Por Antonio Corrêa Sobrinho
A PSICOLOGIA
DO CANGACEIRO
O BANDITISMO
NOS SERTÕES DO NORDESTE BRASILEIRO
UM ENSAIO
POLÍTICO-SOCIAL
(Especial para o GLOBO)
JUAZEIRO DO
PADRE CÍCERO – POTÊNCIA FORA DA LEI INCRUSTADA COMO UM CANCRO NO ESTADO DO
CEARÁ
AS CONCLUSÕES
DE UM ENSAIO POLÍTICO-SOCIAL
CAPÍTULO VII
Compreende-se
bem que, com o rompimento do Ceará ao convênio pernambucano, torna-se dificílima
a captura de Lampião, de Massilon, de Sabino Gomes, dos irmãos Marcelino, e de
outros facínoras, desde que as forças aliadas não podem mais atravessar o
território daquele Estado em sua perseguição.
Acossados, eles internam-se nos sertões do Ceará, onde se refazem de armas,
munição e mantimentos, e onde se acham garantidos pelos chefes políticos
locais, seus protetores ostensivos, tais como os membros das famílias
Sant’Anna, Chicote e Arruda, e, acima de todos, o padre Cícero, do Juazeiro.
Para se ter uma ideia do que é o Juazeiro e da proteção que naquele reduto
gozam todos os criminosos, basta ler-se o interessante livro de Lourenço Filho
– “O Juazeiro do Padre Cícero”.
O Juazeiro – diz ele à página 161 – “se tornou um Estado no Estado, sem outra lei
senão a do arbítrio de seus chefes, com forças armadas próprias, justiça
própria, moral e religião especialíssima; e, nessa situação fantástica, “ainda
hoje permanece.”
Não há quem ignore que o presidente Artur Bernardes incumbiu o falecido
deputado federal Dr. Floro Bartolomeu de organizar nos sertões do Ceará um
batalhão patriótico para auxiliar o exército nacional na perseguição aos
revoltosos da coluna Prestes; e o Dr. Floro, que era o alter ego do padre
Cícero, chegando ao Juazeiro, não teve a menor dificuldade em organizar o
referido batalhão, composto de 800 homens, em grande parte criminosos, que
foram armados de fuzis Mauser e fartamente municiados.
Há quem conteste que Lampião e seu grupo de 50 cangaceiros (inclusive ele)
fizesse parte do batalhão patriótico do Dr. Floro; mas, se não fez, foi porque
não quis, porquanto o Dr. Júlio Ibiapina, diretor do jornal “O Ceará”, de
Fortaleza, achando-se nesta capital em janeiro deste ano, deu uma entrevista ao
matutino “A Manhã”, publicada no dia 7 do mesmo mês, na qual disse o seguinte
(textual):
- “Quando, no meu Estado, cogitaram de organizar o célebre batalhão patriótico,
Lampião foi convidado pelo “general” legalista para assumir uma posição “de
comando” (!) nas hostes governistas.
Essa declaração foi feita pelo padre Cícero ao meu jornal “e pelo próprio
Lampião, em entrevista que nos concedeu”! (Os grifos são nossos).
Só ultimamente é que se verificou o rompimento de relações entre esse famoso
bandido e os seus protetores, desinteligência que foi até registrada pelos
vates do sertão. Por mero acaso, ele não é hoje um herói nacional, depois de
ter sido, durante muito tempo, um colaborador dos políticos do sertão.”
E tanto isto é verdade que, quando o batalhão patriótico estava em pé de guerra
no Juazeiro, Lampião entrou na cidade à frente de seu grupo, e lá se manteve
durante o tempo que entendeu, sem ser de leve incomodado.
Ouçamos o que diz Lourenço Filho a este respeito:
- “Afrontando o próprio batalhão patriótico de Floro Bartolomeu, entrou no
Juazeiro ostensivamente com toda a sua gente, o temível bandoleiro Virgulino
Ferreira da Silva, o celebérrimo Lampião, e estripador de crianças e
incendiário, “rei do sertão”, que ainda há pouco declarou guerra oficialmente
aos governos da Paraíba e Pernambuco! Os bandoleiros chegaram via Barbalha,
permanecendo até às 10 horas da noite nas imediações da fazenda do deputado
Floro Bartolomeu, quando se transportaram ao centro da cidade, hospedando-se em
casa de um dos tipos sui generis do Juazeiro, o poeta popular João Mendes de
Oliveira, que se intitula jocosamente – “Historiador brasileiro e negociante”.
Vinham muito bem armados de rifle ou fuzil Mauser, revólver e punhal; à cintura
traziam 3 ou 4 cartucheiras, acondicionando nelas, cada homem, um total de 400
balas!
Tendo o jornal “O Ceará” mandado alguém perguntar ao padre Cícero Romão Batista
porque não mandava prender Lampião, pois que tinha ao seu dispor 800 homens
armados e municiados do batalhão patriótico, ele respondeu, textualmente:
- Não, meu amiguinho, Lampião procurou o Juazeiro com intuitos patrióticos;
(sic!) ele pretende alistar-se nas forças legais para dar combate aos
revoltosos. Uma vez vitorioso, espera que o governo lhe perdoe os crimes.
Este homem, que veio ao Juazeiro, “confiado em minha proteção”, pretende se
regenerar.
Se não for possível alistá-lo nas forças legais, eu o encaminharei para Goiás,
onde levará vida honesta, como já fiz com Sinhô Pereira e Luiz Padre. Está mais
ou menos demonstrado que os governos de Pernambuco e Paraíba não conseguirão
prender Lampião, entregando-o, e o seu bando, à Justiça. Eu consigo que Lampião
se vá embora para muito longe, e assim ficaremos livres dele.
Porém mandar prendê-lo aqui, em Juazeiro, nestas circunstâncias?! Era um ato de
revoltante traição, indigno de qualquer homem, quanto mais de um sacerdote
católico!
- Mas, padre Cícero, retrucou o jornalista, o governo pode perdoar criminosos
comuns?
- Pode, meu amiguinho, pode...
E o historiador termina esse capítulo com as seguintes palavras: - Lampião é um
expoente, apenas, da malta de celerados que têm feito do Juazeiro o seu
quartel-general”.
(Lourenço
Filho. Obra citada, páginas 216 e 218).
A título de
curiosidade, reproduzimos aqui o fac-símile de uma carta de Lampião (que se
assina O Capitão) na qual o atrevido bandido ameaça o sargento comandante do
destacamento policial de Juazeiro, José Antônio do Nascimento.
Este autógrafo foi estampado pelo jornal “Correio do Ceará”, em seu número de
31 de março do corrente ano, acompanhado da seguinte apreciação: - A publicação
do presente autógrafo dispensa qualquer comentário em torno das imunidades de
que se julga investido o audaz e famigerado bandido.
Tiramo-lo do livro de Lourenço Filho que também o estampou. E é de notar a
audácia com que o bandido escreve e a franqueza com que ele diz – “que vem
chamado por homem”. Eis o texto da carta:
“Ilmo. Sr.
José Antônio.
Eu lhe faço esta, até não devia me sujeitar a ti escrever, porém sempre mando
te avisar pois eu soube que no dia que cheguei aí na fazenda esteve pronto para
vir me voltar porem, eu sempre lhe digo que você crie juízo, e deixes de
violências a pois eu venho chamado é por homem, mesmo assim, com a suada não me
faz medo. Eu tenho visto, é, cousa forte, e não me assombro, por tanto deve e
tratar de fazer amigos não para fazer como diz você. Sempre lhe aviso, que é
para depois não se arrepender e na mais não se zangue, isto é um conselho que
lhe dou.
Do capitão – Virgulino Ferreira da Silva.”
Ora, à vista
de uma proteção tão escandalosa, não é de admirar, como pensam os jornais
cariocas, que Lampião e outros chefes de bandos criminosos não tenham ainda
sido mortos ou presos, mormente enfrentam as forças que os perseguem, e, ainda
assim, somente quando surpreendidos.
Ainda recentemente, a 2 de setembro corrente, o “Globo” publicou um telegrama
de Fortaleza, no qual se dizia que o tenente Manoel Firmo, comandante do
destacamento policial de Juazeiro, se achava ameaçado de morte devido a sua
atitude querendo perseguir Lampião. – “Esse oficial (diz o telegrama) dera uma
entrevista comprometedora para o major Moisés, comandante das forças cearenses,
no sertão; e tão graves foram as suas revelações, que determinaram a abertura
de um inquérito.
“Houve, porém, quem tomasse as dores do major Moisés e dirigisse sérias ameaças
ao tenente Firmo que, sentindo-se sem garantias de vida em Juazeiro, pois fora
ameaçado de morte pelo próprio prefeito de Missão Velha, Sr. Oseias Arruda,
viu-se forçado a telegrafar ao comandante do Regimento Militar, que o chamou a
Fortaleza, por ordem do governador do Estado.
Cremos que não
é preciso dizer mais para patentear as dificuldades quase insuportáveis com que
está lutando o Dr. Eurico de Souza Leão, chefe de polícia de Pernambuco, para
exterminar Lampião e os seus companheiros de crime.
Por isso foi que o Dr. Estácio Coimbra, quando o chefe de polícia do Ceará
pediu a retirada das forças pernambucanas do território cearense, respondeu ao
Dr. Moreira da Rocha, governador daquele Estado, com um telegrama já divulgado,
no qual disse o seguinte: - “Começo a persuadir-me de que só a interferência do
governo da União, sobrepondo-se nos melindres regionais e aos interesses
subalternos de protetores de bandidos, poderá extirpar dos sertões do Nordeste
a vilta ignominiosa do cangaceirismo”.
De fato, só com a intervenção do governo federal poder-se-á extinguir o foco de
criminosos que é o – Juazeiro do padre Cícero – arraial e feira, antro e
oficina, centro de orações e hospício enorme, como o qualificou Lourenço Filho.
Enquanto existir o Juazeiro atual e o grande protetor de assassinos, que é o
padre Cícero Romão Batista, como ele próprio confessou quando recusou prender
Lampião, o cangaceirismo continuará a devastar os sertões do Nordeste.
A cidade de Juazeiro, situada na região fertilíssima do Cariri, verdadeiro
oásis no centro de desertos e que bem poderia ser o celeiro abastecedor doas
zonas martirizadas pelas secas periódicas, não passa ainda hoje de um viveiro
de criminosos – potência fora da lei incrustada como um cancro no estado do Ceará
– reduto fortificado por trincheiras com mais de 3 léguas de extensão
circundando toda a cidade, e onde não falta, como em Canudos, uma igreja que
mal dissimula uma verdadeira fortaleza.
Amanhã, com o desaparecimento do padre ou por qualquer motivo político, aquilo
se transformará de um momento para outro em um segundo. “Canudos”, repleto de
bandidos e de fanáticos, sorvedoiro de dinheiro e de oficiais e soldados do
exército nacional, sacrificados à incúria de dezenas de anos, quando os
governos do Estado e da União se resolverem intervir, tarde demais, para varrer
aquela vergonha do solo brasileiro.
Enquanto isto se não dá, e não obstante todos os tropeços, Dr. Eurico de Souza
Leão, chefe de polícia de Pernambuco, não esmorece na campanha, para sanear, ao
menos, o sertão de Pernambuco.
Os jornais cariocas, de quando em vez, inserem telegramas do Norte noticiando,
ora as mortes em combates, ora as capturas de mais bandidos pelas forças
pernambucanas.
Tenhamos, pois, a esperança de que afinal o terrível celerado Virgulino
Ferreira da Silva, o Lampião, e os facínoras que o cercam caíam em poder dos
abnegados soldados pernambucanos, que não desfalecem na perseguição tenaz que
lhes movem, chegando ao ponto (como têm salientado os jornais de Recife) de
permanecerem nas caatingas, ali recebendo o soldo, ali se alimentando e
dormindo ao relento, no cumprimento do dever.
Que tanto esforço seja coroado de êxito, para glória do atual governo de
Pernambuco, são os votos de todos os brasileiros!
Fim
Justiniano de Alencar
Fonte: facebook
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