Porém, o que define objetivamente o projeto de produção é a aquisição dos direitos da canção do velho filme O Cangaceiro.

Essa perspectiva comercial vai ser um dos únicos elementos de ligação entre a produção italiana e uma larga tradição brasileira de filmes de cangaço. Há toda uma linha de parentesco sustentando esta arquitetura, que começa nos filmes de cowboys, no bangue-bangue, nos filmes de faroeste.

Se o western – considerado o cinema americano por excelência num texto de André Bazin, publicado em 1953 (Bazin, 1991: 204) – sofreu contaminações passageiras, o que, segundo ele, não deve ser lastimado, também resistiu, mantendo os símbolos e signos que o fizeram mitológico. O cenário, a paisagem, a cavalgada e a briga, as referências históricas, “o grande maniqueísmo épico que opõe as forças do Mal aos cavaleiros da justa causa”, a Mulher em sua relação com a Virtude, até mesmo os cavalos, são todas marcas pelas quais se expressa uma ética da epopeia e mesmo da tragédia. Marcas que geram um estilo de mise-en-scène e transparecem numa composição da imagem, os grandes planos de conjunto, a quase abolição do primeiro plano, o travelling e a panorâmica que “negam o quadro da tela e restituem a plenitude do espaço” (Bazin, 1991: 206). Um gênero dotado de situações excessivas, de exagero dos fatos e de uma inverossimilhança ingênua, fundado, entretanto, numa moral que o justifica.

Cartaz do filme brasileiro O Cangaceiro, de Lima Barreto
Cartaz do filme brasileiro O Cangaceiro, de Lima Barreto

Diluindo-se pelo mundo, o western passa pelo Brasil, onde assume a forma do filme de cangaço, tematizando elementos da história local e acrescentando uma tintura cultural própria. O Cangaceiro, de Lima Barreto, é a matriz que vai moldar um longo ciclo que se condensa entre os anos 1950 e 1970, com tonalidades diversas, que vão do filme de aventuras à comédia erótica e que promove um retorno pós-modernizado na virada do milênio. 2

Walnice Nogueira Galvão (2005) associa o fenômeno da sertanização, no qual o representante mais marcante é o cangaceiro, ao regionalismo literário dos anos 1930, às artes plásticas do expressionismo social e engajado dos anos 1940 e ao faroeste americano, como de praxe, bem como a uma certa composição gráfica do cinema mexicano, com suas paisagens desérticas, seus cactos na caatinga, o gado à solta tocado por cavaleiros de sombreros. Rica iconografia calcada no inacabado Que Viva México, de Eisenstein, e suas contrafações.3 Um circuito de referências que passa obrigatoriamente por Elia Kazan e seu Viva Zapata de 1952, e chega ao western de Lima Barreto, rodado em Vargem Grande do Sul, no interior de São Paulo, com seu contrastante preto e branco, sua luz ofuscante, seu emblemático contraluz dos cangaceiros no pôr do sol, quando o cangaço vira pura mitologia, depois de desaparecido do mundo social desde a década de 1940, com a morte de Corisco.

O Cinema Novo vai retomar o imaginário sertanejo do western, relido numa tecla nacional e popular, e vai ainda segundo Walnice Galvão, ressemantizá-lo num arco cinematográfico em vários segmentos. O primeiro segmento era aquele temporalmente próximo ao golpe militar e aí estará o também emblemático Deus e o diabo na terra do Sol, junto com Vidas secas, Os fuzis e A hora e a vez de Augusto Matraga, certamente o conjunto mais visitado e seguramente, o mais próximo do olhar de Giovanni Fago. O dragão da maldade contra o santo guerreiro, anos depois, completa o grupo (Galvão, 2005: 87).

Cartaz da película Deus e o diabo na terra do sol, de Gláuber Rocha, de 1964
Cartaz da película Deus e o diabo na terra do sol, de Gláuber Rocha, de 1964

Glauber já preconizara, em 1957, a autonomia do cinema perante as outras manifestações artísticas, assim como Bazin, em 1953, caracterizara o western como “filho autêntico e puro do cinema”, no qual o herói se dilui no gênero, que progride em concentração expressiva (Rocha, 1997). Esta é certamente uma boa referência para pensarmos a relação western-cangaço-spaghetti e vermos como O Cangaceiro de Fago se comporta frente a tantas hibridações.

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Na Itália, o western-spaguetti chegou num momento de crise da indústria cinematográfica e dos grandes estúdios. No entanto, para que lembremos que a releitura do western expandiu-se por toda parte e não foi só uma invenção italiana, o primeiro faroeste europeu é, na verdade, alemão. Refiro-me a O Tesouro dos renegados, de 1961, as aventuras de um índio chamado Winnetou, filmado na antiga Iugoslávia por Harald Reinl (Carreiro, 2009).  De todo modo, na Itália foram rodados mais de 600 filmes nas décadas de 1960 e 1970, insuflando um pouco de oxigênio ao gênero, já desgastado, através do fomento à aparição de uma galeria de novos cineastas-autores, da composição de um elenco estelar multinacional, sem o peso da história de sua matriz americana. Boa parte dos cineastas possuía inclinações à esquerda, valendo-se das mitologias do gênero e das revoluções (principalmente da mexicana, aproveitada à exaustão), uma levada pop, uma música onipresente, expansão do campo temático das histórias, maxi-valorização da paisagem e dos recursos técnicos contemporâneos, do zoom intenso à moldura dos rostos em primeiro plano, valorizando a profundidade de campo, e mais as explosões apresentadas em uma montagem lacônica, dando sempre a impressão de faltar alguns fotogramas.

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Giovanni Fago mantém desse universo, a moldura e a embalagem, mas vai buscar outros conteúdos. Ele se cerca de muitos cuidados. Seu roteirista é Bernardino Zapponi, que trabalhou com Fellini em Satyricon, Os palhaços, Roma, Casanova e muitos outros. A música cabe a Riz Ortolani, compositor experiente, com participação em mais de duzentas trilhas. Conta ainda com a colaboração do fotógrafo Alejandro Ulloa, que trabalhara com Sergio Corbucci, Umberto Lenzi, Enzo Castellari e muitos outros. Uma equipe afiada! O ator principal, Tomas Milian, vinha de uma carreira marcante no western-spaghetti, e no mesmo ano participa de Compañeros, um filme de Sergio Corbucci, na companhia de Franco Nero. Esse filme que, por várias razões, guarda muitos pontos de contatos com O Cangaceiro, entre os quais o de que ambos foram co-produções ítalo-espanholas.

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Ao som de “Muié rendera”, a trama tem início com um ataque da polícia a um bando de cangaceiros, sitiados num vilarejo. O coronel Minas coordena o extermínio do bando de Firmino… e para seu azar, nesta confusão a vaca do camponês Expedito é fuzilada. Expedito é recolhido pelo beato Julião das Miragens, que lhe ensina o valor da justiça, de um Cristo que usa o chicote e pune os maus, distribuindo o que comer e o que beber entre os pobres, e lhe anuncia que ele, Expedito, é o enviado do Senhor, sob o nome de Redentor!

Um acaso, um personagem que é levado a uma situação inusitada, um protetor que o acolhe e instrui, tudo isso compõe uma situação modelar. Mas a caracterização física dos personagens é quase caricata, os diálogos são trespassados por uma ingenuidade cômica que, se não compromete a verossimilhança da narrativa, aponta para um registro de tonalidades mais associadas à comédia de costumes italiana e ecos de Brancaleone.

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Expedito prega nos vilarejos, convocando apóstolos em meio ao desinteresse da população. Mas quem aparece em sua frente é o bando do Diabo Negro, a quem Expedito se apresenta como o novo rei do cangaço, sagrado pelo arcanjo Gabriel para combater pela verdade e a justiça, a cruz e o facão na mão. Convidado a integrar o grupo, outra das situações-modelares do gênero, Expedito recusa e promete ter sua própria gente. A frase do cangaceiro soa quase como ameaça quando estabelece, metaforicamente, a hierarquia das relações sociais: “um facão é mais longo que a mão, mas um fuzil é mais longo que um facão”. E Expedito responde a ela se livrando da cruz.

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Em Angicos, na festa cívica de inauguração da bateria de canhões da cidade, com a presença do cardeal, vemos então o dissimulado Expedito na situação de paralítico, sentado sobre um carrinho de rolimã, mas seu jeito debochado vai levá-lo à prisão, determinada pelo coronel Minas. Na cadeia, ele constituirá seu bando, depois de demonstrar sua astúcia e explodir os canhões. Expedito/Redentor, com as armas que consegue, mata os que o desobedecem, parte para o sertão e ganha notoriedade, passando a ser procurado.

É então que se apresenta sua contrapartida dramática. Num vilarejo, chega um automóvel de classe, dirigido por um holandês louro e elegante, de botas de cano alto e foulard. Munido de livros, mapas e de instrumentos, o homem dirige-se à praia. A população olha com curiosidade o automóvel diferente. Voltando, o homem encontra seu carro totalmente depenado. Só sobrou a estrutura de ferro. Enquanto ele se indaga o que teria acontecido, cresce sobre seus livros a sombra do Redentor! No contra plano, em contraplongée, Redentor aparece santificado, envolto por um halo solar. O cangaceiro intima o viajante a ler para ele um longo romance sobre o mar. E daí, deste contraste entre a força, a violência e a submissão física e a educação, a leitura e os modos cultivados do europeu vai se estabelecer o elo central da relação entre os dois homens. Esta é a trama principal, denunciada por alguns críticos como sustentada por um homo erotismo casto, demarcando um campo pouco explorado até então pelo gênero e suas derivações, normalmente pré-determinados pelo machismo e pela virilidade.

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O holandês Vincenzo Helfen aproveita-se da atração que exerce sobre o camponês analfabeto e desenvolve essa amizade de acordo com sua estratégia. Torna-se a interface do cangaço com o poder local, e mesmo internacional, do qual será o representante, como veremos, e que implica finalmente a exploração de jazidas de petróleo e a maximização de seus ganhos agregados, tais como a ocupação de mão de obra local e a mais intensa circulação financeira. O holandês é relacionado ao progresso, e o cangaceiro vai ser seu associado contra o atraso do sertão.

Essa oposição qualifica a temática da transição do rural ao urbano, do pré-capitalismo ao capitalismo de ponta, permitindo, assim, que o filme seja inscrito na representação da modernização e da evolução industrial do Nordeste brasileiro. O avanço do segmento agroexportador para o de prospector de petróleo se dará na realidade com a instalação da primeira refinaria do Brasil, a Landulfo Alves em Mataripe, no Recôncavo baiano, em 1956, operações que antecedem o futuro pólo petroquímico de Camaçari. 4 O filme expressa, portanto, uma situação alegórica e quase premonitória, já que estamos presumivelmente nos anos 1930. A pertinência da objetivação do petróleo como mote propulsor da trama, guarda, certamente, relação com o olhar contemporâneo dos anos 1970.\

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Dramaticamente, esse acerto é negociado por Helfen que vai possibilitar a ascensão de Redentor como autoridade no sertão, já que este, depois de perseguido, passa a compor com as autoridades, e extermina os bandos rivais, para que a empreitada do petróleo possa prosseguir. O Redentor torna-se a ponta de lança de um acordo que engloba o poder civil local, os militares, a Igreja e os interesses estrangeiros, representados e patrocinados não só por Helfen e sua companhia petrolífera, mas também por um inverossímil bando de gangsters, como que saídos de uma peça de Bertolt Brecht.

Não faltam emboscadas, tiroteios e mobilizações de tropas, em que, às vezes, um tom contemplativo desarruma a potência de um filme de ação. Como, por exemplo, na caminhada ao pôr do sol, onde quem se alinha na contraluz, em postura desconstrutora e modernizante, são o destacamento militar e mais tarde, o negociador Helfen, num pungente adeus à iconografia do velho sertão.

Essas são transgressões às marcas do gênero, assim como o são a repartição equânime do tempo dramático entre os dois personagens centrais, o louro europeu e o mestiço Expedito, em encontros e confrontos, negociação de armas e tratados de paz, jantares de apresentação, concessões de salvo-conduto e danças de forró em ritmo acelerado, quase de samba. É nessa ocasião que, em um rápido plano, Expedito é visto beijando uma empregada uniformizada, único acesso dramático do universo feminino em relação direta com um dos dois protagonistas masculinos. Um beijinho e só, o máximo de relação hetero permitida.

Os elementos da representação, associados ao gênero e suas diluições, são bastante completos, não faltando os duelos de facão, as feiras, com cantadores e fotógrafos, a relação de subserviência dos camponeses e da própria Igreja. Na história, então, Redentor ganha uma fazenda que quer transformar num paraíso terrestre, prova de sua entrega aos desígnios divinos.

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A trama entra em seu desenvolvimento final, que implica no jorro do petróleo e na aparição dos gangsters americanos comandados por Frank Binaccio e seus homens, fugitivos do governo republicano de Calvin Coolidge por evasão fiscal. O governador decide matar Expedito e, pagando um bom preço, pede que os gangsters lhe tragam a cabeça do cangaceiro. Sentindo-se traído, Expedito culpa o holandês, que aparece e explica que o governador mandou matar todos do vilarejo, responsabilizando-os por acolher cangaceiros. A vila assim foi evacuada para a perfuração dos poços. Helfen assume sua parte de culpa e denuncia a negociação com Binaccio. É esta traição, que o holandês faz ao governador e ao seu país, que salva o cangaceiro. Helfen define aqui seus afetos e assume junto ao Redentor sua redenção. Esta união, movida por vingança, provoca a morte dos gangsters e do governador e o apaziguamento da região.

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Encontro na duna, Expedito e seu bando, Vincenzo Helfen partindo de vez. Na despedida, Helfen confessa sua simpatia e cumplicidade com o cangaceiro, que admite não ser o enviado que imaginara. Mas o holandês o conforta, dizendo que ele tinha cumprido muito bem o seu papel. Happy-end. Expedito volta para a estrada, Helfen provavelmente para a Holanda.

O filme termina de modo convencional, centrado no selo da amizade entre os dois protagonistas. O grupo, finalmente conscientizado, continua a atuar e isso é uma possibilidade de novas aventuras, como num western tradicional. Vence o pressuposto violento e vingador, mas ético, do bandido, sob o arrependimento do adversário.

Giovanni Fago conta que o filme fez sucesso na Itália e no resto da Europa, mas só chegou à América Latina três ou quatro anos depois (por conta de sua perspectiva política, foi considerado perigoso). O cineasta renega a etiqueta de western, considerando-a inexata, preferindo defini-lo como um filme político de aventuras.

Jornal carioca de 1973 apresentando o filme italiano, que foi intitulado no Brasil "Rebelião de Brutos"

Jornal carioca de 1973 apresentando o filme italiano, que foi intitulado no Brasil “Rebelião de Brutos”

A apropriação do nome O cangaceiro e de seu universo mitológico estabelece uma conexão obrigatória com a obra original e este gesto não pode ser considerado, de nenhuma maneira, como ingênuo, desprovido de intencionalidade, inclusive comercial. Os direitos da canção original5 são o aval desta operação.

Somos levados a buscar na obra italiana elementos presentes no filme de Lima Barreto, mas nos deparamos com traços soltos, pertencentes ao gênero, e quase nenhuma marca do original. O impulso criador do western clássico, de sua apropriação pelo Cinema Novo e pelo spaghetti, perde-se num pastiche sem alma. É essa estética da diluição sucessiva que leva a um processo de abrandamento das especificidades de cada forma cinematográfica utilizada, solvendo num texto comum o que foi um dia ousadia ou expressão dinâmica.
Notas

1 Entrevista do diretor, bônus do DVD O Cangaceiro, coleção L´âge d´or du cinéma européen. Wild Side films

2 O Almanaque, boletim eletrônico da jornalista Maria do Rosário Caetano dá conta, em 15/06/2010, de várias produções sobre o cangaço em andamento. Homero Olivetto, Wolney Oliveira, Hermano Penna, Geraldo Sarno e Ícaro Martins preparam filmes sobre o cangaço ou sobre cangaceiros. A filiação prossegue.

3 Filme feito entre 1930 e 1932 por Eisenstein e que gerou algumas montagens executadas sem sua presença e renegadas pelo cineasta: Thunder Over Mexico, Eisenstein in Mexico, Death Day e Time in the Sun.

4 Carta IEDI n. 201 – O Futuro do Pólo Petroquímico de Camaçari – Publicada em 31/03/2006

http://www.iedi.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2037&sid=20&tpl=printerview – acessado em 27/09/2010

5 A canção, cuja autoria foi atribuída a Zé do Norte, teve grande repercussão internacional. Foi gravada por um naipe de músicos que vai dos Demônios da Garoa, em 1953, até Joan Baez, em 1964, passando por Astrud Gilberto e muitos outros.

Referências bibliográficas

BAZIN, André. O western ou o cinema americano por excelência. O Cinema: Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991. [ Links ]
CARREIRO, Rodrigo. Do desprezo à glória: o spaghetti western na cultura midiática. Baleia na Rede,  vol. 1, nº 6, ano VI, dez/2009 (http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/BaleianaRede/Edicao06/4_Do_desprezo_a_gloria_western_spaghetti.pdf) [ Links ]
GALVÃO, Walnice Nogueira. Metamorfose do sertão. In: CAETANO, Maria do Rosário (org). Cangaço: o nordestern no cinema brasileiro. Brasília: Avatar, 2005. [ Links ]
ROCHA, Glauber. O western: uma introdução ao estudo do gênero e do herói. Mapa, nº1, Salvador, ABES, 1957. [ Links ]
GOMES, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha, esse vulcão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. [ Links ]
VEREVIS, Constantine. Film remakes. Edinburgh: Edinburgh University Press Ltd, 2006. [ Links ]
Referências filmográficas
A hora e a vez de Augusto Matraga (BRA, 1965, dir: Roberto Santos)
Casanova de Fellini (ITA, 1976, Federico Fellini)
Compañeros (ITA, 1970, dir: Sergio Corbucci)
Deus e o diabo na terra do sol (BRA, 1963 , dir: Glauber Rocha)
O cangaceiro (BRA, 1953, dir: Lima Barreto)
O cangaceiro (ITA, 1970, dir: Giovanni Fago)
O dragão da maldade contra o santo guerreiro (BRA, 1969,  dir: Glauber Rocha)
O incrível exército de Brancaleone, (ITA, 1965, dir: Mário Monicelli)
O tesouro dos renegados (ALE/ITA/IUG, 1961, dir: Harald Reinl)
Os fuzis (BRA, 1964, dir: Ruy Guerrra)
Os palhaços (ITA, 1970, Federico Fellini)
Que viva México (MEX, 1932, dir: Grigori Aleksandrov, Sergei M. Eisenstein)
Roma de Fellini (ITA, 1972, Federico Fellini)
Satyricon (ITA, 1969, dir: Federico Fellini)
Thunder over Mexico (EUA, 1933, dir: Sol Lesser)
Time in the Sun (EUA, 1939/40, dir: Mary Seton)
Vidas secas (BRA, 1963, dir: Nelson Pereira dos Santos
Viva Zapata (EUA, 1952, dir: Elia Kazan)
Este artigo é dedicado a Mariarosaria Fabris. 
*Antônio Carlos Amâncio é mestre e doutor em Cinema pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e professor associado III do Departamento de Cinema e Vídeo e do Programa de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil (tunicoamancio@gmail.com).
COMENTÁRIO DO ADMINISTRADOR DESTE BLOG – Para quem desejar assistir o filme na íntegra é só clicar no link que segue. Aqui temos a versão original em italiano, com legendas em espanhol.

http://www.youtube.com/watch?v=N3JvtkZKsbE

Extraído do blog Tok de História do historiógrafo e pesquisador Rostand Medeiros

http://tokdehistoria.wordpress.com/

 http://blogdomendesemendes.blogspot.com