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sábado, 28 de junho de 2014

Viagem ao Passado: A igreja de batismo do cangaceiro Lampião

Por Redação
http://www.faroldenoticias.com.br/site/viagem-ao-passado-capela-da-extinta-vila-sao-franciso-onde-lampiao-foi-batizado-e-que-se-encontra-submersa/

Essa é a capela da extinta Vila São Francisco, antigo distrito de Serra Talhada. A igrejinha foi local de batismo do garotinho Virgolino Ferreira, o cangaceiro Lampião.


Hoje, a vila e a capela estão debaixo de 311 milhões de metros cúbicos de água, submersas pela barragem de Serrinha, construída na década de 90. 

A vila São Francisco existiu como um dos distritos mais prósperos da Capital do Xaxado, com grande tino para o comércio. 

A vila chegou a ter uma feira por semana, onde boa parte dos serra-talhadenses convergia para o lugar para fazer compras.


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O DOIDO E A LUA

Por Rangel Alves da Costa* 

Toda loucura é amiga da imaginação, do voo sem asas, dos espaços etéreos, do mistério e da magia, daquilo que é impossível alcançar. Impossível ao ser humano de mente sadia, principalmente porque este mal sabe caminhar rente ao chão.

Mas para o louco tudo possui uma ponta de possibilidade. E não é à toa que o doido conversa com a pedra, faz amizade com qualquer pedaço de pau, sente verdadeiro encantamento por seres inanimados. E também admira a noite, ama as estrelas e é verdadeiramente apaixonado pela lua.

A verdade é que o doido tem uma relação das mais instigantes, misteriosas e profundas com a lua. A esfera lunar lhe causa um efeito tão profundo que nem a ciência ainda foi capaz de apontar os motivos e a dimensão de tudo assim acontecer. Talvez a lua esteja para o louco assim como o sol está para o sertão: um sempre está no outro.

Mas nem só laivos amorosos a lua provoca no doido, eis que também tem o dom de acentuar-lhe a loucura, de provocar sensações indescritíveis, de fazê-lo querer alcançá-la a todo custo. A lua o atrai, o chama, escraviza, aumenta a loucura e a paixão pelo seu mistério.

Segundo o conhecimento popular, quando a lua está cheia, esplendorosamente iluminada no céu, o louco alcança um estágio que vai desde a letargia à insanidade total. A lua cheia faz o louco ficar mais louco, mais arredio, mais perigoso, mais revelador de suas propensões mais escondidas.

A ficção sempre gosta de mostrar a estranha relação entre a loucura e a lua cheia. Numa novela, por exemplo, um personagem vivia verdadeiramente ameaçado pela chegada da lua cheia. Sua situação ficava tão deplorável que a irmã tinha de mantê-lo trancado numa jaula, sob pena de ser levado pela claridão da noite. Mas acaba não resistindo e é levado pelo feitiço da lua.


Muito tenta se explicar acerca dessa estranha e poderosa atratividade. Na ficção, a lua tem o dom de enfeitiçar, mas a realidade aponta outras possibilidades. Seria amor, seria o despertar de um desejo escondido, ou seria simplesmente a atratividade da lua penetrando e transformando uma mente já fragilizada? Ou seria um daqueles mistérios cuja compreensão humana seria também reputada como loucura? Talvez apenas uma força magnética agindo sobre as fendas cerebrais do louco. Apenas talvez.

Parece que o doido adivinha sua breve transformação. Igualmente ao cágado que sai da toca assim que uma trovoada se aproxima, ou como o cavalo que risca na estrada e não segue adiante quando pressente ameaça na beira da estrada, assim também o louco ante a chegada da lua cheia.

É doido, maluco, insano, mas acentua ainda mais sua loucura. Geralmente fica mais entristecido, cabisbaixo, dialogando consigo mesmo, andando de lado a outro como alguém que ansioso espera um acontecimento. Mas nada mais que a lua, que mesmo ainda escondida no céu já começa a provocar reações. E aos poucos tais reações se transformam em verdadeira agonia.

Quando a noite chega e a janela é aberta, logo o louco será avistado olhando pra cima, aflito, nervoso, tomando de espanto e de desejos estranhos. E a lua impiedosa, talvez percebendo aquela dolorosa situação, parece se avolumar ainda mais e se aproximar imensa, toda inteira, daquela janela.

Ninguém sabe o que se passa na mente do louco nestes momentos terrivelmente misteriosos. Ninguém sabe se o magnetismo da luz do luar penetra e torna em rodopios a mente frágil ou se aquela auréola dourada vai trazendo um encantamento arrebatador. Talvez nem o próprio doido saiba distinguir o que realmente sente naquele momento.
Mas a verdade é que se espanta, se encanta, delira, extravasa. E no ápice da transformação, talvez o amor esteja misturado à dor, talvez a paixão venha misturada à angústia de tanto querer e não poder alcançar.

E é por isso que grita, que ergue os braços, que quer voar. E voa. Não sai do lugar, mas voa. E passa a noite inteira voando, até que a manhã o encontra sorridente. Ou mesmo com feições crispadas de sofrimento. Ninguém sabe. Somente a lua.

Poeta e cronista
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MELHOR IDENTIFICAÇÃO DA FAMÍLIA DE LAMPIÃO, EM FOTO FEITA EM JUAZEIRO, NO INÍCIO DE MARÇO DE 1926.


IDENTIDADES: 1- Zé Paulo, primo; 2 -Venâncio Ferreira, tio; 3 - Sebastião Paulo, primo; 4 - Ezequiel, irmão; 5 João Ferreira, irmão; 6 -Pedro Queiroz, cunhado (casado com Maria Mocinha, que está à sua frente, sentada); 7- Francisco Paulo, primo; 8- Virgínio Fortunato da Silva, cunhado (casado com Angélica) 9 - ZÉ DANDÃO, agregado da família. SENTADOS, da esquerda para direita: 10 - Antônio, irmão; 11-Anália, irmã; 12 - Joaninha, cunhada (casada com João Ferreira); 13 -Maria Mocinha, ou Maria Queiroz ,irmã; 14-Angélica, irmã e 15 - Lampião.

Dos nove irmãos da família Ferreira, dois estão ausentes nesta foto: LEVINO, que morrera no ano anterior, 1925, no sítio Tenório, Flores do Pajeú/PE, em combate contra as volantes paraibanas dos sargentos Zé Guedes e Cícero Oliveira. E VIRTUOSA, que, sinceramente, não sei dizer se simplesmente não quis aparecer na foto, ou já era falecida.

Élise Jasmin afirma no seu LIVRO CANGACEIROS, que esta foto foi feita por Lauro Cabral de Oliveira, que dividiu então com Pedro Maia, a fama de fazer as fotos de Lampião, bando e familiares em Juazeiro, Março de 1926.

José Bassetti

O escritor e pesquisador do cangaço José Sabino Bassetti disse:

" - Olá!!! O último em pé à direita, o número 9, é Zé Dandão, agregado da família. Nessa época os três primos de Lampião, ou seja os irmãos José, Francisco e Domingos Paulo, viviam na fazenda de Antonio da Piçarra, sob o olhar protetor do padre Cícero. Mas estamos falando somente daqueles envolvidos nas primeiras pendengas. Claro que haviam muitos outros primos".


O pesquisador Francisco Jose De Lima Tico disse: 

" - Legal! Muito bom! Tem um único primo que vive em Serra Talhada, no Estado de Pernambuco. É o Luis Paulo. Essa é boa! Zé Paulo morava no Estado de Minas Gerais. Tinha ainda Antônio Norberto, Alfredo Cândido Anjo... era cerca de trinta primos de primeiro grau, filhos de Manoel Ferreira e Naná Ferreira”.

Fonte: facebook

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Três cangaceiros de Lampião


Fonte: facebook
Página: Rubens Antonio.

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Preliminares de Mossoró O Ouro dos Cangaceiros para Yolanda

por Rostand Medeiros

Recentemente estava realizando um trabalho de pesquisa histórica para o SEBRAE-RN, que consistia em buscar informações sobre uma determinada cidade do interior do Rio Grande do Norte. Utilizava como uma das fontes de pesquisa uma série de fotografias que tirei das páginas já amareladas e frágeis, de velhos jornais potiguares arquivados na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

 Coronel Antonio Gurgel, filho e esposa

Buscava informações relativas ao crescimento demográfico, questões políticas, fatos relativos à história desta urbe e outros fatos. Observava as fotos atentamente, quando uma manchete me chamou a atenção. Impresso no extinto jornal “A Republica”, na edição de 8 de outubro de 1933, um domingo, temos uma matéria de página inteira, com o destacado título “A História de um Cangaceiro”. Evidentemente que parei e comecei a ler este material atentamente.

O artigo é assinado pelo respeitado advogado Otto de Brito Guerra. Este era sobrinho do coronelAntônio Gurgel do Amaral, (foto em família) o mesmo que foi capturado por membros do bando de Lampião quando este seguia comandando, em julho de 1927, um grupo de cangaceiros para o famoso ataque a Mossoró.

Diante desta privilegiada aproximação através do parentesco, o autor relata em seu artigo as diversas agruras que seu tio passou. É descrito como o parente foi capturado, do valor exigido pela sua libertação, do ataque fracassado do bando a Mossoró, do carteado que utilizava munição de fuzil como fichas e outros pontos. Muito do que Otto Guerra comenta neste artigo, foi fartamente pesquisado e divulgado ao longo dos anos, por diversos pesquisadores que se debruçaram na tentativa de conhecer mais em relação ao famoso combate na terra de Santa Luzia e a controversa figura de Virgulino Ferreira da Silva.

Conforme seguia lendo, não encontrava nenhuma informação nova sobre a permanência do coronel Gurgel em meio aos cangaceiros. Mas aí o autor comenta sobre a figura do “cabra” chamado Luís. Este jovem cangaceiro paraibano, um tipo alto, magro e moreno, era afilhado do famoso e famigerado Sabino, o violento braço direito de Lampião e por esta razão era conhecido como “Luiz Sabino”. Dizia que havia entrado no cangaço no dia que seu padrinho realizou um “trabalho” para um potentado do sertão da Paraíba e daí não parou mais.

Em um dia quente, ainda prisioneiro no Ceará, em meio às muitas cogitações sobre o seu destino, o coronel Gurgel percebeu o jovem Luís Sabino andando um pouco mais afastado do resto dos companheiros, de cabeça baixa e pensativo. Entretanto, ao procurar dialogar sobre o seu passado, o coronel Gurgel percebeu que não parecia haver uma boa receptividade por parte do jovem cangaceiro e logo ele buscou desviar o assunto. Em meio a conversa, Luís perguntou:

- O coronel tem família?

- Tenho sim, pai, mãe, filhos... E até uma netinha...

- Já têm netos?

- Tenho.

Otto Guerra escreve que Luís Sabino fitou o prisioneiro uns instantes, daí abriu uma bolsa, “dessas arredondadas, cheias de compartimentos, o couro artisticamente bordado, que o sertanejo nordestino conduz a tiracolo”. Dela tirou um papel amarelado e entregou ao espantado coronel, uma reluzente moeda de ouro, da época do império brasileiro.
- Tome coronel, quando se livrar daqui dê a sua netinha.

- Ora Luís, isso vale muito. Guarde.

- É... Já me falaram em sessenta mil réis. Porém eu sei que coisa de bandido não vale nada não... Tome.

Daí o jovem cangaceiro saiu cabisbaixo.

O coronel Gurgel relatou ao autor do artigo que o jovem cangaceiro, apesar de viver entre homens que tinham como característica comum à violência, a brutalidade e, além de tudo, ser afilhado logo de Sabino, era um membro do bando que estava sempre próximo aos prisioneiros levados, era extremamente atencioso e muitas vezes buscou de alguma forma amenizar as agruras dos cativos. Na famosa foto que registra o bando de cangaceiros de Lampião e os prisioneiros em Limoeiro do Norte, Ceará, obtida no dia 16 de junho, entre os membros listados pelo famigerado Jararaca, o cangaceiro que aparece com o número “31” grifado acima do chapéu de aba quebrada, foi apontado como sendo “L. Sabino”. Na época que listou os companheiros na famosa foto, Jararaca era então prisioneiro na cadeia de Mossoró e pouco tempo depois foi morto de maneira cruel e covarde pela polícia local.

Esta pequena história, simples, sem sangue nem disparos de fuzis, mostra um outro lado de um bandoleiro que vagava pelos sertões, em meio a um grupo que vivia do saque e do roubo. Mas que em um certo momento, teve o total desprendimento pelo vil metal e mostrou um aspecto diferente do que normalmente é apresentado em relação e estes homens, que Frederico Pernambucano de Mello chamou de “Guerreiros do Sol”. E todo este fato contado através de uma reportagem escrita a setenta e seis anos atrás, por um dos mais respeitados juristas potiguares.

Entretanto...

Sabemos pela descrição feita pelo próprio Antônio Gurgel do Amaral, em seu famoso diário, onde ele narra os vários dias de sofrimento junto a Lampião e seus homens, que o mesmo criou certos laços de amizade com o cangaceiro conhecido como “Pinga Fogo”. Gurgel descreve-o como um “rapaz de 24 anos, alvo, muito simpático, maneiroso”. Terminantemente não se encontra nenhuma linha sobre Luís Sabino.


Sabemos igualmente que no livro do conceituado médico Raul Fernandes, “A marcha de Lampião – Assalto a Mossoró”, na página 264, da 3ª edição, através de um relato da senhora Yolanda Guedes, (a criança na foto acima) dita neta do coronel Gurgel, que informou ter o seu avô recebido do próprio Lampião não uma, mas duas moedas de ouro de libra esterlina e lhes deu as moedas de presente. Foi uma suprema deferência, feita não por um cangaceiro qualquer, mas pelo próprio chefe caolho, que gentilmente regalou a netinha do seu sofrido sequestrado com estas duas reluzentes lembranças. Ademais as duas brilhantes peças metálicas nem eram da extinta realeza tupiniquim, mas da suntuosa casa real Britânica.

Raul Fernandes afirma que Yolanda Guedes lhe concedeu estas informações em uma entrevista ocorrida no Rio de Janeiro, em 1971. Mas daí vem outra questão...

E agora, em quem acreditar?

Raul Fernandes e Otto de Brito Guerra, já falecidos, eram naturais de Mossoró, oriundos de famílias tradicionais, foram consagrados professores nas suas respectivas áreas na UFRN, pesquisadores, escritores e durante suas vidas desenvolveram muitas outras atividades interessantes. Se para estes dois iluminares das letras potiguares, homens consagrados no meio intelectual da terra de Felipe Camarão, contemporâneos ao ataque de Lampião a Mossoró, existe uma pequena divergência ao contarem sobre a história da “visita” do “Rei do Cangaço” ao nosso estado, imaginemos então os que buscam conhecer mais deste assunto oitenta e dois anos depois dos fatos.

Otto de Brito Guerra - In Memorial do Ministério Público do RN

Na verdade, tudo que envolve este tema, tão calcado em referências orais, onde em determinados momentos, vítimas e perseguidores, apaixonadamente se engalfinharam para fazer prevalecer suas versões dos acontecimentos, escrever sobre o cangaço é sempre um terreno escorregadio e perigoso para quem o adentra.

E ainda temos a figura dos ditos “intelectuais” tão desejosos dos holofotes, das adulações baratas, das bajulações desmedidas, que escrevem livros que foram produzidos praticamente sem nenhuma pesquisa de campo. Ou ainda dos autores que se digladiam em querelas bobas e estéreis, sobre temas tão pequenos e inúteis, como o que acabei de aqui relatar, em um afã de superioridade desnecessária.

Eu tenho a minha hipótese para o caso das moedas; o coronel Gurgel era uma pessoa tão especial, tão interessante, que não recebeu nem uma e nem duas moedas de ouro dos cangaceiros, mas três. Uma de Luís Sabino e duas de Lampião, uma brasileira e duas inglesas. Daí, se esta hipótese for correta, talvez o coronel Gurgel seja o primeiro caso de um sequestrado que, ao invés de pagar o resgate pela sua liberdade, voltou para casa ganhando presentes na forma de moedas de ouro dos seus algozes.

De repente, cada um pode criar a sua versão.....

Um abraço a todos,
Rostand Medeiros

Rostand Medeiros é historiógrafo e pesquisador do cangaço 
http://tokdehistoria.com.br/

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Coiteiros de Lampião


O cangaceiro, atendendo o chamado do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, grande amigo do Padre Cícero, uma espécie de braço armado do líder juazeirense, adentra em Juazeiro em 1926 com intuito de alistar-se no Batalhão Patriótico a fim de combater a Coluna Prestes. Por esses tempos a Coluna vinha adentrando no sertão nordestino.


Por motivos de saúde o médico baiano Floro Bartolomeu não se encontrava na cidade, sendo o cangaceiro e seu bando recebidos pelo Padre Cícero. O desenrolar dessa história culmina com a famosa patente de Capitão do Batalhão Patriótico outorgada ao famoso cangaceiro.

O rei Lampião

O grande respeito e admiração que Lampião nutria pelo Padre Cícero de Juazeiro advém também do amparo que o reverendo cearense dava a sua família refugiada no Juazeiro. Fatos facilmente comprovados pelas fotos tiradas na cidade em 1926, mesmo ano da visita dos cangaceiros.

Padre Kherle

Durante 16 anos o padre Kherle foi vigário na terra natal de Lampião. O cangaceiro devotava-lhe grande admiração e respeito, sempre o obedecendo. Foto de 1919 quando foi pároco em Arcoverde, no Estado de Pernambuco.
Fonte: facebook
Página: Paulo George

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

A CORAGEM DE JOÃO PUÇÁ - Um conto na esteira de caboclo

Por Clerisvaldo B. Chagas, 26 de junho de 2014 - “Crônica Nº 1.216”

João Puçá não mais suportava a pressão do coronel Cantídio Fula. Homem direito, trabalhador e pobre, Puçá vivia quase escondido receoso das ameaças do coronel. Além de não conseguir deixar a penúria, por falta mesmo de sorte, João meditava em como escapar à pobreza desse mundo. Fora acusado de furto nas terras do coronel, pelo próprio ladrão, jurara inocência, porém, Cantídio Fula, entre a verdade e a dúvida, preferia ir jurando o trabalhador braçal.

Foto do acervo de Clerisvaldo B. Chagas

Não podendo mais continuar daquela maneira, João inspirou-se num sonho, resolveu deixar os esconderijos e falar diretamente com o fazendeiro Cantídio. Fora enviado um portador à fazenda do homem que dava às ordens em uma grande extensão de terras. Voltou o estafeta dizendo a João Puçá: “O homem tá disposto a recebê-lo, João”.

João partiu para a fazenda do poderoso senhor encontrando-o numa antiga cadeira de balanço, rodeado por vinte enfarruscados capangas. Com poucas palavras, João chamou o coronel para uma aposta. Cantídio Fula só faltou engolir o charuto com a surpresa apresentada por João. “Mas o que é mesmo que você estar me propondo, homem?!”.

E Puçá, resoluto disse: “Hoje Brasil joga com a Argentina, não é? Eu aposto num palpite, o Brasil ganha. O senhor aposta em dois palpites: vitória da Argentina e o empate”.

O coronel, conhecido matador de gente, arregalou os olhos diante daquela ousadia. Puçá continuou: “Se o Brasil ganhar o senhor me paga, isso aqui”, e lhe mostrou a quantia escrita num papel e que não era tão alta assim. Cantídio puxou uma tragada longa e, rodeado pela curiosidade dos jagunços, indagou como ficaria se o Brasil perdesse ou empatasse.

“Eu deixarei de viver escondido, venho aqui para o senhor me matar. Só peço que não me judie e mate de bala”.

O coronel Fula jamais havia ouvido coisa semelhante e, ainda surpreso indagou: “E se o Brasil ganhar, você acha mesmo que eu lhe darei essa quantia? Veja esses homens aí, tudo sedento de sangue...”.

João respondeu que sim, “pois eu nunca ouvi dizer que o senhor faltasse com a palavra e eu também, não”.

Um silêncio enorme aguardava o sim ou não do coronel Cantídio Fula. Mais de dez minutos se passaram como se não houvesse um só vivente por ali.

Por fim, o coronel levantou-se, entrou em casa deixando a expectativa lá fora. Um cabra alto, moreno e enfarruscado, chamado Marcello Fausto, aproximou-se de Puçá e cochichou: “Não dou destões por sua vida”.

Quando o coronel retornou à varanda trazia uma chave na mão e foi dizendo a Puçá:

“Tome essa chave. É da fazenda Serrote Preto que das dez que eu possuo é a melhor; está sem morador. Ela é sua com tudo que tem dentro e ainda hoje vou providenciar a documentação. Não precisa fazer aposta. Um homem que tem uma coragem desta veio enviando das coisas do outro mundo. Quando você tiver na sua fazenda quem vai lhe chamar de coronel sou eu”.

E assim, até os cordelistas enfeitaram o mundo com A CORAGEM DE JOÃO PUÇÁ.

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CUIDADOS

Por Rangel Alves da Costa*

Nenhuma ação humana se exaure em si mesma. Tudo, mesmo sem causa ou justificação, possui consequências. Por isso é preciso muito cuidado em cada passo, em cada ação, vez que a mais simples das atitudes pode provocar conseq inusitadas.

A flor é bela, atraente, perfumada, mas o jardim tem dono. Ir além de apreciá-la pode não ser a melhor atitude. Não apenas pela planta e o jardim que perdem aquela presença, mas também pelo dono do jardim que vai sentir sua ausência. E assim também acontece quando ultrapassam o seu muro para dar fim às pequenas flores cotidianas que você tanta luta para manter.

A resposta precisa ser dada e não pode ser diferente. O não tem de ser não, o sim tem de ser sim, sem meio-termos. Contudo, diferentemente da resposta positiva, que geralmente causa alegria e satisfação, a resposta negativa pode ir muito além da mera tomada de posicionamento. Ouvir um não pode ser algo tão desagradável quanto a rejeição do próprio ser. Por isso cuidado ao ter de dizer não. Existem muitas outras maneiras de negar sem que a palavra seja tida como um punhal afiado na pele.

Cuidado, não alimente em si nem perante os outros nada além daquilo que sempre pode provar que possui. Não adianta o enfeite momentâneo se o adorno será inexistente em outras situações. Não adianta manter aparências se a realidade se mostra totalmente diferente. Não adianta pretender ser além do que realmente é, e sob pena de sempre ser menos do que gostaria de ser. Não adianta oferecer mares, paraísos e horizontes e se a realidade é terrena e não há asas para fingir que está voando. Cuidado, muito cuidado.


A não ser por esforço próprio, pelo suor derramado e pela luta de todo dia, nada será conquistado de forma fácil nem chegará como que por encanto ou milagre. Tudo é fruto da busca e do sacrifício, do dar tudo de si para garantir ao menos o mínimo de sobrevivência. Por isso muito cuidado com as facilidades inexplicavelmente surgidas e com as graciosidades oferecidas.  Nada simplesmente cai do céu ou surge como dádiva da terra sem que seja com uma contrapartida embutida, ainda que invisível. E tudo faz compreender que somente aquilo conquistado pelo próprio ser vem com a garantia de que lhe foi justo receber.

Confiar em que, em quem, e até onde? O próprio ser humano está propenso a ser traído pelas próprias atitudes. Não raro que as promessas íntimas são quebradas pela própria fragilidade do ser. Por mais que o indivíduo se comprometa a não errar, a não reincidir numa atitude tomada ou jamais fazer aquilo que no outro é tão deplorável, ainda assim estará fadado a ser seu próprio algoz. E assim porque ao homem é difícil demais ponderar cautelosamente entre o erro e o acerto diante de determinadas situações. Daí ser inevitável o erro humano, mas também um meio eficaz para experimentar daquilo que não deveria e assim aprender a não repetir.

A roupa estendida no varal não demora muito para receber a primeira bolada da meninada que brinca no descampado ao redor. Não há como evitar que as mangas mais bonitas do vistoso pomar do quintal tenham sumido ao amanhecer. Não há como impedir que a criançada tenha seus momentos de diversão, de soltar pipas, correr pelos campos, jogar bola, passar correndo em cavalo de pau. Cada idade possui seu sentido e sua razão de ser. Compreender que criança chuta bola no varal, que leva a fruta do quintal e gosta mesmo de brincar, apresenta-se como igual compreensão que o adulto possui práticas próprias e não gosta de estas serem vistas como infundadas ou desregradas.   

Por isso cuidado, tenha muito cuidado. O louco é visto como tal porque é portador de uma enfermidade mental, e não porque age contrariamente ao que é tido por normalidade entre os que se imaginam sãos. A pedra dura, silenciosa e inerte, nem sempre transparece assim para muitos. E, não raro, tardes inteiras são passadas no convívio amigável e no diálogo fortalecedor com a pedra. Eis que as pedras ouvem e também falam. Não duvide dessa certeza. Dizem que os botões também são do mesmo jeito, duros e insensíveis, mas os momentos mais interessantes da vida são vivenciados conversando com eles.

Por isso cuidado. Cuidado com o que pensa, com o que vê, com o que faz. Cuidado com tudo, pois tudo pode ser de forma muito diferente do que se imagina como verdade única.

Poeta e cronista
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LAMPIÃO EM RIBEIRA DO POMBAL ll


Já se tinha notícias da presença do maior cangaceiro do século XX, Virgolino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, considerado o rei do cangaço - 1927/1940 - à Bahia no ano de 1928. A possibilidade de ter levado Lampião a cruzar o Rio São Francisco rumo aos Sertões da Bahia, seria, a que tudo indica a falta de opção. Em todo o Nordeste só restavam Bahia, Sergipe e *Piauí, onde poderia hospedar-se com o resto dos seus cabras.

O ataque a grandes centros urbanos, acirrou os ânimos das policias de alguns estados nordestinos, visto que houve repercussão nacional dos episódios. Daí por diante, Lampião não teria trégua; o jeito era dispensar muitos de seus cabras. Para facilitar a fuga da furiosa perseguição policial, quanto menos gente, melhor.

Nessa altura, coligaram-se as polícias de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte e durante vários meses investiram numa perseguição implacável a todo o bando. Não existia alternativa senão um dos três estados restantes do nordeste.

Para Piauí, Lampião jamais iria, primeiro porque lhe era terra desconhecida e segundo porque era o estado mais pobre, entre os pobres do nordeste. O bandoleiro sabia por experiência que na Bahia iria encontrar condições favoráveis.

Se o Capitão Virgulino não tivesse tentado ocupar Mossoró pela força, então o maior município do interior do Rio Grande do Norte, ou tivesse conseguido, provavelmente a Bahia jamais o tivesse hospedado em seu território.

Quando desembarcou aqui na Bahia, em 21 de agosto de 1928, Lampião se quisesse, poderia ter tentado reconquistar a sua condição outrora de homem livre, trabalhador, honesto, produtivo. Não o fez. A índole de bandido calava mais forte.

Ao pisar em terras baianas, Virgolino Ferreira da Silva, já tinha 31 anos de idade, ostentava a patente de capitão, título de que muito se orgulhava e fazia alarde. Além de Mossoró (1927), assaltara, em lance de grande atrevimento, Água Branca (1922) em Alagoas, quando saqueou a baronesa Joana Viana de Siqueira Torres, despojando-a de joias e moedas de ouro do Império, com as quais passou a enfeitar-se. Esse episódio, somado ao frustrado assalto a Mossoró, à patente de Oficial do Exército e às inúmeras batalhas em que se envolvera (Baixa Grande, junho de 1924; Serrote Preto, fevereiro de 1925; Serra Grande, novembro de 1926), bem como ao saldo de mortes que lhe vinha no rastro, davam-lhe prestigioso renome em todo o Brasil e até no exterior.

Recorte de Jornal da Época


Um dos primeiros contatos de Lampião em terras baianas foi em Santo Antônio da Glória. Lampião partira da Serra Negra (em Floresta, Pernambuco, seu estado Natal), ladeou Riacho dos Mandantes de onde passou para as margens do Rio São Francisco. Em seguida avançou pelas propriedades Sabiuçá e Roque, cruzou o Velho Chico e ganhou as terras baianas. Aqui seu itinerário foi o seguinte: Serra Tona, Fazenda Salgado e o povoado Várzea da Ema, município de Glória.

Após várias andanças e as notícias ocultas, somente em dezembro é que Lampião ressurge no cenário baiano, exatamente no dia 15 de dezembro de 1928, na vila do Cumbe (atual cidade de Euclides da Cunha). De lá partiram rumo a Tucano, onde concede uma entrevista a um jornalista da terra e recebe a notícia que mandaram buscar reforço policial na cidade de Serrinha, o que apressou a saída do bando do município. Partiram de lá às onze horas da noite, aproximadamente, em destino a Pombal.

Antigo Mercado de Ribeira do Pombal - Década de 50


Desde aqueles sábado, 15 de setembro de 1928, que já se sabia que Lampião encontrava-se no município de Tucano, pois todos os viajantes, que lá procediam, noticiavam aos habitantes de Pombal da visita do então cangaceiro.

Lampião e mais sete cabras do seu bando chegaram à vila de Pombal por volta das seis horas da manhã, um domingo do dia 16 de dezembro de 1928.

O Sr. Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como "Seu Cardoso", narrou, detalhadamente, como foi a visita de Lampião na Vila de Pombal:

"Eu era intendente, na época. Desde o sábado à noite se corria o boato na rua que Lampião estava na cidade de Tucano, mas de paz. Eles chegaram de manhã, bem cedinho, eu estava deitado e o empregado estava varrendo o terreiro da casa (o velho sobrado dos Britto), abordaram o empregado e mandaram me chamar. Com certeza eles já haviam se informado quem era o administrador da vila. O empregado subiu e me avisou, mas não soube dizer quem era; fui até a porta às presas e perguntei a ele o que queria. Ele se identificou por Coronel Virgulino. Tomei um susto ao perceber que estava diante do mais temido bandido do sertão. Eram oito homens, sete ficaram encostados no carro e só o capitão tinha se aproximado. Disse que queria tomar café. Mandei logo providenciar. Perguntou quantos soldados havia na vila; respondi que apenas três; mandou avisá-los para não reagir, pois estaria ali apenas de passagem ".

O próprio empregado foi até o quartel levar a tranquilizadora notícia, transmitindo-a ao cabo Esmeraldo, comandante e chefe do destacamento.

Lampião e seus cabras de deliciaram com o café com cuscuz que lhe ofereceu o anfitrião. Mas tarde, o bando chegou até o quartel, desarmaram os militares, intimando-os a acompanhá-los até a cidade mais próxima para onde iam. Lampião disse em tom sarcástico:


“... assim vou mais garantido porque estou com a força".

Antes de saírem, Lampião e seus cangaceiros foram conhecer a Vila Alegre com a boa hospitalidade a eles oferecida. Para deixar uma ótima impressão de sua visita à Vila de Pombal, perguntou se havia um fotógrafo; mandaram chamar Alcides Franco, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que possuía uma máquina fotográfica. Pediu que batesse uma chapa do bando para ali ficar de recordação (essa foto é uma das mais nobres no acervo sobre o cangaceiro presente em quase todos os livros, sobre o bandoleiro).

Lampião e seu bando na Vila de Pombal em 17/12/1928 - (Hoje, Praça Getúlio Vargas) Ribeira do Pombal - BA.


Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, partindo espalhafatosamente com destino a Bom Conselho (atual cidade de Cícero Dantas).

A partir daí Lampião continua suas andanças por terras baianas. Em 22 de dezembro de 1929, vindo de Capela, interior do Estado de Sergipe, passando por Cansanção, interior da Bahia, o Capitão Virgolino chega a Queimadas, cidade próxima a Monte Santo. No cumprimento de mais uma de suas façanhas, Lampião, nessa cidade, realizou um dos maiores saques cometidos na Bahia, acompanhado de gravíssimos crimes e orgias de sangue.

Após sair de Queimadas, têm-se notícias do bando dos cangaceiros no arraial de Triunfo (atual cidade de Quijingue), onde festejaram e saquearam o pequeno comércio local.

Ao amanhecer do dia 25 de dezembro de 1929, portanto três dias após o acontecido na cidade de Queimadas, mais uma vez Lampião e seus cabras chegam às redondezas de Pombal.

Nesta mesma manhã, o Sr. Cardoso recebeu um bilhete, mandado por Lampião, pedindo uma quantia exorbitante de dinheiro. A quantia era tão grande que se reunisse todo dinheiro da Vila, não pagava.

O Sr. Cardoso temendo uma represália por parte do cangaceiro, se não enviasse pelo menos uma boa parte de dinheiro e uma desculpa bem, convincente, conseguiu o equivalente à metade do pedido, mandando pelo mesmo portador que trouxe o bilhete.

Não se registrou nenhuma agressão ou tentativa de saque na Vila de Pombal, certamente o Capitão Virgulino aceitou as desculpas do administrador local ou imaginou outra hipótese, como por exemplo, a essa altura, talvez já se encontrasse ali reforço policial e o bilhete que enviara dava testemunho de sua presença nas imediações. Dava tempo muito bem da força preparar uma emboscada caso ele tentasse invadir a vila. O certo é que Lampião dotado de muita astúcia e arquiteto das mais engenhosas proezas, sem dúvida tivesse pensado inúmeras desvantagens em tomar a Vila de Pombal para assalto.

Na mesma manhã do Natal de 1929, o bandoleiro chega ao distrito de Mirandela. Foi previamente informado que o destacamento era constituído de apenas cinco praças e um comandante; envia então uma intimação ao sargento, com os seguintes termos:

"Sargento arretire daí levando sua pessoa que preciso intra neste arraiá agora se você não sai ajusta conta com eu Capitão Virgolino vurgo Lampião".

Certamente o comandante do destacamento ignorava o recente acontecimento de Queimadas, onde Lampião enfrentou muito mais soldados do que os ali existentes. O sargento Francisco Guedes de Assis demonstrou disposição e evitou acatar ao ultimato, contrariando ao desejo do cangaceiro, mandou-lhe resposta num outro escrito, com os seguintes dizeres:

"Bandido Lampião, estou aqui com a edificante missão de defender a população do Arraial contra a sua incursão e do seu bando. Se você entrar lhe receberemos a bala".


Pouca gente sabe desse episódio que aconteceu em Mirandela, porém, não só foi contado por moradores que vivenciaram o caso, como também foi encontrado um registro escrito por um dos cangaceiros, por nome de Ângelo Roque, confirmando o fato. O registro manualmente escrito dizia:

"Seguimo para Mirandela. Mandemo dizer ao sargento, qui tava distacado lá, que nóis, ia passa ali, sem arteração. Ele arrespondeu pelo portado qui nóis pudia passa pru fora da rua que ele num botam persiga atraiz. Mais si nóis intrasse dento da rua levava tiro. Isso foi num dia vinte i cinco di dezembro. Nóis arrezorveu ataca. Um pade tava na igreja dizeno missa. Era um sargento Guedes. Disparemo as arma pra dento da rua qui istrondô i avanecemo pra frente".

O destacamento de seis militares, recebeu espontaneamente, a adesão de dois civis: Manoel Amaral do Nascimento e Jeremias de Souza Dantas.

Guedes divide sua pequena tropa em três grupos, colocando-os em três pontos diferentes e estratégicos. Eram dezessete bandidos contra seis militares e dois civis. Os bandidos invadem o arraial, atirando em todas as direções; Mirandela é heroicamente defendida.

A luta dura duas horas e meia, aproximadamente, apesar da desvantagem dos defensores. Em determinado momento, o fogo dos sitiados começa a decrescer. Os bandoleiros sentiram que estavam ganhando a batalha e acirraram o ataque.

Manoel Amaral do Nascimento foi ferido e, enquanto era conduzido pelo sargento para o interior de uma casa, é morto à queima-roupa por um bandido que se presume ter sido Alvoredo. Guedes ainda atira no cangaceiro, que pede socorro aos companheiros. Ao notar que os cangaceiros atendem ao apelo de socorro, Assis corre e se refugia no mato. Jeremias de Souza Dantas, popular Neco, o outro civil, também é assassinado.

Depois do acontecido, um cangaceiro por nome de Labareda, documenta o fato em uma folha de papel, reproduzindo o que se passou no local:

"Lampião entro pulo cento da rua, junto com Zé Baiano, Luiz Pedo e outros. Zé Baiano tinha sumido de nóis dois dia só i tomo partido das disgracera de Queimada. Us macaco de mirandela inda brigam muito mais porem terminaro debandano. I si escondero pru perto cum pirigo pra nóis di tiro imboscados. Morreu nessa brigada um camarada pru nomi Manoé de Mara. Matemo uns dento di casa i um macaco materno pruquê pidiu paiz cum lenço branco na boca du fuzi i ninguém intendeu ou num quis intendê. Tamem cangacero num tinha esse negoço di faze as paiz nu meio das brigada. Ele teve di morre pois teve brigano. Tumemo us dinhero pussive nu começo i nas casa”.

O saldo da guerra: morreram os dois civis, um dos militares, sendo que os outros, inclusive o sargento Guedes, fugiram, embrenhando-se no mato; também foi ferido um cangaceiro por nome de Luiz Pedro. O bando sai de Mirandela, carregando o cangaceiro ferido, e vitoriosos, ganham o mato, como sempre, sem destino. Têm-se notícias do bando, mais tarde, de que estariam num esconderijo, perto de Pinhões, povoado de Euclides da Cunha, em um sítio é denominado Olho D'água.

Fonte: facebook

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Lampião em Mirandela Bahia.


Lampião em Mirandela Bahia. Uma rápida passagem pelo pobre povoado e um rastro sinistro de sangue.

25 de Dezembro de 1929 - Lampião ataca a cidade de Mirandela - BA. A força policial comandada pelo Francisco Guedes de Assis repele o ataque travando pequeno combate onde são mortos os civis Manoel Amaral e Jeremias Dantas e mais um soldado. 

Neném do Ouro e o cangaceiro Luiz Pedro

Nesse combate é ferido o cangaceiro Luiz Pedro. Lampião então entra na cidade e saqueia o comércio local.

Fonte: facebook

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"DURMO NOVO E ACORDO VELHO"

Por Honório de Medeiros

Para François Silvestre

Seu Antônio de Luzia, oitenta e seis anos, sentado em sua cadeira de balanço, na calçada de sua casa, no Sítio Canto, em Martins, é o próprio símbolo da passagem inalterável das manhãs, tardes, noites, madrugadas, do ritmo lento dos dias que se sucedem bucólicos, tais e quais as contas debulhadas do rosário de Sinhá, oitenta e poucos não admitidos, que deslizam por entre seus dedos, à hora do ângelus, enquanto seu pensamento vagueia nos limites de sua circunstância, e nada escapa do seu olhar dardejante e de seus ouvidos “de tuberculoso”, como me confidenciou.


Pergunto a Seu Antônio acerca das coisas que estão mudando mundo afora, em uma rapidez vertiginosa, impossível de serem acompanhadas. Lembro a ele a chegada do homem na Lua, o computador, o celular...

Ele fica calado um bocado de tempo. Quando penso que esqueceu o assunto, ergue um pouco o braço e aponta com o dedo um passante, quebra o silêncio do final-de-tarde e me diz: “desde que o mundo é mundo, podem as coisas ter mudado, mas o homem, meu filho, é o mesmo de sempre”.

“Quando eu era de menino para rapaz”, continua, “pensava que as pessoas lá fora eram diferentes. Viajei, corri légua, vi e ouvi muitas coisas que eu prefiro esquecer, e voltei. Fico comparando o homem que vive lá fora com o homem que vive aqui, e não vejo diferença. Lá se mata, como aqui; lá se bebe, como aqui; lá se trai, como aqui; lá se rouba, como aqui. Tudo que existe lá fora, maior, existe aqui, menor”.

Fez-se silêncio, novamente, durante algum tempo.

“Eu às vezes penso” prosseguiu, “que tanto faz como tanto fez, o homem se engana demais com as coisas, é como a roupa que a mulher veste: pode ser de qualquer tipo, mas ela é sempre a mesma”.

E, depois de beber um gole de café, arrematou: “lá fora o tempo passa e eu não vejo: durmo novo e acordo velho; aqui, eu vejo que o tempo não passa: faz uma eternidade que estou vivo!”.

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