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terça-feira, 23 de junho de 2020

E NATAL PERDEU OUTRO PATRIMÔNIO DA VELHA RIBEIRA E DA ÉPOCA DA SEGUNDA GUERRA – CAIU UMA PARTE DO ANTIGO ARPÈGE!

Foto – Rostand Medeiros.
Hoje, 21 de junho de 2020, por volta de cinco horas da manhã, na Rua Chile, número 161, no bairro da Ribeira, caiu com certo estrondo uma grande parte do antigo prédio da Boate Arpége, um dos mais representativos locais do boêmio bairro da Ribeira e fortemente ligado ao período da Segunda Guerra Mundial e história da aviação histórica em Natal.
Foto – Rostand Medeiros.
As últimas chuvas que caíram em Natal ajudaram a destruição desse imóvel que se encontra abandonado já faz algum tempo. A área se encontra isolada e oferece  risco de novos desabamentos e, como parece que ainda vai acontecer novas chuvas em ter os meses de junho e julho, é provável que o que sobrou venha abaixo.
Existe no local e a cena é triste para quem valoriza a história do lugar onde vive. Apesar de toda problemática com o COVID-19, tive a felicidade de encontrar o amigo German Zaunseder, com quem troquei algumas ideias sobre essa situação. Esse local histórico, tombado pelo poder público, em breve deixará de existir definitivamente.
Foto – Isa Cristina.
Em agosto de 2019 do ano passado eu lancei o meu livro “Lugares de Memória”, que nos seus capítulos apresenta informações e imagens (atuais e antigas) de 27 locais de Natal que possuem ligação com a participação de Natal no conflito, incluindo quartéis, hospitais, sedes de companhias aéreas, bares, cabarés, hotéis, clubes militares, residências de oficiais e do cônsul norte-americano, entre tantos outros pontos que ainda mantêm as características de sete décadas atrás, ou cujos prédios originais deram lugar a novas edificações em Natal.
Entre as edificações apresentadas no livro “Lugares de Memória” estava esse histórico edifício, que agora está quase totalmente destruído. Trago aos leitores do blog TOK DE HISTÓRIA o capítulo que trata do antigo Arpége.
Imagem obtida em junho de 2019 – Foto – Rostand Medeiros.
UM CABARÉ CHAMADO ARPÈGE – RUA CHILE, 161
Esse prédio, já quase completamente destruído, com dois pavimentos superiores derrubados por falta de reparos, ficou conhecido durante muitos anos por ser o local onde funcionou o prostíbulo denominado “Boate Arpège”.
Mas esse local, que em 2010 teria sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), possui na história de um antigo proprietário uma ligação muito forte com os períodos da aviação histórica e da Segunda Guerra Mundial na capital potiguar.
Lançado em agosto de 2019, “Lugares de memória” trás entre seus capítulo a história do edifício onde funcionou o Arpège.
O site de genealogia http://www.parentesco.com.br aponta que Enest Walter Lück, também conhecido como Ernest Luck, ou Ernesto Luck, nasceu no ano de 1883, na Alemanha. Segundo o falecido escrito e pesquisador Hypérides Lamartine, conhecido por todos em Natal como Pery Lamartine, em um trabalho que foi entregue em 2008 aos pesquisadores Rostand Medeiros e Frederico Nicolau, Enest Lück é oriundo da cidade de Gevelsberg, na antiga província alemã da Westphalian. Era de uma família de agricultores que trabalhavam também como ferreiros[1].
O trabalho de pesquisa de Pery Lamartine foi realizado por meio das informações do filho de Enest, o empresário do ramo do turismo Werner Ernest Ferdinand Lück, falecido em Recife no ano de 2002. Werner comentou que seu pai trabalhava na cidade belga de Ostende, em uma firma de importação e exportação. Quando um amigo de infância chamado Richard Robert Bürgers lhe escreve do Brasil informando que morava no estado do Rio Grande do Norte. Aqui, Bürgers fora contratado por uma firma inglesa para perfurar poços e que precisava de um auxiliar de confiança para participar dos trabalhos. Enest Lück tomou, então, o navio Karshel, que atracou no porto de Recife em 7 de outubro de 1911, seguindo para Natal em um navio costeiro. Na capital potiguar, o novo imigrante alemão soube que a firma inglesa tinha falido e começou a buscar um novo rumo para a sua vida. Lück, então com 28 anos, adquiriu uma fazenda no sertão do Rio Grande do Norte, com a intenção de criar gado, plantar algodão e mamona. Essa fazenda era localizada próxima ao Pico do Cabugi, na região central do estado. Em suas visitas a Natal, o Sr. Lück enamorou-se por uma senhorita chamada Henriqueta Green, de origem inglesa ou norte-americana, cujo romance acabou com a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) e o envolvimento de seus países de origem em lados opostos.
Natal no início do Século XX.
Esse conflito em muito retardou o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte, mas, após o fim da Primeira Guerra, Enest Lück planejou uma mudança de vida. Assim, fundou com um amigo uma loja na Rua Chile, 161, onde se vendia muitos artigos e ficou conhecida como uma loja de “Secos e Molhados”. Além da loja eles criaram a firma de importação e comércio Gurgel, Luck & Cia., com o objetivo de importar produtos da Alemanha e exportar matérias primas produzidas no Rio Grande do Norte, como algodão, óleos, couros, etc.
Ainda segundo Pery Lamartine os sócios vão à Alemanha em 1922 em busca de contatos comerciais, no que são bem-sucedidos. Eles conseguem a representação potiguar da grande casa exportadora Theodor Wille, uma empresa criada por um alemão no Brasil em 1848, que se tornou uma verdadeira potência comercial na década de 1920, onde exportava para a Alemanha o nosso café e exportava tecidos, ferramentas, máquinas e até locomotivas.
Ainda na Alemanha os dois sócios igualmente conseguiram a representação da empresa de navegação Hamburg Sud, ou Hamburg Südamerikanische Dampfschifffahrts-Gesellschaft, também conhecida como Hamburg South America Line, até hoje uma grande empresa de navegação que faz parte da Maersk Line, a maior empresa de transporte de contêineres do mundo.
Ou seja, o alemão e seu sócio brasileiro, além de fecharem um interessante contrato de representação com uma empresa que trazia da Alemanha produtos de primeira qualidade e aceitava comprar as matérias primas produzidas em terras potiguares, também conseguiram a representação de uma grande empresa de navegação. Essa provavelmente transportava os produtos ligados a Gurgel, Luck & Cia., possivelmente com um valor diferenciado e vantajoso.
Nesse retorno de Enest Lück ao seu país, ele reencontrou uma vizinha de infância chamada Elisabeth Luise Bamberger, com quem casou. Enquanto sua vida familiar progredia na caliente Natal, na sua loja da Rua Chile, 161, Enest Lück vendia muitas mercadorias e se tornou referência na cidade. Encontramos em jornais natalenses anúncios de venda de facas, ferramentas agrícolas, talheres, tesouras, etc. Esse edifício não era o único imóvel que o  imigrante alemão possuía naquele setor da cidade. Ele era proprietário de um salão aberto na Travessa Venezuela e uma loja na Rua Dr. Barata, a de número 170, onde ali funcionou durante algum tempo a Confeitaria Savoia, de Giovani Fulco. Enest Lück cresceu como comerciante e na respeitabilidade junto ao povo de Natal, tornou-se o mais proeminente representante da pequena colônia alemã aqui radicada, representante diplomático de sua nação na cidade.
Apesar desses avanços, percebemos na leitura dos antigos jornais uma situação que, aparentemente, chamou negativamente a atenção do povo de Natal em relação às atitudes do alemão Enest Lück.
Segundo nos conta Pery Lamartine, nos primeiros anos da década de 1930, vivia-se, a nível mundial, uma acirrada disputa no que se refere ao transporte do correio aéreo e de passageiros, principalmente entre franceses e alemães. O falecido escritor e aviador potiguar informou que Enest Lück conseguiu então as representações das empresas Lufthansa e Sindicato Condor. Duas companhias de transporte aéreo que se completavam e, conforme podemos observar no capítulo dedicado a  atuação do Sindicato Condor em Natal, ficava localizada na Rua Frei Miguelinho, 119, Ribeira. Foi quando a edição de domingo, 13 de setembro de 1931, do jornal A República, apresentou com grande destaque os fatos que envolveram a tragédia de um hidroavião Dornier Wall, do Sindicato Condor.
Registrado como P-BALA e batizado como “Olinda”, o jornal aponta que, no dia anterior, um sábado, ao buscar decolar no Rio Potengi o piloto Max Christian Sauer e o copiloto Rudolf Karwat não conseguiram força suficiente, aparentemente devido ao mau funcionamento em um dos motores e a aeronave não alcançou a ascensão desejada.
Ao sobrevoar o Canto do Mangue, local de atracação de barcos de pescadores às margens do Rio Potengi, o piloto decidiu fazer uma curva à esquerda para levar o “Olinda” para o mesmo ponto de onde partiram e tentar uma nova arremetida.
Provavelmente devido à falha no motor, desconhecimento dos obstáculos que havia na área que sobrevoava, desorientação espacial, ou outras causas, o Dornier Wall chocou-se violentamente contra uma antiga barcaça utilizada para o transporte de areia e explodiu em chamas. O impacto ocorreu na outra margem do rio, defronte à administração do Porto de Natal. Os que foram entrevistados pelo jornal nada comentaram sobre o barulho de uma explosão, mas narraram quer viram uma bola de fogo que se criou após o choque.
Consta, nas páginas de A República, que entre os que testemunharam a tragédia e estavam no outro lado do Potengi estava Mestre Manoel Ciríaco, proprietário de um barco conhecido como Minerva, além dos seus tripulantes Luís Jacaré e Chico Velho. EsSas rapidamente embarcam no bote e foram os primeiros a chegar ao local da tragédia.
Na barcaça abandonada, que o jornal chama de “areieiro”, Ciríaco encontrou o mecânico Paul Hein, ferido e desacordado. Próximo à barcaça, ainda dentro do que restou da cabina do “Olinda”, os brasileiros viram os restos mortais do piloto, do copiloto e do radiotelegrafista Franz Noether. Nesse momento, encostou uma lancha com vários passageiros, entre eles o alemão Enest Walter Lück e funcionários do Sindicato Condor. Mestre Ciríaco e seus ajudantes transferiram então o mecânico ferido para a lancha e este foi transportado para o cais do porto. Para a surpresa do simples barqueiro e seus tripulantes, em vez de Lück e os membros do Sindicato Condor resgatarem os corpos dos seus companheiros, esses passam a recolher as encomendas, envelopes e malas postais que flutuavam no rio. Ciríaco e seus companheiros comentaram os fatos com detalhe no principal jornal de Natal, o que aparentemente chamou atenção na cidade.
Estaríamos, então, diante da fria lógica germânica que, frente à morte de três tripulantes e da prestação inicial de assistência ao ferido, o mais importante era o recolhimento do material ao resgate dos cadáveres dos seus companheiros? Vale ressaltar que o piloto Max Christian Sauer era o diretor técnico do Sindicato Condor.
E o que haveria de tão importante nesse material que flutuava no Potengi?
Ao observamos os jornais da época, um fato chama a atenção. No dia 27 de agosto de 1931, dezesseis dias antes do acidente do “Olinda”, procedente das Antilhas chegou ao porto de Natal o cruzador ligeiro Inglês H. M. S. Dauntless. Esse era um fato não muito comum na capital potiguar, sendo noticiado pelos jornais da época como “uma tranquila visita de cortesia de 400 oficiais e marinheiros da marinha de Sua Majestade”. Não faltaram inúmeras recepções que movimentaram a urbe, com um baile a bordo do cruzador e outras festividades. Ocorreu até mesmo um movimentado jogo de futebol entre a equipe do navio e o time do América Futebol Clube, que venceu os marinheiros ingleses pelo placar de 4×2. O certo é que o cruzador inglês H. M. S. Dauntless não era nenhum navio desprezível, ou que não chamasse atenção. Era uma moderna nave de combate da classe “D” de cruzadores ligeiros ingleses, estava em serviço ativo desde 1918, possuía o código D-45 e pertencia, na época, à Divisão Sul Americana da frota inglesa. Desenvolvia quase 30 nós de velocidade, com um armamento que incluía torpedos de 533 m.m., seis canhões de 152 m.m. e canhões antiaéreos. Seu peso era de 5.000 toneladas e tinha quase 150 metros de comprimento[2]. Em 1931, apesar de a Alemanha ainda não viver sob o domínio do Terceiro Reich, haviam se passado apenas treze anos do fim da Primeira Guerra Mundial, onde a Inglaterra era vista pelos alemães como um potencial inimigo. Era normal aos agentes e representantes alemães pelo mundo afora, como era o caso de Enest Walter Lück, informar as movimentações e os detalhes sobre as belonaves de guerra dos países considerados inimigos em suas viagens. Haveria então nas malas postais transportadas pelo “Olinda” alguma informação interessante sobre o cruzador H. M. S. Dauntless que teria sido enviada para a Embaixada Alemã no Rio de Janeiro?
Seria essa a razão do Sr. Enest Walter Lück ter deixado de lado o resgate dos corpos dos tripulantes do “Olinda”?
Ou seria apenas uma coincidência?
Não sabemos, mas vale ressaltar que, devido à falta de atenção do Sr. Enest Walter Lück em não ordenar o resgate dos corpos dos tripulantes do hidroavião, esses são deslocados pela maré e se perdem na noite. Só vão ser encontrados, segundo o jornal A República, a partir das dez da manhã de domingo, 13 de setembro. Eles estavam espalhados em vários pontos do rio e já em adiantado estado de putrefação. Ainda no domingo, com grande acompanhamento por parte da população local, autoridades e membros da colônia alemã, os três alemães mortos foram rapidamente enterrados no cemitério do Alecrim.
Conforme apresentamos no texto dedicado ao comerciante italiano Guglielmo Lettieri, durante a Segunda Guerra Mundial, o alemão Enest Lück e dois compatriotas foram acusados e condenados como espiões da Alemanha Nazista atuando em Natal. Clyde Smith deixa a entender em seu livro que a loja que Lück possuía na Rua Chile era uma espécie de fachada para outras atividades, pois ali “aparentemente, ninguém entrava”[3]. Mas logo após o fim do conflito todos foram soltos e, de uma forma que merece estudo complementar, foram perdoados pela sociedade natalense e continuaram a tocar suas vidas.
Não conseguimos uma informação mais abrangente sobre o que aconteceu com a loja de Lück na Rua Chile, 161. Mas, segundo a dissertação de mestrado do arquiteto e urbanista Gilmar de Siqueira Costa, pouco antes da chegada dos militares norte-americanos a Natal, o dia a dia naquela edificação ficou bem movimentada.
Intitulada Reutilização de imóveis de interesse patrimonial, voltados para a habitação: Um estudo de caso na ribeira – Natal/RN e publicada em 2006, essa dissertação, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, da UFRN, aponta, nas páginas 147 a 149, que o pavimento do edifício da Rua Chile, 161, foi construído em 1904. Já em 1941, o Senhor Nestor Galhardo adquiriu parte da edificação, tendo o intuito de instalar sua própria gráfica, ocupando apenas o pavimento térreo. Porém, com o advento da Segunda Grande Guerra, muitas prostitutas e seus clientes vieram para a Ribeira. Pensando em atender ao grande número de militares e marinheiros, o Sr. Galhardo, que era amante de uma meretriz chamada Rosita, decidiu abrir um cabaré no pavimento superior, que seria administrado pela sua concubina e cuja entrada era feita pela Travessa Venezuela. Aparentemente foi nessa época que a edificação ficou conhecida popularmente como “Edifício Galhardo”.
Segundo Gilmar de Siqueira Costa, um dos aspectos mais curiosos relacionados ao Edifício Galhardo é o fato de ter sediado durante muito tempo uma das mais famosas casas de meretrício do Nordeste – o Cabaré Arpège. O autor aponta como sendo uma “casa de recursos vinculada à cultura da boemia e dos cabarés, geradora de toda uma série de mitologias e anedotas referentes a personagens destacados na vida social, no decorrer do seu tempo de atuação”. Sobre esse lugar paira a lenda que durante a visita dos Presidentes Roosevelt e Getúlio Vargas à Natal, em janeiro de 1943, esses teriam visitado discretamente as instalações do elegante lupanar.
Após a morte do seu proprietário, o seu parente Nestor Galhardo Neto assumiu a administração dos negócios contidos no imóvel. Gilmar de Siqueira Costa aponta como fato curioso que durante as gravações da película “For All”, que buscava retratar a cidade de Natal no período da Segunda Guerra, algumas cenas foram tomadas nos espaços do prédio.
NOTAS
[2] O H. M. S. Dauntless chegou a participar de toda a Segunda Guerra Mundial, combatendo os japoneses na região da Batavia e Singapura, além de participar dos combates a submarinos alemães no Atlântico.
[3]SMITH JUNIOR, Clyde – Trampolim Para a Vitória. 1. Ed. – Natal-RN: Ed. Universitária, 1993, página 22.
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MEMÓRIA E IDENTIDADE REGIONAL DO CANGAÇO - FAFIC

Por Wescley Rodrigues

Fonte: YouTube Canal:Faculdade FAFIC

Em comemoração ao mês junino a Faculdade FAFIC - Paraíba preparou uma live especial com o tema: "Memória e identidade regional do Cangaço", o convidado foi o Prof. Wescley Rodrigues Dutra, Bacharel em Direito e História; Mestre em História e Doutorando em Letras com foco na Argumentação Jurídica; Wescley Rodrigues é pesquisador, membro da SBEC e da ACLA como também Conselheiro do Cariri Cangaço.

22 de Junho de 2020.


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MACAXEIRA OU MANDIOCA

Clerisvaldo B. Chagas, 23 de junho de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.330

Macaxeira não é mandioca nem mandioca é macaxeira. Assim como jumento não é burro e nem burro é cavalo. As duas raízes pertencem a mesma família, porém, existe diferença significativa entre ambas e denominações variadas nas regiões brasileiras. No Nordeste, macaxeira é uma coisa, mandioca é outra. No Rio de Janeiro, macaxeira é chamada de aipim.

RASPAGEM  DA MANDIOCA (CRÉDITO: HONJO MOERTSCH)

Numa farinhada, fabrico da farinha feita com a mandioca, as pessoas rapam mandiocas aos montes. Vez em quando surge uma macaxeira. Ela é identificada e consumida ainda crua. Mas não se pode comer a mandioca porque ela possui veneno. Contém ácido cianídrico. É preciso ser transformada em farinha e ficar livre do tóxico para poder ser consumida. Até o caldo escorrido da mandioca após a prensagem, fica depositada resguardado dos animais. É quando o povo diz: “Tire esse garrote daí, manipueira mata, Zé.
Podemos dizer, então, que macaxeira vai para cozinha e a mandioca para a indústria. É fácil para o homem rural distinguir   macaxeira de mandioca, mas o citadino, não. Caso o amigo não conheça uma farinhada, não sabe o que está perdendo. É um trabalho altamente gratificante e que naturalmente vira uma verdadeira festa. Estamos nos referindo à farinhada tradicional e não a moderna o que deve ser uma festa diferente. Nesta, o uso de máquinas reduz muito a quantidade de trabalhadores homens e mulheres em suas funções e na alegria do todo. O fabrico da farinha vai desde o litoral ao sertão. Pesquise a periferia da cidade ou capital.
A antiga canção de Jorge Curi diz bem da farinhada.

Fui a uma farinhada
Lá na serra do Teixeira
Namorei uma cabocla
Nunca vi tão feiticeira
A meninada descascava macaxeira
Zé Miguel no caititu
E eu e ela na peneira...


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MILITAR DO SERTÃO: JOÃO BEZERRA DA SILVA, O HOMEM QUE MATOU LAMPIÃO

Por André Nogueira
João Bezerra - Arquivo Pessoal

O policial militar pernambucano foi nacionalmente reconhecido por comandar a operação que degolou o Rei do Cangaço.

Uma das imagens mais marcantes da história policial no Brasil são as cabeças do bando de Lampião na escadaria da prefeitura em Piranhas, Alagoas. Nela, há o retrato da perseguição violenta contra os criminosos e uma vingança contra seus corpos, diante da notória prática de degolamento. O responsável pela foto foi o oficial João Bezerra da Silva.

Ele foi um Policial Militar de Alagoas, que se tornou famoso no país todo depois do Massacre de Angicos. Nativo de Afogados de Ingazeira, Pernambuco, aprendeu a atirar com o primo, Antônio Silvino, se tornaria cangaceiro. Alvo de uma infância conturbada, decidiu fugir de casa ainda jovem.

Com a namorada, se mudou para Recife, onde passou a trabalhar numa ferroviária, que cuidava da restauração das linhas e outros bicos que o auxiliaram a ter uma renda básica. Passou a viver na estrada, na região da capital pernambucana, até que decidiu retornar a sua cidade natal. Lá, abriu uma pequena bodega com armazém, se sustentando com as vendas.

No entanto, a passagem durou pouco tempo, pois, quando Bezerra começou a ganhar dinheiro, um fazendeiro local passou a persegui-lo, com medo de concorrência. Então, abusou de sua sobrinha e enviou um recado para que não passasse dos “limites”. João, indignado, foi à fazenda do homem e o matou, o que o obrigou a fugir da cidade para evitar vinganças.

Foto antiga da volante de Bezerra em 1936 / Crédito: Divulgação/YouTube

Passou a viver em Princesa Isabel, onde conheceu o coronel José Pereira, e aprendeu a atirar, assim conhecendo os crimes dos cangaceiros. O militar era inimigo íntimo de Lampião. Trabalhando nas possessões do oficial, tornou-se lenda local por matar uma onça a tempos procurada, pois estava matando diversas criações na região.

João Bezerra decidiu entrar no exército, migrando para Maceió em 1919, passando a fazer parte definitiva do corpo da Polícia Militar em 1922. Com valentia, cresceu rapidamente na carreira, realizando diversas operações com eficácia e recebendo promoções e indicações por bravura. O principal local onde viveu era a cidade de Piranhas.

Nas operações que esteve envolvido, lutou ao menos onze vezes diretamente com cangaceiros, tendo, em uma das ocasiões, sofrido um ataque em que perdeu quatro centímetros de perna e, assim, se tornou manco. Por esse motivo, Lampião o apelidava de Cão Coxo, em referência à mobilidade reduzida. Em retribuição ao apelido desonroso, Bezerra passou a chamar o Rei do Cangaço de O Cego.

Em 1935, casou-se com Cyra Gomes de Britto, com quem construiu uma família enquanto trabalhava no comando de volantes no estado de Alagoas. Nessa posição, ficou responsável pela operação que identificou, perseguiu e assassinou o bando de Lampião durante reunião numa gruta localizada na fazenda dos Angicos, município de Poço Redondo.

Em uma operação bem organizada, eles localizaram o acampamento dos cangaceiros e entraram no local a noite, atirando com metralhadoras. Depois de mortos, Lampião e Maria Bonita tiveram suas cabeças arrancadas. Sua atuação na operação o fez nacionalmente famoso, e recebeu diversas honrarias.

Ele foi recebido pelo presidente Vargas no Palácio do Catete, sendo homenageado. Com o tempo, chegou à posição de comando da PM de Alagoas. Em 1940, lançou o livro Como Dei Cabo a Lampião, com descrições da operação mais famosa de sua carreira. Em 1955, entrou na reserva e passou a trabalhar numa fazenda, plantando.

João viveu ate é 1970, quando sofreu um AVC em Garanhuns. Foi enterrado como herói no Parque das Flores, em Recife, onde descansa até hoje.

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ENTROU NO CANGAÇO POR TER SIDO RAPTADA OU POR ESPONTÂNEA VONTADE?

Por José Mendes Pereira
O DESTINO DE ADELAIDE - Mulheres do Cangaço
As irmãs cangaceiras Rosinha e Adelaide de Lé Soares

Cada um de nós que estuda o cangaço de modo geral tem a sua opinião sobre as histórias que foram contadas pelos remanescentes de Lampião, mas o meu parecer,  que vivo nessa corrida para conhecer bem o "Cangaço", não desfaz e nem desrespeita os nobres pesquisadores, escritores e historiadores, apenas tento dizer o que eu penso sobre os depoentes. 

Os caçadores de histórias sobre cangaço que são os pesquisadores, escritores e historiadores foram e são os verdadeiros heróis que trouxeram e trazem todas as informações para nós, não criaram e nem criam nada desnecessária, e sim, registraram e continuam registrando os acontecimentos ditados pelos depoentes como: coiteiros, coiteiras, cangaceiros, cangaceiras, policiais, fazendeiros, sertanejos e até mesmos pessoas que presenciaram crimes, ou maldades feitas pelos facínoras que usavam as suas leis próprias, contra aqueles que eles achavam merecedores de serem castigados com surras ou com a morte.

Um dos acontecimentos cangaceiros que a minha mente não consegue registrar como verdade é o que disseram aos entrevistadores algumas bandidas que sobraram da "Empresa de Cangaceiros Lampiônica & Cia.", que foram raptadas ou levadas para o mundo cangaceiro à força pelos seus futuros companheiros. 

A maior parte destas moças que seguiram os cangaceiros por terem sido raptadas como afirmaram elas, era adolescente, e adolescente, principalmente do sexo feminino, a paixão a domina no primeiro rapaz que ela colocar em cima dele os seus olhos brilhantes condutores fiéis do seu destino (assim escreveu o poeta Zé Ramalho) e passa a desejá-lo, não o esquecerá tão cedo, e a partir daí, ela está para enfrentar qualquer obstáculo. Esse comportamento faz parte da vida humana quando se refere a amor. 

Nos tempos do cangaço as moças sertanejas viviam ali, apesar  dos olhares rancorosos dos pais, mas eram apenas cuidadosos, e que não as deixavam sair a lugar nenhum, e quando elas saíam era para um baile nas suas comunidades, mas nunca a sós, geralmente acompanhadas pelos seus genitores. 

Algumas delas já não mais suportavam aquele ciúme doentio dos pais e a solução era sair dali da companhia deles o quanto antes possível, em busca de liberdade, de querer voar alto, conhecer coisas novas, viver livre, sem pressão, viver sobre os olhares de um só, no caso o companheiro conquistado, já que em casa, além de ser vigiada pelo pai, ainda tinha os olhares da mãe e dos irmãos, porque muitas eram privadas até de chegar ao alpendre, quando no meio daquela gente presente, tinham jovens metidos a galãs. 

As que se queixavam que foram forçadas para seguiram os cangaceiros mesmo sendo estudante do cangaço, eu não acredito. Elas se apaixonavam pelos bandoleiros e findavam os acompanhando por pura vontade, acho eu, não sei se estou certo ou errado. Os cangaceiros não chegavam e as carregavam, porque eles tinham um chefe de grupo para obedecê-lo, ou  então os reclamando que não era bem assim, levar uma donzela para a caastinga por pura maldade. Primeiro, imagino eu, que eles as visitavam e depois das conquistas e algumas conversas amorosas eram que elas os seguiam. 

Não sei se estou conversando besteiras, mas se sabiam que poderiam ser sequestradas, por que ficavam expostas aos olhares dos bandidos e não se escondiam em outras residências de pessoas amigas que os marginais não passavam por lá? O certo é que desejavam mesmo acompanhar os jovens escolhidos por elas. Cada uma dela  entrou no cangaço por gosto próprio, por vontade própria, e por sua própria decisão.

Sérgia Ribeiro da Silva mais conhecida como Dadá  que nasceu em  Belém do São Francisco, no Estado de Pernambuco, no dia 25 de abril de 1915, e faleceu em  Salvador, no Estado da Bahia, em fevereiro de 1994, disse aos repórteres, escritores e pesquisadores que fez parte do cangaço, não por sua própria vontade, mas porque foi raptada por Cristino Gomes da Silva Cleto o cangaceiro Corisco, nascido em Água Branca no Estado de Alagoas, no dia 10 de agosto de 1907 e faleceu na Barra do Mendes no dia 25 de maio de 1940. Também era conhecido como Diabo Louro. 

Em um livro que eu li e não quero aqui citar o nome e o autor porque eu não estou com ele em casa para provar indicando o número da página (porque o emprestei a um amigo), e já que eu não sei a página e o título, evito citá-lo, e lá está escrito que a cangaceira Dadá não foi raptada pelo o Corisco, e sim, ela seguiu o seu futuro companheiro para o cangaço por espontânea vontade. 

A Sila mulher de Zé Sereno diz que foi à força para o cangaço, mas ela foi por sua própria vontade. No dia que os cangaceiros fizeram coito próximo à casa da sua família ela foi encarregada de ir deixar o almoço a eles no acampamento, e ao anoitecer, teve um forró, cujo, ela passou a noite toda dançando, e parece que estava mais com desejo em Luiz Pedro do que em Zé Sereno, assim fala ela de ter dançado muito com ele. Lógico que não confirma que teve interesse pelo o cangaceiro, mas qualquer um que leu o que ela disse, diria que a futura cangaceira estava o desejando, porque dançou muito aos seus aconchegos. Se ela não tivesse intenções de seguir o bando, já que sabia que os cangaceiros estavam ali e poderiam raptá-la para a caatinga, e por que  não fugiu antes para outro lugar que os facínoras não passavam por lá? Ela alega que imaginou muito que se ocultasse da presença deles poderiam fazer algo contra à sua família. 

A decisão de ter entrado para fazer parte do mundo do crime no nordeste brasileiro eu imagino que surgiu da própria Sila, e não do seu futuro companheiro Zé Sereno. Muito embora, durante um ano e oito meses mais ou menos que ela passou no cangaço foi uma cangaceira que nunca fez mal a ninguém. 

As filhas do vaqueiro Lé Soares a Rosinha de Mariano Laurindo Granja, a Adelaide do cangaceiro Criança, a Áurea prima das duas acima e companheira do cangaceiro Mané Moreno, este  era primo dos cangaceiros Zé Sereno e do Zé Baiano, as três entraram para o cangaço porque quiseram. Na minha humilde opinião, nenhuma foi raptada, todas fizeram parte do cangaço pela própria vontade e desejo de sair dos olhares rancorosos dos seus pais. 

Espero que os amigos não usem este material na Literatura Lampiônica, porque não tem nenhum valor para ela. São apenas as minhas inquietações, assim dizia o escritor Alcino Alves Costa, e jamais prejudicará os escritores, historiadores e pesquisadores. O que eu escrevo não os atinge, sempre me refiro aos depoentes.

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AS MULHERES NO CANGAÇO


Por Archimedes Marques
..., Archimedes Marques, Elane Marques e João de Sousa Lima

A luta da mulher pela igualdade de direitos sempre foi constante na história da humanidade, vez que desde os primórdios, perdurando por séculos e séculos era considerada como se objeto fosse, um ser inferior de sexo frágil sempre dominada pelo chamado sexo forte. Na década de 30 do século passado, enquanto nos grandes centros mundiais e principais cidades do Brasil, movimentos de mudança em prol da mulher se sucediam e se multiplicavam, no nosso sertão nordestino tudo continuava como dantes, sem mudança de comportamento algum. Entretanto, mesmo sem saber que estava fazendo verdadeira revolução, a brava sertaneja ao largar tudo para seguir o cangaceiro em vida perigosa e sem futuro serviu de exemplo de força, coragem e determinação para outras mulheres do país, além, de certa forma mudar a história do cangaço, separando assim tal movimento em duas fases, fazendo também que nessa segunda fase houvesse menos selvageria e até aparecesse a figura do amor entre aqueles rudes e ignorantes personagens.

Tomando emprestadas as palavras do amigo João de Sousa Lima: “A mulher, na expressão primordial da palavra, amenizou as marcas das pegadas ferradas das sandálias de couro do cangaço e em seus rastros gravou sua passagem, nos confins do solo sagrado de uma nação chamada Nordeste”.

Buscando o fato motivador dessa inusitada atitude feminina como tipo de amor arrebatador ou mesmo como falta de uma melhor opção de vida diz o citado historiador: “Várias histórias povoam esse estranho mundo feminino. Mulheres viam nas passagens dos cangaceiros, em suas roupas coloridas e seus apetrechos brilhantes, uma forma diferenciada de vida e, no entanto, como uma armadilha, se envolveram em um mundo recheado de tiroteios, mortes, sangue, fugas alucinadas e escapadas perigosas”.

A mulher cangaceira não foi uma mulher submissa, não foi uma mulher escrava, caseira, muito pelo contrário, foi uma mulher “paparicada”, respeitada e até tratada com amor pelo seu companheiro e pelos demais componentes do bando dentro das reais possibilidades que a dura vida assim exigia, com raras exceções é evidente, pois as traições amorosas femininas não eram admitidas em hipótese alguma.

Então, de volta a nossa realidade, cumprindo um cronograma organizado pela Cyntilante Produções que realizou a turnê “Lampiãozinho e Maria Bonitinha”, uma peça teatral de grande sucesso cuja produção vencedora de 19 prêmios é uma das criações de Fernando Bustamente, um carioca radicalizado em Belo Horizonte, homem da arte e da cultura que também preserva com tal peça as raízes cangaceiras do nosso querido Nordeste brasileiro, de igual modo, de tudo foi acompanhado de 13 a 23 do corrente mês e ano, em excelentes e bem explicativas palestras com o tema AS MULHERES NO CANGAÇO, pelo nosso estimado escritor e amigo João de Sousa Lima.

Assim inteligentemente foi unido o útil ao agradável, pois nada melhor para a peça “Lampiãozinho e Maria Bonitinha” do que estar acompanhado de um nordestino nato, um “cabra macho” pernambucano radicalizado na aprazível Paulo Afonso, um pesquisador, estudioso, escritor que sabe tudo e muito mais a respeito do cangaço, um verdadeiro “Sherlock Holmes” das caatingas que esmiúça, investiga e descobre personalidades que vivenciaram aquela época de sangue e lágrimas (mas também de amor) e, porque não dizer, um historiador que desvenda verdadeiras histórias então escondidas, destarte para a trajetória de vida dos ex-cangaceiros Moreno e Durvinha, incógnitas e submersos nas Minas Gerais por sete décadas, mas trazidos à tona anos atrás graças a interferência direta de João de Sousa Lima.

Sem dúvida alguma, aquelas pessoas que tiveram o privilégio de assistir alguma das seis palestras de João de Sousa Lima – como tivemos no último dia 22 aqui em Aracaju – além de viajarem de volta ao cangaço, aprenderam muito com os ensinamentos desse grande e obstinado historiador.

As eloquentes explicações em analises das diversas fotografias relacionadas às personagens do cangaço apresentadas por João de Sousa Lima foi iniciada na cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, terra adotada pelo amado e imortal “Padim Ciço”. Ingressar para falar agora sobre o fantástico mundo de Juazeiro, sua sedição, suas lutas, suas glórias, seus heróis, seu misticismo, seu messianismo, sua religiosidade, seu povo em verdadeira adoração ao Padre Cícero Romão Batista e este por sua vez em suposto apoio a Lampião e ao cangaço é debruçar em “montanhas” de escritos e opiniões diversas, por isso é melhor que fiquemos somente neste parágrafo que bem traduz a irreverência do citado palestrante que sem dúvida ensinou e também mais aprendeu com a interessada assistência que lotou a Escola Iva Emidio Gondin naquele memorável dia 14/09/2012.

Serra Talhada foi a segunda estada do citado grupo. Justamente a área inicial de conflito dos eternos inimigos “Virgulino Ferreira da Silva e Zé Saturnino” e que de todo o conflito deu origem a era “Lampiônica”, trocando em miúdos, ao cangaço de Lampião que ganhou fama não somente no Nordeste, mas também no Brasil e porque não dizer, mundo afora. Terras circunvizinhas que também deram tantos outros componentes dessa história de sangue e barbárie, a exemplo de Nazaré do Pico, um pequeno povoado encravado no sertão de Pernambuco, cujo lugarejo localizado nas proximidades de Serra Talhada, mas pertencente ao município de Floresta, saíram os mais ferrenhos perseguidores de Lampião, dentre eles: Odilon Flor, Euclides Flor, Gomes Jurubeba, João Gomes Jurubeba, Davi Jurubeba, Enoque Menezes, João Gomes de Lira e o mais famoso deles, o incansável Manoel Neto, que chegou ao posto de Coronel da brava policia pernambucana.

Serra Talhada é hoje a mais importante cidade do sertão pernambucano e é considerada a capital do xaxado, justamente em alusão a dança mais usada, ou mesmo inventada pelos cangaceiros. Essa terra de cabras valentes é também destaque cultural e teatral com o “Grupo de Xaxado Cabras de Lampião” bem administrado pelo amigo escritor e pesquisador Anildomá Willians de Souza e sua esposa Cleonice, dentre outros grupos da região circunvizinha que encantam todos aqueles que assistem a tais espetáculos. Nessa cidade a peça teatral “Lampiãozinho e Maria Bonitinha” se destacou igualmente também ao sucesso da palestra “As mulheres no Cangaço” que encantou os estudantes e professores do Colégio Cônego Torres em inesquecível e marcante dia 17/09/2012.

A sua terceira apresentação ocorreu em Água Branca nas Alagoas região da famosa Baronesa Joana Vieira Sandes de Siqueira Torres, viúva do Barão Joaquim Antônio de Siqueira Torres, cujo assalto a essa cidade em 1922, deu a Lampião, recém "nomeado" líder do bando de Sinhô Pereira, início de sua fama de audaz bandoleiro, sem esquecer que naquelas paragens também nasceu um dos mais destacados cangaceiros da história, Cristino Gomes da Silva Cleto, mais conhecido como Corisco o Diabo Louro.  Consta que do inteligente e bem arquitetado crime de roubo realizado nessa cidade pelos cangaceiros, mais de perto, na mansão da Baronesa de Água Branca, anos depois, já na segunda fase do cangaço, mais de perto a partir de 1929, por muito tempo as jóias roubadas dessa famosa senhora ornaram e embelezaram ainda mais a figura de Maria Bonita até que se perderam nas mãos dos policiais volantes que a decapitaram em 1938.

O Ponto de Cultura Engenho da Serra na cidade de Água Branca ao lotar suas galerias em 18/09/2012 viveu dos seus maiores momentos de glória com as falas de João de Sousa Lima e a linda apresentação teatral que com certeza não se perderão no tempo e no espaço.

Como não poderia deixar de ser, o grupo chegou para a sua quarta apresentação na simpática e aprazível cidade de Paulo Afonso. Por sinal o município que deu a personagem feminina maior dessa história nordestina, Maria Bonita, a inesquecível mulata da terra do condor que sem sombra de dúvida dominava uma fera perigosa, uma morena trigueira que sabia fazer o rei do cangaço gemer sem sentir dor, como bem diz o grande poeta Zé Ramalho em uma das suas mais lindas canções. Das terras da Malhada da Caiçara saiu o único e verdadeiro amor de Lampião. De Paulo Afonso a segunda fase do cangaço se fez maior, como já dito, “mais humana”, pois onde existe mulher existe o amor. Nunca é demais falar que Paulo Afonso foi o município brasileiro que mais ofereceu componentes para o cangaço, chegando, pelas pesquisas efetuadas por João de Sousa Lima e outros historiadores ao número de 47 cangaceiros, entre homens e mulheres, que se embrenharam naquela dura vida bandida das caatingas.

Sem citar os homens, entre as mais famosas cangaceiras que saíram da região de Paulo Afonso, estão: Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, do povoado Malhada da Caiçara; Lídia Pereira de Souza, do Povoado Salgadinho (citada por todos os cangaceiros sobreviventes como sendo a mais bela de todas as cangaceiras. Assassinada covarde e brutalmente a pauladas pelo seu companheiro Zé Baiano em decorrência de uma traição amorosa); Nenê (a carinhosa Nenê, companheira de Luis Pedro), também do povoado Salgadinho; Otília Maria de Jesus (Otília, companheira de Mariano), do povoado Poços; Inácia Maria das Dores (Inacinha, companheira do feroz cangaceiro Gato, por sinal ambos índios da tribo Pankararé), do Brejo do Burgo; Catarina Maria da Conceição (Catarina, companheira do cangaceiro Nevoeiro, também um índia da tribo Pankararé), igualmente do Brejo do Burgo; Durvalina Gomes de Sá, (Durvinha, companheira apaixonada pelo cangaceiro Virgínio e após a morte deste, eterna mulher do cangaceiro Moreno), nascida no povoado Arrasta-Pé.

Das terras baianas o grupo teatral e nosso homenageado João de Sousa Lima, aportaram em Porto da Folha no nosso querido Estado de Sergipe, para a sua quinta e penúltima apresentação. Da chamada terra dos “buraqueiros”, há se ressaltar que nenhum outro município da região tem uma história cultural tão grande quanto Porto da Folha, pois em verdade os municípios de Canindé do São Francisco e Poço Redondo também faziam parte das suas terras até que ganharam suas emancipações políticas e administrativas posteriormente. Assim, Poço Redondo desponta hoje como sendo o segundo município nordestino a mais fornecer membros para o cangaço, ou seja, foram 34 filhos desse então povoado de Porto da Folha que acompanharam o bando de cangaceiros, sem esquecer do marco maior dessa história, ou seja, o local onde ocorreu o combate final de Lampião. Foi na gruta de Angico, que em 28/07/1938 Lampião e Maria Bonita, juntos com outros nove cangaceiros, foram mortos pela volante alagoana comandada pelo Tenente João Bezerra.

Com efeito, como diz o amigo escritor e poeta Rangel Alves da Costa: “Um dos fenômenos mais marcantes da história de Poço Redondo diz respeito ao banditismo social, na sua vertente cangaço, que brotou no lugar numa profusão de raízes e frutificou impressionantes consequencias. Mesmo tendo surgido em outros rincões nordestinos, foi na aridez poço-redondense que o cangaceirismo mostrou sua feição mais nítida, mais acabada, mais cruel e também a mais romântica”. Foi justamente no reinado de Lampião em Sergipe que Poço Redondo experimentou a convivência e o medo com as ações cangaceiras.

Falar em Poço Redondo sobre o cangaço e não falar do grande amigo escritor Alcino Alves Costa é a mesma coisa do cidadão ir a Roma e não ver o Papa, assim, relembrando fatos importantes, de acordo como “Caipira de Poço Redondo”, dois acontecimentos do cangaço marcaram profundamente a vida dos habitantes desse município: “Nenhum lugar, na vastidão dos campos sertanejos, viveu agonia tão grande e provações tão gigantescas como o pequenino núcleo das brenhas do Riacho Jacaré”. Por duas vezes, toda a população do então povoado Poço Redondo abandonou suas casas com medo da violência dos cangaceiros e da volante. Esses acontecimentos ficaram conhecidos como “As Carreiras”. Aquela vidinha sem novidades e aborrecimentos tinha se acabado com a chegada de Lampião em Sergipe, mais de perto, naquelas cercanias. Todas as desgraças e horrores começaram a aparecer, atingindo cruelmente as famílias e habitantes daquele abandonado pedaço do nosso pequenino Estado. O primeiro assassinato em Poço Redondo aconteceu em 1932. O cidadão conhecido por Santo da Mandassaia foi morto cruelmente por Corisco. Assustados, todos os moradores do povoado deixaram suas casas e foram morar em Curralinho, um povoado à beira do Rio São Francisco. Em Poço Redondo não ficou um só morador, daí os militares decidiram que a povoação abandonada seria um ponto estratégico para o combate ao cangaço. Uma guarnição de dez soldados, comandados pelo sargento Alfredo, se estabeleceu no local e, sabendo disso, a população que havia se mudado para Curralinho resolveu voltar para suas casas, entretanto, mesmo com a presença dos militares, os moradores de Poço Redondo continuaram sofrendo todas as represálias e malvadezas dos cangaceiros, além de sentirem na pele os seus filhos abandonarem tudo para ingressarem no cangaço. Mais adiante, em 1937, revoltados porque os soldados mataram o cangaceiro Pau Ferro, os bandoleiros assassinaram os soldados Tonho Vicente e Sisi e ainda mandaram um recado garantindo que iriam invadir a vila de Poço Redondo. O pavor tomou conta de todos. A tropa que guarnecia o povoado estranhamente teve que se apresentar ao Quartel em Propriá e novamente a população ficou órfã, sem segurança alguma. A solução foi se mudar novamente para o Curralinho, situação que perdurou até a chacina de Angico com a consequente morte de Lampião, oportunidade em que aliviados e sem nada mais temer o povo voltou para Poço Redondo.

Da história consta que a instalação do município de Poço Redondo, desligando-se política e administrativamente de Porto da Folha somente ocorreu em 6 de fevereiro de 1956, ou seja, 16 anos após o termino oficial do cangaço, com a morte de Corisco em 25 de maio de 1940.

Ainda relacionado às terras de Porto da Folha na época do cangaço, hoje pertencentes a Poço Redondo há também de se destacar o ferrenho combate denominado “Fogo da Maranduba”, ocorrido no dia 9 de janeiro de 1932, na Fazenda Maranduba, cujo intenso e sangrento tiroteio é considerado um dos três maiores enfrentamentos entre cangaceiros e policiais volantes na história do cangaço. Dizem os pesquisadores e historiadores que esse combate só é comparado à sangrenta batalha de Serra Grande, em Pernambuco e ao não menos cruento embate de Serrote Preto, nas Alagoas. As baixas em Maranduba foram muitas e das polícias volantes comandadas pelos audazes combatentes perseguidores Tenente Manuel Neto da força pernambucana, do  Capitão do Exército Liberato com a ajuda do Tenente Zé Rufino da polícia baiana, contabilizaram-se oito mortos e diversos feridos, enquanto que, por parte dos perseguidos cangaceiros somente três mortos e um ferido. Sem dúvida, uma estupenda vitória de Lampião que contava no confronto com um número de componentes inferior a três vezes ao da força policial.

Como o tema é “As Mulheres no Cangaço” não teceremos maiores detalhes sobre os homens que abandonaram as suas famílias para seguirem Lampião. Assim, das terras de Poço Redondo saíram para o cangaço as seguintes mulheres: Sila (mulher de Zé Sereno e irmã de Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro), Adília (mulher de Canário e irmã de Delicado), Enedina (mulher de Cajazeira, o Zé de Julião), Dinda (mulher de Delicado), Rosinha (mulher de Mariano), Áurea (mulher de Mané Moreno) e Adelaide (mulher de Criança, irmã de Rosinha e prima de Áurea), ou seja, um total de sete mulheres, sete valentes e destemidas guerreiras que por falta de opção ou mesmo por amor aos seus homens enveredaram na vida bandida do cangaço.

De Poço Redondo atual, não podemos deixar de citar e elogiar as ações do Grupo de Teatro e Xaxado “Na Pisada de Lampião”, criado em Julho de 1997 por Beto Patriota, Raimundo Cavalcante e Dionízio Cruz, um excelente grupo de abnegadas pessoas que aparece como mais uma iniciativa em prol de manter vivas as memórias do cangaço nesse município.

De volta a João de Sousa Lima e ao grupo teatral, os mesmos fecharam com chave de ouro as suas participações nessa turnê, aqui na nossa capital Aracaju. Bem sabido é que de Aracaju não partiu nenhum componente para o cangaço, entretanto, dessa terra, mais de perto, do Palácio do Governo na época do governador Eronildes de Carvalho, sem dúvida alguma, surgiram muitas estratégias para acobertar o cangaço, pois é fato notório que o “coronel” Antonio Caixeiro, de Canhoba, pai do citado governador, era o mais famoso e importante coiteiro de Lampião em Sergipe. Em Sergipe a polícia fazia de conta que caçava Lampião e esse, por sua vez, fazia de conta que era caçado.

João de Sousa Lima bem sabe enaltecer a forte mulher sertaneja que sem dúvida gerou uma grande referência em toda sociedade da época e deixou registrada sua passagem também nas veredas do cangaço. Todas elas tiveram grande importância no contexto histórico desse tempo. Concordamos com a opinião de que as mulheres cangaceiras vieram aplacar a fúria assassina e o desejo disforme dos seus companheiros que tanto feriram e humilharam as famílias nordestinas. Com a chegada e a permanência feminina no bando, os cangaceiros adquiriram mais respeito para com as indefesas caboclas sertanejas. Os estupros, antes presentes em quase todas as investidas criminosas, com a chegada das mulheres ao cangaço, praticamente deixaram de ocorrer.

Foi assim que eu vi e senti as boas falas do amigo João de Sousa Lima na sua irreverente palestra “As Mulheres no Cangaço”, um sertanejo, um pesquisador, um exímio escritor, um amante da nossa cultura que a despeito de todo bom e verdadeiro nordestino também cultua o grande e imortal Luiz Gonzaga, o nosso símbolo maior, o ser que conseguiu sintetizar os anseios incontidos de um povo através da cadência que intercala os sons da sanfona, do triângulo e da zabumba expressando o mais refinado circuito musical então existente na nossa história.

Privar da amizade de João de Sousa Lima é um privilégio que enriquece positivamente as relações de qualquer ser humano. João de Sousa Lima, além de tudo, sem dúvida alguma, é um cidadão possuidor de grandes virtudes, as quais se encontram indissociavelmente vinculadas ao código de honra de um povo forte, o povo sertanejo e nordestino que tanto nos orgulha.

Aracaju, 28 de setembro de 2012.

Archimedes Marques. (Delegado de Polícia em Sergipe, escritor do livro LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE e eterno estudante dos assuntos relacionados ao cangaço)


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LAMPIÃO E VOLTA SECA EM ITABAIANA | CNL | 490

Por O Cangaço na Literatura

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