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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Tenente Pompeu e a Morte de Virgínio

Por: Aderbal Nogueira

Aderbal Nogueira e Aldo Anísio
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             Companheiros de Cariri Cangaço,

           Segue um trecho importante que gravei com meu amigo Ten. Pompeu Aristides de Moura, em 1996. Vejam que coisa: Estava eu batendo, literalmente, de porta em porta em um bairro meio antigo de Arcoverde - Pernambuco, tentando encontrar alguém da época do cangaço, quando vi um senhor de aproximadamente 90 anos em um portão e, ao interpelá-lo ele me disse que não era dali, era de São Paulo.       
            Nessa mesma hora uma criança passava correndo na calçada e ouviu a conversa, voltou correndo e disse - " meu avô brigou com Lampião e ele mora bem ali". Pois bem, era o Ten. Pompeu, uma pessoa maravilhosa, de quem fiquei amigo e admirador. 


            Nessa época não pertencia à SBEC e nem conhecia o monossilábico amigo Paulo Gastão, a quem tempos depois levei para conhecer o Ten. Pompeu.
 
Paulo Gastão e Aderbal Nogueira
 
             Nesse primeiro contato gravei aproximadamente 8 horas com ele e um dos fatos é esse que envio a vocês  - "A morte de Virgínio e uma perseguição ao bando em Serrinha do Catimbau".
 
Bando de Virgínio Fortunato

           Quase uma década depois, ciceroneado pelo amigo Vilela; que apesar do tênis vermelho e do bornal coloridíssimo; é um cabra arretado de quem eu tenho orgulho de ser amigo, desses que a gente guarda do lado esquerdo do peito,
 
Antônio Vilela ao lado de dona Belizia
 
nos guiou por Serrinha do Catimbau onde pude gravar os outros dois depoimentos das senhoras Josefa e Maria do Carmo, que foram testemunhas oculares do ataque de Lampião àquela localidade e na qual o Tenente Pompeu veio em perseguição ao bando.
 
Bando de Lampião
 
Espero que gostem do vídeo.

 
Aderbal Nogueira
 
 
Extraído do Blog: "Cariri Cangaço"
 
 
Comentário sobre o vídeo de Aderbal Nogueira
Por: Ivanildo ALves da Silveira

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgry747JaM6E0Qh1V0zoIi_6lC1zibnDxXUzscvh_HoGC3N5tzp8BJlmRqCUlqwc3FrqeaoVondKcjlu8LVld4Mphtl0zAvVd0LvrIhZe_Ber135LFl4rVzChRrPKh74rAsKuwjw_Wptg/s320/IVANILDO+(543).JPG

    Observo nesse importante vídeo do rastejador Aderbal , o seguinte:

            1º) Não se sabe exatamente, qual o soldado que matou" VIRGÍNIO", cunhado de Lampião, pois eles atiraram simultaneamente no grupo de cangaceiros, conforme relata o Tenente Pompeu.

            2º) O Tenente Pompeu informa que em um combate no Estado de Alagoas, as "balas" usadas pelo grupo de Lampião, eram do ano de 1932, enquanto que as usadas pela polícia datavam de 1912/13.

            Se nós vermos o depoimento do Tenente Zé Rufino, no documentário de Paulo Gil, "Memória do Cangaço", o mesmo informa, exatamente, o que o Tenente Pompeu narrou, logo acima, ou seja, as "balas" usadas em combate pelo grupo dos cangaceiros de Lampião, eram sempre "Balas Novas", enquanto a polícia usava uma munição mais antiga.

            3º) O Árabe Benjamin Abrahão, o qual filmou Lampião e seu grupo, foi encontrado várias vezes na caatinga à procura do chefe cangaceiro, sem que a polícia o repreendesse, ou tomasse qualquer atitude contra o mesmo.

Benjamim Abraão

             4º) No combate de Serrinha do Catimbau/PE, Lampião teve sua amada (Maria Bonita) ferida, com uma certa gravidade, além de ter perdido um cachorro, que foi fuzilado pelo grupo de civis, que defenderam aquele arraial do ataque cangaceiro.

A rainha do cangaço Maria Bonita
  
     5º) Comungo com o pensamento daqueles que entende, que ainda, falta muita coisa a ser estudada/explorada no ciclo cangaceirístico.

              6º) O amigo Aderbal possui as grandes qualidades de preservar a memória do cangaço, além de partilhar com os amigos, as informações e os fatos que detém, em seu acervo, O que não acontece, infelizmente, como muitos estudiosos do cangaço.

              É por ai....

Abraço a todos.
IVANILDO SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Natal/RN

"Amigo: Tu és culpado também de eu te amar"

Por: Kátia Regina Corrêa Santos

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"AMIGO: TU ÉS CULPADO TAMBÉM DE EU TE AMAR"

Me imagino juíza e bato o martelo e declaro:
amigo, tu também és culpado de eu te amar,
é sim, porque tu também te fizeste ser amado,
ser querido, estimado, cativado e conquistado.

Pois, na vida encontramos inúmeras pessoas,
que às vezes suportamos, toleramos, odiamos,
ou que fazemos um grande esforço de amar,
existem pessoas que simplesmente amamos.

E não sabemos como explicar este amor,
este milagre que ocorre no coração humano,
é uma experiência maravilhosa este amor,
quando o outro também se deixar amar.

A vida promoveu este nosso encontro,
e nos tornamos amigos, parentes, irmãos,
por isto não só eu tenho culpa de te amar,
tu também tens culpa de me fazer te amar.

Estamos, pois sentenciados por lei ao amor,
a amar, a morarmos um no coração do outro,
a destruirmos os poderosos muros da solidão,
a sermos felizes sendo bons amigos, irmãos.

A experiência de amar e se deixar amar,
revelam que Jesus tinha e tem toda razão,
de ter indicado como distintinvo do cristão,
(João 13, 34-35)
a amor: força que retira o egoísmo do coração.


 

OBRIGADO PELA VISITA!

Kátia é professora em Bragança, no Estado do Pará.

Extraído do blog: "Só os apaixonados por Jesus"

terça-feira, 17 de maio de 2011

Meus olhos viram novamente tanta beleza...

 Por: João de Sousa Lima
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            Um dia, em um passado ainda próximo, falei de momentos tão belos que meus olhos viram. Desejei ver tudo novamente; O destino brincou de ironizar com minha visão: Tive graves momentos visuais, lutei, superei, sem antes, homem rude como sou, ajoelhar-me aos pés do Cristo Piedoso; Implorei mais uma chance, o Misericordioso Homem de Deus atendeu meu pedido: Avistei velhos amigos, abracei todos, como se fossem meus últimos dias, senti a vida acarinhando meu coração ainda assustado.

             Nas colinas verdejantes avistei distantes paisagens, respirei os ares vindos das terras dos Cariris, ventos circundantes nas Serras do Araripe. Senti frio, ouvi o assovio dos redemoinhos enquanto fitava aquela imensidão bela. Nos chalés acolhi-me cansado e feliz por jornadas diárias, todos os dias. Pisei solo sagrado do Beato Zé Lourenço.
 
José Lourenço Gomes da Silva
 
             Visitei cruzes aonde a morte chegou sem avisar e sem perdão, senti os remorsos dos dias passados, cruzes erguidas em solo seco e pedregoso, o silencioso Alto do Leitão.
 
Padre Cícero
 
             A história ainda latente em um casarão de tantos anos atrás. Nas paredes marcas de uma defesa talvez inexistente, nas torneiras, paredes furadas, sangrias no barro, defesa de homem polêmico, Cícero Romão Batista, adorado por tantos fiéis, ignorado por leis católicas.


            Homenagem em vida, ao grande Mestre, meu Mestre Amaury, emoção, tímidas lágrimas, merecedor do pouco que se fez, merecedor do muito que se faça, Mito das Letras, da História Oral, perseguidor Incansável das tantas histórias, maior conhecedor delas. Uma simples placa e um coração de amigo junto.
 
Antonio Amaury e João de Sousa Lima 

             Vi um menino ligeiro, correndo sem parar, sorriso sempre presente, como se não houvesse falhas, cansaço ou qualquer pingo de desânimo. Menino grandioso, sorriso farto, abraço verdadeiro: Menino Severo, Severo amigo, Severo Presente, presente da vida; Severo: Digno de ser amado por todos.
 
Manoel Severo e João de Sousa Lima

             Aprendi muito, com palavras de tantos, com as vozes de todos; Sonhei nas imagens do tempo, no tempo do Luiz Lua Gonzaga, sonhos do passado esbranquiçado em películas; Sorvi a semente plantada por Seraine, no canto e no aboio do Rei do Baião.
 
Luiz Gonzaga

               Meus olhos viram tudo de novo, visualizei amigos, abracei tantos; Beijei faces, amei pessoas reais. Vi o belo, como desejei, como pedi novamente; na solicitude de homem rude descobri misericórdia. A vida bela sorriu-me e ingenuamente pedi a Deus para permitisse ver tudo de novo e quando chegar um novo Cariri Cangaço, eu quero estar lá, quero ver as paisagens belas do Cariri, quero abraçar amigos, subir nos tablados, fazer homenagens, ouvir cantos, me encantar com palavras, saber mais das histórias, aprender com tantos, ouvir o canto do vento, no redemoinho do tempo...

               Permita-me Deus, ainda ver outros Cariris Cangaço, entrego-vos meus olhos, em ti descanso, me regojizo, espero; Pagarei com amor ao próximo, amando os amigos, apreciando tuas obras, a natureza fecunda que circunda os Vales Cearenses.
 

João de Sousa Lima
Poeta, pesquisador e escritor
Paulo Afonso BA
 
 
Extraído do blog: "Cariri Cangaço", do amigo Manoel Severo

Maria de Juriti, uma cangaceira na Grota do Angico

Por: João de Sousa Lima 
           Maria de Juriti foi uma das cangaceiras que escaparam do combate na Grota do Angico, porém decidiu levar sua vida sem falar nada com ninguém, morreu sem dar entrevistas.
 
           Poucos meses antes de sua morte estive em sua residência, acompanhado pelo cineasta Wolney Oliveira e por mais que maior que fosse nossa insistência para colher alguma informação, mais o silêncio dominava o ambiente e por último ela reclamou dizendo que poderia ter uma "parada do coração" e aí tivemos que nos contentar com apenas algumas fotografias.
 
Wolney Oliveira
 
              Recentemente recebi em minha casa a visita de um dos filhos da cangaceira, trazendo um caderno com riquíssimos depoimentos da mãe, colhidos por ele. o caderno me foi presenteado e sobre a vida dela será lançado um capítulo interessante, em um futuro bem próximo.
 
 
O conteúdo acima é do escritor e pesquisador do cangaço "João de Sousa Lima"

Lampião e Juriti

                Segundo o escritor e pesquisador do cangaço, Alcindo Alves Costa, o verdadeiro cangaceiro com o apelido Juriti, foi "João Soares", que fazia parte do grupo dos Marinheiros, e na década de vinte, já era vulgarmente chamado de Juriti. 
              Era lá do Salgado do Melão, no Estado da Bahia, e incorporou-se ao bando de cangaceiros por meio de fazendeiros amigos de Lampião.      
            Era um dos facínoras mais valente, genioso e perverso ao extremo. Com esses adjetivos todos,  fez com que Lampião o contratasse para fazer parte do seu bando, e   no cangaço recebeu o apelido de Juriti,  deixando de lado o nome Manoel Pereira de Azevedo, para assumir este apelido. 
 
Lampião e Juriti
 
             Os escritores, pesquisadores e historiadores do cangaço, calculam que Lampião passou mais de vinte anos invadindo e bagunçando os Estados do nordeste brasileiro, os quais foram: Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco (sua terra natal), e Sergipe.
 
               Mas  na madrugada de 28 de julho de 1938, Lampião e mais 10 cangaceiros, inclusive a sua rainha Maria Bonita,  foram assassinados pelas volantes comandas pelo Tenente João Bezerra, que fizeram o cerco, e conseguiram chacinar o mais temido cangaceiro nordestino.

Clique para Ampliar
João Bezerra sentado à esquerda

           Após a chacina os cangaceiros ficaram órfãos de pai e mãe, Lampião e Maria Bonita estavam mortos, e como não tinham mais quem os protegessem, a solução seria: ou fugir para outras regiões do Brasil, ou enfrentarem os sofrimentos nas cadeias, já que mesmo tendo sido desmontado o movimento social de  cangaceiros, as autoridades policiais não deixariam impunes os que haviam participado do movimento, e iriam procurar cangaceiros por todas as caatingas nordestinas.

Juriti
             Na madrugada que aconteceu a chacina na grota de Angicos, no Estado de Sergipe, muitos cangaceiros conseguiram furar o cerco, e se mandaram em busca de lugares seguros, entre os que escaparam, estavam Juriti e sua companheira Maria.
           
              Juriti e sua esposa foram presos e posteriormente liberados para participarem novamente da vida livre. Mas Infelizmente o cangaceiro Juriti foi assassinado no ano de 1941, em Canindé do São Francisco, no Estado de Sergipe,  pelo delegado Deluz.
 
              Mesmo ele sabendo que muitos cangaceiros já tinha em mãos a carta de soltura, doada pelo capitão Aníbal Vicente Ferreira, comandante geral das forças de combate ao banditismo no nordeste, o delegado Deluz continuava procurando remanescentes de Lampião, encontrou Juriti, e fez a maior atrocidade contra o rapaz, o cangaceiro foi algemado e colocado dentro de uma foqueira.
  
 
Este artigo que eu organizei, tem uma participação do blog:
"Portal do Cangaço"
 
Participe sempre deste: 
"Blogdomendesemendes.blogspot.com"
com suas opiniões e comentários.
 




segunda-feira, 16 de maio de 2011

Jararaca - o infeliz cangaceiro

Por: José Mendes Pereira


           A história sobre a tentativa de invasão a maior cidade Potiguar, "Mossoró", no dia 13 de Junho de 1927, pelo ainda não tão famoso, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi contada por vários escritores, pesquisadores e historiadores do nordeste brasileiro.

Bando de Lampião
Foto do Blog: "Tok de História"

            Apesar de ter sido considerado como grande estrategista, quando dominava o seu respeitado bando de cangaceiros, mas mesmo assim Lampião bobeou, em mandar um bilhete para o então prefeito Rodolfo Fernandes, comunicando-lhe a sua entrada em Mossoró. Se ele tivesse entrado sem comunicar que estava disposto a fazer a invasão à cidade, teria levado o que ele mais desejava: dinheiro, ouro...

 
Prefeito de Mossoró

           Como não chegou as suas mãos confirmação da quantia solicitada, ao meio dia e meia Lampião escreveu o segundo bilhete. Novamente incumbiu o capanga para que o levasse até a casa do prefeito. E desta vez já com ameaças, caso não lhe fosse atendido o segundo bilhete, não demoraria fazer a invasão, e não se responsabilizaria pelos estragos.

Foto do Palácio da Resistência em Mossoró

            Mas Rodolfo Fernandes amante de Mossoró e zeloso com a sua patente de "coronel", achando que Lampião era quem deveria fazer continência ao passar por ele, já que era apenas capitão, e vendo que o bandido estava disposto a bagunçar a sua amada cidade, disse que não enviaria quantia nenhuma para bandidos, principalmente Lampião que levava a vida roubando dos outros.
            Não arriscaria afirmar que ele não levava as minguadas reservas da  Prefeitura, mas não pensasse que ele iria ficar nas esquinas de braços cruzados, só olhando ele colocar em seu bornal o que não era seu, ou entregar o ouro na bandeja aos bandidos.
           Como não foi enviado a quantia solicitada, Lampião e seu bando deram início ao combate, vingando o desrespeito do prefeito, por não atender a sua solicitação.

O cangaceiro Jararaca

            Como o prefeito  estava preparado para defender a cidade, vendo que não teria sucesso no combate, Lampião se considerou vencido, saindo às carreiras em busca do Estado do Ceará, deixando para trás o cangaceiro Colchete, já morto, e o afamado Jararaca baleado, que se perdera do seu bando.
             No dia seguinte, Jararaca foi preso e levado para a cadeia pública de Mossoró, que não levando sorte, foi covardemente assassinado pelas autoridades.
 
 José Mendes Pereira

Como morre um cangaceiro

           Antes de ser executado, Jararaca riu com as lembranças de sua vida ao lado de Lampião
Leia o que disse  Xico Sá, sobre o que escreveu o jornalista Lauro da Escóssia, na entrevista que fez com o cangaceiro Jararaca


              Um dia depois do combate, quando o povo de Mossoró ainda temia o possível retorno de Lampião sequioso por vingança, um dos principais cangaceiros do bando, Jararaca, foi capturado se arrastando por um matagal. O que se deu a seguir foi um roteiro tragicômico, conforme a narrativa de Lauro da Escóssia, então repórter do jornal O Mossoroense.       
             O nome do pernambucano Jararaca era José Leite de Santana. Ele tinha apenas 22 anos  nos registros policiais, contudo, aparece com 26. Mesmo com um rombo de bala no peito, conseguiu gargalhar durante uma entrevista na cadeia.
            O cabra de Lampião dizia que era por causa das lembranças divertidas do cangaço. Entre as memórias que ouviu do preso, Lauro da Escóssia descreve o dia em que Lampião teria invadido a festa de casamento de um inimigo e, com seu próprio punhal, sangrado o noivo. Já a noiva teria sido estuprada na caatinga pelos cabras do bando.
             Segundo o relato de Jararaca, Virgulino também ordenou que os convidados de um baile tirassem as roupas e dançassem um xaxado completamente nus.

Vera Ferreira - Neta de Lampião e Maria Bonita

            Vera Ferreira, neta de Lampião, que hoje cuida das memórias do avô em Aracaju, Sergipe, vê muito folclore nesse tipo de história. Nega, a partir das suas pesquisas, que o cangaceiro tenha ordenado ou praticado estupros (ela é co-autora do livro independente De Virgolino a Lampião, que escreveu com o pesquisador Amaury Corrêa, dono de um dos maiores acervos sobre o rei do cangaço, em São Paulo).

Antonio Amaury

           Fato é que, na cadeia, Jararaca virou atração pública na cidade potiguar. Quando já apresentava alguma melhora do ferimento, mesmo sem ser medicado, ouviu que seria transferido para a capital, Natal. Era mentira.
           Alta noite, da quinta para a sexta-feira, levaram Jararaca para o cemitério, onde já estava aberta sua cova, relata Escóssia. Pressentindo a armação, Jararaca diz: "Sei que vou morrer. Vão ver como morre um cangaceiro!".

Capitão Abdon Nunes

            O capitão Abdon Nunes, que comandava a polícia em Mossoró, relatou dias depois os momentos finais do capanga de Lampião: "Foi-lhe dada uma coronhada e uma punhalada mortal. O bandido deu um grande urro e caiu na cova, empurrado. Os soldados cobriram-lhe o corpo com areia".
             Pelas circunstâncias da morte, o túmulo de Jararaca virou local de romaria. Até hoje as pessoas rezam e fazem promessas com pedidos ao cangaceiro executado. Na terra do Sol, Deus e o Diabo ainda andam juntos.

Túmulo do cangaceiro Jararaca
Foto do acervo Ivanildo Alves da Silveira
           Mas me parece que o cangaceiro Jararaca está perdendo a sua santidade. Como eu sou um cativo visitante daquele túmulo, não tenho visto mais velas acesas e nem tão pouco, restos de parafinas.
            Não é de se admirar, nos dois últimos anos foram sepultados dentro da capela de São Sebastião, no próprio Cemitério onde estar o Jararaca, duas grandes ovelhas de Deus, o Monsenhor Américo Vespúcio Simonetti, que dirigia a Diocese de Mossoró, e as três emissoras, "Rural". 

Monsenhor Américo Vespúcio Simonetti
Ex-diretor da Diocese de Mossoró

           Também foi sepultado nela, o Padre Guido, pároco da Igreja de São José, e diretor do Abrigo Diamantino Câmara.

Padre Guido
Ex-pároco da Igreja de São José

           Eu acredito que por ele ter visto a chegada destas duas ovelhas de Deus, anda se escondendo dos fiéis, para que eles não descubram a sua falsa santidade.  

Marcas da Passagem de Lampião pelo RN

Por: Rostand Medeiros
Rostand Medeiros e Manoel Severo
 
A História da Capela de São Sebastião
 
            Recentemente tive a oportunidade de concluir um amplo trabalho de catalogação sobre o que ficou em termos de memória e de patrimônio histórico, relativo à passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande do Norte, entre os dias 10 e 14 de junho de 1927, cujo principal objetivo era o ataque à cidade de Mossoró 
            Apoiado pelo SEBRAE-RN, este trabalho é parte integrante do "Território Sertão Apodi - Nas Pegadas de Lampião", onde o âmago deste projeto está focado na ideia do desenvolvimento territorial de diversos municípios potiguares. Sua fonte de inspiração gravita na estética do cangaço e do sertão, onde o projeto busca criar novos produtos e oportunidades de negócios com base na ideia de "culturalização" da economia, do turismo e do artesanato, ou seja, usar a cultura para agregar valor aos negócios e as atividades econômicas. Como é normal por parte do SEBRAE-RN, busca igualmente desenvolver a região por meio do estímulo ao empreendedorismo, à capacitação, à qualificação e à gestão dos negócios, sempre valorizando as vocações e atividades já existentes no território.


            No meu caso específico, a minha participação neste projeto foi buscar de todas as formas percorrer o mesmo caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros. Para traçar esta rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte Paraíba e de Pernambuco. 
 

O rei Lampião

            Outro recurso para traçar esta rota foi a utilização de mapas elaborados pelo Exército Brasileiro na década de 1960, em escala de 1:100.000, que tinham como principal valor, apontarem as velhas rotas entre as propriedades rurais. Buscamos as informações existentes neste material mais antigo, com a utilização de sistema G.P.S - Global Position Systen. Isso tudo sem desprezar as informações das populações destas localidades, que parecem já terem nascido com um G.P.S. embutido na cabeça, mesmo em muitos casos ainda utilizando como medida de distância a velha e boa "légua". Após esta fase, partimos para os contatos com órgãos municipais, em busca de apoio e iniciamos o trabalho de campo.
             Após seis meses, foram percorridos, entre idas e vindas, mais de 4.000 quilômetros, onde visitamos 82 sítios, fazendas, comunidades e cidades. Foram entrevistadas 123 pessoas e obtidas mais de 2.185 fotografias. Em grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais eficiente para se alcançar estes distantes locais.
             Os resultados foram extremamente satisfatórios. Apontamos em nosso relatório para o SEBRAE-RN a existência do patrimônio histórico (casas atacadas, locais de combates, etc.), de locais utilizados em prol da memória relativa a estes fatos e os apontamentos transmitidos pelos descendentes daqueles que vivenciaram estes episódios, tentando conhecer o que ficou da passagem de Lampião.
             Um dos aspectos mais interessantes não aponta apenas para os relatos de lutas, resistências, arroubos de valentia, covardias, ou sobre o alívio em relação à fuga dos cangaceiros. Foi possível encontrar em alguns locais, interessantes situações originadas pelo medo da passagem de Lampião, que geraram manifestações que se perpetuam até hoje.


             Comento especificamente sobre uma ermida encontrada no alto de um promontório denominado Serra da Veneza, próximo ao sítio Garrota Morta, na fronteira entre os municípios de Antônio Martins e Pilões. Nesta elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado pela passagem do bando.


           Primeiramente havíamos recebido uma informação que este pequeno templo fora erguida pelo fazendeiro Manoel Barreto Leite, conhecido na região como "Seu Leite", proprietário de um sítio conhecido como Veneza e localizado próximo a esta serra. Esta informação dava conta que todos os anos, a família do proprietário rural mandava rezar uma missa como forma de marcar mais um aniversário da libertação de Barreto do julgo do bando. Tanto a construção da capela como a missa rezada anualmente eram parte de uma promessa que devia ser cumprida pela família Leite.


            Na tarde do dia 11 de Junho de 1927, um sábado, quando empreendia uma viagem, na altura do sítio Corredor, a cerca de dez quilômetros de sua propriedade, o fazendeiro Manoel Barreto Leite, foi capturado pela fração do bando comandado por Sabino. Sua libertação foi orçada em cinquenta contos de réis. O mesmo só foi libertado em Limoeiro, atual Limoeiro do Norte, no Ceará, após a derrota do bando em Mossoró.

O cangaceiro Sabino Gomes

            Manoel Leite era um homem conhecido na região, que possuía bons recursos financeiros e extremamente respeitado, por esta razão a existência da capelinha branca no alto da serra homônima de sua propriedade, ficou associada a uma promessa feita pelo fazendeiro sequestrado.
             Mas conforme seguíamos o trajeto, ao perguntarmos sobre este caso, percebemos o desconhecimento das pessoas da região em relação a esta versão. Buscamos apurar os fatos e no sítio Garrota Morta localizado nas proximidades desta serra, encontramos uma senhora chamada Maria Eugenia de Oliveira (Foto) que esclareceu a verdade sobre esta capela.
             Esta senhora, pequena na estatura, mas é forte, voluntariosa, possui uma voz firme e olha direto no olho do interlocutor. Maria Eugenia é daquelas de ficar em casa vendo novelas, já está na faixa dos cinquenta anos, mas todo santo dia trabalha voluntariamente como animadora da congregação católica local. Participando ainda como catequista e ministra da eucaristia. Há alguns anos atrás, por sua própria iniciativa, em meio a este trabalho religioso ela iniciou uma pesquisa histórica com as pessoas mais idosas da sua região, onde apurou entre outras coisas a origem dos nomes dos logradouros, as histórias relativas as famílias da região e os fatos históricos mais representativos do lugar. Mesmo anotando estas informações em um caderno simples, através de sua louvável e comovente iniciativa, foi possível conseguir as informações sobre a origem desta capela.

Maria Eugenia

            Segundo Maria Eugenia foram as idosas moradoras conhecidas como "Francisca do Uru" e "Francisca da Garrota Morta", que lhe narraram os fatos que a comunidade local considera um verdadeiro milagre.
             Na noite de 10 de Junho de 1927, quando Lampião e seu bando se  aproximavam da fazenda Caricé, a cerca de oito quilômetros da Garrota Morta, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias eram comandadas respectivamente por Manoel Joaquim de Queiroz, proprietário do sítio Garrota Morta, Vicente Antônio, do sítio Cardoso e Francisco Félix, que habitava na pequena zona urbana que formava a Vila de Boa Esperança, atual cidade de Antônio Martins.
             Durante o período que lá permaneceram, as três famílias não se encontraram e sequer se viram em nenhum momento. Em meio a aflição, estes homens solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros.
             No dia posterior o bando chegou próximo a Serra da Veneza. Os cangaceiros ainda palmilharam algumas casas edificadas dentro dos limites da propriedade Garrota Morta, mas não chegaram próximo aos esconderijos no pé da serra.
              Em meio ao sentimento de alívio que crescia, as três famílias que não se viam choravam de alegria e rezavam agradecendo. O mais interessante, segundo Maria Eugenia, mesmo sem existir nenhuma espécie de combinação, os três homens elegeram a mesma penitência; galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra a São Sebastião.
             Logo os fazendeiros e seus familiares foram a Vila de Boa Esperança, a treze quilômetros da serra. Como muitos moradores da região, eles foram agradecer na capela do lugarejo, edificada em honra a Santo Antônio, o fato de nada de pior haver ocorrido. Neste local os três homens se encontraram, eram amigos, e logo debatiam sobre os fatos vividos. Para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas ideias e os mesmos pensamentos.
             Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza, para unidos edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas coincidências chamaram a atenção das pessoas na região. Outros penitentes passaram a subir a serra para pagar promessas. Mais algum tempo a comunidade da Garrota Morta já organizava uma singela procissão e não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros municípios.
              Em 1948, vinte e um anos após a passagem de Lampião e seu bando e do pretenso milagre, treze famílias da comunidade ergueram treze cruzes, formando uma via sacra entre a base da serra e o local do oratório. Cada uma destas cruzes tinha dois metros de altura e continha uma placa da família doadora. Percebendo o crescimento desta manifestação, conjuntamente estas pessoas deram início a construção da atual capela, em meio a uma intensa confraternização.
              A capela foi construída em um ponto mais abaixo em relação à posição original do antigo oratório. Uma nova imagem de São Sebastião foi levada em procissão e se uniu a que ali havia sido colocada primeiramente.


             Atualmente a participação popular só cresce. A cada dia 20 de Janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra. Em meio a um intenso foguetório, sempre as primeiras horas da manhã, um público que atualmente gira entre 400 e 500 pessoas, comparece ao sítio Garrota Morta e com a tradicional fé característica do nordestino, sobrem a serra.
            O sítio Garrota Morta está localizado na área territorial do município de Antônio Martins, as margens da estrada que liga as cidades de Pilões e Serrinha dos Pintos. O dia da nossa visita a região estava particularmente quente, em meio a uma região já bem quente. Além do mais eram uma hora da tarde e nosso tempo era curto. Mas sei que vou voltar e subir esta serra.


Rostand Medeiros é escritor historiógrafo e pesquisador do cangaço. rostandmedeiros@gmail.com


Extraído do blog: "Lampião Aceso", do amigo Kiko Monteiro